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12. “Depois de convocar os doze deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios e para curarem doenças”; “e também Judas Iscariotes” (Lucas 9:1 e 6:16)

A Bíblia, e por razões óbvias, fala-nos tão pouco de Judas Iscariotes, que é extremamente difícil descrever sobre ele e, mais que isso, analisa-lo quanto às condutas ou razões que o levaram a trair o Mestre Jesus, após um certo tempo de estreita convivência e confiança mútuas.

Danillo Nunes, em sua brilhante obra “Judas Traidor ou Traído” (Editora Record 1968), também relata esta dificuldade, apesar do seu vastíssimo conhecimento a respeito e pesquisas realizadas.

Pela Bíblia sabemos que Judas tomou parte no ministério de Jesus (Atos 1:16-17 e os evangelhos), o que significa não haver sido apenas admirador ou companheiro circunstancial de jornada, situação geralmente colocada em se tratando dos discípulos e não apóstolos.

Consta ainda que Judas conheceu Jesus, como todos demais apóstolos e muitos dos discípulos, desde os tempos de João Batista, ou seja, ‘a partir do batismo de João’ (Atos 1:21 e 22).

As Escrituras atestam que Judas em nada foi menor que qualquer um dos apóstolos; como eles foi designado para missões de evangelização, expulsou demônios e curou enfermos (Mateus 10:5 e seguintes; Lucas 9:1 a 6).

Judas foi, no mínimo, o quinto homem de maior importância dentre aqueles que cercavam Jesus; os outros seriam João, Pedro, Tiago e o próprio Mestre. A sua condição de responsável pelas finanças do grupo (João 12:6; 13:29), dava-lhe destaques e confiança absoluta, não só de Jesus mas também de seus companheiros, dos quais recebera apoio para exercício do cargo, portanto bastante hábil em matéria financeira e gerenciamento [cuidados materiais e de bem estar] do grupo.

Os evangelhos sinóticos não deformam o caráter de Judas antes da ultima ceia, apenas citam-no como ‘aquele que havia de trair o Mestre’; João no entanto o faz, julga-o, antecipadamente. Vejamos:

· Mateus 26:6 a 13 diz sobre um jantar em Betânia, na casa de um certo Simão, acometido de lepra, e quando Jesus estava à mesa, uma mulher veio e derramou-lhe [precioso] ungüento sobre a cabeça; o texto, versos 8 e 9, refere que os discípulos – aqueles mais próximos do Mestre – se indignaram com tremendo desperdício, pois que o ungüento poderia ser vendido por um bom preço e dar-se o dinheiro aos pobres. Dar aos pobres significava evidentemente ser entregue a Jesus e, consequentemente, ao grupo.

· Marcos (14:3-9) descreve o mesmo assunto, informando que a mulher trazia ungüento de puro nardo num vaso de alabastro, e igualmente seus mais próximos se indignaram com aquele desperdício que poderia render ‘mais de trezentos dinheiros que bem poderia ser dado aos pobres’.

· Apesar de Marcos e Mateus concordes com os relatos, João (12:1-6) apresenta-nos história próxima porém com outros detalhes: não era mais na casa de Simão, o leproso, que a cena desenrolara-se, mas na de Lázaro a quem Jesus ressuscitara dentre os mortos; a mulher ungiu os pés do Mestre com o ungüento, não mais sua cabeça, e a mais significativa das diferenças ou revelações: não são mais os discípulos de Jesus quem indignam-se com o desperdício do ungüento, de cuja venda se poderia render muito para os pobres, e sim unicamente Judas, e não porque tivesse cuidado com os pobres, mas porque era ladrão e roubava tudo o que se lançava no caixa [bolsa] do grupo.

Claro que se João não esteve a mentir, certamente o fizeram Mateus e Marcos; há razões no entanto para admitir João como o falto com a verdade.

Das citações de João, incriminando Judas como ladrão dos cofres da comunidade (capítulos 12:6 e 13:29), qualquer especialista compreende os textos postos tardiamente [no terceiro ou quarto século], com intenções de se forjar uma personalidade deformada, para aquele que haveria de trair Jesus.

