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PORQUE REALMENTE JUDAS TRAIU JESUS?
UMA ANÁLISE BIBLIOHISTÓRICA

A história do ministério de Jesus inicia-se em Mateus 3:13 e seguintes, quando ele, a exemplo de outras gentes de toda Israel, apresenta-se a João Batista para ser batizado, um encontro que bem poderia ser tão rápido quanto o ato da imersão ou aspersão, no entanto bem mais duradouro e marcante, pois Jesus permaneceria junto ao Batista ainda, tempo suficiente para vir conhecer todos aqueles que, um dia, fariam parte de seu seleto grupo de colaboradores.

Se bem conhecemos Jesus, quem seria aqueles pelos quais o Mestre viria tanto se interessar, a ponto de subtraí-los do grupo do Batista?

Resposta nada fácil, já passados quase dois mil anos e apenas vinte e sete livros, cópias de cópias de originais que ninguém viu, ninguém sabe se existiu.

Apesar de quaisquer objeções, temos de fato a história de um deus que se fez homem e habitou entre nós, para realização de uma obra tal, nada mais nada menos que a instauração do reino dos céus na face da terra, evidentemente a partir de Israel. E esse ‘deus conosco’ [Emanuel] achou por bem, porque assim previa as Escrituras, principiar seu ministério redentorista exato quando ainda discípulo do batizador, o que lhe confere elevado grau de distinção e honra entre os homens.

Mas não nos interessam, no momento, as predisposições escriturísticas judaicas para advento de tremenda magnitude, pois que nossa história inicia-se a partir do instante que toda nação Israel, e não apenas o homem deus e seus discípulos, voltava-se atraída pelos discursos de João Batista.

O que pregava o Batista para despertar tantas atenções e trazer uma multidão, através do deserto, às margens do Jordão?

Era a [mesma] mensagem anunciada há séculos, o Messias Libertador prestes a chegar, boa nova essa de tremenda importância para aquele povo, desde sempre oprimido por mãos estrangeiras, que nem lhe importavam mais os tantos fracassos recentes para a época, entre os anos 6 e 28, das dezenas de redentores com aquela promessa que equivaleria, ao povo judeu, a restauração de tudo que se havia perdido: a pátria, a dignidade, a moral, a religião dos ancestrais e até o próprio Deus [Yavé], que há quatro séculos os havia abandonado, ainda a se recusar terminantemente produzir os grandes milagres salvacionistas de outrora.

Apesar dos textos deformados pelos tempos e interesses de credos dominantes, para a divinização do Cristo em detrimento a João, ainda assim encontramos a presença forte do batizador sobre o ministério de Jesus, como a desafiar os séculos numa intrigante e constrangedora situação aos cristãos: o que faziam realmente Jesus e os apóstolos juntos do Batista?

Não vamos nos arrastar à ingenuidade que a concepção redentorista, prometida para o povo eleito de Yavé, aconteceria no plano espiritual, com João Batista o predecessor do Cristo para instauração de um reino a nível celestial pós-morte.

Oras o assunto estava para o povo judeu onde sempre deveria estar, ou seja, no plano das materialidades, pois há que se considerar o desejo de Israel estabelecer-se como nação livre, sem opressões e dominações estrangeiras, com liberdade para a efetiva implantação, em glória e paz dum governo teocrático, conforme cultura e tradição, aqui mesmo na terra, cujo rei fosse representante direto de Deus, senão o próprio Yavé encarnado.

Desde a identidade nacional o povo judeu quase não conheceu soberania territorial, governo livre e povo capaz de decidir os próprios rumos a seguir, portanto para essa libertação nacional pretendida, o povo esperava pela vinda do Messias Libertador que, uma vez vitorioso, restabeleceria o reino em Israel.

Lucas 3:15 mostra que o povo judeu buscava em João Batista, exatamente a figura do Messias [Cristo] prometido. Também o discurso de João Batista correspondia a essa ansiedade do povo, cuja mensagem político-nacionalista, não há estudioso que possa nega-la, estava a ensejar não só a libertação de Israel de mãos estrangeiras, mas também fornecer nova idéia revolucionária calcada no profetismo: - “Eis que se aproxima o reino dos céus. . . preparem o caminho e aplainem as veredas” (Mateus 3:2-3 e referências).

Que outros significados teriam tais palavras para os judeus senão a exortação ‘mudai os pensamentos, sentimentos e procedimentos, que em breve Deus estará a reinar diretamente sobre Israel, pela teocracia, através do Messias prometido?’

A pregação do Batista tinha, portanto, fortes conotações políticas, pró-libertação de Israel praticamente bem-vindas a todos partidos políticos da época, os tolerados e os clandestinos, alguns disfarçados às vezes num manto aparentemente religioso.

O discurso de João não era messiânico, a critério de ser ele o Messias – sempre negou sê-lo assim como jamais admitiu ser um profeta – o que não o exclui das pretensões, em tempo oportuno como qualquer político, mesmo de nossa época, pela aclamação ou exigência popular.

João Batista colocava-se estrategicamente predecessor do Messias, para a preparação, isto é, a conscientização do povo quanto a exigência dum levante em Israel, pró-libertação, tão logo o surgimento do esperado líder, que certamente seria ele mesmo. Jesus valer-se-ia também dessa estratégia, num futuro mais ou menos próximo.

Admitir alguém ser o Messias era o mesmo que colocar-se rei pretendido, o que significaria primeiro obter antes o respaldo popular, através dos discursos, obras, evocações ao profetismo ou a simpatia dos sacerdotes (estes últimos desgastados junto ao povo), o que justifica da parte do Batista, o excesso de precaução em não declara-se o Messias ou Profeta como tática para não despertar, prematuramente, a ira dos situacionistas.

Por alguma razão ou outra, todas ou nenhuma delas, muitos chegavam ao Batista e por ele eram doutrinados, na expectativa de ser um deles possivelmente revelado, ou desperto, para a situação de Messias, atributo que o batizador procurava identificar em cada indivíduo que dele se aproximava; isto também uma tática de extraordinário efeito, pois assim João mantinha unidos, em torno de si, os mais diversos lideres políticos e religiosos distintos.

Por ora admitamos que Jesus foi ter com o Batista, apenas para que se cumprissem as Escrituras, acerca daquilo que foi dito da parte do Senhor, conforme o evangelho segundo Mateus induz-nos acreditar, mas com relação a Pedro, André, Judas Iscariotes e todos aqueles que um dia fariam parte do grupo de Jesus, inclusive Matias que num futuro ainda mais longo viria substituir Iscariotes (Atos 1:21 a 23), não podemos afirma-los que foram em busca do batizador, somente com intenções espirituais.

Exatamente das reais intenções que levaram aqueles homens ao Batista, depois a Jesus, que vamos identifica-los materialistas, já nas condições postas de apóstolos do Nazareno, conforme exposições abaixo.

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