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RAZIAS
INCURSÕES PREDATÓRIAS EM TERRITÓRIOS INDÍGENAS DO VALE PARANAPANEMA

PARTE II – OS EXTERMINADORES DO PASSADO

2. ALFERES MANECO DIONÍSIO – O MAESTRO DA POLÍTICA

O Alferes Manoel Marcellino de Souza Franco – Maneco Dionísio, “um dos primeiros professores que ensinaram o “a-bê-cê” em Avaré” (1) – comprovadamente o primeiro, além de ter sido a maior expressão política de todo Vale do Paranapanema, no século XIX e princípios do XX, sem o uso da truculência, da força das armas, das proteções compradas ou dos comprometimentos escusos, tão comuns na época dos coronéis.

A maior referência encontrada sobre Maneco trata-se da pesquisa do jornalista Gesiel Junior, com brilhante descrição inserida na página [internet] da Câmara Municipal de Avaré (2), e é nela que se assentam os respeitos ao mineiro paladino rio-novense/avareense, que assim o foi por escolha pessoal e aceitação popular.     

Maneco Dionísio nascido aos 27 de junho de 1851 na cidade de Limeira, Minas Gerais, foi o mais importante líder político do Rio Novo e da formação de Avaré. Sua família, procedente de Minas Gerais, chegou a Rio Novo em 1864, com a comitiva do Major Vitoriano de Souza Rocha. Precoce, aos dezesseis anos integrou a Junta Administrativa que governou Rio Novo, e foi o primeiro secretário da Câmara Municipal, em 1875.

Polemico e inteligente Maneco, católico e monarquista, tinha sua ocupação mais discutida a de Provedor da Irmandade de Nossa Senhora das Dores, quando ostensivamente contestava o regime republicano instalado no Brasil, especialmente no tocante às leis não revogadas. 

Membro da Guarda Nacional, em 1888 fundou o jornal O Rio-Novense – em cujas páginas ele advogou a mudança do traçado da estrada de ferro, projetado para passar longe do Rio Novo, convencendo as autoridades provinciais a mudarem o projeto e dar a Avaré a sua estação ferroviária, em 1896, como conquista decisiva para o desenvolvimento local.

  • O Jornal Rio-Novense foi o segundo de Rio Novo [Avaré], fundado em 1888, precedido pelo O Autonomista fundado em setembro de 1885 (3),

Maneco mantinha bons relacionamentos políticos com seu amigo pessoal Prudente de Moraes, com o qual veio fundar o importante Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.

Esse relacionamento com Moraes, Presidente de São Paulo em 1889 e do Brasil, em 1894, certamente justificou o êxito de Maneco em fazer passar por Avaré a desejada estrada de ferro.

Intelectual, fundou o Clube de Leitura de Avaré, publicou pesquisas sobre as origens de Avaré e de Itaí, editou trabalhos sobre pesquisas que apontavam a existência de carvão de pedra no subsolo do município, e outros temas discutíveis e avançados para a época.

Muito religioso promoveu a primeira conferencia vicentina de Avaré, o que lhe possibilitou três anos depois audiência particular com o Papa
Leão XIII, em 1900.

Pela sua competência em dirigir a Irmandade Nossa Senhora das Dores, foi escolhido, em 1904, Diretor do Banco de Custeio Rural de Avaré.

Viúvo e com a saúde debilitada afastou-se do meio político e social, vindo falecer aos 23 de maio de 1930, vitima de uma doença – possivelmente Mal de Alzheimer que o fez perder a memória inclusive da própria personalidade.

De alguns outros feitos de Maneco Dionísio citamos tais no tópico Primeiros Núcleos Povoadores – Avaré.

3. FRANCISCO SANCHES DE FIGUEIREDO O MAIS PODEROSO DOS CORONÉIS

Segundo Leoni, a história do mineiro Francisco Sanches [Sancho] de Figueiredo, na região, teve início por volta de 1875, em terras adquiridas diretamente de José Theodoro de Souza, na localidade onde hoje Palmital (1).

Amador Cobra identifica Sanches “que para alli chegou pouco depois da morte de Theodoro. Com seu pae, Francisco Lourenço e tios, comprou as terras que chamaram ‘dos Figueiredos’, em 1876, próximo ao Taquaral. Era simples lavrador e eleitor até poucos anos antes de assumir a chefia política que conservou até 1912, quando foi assassinado” (2). As terras foram adquiridas de João da Silva Oliveira – cunhado de Theodoro, numa transação ilícita em prejuízo ao herdeiro póstumo do pioneiro-mor, morto em 1875.

Depois Sanches já entra feito para a história, como dono de terras nas imediações de Campos Novos, beiras do rio do Peixe e a atual Platina pelo rio Pari-Veado, divisando-se com o Capitão Francisco de Assis Nogueira [fundador de Assis], indo suas divisas até a margem paulista do Paranapanema, para se unir com sua fazenda primeira [em Palmital].

O sertão exigia homens fortes e corajosos para conquistá-lo, capazes de enfrentamentos aos índios e demais perigos de se habitar regiões inóspitas e proteger aqueles que lhe eram subservientes e correligionários, com o que se justificam os autores regionais que Coronel Sanches foi tanto um matador de índios, quanto implacável com seus adversários, porque o meio assim exigiu dele, um homem destemido, progressista e fadado a ser líder.

Não são poucas as referências históricas ao Coronel Sanches e sua obsessão em caçar, matar, escravizar índios e tomar-lhes as terras – que considerava suas por compra ou fosse a qualquer modo, com violência tanta que até o renomado Giovannetti, apologista maior às qualidades humanitárias daquele chefe político, admite que “O Cel. Francisco Sancho de Figueiredo, iniciou uma luta sistemática contra os indígenas, organizando expedições que denominou dadas. Nas investidas trouxe para sua fazenda vários índios, talvez com o fim, de civiliza-los encaminhando-os para os trabalhos agrícolas” (3)

Do Coronel Sanches contam-se horrores em suas empreitadas contra indígenas. João Francisco Tidei Lima transcreve-nos: “Numerosos grupos chefiados pelo Coronel Francisco Sanches de Figueiredo, partiu de Campos Novos, atravessou o rio do Peixe, seguindo rumo noroeste alcançou as vertentes do rio Feio e pela madrugada aproximou-se da aldeia [dos Caingangues]. Esta era composta de 5 [cinco] linhas de rancho, de uma cerca de 40 [quarenta] metros de comprido, roça de milho calculada em 12 [doze] alqueires, animais domésticos, 500 [quinhentos] índios (...). Pereceram todos os capitães da aldeia )...)” (4). Prossegue Tidei Lima: “Mais tarde, o superior dos capuchinhos, Fr. Bernardino de Lavalle, ao se referir ao massacre de 1886 [o acima citado] acrescentaria também a utilização de ‘1 kg de Strychnina, para extinguir, com um intervalo de 5 a 6 meses’, a população de mais duas aldeias Caingangues (5). Teriam perecido, em conseqüência do envenenamento dos suprimentos de água, mais de 1000 [mil] Caingangues” (6).

Tremendo morticínio ganhou manchetes de jornais da época e denúncias às autoridades constituídas. O Governo da Província de São Paulo declarou-se incrédulo: “Procurando colher informações seguras sobre tão grave assunto, não obtive, felizmente, confirmação da notícia que aliás parecia à primeira vista inverossímil” (7).  Pouco depois, assegura-nos Tidei Lima, “a mesma fonte admitia implicitamente a procedência da denúncia, ao justificar a necessidade das missões religiosas como meio de abrandar o ódio dos nacionais contra os selvagens” (8).

Desta prática de Sanches confirma-nos Amador, ao esclarecer que o sistema de combate, frente a frente “não acabavam com os indígenas, que eram em grande numero no valle rio do Peixe, principalmente no divisor das águas deste com o rio Feio. Foi mister adoptar, ao lado da antiga tática [dadas], uma outra (...) deitavam substâncias venenosas nos utensílios de cozinha e nos alimentos alli guardados, para que fosse victimado no comer algum que porventura sobrevivesse” (9).

Também não são poucos os informes de confrontos com indígenas, quando Sanches comandou a abertura da Estrada Boiadeira concluída em 1884, a acuar restos tribais Oitis e Caiuás para além dos rios Paraná e Paranapanema, não sendo poucos os mortos naquelas investidas em nome da civilização progressista.

  • Sanches era extremamente rico e o mais poderoso dos coronéis em 1906, quando contratado pela Companhia de Viação São Paulo – Mato Grosso, como empreiteiro, porque diante dele e seus homens fugiam os índios, os últimos Caingangues que ainda insistiam lutar contra os brancos.

Francisco Sanches foi, talvez à exceção de José Theodoro de Souza e João da Silva, o maior matador de índios dos Vales do Peixe e do Paranapanema, sendo famosas suas dadas a arrasar tribos inteiras, além das razias praticadas sobre caingangues em terras do rio do Peixe. A guerra do branco contra o índio sempre foi desigual, “terminada sempre com a vitória dos    atacantes” (10), e os armamentos do Coronel, veremos, eram próprios para a guerra – recebidos do governo para a Revolução Federalista, assim como seus homens treinados para os mesmos propósitos.

Homem inquieto, de varações e conquistas, sua progressão econômica ocorreu mais rapidamente entre 1880 e 1890, quando comprava propriedades, subtraia-as dos legítimos donos das posses ou nelas fazia entrar prepostos – falsos agricultores, para torná-las mais seguras e, portanto, mais valorizadas, para vendê-las aos colonizadores que chegavam. Era a prática do grilo.

Com o começo da República, a florescente vila de Campos Novos experimenta profunda mudança política, com a queda do chefe João Fernandes de Araújo Leite, o João Gordo, que embora republicano de primeira chamada, se viu substituído pelo Coronel Francisco Sanches Figueiredo.

  • A família Sanches, antes da proclamação da República, era do Partido Conservador monarquista, liderado pelo parente José Vicente Figueiredo em oposição aos liberais comandados pelo italiano por Nicolau de Maio. Apenas João Gordo tinha idéias republicanas declaradas, todavia, enredado e posto em descrédito, deu azo para a família Figueiredo assumir controle e mando político regional, na pessoa do Coronel Francisco Sanches de Figueiredo.

Em desgraça João Gordo se viu na obrigação de deixar a Comarca, sob risco de morte; certo Vicente Lena fora encarregado por Sanches de assassinar João Gordo (11), mas lhe foi permitido deixar a Comarca em segurança dentro de determinado prazo. Consta que Lena ficou próximo da casa de João Gordo até que este veio se mudar, acompanhando-o até a divisa com a Comarca de Santa Cruz do Rio Pardo.  

Em poucos anos Sanches cresceu e seu poder agigantou-se, estendeu influências, preocupou outros mandatários políticos regionais.

Lenda ou certo, por volta de 1893 outros coronéis houveram por bem eliminar Francisco Sanches; decidido o seu destino as tropas inimigas invadiram sua fazenda em Palmital, numa famosa refrega acabando Sanches por vitorioso, ciente antecipadamente do ataque através do Coronel Marciano José Ferreira, seu aliado desde a traição aos demais colegas de patente.

Historicamente o poder de Sanches consolidou-se a partir de 1893, quando Campos Novos tornou-se Comarca desmembrada de Santa Cruz do Rio Pardo, uma conquista de Sanches, até como conseqüência natural dos fatos, pois desde sua ascensão à condição de chefe político, os moradores de Campos Novos afluíam a Lençóis para seus negócios comerciais, forenses e serviços de correspondências [correios], evidente rivalidade a Santa Cruz do Rio Pardo.