Porque resolvera Judas Iscariotes seguir Jesus, ser um dos mais fiéis dentre os discípulos, para depois simplesmente entrega-lo aos inimigos?

Certamente o grande segredo para entendermos Judas, e os motivos que o levaram em busca dos dois grandes pregadores, João Batista e Jesus, encontra-se na seqüência de seu nome, ou seja, Iscariotes, como também era conhecido Simão, seu pai (João 13:26 – tradução PIBR).

Tal designativo, segundo especialistas, derivaria do hebraico ‘isch-kerioth’, homem de Kerioth, hipótese que prevaleceu durante séculos, ainda hoje adotada por muitos teólogos vinculados a certos credos religiosos.

A dificuldade no entanto para se localizar uma aldeia ou cidade de nome Kerioth, na Bíblia ou em qualquer geografia da antiga Palestina, tem suscitado dúvidas entre os especialistas se realmente Iscariotes seja referência ao local de origem de Judas.

O livro de Josué 9:17, menciona a cidade de Cariat-Jearim cujo nome traz certa proximidade com Kerioth; ainda no mesmo livro Josué 15:15 e 15:25, encontramos Cariat-Sefer e Cariot-Hasrom, mas nenhuma destas localidades apresentam-se, pelo próprio significado de nomes, como a cidade natal de Judas. Cariat significa cidade de alguém ou de alguma coisa, por exemplo Cariat-sefer é cidade do livro ou da sabedoria.

Também Jericó, tão bem conhecida na Bíblia, não é certamente a localidade pretendida, pois a nominação Jericote como corruptela donde derivaria Iscariote, é mera especulação daqueles que pretendem acertos ou justificativas bíblicas para citações incertas.

Josefo, em suas Antigüidades Judaicas menciona uma certa localidade de nome Koreae, citada por Danillo Nunes (2), autor que pretende Judas como de origem judia.

Muitos exegetas atuais, acreditam que Isacariotes seja originário de Sychar, um povoado samaritano mencionado em João 4:5, com referências bíblicas no Livro de Gênesis 33:18-19 como a cidade de Siquém (nome próprio do fundador); na mesma Gênesis 48:22 diz-se da localidade como ‘extensão de terra’, em hebraico sëchem, uma paranomásia com Siquém. Informa-nos o Pontifício Instituto Bíblico de Roma [PIBR] nas notas explicativas sobre João 4:5, que Sychar seria uma aldeola de Siquém.

Judas pode ser posto portanto “is’sychar” [isch’sycar], o homem de Sychar, que faculta toponímia ‘ischarioth”; nesse caso Judas seria samaritano e não judeu de pura origem.

Os judeus, desdenhando galileus e samaritanos, pelas condições de gente rude, humilde e mestiça, não desperdiçavam oportunidades para demonstrações de intolerância àquelas gentes, como exemplo a Galiléia – Galil-há-goim (círculo dos gentios) em João 7:52. Da mesma maneira, poderiam eles [os judeus] denominar de Sicária a facção terrorista dos Zelotas [partido político], seja pela origem ou sede da organização em Sychar [na Samaria], seja em função do nome do líder Abba Sykara [possível fundador ou organizador da facção], ou, ainda, apenas mais uma demonstração depreciativa dos judeus aos samaritanos de Sychar, posto que sicário, para os judeanos, teria o mesmo significado pejorativo que assassino.

Posto Judas ser um sicário, temo-lo na qualidade de idealista político, ainda que extremista, em luta pela libertação de sua pátria [de resto toda Palestina] do jugo romano, além da destituição e pena capital para os ‘vendilhões e entreguistas’ vistos nas classes sacerdotais e elite, desde sempre à disposição e serviços dos dominadores.

Assim, visando interesses políticos de libertação pátria de mãos opressoras, mesmo que para isso se necessário a guerra, ou de desejar para si – a Bíblia não diz isso dele – bem estar próprio e participação política num novo governo, porventura formado, em nada disso Judas Isacariotes foi diferente dos demais apóstolos.

Notas
(2) - Danillo Nunes – citações de, (Judas Traidor ou Traído, Gráfica Record Editôra, 1968)
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