FRENTES DE OCUPAÇÕES NO PARDO, A PARTIR DO RIO TURVO
Aos conquistadores seguiram os povoadores interessados em ocupar e trabalhar a terra.
Antigos relatos dos descendentes da primeira geração de moradores informam-nos que, adiante de São Domingos, as famílias adquiriam suas terras ou nelas eram instaladas, pelos seus enviados, ao longo das margens do Turvo, conforme ordens de compras ou os direitos de posses, a destacarem-se os sertanistas: José Alves de Lima, posseiro junto ao Correguinho da Porteira [Córrego dos Mineiros] em atual município de Espírito Santo do Turvo; José Antonio Pereira de Lima, Antonio Vicente Pereira de Lima, prenotados às duas margens do Turvo, nas regiões de São João do Turvo e onde a sede do município de Espírito Santo do Turvo; Antonio Lemes da Silva, alocado onde se denominou Bairro dos Lemes [nas vizinhanças de Espírito Santo do Turvo]; José da Cunha, assinalado nas cercanias de São Domingos para o bairro Santa Cruz [da Boa Vista] – atual distrito de Domélia [Agudos]; Francisco de Souza Ramos e João Vicente de Souza, apossadores nas regiões de Caçador [Ubirajara] e partes do território que veio a ser Patrimônio dos Pintos por volta de 1.900, atualmente Ribeirão do Sul; Messias José de Andrade, possuidor a partir da barra do Alambari acima, município de Santa Cruz do Rio Pardo; Manoel Alves dos Reis, ocupador no ribeirão das Antas [partes que se tornaria São Pedro das Antas em 1.862, Gralha em 1.910, Santa Luzia em 1.924 e, depois, Lucianópolis]; Matheus Leite de Moraes, Manoel Joaquim da Cunha, Anastácio José Feliciano e José Antonio Diniz posseadores de partes nos atuais municípios de Lucianópolis, Cabrália Paulista [Patrimônio do Mirante 1.915], Lupércio [Santo Inácio], Alvinlandia [de denominação e história mais recente, 1.935, chamada Vila Couto em 1945], Ocauçu [Casagrande 1.880], e os citados municípios de Ubirajara e Ribeirão do Sul.
- Em 1856 José Alves de Lima já era falecido, e sua posse entregue aos herdeiros e à sua viúva e meeira, conforme posto em Registro Paroquial de Terras, número 516, de José Theodoro de Souza “(...) divisando com os herdeiros e meeira de José Alves de Lima (...)”.
Alguns nomes são confirmados historicamente, mas a importância de algumas famílias posteriores fez mudar a história, em alguns casos atribuindo a si mesmas posses mansas e pacíficas de suas propriedades, livre de matanças indígenas e de escravizações.
Foi em junho de 1851, em São Domingos, que o vitorioso Theodoro reencontrou seus familiares e demais chegadores de Minas Gerais, para conduzi-los até o lugar escolhido ou que lhe fora destinado, e assim levantar a Capela de São João Batista, hoje a São Pedro do Turvo, “(...) e se fixaram no local no dia 26 de junho de 1851 onde deliberaram, dada fertilidade das terras, a abundância da água e de madeiras de lei, erigir a primeira povoação que seria, não só a base, mas também o quartel general de seu arrojado empreendimento. (...). Localizou os companheiros nas imediações do local, estabelecendo cada um em águas que vertiam para o rio Turvo, próximo, e São João, e cuidou de efetuar as primeiras plantações para garantia de abastecimento (...)” – [Arruda Dantas, p. 26 e 27]. A seguir Theodoro fundou a Capela de São Pedro, em homenagem ao Santo com data comemorativa em 29 de junho, naquele mesmo ano de 1851.
Os pioneiros, no rastro dos conquistadores, chegavam das Minas Gerais ao rio Tietê para atravessá-lo, entre os portos Potunduva [distrito atual de Jaú] e Lençóes [Lençóis Paulista], a seguir trajeto aberto até às margens do Turvo, no qual lugar elevou-se a Capela de Espírito Santo do Turvo.
A presença desbravadora no sertão oeste paulista se revelou na abertura de caminhos e fundações de povoados. Coube aos desbravadores adentrar campos e matas, abrir picadas e enfrentar índios remanescentes, requerer posses e fundar capelas, muitas jamais além de arranchamentos, algumas que evoluíram para bairros rurais hoje extintos, aquelas elevadas a distritos e umas outras às condições de cidades.
A história, ao firmar início da povoação para o município de Santa Cruz do Rio Pardo, sem dúvidas confirma tradição de sua territorialidade inicial a partir do Turvo e Alambari.
À medida das cheganças os adquirentes de terras avançavam conquistas à margem esquerda do Turvo, prosseguindo a abertura e avanço de estrada conforme se estabeleciam povoados, como bairros [rurais], para desbravamentos e vendas de terras desde a barra do Alambari, onde pouco abaixo, a passagem do vau e o curso terrestre aberto às gradativas interiorizações sertanejas, adiante das atuais localidades de São Pedro do Turvo, Campos Novos Paulista e Conceição de Monte Alegre, uma rota que, com algumas modificações, se tornaria conhecida por Estrada Boiadeira.
Aos primeiros chegadores coube “amansar o sertão”, tanto para a efetivação dos bairros rurais quanto para instalações das primeiras fazendas. Às ações pioneiras cumpria o extermínio indígena ou o seu afastamento definitivo – regra cumprida à risca, assim como os livramentos dos perigos dos animais predadores maiores, em boa parte conseguidos com as derrubadas das matas e as grandes queimadas.
É consonância que entre os pioneiros não estavam apenas homens abrutalhados e de natureza indômita. Vieram juntos aqueles que sabiam: dimensionar propriedades e as aguadas; coordenar derrubadas das matas e escolher o melhor local para as moradias e as fábricas – que eram os lugares do monjolo, fornos e as moendas; onde construir os potreiros, os currais e preparar os bebedouros e neles acostumar o gado.
Os preparadores da terra tinham a ciência das observações geográficas e a natureza climática, para quais terrenos e estações estavam os melhores cultivos, além do conhecimento como fazer o rodízio de solo para plantações e a coivara, qual seja, a limpeza dos terrenos para lavouras cíclicas e adubação com aproveitamento das cinzas.
PRIMEIROS FOGOS NO SERTÃO OESTE PAULISTA
No século XIX, 1851, os primeiros habitantes do Vale Paranapanema – oeste paulista, chegaram em pequenos grupos fortemente armados, vias de regra seis a oito elementos, para a dominação regional.
Foram eles os bugreiros – matadores de índios e zeladores pela segurança da propriedade, os capatazes responsáveis pela coordenação dos serviços, além dos trabalhadores diversos para o trabalho da terra e nela a fixação do homem, portanto encarregados das primeiras construções, plantações e dos cuidados com o gado a ser introduzido. Esses personagens secundaram, de imediato, os conquistadores, a serviços dos compradores de terras ou dos próprios partícipes da Guerra ao Índio, então premiados com algum bom pedaço de chão.
Até ali, com indicações das terras, os caminhos foram abertos a facão, foice e machado, com a escolha do lugar mais ideal para instalação do rancho dormitório, galpão de um só cômodo para todos do grupo, a partir de onde dimensionavam as terras e suas divisas e praticavam as demais atividades. O acampamento era de pau a pique e coberto de sapé, as camas arranjadas de couro [curtido] de boi estendido sobre quatro estacas; alguns usam redes e outros os estrados.
- Do lado de fora um pequeno abrigo onde instalado o fogão, de barro ou de pedras improvisadas com o uso da trempe – um arco de ferro em tripé sobre o qual os vasilhames que iam ao fogo; sob tal cobertura encontra-se, ainda, a mesa de troncos lascados e estendidos sobre traves fincadas no chão, onde servida as refeições. Nalguns arranchamentos, o fogo, a mesa e demais apetrechos estão colocados dentro dos mesmos.
De tais arranchados, aqueles encarregados da segurança das terras tinham por obrigações afugentar índios e conter posseiros, por isso sem paradeiro dentro da propriedade, às vezes por tempo prolongado. Esses tomadores de contas do sertão dormiam em redes, ao relento, carregavam suas comidas – em geral farofas e paçocas de carne, mas quando conseguiam raízes e caça animal ou pesca, faziam a tucuruva, espécie de fogão sobre cupinzeiro com paus verdes em substituição à trempe.
Os vaqueiros procuravam e preparavam os locais de invernadas, os agricultores escolhiam e trabalhavam a terra para as plantações, e todos colaboravam nas construções dos ranchos para que as famílias pudessem chegar e habitar a localidade em relativa segurança.
Por questões de seguranças e auxílios mútuos, os ranchos eram longe das matarias e próximos um a outros, construções rústicas em chão batido – sem confortos, elevadas com bambus ou taquaras rachadas entrelaçadas – tipo pau-a-pique, entaipadas ou não, algumas com paredes de paus roliços, quase todas cobertas em sapé ou troncos de coqueiros abertos ao meio, algumas por pequenas tábuas lascadas. Próxima aos ranchos, num lugar de destaque, uma capela erigida da mesma maneira.
A esses homens cabiam, ainda, as edificações dos complementos necessários numa fazenda funcional: os celeiros, currais, mangueirões, galpões, estrebarias, pocilgas, além das disposições para o pomar e horta.
Apenas, após as cheganças de 1856 surgiram as casas de madeira, com assoalhos em tábuas corridas – largas e contínuas, algumas elevadas do solo para evitar umidades, sem forros, com coberturas em placas de madeiras ou as telhas de barro moldadas nas coxas dos escravos, agregados e empregados, – daí a identificação “feita nas coxas” para os objetos irregulares. Apesar dos tamanhos e formas, às vezes díspares, as telhas de barro tinham melhores serventias e durabilidades que as madeiras, lascas ou sapé, porque mais resistentes às chuvas e fogo.
Nas propriedades de senhores escravagistas tomaram-se os cuidados de se construir a senzala em forma de grande paiol – em madeira, tijolo, adobe ou taipa, cobertos de sapé, sem forro, com chão de terra batida, a servir de cozinha – fogão a lenha, e dormitório para os escravos – negros afros-descendentes. Não se tem notícia oficial de escravização indígena na região, até porque as tribos haviam sido dizimadas. Índios errantes eram presos e forçados ao trabalho, por algum tempo, quando não conduzidos aos aldeamentos – na marra, para que recebessem instruções devidas e, depois, introduzidos no mercado de trabalho, como homem temente a Deus, pacífico e doutrinado à obediência servil, ou seja, prestador de serviço obrigacional gratuito para os fazendeiros. Tradições familiares apontavam que índios pacificados eram trazidos dos aldeamentos, para o trabalho compulsório nas fazendas em tempos de grandes colheitas.
As casas de fazendas situavam-se em quintais cercados, para proteção própria e contenção das aves e cães, sendo para a casa principal um poço aqüífero e a latrina, às vezes bastante próximos e sem nenhuma regra sanitária recomendável, nada incomum a comua à montante da cisterna, com a obviedade de contaminação do lençol freático.
Para as demais casas os quintais eram menores, a privada, senão coletiva, servia mais de uma moradia, da mesma maneira que o poço.
- Ainda em 1923 as situações de casas operárias em Santa Cruz do Rio Pardo estavam assim, “(...) geralmente de taboa com vários orifícios e rachaduras onde podem penetrar todo inseto que assim o queira. Tem geral dois quartos mal iluminados mal ventilados e chão sem assoalhos. Elle é de terra ou tijolado e as vezes de taboa. Contem cada um duas ou três camas. Tem uma sala para tudo e para todos e uma cosinha regular. O quintal tem geralmente uma fossa fixa que serve para duas casas; ao lado, pouco distante um poço do qual retiram água. Este poço tambem serve duas ou treis casas. (...). Ahi moram 7 pessoas da mesma família. Cumpre mencionar porem que algumas outras casas são de taboa, offerecendo melhores condições sanitárias” – [LC Abreu Sodré, Inspeção Sanitária de Santa Cruz do Rio Pardo, 1923, páginas 24 e 25]. Mais especificamente para casas suburbanas e rurais, o autor fazia um alerta: “Acontece, também, que estas casas nunca contem fossas fixas. As exonerações intestinaes são feitas na superficie do solo”.
Batedouros de roupas ficavam ou á beira de um regato ou do reservatório de água, retirada por um vasilhame apegado com peso na ponta de uma corda presa ao sarilho – cilindro posto horizontalmente, com uma manivela para subir a descer o corote ou balde para coleta.
Fora dos quintais das casas estavam a pocilga ou curral de porcos, quase a céu aberto com a cobertura para os cochos de alimentação, além do chiqueiro de engorda e os compartimentos das crias.
Igualmente existiam os cômodos para guardas dos arreamentos e os artigos e instrumentos necessários e destinados ao trabalho agrícola e de pastoreio. Os carros de boi, os carretões e as carroças de trabalhos eram abrigados num barracão, sendo tal barracão estendido para o funcionamento da oficina geral e marcenaria.
Os piquetes ou pequenos potreiros serviam para guarda de animais empregados nos trabalhos do dia-a-dia, como cavalos de montaria, vacas leiteiras, além dos separados [cercados] para os bezerros e animais doentes. Algumas fazendas criavam ovinos e caprinos em locais próprios com abrigos para o período noturno, mas estas ainda são raras.
Os pioneiros praticavam a agricultura de subsistência, com as derrubadas de matas para plantios de arroz, feijão, milho, abóbora, mandioca, batata doce, cana e algodão, havendo um ou outro experimento de cultivos de arvores silvestres frutíferas. A caça e pesca eram abundantes, com fartura de tudo quanto necessitavam para aquele modo de vida, excetos o sal, as ferramentas agrícolas, munições e armas, além de uma ou outra novidade para o lar ou de uso pessoal.
O farelo e o refino são usados como ração de animais que vivem nas fazendas. Em algumas regiões, o óleo extraído do farelo é usado na fabricação de sabão e margarina. O amido obtido do arroz é usado, principalmente, em cosméticos e como goma em lavanderias. A palha (haste seca) do arroz é usada para fazer sandálias, chapéus, capas de chuva e para cobrir telhados.
O preparo da terra para agricultura foi a denominada cultura do fogo, pelas queimadas, com a marcação de espaços e por períodos, de maneira a recuperar o solo e a vegetação, quando o terreno não utilizado pela pecuária, inicialmente feita nos campos e não nas matas derrubadas.
Dos rancheiros, contavam os antigos, que ao saírem de casa para o trabalho levavam juntos a mulher, os filhos e alguns cães, para evitar que índios vagantes e animais predadores de grande porte cometessem violência contra mulheres e crianças, ou que viessem matar os cães que, antecipadamente lhes denunciavam e enfrentavam. Amador Nogueira Cobra [p. 51] diz textualmente desse cuidado sertanejo.
Uma propriedade rural possuía diversos segmentos para o preparo de produção, por exemplo, a denominada fábrica, uma construção à beira de um rego d’água aproveitado para mover o monjolo, um mecanismo em madeira para se pilar o milho e descascar café entre outras serventias, Na fábrica estava o forno para se assar o pão e outros alimentos, além da fornalha para se fazer a rapadura, os doces e a tosta das farinhas [e polvilhos – amidos] da mandioca e do de milho.
Outro mecanismo essencial era o engenho, para moagem da cana da qual extraia a garapa, usada diretamente como adoçante, ou para fabricação de rapadura que, moída, substitui o açúcar. Próximo do engenho estava o alambique para a feitura da cachaça ou aguardente derivado da cana.
- Alguns historiadores locais, como José Jorge Junior, lembram que naqueles tempos, quando inexistia o café na região e o caboclo valia-se das sementes torradas e moídas do fedegoso fervidas em água com garapa – [JUNIOR José Jorge – Zeca Jorge, Um Pouco de História da Alta Sorocabana – VIII, Jornal a Semana, Paraguaçu Paulista [SP], edição de 24/09/1967].
A fábrica oferecia outras extensões, por exemplo, o lugar de se trabalhar o fumo [fumeiro] e trançar vassouras, além do compartimento reservado para o talho – tipo de açougue onde se lidavam com as carnes, embutidos, defumados e gorduras e mais os miúdos aproveitáveis para o consumo e aqueles para obtenção do sabão de cinza, produto às vezes misturado com ervas aromáticas ou preparado com vegetais gordurosos, como o abacate. O local do abate animal geralmente situava-se a jusante de um córrego d’água.
A tulha – mais conhecida por “tuia” era outra construção necessária numa fazenda, geralmente em madeira, destinada ao armazenamento de materiais, mantimentos e gêneros de qualquer espécie, para um período mais prolongado, enquanto o paiol servia para estocagens do milho e o feno, de uso diário para a criação.
O trabalho rural encaixava-se, portanto, no sucesso das fazendas, multiplicando as lavouras, diversificando-as, e ampliando os rebanhos e os tipos animais: bois para o corte, vacas para crias, o leite e mais os derivados – queijos, requeijões, manteigas e o uso para tipos de doces.
Uma propriedade de média produção, para a época, ocupava espaço mais ou menos de 20 mil metros quadrados para toda essa estrutura, incluídos os imóveis para os colonos e as senzalas para os escravos.
Todas essas preparações de instalações e funcionamentos das fazendas duraram cinco ou mais anos, até que apresentassem os primeiros resultados. Com raras exceções, a partir de 1856 chegaram os proprietários com respectivas famílias e agregados, para a administração dos bens, juntamente com outros adquirentes de terras.
Estes novos chegadores [a partir de 1856] optaram residir em bairros situados ou levantados entre grandes propriedades, então chamados bairros rurais, com melhor a garantia de segurança porque situados à beira de caminhos, onde eram intensas as movimentações dos brancos, sempre armados no percurso desde Botucatu e São Domingos até a Capela de São João Batista e São Pedro, o que evidentemente afugentavam os índios e inibiam ladrões.
As chegadas dos proprietários de terras com toda sua parentela e agregados determinou, de pronto, os surgimentos dos bairros residenciais cujas casas construídas geralmente com adobe “bloco semelhante ao tijolo, preparado com argila crua, secada ao sol, e que também é feito misturado com palha, para se tornar mais resistente” – [AURÉLIO Dicionário Século XXI], algumas em madeira lavrada, umas poucas forradas, quase todas assoalhadas e cobertas com telhas de barro já enformadas e em tamanho padrão.
