DAS ARGUMENTAÇÕES
CRISTÃS
1. Judas traiu Jesus por ambição pessoal devido
forte apego às materialidades
É bastante comum entendimento cristão que a ambição
de Judas
ao dinheiro, fê-lo a trair Jesus, de livre e espontânea
vontade. De fato Mateus 26:14 e 15, diz que Judas foi ter com
os principais dos sacerdotes, e com eles acertou, por uma quantia
em dinheiro (30 moedas de prata), entregar-lhes Jesus.
Que a prisão e morte de Jesus já estaria acertada
pelas autoridades constituídas em Israel, bastando apenas
saber quando e como o fariam, sem causar alvoroços e reações
populares daqueles que seguiam o Mestre; então a oferta
de Judas em entregar-lhes Jesus, alegrou aqueles que já
haviam decidido por isso, e convieram em dar dinheiro àquele
que lhes prestava tão grande favor, segundo Lucas 22:5.
Judas, que era de má índole, portanto traiu Jesus
de livre e espontânea vontade; poderia não faze-lo,
mas o fez movido pela ambição ao dinheiro.
Contra argumentação
Se a ambição estivesse em Judas, mais interessante
seria manter-se ao lado de Jesus, uma garantia certa de entrada
de recursos cada vez maiores nos últimos tempos, do ministério
de Jesus, com adesões de pessoas bem situacionadas; havia
ainda a possibilidade de triunfo do movimento e certamente Judas
faria parte do governo a ser instaurado.
2. Prefiguração Salmos 41:(09)10
Até um meu íntimo, que gozava da minha confiança,
que partilhava o meu pão, levantou-se contra mim à
traição
Judas predispôs-se para cumprimento integral das profecias,
acerca do Messias Sofredor, vistas por exemplo em Isaias 52:13-15
e 53:1-12, ratificada em Atos 1:16, irmãos, era necessário
se cumprisse o que na Escritura o Espírito Santo predisse
pela boca de Davi, acerca de Judas, que se tornou guia dos que
prenderam a Jesus.
Desde que Jesus admitiu ser o Messias, Judas procurou por seu
lado enquadrar-se também nas Escrituras e assim cumprir
seu iníquo papel. Lucas 22:3 relata que entrou, porém,
Satanás em Judas, e a partir desse instante Judas
buscava oportunidade para entregar Jesus às autoridades,
o que implica vacilação do ex-apóstolo que
deu lugar ao Demônio, motivado pela ambição
pessoal, além de colocar-se ao dispor das forças
infernais, para que Jesus tornasse um fracassado.
Judas não era predestinado àquilo, poderia ser
outra pessoa mas sua ambição pelo dinheiro e entrega
pessoal a Satanás, o levaram a cometer tão estúpida
ação.
Contra argumentação
Judas, conforme nos é dado entender, e as Escrituras
apoiam semelhante tese, tinha interesses materiais em seguir Jesus,
conforme alias todos demais seguidores do Mestre, aspectos em que
nada tendo de espiritual jamais Judas iria predispor-se ao cumprimento
de qualquer profecia que fosse. Jesus enquadrava-se no papel de
Messias Redentor, sendo isso o que dele esperavam os apóstolos,
pois que nunca Jesus posicionou-se como Messias Sofredor. Nos conciliábulos,
Marcos 10:29-30, a promessa de Jesus era a instauração
dum reino terrestre, a partir de Israel, e era isso que desejavam
os apóstolos. A eventualidade de Judas ser possuído
por Satanás, para cumprimento da traição, leva-nos
absolve-lo de qualquer má ação referente.
3. Judas, um mau caráter? Ora, ele disse isto,
não pelo cuidado que tivesse dos pobres, mas porque era
ladrão, e tinha a bolsa, e tirava o que ali se lançava
João 12:6
Judas seria mau caráter desde que se aproximara de Jesus,
e há muito vinha roubando os próprios companheiros.
O ato da traição foi apenas seqüência
de um desajustado social, que não soube resistir a oferta
em dinheiro oferecida, para entregar Jesus às autoridades
numa melhor oportunidade, de modo que não viesse causar
problemas com aqueles que seguiam o Mestre.
Judas já era do Diabo, porém Jesus o manteve no
grupo porque era necessário que se cumprissem as Escrituras.