Já desde antes do poderio do Coronel que Campos Novos e Santa Cruz mantinham rixas político-administrativas, embora Santa Cruz contasse com Agência Postal [Correio] – desde 1876; Termo Judicial [outubro de 1877] para certos serviços forenses sob jurisdição de um Juiz, e Coletoria de Rendas Gerais em 1878, os moradores de São José do Rio Novo [Campos Novos Paulista] optavam por Lençóis para tais soluções.

Amador Cobra assegura que desde 1893 Sanches era o chefe e dominava sua Comarca a partir de Campos Novos (12).

3.1 O EXERCÍCIO ABSOLUTO DO PODER

Dono absoluto do poder em toda Comarca, à exceção de Conceição de Monte Alegre, Sanches convenceu o Juiz de Direito José Baltazar de Abreu Sodré – o primeiro da localidade, a deixar a magistratura para advogar a seu favor e assumir o comando político em seu lugar, uma importante estratégia para beneficiar os apadrinhados de seu grupo político, nas inúmeras querelas contenciosas, que se viam envolvidos juridicamente (13).

O poder e a influência de Sanches chegaram até a Capital da Província, na época da Revolução Federalista. Exageros ou não, o chefe político Coronel Francisco Sanches de Figueiredo oficiou o Comandante em Chefe das tropas de São Paulo, “receando que as nossas fronteiras sofressem o insulto da invasão do inimigo que se achava em Tibagi, cuja povoação havia aderido ao movimento revolucionário, organizava um batalhão de guardas nacionais voluntários, para guardar as fronteiras do Tibagi” (14).

O gesto do Coronel Sanches o levou como herói à presença do Governador de São Paulo onde expôs os perigos “que os sertões do Paranapanema viessem a soffrer com a invasão das tropas federalistas” (15). Conquistou o apoio necessário para armar seus homens e guarnecer sentinelas do lado paulista em pontos julgados vulneráveis.

Amador Cobra diz que Sanches recebeu do Governo algumas dezenas de carabinas, munições e 60 contos em dinheiro, a ordem de pagamento que lhe deram no Tesouro do Estado, uma grande soma para a época, que o Coronel afirma ter recebido apenas 30 contos. Amador indaga “E os outros trinta onde foram parar! Na algibeira do portador do cheque que, em companhia do destinatário da quantia, foi recebel-a no banco. O chefe político de Campos Novos dizia que achou exquisito o caso, mas não teve remédio senão concordar com a divisão a meio, pois que o sócio era graúdo, cujo nome declinava; contra esse, cousa alguma podia fazer” (16).

Finda a revolução não havia dinheiro para restituir, enquanto as carabinas e munições restantes ficaram sob a guarda do Coronel, enfim, não houve nenhuma prestação de contas. Consta, no entanto, que Sanches realmente armou seus voluntários, intimou outros, mais de duzentos homens postos diante da barra do Tibagi, por alguns meses, durante os quais nenhum só tiro de batalha se fez ouvir (17).

Apesar de tanto poder e prestígio, o Coronel não exercia influências com as gentes de Conceição de Monte Alegre, que se via, no entanto, cerceada em suas aspirações políticas e dependências econômicas do governo de São Paulo, retaliação do Coronel Sanches, pelo que nos dá entender José Jorge Junior: “Esta incompreensível demora de autonomia de Conceição deve-se, além da falta de contatos políticos entre os seus líderes e a capital, os trabalhos de obstrução praticados pelos políticos de Campos Novos (...)” (18).

O Coronel conquistou Conceição bem mais tarde, desde que por lá assumiu controle o Capitão-Ajudante da Guarda Nacional, Viriato Olympio de Oliveira, que antes servil e sempre à disposição do Coronel. Diz Benedicto Benício: “(...) Capitão Viriato se projetou no cenário político, granjeando a simpatia e a confiança dos munícipes, e notadamente do “staff” político regional, na ocasião liderado pelo Coronel Francisco Sanches Figueiredo (...)” (19).

Sanches de Figueiredo residiu por anos em Campos Novos e, por fim, decidiu fixar residência numa fazenda próxima da vila Saltinho do Paranapanema, que ele mesmo fundou e logo se chamaria Platina.

3.2 O PODER CONTESTADO

Apesar de bem protegido por seus jagunços, Capitão Sanches sofreu sério atentado em 1897, tocaiado e ferido, no entanto pondo a correr seus assaltantes, Leoni assim o afirma, ocasião que o Coronel fez vir o primo Vicente Lourenço Ferreira [membro do grupo primitivo de Theodoro], para cuidar seus ferimentos (20). Sanches e Vicente mais tarde também se desentenderiam.

O atentado sofrido pelo Coronel o foi em razão de disputas de terras à margem esquerda do rio Pari, que Sanches adquirira ilegalmente de João da Silva Oliveira – cunhado de Theodoro, em prejuízo ao herdeiro póstumo José Luiz de Souza. Confiava na ação do tempo para tornar efetivamente sua aquela imensa fazenda usurpada do legítimo herdeiro, antes mesmo de nascer.

De imediato o Coronel fez povoa-la através de prepostos de titularidades, ou seja, de falsos e mesmo inexistentes agricultores, apenas para garantir posses até se consumar a prescrição aquisitiva, para que ela lhe retornasse limpa. Era o chamado grilo articulado.   

No entanto, atingida a maioridade, José Luiz apresentou-se titular daquelas terras, alienando-as a um aparente cultivador que resolveu assumi-la. O Coronel reagiu, certamente, porque era isto que se esperava dele, além de não tolerar alguém confronta-lo com títulos de domínios, verdadeiros ou não, de uma propriedade que considerava sua ou de seus correligionários.
Amador assim descreve os acontecimentos (21):

“No município, quando se soube do ocorrido, o espanto foi geral. O adquirente dos bens dizia estar na mesma incluída a margem esquerda do Pary, toda ou porção della; viu-se, por isso, ameaçado em sua vida e teve que sair da comarca. De fora deu passos necessários e, por intermédio de terceiros [compradores de partes das suas terras], foi entrando nos lugares em que dizia haver terras pertencentes ao espólio que representava.

Dirigindo suas vistas para os lados do Pary, seus interesses collidiam com os de todos [os homens do Coronel] que ocupavam a faixa, desde Platina até o Paranapanema (...).

Surgiu dahí tremenda lucta entre os intrusos [os homens do Coronel] e o pretendente ao qual homens de Piraju, compraram partes dos terrenos provenientes de José Luiz, no centro dos quaes se collocaram com o fim de desfrutar o seu e o mesmo tempo vigiar o resto que o vendedor ainda possuía.

Mas não convinha aos direitos dos contrários esse estado de cousas e a hostilidade recrudesceu. O povo do lugar relacionou com a questão a tentativa de morte de que foi victima o chefe da política [Coronel Sanches], quando viajava de Platina para a fazenda. Ao passar por uma porteira recebe um tiro de emboscada que lhe não produziu mortal ferida. O companheiro, pedindo socorro, em altos brados, parece ter concorrido, com isso, para que os assassinos não secundassem a descarga e fugissem”.

Parece certo que os jagunços do Coronel foram atraídos por alguns movimentos suspeitos mais adiante e para lá acorreram, enquanto os assassinos tocaiados atingiram a vitima.

“Procedeu-se impiedosamente no castigo que se infligiu aos auctores, afim de não se repetir o facto e servir de exemplo a repressão. Abriu-se inquérito rigoroso, com feição inquisitorial. Uma escolta de civis foi até a morada dos indigitados criminosos acompanhando o subdelegado. Aos moradores que encontrou conduziu até Platina, debaixo dos maiores vexames e pancadas. Um destes recebeu descarga [tiro], da parte dos encarregados da prisão, chegando a villa, quase morto. Atirado ao chão, em redor de uma fogueira, os circunstantes, querendo certificar-se se estava vivo ou não, levavam-lhe à boca cigarro acceso – o lado que queimava divertindo-se com os movimentos que a vitima fazia, devido as queimaduras. Dahi foram todos transportados para Campos Novos, metidos na cadeia, na qual passaram por torturas, não se respeitando nem mulheres [dos suspeitos], segundo ouvimos”.

Os acusados foram libertados até o julgamento, ocorrido três anos depois, período qual estiveram ausentes da região. Absolvidos – já se sabiam ser outros os autores do atentado, voltaram residir nas terras que consideravam suas, com a devida permissão do Coronel acatando sugestão de seus conselheiros, mais como forma de recompensar injustiças feitas.

 Para muitos, com tal ação de benevolência começou a cair o poder do Coronel, mas o comprador das terras de José Luiz, ainda dono da maior parte adquirida, abandonou a Comarca e a outrem vendeu seus direitos.

O novo adquirente meteu-se a reconhecer a propriedade, avalia-la e, em juízo reclama-la sua, por fim determinando o Judiciário processar a respectiva divisão e entrega-las às partes legitimadas. Os esbulhados tomaram as terras do outro lado do rio Pari, e logo teriam a contestação dos sucessores do Capitão Francisco de Assis Nogueira que, à mesma época que Sanches, adquiriu aqueles lados juntamente com.José Machado de Lima.

Quando, em 1912 o processo ainda por concluir, Coronel Sanches sofre novo atentado, desta vez fatal.

3.3 QUE MOTIVO ALGUÉM ASSASSINAR SANCHES?

O Coronel sabia que inimigos pretendiam sua morte, por isso sempre cercado de capangas – guarda reforçada desde 1897, quando que lhe atentaram contra a vida, até a fatídica noite de 22 de fevereiro de 1912 em que alvejado por dois pistoleiros que o encontram, estranhamente desacompanhado, num trecho da Estrada Boiadeira entre Campos Novos e Platina. Foram tiros certeiros, o primeiro em sua mula outros dez ou mais em seu corpo.

  • Sanches também metido a médico do sertão, na data de seu assassinato fora chamado, às pressas, para atender o filho de um amigo fazendeiro (22), permanecendo no local até o iniciar da noite.

Inexplicável porque estava só, sem nenhum segurança, quando atacado e morto, provavelmente por aqueles dois homens que já o procuravam desde manhã, em Platina e depois na Fazenda Água do Matão, como se desejassem encontra-lo para algum recado, talvez pedir emprego, não se soube e nenhuma suspeita daquilo que realmente pretendiam fazer, nem se eles o fizeram de fato.

João Antonio de Campos e Brasiliano da Silveira Castro foram acusados do assassinato. O primeiro foi preso em Pereiras nas proximidades de Botucatu, morrendo na Cadeia Pública, antes do julgamento, de acordo com Amador Nogueira Cobra (23).  

Brasiliano se refugiou na Argentina e nunca foi preso pelo crime cometido (24).

De um homem que colecionou tantos inimigos na vida, qualquer deles que se visse prejudicado, ou sua parentela, seria potencial mandante da execução do rival poderoso; “e há notícias de que muitos crimes tinham ligação com este assassinato, segundo relatório do Doutor Cobra  [Amador Nogueira Cobra]. (...)”. Infelizmente o autor encerra com lacônica sentença, “entretanto não nos interessa averiguar tais fatos” (25).

As atrocidades de Sanches foram muitas, porém, do ponto de vista político nenhuma maior que a supostamente cometida contra o Coronel Marciano, o homem que o livrara da morte na Guerra dos Coronéis e quem o ajudara firmar-se líder político em Campos Novos.

  • Do Coronel Marciano José Ferreira, diz Amador Nogueira Cobra: “Viera de S. Simão para o Paranapanema, em companhia de outros parentes, entre os quaes o cel. Antonio Evangelista da Silva, chefe político de prestígio em Santa Cruz do Rio Pardo (...)” (26).