Um bairro rural então se dividia em datas, terrenos com medidas aproximadas de meia quarta de alqueire, onde elevadas as casas, em duas fileiras à margem de um caminho. De um dos lados a seqüência de lotes interrompia-se por uma rua para se chegar à capela, ao salão de festas e, um tanto mais ao fundo, o cemitério.
Numa data, além da casa, existia a horta, o chiqueiro para engorda de porcos, o galinheiro, a cocheira para o abrigo do animal de sela e carroça, um puxado, para a guarda de mantimentos e tralhas diversas, ao qual, em anexo, o abrigadeiro dos veículos de tração animal.
As casas, mesmo aquelas mais pobres, voltavam-se à organização do espaço habitacional, como lugar onde decorria toda a relação da vida familiar. As casas abrangiam a segurança e estabilidade familiar, abrigando no seu interior pessoas sujeitas à autoridade do chefe do fogo, por proteção, por natureza e por lei, assim definido como as “diversas pessoas sujeitas ao poder e à autoridade do chefe do domicílio seja por natureza ou por lei” – [COSTA Dora Isabel Paiva: As mulheres chefes de domicílios e a formação de famílias monoparentais: Brasil, século XIX, citação referente pelo Universal Lexicon de 1735].
- Ao patrão o prolongamento do seu lar compreendia não apenas sua unidade conjugal e a prole, mas sim aos agregados e serviçais; ele é a lei maior dentro de seus domínios.
Quanto aos aspectos físicos, independentes do tamanho, qualidade e riqueza de uma casa, ela se dividia basicamente em cozinha, sala e quartos. A cozinha fazia-se o compartimento principal de uma casa, onde se reuniam os familiares após jornada de trabalho, em causa do fogão ou mais propriamente as chamas que lhes permitiam se ver e conversar, numa troca de informações e experiências, confidências e momentos de intimidade familiar. O fogão construído em barro tornou-se substituto natural do Lar – outrora a pedra que servia de base ao lume de uma residência, assim a fazer, onde instalado o fogo, o principal lugar da casa, ao derredor do qual os presentes não apenas faziam refeições principais, mas onde se beliscavam petiscos e serviam-se bebidas – quentes ou não. “E era na cozinha, compartimento essencial da casa, que se encontrava o “Lar”, ou a pedra que servia de base ao lume” - [RODRIGUES Sérgio Fazenda, O lugar do fogo, sítio eletrônico http://acores2010.blogspot.com/2008/01/o-lugar-do-fogo.html, publicação de 27 de janeiro de 2008]. A sala fazia-se um cômodo reservado para as visitas e os amigos, um reflexo do conforto e o acolhimento da casa, enquanto os quartos eram íntimos, o do casal, e o dos filhos e filhas, geralmente os filhos a dormirem na sala por ocasiões de visitas convidadas ao pouso, enquanto as filhas iam para o quarto dos pais. Casas maiores tinham quartos próprios para filhos e filhas, uma ou outra residência com cômodo destinado a visitas de pernoites, quando não algum parente velho ou inválido por lá a se abrigar.
Os móveis eram toscos, as camas [estrados], o guarda-comidas, o guarda-roupa, o baú, os bancos, as mesas e as cadeiras. Todas as casas possuíam um oratório na sala, onde rezavam ao santo padroeiro, sendo alguns desses nichos artisticamente trabalhados e trazidos na viagem.
Os colchões consistiam preenchidos de capim, palha de milho desfiada, ou de crina animal, e os travesseiros de penas ou paina. Os tecidos eram feitos em teares como produtos da tecelagem de fios de lã, algodão, juta e outras espécies de fibras naturais, desde lençóis, cobertores e outras confecções de peças de vestuário, além das toalhas de banho, tapetes, toalhas de mesa, guardanapos e os decorativos para os altares e oratórios.
Nas residências, de fazendas ou bairros, dentre os maquinários rudimentares faziam-se obrigatórios o descaroçador de algodão, a carda [para desembaraçar, destrinçar e pentear o algodão sem caroço, num só sentido e separado em fios], e o tear para fazer os tecidos. Algumas casas tinham os bilros para fazer renda.
- Antigos relatos dão conta das habilidades de certas mulheres e homens em manusear bilros ou na produção de tecidos de algodão, magistralmente tingidos em cores diversas com uso de folhas, sementes, frutos, cascas, madeira ou raízes vegetais. Também eram famosos aqueles que sabiam trançar fios, fazer rendas e tricôs.
O homem do sertão se vestia simples, chapéu de couro ou de palha trançada - palha de arroz ou de milho; camisa de algodão simples e abotoadas na frente, gibão – que o cobria desde o pescoço à cintura, mais apropriadamente um casaco que se vestia sobre a camisa; usavam a guaiaca dobrável e com pequenos bolsos, ou tipo cinturão, um quanto o outro adequando para carregar dinheiro, documentos e preparadas para o porte de armas e munições. Calçava botas de cordovão – couro curtido de veado ou cabrum, vestia calças retas em algodão e ceroulas. Para dormir colocava o camisolão ou apenas ceroulas.
Bastante raro o uso de sapatos e estes eram feitos por profissionais e, geralmente, na cor marrom, utilizado em situações especiais – festas ou participações religiosas de casamentos, batismos ou missas usavam-se. Nestas ocasiões o homem portava camisa com gola, casaca ou, mesmo, o terno com colete.
Na guerra ao índio fazia-se obrigatório o escupis, jaquetões almofadados à prova de flechas.
Giovannetti, páginas 133 / 135, descreve-nos o trajo sertanejo masculino: camisa e calça de algodão duro protegidas pelo gibão e sobre calças de couro; também trazia chapéu de couro, trabuco posto no marchetado cinturão de onça pintada, alpercatas e na algibeira trazia o isqueiro de pedra e o rolo de fumo, enquanto num picuá a paçoca com carne de porco; às ocultas sob aquelas vestimentas, certamente o afiado punhal e a inseparável garrucha, sempre ao alcance ágil das mãos, um costume antigo de homem prevenido.
As selas e tralhas de montarias e uso no lidar com gado eram feitas por seleiros, mas alguns homens tinham habilidades em fazer selas caseiras e eram excelentes trançadores de laços. A espora tratava-se de instrumento feito em metal e posto no tacão do calçado para instigar a montaria. Para os tempos chuvosos usavam capas feitas em couro.
O relho, popularmente chamado reio, dizia-se do chicote de couro trançado ou em tiras e tinham formatos diversos e nomes variados, sendo popular o rabo-de-tatu, objeto mais curto de fácil manejo quando apenas em cavalgada, ou mania de andar com um deles na mão e que até serviam de arma ou ostentação.
O homem comum quase sempre usava barba e cabelos desgrenhados, mas os ricos tratavam-na e aparavam os cabelos com freqüência nos bons barbeiros da época. Os homens bem sucedidos ostentavam relógios de bolso, verdadeiras jóias trabalhadas, enquanto o pobre raramente portava um e, muito mais simples.
A mulher tinha recato no vestir do dia a dia, tipo baeta de algodão, vestidos retos de tecidos em algodão, mangas longas, lenços na cabeça e calçava alpercatas. Em ocasiões especiais valia-se do destaque sobre o vestido, sendo mais ou menos comum portar chapéu simples para proteção do sol.
Existiam fazedores de calçados femininos em couro – vaqueta, e algumas mulheres faziam os próprios sapatos, tipo salto raso, entre 2 a 5 cm, biqueiras redondas ou quadradas, raramente pontiagudo ou de salto mais elevado, estes dois tipos mais entregues aos profissionais do ramo. Não eram raros os sapatos feitos em palha ou tecidos, mais próprios para festas e participações de igreja, com certa predileção pela cor vermelha.
A mulher usava roupeta ou camisola de mangas longas já algumas com mangas curtas. Roupas íntimas para a mulher: as calçolas – ceroulas que iam até abaixo dos joelhos, e os corseletes que sustentavam os seios. Já se usava a anágua – saia de baixo, feita em tecido, substituindo a crinolina – tecido rígido de crina para entufar a saia.
Moçoila casadoura valia-se, ainda, do espartilho feito em lâminas de taquaras em substituição às barbatanas de baleias. O espartilho ajustava-se ao corpo para comprimir a cintura.
A mulher raramente cortava os cabelos e, na rotina do dia, enrodilhava-os formando belos coques. Em ocasiões especiais faziam tranças.
Os trajes de crianças eram os tipos picotes, os meninos usavam calças curtas e as meninas imitavam os trajes das mães. O menino usar calças compridas significava quase um rito de passagem da criança para o adulto, embora ainda adolescente.
As meias eram feitas em tecidos finos e costuradas, algumas em tipo tricô e algumas mulheres usavam um bastão próprio, em madeira, ferro ou bronze, chamado “canhão de fazer as meias”, fixado na roca de fiar.
Pentes e artigos de enfeites fabricavam-se artesanalmente aproveitando os chifres bovinos. Bons chifres podiam ser usados como vasilhames para se tomar água ou outras bebidas; os tropeiros carregavam as suas – chamadas guampas, amarradas numa tira, para, de cima de sua montaria pegar água do rio ou da mina. Os berrantes, para tangerem o gado, eram feitos de chifres longos e, alguns, verdadeiras obras de arte. Os homens negros e índios escravos usavam calções e camisas de algodão rústico, enquanto as mulheres vestiam-se de maneira simples e numa só peça exterior. Ambos sexos usavam lenços na cabeça pra proteções do sol.
Os mascates ditavam as modas no sertão, traziam fitas, chapéus, pentes, adornos, tecidos, mantas, cobertores, bijuterias, lenços coloridos, chapéus masculinos e femininos nos diversos modelos, artigos de cama, roupas feitas para homens e mulheres, linhas, agulhas e modelos para crochê conforme a “última moda francesa”, enxovais completos para as noivas, coletes, corpetes e toda sorte de novidades para as senhoras, fazendo sertanejo ousar mais nas cores e novidades em artigos mais finos e de melhores qualidades.
Os mascateiros traziam suas mercadorias por via férrea até a estação mais próxima de onde desejavam, por exemplo, a partir de 1875 e até a chegada dos trilhos em Botucatu, paravam em Rio Claro, de onde saiam seus carretões e carros de bois com as mercadorias para vendas, fazendo o gosto do sertão, e assim aproveitavam para comprar mercadorias – às vezes no sistema de trocas, e no retorno vinha recolhendo-as nos carros vazios, enquanto os escravos conduziam cargas vivas. Por coincidir propositadamente suas visitas com as safras, eram conhecidos por safristas e formavam verdadeiras corporações ou associados, alguns até com exclusividades para determinadas regiões.
Com a presença dos italianos as mulheres “aprenderam” a praticidade das saias, blusas e aventais, lenços e chapéus variados.
As roupas funcionais passavam-se com “ferro a brasa”, sabendo-se de alguma ou outra família que se valiam do ferro à água quente [fervendo], para as peças mais finas ou sofisticadas. O hábito de se usar roupas engomadas, especialmente em festejos e cerimônias religiosas, livravam-se do “ferro quente” ao fazer-se alisamento a frio usando um bloco de vidro, de madeira alisada, de pedra “fria” polida ou de mármore.
- A empresa americana Black & Decker descreve-nos que “(...) o ferro de passar propriamente dito tem suas primeiras referências a partir do século XVII, com o ferro a brasa. Somente no século XIX surgiram outras modalidades como o ferro de lavadeira, a água quente (...)” – [Soluções Inovadoras, http://www.blackanddecker.com.br/BDInst/Ferr/ferr.asp].
Nos bairros ou nas fazendas as casas eram e funcionavam assim, conforme descritas, servindo às famílias e/ou aos indivíduos como estratégias específicas de sobrevivência, numa época quando o princípio de formação santa-cruzense era agro-pastoril e escravista de negros e indígenas, sustentando-se nos primeiros anos através da economia de subsistência pelo meio da produção de arroz, milho, feijão, mandioca e dos produtos animais.
Com as migrações mineiras entre 1865 – 1870 para a região de Santa Cruz do Rio Pardo, em causa da Guerra do Paraguai e suas conseqüências, apresentaram-se novos mineiros compradores de terras, para residir na área adquirida e assim diretamente trabalhar e administrar a propriedade. Então as construções das casas de fazendas ganharam outras características.
Malgrado a diferença de estilos, pois que nunca houve um padrão arquitetônico regional para as residências da época, as construções das novas moradias ou reformas e ampliações das antigas, percebiam-se características das casas construídas elevadas do solo, ou em desnível, deixando um vão – espécie de porão aberto em todo ou em parte, aproveitando-se o espaço para guardar as carroças de uso familiar, as lenhas e outros apetrechos necessários no dia a dia, além de abrigo às aves e animais domésticos de pequeno porte.
As residências adquiriram outro predicado comum, as grandes varandas para a entrada da casa. Nestas construções se viam amplas salas e copas [onde a mesa para refeições], o quarto do casal, os distinguidos para os filhos e filhas, um dormitório aos hóspedes eventuais, e um cômodo conjugado – quarto / varanda, aos fundos ou anexo à construção principal, para a moradia de membro da família, idoso ou dependente.
Uma seguinte melhoria introduzida, quase sem exceções, as cozinhas eram destacadas, porém interligadas à casa, via de regra por lanços [degraus conforme o desnível], num nível mais baixo para se evitar desconfortos produzidos pelas fumaças engorduradas. Numa ou outra construção uma escada interna ligava diretamente o porão com a cozinha.
Certas casas apresentavam, ao mesmo plano da cozinha, uma área de serviço e, nas residências de melhor conforto, o reservatório subterrâneo de águas potáveis, mas o poço quase sempre se situava sob uma cobertura, fora dos limites da residência, pelos perigos do desmoronamento.
- Poço individual não se prestava como regra comum, e sim o coletivo para famílias residentes próximas. Num ou outro lugar, sempre que possível, trazia-se a água de uma mina ou de um regato desviado através de canalizações em regos ou bambus.
Algumas áreas de serviços possuíam um cômodo no subsolo, todo de terra com armações especiais, para armazenamento de bebidas [engarrafadas ou colocadas em vasilhames de barro], legumes, frutas e conservas que, se colocadas no início do inverno e cobertos com palhas, mantinham-se refrescados e sadios até a primavera. Não se tratava apenas de um buraco cavado no solo, porque um conservador subterrâneo exigia conhecimentos e técnicas para sua construção, como a proximidade com lençol freático, tipo de solo / subsolo e a segurança do cômodo para evitar arrasamentos, entre outras exigências encarecedoras do projeto.
Para o banho existia um ambiente anexo, geralmente próximo da cozinha, com janela de comunicação a facilitar colocação de água morna num corote ou lata de 20 litros aproximadamente, que se transforma num aspersor improvisado. Com a chegada dos funileiros os “chuveiros” – baldes com as duchas acopladas, ganharam destaques de conforto.
As melhorias introduzidas não eliminaram alguns transtornos. O local para as dejeções era o desconforto para qualquer residência, rica ou pobre, tanto nos bairros, quanto nas fazendas; naqueles tempos usava-se a latrina, um pequeno cômodo coberto, assoalhado e com um buraco central ou assento sobre escavação no solo aonde lançados os excrementos.
O uso de latrina sempre foi constrangedor e dificultoso. À noite os dejetos eram colhidos em penicos para lanço na manhã seguinte; em dias de temporais a regra estava em se segurar ao máximo, principalmente para as mulheres.
Construída via de norma distante da casa, pela importunação fétida e das moscas e outros inoportunos, a latrina nem sempre estava localizada à jusante do poço de água, assim inevitáveis contaminações da água servida para a família. Algumas latrinas estavam próximas dos chiqueiros para mascaramento dos odores.
- Diziam os antigos que algumas famílias construíam as “casinhas” elevadas do chão, sem nenhuma cavação, e as dejeções eram consumidas por porcos e aves; outras usavam as moitas para as necessidades, e os excrementos ficavam igualmente disponíveis àqueles animais. Sem dúvidas tais procedimentos, ainda observáveis no primeiro quartel do século XX [citado LC Abreu Sodré – 1923], eram focos certos de verminoses severas, sendo comuns os chamados vermes do amarelão e da barriga d’água.
Outra grande dificuldade estava em enfrentar a escuridão, e para isto usavam-se as lamparinas “movidas” por gordura animal – um vasilhame onde colocado o óleo animal e tapado por cortiça ou madeira leve, pela qual passava o pavio responsável pela produção da chama. Enquanto houvesse gordura e pavio, a luz existia.
Algumas famílias valiam-se do candil preso à parede ou suspenso, com recipiente de barro ou ferro, envolto em folha-de flandres, abastecido com banha de porco na qual se embebia um pavio para nele por fogo, ou o óleo do carrapicho, excelente para este determinado fim. Outras usavam velas de sebo animal, sem descartar as lamparinas a óleo / gordura.
- Com a descoberta do petróleo, desde 1860, o querosene passou a ser empregado em substituição ao óleo animal, porém artigo de luxo nos rincões mais distantes dos centros comerciais, pelo menos nos primeiros anos. O querosene podia ser usado em lamparinas, porém melhor utilizado nos lampiões, com a chama protegida por um tubo de vidro no qual a circulação de ar enriquecendo o oxigênio, com isso uma melhor luminosidade, além da vantagem do regulador da chama. O uso do gás acetileno somente chegaria para Santa Cruz do Rio Pardo no final do século, ainda assim apenas para a iluminação pública, preferindo os moradores o uso doméstico do querosene até o advento da energia elétrica.
VIDA SERTANEJA NO VALE PARANAPANEMA
As famílias somente chegaram ao Vale Paranapanema quando já “amanhado o sertão“, por volta de 1856, após longas e difíceis jornadas, em caravanas com três ou mais carros de boi, carroções e carroças, burros de carga, montarias, arrastadores para cargas menores ou de difíceis transportes, escravos negros de algumas famílias com maiores recursos, familiares quase todos, os homens, as mulheres, os jovens, os velhos e as crianças, ou sejam, filhos, genros, cunhados, netos, pais, tios e avós. São diversos os registros de crianças que nasceram em carro de boi improvisado de moradia ambulante.