Contra argumentação
Se Judas esteve no grupo de Jesus durante todo o ministério,
à exceção dos dois últimos dias, e ainda
assim era mau, difícil compreender sua sorte na campanha
mencionada em Mateus 10, salvo se Jesus era ingênuo. Por outro
lado, manter Judas no grupo, sabendo-o do diabo e não o curando
conforme agia com outras pessoas, apenas para que se cumprissem
as Escrituras, Jesus era muito mais terrível que Judas e
seu messianismo apenas parcial.
4. Predestinação de ambos? : Estamos
a falar da sabedoria de Deus, envolta em arcanos [mistérios],
sabedoria escondida, que, antes dos séculos, Deus já
havia destinado para a nossa glória. Nenhum dos príncipes
deste mundo a conheceu, porque se de fato a tivessem conhecido,
não teriam, ao certo, crucificado o Senhor da Glória
(I Coríntios 2:7 e 8)
Havia disposição e necessidade divina de se fazer
oculta e impenetrável às forças infernais,
de como se daria realmente o plano da redenção da
humanidade, por Cristo Jesus.
Se a tríade LSD (Lucifer, Satanás e Demônio)
tivesse conhecimento antecipado dos planos de Deus, certamente
teria evitado os impulsos das autoridades de Israel em aprisionar
e matar Jesus, inclusive também o ato de Judas em trair
e entregar o Mestre àqueles que o buscavam para a crucificação.
O plano espiritual da redenção exigia o sacrifício
do filho de Deus, tal qual da maneira ocorrida, com um traidor
predestinado.
Ato cruel de Deus para com Judas? Não, se ele não
poupou nem seu próprio filho, antes o entregou à
morte por todos nós, o que significaria Judas, no contexto
das coisas?
Deus em sua presciência predestinou, uns para salvação,
outros para perdição, por aquilo que se pode entender
de Romanos 8:29 e seguintes, nisso a Jesus o destino final de
sua missão, enquanto a Judas o seu quinhão participativo.
Contra argumentação
Prevalecendo tese da predestinação, nada
se tem por discutir, até porque não se pode e nem
há como nos referirmos à justiça divina. Se
a traição tenha sido livre-arbítrio, a anulação
salvacionista é de pronto, pois que Jesus para redimir a
humanidade não precisava em absoluto da morte, e morte de
cruz; mas isso em si já seria admitir contradições
quanto ao messianismo prático de Jesus e as argumentações
escriturísticas.
5. O que realmente se passou entre Jesus e Judas, pelos
evangelhos?
João 13:26 [u.p] ao 30 O que tens de fazer,
faça-o logo. E nenhum dos que estavam assentados à
mesa, compreendeu a que propósito [Jesus] lhe dissera isto
[a Judas]; porque como Judas tinha a bolsa, pensavam alguns que
Jesus lhe teria dito: compra o que nos é necessário
para a festa; ou que desse alguma coisa aos pobres. E, tendo Judas
tomado o bocado, saiu logo. E era já noite.
O texto bastante conhecido, pouco compreendido, é aquele
em que Jesus prediz, pela vontade dos biblistas, que Judas o há
de trair.
Contra argumentação
Ora o texto é bastante claro que ninguém sabia
nada daquilo que Jesus confabulara com Judas, e o fato que Judas
viria trair o Mestre, somente mais tarde poderia ser colocado.
Jesus não se pronunciou a respeito diante dos demais
apóstolos, Judas também não, então
todo acrescido é apenas mera especulação.
O que se sabe é que os apóstolos nada sabiam, onde
acréscimos ou certos posteriores não ajustam situações,
pois se era noite não era hora de comprar nada [e ainda estavam
ceando], e se ninguém ouviu ou entendeu o que Jesus e Judas
conversaram, isto pode ser tudo ou nada do que imaginavam. Se o
que se tem a respeito não nos permite deduzir nada além
daquilo que está escrito, como também não nos
é lícito interpretar onde as letras se calam, pois
daquilo que não se vê nem se ouve, em especial quando
não se compreende, não é nada justo pressupor
para que se faça apenas cumprir, o que se pretende por certo
para ajustes de situações.