Coronel Marciano era homem destemido, falador e dado a confusões; foi agrimensor de terras no Vale Paranapanema, partes do Peixe, com a técnica de medir espigões secundários como primários, com isso a determinar a área e deixar terras de fora (27), ou medir espigões ignorando baixadas, para concluir menor o tamanho da propriedade em questão, embora com mais terras.

Coronel Sanches, dado a compras de vendas de terras, tinha seus interesses em Marciano, também por isso, além da gratidão por ocasião da Guerra dos Coronéis. Um dia se desentenderam por motivo ignorado, e Marciano mudou-se para São Pedro do Turvo.

Depois disto, coronel Marciano e sua equipe, em número de trinta pessoas, foram contratados para medir e divisar terras lá para os lados do rio das Anhumas, adiante das terras dos Medeiros, a ultima sentinela do sertão. Nessa empreitada, durante as medições, Marciano desapareceu, misteriosamente, de nada a adiantar tantas expedições procura-lo.

Encontraram roupas e armamento de Marciano, viram restos de fogueiras recentes, à maneira dos brancos, mais nada. Usaram outras expedições, inclusive do exército, sem resultados e até recorreram ao Coronel Sanches que tinha os melhores homens do sertão.

Dos componentes da expedição de Sanches, Amador Cobra descreve-os como “(...) os mais afamados conhecedores do sertão, tendo à frente o cel. Sanches de Figueiredo, Domiciano Luiz da Rosa e tantos outros; sua opinião não podia ser fructo de um erro de observação; conheciam perfeitamente os hábitos dos silvícolas, por ter dirigido campanha contra elles durante muitos annos! Com que fundamento regressou Sanches affirmando que, a seu inimigo Marciano, o indígena capturara e conduzira para aldeia? Ninguem deu credito a essa balela” (28)

O Coronel Sanches teria motivos para matar Marciano, porque este o teria denunciado ao governo central das praticas das suas dadas e semi-escravização indígena, como bem nos informa Amador Cobra destas práticas de Sanches (29). Tal hipótese ganha força quando sabemos que o governo federal enviou a Campos Novos membros da Comissão Rondon para procurar Marciano e levantar responsáveis (30).

Mais propriamente acreditamos que o desentendimento, entre Marciano e Sanches, tenha ocorrido em razão das delituosas medidas de terras e divisões das posteriores entre eles.

Muitos outros também tinham interesses no desaparecimento do Coronel Marciano. Por exemplo, ele teria feito sumiço de seu genro Augusto, e a família resolveu pelo revide. Esteve suspeito no assassinato de João Pedro, o líder político de São Pedro do Turvo.

Envolveu-se em distintos entreveros e tantos ódios em Campos Novos e região (31), que até na morte de Emigdio Piedade Filho, em Ipaussu, esteve suspeito de participação, como talvez favores prestados ao primo Tonico Lista, o maior beneficiado com as mortes de João Pedro e Emigdio Piedade.

Nenhum argumento, todavia, foi mais forte para livrar suspeitas que Sanches tenha feito seqüestrar e matar Marciano.

 Amador, em entrelinhas, deixa-nos entender que o tipógrafo jornalista Nicanor da Silva Ribeiro, diretor proprietário do jornal O Paranapanema, teria informações seguras que Sanches seria assassinado por aqueles dias.

  • Nicanor como jornalista atacava primeiro os situacionistas para depois a eles se aliar, e mudar conduta editorial como disse Amador Cobra (32), e isto já vinha desde Santa Cruz do Rio Pardo, quando teria atacado o Coronel Antonio Evangelista da Silva – Tonico Lista, motivo de sua transferência para Campos Novos, e num desses procedimentos teria encontrado motivos para se redimir perante o Coronel passando-lhe informações que incriminariam Sanches no caso Marciano. A suspeita não prosperou por absoluta ausência de interesses.

Explicamos melhor: a mulher de Nicanor da Silva Ribeiro, antes de viajar ás pressas de Campos Novos para Santa Cruz do Rio Pardo e seu marido para a Capital, passou informações ao advogado Amador Nogueira Cobra, conforme que ele mesmo esclareceu “que ia se dar um barulho, naqqueles dias, em Campos Novos” (33), ou seja, o assassinato do Coronel Sanches, com detalhes e mandantes do crime, que Amador não ousou revelar nem a si mesmo como escritor.  

  • Amador em nota de rodapé – referência acima diz de Nicanor e mulher, assim como das informações recebidas, evidentemente a se furtar dos detalhes mais comprometedores, posto possível defensor do acusado João Antonio de Campos. Amador jamais nem ao menos insinuou o nome de algum possível mandante do crime.

Descobertos os assassinos, um deles preso e outro em fuga, soube-se que grande quantia em dinheiro, que o Coronel guardara em casa em lugar costumeiro, fruto da venda de umas terras, havia desaparecido, sendo improvável que na data de sua morte a vítima tivesse saído com tanto dinheiro na guaiaca, algo em torno de 30.000$000.

O crime repercutiu em todo território paulista, e o governo do encaminhou para Campos Novos o Alferes João Antonio de Oliveira (34), comissionado no posto de Tenente Chefe do Serviço de Captura da Polícia de São Paulo, o famoso Tenente Galinha – caçador de homens, de 1888 a 1913 – quando assassinado.

Galinha chegou a região de Platina e Campos Novos usando de tremenda violência contra aqueles considerados suspeitos, posseiros e desapossados de terras, principalmente os fixados mais próximos do Pari. Além da violência, nenhuma simpatia granjeada, nenhuma solução esperada para o crime.

É entendimento final que o dinheiro desaparecido foi distribuído entre chefes políticos de Campos Novos. Quanto o mandante do atentado este jamais foi revelado.

4. CORONEL ANTONIO EVANGELISTA DA SILVA – A TRAJETÓRIA E O DESTINO DE UM HOMEM

Houve uma época que a força política do Coronel João Baptista Botelho, de Santa Cruz do Rio Pardo, era a mais expressiva da região de todo oeste paulista, sendo meros coadjutores o Coronel João Fernandes de Araújo Leite na região de Campos Novos [São José do Rio Novo], Coronel Anacleto Pires em Avaré [Rio Novo], Coronel Firmino Braga em Piraju [Tijuco Preto], Coronel Pedro Pocaí – Salto Grande, Emigdio Piedade Filho – Iapuçu e Coronel João Pedro em São Pedro do Turvo, além de outros de menores expressões.

  • Relatório da Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo, de 1902, São Paulo, no Quadro Demonstrativo das Terras Dadas em Registro, páginas 98 a 161, consta o nome do Coronel João Baptista Botelho, entre os poucos proprietários paulistas com cerca de 100 mil ou mais alqueires de terras (1).

O poder político-econômico era todo do jovem Coronel Baptista Botelho, em 1892, quando a família Evangelista da Silva veio a residir em Santa Cruz do Rio Pardo, proveniente de São Simão. O filho Antonio Evangelista da Silva – Tonico Lista (2) tinha apenas vinte três anos, posto nascido em 1869.

Foi naquele mesmo ano de 1892, dez de junho, que Tonico Lista se meteu num entrevero, na zona do baixo meretrício, matando a tiros dois soldados integrantes do grupo de Escolta de Capturas da Força Pública do Estado aquartelado em Santa Cruz, com objetivos de prender um místico cognominado Frei Manoel, arrebanhador de seguidores na região de São Pedro do Turvo e Campos Novos Paulista.  

Tonico Lista livrou-se da prisão conhecendo assim a ação e o poder do Coronel Batista Botelho, que mantinha sob controle advogados, delegado, outras autoridades e até juízes, além daqueles que lhe deviam favores. Grato ao seu protetor, Tonico filiou-se ao Partido Republicano Paulista.

Inteligente, prestativo e sabendo aquilo que bem pretendia, Tonico cedo aprendeu os meandros da política, a força do poder e a energia necessária para se fazer líder respeitado; também logo aprenderia não tolerar oposições. Coisas do poder.

Não se sabe como Tonico reagiu diante da instalação da Comarca de Campos Novos Paulista, em 1893, que deixava de ser Termo de Santa Cruz a despeito dos esforços do Coronel Botelho; mas certamente ficou preocupado com a ascensão do Coronel Sanches em detrimento ao mando regional do Coronel Botelho. Ficaria mais inquieto quatro ou cinco anos depois, quando o Juiz de Direito de Campos Novos, Dr. José Baltazar de Abreu Sodré, deixa a magistratura para advogar e assumir controle político da nova comarca, na condição de lugar tenente do já poderoso Coronel Sanches.  

  • A importância política da família Abreu Sodré estava crescente em toda região. Dr. José Baltazar de Abreu Sodré, chefe político em Campos Novos, o Tenente Coronel Baltazar de Abreu Sodré – dono de farmácia, coletor e 2o. Juiz de Paz em Santa Cruz do Rio Pardo, o médico e fazendeiro Francisco Paula de Abreu Sodré – que se tornara adversário do Coronel Botelho, e o engenheiro Lauro Sodré, residente na capital federal [Rio de Janeiro], postulante ao cargo de senador federal. 

O ascenso político de Ataliba Leonel, em Piraju, também viria abalar a força regional de mando do Coronel Botelho, que passa a colecionar subtrações regionais sucessivas, a culminar com a perda do diretório municipal do PRP para o médico Francisco Paula de Abreu Sodré, este sob orientações do Deputado Federal Antonio José da Costa Junior e prestígios do sobrenome.
 
Para o Coronel João Baptista Botelho nenhuma perda foi maior que a amarga derrota dentro de seu próprio domínio, Santa Cruz do Rio Pardo, jamais dissimulada mesmo com a criação do seu PRP dissidente. Ausentou-se da política, preocupou amigos e familiares, sua ala partidária omitiu-se da votação de 21 de maio de 1902 para o governo de São Paulo e juizes de paz da localidade, para enfim o próprio Coronel declarar aos 09 de julho de 1902 o fim de uma época que foi sua, com um tiro no ouvido. 

Olympio Pimentel assumiu o PRP dissidente, preparou-o para as eleições de vinte oito de fevereiro de 1903, criou tumultuo, lançou protesto, mudou o local de votação para seu pessoal e simpatizantes, registrou seus votos em cartório, perdeu as eleições.

Enquanto Pimentel insistia em sua pugna contra Abreu Sodré, o acaso favoreceu Tonico quando, numa viagem de negócios a São Paulo e sua costumeira visita ao PRP, conheceu Julio Prestes e depois Ataliba Leonel, o chefe político de maior prestígio do Vale Paranapanema. Boas conversas e entrosamentos, os principais do governo paulista não desejavam um PRP dividido, investiram Tonico no cargo de Presidente da Comissão Diretora do Partido Republicano Paulista – Diretório de Santa Cruz do Rio Pardo.     

Antonio Evangelista da Silva – o Coronel Tonico Lista, herdou assim todo patrimônio político do Coronel Botelho, fazendo-se o poderoso da ainda vasta comarca de Santa Cruz do Rio Pardo. Casou-se com a viúva do coronel Botelho.

Tonico se tornou político hábil em manobrar as massas, teve o apoio ou o temor dos pobres, a simpatia e servilidade dos ricos e o respeito dos adversários. Arguto colocou seus interesses pessoais juntamente com os da comarca que dirigiu, numa projeção nominal tanto política quanto econômica.

Em sua escalada adquiriu inimigos que lhe criaram dificuldades, tornou-se inflexível nas negociações políticas, acercou-se de jagunços, fez uso e força do poder absolutista que entendeu possuir, sem abrir mão de métodos violentos com os inimigos seus, para não se mostrar fraco perante correligionários e protegidos.