Os migrantes traziam juntamente todos os seus pertences básicos, tudo quanto podiam transportar, por caminhos vagarosos porque conduziam também seus animais domesticados, entre os quais os suínos, muares, eqüinos, bovinos, ovinos e caprinos, além das crias, muitas nascidas durante a jornada, não se esquecendo dos gatos e cães. Traziam ainda galináceos e outras aves domesticadas, como patos, perus, gansos e galinhas de angola.
Os sertanejos tinham armas, munições, mantimentos, ferramentas e a esperança de conseguir terras por um bom preço, arrendar, mear ou simplesmente empregar-se para um dia, quem sabe, tornar-se proprietário também. Os mineiros para a região vinham praticamente dos mesmos lugares das Minas Gerais, daqueles que saíram décadas ou anos antes para as terras de Araraquara, sendo suas caravanas atrações pelos caminhos onde passavam, a convidar gentes da própria província de São Paulo que, por vezes, resolviam acompanhá-los naquelas aventuras.
- Entre as cidades mineiras de onde saiam caravanas se destacam Alfenas, Botelhos, Cabo Verde, Caldas, Cambuí, Campestre, Caracol, Carmo, Carmo da Escaramuça, Carmo do Pouso Alto, Cristina, Escaramuça, Itajubá, Jacuí, Passos, São Gonçalo do Sapucaí, São João do Jaguari, São Joaquim da Serra Negra, São José do Paraíso, Vila Nova de Rezende.
Muitos compradores de terras não vieram de imediato, mandando em seu lugar o capataz e os trabalhadores necessários. Somente chegaram os fazendeiros com as famílias a partir de 1856, quando as casas nos bairros rurais estavam prontas para recepcioná-los.
Das caravanas de 1856 falam-nos, Giovannetti [página 70] e Antunes [Revista Guia do Mercado de Águas, edição nº 9] enquanto Leoni [página 2] melhor nos esclarece: “Após a ousadia de Theodoro e mesmo a convite deste, outros aventureiros das terras de Minas Gerais, investiram sertão adentro (...). No início, nem Santa Cruz do Rio Pardo existia [ainda era Capela de São Pedro – n.a] e foi nascendo [povoação a povoação] com a entrada destes caboclos no sertão inóspito e absolutamente selvagem”.
- A partir de 1858 algumas famílias, donas de pequenas fazendas, são vistas moradoras nas propriedades, então zona rural propriamente dita.
Moradores nas fazendas ou bairros, a prosperidade de todos estava atrelada no progresso e produção rural. Com isso se diz, se assim se pode efetivamente dizer, que o ritmo produtivo de uma fazenda ditava a expansão de suas atividades e riquezas, com conseqüentes melhorias para sua população em geral.
As fazendas prosperaram e os nascidos de proprietários quase sempre se tornaram donos de outras terras, qual típico processo [proprietariado] de expansão familiar da atividade rural. O proprietariado indicava para a época, em média, três outras famílias agregadas, em geral moradoras na zona rural, mas nem todos os seus filhos prestavam serviços para o mesmo patrão.
Todos viviam em função das fazendas como proprietários e empregados, e quase tudo as fazendas produziam o que, de certa maneira, garantia o bem estar para sua população.
A vida, no entanto, não se resumia dentro de uma fazenda ou de algum bairro regional. Da precisão de alguns produtos indispensáveis à vida sertaneja, ou mesmo garantia de sobrevivência, obrigou os pioneiros produzirem excedentes para trocas ou vendas, com objetivos de conseguir satisfazer necessidades. Então se organizavam as grandes caravanas para as viagens comerciais com objetivos de vendas e trocas dos excedentes, e compras de genros de necessidades, unindo-se grupos de famílias para melhor aproveitamento dos veículos disponíveis e segurança pessoal.
Mulheres raramente acompanhavam caravanas em viagens comerciais, e quando participavam, se ajeitavam nos carroções. Uma ou outra, a cavalo, usava cela própria – que impropriamente chamavam de cilhão, onde a mulher sentava-se de lado, com as duas pernas juntas.
Os excedentes eram tecidos manufaturados, esteiras, cestas, balaios, doces em calda ou cristalizados, queijos, rapaduras, fumo e cereais postos em carroções e carros de boi, mas as principais mercadorias eram de origem animal, carne de porco conservada em banha suína derretida e acondicionada em latas ou potes, toucinho salgado ou defumado [esfumaçado], charques, carnes de fumeiro, lingüiças [secas, defumadas ou acondicionadas em gordura animal], embaladas e protegidas em palhas de milho, acondicionadas em balaios de taquaras e postos nos carroções, quando não em jacás de taquara ou de cipó levados às costas de animais. Ainda eram levados couros bovinos, salgados ou estacados.
Os balaios acomodavam mais ou menos quatro arrobas de mercadoria – 60 quilos, enquanto nos jacás não ultrapassavam os 25 quilos.
Um carro de boi tinha capacidade para mais de tonelada e meia de carga, o carroção não indo além dos trezentos quilos; tipos carretões mais ou menos mistos de carro de boi tinham capacidade de até meia tonelada.
Alguns pioneiros faziam também uso de força escrava [de negros e índios] para transportar mercadorias.
As mercadorias eram adequadas e sobrepostas nos respectivos carros de boi, cujos lados, feitos de esteiras trançadas em taquaras removíveis, tinham altura entre 1,00 a 1,20 metros, com teto trabalhado em couro de boi. Assim os comboios saiam para uma viagem de ida, para além de dezoito dias em tempo bom, um carro após outro, com guieiros ao lado tangendo os bois.
As mulas iam, com cangalhas postas a sustentar sacos de couro para transporte de objetos e mercadorias de uso diário – panelas e mantimentos, e iam as marchas lentas na frente ou seguindo as carretas carregadas e os carros de bois, com aquele ranger característico do atrito do eixo de madeira com o mancal também de madeira. Cada muar levava às costas cinqüenta quilos sem muitos esforços.
Algumas caravanas valiam-se do arrastador, um tabuão ou tábuas sobre sarrafões atrelados a um animal, com capacidade para mais ou menos cem quilos de tralhas e ferramentas de uso mais contínuo durante a viagem. Veículos do tipo podiam ser adaptados com pequenas rodas em madeira ou de ferro.
Os donos das mercadorias montados a cavalo, por vezes a pé, em outras se revezando, cuidavam de todos os detalhes e constantemente se informavam, por sinais, com os batedores ou guias que, distantes do grupo, cuidavam da segurança de todos, por exemplo, da presença de índios.
Pouco variava os hábitos das caravanas; às quatro horas colocavam os bois e demais alimárias para pastagem, sob rígida vigilância, enquanto os responsáveis pela cozinha preparavam a refeição da hora, arroz, feijão com torresmo ou couro de porco, carne-seca, carne de gordura ou carne fresca de alguma caça abatida pelos caminhos. Geralmente o arroz era preparado com algum ingrediente adicional, ovo, lingüiça ou pedaços de toucinho, sendo as refeições preparadas em panelas de ferro sobre suporte de três escoras – trempe ou tripé, e ao final da refeição era servido o fedegoso adoçado com rapadura, antes de uma boa pitada num cigarro de palha ou cachimbo de barro.
Ao alvorar se punham em caminho até por volta do meio dia, quando paravam para o almoço rápido, a paçoca, ou seja, farinha de milho socada no pilão com carne de carne de boi, ou de porco, frango ou, ainda, de algum animal silvestre como cateto, paca, cotia e veado. Esta parada quase sempre acontecia à beira de alguma aguada para que os animais pudessem saciar a sede.
A caminhada às vezes era interrompida por quebra de algum carro, uma ou outra ponte que precisava de reparos, chuvas que impediam a marcha, quando não a presença do índio feroz que, embora raramente atacasse caravanas, durante noite soltava animais, rondava o acampamento, ou lançava fogo nos carroções fazendo perder as mercadorias.
Quando do entardecer faziam a parada de pouso, onde novamente se alimentavam daquela paçoca preparada em casa – pouco antes da partida, acondicionada em picuás e geralmente suficiente para toda viagem, ida e volta. Os animais eram atrelados para pastagem, os bois um a outro por tiras de couro, passante pelos furos nas pontas dos chifres, enquanto os cavalos e burros também eram amarrados aos pares, pelo pescoço, para evitar fugas.
Os guias ou batedores que se adiantavam do grupo, escolhiam o lugar da parada noturna e cercavam com laços, cordas e sovéis um espaço de campo, com aguada e pastagem, e sobre os estirões colocavam galhos de árvores de modo impedir que os animais fossem além dos limites ou que pudessem escapar. Assim os homens podiam se alimentar, tomar o fedegoso, conversar ao pé do fogo até que lhes chegasse o sono e assim pudessem dormir em suas esteiras – alguns se utilizavam redes, sob os carros de boi ou mesmo ao relento, com a arma sempre ao alcance das mãos.
O destino era Lençóis em causa do porto, junto ao Tietê, para escoamento de mercadorias, dividindo com São Domingos e São Manoel a preferência do sertanejo para seus acertos – [Tidei Lima, p. 107/108]. Nestas viagens os sertanejos aproveitavam oportunidades para, além de negociar seus produtos, cuidar de assuntos cartoriais como registros de documentos, títulos, escrituras e certidões.
José Jorge Junior, em qual trabalho baseado tais descrições, das p viagens comerciais sertanejas aos mercados distantes, concluímos que os antigos sertanejos viandantes “Terminadas as transações, que procuravam realizar o mais rápido possível, iniciavam a grande viagem de volta por mais outros 18 ou 19 dias de caminhada” – [Zeca Jorge, Um Pouco de História da Alta Sorocabana – IX, edição de 1/10/1967, publicação Jornal a Semana, Paraguaçu Paulista - SP].
Os sertanejos também transportavam cargas vivas para negociações – em geral bois / vacas e, principalmente, porcos, separados em lotes ou tropas, às vezes com mais de quinhentos animais conduzidos vivos, a pé, até os portos e entrepostos, para vendas diretas de “carne verde” aos monçoeiros e/ou embarques para as localidades compradoras.
- “O povoamento se processou, aqui, por avanço dos criadores de gado, principalmente de suínos...” – [REVISTA PANORAMA, do Centro de Estudos Geográficos – Instituto de Educação Leônidas do Amaral Vieira, Santa Cruz do Rio Pardo, sob a responsabilidade do Professor Carlos Frederico dos Santos Silva e equipe, publicação Oficinas da Escola Tipográfica Dominicana – SCR. Pardo / SP, fascículo nº 1 (ano 1) – agosto de 1954, páginas 5].
Porém, não era nada fácil guiar suínos pelos caminhos, muito mais pela demora que o trabalho em si, por isso a opção de vendas para os negociantes [chamados safristas] que, geralmente com seus escravos, percorriam o sertão para compras de mercadorias, diretamente dos produtores e criadores, para vendas junto aos grandes centros consumidores ou mesmo diretamente aos consumidores, em armazéns próprios ou nos entrepostos. Os produtos agrícolas eram levados em carros de bois e carroções, enquanto os animais eram separados em lotes ou tropas, por espécies, e conduzidos por escravos até o destino.
Os safristas praticavam a mascateação no aproveitamento das viagens pelo sertão – assunto já referido, sempre com “novidades” para vendas ou barganhas no sertão, desde objetos manufaturados, artigos do lar, ferramentas para o trabalho, panos para confecções de roupas, jóias, armas, munições, querosene e até o sal. Nos últimos anos do século XIX os sírios e os libaneses se destacam os melhores mascateiros do sertão.
- Entendemos que foram os safristas, ou mascateiros, os grandes responsáveis pela produção agrícola e pastoril de mercado, inclusive de derivados e manufaturas para a região.
Afora o poder aquisitivo em adquirir “as novidades” ou maiores quantidades do básico, no dia a dia os sertanejos tinham procedimentos e necessidades iguais, por isso não eram entre si distinguidos sócio-economicamente, exceto que todos sabiam quem eram os proprietários e os empregados, porque o sertão a todos tratava igualmente.
Tinham sabedorias compartilhadas para diminuir dependência de produtos raros, por exemplo, o sal, que faltava em todo o sertão, era substituído pelos suores dos muares e cavalares. Mantas de carnes, para salgamento, eram carregadas diretamente às costas daquelas alimárias e abrigadas pelos bacheros e arreios; com um pano sobre as costas dos animais em serviço retirava-se o suor para uso culinário.
Quando a cultura do café ainda ausente na região, já vimos, utilizava-se o fedegoso – planta nativa de cujos grãos obtinha-se a bebida “substituta” do café.
Igualmente comuns aos sertanejos, os utensílios de cerâmicas [artesanais à moda dos índios], os cestos de taquaras, os móveis de madeira, o fogão e o forno de pedras ou de barro – estes elevado sobre um tablado de madeira, aqueles diretamente assentados ao chão.
O couro animal foi outro elemento bastante importante e igual para os sertanistas. Sobre o couro estirado em estacas podia-se dormir diretamente ou sobre ele colocar o colchão recheado de palha de milho; as “cobertas” eram de couro amaciado, cordas e laços eram de couro, assim como as sacolas, mochilas, alforjes, bruacas [malas], bainhas, guaiacas e os embornais [surrões] alparcatas [com canos protetores das pernas], as padiolas [bangüês] para sepultamentos, entre outras serventias.
As roças de fumo, de abóbora e cana-de-açúcar vegetavam abundantemente nas datas, cercados e carreadores sendo nestas condições, de uso comum, de maneira que numa casa não faltava a garapa, para adoçante, nem a abóbora e nem o fumo.
Também o transporte nivelava ricos e pobres, nas marchas a pé, de carroções, carros de boi ou em montarias. Os patrões, obviamente, nem sempre se sujeitavam acompanhar as caravanas, fazendo-se representados pelos capatazes.
Para o pobre ou rico, a alimentação consistia naquilo que plantavam: arroz, feijão, milho, mandioca, abóbora, batata-doce, inhame e as verduras silvestres ou em domesticação, como agrião, almeirão, caruru, chicória, mostarda, serralha e taioba entre outras.
Também pescavam [variedades de peixes, camarão dos rios, pirambóia, cágado – semi-aquático]; caçavam [aves: codorna, marreco, nhambu, pomba; os animais: anta, cateto, cotia, macaco, paca, preá, queixada, preá, tapiti – conhecido por lebre-do-mato, tatu, teiú e veados; e os insetos: içá e gafanhoto]; colhiam [por extrativismo: folhas, frutas, mel, ovos e raízes silvestres]; e abatiam animais domesticados para o consumo da carne e derivados [bovino, caprino, ovino, e suíno; mais as aves e produtos: galinha, galinha-d’angola, pato].
- O sertanejo não tinha costume de alimentar-se de animais carnívoros, mas os abatiam para a segurança e o uso da pele, por exemplos, o cachorro-do-mato, o gato-do-mato, a jaguatirica, onça [pintada], raposa, suçuarana [onça parda]; aqueles inoportunos: camundongo, cobras, gambá, ratazanas, rato do banhado e rato silvestre; e as aves de rapina.
Acerca da culinária sertaneja, mineira por excelência, compreende-se a mistura de sabores ibérico português com o indígena e africano, “(...) sem o uso de temperos fortes, o uso abundante do limão e da cachaça no preparo das carnes, de pouquíssimo sal e gordura só para o refogado e a conservação das carnes, colorida pelo urucum e pelos brotos nativos” – Revista Viola Caipira – Na Cozinha da Fazenda, publicação em sítio eletrônico http://www.revistaviolacaipira.com.br/link19-03-11.htm].
Destacam-se pratos típicos sertanejos da época, o arroz e feijão tropeiro, virado de feijão, cuscuz de legumes, ovos [cozidos, fritos e omeletes] cozinhados diversos de carnes, carnes de sol, paçocas de carnes – inclusive de frango, lingüiças, refogados vegetais e animais, peixes, raízes – destacando-se a mandioca e inhames, abóbora madura – picada ou recheada canjicas com carnes cozidas de boi ou costelas de porco, cozidos e cabidelas de frangos ou galinhas, farofas de miúdos, rabada, buchada e bucho de porco recheado. Para épocas de festejos faziam-se leitão a pururuca, pernil assado, lombo suíno e lagarto bovino recheados, frango cozido ou assado, toutiço fatiado e assados de alcatra.
- O costume aos domingos de se fazer frango cozido com macarronada somente surgiu com a chegada dos imigrantes italianos quase ao final do século.
As bebidas fortes eram a cachaça de cana – pura, quentão e a caipirinha [pinga com limão e açúcar mascavo], sendo ainda apreciados variados tipos de licores e as variedades de “cauim”, ou sejam, fermentados de mandioca, de milho e de frutas nativas. Faziam sucos de frutas para as crianças licores
Acompanhavam as bebidas petiscos e tira-gostos como o lambari - pequeno peixe frito ou tostado, biju de mandioca ou milho, farofa de içá – parte traseira da formiga rainha carregada de ovos, lingüiça fatiada, chouriço, cú-de-galinha – rosquinhas em forma circular, e o urupígio da ave – também conhecido por sobrecu.
Para o desjejum matinal faziam rosquinhas de pinga, bolinhos de sobra de arroz, empapados de mandioca, broas de milho, bolo de fubá e o pão feito de farinhas de milho ou de mandioca - fermentado com o muco do estomago do porco, conseguido com sal, sendo tal fermento também usado como “coalho” para se fazer derivados do leite, como o queijo e requeijão servidos à mesa para a primeira refeição do dia.
Os doces eram poucos, como os de frutas cristalizadas ou em caldas – laranja em gomos, abóbora, jaracatiá e mamão – ralados ou em pedaços, bananadas, a bananinha – feita com banana amassada e farinhas, marmeladas – pasta de marmelo, pudins, manjares, mamão ralado ou em pedaços e o furrundum – doce de cidra em partes ou ralada preparada com melaço de cana.
A pamonha, o curau e os assados [bolos], derivados do milho verde, eram conhecidos como pratos de época ou de colheita.
Os sertanejos, assim, viviam espécie de sociedade igualitária e participativa, com distinções apenas quanto às habilidades e dons, uns músicos, outros cantadores, os artesãos, os mais ou menos religiosos, e assim se preenchiam não apenas nas precisões como nas folganças e interações lúdico-religiosas das principais devoções e tradições mineiras.
Porém, o ser homem e ser mulher no sertão já seguro implicavam distinções de atividades.