6. DE OUTRAS ESPECULAÇÕES PRETENDIDAS POR BIBLISTAS,
QUANTO A TRAIÇÃO DE JUDAS
Era mesmo preciso o ato da traição para se prender
Jesus?
Sacerdotes e autoridades sabiam quem era Jesus e não lhes
seria difícil prende-lo, com isso a desnecessidade do ato
da traição.
Mas, se Judas realmente entregou Jesus, alguma razão deve
ter tido para isso, e considerações bíblicas
possíveis são mencionadas por alguns biblistas,
como justificativas para tal acontecimento, conforme algumas transcritas.
- Judas optara por um ministério próprio, tal qual
Jesus fizera em relação a João Batista, e
nisto estaria o ato da traição.
- Pedro teria seguidores, liderados ou companheiros políticos
[barjonas extremistas, infiltrados ou não] entre os discípulos
de Jesus, os quais em algumas situações o haviam
livrado de certos perigos, conforme se pode concluir das citações
bíblicas. Posto isto, seria bastante arriscada a prisão
de Jesus, sem algum elemento infiltrado para a escolha do momento
de se prender Jesus ou mesmo identifica-lo entre outros tão
iguais (vestimentas e capuz).
- Uma multidão sempre estaria junto de Jesus, e
somente em raras ocasiões o Mestre recolhia-se para meditações,
às vezes acompanhado por apenas três apóstolos
(Pedro, Tiago e João) Mateus 24.30 . Era preciso
alguém que soubesse detalhadamente dos passos de Jesus
com certa antecipação, e isto coube a Judas.
- Jesus e Judas simbolizavam desde o princípio o
bem e o mal, ambos predestinados desde antes da fundação
dos séculos. Judas seria o mal necessário para que
o projeto divino de reintegração do homem se realizasse
plenamente.
- Deus encarnou-se homem para a realização
de sua obra redentorista. Satanás fundiu-se em Judas para
que o plano de salvação não viesse se realizar.
- Não existiu nada disso, o que houve foi apenas
transposição da história dos samaritanos
para os judeus, pela Igreja Primitiva, quando da necessidade de
se dar historicidade a Jesus e sua obra de redenção.
Os samaritanos filhos de José eram os elegidos
de Deus, isto é, deles é que sairia o Messias, enquanto
Judá [Yuda, o irmão que traiu e vendeu José]
era o símbolo do mal, da traição. Fundamentalmente,
tomando-se versão bíblica samaritana, este é
o verdadeiro sentido das ocorrências.
- Judas traiu Jesus porque esperava deste um grande e verdadeiro
milagre não acontecido ou realizado. Entregando o Mestre
nas mãos do inimigo, obrigaria Jesus a decidir-se e mostrar
para o que viera e se era ou não Deus encarnado homem.
De tudo valem argumentações, embora estas somente
fundamentadas em dados bíblicos, jamais históricos.
Todavia ainda assim é possível traçar motivos
que levaram Judas a trair o seu Mestre, entre as quais podemos
destacar:
A) Alguém que realmente soubesse de Jesus em todos
seus passos
Pressupondo existência histórica, Jesus era pessoa
bastante popular, sempre cercado de multidão pronta a defende-lo,
além de políticos extremistas, representados pelos
apóstolos, capazes de atentados e atos suicidas, portanto
arriscado prende-lo sem causar tumultos e sacrifícios inúteis
de vidas humanas.
Nisto seria preciso um infiltrado ou alguém que intentasse
entregar o Mestre, que viria facilitar captura-lo nalgum lugar
ermo, numa hora em que estivesse o mínimo de pessoas ao
redor do Mestre.
Conhecedor dos hábitos de Jesus, onde encontra-lo e a
melhor hora, inclusive para identifica-lo entre os seguidores
todos assemelhados pelas vestes [e capuz], Judas seria de extrema
importância aos perseguidores, embora no ato da prisão
Jesus tenha se apresentado antecipadamente, tornando desnecessária
referida identificação.
Acreditamos ainda assim não termos os motivos reais da
traição, embora especialistas sustentem que trinta
moedas significassem soldo de três anos de um soldado romano,
conforme Danillo Nunes expõe em sua obra citada neste trabalho.