Acusaram-lhe de encabrestar votos, fraudar eleições, eliminar inimigos, mas nada se provou e sua fama correu sertão, espécie de lenda viva, aquele que apenas pelo querer tudo podia e fazia, a favor do seu povo ou diante dos seus inimigos.

Não é difícil compreender que Lista acreditava ser ele e apenas ele o predestinado a conduzir a Comarca para o lugar que ela merecia, em nível de estado. Seu poder local em 1908 era inconteste, um espaço conquistado que não cedia a ninguém, companheiro ou adversário..

  • Uma tradição dizia que Lista teria impedido a Sorocabana fazer seu entroncamento ferroviário em Santa Cruz. Tal não procede, a mudança de planos da Companhia foi imposição dos governos de São Paulo e Federal, para abrir e integrar novos povoados ao longo da estrada de ferro, com raras exceções, e assim preterir localidades mais antigas já em outros caminhos pioneiros de interiorização.      

A partir de 1909 assassinatos e agressões aconteciam, quase em série, nas comarcas de Santa Cruz e Campos Novos, tratando-se de confrontos políticos, eliminações de adversários, sem saber ao certo os articuladores ou, quem sabe, um único mentor de tudo aquilo.

Os atentados eram inteligentes, eliminando as influências dos Coronéis de outras localidades, primeiro aqueles que não pesavam tanto no jogo político, mas gentes ligadas algumas a Sanches [Comarca de Campos Novos], outras a Pedro Pocaí, um líder crescente na localidade de Salto Grande, e aqueles outros que ousavam mais abertamente desafiar o Coronel Lista, nome sem dúvidas no topo dos principais suspeitos no cometimento dos crimes.   

Coronel Sanches foi assassinado, em 1912, conhecidos os assassinos, mas não o mandante ou os mandantes. Em setembro de 1913 morreu Pedro Pocaí, de Salto Grande, que pretendia ocupar o espaço deixado por Sanches. A história foi silente durante todo aquele período que, sabidamente, nem juízes, promotores ou delegados nomeados na Capital, puderam ficar na Comarca de Santa Cruz, porque não contavam com o beneplácito do chefe Lista.

 Os crimes ganharam manchetes, preocuparam o governo e as autoridades, até que chegou a Santa Cruz o Juiz de Direito Francisco Cardoso Ribeiro, para esclarecer crimes, punir responsáveis – nem que fosse Tonico Lista, e por ordem às confusões reinantes na região.

Ciente o novo juiz que todos os acontecimentos estavam ou podiam estar ligados direta ou indiretamente ao Coronel Tonico Lista, a quem se subordinavam o delegado e os juizes anteriores. Cardoso Ribeiro, que dizia ter retaguarda na Capital, resolveu inquirir fatos ouvindo os adversários de Lista, desprezando conselhos dados para que usasse de bom senso e cautela.

  • Dr. Washington Luis Pereira de Sousa era a retaguarda avocável do juiz Cardoso Ribeiro. Washington, formado em Direito tornou-se político, primeiro como Deputado paulista de 1904 a 1908, depois Secretário de Justiça [1912], Prefeito de São Paulo [1914], Governador de São Paulo [1920-24], Senador Federal de 1924 a 1926 e, por fim, Presidente da República gestão de 1926 a 1930.

O juiz, em suas investidas, atritou-se diretamente com o Coronel, recebendo deste o ultimato para deixar a Comarca, ordem cumprida na madrugada imediata até a estação ferroviária de Bernardino de Campos, o Juíz escondido numa carroça para transporte de pães.

  • Washington Luiz, como Secretário da Justiça, fora o responsável pela nomeação de Dr. Cardoso Ribeiro, Juiz de Santa Cruz do Rio Pardo, mas não mais ocupava o cargo quando da expulsão de Cardoso, no entanto conseguiu, por influência, nomeá-lo juiz em Campinas.

Quase duas décadas de mando e o poder desgastou Lista, os amigos pediam mais do que ele podia oferecer. Enquanto os inimigos se fortaleciam Tonico Lista mostrava-se enfadoso; pior que isso somente Washington Luiz ser eleito governador do Estado e, de pronto, fazer seu Secretário da Justiça o Dr. Cardoso Ribeiro.

Cardoso Ribeiro veio à forra contra Tonico Lista, ao nomear Delegado de Polícia para Santa Cruz do Rio Pardo, Dr. Coreolano de Góes, o mais temível – e dizem-no mais cruel, dentre todos os delegados e policiais de São Paulo, depois do Tenente Galinha.

Os processos contra Lista foram todos desarquivados, alguns possivelmente forjados, refeitos ou extintos, escolhidos aqueles de maior impacto, testemunhas seguras e enfim levado a juízo. Sentenças dadas e sentenças reformadas, Lista conseguiu se ver livre através de advogados de primeira linha, os melhores e mais caros: Dr. Julio Prestes [pouco depois seria governador de São Paulo e depois presidente da república – derrubado por golpe], Altino Arantes [recém saído da chefia do governo do estado de São Paulo] e mais Dr. Raphael Corrêa de Sampaio [professor, dos maiores nomes em Direito do Brasil].

Tonico Lista, ainda que um tanto empobrecido, quis retornar forte na política local; reorganizou o partido e se preparou para as eleições de 29 de abril de 1922, para deputados e senadores do estado.

Santa Cruz entrou em ebulição, oposição e situação digladiaram-se, deixando o plano das ameaças e partindo para os confrontos armados, com mortos e feridos. Tonico Lista prestou declarações, justificou-se, procurando incriminar a oposição. Coronel Arlindo Crescencio da Piedade, o chefe da oposição, também faz o mesmo; são opositores, Lista era o prefeito, Coronel Piedade o Juiz de Paz em exercício.  

  • Arlindo Crescencio Piedade era chefe político do Partido Municipal, criado sob inspiração do Secretário da Justiça, Dr. Cardoso Ribeiro, para ser oposição a Tonico Lista [PRP].

A contestação fora notória, atrevida até, tanto que para alguns companheiros Tonico entrava em declínio político, não era mais o temido de antes, a oposição estava crescente e ousou desafia-lo, em público, segundo os acontecimentos de 29 de abril. Mesmo assim os opositores que antes das ultimas eleições acreditavam-no enfraquecido, agora tem certeza que o Coronel se fortalecera nas adversidades e ainda era um rival longe de ser batido.

As opiniões entre situação e oposição estavam divididas, apenas uma certeza em comum, o Coronel corria risco de sofrer algum atentado. Muitos lhe desejavam a morte, mas temiam a responsabilidade da culpa, pois à oposição não interessava incriminações e para isso dizia que Tonico Lista colecionara muitos inimigos, dentro e fora de Santa Cruz, não somente políticos, que bem poderiam atentá-lo.

Lista parecia ser o único considerar-se acima das possibilidades de sofrer algum tipo de atentado, mesmo depois de 29 de abril quando os tiros, ele mesmo informou isso, lhe foram endereçados. Entendia ser caso isolado no calor de uma disputa eleitoral.

No dia oito de julho de 1922, Coronel Antonio Evangelista da Silva cumpria a mesma rotina sempre que se encontrava em Santa Cruz do Rio Pardo: levantou cedo e se dirigiu ao armazém de um amigo, para ler jornal, conferir algum apontamento particular ou da municipalidade, às vezes apenas para colocar conversa em dia com os amigos. Lista aparentava tranqüilidade quando um soldado, da Força Pública de São Paulo, entrou – dizem que uma segunda vez, então para apontar ao Coronel dois revolveres, já atirando – pelo menos um tiro mortal, em nada a resolver pronta reação que atingiu o assassino em fuga, pelas costas, num disparo não fatal.

O assassino declarou vingança pessoal, em honra da família, por questões de terras, crime de empreita, outros motivos e contradições nada comprovados.

4.1 QUE PESSOAS TERIAM RAZÕES MAIORES PARA MATAR TONICO LISTA?

Obviamente todos aqueles que se sentiram, um dia, prejudicados por ele, e eram tantos, pois o Coronel em nada se importava colecionar inimigos.

Para o professor Wilson Gonçalves em seu artigo “Tonico Lista, Gurucaia de São Simão Transplantado à Beira do Rio Pardo”, o Juiz Cardoso Ribeiro tinha motivo maior de vingança contra o Coronel Lista (3). Também o Professor José Ricardo Rios aponta para a mesma linha de raciocínio (4).

  • Este capítulo, firmado naqueles dois autores, não os desacredita posto o primeiro, sobrinho do Coronel por afinidade, e o segundo, filho e neto de contemporâneos do mesmo Coronel. Ambos apenas sugerem com bastante intensidade, mas não afirmam nem descartam o juiz Cardoso relacionado direta ou indiretamente ao assassínio do Coronel.

Buscando pistas para o mistério de quem mandou matar o coronel, não se deve desprezar as declarações do Coronel Arlindo Crescencio da Piedade, junto a Delegacia de Polícia de Santa Cruz do Rio Pardo, dos acontecimentos de 29 de abril de 1922 (5) “que com a posse do Dr. Washington Luís a presidência do Estado e conseqüente posse do Dr. Cardoso Ribeiro na pasta da Justiça e Segurança Pública, o povo de Santa Cruz tomou o alvitre a organizar um partido político em opposição ao Coronel Antonio Evangelista da Silva, vulgo Tonico Lista, o que foi feito e a que deram o nome de Partido Municipal, sendo, então, o declarante convidado a assumir a presidencia do Directório (...)”.

O declarante que fez questão de se identificar com o Dr. Cardoso o desafeto poderoso de Tonico Lista, também tinha motivo forte para atentar contra Tonico Lista, desde o assassinato de seu parente Emigdio Piedade Filho [chefe político de Ipauçu] o qual, em andanças pelos lados de Irapé encontrou a porteira do caminho amarrada ao batente e, enquanto se curvava sobre a montaria para desatar o nó, um balaço traiçoeiro lhe atravessou o peito. Os antigos diziam Lista o mandante.

Teriam os dois [Cardoso Ribeiro e Crescencio Piedade] se associado para a execução de Tonico Lista?

5. ATALIBA LEONEL: O ULTIMO DOS CORONÉIS ATÉ FOI GENERAL

Descendente de ricas e tradicionais famílias paulistas, Ataliba Leonel (1) nasceu em Itapetininga aos 15 de maio de 1875, filho de Major Mariano Leonel Ferreira e Dona Francisca Rolim Leonel Ferreira.

Ataliba estudou nas melhores escolas de São Paulo, como o Seminário Episcopal de São Paulo e Ateneu Paulista, para graduar-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito de São Paulo, em 1895.

Escolheu a localidade de Piraju para advogar e administrar propriedades da família, no ramo do café. Irrequieto, contestador, Ataliba cedo se meteu em política, pela oposição, sendo eleito vereador no ano de 1898, já no ano seguinte fundou e organizou o diretório municipal pirajuense do Partido Republicano Paulista – PRP, quando Presidente da Câmara. 

Enérgico, organizado e líder, ganhou prestígios entre correligionários, foi reeleito vereador e, em 1904 elegeu-se Deputado Estadual, reelegendo-se outras vezes, vindo ocupar, inclusive o cargo público de Senador Estadual, por eleição, e de deputado federal.

Meteu-se no universo dos coronéis para se fazer um deles, de grande mando e prestígio, pregando a união de seus pares em torno de um nome para representá-los junto ao governo do estado, e esse nome era o seu, o mais letrado de todos os chefes políticos regionais do oeste paulista.