O homem, sem o perigo indígena e afastadas as feras predadoras, salvo alguns inconvenientes, já se dedicava mais ao campo, à atividade agrícola ou de pecuária, e estes têm como atividades lúdicas o conferir as armas, ajustar os artigos de montarias, cuidar os animais de lida ou de engorda, escorvar galos de briga, alimentar pássaros aprisionados, beber cachaça e jogar cartas. Num fim de semana, às vezes, após a reza, grupos partiam para caçadas ou pescarias, ou, individualmente, alguém levava a família para alguma visita mais distante, a amigos ou parentes, ou para participações em festas religiosas que terminavam em bailados.
Outras diversões comuns naqueles tempos, exclusivas aos homens, eram as touradas, montarias, laçadas e pealos em animais bravios ou chucros – bovinos, eqüinos e muares; a fama de bom montador, ou sucesso em quaisquer das modalidades, corria os sertões. A presença de mulheres nestas ocasiões não era bem vista.
As mulheres, desde jovens, eram alocadas para as prendas domésticas: cuidar da casa, lidar com as crianças, por a mesa e fazer doces, condimentos, bolos, bolachas e bijus. Não paravam por aí, tinham que coser roupas; fazer bordados, rendas, tecidos e assim uma série de atividades sem fim para a satisfação de todos do lar e visitas.
Segregadas pela tradição quase sempre apenas aparecia para saudar e despedir visitantes e, no mais, enfurnavam-se nas atividades do dia a dia. Se participassem de visitas a outras famílias, nem lá cessavam os serviços, ajudando a dona da casa ou, enquanto conversavam amenidades, trocavam receitas e nem assim paravam os seus próprios bordados ou tricôs cujos materiais carregavam consigo.
Os jovens tinham mais liberdades nestas visitas ou encontros de famílias amigas, quase sempre encontrando pessoas da idade para brincadeiras ou conversas.
Os rapazes, depois de uma certa idade saiam nos fins de semana, inclusive voltando altas horas da noite ou de madrugada. Às moças não eram permitidas tais andanças, nem mesmo acompanhadas e irmãos ou responsáveis.
Crianças nas escolas somente a partir de 1877, quando os professores designados para o sertão, para o ensino das primeiras letras. Apenas por volta dos anos de 1890, com o sucesso das lavouras cafeeiras, as moças ricas tinham oportunidades de estudos fora do lugar e se formavam professoras, e os moços tornavam-se bacharéis.
No geral, o sertanejo era ativo comparte das festas do Divino, dos Santos Reis, dos dias dedicados aos santos populares – São Pedro, São João, São José e Santo Antonio além daqueles de devoção individual ou familiar, todos celebrados com rezas, comilanças e bailados. Outro notório costume, nestas festas, era a realização de quermesse, espécie de feira paroquial em data consagrada ao orago da povoação, com grandes folguedos populares.
- À medida de maior segurança nos sertões, tais participações tornavam-se mais freqüentes.
Famílias, às vezes vindas de lugares distantes, se reuniam em grande júbilo durante as festas de natal e passagem de ano. Parentes da localidade ou região eram presenças garantidas nas realizações de batizados, crismas e casamentos, da mesma forma que comparecentes em velórios e rezas especiais – novenas e trezenas.
A comemoração religiosa do Natal, muito mais congraçamento e grande festa em família, era marcada pelas visitas de parentes e amigos distantes, e a festança estendia-se até a passagem de ano, quando os visitantes iam embora.
Mais marcante que qualquer outra celebração religiosa, a Semana Santa destacava-se como momento significativo nas comunidades do século XIX – nos bairros, com procissões e comoventes cerimônias da paixão - sofrimentos, morte e ressurreição de Jesus Cristo, cuidada com toda devoção possível dentro do catolicismo popular.
As grandes participações na dita Semana Santa somente ocorreriam após 1880, iniciada no Domingo de Ramos – com o “benzimento” das palmas ou a consagração, quando sem a presença do padre, para a seguir rezas meditativas e com cânticos populares quanto ao mistério da paixão e morte de Jesus, na segunda, terça e quarta feira santas. Na quinta-feira – endoenças, saiam procissões com andores de Maria e Jesus, um da capela e outro da casa de um fiel – por representatividade da via sacra, com passagens meditativas, até quando Verônica – uma mulher numa cantiga de lamúria se aproxima do Senhor representado e lhe enxuga as faces, para depois o ápice, o encontro de Jesus e Maria, frente a frente durante todo um sermão ilustrativo – sermão das sete palavras, pregado por algum beato inspirado no dia-a-dia do sertanejo, daí os séqüitos se juntavam com destino à capela.
- Ás vezes a solenidade podia contar com a presença de um padre visitador ou algum místico, destes que saiam pelos sertões “vendendo” suas rezas e sacramentos, e então as celebrações se faziam mais ritualizadas.
Na noite de quinta para sexta-feira acontecia a guarda do Santíssimo, na igreja, sendo a sexta-feira o dia do respeito e luto, onde não se podia gritar, gargalhar ou qualquer ato de diversão, para a noite sair a procissão com o andor do senhor morto – carregado pelos ilustres, seguido pela padiola com a imagem de Maria – conduzido pelos consagrados ou beatos, seguidos de Verônica, parando de quando em quando para que ela, naquela mesma cantarola, desenrolasse a toalha, onde estampado o rosto de Jesus, mostrando-a a todos e depois enrolando para tudo se repetir na próxima parada.
As procissões eram iluminadas à luz de velas de sebo.
No sábado os fiéis linchavam o Judas – feito de trapos e palhas de milho, o arrastavam pelo povoado e o dependuravam enforcado numa árvore, para a malhação final – tipo de esquartejamento, para a noite todos se reunirem na capela aguardando, em vigília, a ressurreição de Cristo, celebrada com rezas e depois festas.
- Na Semana Santa, de domingo a segunda, as chamadas carnes vermelhas não faziam parte da mesa do sertanejo, somente a partir do sábado. Rios, à página 71, descreve-nos a celebração já a partir de 1873, com a presença do padre e das irmandades do Santíssimo Sacramento, com encenações mais criteriosas, ano a ano, com aperfeiçoamentos e maior número de fiéis, de acordo com as regras da Igreja.
Quase tudo motivava festas e nestas aconteciam os bailes, destacando-se o cateretê ou catira, dança rural de salão ou galpão, eminentemente masculina, com pessoas em fileiras opostas que, ao som de cantos, sons de violas em ritmos sincronizados com palmas e sapateados. As cantorias são temas do cotidiano: o trabalho, a vida social, os amores complicados e as saudades.
- Para o lexicógrafo Aurélio Buarque de Holanda, o Catira surgiu em meados do século XIX, originário do Cateretê – [COELHO Maria Carolina, Revista Viola Caipira – Universo Caipira, artigo O Catira [http://www.revistaviolacaipira.com.br/link19-03-12.htm], e com ele concordam muitos pesquisadores, havendo, no entanto, outros estudiosos que apontam diferenças apenas regionais de denominações, além daqueles com opiniões diversas. Entendemos hoje Cateretê e Catira o mesmo canto / dança, aberto inclusive às mulheres, destacando que o Cateretê, trazido pelos mineiros ao Vale Paranapanema, era realizado dentro de clima respeitoso e de mensagem cordial, enquanto o Catira, embora o mesmo segmento cultural, buscava por desafios e insinuações em suas letras, às vezes até situações de desavenças.
A festa do catira ou cateretê, igual praticado hoje, “inicia-se com o canto intitulado ‘cabeçalho’, que é uma saudação que se faz aos violeiros, entoando a mesma melodia da moda ao som de palmas e sapateados. Ainda neste início os violeiros e catireiros formam uma grande roda e continuam a sapatear. Quando a roda se completa há o retorno, onde cada um volta ao seu lugar com a mesma coreografia e a moda se inicia. Quando a moda termina, os violeiros começam o rasqueado, iniciando também o ‘recortado’. O catira sempre é finalizado com o ‘recortado’, uma letra marcada pelo humor. Durante o recortado os catireiros, acompanhados dos violeiros, ficam dispostos em duas fileiras e trocam de lugar a cada estrofe da moda, até que os violeiros cheguem aos lugares iniciais, indicando o fim da dança” – [Carolina Coelho].
As danças aconteciam, na maioria das vezes, à noite após um dia de trabalho – colheita de mutirão numa determinada propriedade, em festas e aí não tinha horário, destacando-se que nas colheitas do milho verde, enquanto as mulheres faziam o curau e pamonha, os homens dançavam reservadamente.
Outro tipo de dança masculina da época era o Cururu – oriundo das catequeses jesuíticas, também palmeada e sapateada, tipo coreografia indígena com agrupamento em círculo, apresentada através dos cânticos de louvações aos personagens bíblicos e aos santos – ladainhas, contando suas histórias e grandes feitos, sempre com o canto iniciado de improviso por algum sorteado, ao som de violas, pandeiros e cavaquinhos, enquanto os demais dançavam. Se o cantador errava suas apologias, geralmente de propósito ou que merecesse ser aparteado, de imediato era repreendido por outro cantador – com um sutil repique de viola e assim iniciava-se um desafio.
A grande expectativa do Cururu era a predeterminação do cantador primeiro - chamado pedestre, e o seu parceiro que era sempre o três, enquanto o dois era escolhido para a réplica sendo o seu parceiro o número quatro. As definições eram aleatórias, por retiradas de números de dentro de um chapéu. O três sempre auxiliava o pedestre, e o quarto apoiava a opinião do dois, existindo ainda o provocador ou provocadores que incitavam os cantadores e a platéia.
- “Dentro desse universo chamado cururu, há um vocabulário específico, há personagens, formas de cantar e de tocar, histórias, rostos, e regras básicas, respeitadas por todos os cantadores. A principal delas é seguir rimas, ou seja, o primeiro cantador ou “pedestre” puxa uma rima (ou carreira como é mais chamada) e os outros cantadores devem cantar nessa mesma carreira. Depois que todos os desafiantes cantam, volta a vez para o primeiro, o qual canta numa nova carreira que também deverá ser seguida por todos os outros cantadores. (...) Nenhum cantador gosta de ser “pedestre” e por esse motivo se faz o sorteio. É o primeiro cantador quem testa o gosto e o humor do público com temas bíblicos, histórias, humorismo e demais temas, até descobrir o que mais agrada e ali permanece” – [Viola Caipira, Cururu, artigo da Redação].
No oeste paulista – Vales do Médio Tietê e do Paranapanema o Cururu chegou já modificado, sem o caráter unicamente religioso, para se tornar profano, com letras remetidas à natureza humana e explorações de defeitos.
A quadrilha, ou quatro pares, originalmente dança francesa de salão “se inseriu nas danças brasileiras e, passando por algumas adaptações, deixou o meio urbano e começou a fazer parte da vida rural e a ser peça fundamental nas festas juninas. (...) A encenação de um casamento na abertura da dança representa a celebração de aspirações matrimoniais, também ligadas às festas de São João européias” – [MORAIS Mariana, Festa Junina, 29/05/2008
http://www.obaoba.com.br/Especial/Default.aspx?sid=11&cid=53&scid=0].
No sertão a dança foi adaptada ao típico estilo sertanejo, dançando respeitosamente homem e mulher, sem formar par fixo, e as canções sempre acompanhadas de instrumentos: viola, cavaquinho, violão, gaita, zabumba e pandeiro. A sanfona ou acordeom somente foi introduzido com a chegada dos italianos.
A dança da quadrilha ainda permanece bastante ativa nas festas de junho e julho, e bastante representada nas escolas como folclore.
Sempre n’alguma festa familiar acontecia o baile, acompanhado das modinhas adaptadas e tidas precursoras da música raiz – surgida nos anos de 1914. As danças eram alegres e, às vezes, acompanhadas de cantadores com habituais temas sertanejos dos amores complicados e das saudades, caracterizados por letras românticas e ingênuas.
Outras modas populares, acompanhadas por instrumentos de corda, eram cantigas rimadas e de fácil assimilação, associadas ao sistema de vida sertanejo em louvores à natureza, aos usos e costumes, o apego à terra, o respeito à família, as promessas de amor e a melhoria de vida para se conquistar o amor proibido pelas diferenças sociais. Essas toadas denotavam tristezas e lamúrias, enquanto outras, mais alegres eram próprias das tropeiradas e suas aventuras, às vezes improvisadas e provocativas transformando-se em desafios.
Nos ditos bailes familiares participavam homens e mulheres, dançando em pares, a valsa e a mazurca – esta uma dança polonesa importada para os salões da nobreza e aristocracia no início do século XIX, adaptada a um ritmo mais ligeiro e levada aos sertões, acompanhada de instrumentos da época e dançada em pares dentro de certas regras de respeito e moral.
As danças públicas ou realizadas em salões próprios somente surgiriam bem mais tarde, por volta de 1887, com abertura de clubes e casas de espetáculos.
Dentre os festejos o mais popular era o Entrudo, também a partir da década de 1880, como antigo folguedo carnavalesco de divertimentos diversos nos três dias que antecediam a denominada quarta-feira de cinzas, acontecia principalmente entre os jovens, com muitas danças, pulos, folias, fricotes e músicas, com lançamentos mútuos de água de cheiro e substâncias moídas ou esfareladas destacando-se o pó-de-mico, as farinhas e o alvaiade. Geralmente formadas por blocos – grupos de pessoas, misturando-se brancos e negros, as festas eram excessivas, pelo consumo de bebidas alcoólicas e extravasamentos – manifestações impetuosas.
No sertão fazia-se comum, apenas para o sexo masculino, o Jogo do Pau, um tipo de diversão simulando luta de espada, com técnicas de manejos facilmente adaptadas às coreografias de várias danças. Freqüentemente usado para conflitos entre pessoas, a prática ou o treino do Jogo de Pau tornou-se prática não recomendada pelas autoridades, tolerada, todavia, porque era uma das poucas maneiras de um branco se defrontar de igual para igual com negro capoeira.
- Proibido aos negros, o Jogo do Pau representava a luta [guerra] do rei português D. Sebastião contra os mouros, e as encenações se mostravam ritualizadas como guerra santa. Os brancos eram desde cedo iniciados nestas práticas.
Também os escravos negros tinham os seus festejos e práticas religiosas, evidentemente sincretizadas, em separado, destacando-se a Congada como drama onde figurantes representavam, entre cantos e danças, a coroação de um rei do Congo – Chico Rei e da Rainha Ginga de Angola que, aprisionados, foram trazidos escravos para o Brasil.
A convivência sertaneja do índio e o negro, ou mesmo a fusão deles pelos descendentes, trouxe ritmos variados para o sertão, por exemplo, o samba de terreiro que se diz adaptado na região de Campinas onde recebeu o nome de Caiumba ou Tambú – também chamada umbigada ou batuque paulista, acompanhada de tambor – tronco de árvore ocado a fogo para reprodução de sons, acompanhados por matracas e pandeiros.
Originalmente dança africana da fertilidade, no Brasil com forte a coreografia indígena, o que a torna diferente das diversas variações do samba: “A coreografia apresenta passos com nomes específicos: "visagens" ou "micagens", "peão parado" ou "corrupio", "garranchê", "vênia", "leva-e-traz" ou "cã-cã". Os passos são executados por pares soltos que, saindo em fileiras, circulam livremente pelo terreiro. Mas, o elemento principal da coreografia é a "umbigada", ou seja, quando o ventre da mulher bate à altura do ventre do homem. Os dançadores dão passos laterais arrastados, depois levantam os braços e, batendo palmas acima da cabeça, inclinam o corpo para trás e dão vigorosas batidas com os ventres. Esse gesto é repetido ao fim de todos os passos. No batuque não há batidas de pés e um batuqueiro não dança sempre com a mesma batuqueira. Após três umbigadas procura batucar com outra” – [Texto extraído da matéria Batuque, publicação http://www.rosanevolpatto.trd.br/dancabatuque.htm[
A despeito de fortemente combatida pela Igreja, a Caiumba chegou ao sertão, “com os leva-e-traz, cã-cã, corrupio e umbigadas”, dançada por homens e mulheres nos terreiros ao redor de uma fogueira. A dança tinha muito de sensualidade e letras marotas de protestos e indignações, representativas dos sofrimentos dos escravos em seu dia a dia, dos familiares apartados e distantes, dos amores proibidos ou arrancados, além das aversões expressas contra os preconceitos e as discriminações, vistas por alguns estudiosos como mensagens abolicionistas.
Não dançavam Caiumba os parentes de sexo oposto, nem os vinculados pelo compadresco. Qualquer erro considerado mais ousado pelo homem, ou acidental, este se ajoelhava e, de mãos postas, pedia perdão, mas se os erros fossem repetidos ou vistos intencionais, o praticante era convidado a se retirar.
A dança, em sua parte mais sensual, simulava atos libidinosos entre homens e mulheres, às vezes tão próximos que se falavam aos ouvidos; nesta forma ela invadiu e prevaleceu nas casas de prostituições por décadas no século XX.
Os negros celebravam a Festa dos Reis Magos, a Festa do Divino e a Folia dos Santos Reis, adaptadas à maneira da Congada, assim homenagens a Chico Rei e Ginga de Angola, símbolos da libertação, como tradicionais Festas do Rosário, comemorações sem dúvidas afrontosas ao Clero e à sociedade escravagista. As festas negras eram gritos de liberdade e luta abolicionista.
Assunto polêmico, todavia não podemos ignorar a presença da Irmandade do Rosário e São Benedito “dos homens pretos” no Vale Paranapanema, conseqüentemente em Santa Cruz do Rio Pardo, porque os escravos trazidos para a região procediam, assim como seus senhores, do sul mineiro, onde historicamente ativas as congregações de forros e cativos.
- “No Sul de Minas, haviam muitas irmandades (...), como por exemplo, a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário” – [FRANCO Padre Hiansen Vieira, texto extraído da obra O Clero Paulista no Sul de Minas (1801 – 1900) – publicação Gráfica e Editora São Paulo, Passos, MG, 2003].
Sabemos, da mesma forma, nada fácil juntarmos os retalhos para se reconstituir traços de uma cultura que a Igreja fez arrasar, mas em Santa Cruz do Rio Pardo os negros – escravos e forros, vindos de Minas Gerais nos primeiros tempos da formação regional, eram tidos, sim, simpatizantes da Confraria do Rosário, alguns talvez membros, porque outra razão não teria lhes ser destinado, documentalmente, um lugar denominado Largo do Rosário, para as suas reuniões e folguedos.