Justificamos: adeptos e financiadores da campanha de Jesus aumentavam
dia a dia e com isso os rendimentos, onde Judas se ganancioso
e ladrão, não abandonaria a possibilidade de rendimentos
maiores, pois vivo e em liberdade Jesus significaria lucros bem
maiores que as trinta moedas.
B) Da efetiva necessidade de Jesus operar um milagre genuíno
Muitos estudiosos independentes entendem que Judas quis realmente
comprovar se Jesus era mesmo o Messias, entregando-o para com
isso força-lo a realizar o milagre de anjos acorrerem para
sua libertação.
Algo assim teria duas possibilidades de realizações,
nenhuma delas favorável a Judas, quais sejam: se o milagre
não ocorresse [e Judas esperava por isso], cessariam seus
lucros; se os anjos socorressem Jesus, Judas não seria
nada bem visto por aquele a quem entregou e nem por ninguém.
Ele, conhecedor de todas potencialidades doMestre, se arriscaria
assim.
C) Um ato desonroso do Mestre que efetivamente o fizesse
merecer a traição
Sustentam alguns críticos que Judas identificara em Jesus
algum ato desonroso e/ou de covardia, sentindo-se traído
pelo Mestre, por isso resolveu entrega-lo às autoridades.
Mas que ato seria este assim tão terrível, para
que se possa justificar a atitude de Judas?
A Bíblia nos dá elementos possíveis para
referida e necessária identificação, de pelo
menos um bom motivo para Judas delatar Jesus. Para isso, todavia,
é necessário ter em mente aquilo que os apóstolos
e seguidores realmente esperavam de Jesus, ou seja, de sua liderança
fundamentada na promessa de se restaurar o reino [político
e religioso] de Israel.
Mateus [21:1-17 e referências] traz a entrada triunfal
de Jesus em Jerusalém, aclamado rei libertador de Israel:
Bendito o Rei que vem em nome do Senhor (Lucas 19:38).
Mateus avança com a afirmação que referido
acontecimento dava-se para cumprimento das antigas profecias vistas
em Zacarias 9:9-10 e 14:4 a 16, além de Isaías 62:
11.
Citadas passagens bíblicas são fundamentalmente
políticas e de libertação nacional, como
a restauração do reino e o retorno às antigas
formas de religiosidades. Jesus encarnara exatamente isto quando
se predispôs entrar em Jerusalém, conduzido pela
multidão cuja intenção era, sem dúvidas,
a tomada do poder; pensar o contrário, que a motivação
de Jesus seria outra, é o mesmo que lhe atribuir inocência
diante daquilo que ele próprio representava diante do povo.
Ora, a entrada do Mestre em Jerusalém, mesmo conforme
narrado pelos evangelistas, foi ato político pensado com
bastante antecedência, programado e enfim posto em execução
exatamente numa data cívica religiosa, onde acorreria grande
multidão, presenças certas não só
de religiosos oficiais e excluídos, como dos marginalizados
sociais, frustrados, perseguidos, promotores de atentados terroristas,
e mais um contingente de revoltados facilmente manobráveis
e prontos às ações numa primeira provocação
ou ordem, posto Israel num período de intensa agitação
política pró-libertação pátria.
Não se pode ignorar que Jesus seguiu, portanto, um plano
traçado indo diretamente ao Templo, para dar início
à rebelião posta em prática, através
de seu ato de agredir comerciantes estabelecidos nas proximidades
(Lucas 19:45-48), como o sinal para a revolta, um expressivo gesto
do qual valeram-se os zelotas, barjonins e nacionalistas outros
de primeira ordem, para estabelecimento de violenta insurreição
popular cujo tumultuo ganhou ruas e praças, numa crescente
desordem e violências, num contagiante conflito de proporções,
até o momento do confronto final com os defensores romanos.
É impensável que o gesto agressivo de Jesus, diante
dos comerciantes, não viria desencadear aquela revolta
popular.
A ausência de historicidade de Jesus, em especial quanto
à época, não nos permite identificação
exata de algum motim conforme narrado pelos evangelistas, no qual
viria dentre os presos destacar-se um certo Barrabás. Todavia
a despeito da deficiência histórica e das divergências
entre os narradores bíblicos, ainda assim é possível
reconstituir um quadro completo daquela revolta popular, sem dúvida
iniciada por Jesus junto daqueles que o aclamaram rei.