Através de sua argúcia convenceu coronéis a limitar-se em seus próprios territórios, sem invasões dos alheios, ficando por chefe maior os coronéis de comarcas, que tudo podia e mandava. 

Ataliba pareceu jamais ter agido à maneira e semelhança dos demais coronéis, optando por representá-los em nível de governo central, sem se envolver nos mandos e desmandos localizados, senão como conselheiro e apaziguador, funções que viria abandonar cedo para se ver apenas representante político.

Já era o ultimo dos coronéis, com a morte de Tonico Lista em 1922, quando recebeu o título honorário de General do Exército Brasileiro, pelos relevantes serviços prestados aos legalistas, na revolução de 1924.

Em 1927 elegeu-se novamente Deputado Estadual, e reeleito para o mandato seguinte. Era um vencedor consagrado pelas urnas, desenvolvimentista de todo Vale Paranapanema, em luta pelos municípios e comarcas, muitos dos quais criados e elevados sob sua indicação e defesa parlamentar.

No golpe de 1930, Ataliba [então senador do estado] foi enquadrado às novas regras políticas para ressurgir forte na Revolução Constitucionalista de 1932. Com a derrota dos   paulistas foi preso, exilado e depois anistiado, sem forças para fazer de novo um grande líder político. Faleceu em Piraju, no dia 29 de outubro de 1934.

Ataliba foi antes de tudo um homem inteligente que soube, ao longo dos anos de vida pública, excluir de seu currículo todos os cometimentos negativos e de violências que cometera, na qualidade de coronel, que lhe pudessem manchar a honra.

6. FRANCISCO JOSÉ SERÓDIO – O PADRE QUE AMAVA AS MULHERES E COM ELAS GEROU FILHOS E FILHAS

Padre Francisco José Seródio [ou Serôdio] nascido em Portugal (1) exerceu seu ministério no Brasil onde dele ouvimos falar, uma primeira vez, em Paraibuna [SP], como Diácono e Coadjutor na inauguração da nova Igreja Nossa Senhora do Rosário: “Preenchida a solenidade da bênção da nova igreja, conforme o ritual Romano, foi em 8 de 1871, cantada a primeira missa solene, sendo celebrante o então vigário Antônio Pires do Prado, Diácono o coadjutor Francisco José Serôdio, cantando a Epístola o secular competentemente habilitado Manoel Amâncio de Oliveira, e pregando o Sermão análogo o coadjutor” (2).

Padre Seródio começou fazer história no sertão oeste paulista, em 1872, quando nomeado pároco em São Domingos [do Tupá], então cabeça eclesiástica adiante de Botucatu, para os novos povoados [Capelas] que iam surgindo no sertão pós-entrada avassalante dos entradistas mineiros em meados do século XIX (3). Seródio foi pároco em São Domingos num primeiro período de 15/03/1872 a 31/05.1872 – quando substituído, e de janeiro de 1873 a setembro ou dezembro do mesmo ano. 

Deixando São Domingos e as Capelas entre elas as de Santa Cruz do Rio Pardo e São Pedro do Turvo, Seródio teve passagens por Paranapanema, Guareí e depois Porangaba [então Bela Vista do município de Tatuí], conforme encontramos: “O pe. Francisco José Seródio foi o segundo padre residente na Bela Vista, porém somente permaneceu 4 meses e alguns dias; veio transferido de Guareí e já tinha trabalhado antes, em Santa Cruz do Rio Pardo e Paranapanema. Daqui foi transferido para Iapussu” (4). Passagens todas aparentemente rápidas até que o inquieto padre viesse ter em Campos Novos. Há registros de sua presença também nas Capelas de Espírito Santo do Turvo, Chavantes e Piraju.

Mas foi em Campos Novos que Seródio fez história, não tanto como clérigo, pois lá existia o Padre Paulo de Majo [Mayo] espécie de cadeira cativa no lugar, e sim como Delegado de Polícia, afamado em todo sertão, depois de enfrentar sublevação do seu destacamento policial. Reza a história que o padre, juntamente com o coronel Marciano José Ferreira, tentou apaziguar os policiais quando dois deles, mais exaltados, avançaram contra Marciano não restando ao padre delegado outra alternativa senão abate-los a tiros de carabina, morrendo um instantaneamente e outro, gravemente ferido, a seguir morto com tiro de execução deferido por Francisco Lourenço de Figueiredo (5) – pai do Coronel Francisco Sanches de Figueiredo.

  • Faz parte do anedotário histórico regional, que tão logo tombados os sediciosos, Padre Seródio se dirigiu até a Igreja paramentou-se e aí, na condição de sacerdote, deu a extrema unção e encomendou as almas dos mortos cujos corpos ainda estavam em meio da rua.

Por essa época o padre corria todo sertão adiante de Campos Novos, como Platina, Dourados [Assis], Cerimônia, Maracaí, Conceição de Monte Alegre e outros povoados incipientes, tanto na qualidade de capelão quanto interessado em adquirir terras. Fez-se grande fazendeiro, já em 1900/1902 relacionado pelo Governo de São Paulo entre aqueles com cerca de 100 mil alqueires de terras ou mais (6).

Seródio ocupou um outro cargo público, eleito 1o. Juiz de Paz do Distrito Conceição de Monte Alegre em 1893, quando da ascensão de Conceição à categoria de Distrito de Paz. Disto esclarece-nos José Chrysostomo Giannasi: “A eleição de 1893 apenas o confirmou no cargo, que, ‘ad referendum’, ele já exercia desde a elevação da vila [povoado] à categoria de Distrito de Paz, pelo Decreto Estadual no. 142, de 24/02/1891” (7).

 Seródio despachava seus expedientes através de bilhetes, um deles reproduzido pelo mesmo Giannasi: “Rocha: isto ahi em Cartorio ate segunda ordem. Monte Alegre, Maio de 93. Seródio” (8). Fernando Avelino Rocha era escrivão do Juízo [Cartório] de Paz do Distrito de Conceição de Monte Alegre.

O padre foi, ainda, grande latifundiário tendo adquirido a Fazenda do Bugio [região de Assis] que estava em discussão familiar, outras terras tomadas dos incautos que nele confiavam, e aquelas advindas de posseiros prepostos, ou seja, naquilo que se denomina grilagem articulada.

Leoni descreve Padre Seródio “bastante aventureiro em questão de terras, constituindo posse em toda parte, onde melhor lhe parecia; montava posseiro por sua conta e muitas vezes o suposto posseiro nomeado era fictício” (9). O mesmo Leoni insere fotocópia de documento [de nº 12 em sua obra], que comprova Seródio apresentando uma escritura em nome de sua amante Joana Maria Pinto, como senhora de terras postas para arrendamento (10).

Outros autores regionais, como Giannasi, confirmam relacionamento marital entre Seródio e Joana Maria Pinto, nascendo-lhes filhos e filhas (11).

Seródio conhecia bem o sertão, sabia das terras contenciosas, foi Delegado, Juiz de Paz, conhecia segredos de confissão, controlava escrivães que redigiam e registravam escrituras em livros próprios e insuspeitos. Leoni afirma que são muitos os contratos públicos de arrendamentos, de terras que não eram suas, mandados lavrar pelo Padre Seródio, com contratantes fantasmas, mesmo em documentos oficiais, em que não compareciam as partes contratantes, ou seja, os arrendatários, obviamente com a participação conivente do tabelião de cartório (12).
 
Uma curiosidade histórica mostra que o padre era realmente homem sedutor, amante irresistível, que viveu com muitas mulheres, negras, brancas e mulatas, deixando numerosa prole de diferentes feições e tipos, alguns desordeiros, violentos e assassinos – inclusive uma de suas filhas, famosa pela coragem e mortes colecionadas; outros filhos foram pessoas honradas, homens do trabalho ou fazendeiros. Teve os ricos, os pobres e pelo menos uma filha com problemas mentais (13).

Relatam os antigos e alguns descendentes de Seródio, que estando ele a desfazer de seus bens, com intenções de retornar a Portugal, suas mulheres e parentes delas forçaram-no reconhecer os filhos, publicamente, por legítimos. O padre não se furtou das responsabilidades, determinando ao Tabelionato de Campos Novos que lavrasse a escritura de reconhecimento de todos os seus filhos, reunidos no dia 25 de novembro de 1891 para tais propósitos, alguns acompanhados de suas mães. 

Diz o documento transcrito por Leoni Ferreira, respeitado grafia da época (14):

 “Escriptura de Perfilhação que faz o Padre Francisco José Seródio, como abaixo se vê: Saibão quantos esta pública escriptura de perfilhação virem que no ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo, de mil oitocentos e noventa e um, aos vinte cinco dias do mês de Novembro do dicto ano, nesta Villa de Campos Novos do Paranapanema, comarca de Santa Cruz do Rio Pardo, Estado de São Paulo, em meu cartório comparece o o Padre Francisco José Seródio, Fazendeiro, residente neste município e termo, reconhecido pelo próprio de mim tabelião, do que dou fé e das duas testemunhas adiante nomeadas e no fim assignadas, em presença das quaes, por elle me foi dicto que sendo clerigo de ordens sacras, houvera de mulher solteira, com quem não tinha parentesco, algum, os seguintes filhos a saber: - Helena, nascida em Santo Antonio da Boa Vista, aos nove dias do mes de Dezembro de mil oitocentos e oitenta e dois, às nove horas da manhã. Foi baptizada de idade de seis meses em São Sebastião do Tijuco Preto, pelo Vigário Padre Pedro Montello. Foram padrinhos Manoel Isidoro Brenha e dona Alexandrinha Brenha, casados; - Cândida, nascida em São Sebastião do Tijuco Preto, aos vinte dois dias de Fevereiro de mil oitocentos e oitenta e três. Foi baptizada pelo Vigário Padre Pedro Montello aos dezesseis de Outubro do dicto ano; forão padrinhos, José Amaro de Castro e dona Maria Lionel de Castro, casados, professores públicos da dicta Villa. José, nascido as des horas do dia dois de Maio de mil oitocentos e oitenta e quatro, em São Sebastião do Tijuco Preto, baptizado pelo Vigário Pedro Montello, de idade de seis meses. Foi padrinho, Francisco Gonçalves Serodio e madrinha, dona Maria da Cruz, casados, residentes no Rio Novo e com procuração a Capitão Joaquim Calixto de Medeiros e sua mulher dona Francisca de Medeiros. – Adelaide, nascida as des horas da noitedo dia quatorza de agosto de mil oitocentos e oitenta e sete, na Villa de Campos Novos de Paranapanema. Foi padrinho o doutor José Ribeiro da Silva Pirajá e sua mulher dona Adelaide Mascarenhas Pirajá. Foi madrinha por procuração, dona Gertrudes Honoria de Souza, sendo baptizado feito no dia vinte e quatro de junho de mil oitocentos e oitenta e oito. – Manoel, nascido aos quatorze de fevereiro de mil oitocentos e oitenta e nove, as des horas da noite, na Villa de Campos Novos de Paranapanema. Foi baptizado pelo Vigário Padre Paulo de Mayo, no dia cinco de Maio do dicto ano. Forão padrinhos, doutor Manoel Joaquim de Albuquerque Lins e sua mulher dona Helena de Queiroz Lins, residentes em São Paulo, por procuração a Francisco Sanches de Figueiredo e sua mulher dona Anna Rita de Oliveira. – Maria, nascida na Villa de Campos Novos de Paranapanema, no dia vinte e seis de agosto de mil oitocentos e noventa, as des horas da noite. Foi baptizada pelo Vigário Padre Paulo de Mayo, no dia dezesseis de Outubro do dicto ano. Foi padrinho, José Justino Ferreia e madrinha, a Protectora Nossa Senhora da Aparecida, sendo apresentada na Pia Baptismal, por dona Gertrudes Thomasia de Souza. Que por este instrumento reconhece inspontaneamente por seus filhos os menores já mencionados que tem creado em sua companhia; os quaes todos assim reconhece para todos os effeitos legaes e para que a lei concede aos filhos perfilhados. Que portanto, consente que seus filhos agora perfilhados, usem dos apelidos delle outorgante perfilhador e que de hoje em diante, não usem nenhum outro, para que possam gosar de todo os direitos de herança, honras e prerrogativas, como se legítimos fossem. A vista, pediu que lhe lavrasse esta escriptura que lhe sendo lida, aceitou e assigna com as testemunhas, Alferes João Torquato da Piedade e Rodolpho Gersino dos Santos, conhecidos de mim, João da Silva Ribeiro, tabelião que a escrevi. A) o Tabelião – João da Silva Ribeiro. Livro 18, folhas 47 a 49, Arquivos – Cartório 1o. Ofício de Assis.