Efetivamente Professor Junqueira [p. 56] declara-nos que: “A concentração maior de pessoas de cor negra verificava-se na “13 de maio”, uma praça na Rua Conselheiro Dantas. Ali os homens de cor se confraternizavam sob a proteção da Irmandade de São Benedito. A praça, oficialmente, passou a se chamar Praça Coronel Marcello Gonçalves, a partir de 1893. Mesmo com a nova denominação a voz do povo consagrava como praça “13 de maio” e, mais tarde, ao patrono dos negros, São Benedito”. Apenas a tradição deu lembranças ao orago e ali uma igreja sob sua invocação, mas a praça teve seu nome de 13 de Maio, que se conhecia por Largo São Benedito, mudado para Octaviano Botelho de Souza, Lei Municipal 689, de 14 de abril de 1976.
Então, naquele largo os negros se reuniam, sob evidente abrigo que lhes servia de templo, para a prática de seus cultos e festas sincretizados sob a proteção de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito. porque assim determinava a Confraria, até que “A nova face da Irmandade desperta a antipatia das oligarquias, forçando setores da Igreja Católica a exercer todo o seu poder de coerção para a proibição de práticas estranhas aos ditames sacramentais” - ARAÚJO NETO José Tavares de, A Irmandade do Rosário: de Chico Rei a Manoel Cachoeira, A Luta pela Auto-afirmação de uma Raça, conforme publicação eletrônica http://www.pombalemsaudades.hpgvip.ig.com.br/jtan/serie04.htm].
- “Para as irmandades, a construção da igreja ou capela resultava, sobretudo, da necessidade de compartilhar os interesses coletivos num espaço que lhes garantisse uma certa segurança. (...). A construção de um templo religioso próprio era tida como um dos principais meios para alcançar essa independência, permitindo aliar maior status à maior liberdade de ação (Scarano, 1976)” – [TAYNAR Cássia de, A Igreja do Rosário dos Pretos do Pelourinho: Espaço de Negociações e Conflitos].
Acerca do sagrado, aos negros não era permitido acesso às igrejas dos brancos, às vezes tolerados na lateral do altar. Tal segregação religiosa determinava ao negro constituir, ou o branco lhe impor, espaços próprios de devoção, em lugares distantes do centro urbano, com o levantamento de uma capela, bastante simples, em volta da qual promoviam suas folganças denominadas Congos.
Cezerilo mostra-nos os conflitos: “Essas irmandades tiveram o auge até meados do século 19. Depois disso, com o pontificado de Pio IX e o Concílio do Vaticano I, em 1869, a Igreja passa por uma transformação muito importante, conhecida por período de romanização. Essa fase é marcada por uma nova visão do papel do leigo no interior dessa instituição. Os negros que pertenciam às irmandades foram expulsos das igrejas, por eles mesmos construídas, e no lugar dessas associações foram criadas outras, mais de acordo com o espírito do Concílio” – [CEZERILO Antonia Quintão, autora das obras Lá Vem o Meu Parente: As Irmandades de Pretos e Pardos no Rio de Janeiro e em Pernambuco (Século XVIII) e Irmandades Negras: Outro Espaço de Luta e Resistência (1870–1890), Editora Annablume , 2002, pronunciamento na reunião do Conselho Editorial da Revista E, texto extraído de publicação eletrônica http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas/revistas_link.cfm?Edicao_Id=187&Artigo_ID=2860&
IDCategoria=
3021&Reftype=2].
Parece exagero, todavia o estudioso Martins ao pesquisar paróquias de São Paulo em Arquivos da Cúria Metropolitana, período 1870/1900, leva-nos à conclusão que: “(...) isto se comprova sobejamente nas instruções aos párocos registradas nos livros de tombo paroquiais do final do século XIX - foi, aos poucos, introduzindo modificações no culto e nas cerimônias, (...), fundindo cultos e criando novas festas e devoções, aformatadas às manifestações da Festa do Rosário, a exemplo da Festa dos Reis Magos, Festa do Divino, Folia dos Santos Reis (...) – [MARTINS Tarcisio José, O Quilombo de Minas Gerais, capítulo Irmandades, Cortes, Festas e Manifestações Católicas, publicação página
http://www.mgquilombo.com.br/site/index.php?option=com_content&task=
view&id=20&Itemid=3#_ftnref19].
Araújo Neto apresenta-nos as causas: “Nas celebrações das tradicionais Festas do Rosário, (chamadas de “oragas”, que significa padroeira), é inegável a presença de imagens e ritos profanos, destaque para a música, dança, comilança e consumo de bebidas alcoólicas. Na verdade, a festa era momento único para os negros sentirem o sabor da liberdade, transgredindo normas e preceitos difundidos pelo Estado e pela Igreja Católica. Enquanto a Igreja pregava a libertação da alma, a irmandade estava mais preocupada em romper os grilhões que acorrentavam corpos de um povo, considerado inferior pelo simples fato de ter a cor da pele e a cultura diferentes da raça dominante. Portanto, a verdadeira antinomia existente entre a igreja e a irmandade ia muito além da mera heterogeneidade das concepções doutrinárias de ordens espirituais”.
Com o arrasamento ou proibição de uso do lugar pelos negros, aguardou-se até a abolição da escravatura para lhes devolver o antigo Largo do Rosário, sob a denominação Praça 13 de Maio, mas a tradição deu lembranças ao orago São Benedito.
O sertão, contudo, não era tão somente festas e segregações. O povo da época se irmanava nos momentos difíceis e cuidava-se nas doenças, numa época bastante difícil diante da ausência do profissional médico.
O povo se virava, baseado na experiência geralmente familiar ou dos mais antigos, com aproveitamento de certas espécies vegetais, desde as folhas, frutos, sementes, às cascas e raízes, para beberagens em casos de males internos, ou ungüentos quando de problemas externos. “Nas doenças dispunham de uma infinidade de chás e ungüentos à base de raízes, folhas, sementes, sumos, etc. de real eficácia” – [Jorge Junior, Um Pouco de História da Alta Sorocabana – VIII].
Em casos de torções graves e quebraduras, faziam uso de talas, rígidas ou flexíveis, para imobilizações das partes de membros afetados. Os mais letrados tinham em casa exemplar do Chernoviz, o livro mais eficaz de receitas para todas as doenças conhecidas, e uma farmácia montada com vidros de remédios variados [Cobra, p. 148].
- Chernoviz, conforme conhecido popularmente, trata-se de um Manual de Medicina, de autoria do polonês Piotr Czerniewicz, nome abrasileirado para Pedro Luiz Napoleão Chernoviz (1812-1881), e assim conhecido, servindo tanto para a ciência médica acadêmica, quanto aos leigos de melhores esclarecimentos. O mesmo autor publicou para Médicos o Formulário ou Guia Médico – 1ª. edição em 1841; em 1842 lançou exclusivamente para o público leigo, o Dicionário de Medicina Popular (1ª edição em 1842).
As artes e os ofícios da cura no sertão de Santa Cruz do Rio Pardo chegaram com os mineiros, a partir de 1851, quando uma família ou outra a trazer entre os seus agregados os barbeiros, parteiras, curandeiros, cirurgiões-sangradores, dentistas, boticários e rezadores [benzedores e benzedeiras].
Todos esses sócio-profissionais tiveram suas importâncias e responsabilidades nos primeiros anos de sertão, com as parteiras predominando até as primeiras décadas do século XX.
A obra O Médico e o Cirurgião da Roça [1857], de autoria do médico francês Luiz Francisco Bonjean, se tornou verdadeira obra iniciática de ciências médicas aos seus leitores. O mesmo Bonjean lançou depois, em 1866, lançaria com igual sucesso Os Primeiros Socorros.
Contudo, foram os benzedores e benzedeiras os mais procurados para curar doenças e anular os feitiços, recomendando, preparando e benzendo os medicamentos – chás, garrafadas e ungüentos, através de experiências adquiridas de antepassados ou instrutores versados nas práticas curativas e do místico advindo do catolicismo popular. Aliviavam as doenças do corpo e os males da alma.
Não se têm notícias de qualquer boticário na região, senão por volta de 1890, embora a presença de médicos na região desde o ano de 1872 – Censo IBGE, além de curandeiros, benzedores e parteiras, realidades em todo o sertão oeste paulista do século XIX..
Os sertanejos viveram os primeiros anos de sertão em relativa penúria, com dificuldades e necessidades mais ou menos iguais, todos com objetivos de melhores condições de vida.
Os homens do sertão se diferenciaram após a Guerra da Tríplice Aliança, quando os patrões trocaram suas residências nas fazendas ou nos bairros rurais por uma casa no bairro urbano já conhecido por Santa Cruz do Rio Pardo, a antiga Capela de São Pedro. Também as fazendas mudariam o seu visual depois de 1880, com o incremento da cultura cafeeira e, mais notadamente, a partir da abolição da escravidão negra, razões para as presenças dos imigrantes italianos.
A GUERRA NOS DESTINOS DO SERTÃO
Com a Guerra do Paraguai, José Theodoro viu crescer o seu sertão adiante de São José do Rio Novo [Campos Novos Paulista], a destacar Dourado em partes hoje da cidade de Assis, onde residiu Manoel Alves dos Reis, pioneiro do grupo primitivo, cuja primeira propriedade fazia divisas com Theodoro e Messias José de Andrade, nas imediações do Alambari. Também foram moradores no local o João Martins dos Reis – irmão de Manoel, seu cunhado João Hipólito Alves de Barros – [Giovannetti, p. 52 – Notas], sendo o Hipólito famigerado bugreiro e acompanhante de Theodoro no grupo de 1850/51.
Joaquim Bernardino de Souza – parente de Theodoro, José Flauzino Pereira, João Miranda, Salvino Domiciano Rosa [sobrinho-neto de Theodoro] e Antonio Caçador, todos com posses de terras na Água da Cabiúna – bairro rural na atual região de Assis, em 1870, num latifúndio que foi dito depois propriedade do Capitão Francisco de Assis Nogueira, que teria adquirido em 1866 diretamente de José Theodoro, uma suspeitosa transação igual a Fazenda Taquaral, dando causa a litígio de posse, décadas depois solucionado por divisão judicial e acordos.
Joaquim Melchior de Camargo, abastado e senhor de numerosos escravos e rebanhos [Leoni, p. 4], tornou-se dono da Fazenda Roseta [onde atual distrito com mesmo nome]; da Fazenda Pouso Alegre que abrangeria a gare Cardoso de Almeida; a Fazenda Fortuna ou Água da Serraria nas imediações da hoje Assis; e a Fazenda Pitangueiras, cuja sede se tornou Nossa Senhora do Patrocínio, hoje a cidade de Maracaí. Outros povoados, hoje extintos, se levantaram em seu latifúndio, sendo o Bairro da Cerimônia – também extinguido, o mais famoso deles.
- Cerimônia, durante décadas, foi espécie de povoado de transição para numerosas famílias de desbravadores, adquirentes das aguadas entre os rios Capivara, Sapé, Capivari, São Mateus e rios menores, ribeirões e córregos.
Os avanços continuaram num crescente ímpar. [José] Custódio Vencio e Domingos Ferreira Medeiros, foram para Anhumas – além do rio Laranja Doce; “José Theodorinho” [filho do pioneiro-mor] fez ranchos no ribeirão Água das Mortes – nas proximidades da hoje cidade de Paraguaçu Paulista, onde morreu com todos seus familiares e agregados; José Antonio de Paiva Junior e Manoel Pereira Alvim, às margens do rio São Mateus; Bernardino José de Souza, irmão do pioneiro, na Água do Macuco; Antonio José de Moraes, na Fazenda Pontinhas; Luiz Manoel de Andrade, partes do ribeirão das Antas e margem direita do rio Capivara – barra do rio Capivari; Francisco Hermínio da Costa e outros, em partes da Água do Cervo; João Geraldo, em Ribeirão Grande, e junto a este mesmo Ribeirão, Antonio Leonel Mattoso; João Vieira no Alegre; Salvador Ortiz de Oliveira, no Sapé; Manoel Pedro Dutra, José Gabriel Machado e José Antonio da Silva, no Capivari; Joaquim José Pereira, partes nas vertentes do Capivara com o Ribeirão Grande; João Antonio Martins partes nas vertentes rio Capivara; Fidelis José Rodrigues e João Diniz, rio Paranapanema – barra do Capivara e partes nas vertentes; Martiniano Miguel Pereira, no Cocais; Balbino José de Lima, na Escaramuça; Antonio da Silva, em Rancharia; João Francisco Grillo e João Baptista Leme, na Marambaia – [Cobra, p. 55/56]
- Uns nomes e outros se repetem, nas fontes consultadas, pela flutuação residencial e transações de propriedades – compras, vendas e trocas, com famílias avançando sertão. Outrossim, se têm notícias que algumas micro-bacias ficaram sem compradores, porém ocupadas, outras tiveram documentos duplicados ou triplicados que deram motivos para sérias disputas judiciais. Muitos adquirentes de terras somente vieram apossá-las, ou registrá-las, anos depois, às vezes assim a confundir chegadas e efetivas compras, com larga margem para invasões ou grilagens depois da morte de Theodoro.
Dentre aqueles que avançaram sertões a partir de Santa Cruz do Rio Pardo estão os membros das famílias Pereira Alvim, Paiva, Bicudo, Botelho, Soares, Pontes, Marques do Valle e Andrade.
O bugreiro José Antonio de Paiva Junior, mineiro nascido em 1825, chegou à região de Santa Cruz do Rio Pardo nos primeiros tempos, com o pioneiro Theodoro, antes de seguir, com parte dos familiares e da família Pereira Alvim, rumo a São Mateus – Conceição de Monte Alegre, Distrito que hoje pertence ao município de Paraguaçu Paulista, onde morreu em 1933, aos 106 anos de idade – [Giovannetti, p. 72 / 73]. Curt Nimuendaju [Kurt Unkel], em O Extermínio da Tribo dos Otis, apresenta declarações de José Paiva [José Antonio de Paiva Junior] como partícipe na matança programada de índios Otis – [Tidei Lima, p. 135/136].
Os irmãos Messias e Manoel Bicudo que “vieram de Santa Cruz do Rio Pardo” estão contados entre os pioneiros do extinto povoado de Dourado, em partes hoje da cidade de Assis – [Leoni, p. 4].
Da família Andrade, Luiz Manoel se mudou para a bacia do rio Capivara – [Cobra, p. 88].
As tradições apontam a chegada de Manoel Francisco Soares e família, em 1870, para residir e dar início à história oficial de Santa Cruz do Rio Pardo, selada com a presença residente do duplamente cunhado Joaquim Manoel de Andrade, no ano de 1872, ambos proprietários de terras na região desde os primeiros tempos da colonização mineira.
Soares e Andrade são tidos fundadores oficiais de Santa Cruz do Rio Pardo, aos 20 de janeiro de 1870, o primeiro pela doação de terras para o Patrimônio da Igreja e formação do povoado, enquanto o segundo conseguiu que o povoado fosse elevado à condição de Freguesia.
Manoel Francisco Soares muito se valera da oportunidade para Santa Cruz do Rio Pardo, pois “conseguiu acercar-se de destemidos sertanejos, os quais acedendo aos reiterados convites para aqui emigraram, povoando o terreno do patrimônio e mesmo o de sua propriedade particular” – [Rios, Introdução].
Com a evolução do povoado de Campos Novos e pacificação dos índios para além o rio das Anhumas, Theodoro retornou em 1868 para sua pacata Capela de São João Batista – São Pedro do Turvo.
CONSEQÜÈNCIAS “SERTANEJAS” NO PÓS-GUERRA
Os acontecimentos contam a história que o Brasil, com a Guerra do Paraguai e conseqüências posteriores, endividou-se com a Inglaterra – financiamento da guerra, o custeio do governo-igreja e senado vitalício, a emissão de moedas, a inflação, os problemas militares e escravistas, todos como exemplos da crise que envolveu diversos segmentos sociais e setores econômicos da vida nacional.
No Sertão Paranapanema a guerra otimizara a venda de terras além das expectativas, quase todas as áreas vendidas, apenas “alguns córregos e ribeirões ficaram sem compradores” – [Cobra, p. 56]. Os preços subiram, muitos queriam mais terras férteis do Vale, com forte especulação imobiliária até o rio Anhumas, aonde as vendas chegaram. Era necessário ir além, que Theodoro pusesse logo à venda terras adiante.
Giovannetti [p. 27 / 28] narra uma viagem que Theodoro fez, por volta de 1871, com seu genro Francisco de Paula Moraes, adiante do rio das Anhumas, pelo Paranapanema, até a Cachoeira do Frade, “reconhecendo todos os afluentes que ficavam abaixo do ribeirão Anhumas”, intenção evidente de estender suas posses naquela direção, afinal, que outro interesse teria ele naquela viagem senão avançar divisas?
Para realizar legalmente seus objetivos carecia de uma sentença expedida por um Juiz de Direito, que eram suas aquelas terras omitidas no Registro Paroquial, porém legalmente apossadas e lançadas em memorial descritivo para o qual evocava testemunhos, o que não lhe era difícil, pois todos entendiam suas posses além dos limites estabelecidos naquele registro 516.
Precisava, outrossim, de ato declaratório do poder público atestando-o por pessoa idônea, de bons antecedentes e boa conduta presente, um homem religioso, desbravador sertanista com longa permanência e história no sertão, fundador de povoados e abridor de estradas às próprias expensas e assim mantidas. enfim pessoa de reconhecida utilidade pública sócio-comunitária. Requereu e o teve deferido unânime pela Câmara Municipal de Lençóis, em 1º de março de 1872, páginas 56 – [Chitto].
Não levou adiante seus planos, pois nesta época João da Silva Oliveira, o bugreiro cunhado e procurador de Theodoro, “entendeu de fazer tambem as suas posses, ao tempo em que a do cunhado se acabara" – [Cobra, p. 62] e, assim “apossou-se das Anhumas para baixo” – [Dantas, p. 30 e 31], ao descer “o Paranapanema até a Cachoeira do Frade, não longe da barra deste no rio Paraná, reconhecendo mais os ribeirões Mosquito, Rebojo, Laranjeira e innumeros outros” – [Cobra, p. 61 e 62], “e que se apossou do território até, inclusive à Serra do Diabo, compreendendo ao atual município de Teodoro Sampaio” – [Dantas, p. 29].