Identificação maior de algum acontecimento próximo
cita-nos Lucas 13:1-5, sobre galileus massacrados, num episódio
conhecido por queda da Torre de Siloé, sabendo-se
que aqueles insurretos postaram-se em referida fortaleza, tomada
pelos romanos depois de intensos combates, vindo culminar com
a morte de dezoito rebeldes e prisão de muitos. O mesmo
autor do evangelho segundo Lucas informa, capítulo 23:18-19,
que dentre os presos pelos romanos estava Barrabás, um
tal que fora posto na cadeia por causa de uma insurreição
que tinha havido na cidade [Jerusalém] e por um homicídio;
Marcos 15:7 corrobora com a assertiva ao dizer Barrabás
um dentre os amotinadores presos e que num motim cometera uma
morte.
O relato de Lucas 13, pelos analistas, é considerado nebuloso
nos primeiros versos, em relação ao que se segue,
ou seja, extemporâneo dentro do contexto daquele capítulo,
embora não se possa objetar que fatos descritos remetem-nos,
sem dúvidas, ao episódio da entrada triunfal de
Jesus em Jerusalém.
Posto isto, entende-se conforme exposto e aqui repetido para
maior compreensão, que seguido ao gesto de Jesus contra
os mercadores, ocorrera violenta manifestação popular
com sérios confrontos entre soldados e multidão,
a culminar com combatentes do povo sitiados na torre de Siloé,
esta posta abaixo pelos romanos numa resultante de dezoito mortos
dentre rebelados, prisão de muitos, entre os quais o tal
Barrabás que, em breve, seria imortalizado como pivô
de uma história que há dois mil anos acompanha a
humanidade, o que não nos interessa no momento.
Jesus diante da irrupção popular e da violenta
reação dos soldados a serviço dos governantes
de Roma, segundo narram os evangelhos, retirou-se ligeiro do local,
deixando os revoltosos à deriva, a ignorar inclusive os
sitiados junto da Torre de Siloé.
O ato do Nazareno foi sem dúvidas covarde, pois que deixar
conduzir-se pela multidão, que o aclama rei, e dar início
a uma revolta popular para depois refugiar, sem dúvidas
não foi das suas melhores ações. É
impossível não imaginar a decepção
daqueles que nele depositavam crenças, esperanças
e bens materiais; para aqueles mais próximos de Jesus,
os apóstolos e alguns discípulos, a decepção
talvez tenha sido ainda maior, um ato de traição
às causas propostas.
Mais outra decepção ocorreria, pela narrativa de
Marcos 11:27-28 quando Jesus, interpelado pelos principais dos
judeus acerca dos acontecimentos, do dia anterior [acima narrados],
mostrou-se omisso das responsabilidades. Se não bastasse
esta infâmia, Jesus em seguida [Marcos 12:13-17] revelou-se
colaboracionista dos romanos.
Era exatamente o que bastava para qualquer dos seguidores abandonar
ou mesmo trair Jesus, vez que se sentiram primeiro abandonados
e traídos pelo Mestre, exatamente na causa mais nobre que
os levara a tudo abandonar para seguir o Nazareno, ou seja, a
causa ideológica [política] de libertação
de Israel e restauração do reino. Não somente
a Judas, mas a todos demais seguidores, Jesus evidenciara enfim
seu caráter tíbio e reais intenções
de aceitação e submissão ao governo romano,
nas quais em absoluto eles esperavam ou apostavam; entenda-se:
nenhum judeu, galileu ou samaritano que fosse, imaginava exclusivamente
espiritual a mensagem de Jesus, sentido este que somente no século
IV seria dado às palavras e missão do Mestre.
Daí ao ato de entregar oficialmente Jesus aos sacerdotes
judeus e representantes romanos, muito mais que gesto heróico,
era devida obrigação de quem se sentira traído
em seus propósitos; e Judas o fez sem titubear e nem ao
menos imaginar que, três séculos depois, sua memória
seria conspurcada como o mais vil nome da história ocidental.
Se o assunto devidamente conduzido aos planos da espiritualidade,
ninguém ao menos também deu conta que sem o ato
de Judas, seja heróico ou de traição, jamais
haveria a redenção da humanidade.