  • Em vez da assinatura do Padre está escrito: “SEM EFEITO” (15), e isto gerou especulações parecendo certo, porém, que Seródio teve que se ausentar no momento da lavratura e nunca mais retornou para apor sua assinatura; ainda assim os filhos tiveram sobrenome Seródio em seus documentos. Proximidades de datas dos nascimentos de Helena e Cândida indicam mães diferentes, com as quais convivia o padre.

Consta que Seródio, também foi Juiz de Paz em Campos Novos, com sérios enfrentamentos, segundo Giovannetti, que fez célebre o nome daquele padre “nos anaes forenses da Comarca, como protagonista de questões de terras, nas fases em que os processos divisorios tiveram sua epoca de intensa atividade” (16).  Giannasi endossa: “(...) ele foi protagonista de complexas questões de terras quando, na região, em decorrência de delimitações muito vagas, houve muitos processos divisórios conturbados, e seu nome sempre estava envolvido” (17).

Uma das propriedades de Seródio deu origem ao atual município de Pedrinhas. Consta em uma pesquisa de texto que três glebas faziam parte do atual território de Pedrinhas (18):

1.   Gleba Pedrinhas, de José Gonçalves Seródio [filho do padre],
2.   Fazenda São Geraldo, de Quirino Leme da Silva [posseiro preposto do padre];
3.   Fazenda Anhumas em nome de Joana Maria Pinto, amante do padr.e.

O pioneiro Teodoro teria vendido o conjunto das três fazendas ao sertanista José Justino Ferreira, no ano de 1875. José Justino negociou referidas terras diretamente com Padre Seródio em 1890, que a desmembrou naquelas três parte. Depois disso surgiu registro de      1919 em que Joana alienou suas terras a certo Antonio da Cruz Carvalho que, quase de imediato a repassou para José Gonçalves Seródio, adquirente inclusive da parte de Quirino Leme da Silva (19).

A mais famosa demanda de terras de Padre Seródio, sem dúvidas, trata-se da Fazenda Bugio, que o padre dizia sua propriedade quando surgiram “outras pessoas com títulos comprobatórios – da aquisição das mesmas terras, – cujos títulos também, sabe Deus se legítimos ou falsos – mas deu demanda e demanda graúda que se arrastou no foro de Assis, por mais de cinqüenta anos” (20), sem solução até os anos de 1980, e, certamente ainda hoje [2005].

Velho e alquebrado, dizem que enojado, talvez, de falcatruas, demandas de terras, entre outras aventuras e dos rumos finais de sua vida, Seródio retirou-se para Portugal, vindo falecer na cidade de Lisboa (21), embora um túmulo na cidade de Maracaí indique ali sua sepultura (22), certamente ocorrendo translado dos restos mortais.

São desencontradas as informações se realmente em Maracaí estão os despojos do Padre Seródio, ou a se tratar, segundo muitos, apenas túmulo simbólico.

7. FREI MARIANO DE BAGNAIA

Frei Mariano nasceu Saturnino, na localidade de Bagnaia, província de Viterbo [Itália]. Vocacionado, aos 15 anos optou pela vida religiosa ao entrar para a Ordem dos Capuchinhos, onde concluiu os estudos em Teologia, Filosofia e Letras. Adotou nome religioso de Mariano de Bagnaia (1), requerendo autorização da Ordem para integrar o quadro de Missionários Estrangeiros.

Chegou ao Brasil, Rio de Janeiro, em março de 1847 e, desde logo ensejou vida missionária de catequização ao índio, no atual estado do Mato Grosso, primeiro Cuiabá depois Diamantino, antes de partir para a aldeia dos Kinikinos, futura Vila do Bom Conselho, na região do Baixo Paraguai.

Precisando retornar ao Rio de Janeiro, Mariano o fez pelo caminho dos rios Paraguai, Paraná e Prata, para depois subir pelo litoral até o destino proposto. Teve problemas de saúde – febres, que o obrigou permanecer semanas em tratamento no Convento dos Capuchinhos em Buenos Aires. 

Prestando contas a seus superiores e autorizado voltar para o interior do Mato Grosso, com os companheiros freis Ângelo Antonio de Caramanico e Jerônimo S. Columba, resolvendo Columba permanecer em Sorocaba, enquanto Mariano e Ângelo Antonio dirigiram a Corumbá [hoje cidade do Mato Grosso do Sul], onde se separaram: Ângelo com destino a Vila do Bom Conselho [Kinikinos] e Mariano a Cuiabá.

Com a declaração de guerra do Paraguai contra o Brasil, em 1864, a tropa de Solano Lopez, na região, encontra frei Mariano em Miranda, como vigário e com jurisdição sobre todo o sul circunvizinho. Mariano resiste a invasão e é preso, torturado e conduzido para o presídio de Niasc [Paraguai], onde se encontra com frei Ângelo, também capturado.

Mariano e Ângelo passaram por diversas prisões paraguaias, conforme movimentações do exército paraguaio. Giovannetti relata que a derrota paraguaia, na batalha de Lomas Valentinas, fez com que Lopez ordenasse matança diária de prisioneiros, inclusive religiosos, sendo frei Basilino Landini o primeiro padre sacrificado, em Assunção.

Frei Ângelo foi decapitado e Mariano foi conduzido com outros prisioneiros para Parrero Grande, para execução. Quis o destino que soldados brasileiros se encontrassem com aquela ala do exército paraguaio, dando inicio a um inesperado combate, facilitando fuga de frei Mariano que, perseguido e sem alternativas se lançou em águas do rio Apa, mesmo sem saber nadar, porém salvo por um soldado brasileiro.

Visivelmente abalado pela guerra, Mariano retomou suas atividades em Corumbá, como herói de guerra e com a nomeação de Pregador Imperial e honras de Major do Exército Brasileiro, por Carta Imperial de 08 de outubro de 1873.    

Na capital do Império em 1886 foi designado para substituir o diretor do Aldeamento São Pedro Alcântara, em Jataizinho [Paraná] às margens do rio Tibagi.

Meses depois frei Mariano retornou para o Rio de Janeiro, para receber ordens de fundar Catequese em Campos Novos. Giovannetti diz que Mariano mesmo adoentado “deliberou obedecer às ordens superiores”.    

Abalado mentalmente, perseguido pelas visões noturnas e os terríveis lamentos dos tantos torturados de guerra, que presenciara frei Mariano quando de passagem por São Pedro do Turvo, não resistiu às tentações que o acusavam indigno de viver, enquanto seus discípulos e companheiros de fé sofreram o martírio, quis ir ao encontro deles, suicidando-se. 

Mariano cortara os pulsos e ainda levado com vida a Campos Novos, onde Padre Paulo de Mayo lhe ministrou os últimos sacramentos.

8. FREI MANOEL – O HOMEM-DEUS DO SERTÃO PARANAPANEMA

A vida de um profeta raramente é fácil e quase sempre ele é incompreendido e não assimilado por sua época (1).

Não se sabe exatamente quando nem onde, o nortista Manoel Izabel recebeu o chamado de Deus para o ministério de salvação, pois que ele já surge Frei Manoel e pregador pronto, por volta de 1892, no sertão Paranapanema vindo dos lados do Paraná, primeiro em Piraju, para anunciar o fim dos tempos, a separação do trigo do joio, e o estabelecimento do reino divino na terra (2)

A História relata-o como homem de estatura mediana, cabelos encrespados, barba hirta e negra a cobrir-lhe o rosto saliente e precocemente enrugado; trajava-se de longa túnica sobre roupas comuns, valia-se de um velho chapéu esverdeado [pelo tempo de uso] e calçava alpercatas. Fumante, os fiéis disputavam as pontas de cigarro que tocaram os lábios santos (3).

Percorreu regiões de Piraju, Avaré, Santa Cruz do Rio Pardo, São Pedro do Turvo e Campos Novos, onde o fazendeiro Manoel José lhe ofereceu lugar para abarracamento, com seus seguidores, à margem direita do Rio Novo, bem próximo do povoado.

Dentre os acompanhantes e admiradores de frei Manoel, em Campos Novos, Amador Nogueira Cobra menciona certo jovem culto “(...) formado pela Faculdade de Direito de S. Paulo. Moço eloqüente, promotor público da comarca, tomava a palavra freqüentemente e dirigia-se aos circumstantes que em torno do abarracamento se reuniam a ver o frei. Mostrava quaes as virtudes deste, seu dom de prophecia e, sobre tudo, o poder de tornar o corpo de mortal invulnerável às armas de fogo, de corte e (...)” (4).

As pregações de Frei Manoel eram vibrantes, convincentes e seguidos de admiradores empolgados e em números crescentes, extasiados pelas palavras do santo, seus vaticínios e demonstrações físicas de homem ungido, contra quem nenhum malefício podia atingir.

Apesar de população esparsa no sertão Paranapanema, o número de seguidores de Frei Manoel impressionava, crescia e já preocupava as autoridades locais que o denunciaram ao poder central. Giovannetti diz que Frei Manoel conquistava corações dos humildes, impressionava aqueles que o ouviam e quando alguém o encontrava nalguma caminhada dizia “Eu temo o Deus que passa!” (5).

O mesmo Giovannetti menciona ocorrências da época como preocupantes: “Os agricultores abandonavam os campos para seguir o Monge nas longas procissões. Ninguém cuidava mais em fazer plantações e, a vida, ficou profundamente perturbada. Roças sem queimar, terras sem plantar: o horizonte da zona Campos-novense apresentava sinais de tristeza e de fome. Foi um ano de crise espantosa. A lenda do fantástico homem ultrapassava os limites da antiga Vila de Campos Novos, e espalhava-se em Salto Grande, Platina, Conceição de Monte Alegre, até aos últimos moradores de Anhumas e Jaguaretê. Os fanáticos cresciam (...). A Fazenda Manoel José transformou-se numa verdadeira Meca (...)” (6)

Amador Cobra descreve o Frei um embusteiro, autor de falsos milagres dados aos seguidores, como o anuncio do apagar momentâneo do sol, de fechar o corpo contra armas brancas e de fogo, imunidade às moléstias e promoções de curas (7).

  • O auto-intitulado Frei certamente tinha conhecimento prévio de eclipse solar, sabia fazer munição de festim e habilidade em manusear navalha parecendo passar a lâmina afiada pelo corpo, seu o de algum assistente, sem perigos de danos. Também aparentava conhecer o empirismo médico e trazia consigo sempre o herbário para diagnosticar as principais doenças e promover as curas, além do Chernoviz – o antigo livro de receita para todas as moléstias (8)

Frei Manoel tinha suas virgens consagradas, com as quais mantinha, na qualidade de ungido, certos deveres sexuais para o sucesso da comunidade, realizações de ritos em contatar os santos, imunizações contra enfermidades ou fechamentos de corpos. Uma das virgens certamente traria ao sertão, em breve, o Filho de Deus. 