Teria sido esta a causa do rompimento das relações entre Theodoro e seu cunhado e procurador João da Silva, embora se possa admitir que a desavença entre eles tenha ocorrido em 1868, quando João da Silva assinou vendas de algumas terras sem o conhecimento do pioneiro-mor, que se viu na obrigação de honrar compromissos. Apontam que foi esse o motivo por que Theodoro passou vender terras diretamente aos compradores, sob a supervisão do sobrinho Vicente sem a participação de João da Silva.
José Theodoro se viu doravante em dificuldades por não saber quanto ainda tinha de terras para vender, nem os números de famílias por chegar ou o lugar onde destiná-las, tal sua dependência do cunhado, e disto se aproveitou João para assinar uns tantos documentos de vendas de terras com datas anteriores, com auxílios dos célebres fazedores de falsas escrituras.
As medidas das posses de Silva eram próximas ou maiores que o tamanho das legitimadas pelo cunhado, análise que “por ahi teremos uma idéia approximada da extensão que o ex-logar tenente de Theodoro reconheceu para deante do ponto extremo que atingira” – [Cobra, p. 62].
Nenhum historiador entendeu certo porque João da Silva não prosseguiu suas posses até as barrancas do Paraná, estando tão próximo.Theodoro também não fora além em suas observações, parando por ali, na Cachoeira do Frade.
De qualquer forma, até onde João da Silva estabelecera os limites, eram terras sem assenhoreamento primário, mas “não podendo registrar <<occupações>>, pois que a lei de 1850 prohibira, traduziu sua intenção nas escripturas de venda, pura e simples, que outorgou como realmente vendesse o que era seu, de muito tempo” – [Cobra, p. 62].
Mas as vendas assim eram difíceis, todos queriam terras de Theodoro em causa da credibilidade e certeza que eram legais. Em pelo menos seis transações de suas posses Silva usou seu genro Antonio de Paula Rodrigues [o Ourives], Joaquim Alves de Lima e outros nomes, reais ou não, que comprariam terras de Theodoro, através dele [Silva] na condição de procurador – já não era mais, com datas retroativas, para permutar com as suas e daí repassá-las aos compradores como propriedades de Theodoro. Tais feitos de João da Silva criariam sérios litígios diante da posterior impossibilidade de regularização fundiária ou reconhecimento legal de propriedade.
Ainda nada refeito da traição do cunhado, pretendeu o pioneiro-mor se voltar, então, para os lados da Serra do Mirante, Vale do Peixe, mas lá João da Silva também chegara antes por “mais terras ignotas, além daquelas. (...) transpoz o espigão que separa o Valle do Paranapanema do Valle do rio do Peixe (...) e assignalou dois ribeirões que não denominou“ – [Cobra, p. 62]. Silva repassou estas terras a João Antonio de Moraes – vulgo João Beraldo, irmão de Francisco de Paula Moraes, o genro de José Theodoro de Souza, cuja intenção de posse foi posteriormente ampliada, para adiante das cabeceiras do rio Capivara às contravertentes avistadas, pelo Vale do Peixe algumas léguas abaixo, quando outorgada escritura de compra e venda de João Beraldo a favor de Francisco de Paula Moraes, de acordo com a descrição:
“Uma fazenda de terras de cultura na serra dos Campos Novos, pendente ao rio Tietê com as divisas seguintes: Principiando, na cabeceira do Rio Capivara, e seguindo pela divisa, que confina com a Fazenda dos Figueiredos até onde faz a demarcação de duas léguas, quebrando a direita, cortando todas as águas passando por baixo da lagoa na primeira fluencia a um ribeirão que faz na lagoa, e sempre seguindo pelo espigão, e confinando sempre com os mesmos Figueiredos, até na mesma serra, por esta seguindo pelo lado do nascente, cercando todas as águas do ribeirão do Peixe, voltando para o poente sempre seguindo pelo espigão, abrangendo todas as vertentes, concernente ao mesmo ribeirão do Peixe, até frontear uma corredeira ao mesmo ribeirão, e de aqui, a extensão de duas léguas pelo mesmo espigão, e de esta raia cortando a rumo direito a mesma serra, voltando pelo cume da serra do Nascente, até onde teve princípio e fim ditas divisas: cuja fazenda assim dita e divisada nesta data vendem e como de fato vendido tinham para o segundo, Francisco de Paula Moraes, pelo preço e quantia de um conto e quinhentos mil réis, que nesta data receberão em moeda corrente, e por isso transferem na pessoa dele comprador toda posse jus domínio e senhorio que em dita fazenda tinham, podendo ele comprador gozar como se sua que fica sendo de hoje para todo sempre: dito isto pelo comprador foi aceito e ai me apresentou certidão de Siza” – [Cobra, p. 67 / 68].
A escritura foi celebrada no Cartório de Jacob Antonio Molitor, em Santa Cruz do Rio Pardo, apenas em 19 de fevereiro de 1877, tratando-se de falcatrua entre João da Silva e Francisco de Paula contra as pretensões de José Theodoro de Souza, com óbvias intenções de se apossar todo o Vale do Peixe, que tributário do Feio/Aguapeí e não do rio Paraná.
- Os antigos tinham que o rio do Peixe era tributário do rio Feio/Aguapeí, não do Paraná, porque não notavam que a barra do Peixe escondia-se atrás da Ilha do Tigre, entre o Peixe e o Paraná, a dividir o Peixe em dois ramos menores para o deságüe, conforme comprovou a Comissão Geográfica do Estado. O célebre mapa adendo à obra Retirada de Laguna, do Visconde de Taunay, também omite a foz do Peixe no rio Paraná, então não apenas uma ignorância sertaneja – [Giovannetti, p. 21 e 132].
Hoje é possível atinar porque João da Silva e Francisco de Paula não estenderam suas posses, Paranapanema e Peixe respectivamente, às barrancas do rio Paraná, postos que unidos juntamente com outro pioneiro, Joaquim Alves de Lima, entre 1868/1871, em detrimento a José Theodoro de Souza, na apropriação conjunta de umas terras que denominaram Fazenda Pirapó-Santo Anastácio, em nome de certo José Antônio Gouveia, de forma a preencher aqueles espaços entre o Peixe e o Paranapanema ao rio Paraná.
Antônio José Gouveia, ou José Antônio Gouveia, havia requerido e extraído registro paroquial daquele latifúndio, denominado Fazenda Pirapó-Santo Anastácio, aos trinta e um do mês de maio de 1856, na Paróquia de São João Batista do Rio Verde – atual Itaporanga, referido registro assinado pelo vigário Pacífico de Monte Calvo. Gouveia declarara, ainda, ser morador no local desde 1848, onde trabalhava com lavoura e criações, numa posse mansa e pacífica, cuja “gleba em questão se estende por uns 300.000 hectares, desde a barra do rio Paranapanema, seguindo por 10 léguas rio Paraná acima e voltando-se para leste, pelas vertentes do rio Pirapó, até encontrar-se de novo com o rio Paranapanema” – [MST – Movimento Sem Terras de São Paulo artigo, Pontal: Do Grande Grilo aos Sem Terra, publicação http://www.mst.org.br/mstsp/pontgril.htm].
Seria esta a descrição do latifúndio, cuja maior extensão situa-se onde o Pontal do Paranapanema, terras ainda em litígio [ano de 2008] originariamente de “José Antônio Gouveia, que segundo depoimentos prestados nos autos do processo de legitimação de posse, pouco tempo ficou por essas paragens, transferindo a sua posse por título escrito de abril de 1861 em favor de Joaquim Alves de Lima, o qual, por seu turno e de imediato, transferiu a gleba em apreço ao filho João Evangelista de Lima”– [BAPTISTA Fernando Antonio Neves [Advogado], Breve História do Pontal do Paranapanema, 28 / agosto / 2003, publicação eletrônica http://members.tripod.com/piquerobi/breve_historico_do_pontal_do_paranapanema. A escritura foi lavrada em Pirassununga – SP].
Tratava-se de uma farsa engendrada entre 1868/1871, com retroação de datas e incendimento de documentos originais. A insistir no reconhecimento, coube ao governo Dr. Prudente de Moraes, decidir pelo indeferimento por considerar “imprestável e nula a medição da área”, diante do que lhe informa o Inspetor Especial de Terras e Colonização, “uma estranha planta na qual o rio Paranapanema atravessa o rio Paraná e segue Mato Grosso adentro, ‘com pasmo e contra a natureza das coisas’ (...) e o rio Pirapó, simples invenção, nunca existiu onde o local indicado para a Fazenda Pirapó-Santo Anastácio” – [MST].
Para eficácia de seus logros, João da Silva contava com as colaborações de Manoel Joaquim Bueno, Cartorário e Agente Fiscal em São Domingos do Tupá, e de Jacob Antonio Molitor, do Tabelião de Paz da então Freguesia de Santa Cruz do Rio Pardo.
Manoel Bueno, identificado por Cobra [p. 59] tinha em seu poder formulários oficiais em branco, estampilhas e impressos que vinham, “com armas imperiaes e as datas constatando o exercício financeiro para o qual eram destinadas, junctamente com aquellas (...) antigas estampilhas ainda não utilizadas” – [Cobra, p. 101 / 102], dando autenticidade aos documentos, retroagindo datas entre os anos de 1856 a 1864, inclusive com lançamentos em livros próprios, que consistia em fazer duplicata acrescendo os assentamentos desejados, algo trabalhoso, porém vendido a altos preços.
Amador Nogueira Cobra, às páginas 102 / 103, descreve uma escritura falsificada, resguardando identidade do envolvido e dos assinantes a rogo, a qual transcrevemos, a titulo de exemplo:
“Dizemos nós abaixo assignados, eu José Theodoro de Souza e minha mulher Francisca Leite da Silva que entre os bens que somos senhores e possuidores livres e desembaraçados de qualquer onus e bem assim uma sorte de terras nas paragens do Paranapanema divisada pela maneira seguinte: principiando na barranca do Paranapanema abaixo divisando com Francisco Antonio de Figueredo, subindo pelo espigão mestre e aguas vertentes do rio Pary até divisar com terras de Antonio Pereira Alvim e Joaquim José Raposo ou terras denominadas Barreiro a divisar com Apolinário da Costa Fragoso, a procura do espigão que divide as duas aguas denominadas P. de A. e P. e por seguimento a linha divisoria que vae à barranca do Rio Paranapanema e descendo por este até onde teve principio esta demarcação. As quaes terras assim divisadas e demarcadas possuímos ocupação primaria e vendemos de nossa livre vontade ao Senhor P.A.C. pelo preço e quantia de 190$000 que recebemos e damos quitação. Pedimos a justiça do Império dar a esta a escriptura particular força de escriptura publica. O comprador fica obrigado a pagar ‘os direitos nacional’. Por não sabermos escrever assigna ao nosso rogo L.J.T.”.
“Lançados sobre o papel esses dizeres (que poucas variantes apresentavam em cada documento, por isso que são consagrados) mais o sello e a data, escriptos por um entendido na feitura do instrumento, intervinham, finalmente, dois indivíduos assignando, um a rogo dos vendedores e outro, do comprador, e duas testemunhas”.
- Manoel Bueno deixou os serviços em São Domingos, vindo exercer suas fraudes a favor dos primeiros grileiros do Vale Paranapanema, contando com ajuda de outros cartorários, a exemplo de Jacob Antonio Molitor, de Santa Cruz do Rio Pardo, não hesitando inclusive incendiar arquivos para fins determinados.
Cobra – páginas 99 / 100 informa que, distante de tais artifícios e burlas, José Theodoro era considerado honesto em seus negócios, homem de palavra em suas transações. “Com ele podia-se fechar, verbalmente, um contrato de compra e venda, antecipar o pagamento, certo de que, na primeira viagem a São Domingos a escritura seria lavrada, confirmando a transação”. Por honrar a palavra dada, também acreditava nas pessoas.
Também os mineiros que chegaram com Theodoro e aqueles primeiros adquirentes de terras eram quase todos de boa índole, de costumes tradicionais, religiosos, não dados às práticas de violências, honestos em seus compromissos, se respeitavam e se conheciam desde antes, quando não vinculados por algum grau familiar, de compadresco ou parenteiro. Em maioria iletrada, arranchada, era gente pouca em busca de melhor sorte naquelas paragens.
Com a Guerra do Paraguai e suas conseqüências, “começaram a apparecer, por esse tempo, entre os sertanejos, malquerenças que provinham dos choques de interesses. Cada qual procurava legitimar seu quinhão e muitas vezes era contrariado por outrem que egualmente o pretendia” – [Cobra, p. 92], até entre os primeiros, uns e outros mostraram facetas desconhecidas, anos depois, ao se enveredarem para as artes do logro e da industria das falsificações de títulos dominiais.
Com a ausência de Silva à frente de seus negócios, mais de uma vez Theodoro vendeu terras por instrumento particular, a seu rogo e da mulher, sem lavra e autenticação em livro oficial, situações que no futuro facultariam falsos títulos de domínios e vendas fictícias – [Cobra, p. 99 / 100].
A despeito destes acontecimentos, o sertão vivia o expansionismo ocupacional de suas terras, os mineiros continuavam chegar. Campos Novos deixou de ser núcleo populacional apenas de pessoas amigas, e tornou-se refúgio e lugar propício para o exercício de embustes e engodos imobiliários.
Mas é dentro deste fenômeno migratório, bom e não de todo mau, que o sertão conheceu seu progresso expansionista, mesmo por motivação a Guerra do Paraguai, vinculado ao capitalismo nas relações povoamento e ocupação da terra, já evoluído a partir da cultura de subsistência para a exploração diversificada, isto é, da socialização produtiva ao incremento das atividades comerciais, estabelecidas como relações de trabalho, entre senhores e trabalhadores.
Nem todos vinham para ser patrão, portanto, sob ponto de vista desenvolvimentista ou de organização natural do processo disciplinador de mercado, ocorreu ali nova identidade da força de produção, ou seja, das leis da concorrência da terra e do homem. E tudo começou apenas com vontade de Theodoro vencer os obstáculos naturais, matar os índios, ocupar as terras e fazer vida no sertão.
O fim da Guerra do Paraguai historicamente assinala início de transformações na sociedade brasileira, fortalecendo o exército e instituições civis enquanto o enfraquecimento do Império, por conseguinte obrigado a reformas republicanas e abolicionistas de maneira atingir o ponto vital da economia brasileira, ainda centrada na mão de obra escrava. Mas, o que efetivamente se viu no Vale Paranapanema foi a ocupação e a posse do espaço físico para fins de produção, com atenções voltadas primeiro para o mercado interno que se urbanizou, depois para o exterior, com isso a incrementar a agricultura e pecuária em maior escala.
O ciclo do café a ocupar grandes fazendas numa espécie monocultura, abriu espaço para prosperar, até em maior proporção, as lavouras de culturas diversas, quando o Vale Paranapanema ganhou atenções e Campos Novos tornou-se referencia, ao mesmo tempo corredor de passagem e/ou ponto de partida para lugares mais distantes, passou a bacia Capivara e chegar para lados dos rios Sapé, São Mateus e Anhumas onde os limites das terras do pioneiro. Projetou-se aí o povoado de Conceição de Monte Alegre, por ultima referencia rumo ao oeste paulista, para ampliação dos limites ocupacionais e, um pouco mais adiante no tempo, as partes do sudoeste paulista que também conheceriam a onda cafeeira.
Foi o entusiasmo das vendas de terras que levou Theodoro a demarcar um território, para “outro patrimônio. (...). Era já tempo. De São José do Rio Novo até alli, caminhara cerca de doze legoas, distância que as duas futuras povoações conservariam entre si, de modo que uma não fosse, em território, prejudicada pela outra” – [Cobra, p. 53]. O local escolhido viria se chamar Nossa Senhora da Conceição da Boa Vista, depois do Campo Alegre e, por fim, de Monte Alegre.
Tal feito ocorreu em 1868, quando o pioneiro iniciava as vendas adiante do rio Capivara às margens do rio das Anhumas, efetivado através de escritura pública lavrada em 20 de agosto de 1873, demora ocorrida por discórdia quanto a exata localização do imóvel doado, obrigando o próprio Theodoro pessoalmente, em dezembro de 1873, escolher o lugar ideado para aquele propósito posto em escritura, com aquele nome primeiro de Nossa Senhora da Conceição da Boa Vista, futura Conceição de Monte Alegre – [Giovannetti, p. 35]. O registro da doação patrimonial somente viria se realizar em 1902.
- Antes de Conceição se tornar realidade, o ultimo ponto de parada, passado Campos Novos, era o patrimônio Cerimônia que, a partir de então, entrou em decadência até o desaparecimento.
Aquela viagem do pioneiro teria sido a ultima em seus domínios já fracionados, retornando para São Pedro do Turvo e de lá não mais sair até sua morte, menos de dois anos depois, por um indígena, a golpes de borduna, em 24 de setembro de 1875.
FALSAS ESCRITURAS E OS GRILOS
Quando da morte de Theodoro, em 1875, São José do Rio Novo [Campos Novos] era habitada por numerosas famílias com residência fixa, duzentos fogos ou mais diziam os antigos, “pessoas de alguma cultura intelectual (...) homens de traquejo da vida de cidade, entendidos em administração municipal e de política (...) não se incluíam tantos indivíduos analfabetos (...)” – [Cobra, p. 59 / 60], que por lá chegaram fugitivos do recrutamento, outros das conseqüências do pós-guerra e, então mais recentemente aqueles que vieram em busca de enriquecimentos num lugar próspero, de bom comércio e forte incremento imobiliário, além de contar com profissionais do campo [agrimensores e engenheiros], trabalhadores autônomos [construtores, carpinteiros, ferramenteiros, artesãos, oleiros e outros], liberais [farmacêuticos, advogados e facultativo], religiosos e funcionários públicos [tabeliães, cartorários e arruador].
João da Silva Oliveira, na qualidade de parente [cunhado] e bastante procurador de José Theodoro de Souza – este ainda em vida, não teve escrúpulos em lhe tomar partes de terras ou negociar outras sem o seu conhecimento, além de entrar em áreas devolutas e vender quinhões, às vezes recorrendo a permutas de áreas legitimadas pelo cunhado com outras sem títulos de domínio, ou alienar terras pretensamente de Theodoro por legítimas.