O progresso do místico foi rápido demais, já vinham gentes de outros rincões atraídos pelo sucesso do santo, em suas palestras abertas geralmente depois de entrar às virgens, num compartimento fechado, somente permitido aos iniciados, certamente ele só e as jovens consagradas. E assim, Frei Manoel em pouco tempo ganhou tantos adeptos, separou famílias, adquiriu riquezas doadas pelos fiéis, mas cometeu o erro de permanecer no local maior período que o necessário, subestimando a inteligência de todos e a capacidade de percepção do homem do sertão.

Alguns observadores não adeptos já se intrigavam que frei Manoel fazia pregações, curas e certas demonstrações de poder, em público, mas fechamentos de corpo ou imunizações a doenças, por exemplo, apenas em particular com a pessoa interessada, homem ou mulher, para os responsos e certos rituais secretos, já colocados por suspeitos.

Amador Cobra descreve numa clara insinuação de práticas aberrativas e homossexuais do profeta, que “Não demorou muito tempo descobrir-se abertamente a impostura que se encerrava no processo de se tornar invulnerável o corpo às armas e às doenças (...). Aquela extranha creatura, quando submettia o paciente à demonstração de que a navalha não cortava, fazia-o publicamente. Porém não procedia à outra prova, rodeava-se de cautelas e precauções e fechava-se com aquelle, em praticas mysteriosas; estas concluídas, retirava-se do compartimento reservado, onde passava o dia, quase todo, reclinado em tarima; elle não descansava desse trabalho, dessa espécie de vaccinação geral contra todas as moléstias conhecidas, que afligiam a humanidade, e as que ainda podessem apparecer: noite e dia applicava seu systema” (9).

Mas foi certamente por alguma mulher, filha ou prometida [namorada, quem sabe noiva] de algum figurão deixar-se encantar pelo ungido, ou algumas daquelas casadas, o fato é que os principais dos indignados do sertão se insurgiram contra o profeta, liderados por um advogado igualmente carismático, o qual segundo Amador Cobra: “Achava-se alli [em Campos Novos] advogando um bacharel intelligente, ainda moço [Dr. Affonso Gonçalves Fraga] e de acção, que instigou os habitantes a tomarem armas e enxotarem o falso propheta com os seus para fora do sertão. Secundou-o o chefe político no plano de combate. Reuniu-se um grupo de homens decididos que se apresentaram para a lucta” (10).

O Governo do Estado alertado do que se passava na região de Campos Novos, urgente encaminhou vinte soldados sob comando de um tenente (11), para a captura ou morte de Frei Manoel e, assim, dispersar os fanáticos. Manoel percebeu que o perigo lhe rondava e assim, cercado dos seus mais próximos, retirou-se de Campos Novos numa fuga improvisada para São Pedro do Turvo, onde o aguardava outro seu inimigo, “soldados da Polícia” segundo Giovannetti (12), ou foi “alcançado pelos civis que no seu encalço partiram” conforme Amador Nogueira Cobra (13), de qualquer forma o ungido surpreendido pelos inimigos, sem tempo de reagir nem se embrenhar mata adentro, morto por um tiro certeiro de carabina [Giovannetti] senão vários tiros [Amador Cobra].

José Ricardo Rios nos dá entender que Frei Manoel foi morto por civis, pois a Escolta de Capturas da Força Pública do Estado, com a missão de capturar o líder místico, ficou estacionada em Santa Cruz do Rio Pardo, sem seguir rumo no dia seguinte porque soubera-no já morto (14).

Neste destino final do profeta ocorre divergência irreconciliável entre os pesquisadores José Ricardo Rios e Bruno Giovannetti, a respeito de quando foi morto Frei Manoel. Diz José Ricardo que na noite de dez de junho de 1892 soldados da Força Pública de São Paulo estavam em Santa Cruz do Rio Pardo, de onde partiriam na manhã seguinte para São Pedro do Turvo, com a missão de capturar referido frei. Na mesma noite de dez de junho, o jovem Antonio Evangelista da Silva – futuro Coronel Tonico Lista, desaviu-se com dois soldados daquele batalhão e os matou na zona do baixo meretrício. A morte dos dois soldados, a busca do assassino, corre-corres, acertos e fuga, o batalhão não seguiu rumo a São Pedro, no dia seguinte, também porque souberam já morto Frei Manoel (15).

Bruno Giovannetti, por seu turno, informa que a morte do místico, igualmente no ano de 1892, ocorrera quando “Era o mez de Setembro (...). O governo do Estado avisado do que se passava em Campos Novos, mandou soldados da Polícia para debandar os fanáticos e punir o autor de tamanha desorganização social. O encontro deu-se em São Pedro. Os soldados esperavam provavelmente encontrar resistência, porque o bando de aldeães estava armado. Frei Manoel nem sequer pensou em reagir. O Deus Homem, tombou ao chão, matado por bala de carabina” (16)

Amador Nogueira Cobra comenta que “Em S. Pedro, para onde se dirigiu antes de vir a força do governo (...). “Prevendo o desfecho de sua vida de aventuras, fugiu de S. Pedro para o matto, do lado do Ribeirão Bonito, e alli foi alcançado pelos civis que no seu encalço partiram. Recebendo vários tiros, cahiu morto e junto delle o seu mais dedicado servidor” (17). O ilustre autor, que advogava em Campos Novos desde 1909, portanto bastante próximo aos fatos, não diz a data dos acontecimentos e nem mês, apenas referência ao ano, 1892, além da versão que Frei Manoel fora morto por populares instigados contra ele.

Cientes dos acontecimentos em Santa Cruz do Rio Pardo, incontestáveis, Frei Manoel foi mesmo morto em junho de 1892, possivelmente no dia 11.

9. JOSÉ SOARES MONTEIRO [VULGO VALDOMIRO BANDEIRA JUNQUEIRA] – UM MATADOR DE HOMENS

9.1 PREÂMBULO FAMILIAR

Em 1890/92 chegou à região do Vale Paranapanema a numerosa família dos Soares (1), parte fixando-se junto a Água do Cervo e outra às margens do rio Capivara, a exemplo dos Soares Monteiro, entre os quais o menino José Soares Monteiro, nascido em Poços de Caldas – Minas Gerais, em 1880, filho de Antonio Soares Monteiro e dona Carolina Teixeira de Jesus.

José Soares era, portanto, irmão de Evaristo Soares Monteiro, o fundador de Sapezal (2), na região atual de Paraguaçu Paulista.

A família tinha boa reputação e os seus membros conhecidos como exímios cavaleiros, igualmente destemidos e de pouca tolerância, por exemplo, Evaristo quando bebia se tornava inconveniente e uma das suas incivilidades quase se transformou em tragédia, numa quermesse na cidade de Assis, durante o leilão, em que ele ao fazer determinado lance não ouviu alguém cobrir sua oferta e levar a prenda.

Evaristo não se conformou nem quis explicações, dando origem a grave tumulto muitos se voltando contra ele. Ligeiro e bom de briga não se deixou apanhar, até chegar junto de sua montaria e, sobre ela retornar ao salão, de chibata na mão, recepcionado por tiros, num corre-corre e gritaria geral, enquanto o cavaleiro “chamou nas esporas o valente matungo, balanceava-o nas rédeas para a esquerda, para a direita e o cavalo de saltos e priscos para todos os lados, como se estivesse num verdadeiro campo de batalha e o tiroteio foi cerrado de tal forma que o povo enraivecido sequer via mais nada; era atirar para matar, era alinhavar Evaristo” que, ao se ver perdido, sacou seu revólver e abriu caminho a balas, dois homens estatelados ao chão, num “tiroteio como nunca houvera em todos os tempos na história de Assis (...) mas o danado safou-se” (3).

Assim era Evaristo Soares, caboclo admirado e respeitado, apesar dos seus arroubos que o irmão José Soares, dezessete anos mais novo, parecia tanto admirar.  Inclui-se em relatos de família que José Soares foi em verdade criado por seu irmão, no Sertão Paranapanema, tanto que muitos – até parentes descendentes o têm realmente por filho de Evaristo (4).

9.2 JOSÉ SOARES MONTEIRO – DOS PRIMEIROS CRIMES

José Soares era jovem de vinte dois anos, se tanto, quando encarregado para acerto de contas – uma dívida, com um alemão em São José das Laranjeiras, para os lados de Nossa Senhora do Patrocínio, ou Patrocínio de Pitangueiras, atual Maracaí no estado de São Paulo.

A pessoa procurada estava na lavoura, com outros companheiros, quando Soares chegou apeado da montaria, roça adentro para fazer a cobrança, a causar certo constrangimento ao grupo que não entendia bem o português, nem os costumes caboclos. Um jovem alemão e companheiros armados com instrumentos cortantes, repeliram o cobrador que se afastou prudentemente, até próximo de sua montaria, para então sacar duma arma de fogo e ferir mortalmente o líder dos agressores, fazendo parar os outros, o que lhe permitiu a fuga.

Soares procurou pelo cunhado João Lourenço Nogueira, esperando se por a salvo, mas foi denunciado pelo aparentado e preso, até o julgamento, quando liberto por se tratar de legítima defesa. Sabe-se deste crime, mas não se conseguiu até o momento algum indicativo de possível prisão e julgamento, senão pelos relatos de família.

José Soares Monteiro, após isto, enveredou-se para a senda do crime, sob o nome de Valdomiro Bandeira Junqueira, preso três vezes por homicídio (5) e denúncias outras inclusive por agressões.

Não se sabendo ao certo quando sua primeira prisão, todavia em 1917 esteve ele recluso na Cadeia Pública de Campos Novos de Paranapanema pelo assassinato de Laurindo Thomaz de Moura, em 3 de dezembro de 1916, por motivo alegado de honra.

Segundo declarações em Auto de Qualificação e Declarações, perante o Delegado de Polícia Doutor Carlos Gomes de Freitas, Soares afirmou que durante sua ausência, “trabalhando no Rio do Peixe”, Laurindo teria perseguido sua mulher e chegado agarrar sua filha Sebastiana, de quatorze anos, prosseguindo neste intento por outras vezes.  De volta ao lar Soares, ciente dos fatos, “procurou tirar satisfações de Laurindo e o mesmo ainda o insultou dizendo que elle Laurindo não se casaria [com Sebastiana] porque quando precisava de mulher esta acostumado a procural-as em casa dos outros”. Foi absolvido pelo Tribunal do Júri em 1º de setembro de 1922 – Processo 5/1922, Alvará de Soltura às páginas 217 verso e 218.

Quando preso em Campos Novos do Paranapanema, informa-nos o Inquérito Policial 17, de 26 de setembro de 1917, que José Soares evadiu-se da prisão e correu pelas ruas da cidade, perseguido por policiais, recebendo à distância um tiro de carabina no braço, antes de entrar numa residência para pôr-se a salvo. Deu azar e o caso entrou para o anedotário policial, pois a residência escolhida ao acaso, ou por estar aberta, era do Juiz de Direito e que parecia uma fortaleza de tantos homens armados para proteção do magistrado, numa das épocas mais turbulentas de Campos Novos do Paranapanema. Soares não sabia, “sendo de novo preso pelos soldados que o alcançaram em casa do Doutor Juiz de Direito (...)”.