Bastante notória a venda ilegal de gleba que João da Silva fez aos parentes Figueiredo [Francisco Lourenço, Joaquim Pedro e José Vicente], conforme escritura lavrada em 1876, por Jacob Antonio Molitor, Tabelião de Paz da Freguesia de Santa Cruz do Rio Pardo:
“Tendo principio na cabeceira do Taquaral, ao pé do cafezal de Joaquim Alves de Lima e seguindo pela mesma confinando com terras de Francisco Osório que é cabeceira do rio Capivara até a volta da Serra tomando por um espigão abaixo distancia de duas léguas quebrando a direita para o nascente a procurar a primeira fluência de um outro ribeirão que vem da mesma serra para baixo do ribeirão da Lagoa e aí segue pelo espigão abrangendo todas as vertentes dos dois ribeirões até a mesma serra na segunda baixa que faz na mesma serra que o ribeirão do Veado larga da referida Serra e por este cume seguindo sempre até onde teve princípio e fim ditas divisas” – [Cobra, p. 62 / 63].
Eram terras originariamente de José Theodoro de Souza, morto no ano anterior, 1875, apropriadas por Silva que, em ato da venda aos Figueiredo, assinou por si e por sua mulher, Rosa Maria de Jesus, mediante procuração lavrada no ano de 1871, em notas do escrivão de Paz de São Domingos, Manoel Joaquim Bueno.
No final dos anos de 1970, Leoni Ferreira da Silva fez constar em seu livro que o grande latifúndio, adquirido pelos Figueiredo, no ato representado pelo Coronel Francisco Sanches, ocorrera antes de 1875 e negociado diretamente com José Theodoro de Souza – [Leoni 265].
Não procede. Comprovou-se em processo de inventário de José Theodoro de Souza, às folhas 187, que João da Silva Oliveira “(...) fez um registro que compreendia uma grande zona dentro da qual estão os Figueiredos, José Custódio... (ilegível), Domingos Ferreira de Medeiros, e muitos outros que ali se acham arranchados por compras feitas ao embargado, que entretanto vendia o que pertencia a José Teodoro de Souza, escudado para isso em uma procuração passada no antigo Cartório do Juizo de Paz da Freguesia de São Domingos, da qual se servia mesmo depois do falecimento do constituinte” – [Campanhole, página 140, transcrição em grafia atual. O sobrenome ilegível para José Custódio trata-se de José Custódio Vencio].
Destarte, anotações extraídas da obra de Amador Nogueira Cobra, inclusive com a localização de cada uma das posses, João da Silva retalhou e alienou, também, outras porções de terras apossadas ilegalmente, através de simulacros e mudanças de nomes de aguadas, e ainda assim cinco compradores conseguiram legitimação de posses indevidas, perante o juízo competente do governo, entre dezenas de rejeitadas durante o 1880 a 1890. Na mesma época, Silva vendeu e teve por legítimas outras oito propriedades subtraídas do cunhado José Theodoro, e apenas um comprador de Francisco de Paula Moraes teve legitimada posse originariamente ilegal – [Cobra, p. 91 / 92].
O próprio Joaquim Alves de Lima, apesar de amigo de José Theodoro e partícipe da comitiva pioneira, não hesitou meter-se numa rendosa falcatrua, ao adquirir a Fazenda Pirapó-Santo Anastácio, de Antônio José Gouveia, pessoa que sabia não existir, para imediatamente repassá-las ao filho, João Evangelista de Lima, esquentando a escritura para uma suspeitosa troca com a Fazenda Rio do Peixe / Boa Esperança do Aguapeí, então em nome do agrimensor Manoel Pereira Goulart, propriedade esta cujo registro original o foi em nome de José Theodoro de Souza, conforme vimos.
João Evangelista teve negado o reconhecimento da Pirapó-Santo Anastácio, em 1886 por despacho do Juiz Comissário de Campos Novos [Paulista], pelas “tantas nulidades na parte jurídica quanto erros na parte técnica” – [BAPTISTA Fernando Antonio Neves (advogado), Breve Histórico do Pontal do Paranapanema, publicado em sítio eletrônico http://members.tripod.com/piquerobi/temas.htm, ou o intitulado Artigo 14: MST – Movimento dos Sem Terra, publicação eletrônica pela UDR – http://www.udr.com.br]. Igualmente encontramos assuntos referentes sob responsabilidade do Movimento Sem Terra - SP, conforme artigo Pontal: Do Grande Grilo aos Sem Terra, http://www.mst.org.br/mstsp/pontgril.htm.
- A insistir Evangelista no reconhecimento, coube ao governo Dr. Prudente de Moraes, decidir pelo indeferimento por considerar “imprestável e nula a medição da área”, diante do que lhe informa o Inspetor Especial de Terras e Colonização, “uma estranha planta na qual o rio Paranapanema atravessa o rio Paraná e segue Mato Grosso adentro, ‘com pasmo e contra a natureza das coisas’ (...) e o rio Pirapó, simples invenção, nunca existiu onde o local indicado para a Fazenda Pirapó-Santo Anastácio” – [MST Do Grande Grilo aos Sem Terra]. A Procuradoria Geral do Estado – PGE, Revista nº 49 / 50, publicação dezembro de 1998, ao descrever sua atuação na solução dos conflitos fundiários no Pontal do Paranapanema, discorre em detalhes sobre referida falcatrua.
Ainda no mesmo ano de 1886, Manoel Pereira Goulart requereu legitimação da posse da Fazenda Rio do Peixe/Boa Esperança do Aguapeí, afirmando nela residir com a mulher e filhos desde o ano de 1850, com atividades agro-pecuárias.
A solicitação, pelos erros e falsas informações contidas, fez com que o governo de São Paulo declarasse formalmente, em 1889, “não só a nulidade e falsidade das peças e atos apresentados”, como fez responsabilizar criminalmente Manoel Goulart e o escrivão que prepara os autos com falsos documentos para fundamentar a pretensão – [SAMPAIO Plínio de Arruda, Artigo publicado pelo Movimento Trabalhadores Rurais Sem Terra – Brasil, Direitos Humanos / Legitimidade das Ocupações, Opinião de Juristas, http://www.mst.org.br/setores/dhumanos/legitimi/juristas.html], a lembrar que tal propriedade era aquela mesma registrada em nome de José Theodoro de Souza, em 1856.
Por fim, o indeferimento da legitimação da Fazenda Rio do Peixe/Boa Esperança do Aguapeí, em 1889, deixava prever o mesmo destino para a Pirapó-Santo Anastácio, o que levou Manoel Goulart e João Evangelista, de comum acordo com o tabelião José Manoel de Almeida, permutar entre si as duas fazendas, com o devido registro em Santa Cruz do Rio Pardo aos 11 de janeiro de 1890 – [MST – Pontal: Do Grande Grilo aos Sem Terra], de maneira quando do indeferimento governamental para a Fazenda Pirapó-Santo Anastácio, no mesmo ano de 1890, referido imóvel já pertencia ao agrimensor Goulart, enquanto João Evangelista estava de posse da Fazenda Rio do Peixe / Boa Esperança do Aguapeí.
A partir da efetivação de trocas, cada proprietário buscou caminhos distintos para legalizar suas propriedades. Assim, Manoel Goulart, apesar do indeferimento da legitimação de suas terras, valeu-se da legislação baixada pelo recém instalado Governo Republicano, para celebrar contrato de assentamentos de imigrantes, num ousado projeto de instalar duas mil famílias em sua fazenda Pirapó-Santo Anastácio.
Goulart arriscou, protocolou intenções e, com cópia do requerimento e do projeto a ele anexado, preliminarmente com vistas para o Ministério da Agricultura, conseguiu deste Ministério um documento que acusa recebimento da proposta e sua viabilidade, o bastante para que Goulart considerasse legitimada sua posse, e assim vender 30 mil alqueires a centenas de compradores, enquanto aguardava autorização do Governo Federal para instalar os estrangeiros.
Quando Goulart internado por problemas mentais, e enquanto ainda tramitava o processo, sua mulher D. Militânia Cândida Marques conseguiu, em 1908, mediante alvará judicial, alienar à Companhia dos Fazendeiros de São Paulo, dois terços do que restava da Pirapó-Santo Anastácio, no ano de 1908, vista em escritura lavrada em São Paulo, datada de 5 de outubro do mesmo ano, 2.º Tabelionato. Foi transferido à Companhia dos Fazendeiros de São Paulo 100 mil alqueire de terras, ainda restando aos herdeiros de Goulart 90 mil alqueires.
- Goulart veio a falecer no hospital Juqueri, em São Paulo, aos 14 de março 1909.
Após instalação e êxito da Companhia, outras empresas do ramo acorreram para a região, dando surgimento de Presidente Prudente, Presidente Bernardes, Presidente Venceslau, Presidente Epitácio, Álvares Machado, Santo Anastácio, Piquerobi, Caiuá, Teodoro Sampaio, Marcondes, Taciba, Regente Feijó, Pirapozinho, Narandiba, Sandovalina, Marabá Paulista, Mirante do Paranapanema entre outras.
O que restou da Fazenda Pirapó-Santo Anastácio, desde então, tem sido violenta área de disputa entre fazendeiros e sem terras, e diz o MST – SP, que “a Pirapó-Santo Anastácio, extremo oeste puro, é o próprio Pontal do Paranapanema. . .” (...) “que em sentença judicial de 29 de julho de 1980, encerrando um processo iniciado 23 anos antes, o juiz de Mirante do Paranapanema dá a seguinte sentença: "Declaro devolutas e pertencente ao domínio do Estado as terras contidas no 14º perímetro desta comarca de Mirante do Paranapanema" – [MST, Pontal: Do Grande Grilo aos Sem Terra].
Por seu turno a UDR entende ser “Indisfarçável que o objetivo do Estado não era outro senão tentar retomar [a si] as propriedades para redistribuí-las entre os chamados sem terra”. “No entanto impõe-se ponderar que isso não é moral e nem justo com aqueles que estão trabalhando, por si e antecessores, por período superior a um século nessas terras, munidos de títulos de propriedade que o próprio Estado colaborou na sua formação” – [Batista, Artigo 14: MST – Movimento dos Sem Terras...].
A região ainda vive em 2008, conflitos entre “os ruralistas e os sem terras”, bastante distante de bons termos, não nos cabendo mérito de juízo, assim nada mais a acrescentar quanto a Pirapó-Santo Anastácio.
Para João Evangelista de Lima, proprietário da Fazenda Rio do Peixe/Boa Esperança do Aguapeí, o gesto do poder público lhe foi beneplácito, pela lei n.º 545, de 02 de agosto de 1898, que declarou legitimadas todas as posses adquiridas por títulos até a promulgação da lei 323 de 22 de junho de 1895, em seus respectivos enquadramentos. Preenchia os requisitos.
Foram muitas outras transações irregulares de terras, através de falsários e de agentes públicos que lhes davam legitimidade ou aparência dela.
Um falsário quando precisava dos cartorários para oficialização dos documentos, quase sempre recorriam aos Jacob Antonio Molitor, José Manoel de Almeida, Domiciano Rosa e José Manoel Bueno, que estavam entre os mais hábeis e confiáveis fazedores de falsas escrituras, transcrições, emissões e registros de lançamentos, dando-lhes características de verdadeiras e, quando necessário, aparências de antigas, geralmente envelhecidas numa caixa úmida para envelhecimento, ou recorriam à esfumação para o mesmo propósito. A partir daí, o falso dono ou vendia a propriedade ao incauto ou nela entrava, como se realmente sua, aguardando acontecimentos – [Cobra, p. 104 e em notas 1 de rodapé da mesma página].
- Jacob Antonio Molitor e José Manoel de Almeida, por Santa Cruz do Rio Pardo, Luiz Domiciano Rosa, por Campos Novos, e Manoel Joaquim Bueno, primeiro por São Domingos e depois Campos Novos, foram agentes públicos de elevados prestígios junto aos Promotores e Coletores de Renda, em suas petições sempre julgadas a favor, conforme registros em Arquivo Público da Província [depois Estado] e da Capital do Império [a seguir, República], que assim deixam entender o atendimento mais que satisfatório às necessidades da clientela. Formavam uma quadrilha de corruptos e corruptores, de atos improbidade e outros ilícitos administrativos.
Diziam os antigos de um outro método para envelhecer documentos, que seria deixá-los com alguns grilos, numa caixa vedada por alguns meses, os grilos comiam as bordas do papel e, ao morrerem desprendiam substâncias quem manchavam os documentos, daí o termo grilo, grileiro e grilagem para apossamentos ilegais de terras, com apresentação de documentos falsos aparentemente antigos e verdadeiros.
- Para muitos, tal método no uso do inseto ortóptero teve início quando certo embusteiro, ante a necessidade de mostrar documento que comprovaria ser ele o dono de determinada propriedade, ao retirá-lo da gaveta veio junto um grilo que lhe saltou das mãos.
Existiam também escrituras falsificadas já feitas, das quais o Doutor Amador Nogueira Cobra teria testemunhado algumas, exemplificando aquela que um inocente sertanejo lhe apresentou para examinar, se uma ou outra prestaria aos interesses para se apossar de certa gleba – [Cobra, p. 100, nota 1 em rodapé].
Leoni, na qualidade de experiente cartorário, se reporta ao Cartório de Campos Novos onde foram encontrados quatro livros oficiais de notas gerais, para lançamentos de escrituras, sob mesma numeração, uns documentos sem assinaturas e outros sem datas, ou ambas as situações num só lançamento. Trata-se de feito ilegal concebido para inserções de documentos de grilos, ou seja, utilização quando necessário retroagir datas, para uso daquilo que se pretendia – [Leoni, p. 333 / 335].
Aparentemente o Cartório de Campos Novos sofrera incerta de autoridades, num dia que os agentes públicos falsários pretendiam retiradas dos respectivos documentos, antes da efetiva transferência de sede da Comarca de Campos Novos para Assis. A ação coincidente das autoridades permitiu que referidos livros não fossem destruídos, e assim chegassem às mãos de Leoni, durante um levantamento para fins de arquivamento final.
Os principais fazedores de escrituras corrompiam autoridades, usavam de agentes intermediários para transações irregulares ou fraudulentas, vendas e permutas seguidas de uma mesma terra para apagar os rastros de ilegalidade e deixar oculta a identidade do verdadeiro interessado.
Não eram incomuns incêndios parciais em sacristias onde ficavam os registros paroquiais, que viravam pressupostas cinzas, e de outros incêndios denominados particulares com a queima de uma casa, geralmente imprestável, para maior credibilidade aos fatos, onde pretensamente estariam documentos originais, então incinerados, deixando aos interessados, apenas a pública forma, que não permitia exames que pudessem identificar algum embuste. Pública Forma seria segundo Aurélio, “cópia integral, exata e certificada, de um documento, feita por tabelião, e que pode substituir esse documento na maioria dos casos” – [Aurélio – Dicionário Século XXI].
Num dos grilos mais famosos do Sertão Paranapanema, relata Amador Cobra, “o escrivão ao redigil-o, se perturbou quanto ao nome da primeira mulher de José Theodoro: Não se recordava bem se era Francisca ou Anna e para sahir do embaraço, escreveu – Anna Francisca Leite da Silva. Anna chamava-se a segunda mulher de José Theodoro – Anna Luiza de Jesus, e Francisca Leite da Silva a primeira” – [Cobra, p. 102 – notas 2 em rodapé].
Entretanto, a maior legalização de terras ilegais de todos os tempos em São Paulo – província ou estado, no nome de uma só pessoa, certamente tenha sido a pretendida por Francisco da Paula Moraes, no Vale do Peixe, a partir quando seu aparentado João da Silva resolveu se apossar das terras do Alto Paranapanema, Chico Paula decidiu que todo Vale do Rio do Peixe lhe pertencia, ainda que, igualmente àquele, sem o competente registro das terras. Já vimos esta história em suas origens, mas não o desfecho.
Aos fundos da gleba adquirida de João da Silva pelos Figueiredo, nas contravertentes do Peixe se estendia grande área, estreita, mas longa e de boas matas, para além das elevações e das escarpas. Francisco de Paula Moraes, o Chico Paula genro de Theodoro, e seu irmão João Antonio de Moraes, também conhecido por João Beraldo, penetraram naquele grande vale rodeado de paredões e penhascos, descobrindo o rio do Peixe que pensavam afluente do Feio, para daí traçar planos de como conseguir aquelas terras habitadas por ferocíssimos Caingangues – [Giovannetti, páginas 132/133. Giovannetti dedica todo um capítulo – A Herança de um Grande Latifundista: Francisco de Paula Moraes, páginas 132-138].
Transpondo os obstáculos naturais, certamente os irmãos Chico e Beraldo se perderam, ou obrigados ao recuo pelos Caingangues, para que as medidas da área ficassem reduzidas até as contravertentes do Feio, a divisar partes com famosa Fazenda Rio do Peixe/Boa Esperança do Aguapeí. O demarcado, pelo possível engano ou não, era apenas um tanto de todo avistamento inicial, adiante das cabeceiras do rio Capivara [Echaporã] às contra-vertentes avistadas do Feio, e pelo Peixe algumas léguas abaixo, transcrito como o todo que Beraldo vendeu a seu irmão Chico, por idéias de João da Silva, numa tentativa que podia dar em nada porque sabiam vedadas as ocupações de terras.
Celebraram então escritura no cartório de Jacob Antonio Molitor, Santa Cruz do Rio Pardo, em 19 de fevereiro de 1877, com a descrição de:
“Uma fazenda de terras de cultura na serra dos Campos Novos, pendente ao rio Tietê com as divisas seguintes: Principiando, na cabeceira do Rio Capivara, e seguindo pela divisa, que confina com a Fazenda dos Figueiredos até onde faz a demarcação de duas léguas, quebrando a direita, cortando todas as águas passando por baixo da lagoa na primeira fluencia a um ribeirão que faz na lagoa, e sempre seguindo pelo espigão, e confinando sempre com os mesmos Figueiredos, até na mesma serra, por esta seguindo pelo lado do nascente, cercando todas as águas do ribeirão do Peixe, voltando para o poente sempre seguindo pelo espigão, abrangendo todas as vertentes, concernente ao mesmo ribeirão do Peixe, até frontear uma corredeira ao mesmo ribeirão, e de aqui, a extensão de duas léguas pelo mesmo espigão, e de esta raia cortando a rumo direito a mesma serra, voltando pelo cume da serra do Nascente, até onde teve princípio e fim ditas divisas: cuja fazenda assim dita e divisada nesta data vendem e como de fato vendido tinham para o segundo, Francisco de Paula Moraes, pelo preço e quantia de um conto e quinhentos mil réis, que nesta data receberão em moeda corrente, e por isso transferem na pessoa dele comprador toda posse jus domínio e senhorio que em dita fazenda tinham, podendo ele comprador gozar como se sua que fica sendo de hoje para todo sempre: dito isto pelo comprador foi aceito e ai me apresentou certidão de Siza” – [Cobra, p. 67].
Amador Nogueira Cobra, transcreve referida escritura de compra e venda e, em nota 1 de rodapé, mesma página 67, face o que diz aquele documento, esclarece: “Suppunha-se, nessa epocha, que o rio do Peixe era tributário do Tieté” – em grafia da época. De fato, os antigos tinham que o rio do Peixe era tributário do rio Feio/Aguapeí, não do Paraná, porque não notavam que a barra do Peixe escondia-se atrás da Ilha do Tigre, entre o Peixe e o Paraná, a dividir o Peixe em dois ramos menores para o deságüe, conforme comprovou a Comissão Geográfica do Estado.
- Giovannetti esclarece-nos que os antigos acreditavam a barra do rio do Peixe junto ao rio Feio/Aguapeí, e isto não se tratava apenas de ignorância sertaneja, pois o célebre mapa adendo à obra Retirada de Laguna, do Visconde de Taunay, também omite a foz do Peixe no rio Paraná. Apenas por volta de 1880 todo o rio Feio/Aguapeí foi mapeado até sua barra no Paraná, desfazendo o erro do deságüe no rio Tietê, ou que o Aguapeí e o Peixe formavam um só rio – [Giovannetti, páginas 21 e 132].
Para mais fácil legitimar vendas de partes de um latifúndio, a eficiência estava em vender pequenas propriedades a diversos interessados, como meio de tornar morta a Lei de Terras, sem suspeições dos comissários do governo. Francisco comprou aquelas terras para vendê-las logo e não para fixar posses ou nelas trabalhar, e disto sabiam os envolvidos, mas não teve a sorte de João da Silva que rapidamente vendia seus lotes divididos em aguadas. Ainda assim Chico conseguiu vender três fazendas de seu todo pretenso, Água Três Lagoas para Aleixo de Sandys Goudin [Goudim]; a Pomba do Futuro, a Emydio José da Piedade, e a Pomba de Prata a Augusto César [Cezar] da Piedade – [Cobra, p. 71].
- Silva certamente tinha maior credibilidade e segurança por ter sido procurador de José Theodoro, tornando assim mais respeitadas suas negociatas, embora tal sucesso faça pressupor que o cunhado não denunciara suas falcatruas, talvez por motivo bastante forte – parentesco ou envolvimento visto que as primeiras vendas das terras de Silva foram a nome de José Theodoro e enquanto este vivia, assim a honrar a fazer desacreditado o cunhado, porque isto o tornaria igualmente não confiável. Mas Theodoro e Silva romperam relações de negócios, conforme já identificamos.
Chico Paula, com escritura em mãos, dizia-se dono de todo pressuposto Vale do Rio do Peixe, desde a nascente na Serra de Agudos, localização então quase certa, ao deságüe que se pensava no rio Aguapeí/Feio, em algum lugar que ele não sabia, embora soubesse na verdade proprietário de nada, por isso mesmo a se dirigir ao Imperador D. Pedro II, para que este determinasse como suas as ambicionadas terras que desejava vender – [Giovannetti, p. 133 / 135].
Realmente, num determinado dia Chico apresentou-se, perante o Imperador Pedro II, e Giovannetti assim descreve o caboclo como homem alto e magro, porém espadaúdo, forte, ágil, alegre e jovial, peludo, de barba longa e escura, que Giovannetti diz se parecer uma trincha de marinheiro, vestido com trajes sertanejos – camisa e calça de algodão duro protegidas pelo gibão e sobre calças de couro; também trazia chapéu de couro, trabuco posto no marchetado cinturão de onça pintada, alpercatas e na algibeira trazia o isqueiro de pedra e o rolo de fumo, enquanto num picuá a paçoca com carne de porco; às ocultas sob aquelas vestimentas, certamente o afiado punhal e a inseparável garrucha, sempre ao alcance ágil das mãos, um costume antigo de homem prevenido – [Giovannetti, p. 134].
Fora curiosidade que foi alvo pelas suas vestimentas, o Imperador nada podia fazer senão determinar ao Ministro competente pela área, medir um tanto de terra e conceder ao peticionário, a preço simbólico, ou este medir às próprias expensas a área descrita naquela escritura outorgada por Beraldo, desde que comprovada a posse e por ela pagasse o preço a ser arbitrado.
Ao Chico não convinha aceitar as propostas, porque desejava toda a terra que sabia muito maior que sua parte descrita; afinal, ele dizia ser proprietário de todo o Vale do Peixe, da nascente à barra do rio, mesmo sem saber onde davam uma e a outra.
Apesar do fracasso aparente, a ousadia de Chico favoreceu sua sorte quanto às vendas fracionadas de suas terras, com boas negociações a partir de então.
Diziam que Francisco de Paula Moraes trouxera um documento do Governo, que pretensamente ditava sobre o reconhecimento da sua área. No entanto, tal expediente parecia tratar-se de uma declaração que Francisco chegara de fato ao Palácio Imperial, com propósitos de legalizar áreas de terras, com assunto dado por resolvido, portanto, um documento que nada dizia, mas para os caboclos era a prova que faltava para Chico comprovar suas as terras do Vale do Peixe. Amador Cobra cita as duas alternativas dadas pelo governo e encerra: “não sabemos, precisamente, que foi que no mínimo obteve” – [Cobra, p. 71].
Em 1883 Francisco de Paula Moraes foi assassinado, pelo italiano Francisco Caputo, com tiro traiçoeiro após desentendimento ordinário. Este Caputo, protegido pela colônia, fugiu para Baependi [MG] onde se associou no comercio a um também italiano chamado Braz, com quem veio desentender-se e, dias depois ao atacar Braz com uma navalhada no pescoço recebeu de volta algumas punhaladas, morrendo os dois – [Cobra, p. 71 / 73].
Por Giovannetti sabemos que, em 22 de setembro de 1883, na comarca de Santa Cruz do Rio Pardo, o agente público Luiz Domiciano Rosa inventariou toda a bacia do rio do Peixe, desde as nascentes em Serra de Agudos até o rio Paraná – então descoberta recente, uma área de 500 mil alqueires – [Giovannetti, p. 136 / 137], quantia que o próprio Chico jamais imaginara, acreditando feliz que o seu rio do Peixe desaguava no Feio, mesmo que num lugar jamais descoberto.
Luiz Domiciano a custo de ótima recompensa fora inescrupuloso em proceder aquele inventário, fazendo do falecido senhor de quase treze mil quilômetros quadrados de terra [seis léguas de largura por cinqüenta de fundos], avaliados em lotes distintos, excluídos os anteriormente vendidos, sendo o inventário julgado favorável por sentença em Lençóis aos 12 de abril de 1886, pelo Juiz de Comarca, Joaquim Antonio do Amaral Gurgel – [Giovannetti, p. 130].
Rapidamente a família fracionou o imenso latifúndio para venda, contribuindo de certa maneira para o progresso de uma das mais importantes regiões de São Paulo – [Giovannetti, p. 137].
JOSÉ THEODORO NÃO MORREU POBRE
Historiadores regionais afirmam que José Theodoro de Souza morreu pobre e esquecido por todos, exceto talvez por indígenas, vingadores de seu povo, que o mataram a golpes de borduna em 1875, deixando o corpo esquartejado no local para ser sepultado no Cemitério de São Pedro do Turvo, numa cova que de tão simples ninguém mais sabe onde encontrá-la.
Giovannetti, à página 130 de sua obra, afirma a morte de Theodoro em abril de 1875, sem citar a data e causa – [Giovannetti, p. 130], enquanto Campanhole conclui que Theodoro morreu em 24 de julho de 1875, pelo depoimento de Anna Luiza de Jesus, quando esta diz em inventário “no dia 24 de setembro de 1875 fazem (sic) dois meses que seu esposo faleceu” – [CAMPANHOLE Adriano, História da Fundação de Assis, Editora Gráfica Latina, São Paulo, edição de 1985, página 134].
O pioneiro teve os seguintes filhos com sua primeira mulher, Dona Francisca Leite da Silva:
Flausina Maria de Souza – casada com José Antonio Diniz;
Francisco Sabino de Souza – casado com Maria Francisca do Carmo;
Maria Teodora de Souza [ou Maria Teodora do Espírito Santo] – casada com Francisco de Paula Moraes;
José Theodoro de Souza Junior – casado com Mariana de Souza Pontes;
Agostinha Maria [Teodora] de Souza – casada com José Inácio Pinto.
Com Dona Anna Luiza de Jesus teve “(...) o filho José Luiz de Souza, que nasceu apoz a morte do pai” – [Giovannetti, p. 131]. Campanhole diz: “De Ana Luisa, tida como segunda esposa e que foi sua inventariante, deixou José Teodoro de Souza um filho póstumo – José Luís de Souza – com 3 meses de idade em 23 de setembro de 1875” – [Campanhole, página 130], certamente citado autor sem perceber contradições, pois, José Luiz teria então nascido em junho de 1875 e assim não seria filho póstumo.
Pouco importa, senão que em favor do Anna Luiza e José Luiz os demais sucessores desistem da herança, de acordo com documento de 27 de setembro de 1875, e assim procedeu-se o inventário, num processo com duzentas e oito páginas, contadas seis delas que serviram de índices.
“Foi inventariante a mulher de Theodoro, Ana Luiza de Jesus, e como procurador João da Silva Oliveira. No Termo de Louvação, um quase nada de bens e valores declarados, 940$000 rs em bens de raiz [casa coberta de telhas, uma casa coberta de sapé e um cercado], móveis 44$000 rs, objetos de cobre e ferro 38$000 rs e um cavalo de 60$000 rs, totalizando 1:082$000 rs, mais uma escrava [Honória] de 16/18 anos, avaliada em 1:000$000 rs, com valor geral de 2.082$000 rs. Dona Ana Luiza, por seu procurador João da Silva, não arrolou nenhuma fazenda às quais “sabe que existe, mas não sabe onde” – I/JTS. C/2º. OA” – [DI CREDDO Maria do Carmo, “O inventario como fonte para a análise da mudança nas formas de riqueza social: reflexões de estudo de caso”, páginas 12, 13, 16 e 17, referência Departamento de História – Faculdade de Ciências e Letras – UNESP – Assis, SP].
Diferente das afirmações de muitos autores, Theodoro não morreu pobre, apenas sua viúva e o filho não receberam partes dos bens deixados pelo falecido, vez que “Dona Ana Luiza, por seu procurador João da Silva, não arrolou nenhuma fazenda às quais “sabe que existe, mas não sabe onde”, e isto porque João da Silva já havia inaugurado, no Vale Paranapanema, a grilagem de terras e esquentamento de documentos frios, retirando terras destes herdeiros de Theodoro.
No decorrer do inventário Silva fez surgir umas tantas dívidas de José Theodoro de Souza e até um testamento feito pelo pioneiro um mês antes da morte, no qual se diz paralítico e declara os débitos.
Certo Teodoro de Camargo Prado, de Santa Cruz do Rio Pardo, a favor da viúva anotou irregularidades no processo e dividas sem efetivos comprovantes, para assim requerer sobrepartilha e o processo ser encaminhado para Lençóis Paulista. João da Silva lesou Anna Luiza e o filho desta, desviando grande somas em dinheiro, animais e objetos do inventariado, além da ocultação de terras.
Em Lençóis, aos 14 de novembro de 1878, o Juiz despachou favorável à viúva, convencido que João da Silva agiu de má fé com apresentações de dívidas e ocultações de bens em prejuízo aos herdeiros, ouvidas as testemunhas apresentadas. Ficou comprovado, também, ilegais as vendas de terras aos Figueiredos e outros, conforme mencionado.
João da Silva, através de seu advogado Dr. Francisco Antonio de Castro, apelou ao Tribunal das Relações para onde o processo foi encaminhado, a partir de Santa Cruz do Rio Pardo, em 16 de agosto de 1882, para uma longa tramitação.
Dos tempos decorridos, completado maioridade José Luiz de Souza apresentou-se titular das terras, partes que Coronel Sanches teria adquirido ilegalmente de João da Silva Oliveira. – cunhado de Theodoro, em prejuízo ao herdeiro e sua mãe.
Sanches confiara na ação do tempo para tornar efetivamente sua aquela imensa fazenda usurpada do legítimo herdeiro, e de imediato fez povoá-la através de prepostos de titularidades, ou seja, de falsos e mesmo inexistentes agricultores, apenas para garantir posses até se consumar a prescrição aquisitiva, para que ela lhe retornasse limpa. Era o chamado grilo articulado.
José Luiz de Souza quando completada maioridade, “induziram-no a tomar conta da herança que desconhecia e, em seguida, alienou dando origem esse acto a uma contenda (...)” – [Cobra, p. 57]. Cobra ainda informa, página 99: “No espólio do mineiro, sobre tudo, sabemos que existiam muitas águas que reunidas às outras, irregularmente alienadas, por falta de registro, formavam bloco, assaz considerável (...)”.
O herdeiro sabia aquilo que reclamava posto orientado pelo próprio Doutor Amador Nogueira Cobra, o irmão deste, José Vital Nogueira, e o político de oposição José Antonio Garcia, estes acusados de intrigas, atentados e morte do Coronel Sanches, conforme se depreende de manuscrito de 10 de janeiro de 1951, assinado por Aníbal Jacques Sodré, com autorização de Francisco Figueiredo para publicação.
O herdeiro José Luiz apresentou documentos que o apontavam titular daquelas terras e alienou-as a um aparente cultivador que resolveu assumi-la.
“No município, quando se soube do ocorrido, o espanto foi geral. O adquirente dos bens dizia estar na mesma incluída a margem esquerda do Pary, toda ou porção della; viu-se, por isso, ameaçado em sua vida e teve que sair da comarca. De fora deu passos necessários e, por intermédio de terceiros [compradores de partes das suas terras], foi entrando nos lugares em que dizia haver terras pertencentes ao espólio que representava.”
“Dirigindo suas vistas para os lados do Pary, seus interesses collidiam com os de todos [os homens do Coronel] que ocupavam a faixa, desde Platina até o Paranapanema (...).”
“Surgiu dahí tremenda lucta entre os intrusos [os homens do Coronel] e o pretendente ao qual homens de Piraju, compraram partes dos terrenos provenientes de José Luiz, no centro dos quaes se collocaram com o fim de desfrutar o seu e o mesmo tempo vigiar o resto que o vendedor ainda possuía.”
“Mas não convinha aos direitos dos contrários esse estado de cousas e a hostilidade recrudesceu. O povo do lugar relacionou com a questão a tentativa de morte de que foi victima o chefe da política [Coronel Sanches], quando viajava de Platina para a fazenda. Ao passar por uma porteira recebe um tiro de emboscada que lhe não produziu mortal ferida. O companheiro, pedindo socorro, em altos brados, parece ter concorrido, com isso, para que os assassinos não secundassem a descarga e fugissem” – [Cobra, páginas 160 – 165, grafia da época]
Parece certo que os jagunços do Coronel, pela mesma fonte e referência, foram atraídos por alguns movimentos suspeitos mais adiante e para lá acorreram, enquanto os assassinos tocaiados atingiram a vitima. As providências não tardaram:
“Procedeu-se impiedosamente no castigo que se infligiu aos auctores, afim de não se repetir o facto e servir de exemplo a repressão. Abriu-se inquérito rigoroso, com feição inquisitorial. Uma escolta de civis foi até a morada dos indigitados criminosos acompanhando o subdelegado. Aos moradores que encontrou conduziu até Platina, debaixo dos maiores vexames e pancadas. Um destes recebeu descarga [tiro], da parte dos encarregados da prisão, chegando a villa, quase morto. Atirado ao chão, em redor de uma fogueira, os circunstantes, querendo certificar-se se estava vivo ou não, levavam-lhe à boca cigarro acceso – o lado que queimava divertindo-se com os movimentos que a vitima fazia, devido as queimaduras. Dahi foram todos transportados para Campos Novos, metidos na cadeia, na qual passaram por torturas, não se respeitando nem mulheres [dos suspeitos], segundo ouvimos”.
Os acusados foram libertados até o julgamento, ocorrido três anos depois, período qual estiveram ausentes da região. Absolvidos – quando já se sabiam serem outros os autores do atentado, voltaram residir nas terras que consideravam suas, com a devida permissão do Coronel acatando sugestão de seus conselheiros, mais como forma de recompensar injustiças feitas.
Para muitos, com tal ação de benevolência começou a cair o poder do Coronel, mas o pirajuense ainda dono da maior parte das terras adquiridas do filho do pioneiro, abandonou a Comarca e a outrem vendeu seus direitos, sendo que o Coronel Sanches de imediato espalhou seus jagunços por toda o latifúndio, no mesmo sistema “grilo articulado” outrora concebido, forçando renúncias dos pequenos legítimos proprietários que por lá permaneceram.
O novo adquirente que não se intimidou ao Coronel, e então se meteu a reconhecer a propriedade respeitando divisas com os donos menores, avaliá-las e, em juízo reclamar as realmente suas, por fim determinando o Judiciário, quando o Coronel já morto, processar a respectivas divisões e entregá-las às partes legitimadas.
Os que se entenderam esbulhados tomaram as terras do outro lado do rio Pari, e logo teriam a contestação do Capitão Francisco de Assis Nogueira que, à mesma época que Sanches, teria adquirido aqueles lados juntamente com.José Machado de Lima, este que se intitulava também sócio de Theodoro, mais um grilo notório, desta vez dito lavrado em Caconde, mas cujo expediente não pode ser comprovado.
- Cópia de um antigo manuscrito, do qual cópia em nossos arquivos, que sugere a família de Amador Nogueira Cobra responsável pelo assassinato de Coronel Sanches, por questões de terras.
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