Nos anos de 1928/29 Soares cumpria pena de doze anos, na cidade de Assis, em sua terceira prisão por assassinato. Contra sua vontade foi obrigado integrar o bando de presos forçados ao trabalho para construção do Palácio Episcopal, a ocorrer daí um incidente quando seu cunhado, João Lourenço, resolveu doar laranjas aos presos trabalhadores, numa intenção bastante clara de provocar Soares.

O próprio Lourenço foi autorizado de levar as frutas a cada detento, amistosamente conversando com eles, até que chegou a vez do cunhado e daí o imprevisto: Soares tomou as laranjas para lançá-las contra o ofertante, e depois  socos e pontapés acompanhados de xingações, Lourenço ao chão e Soares já apanhava um paralelepípedo para esmagar a cabeça do rival, quando os guardas, atônitos ainda, conseguiram dominar o preso agressor (6).

9.3 DE OUTROS FEITOS DE JOSÉ SOARES MONTEIRO

São tantas as histórias a respeito de José Soares ouvidas ainda no primeiro qüinqüênio do século XXI, algumas já misturadas a outras que se acrescentam, no entanto a atestar a vida daquele que mesmo a serviço do crime, e a quase meio século de sua morte, ainda fazia suscitar opiniões entre o certo, o errado e o abominável, além das questões do livre arbítrio e das opções de escolhas do indivíduo, quanto ao destino inexorável de um homem em que cedo aprendeu matar seu semelhante, sob encomenda ou em defesa da honra.

Conta-se que Soares à procura de Antonio Bernardino para matá-lo, perguntou a um grupo de pessoas onde encontra-lo e, informado, algum curioso quis saber o que desejava com o procurado, com a resposta pronta “Vocês querem ver caboclo fazer careta para morrer, venham comigo assistir, pois vou matá-lo agorinha (...) – É claro que ninguém  o acompanhou; apenas em poucos instantes ouviram a detonação da arma e o pobre caiu no local, sobre a enxada que usava no trabalho de capinação de sua lavoura, sem tempo sequer de saber porque morrera”.  Leoni informa que este episódio faz parte de processo arquivado no Fórum de Assis (7)

A maioria dos crimes de José Soares Monteiro, ou Valdomiro Bandeira Junqueira, ficou impune, pois eram crimes de empreitada a favor de mandatários regionais ou locais, por exemplo, para o Coronel Antonio Evangelista de Souza, de Santa Cruz do Rio Pardo, em algumas ocasiões. Chamavam-no Justiceiro e a ele são atribuídos muitos assassinatos à traição, frente a frente e crimes misteriosos cuja autoria jamais pode ser confirmada, mesmo todos cientes que eram feitos de Valdomiro Bandeira.

Comentava-se reservadamente, em família e conhecidos mais próximos, que Soares teria assassinado, em 1911, o Coronel Marciano José Ferreira (8), a mando de um chefe político regional – o Coronel Francisco Sanches de Figueiredo, pois Marciano “Por questões políticas tornára-se inimigo do chefe de Campos Novos, depois de ter sido, por alguns annos, companheiro deste e também chefe” (9).

    • ·        Em causa desta querela Capitão Sanches sempre foi tido mandante do assassinato de Marciano, crime jamais esclarecido pelas autoridades e do qual ninguém soube ainda explicar, vez que o corpo nunca apareceu apesar de procurado por homens do Governo Federal, Polícia do Estado e os mais afamados conhecedores do sertão.

Igualmente se comentava de certo homem que, após assassinar parente de um fazendeiro na região, fugiu para Minas Gerais com vagas informações onde poderia estar. Soares com a foto ou descrições de sua vítima foi ao encalço e, quando próximo ao destino encontrou uns peões de estrada, sob a sombra de uma árvore, preparando-se para a refeição do dia. Conversaram, se informaram, comeram e beberam juntos até que os homens ensaiaram as despedidas e Soares lhes disse menos um deles, a apontar quem e citar o nome daquele que ele deveria matar, e assim o fez.

A vitima foi morta, a orelha cortada para entrega ao mandante do crime, um costume da época que garantia a execução do serviço.

Soares não tinha artelhos num dos pés, aparentemente cortado e cauterizado a fogo. Disto contam que Soares e dois amigos fizeram uma aposta, ficando ele dentro de um círculo e se movimentar, mas não sair, enquanto os dois a determinada distância lhe atirariam sabugos [de milho] postos em dois balaios cheios. Caso o acertasse uma única vez, Soares cortaria os pododáctilos de um dos pés, à exceção do maior para evitar sangria; se duas vezes o atingissem, os do outro pé, à mesma maneira, seriam amputados. Machado posto ao fogo, um toco ao lado, começou a disputa.

Num certo momento Soares foi acertado – comentam que de raspão, mas o suficiente para ele, num gesto rápido, tomar o machado e cortar os dedos antes de intentar retorno para o círculo; nem precisou voltar, pois os amigos, apavorados, imploraram para acabar a brincadeira. Todos que conheceram José Soares sabiam fácil por onde ele andava, sempre pela marca impressa no chão, com a falta dos dedos, pois que nunca mais usou calçado, para alguns, outra das clausulas daquela aposta absurda (10)

Joaquim Raimundo [Moreira] da Silva era amigo de Soares, quase parente – porque a mulher de Moreira era sobrinha de Evaristo Soares e cunhada de uma das sobrinhas do matador.

Certa ocasião desapareceu uma mula de Moreira, que estaria na fazenda de Capitão Viriato, na época o homem mais poderoso e temido da região de Conceição de Monte Alegre e Sapezal, como representante do temível Coronel Sanches, com isso melhor esquecer a mula que procura-la por aquelas bandas, embora Moreira e Viriato fossem parentes por afinidades.  Soares então soube das dificuldades de Moreira e se propôs recuperar o animal.

Alguns capangas de Viriato teriam encontrado Soares já dentro da propriedade e quando intentaram detê-lo, um tiro derrubou a montaria de um deles e o atirador gritou aos demais que fossem logo avisar o Capitão que ele, Valdomiro Bandeira Junqueira, ali estava em busca de uma mula desaparecida.

A sede era longe, Soares passo a passo em sua montaria, cauteloso de tocaias e fazendo desvios e voltas para chegar, bem depois, quando diversos muares já estavam presos numa mangueira. Não sabendo qual a mula de Moreira, diante de outras assemelhadas, aceitou a sugestão do Capitão em levar todas, ver qual era a procurada e escolher outras que pudessem servir Soares, e que devolvesse aquelas que não lhe interessasse (11).  

Existem outros feitos de Soares que conta-los todos se tornam enfadonhos, porém destaca-se o seguinte relato para melhor entender o temor que ele causava em poderosos, por exemplo, de certo fazendeiro em Sapezal, André Wirgues, adquirente de propriedades diversas dentre as quais as terras pertencentes aos herdeiros de Evaristo Soares, quando José encontrava-se preso. Cumprida a pena quis ele rever sua pretensa parte, algum quinhão outrora prometido pelo irmão falecido, com isso a ignorar qualquer acordo familiar ou de possível procuração transmitida, vindo cercar aproximadamente sessenta alqueires de terras, que dizia suas, dentro da fazenda de Wirgues.

Apenas quando morto José Soares, quase três décadas depois,, o fazendeiro pode enfim retomar a área que efetivamente lhe pertencia por direito de compra (12).

Ainda, este tópico se tornaria incompleto sem mencionar um caso em família, com observações a certas regras que então regiam o sertão. Uma viúva, com filhos e filhas, casara-se em segundas núpcias, e tudo parecia bem até que o novo consorte estuprou uma das filhas da pobre mulher. O fato gerou todo aquele drama em família, optante por não levar o caso às autoridades até porque o agressor se mostrava violento e podia causar algum dano maior.

Soares soube ou foi avisado do ocorrido, logo a circular que ele chegaria  ao local para resolver o problema. O agressor, alegando viagem inadiável pelos lados de Minas Gerais, partiu antes da vinda do justiceiro.

A reunião familiar com aquela mãe, um dos filhos e outros parentes, sem dúvidas era para se tratar da morte do estuprador, serviço que Soares faria gratuitamente pela honra, bastando que lhe dessem uma arma e munição, e não podia ser diferente porque naquele ato, segundo regras da época, ele representava a vingança em nome da família [direta] da infeliz jovem.

A família, pacata e religiosa, decidiu-se que não haveria justiça com as próprias mãos, até porque o agressor evadira-se, talvez para nunca mais retornar.

Meses depois chegou notícias no povoado que o estuprador foi morto  no estado do Mato Grosso, numa tocaia, sua genitália extirpada e, dizem, empalado, não se sabendo o caso a mando familiar ou não, ou que Soares por si tenha praticado a ação, um assassinato que ele jamais admitiu ser o executor, embora em família todos suspeitassem dele.

Soares sabia ler, escrever, tinha boa caligrafia e conhecimentos de Direito Penal e Civil, conforme se pode observar em seus depoimentos e qualificações nos autos processuais (13). Foi casado com Prudenciana Ignês de Jesus, filha de Francisco Lourenço Nogueira – membro de uma das comitivas de José Theodoro de Souza, e com ela gerou filhos e filhas., vindo ele a falecer no final dos anos de 1950, enquanto ela viveu até 1980, quase centenária.

10. DE JOSÉ ORTIZ DE OLIVEIRA E DESCENDENTES

De José Ortiz de Oliveira e Venância Maria de Jesus nasceu Salvador Ortiz do Oliveira, em 1837, na localidade de Pouso Alegre [MG].
Salvador Ortiz de Oliveira casou-se com Maria Luiza de Jesus, e dentre os filhos gerados, Ana Ortiz teve por marido Antonio Porfírio de Salles, e desta união lhes nasceu, entre outros, Osória Ortiz de Salles, em 1901, na zona rural de Conceição de Monte Alegre. Osória também era conhecida por Osória Geminiana de Salles, porque era gêmea de Osório..

  • Salvador Ortiz faleceu em sua propriedade aos 21 de maio de 1918, conforme certidão lavrada em Conceição de Monte Alegre [22/05/1918].

Osória foi dada em casamento a Joaquim Raimundo da Silva, cujo nome às vezes surge como Joaquim Moreira da Silva, nascido em 1889, na localidade de Agudos [SP], filho de Manoel Caetano e Dona Francisca. 

Dos filhos de Osória e Joaquim, um foi chamado Onice Prado, aos 20 de maio de 1929, morto em 25 de Abril de 2002.

Onice teve por mulher Maria de Lourdes Freiria, nascida em abril de 1932 de Salvador Henrique Freiria e Maria Severina de Jesus. Da união Onice e Maria de Lourdes [Prado], nasceram-lhes Celso, Juarez, Onice, Marisa e Paulo.

Celso [Prado] teve um primeiro casamento com Maria Felícia Rodrigues Castilho, deles nascendo Arthur Celso Castilho Prado aos 28 de dezembro de 1973, e Gisele de Castilho Prado em 01 de março de 1975. Do segundo casamento, com Junko Sato, nasceram Mitchell Yutaka Sato Prado aos 24 de fevereiro de 1979, e Lorana Harumi Sato Prado em 23 de setembro de 1983.

Além de descender diretamente do desbravador Salvador Ortiz de Oliveira, a família do autor tem ligação histórica e de parentesco com o fundador de Sapezal, Evaristo Soares Monteiro, casado com Virginia Maria de Jesus, filha do desbravador Ortiz de Oliveira. Virginia era, portanto, tia de Osória Geminiana Ortiz de Salles.

Dos filhos de Evaristo e Virginia, Augusta se casou com o seu primo João Ortiz de Salles, irmão de Osória.

O autor busca pela genealogia da família de sua progenitora, e acréscimos àquela existente.

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