PARTE II – OS
EXTERMINADORES DO PASSADO
2.
ALFERES MANECO DIONÍSIO – O MAESTRO
DA POLÍTICA
O Alferes Manoel Marcellino de Souza Franco – Maneco
Dionísio, “um dos primeiros professores que ensinaram
o “a-bê-cê” em Avaré” (1) – comprovadamente
o primeiro, além de ter sido a maior expressão
política de todo Vale do Paranapanema, no século
XIX e princípios do XX, sem o uso da truculência,
da força das armas, das proteções compradas
ou dos comprometimentos escusos, tão comuns na época
dos coronéis.
A maior referência encontrada sobre Maneco trata-se da
pesquisa do jornalista Gesiel Junior, com brilhante descrição
inserida na página [internet] da Câmara Municipal
de Avaré (2), e é nela que se assentam os respeitos
ao mineiro paladino rio-novense/avareense, que assim o foi
por escolha pessoal e aceitação popular.
Maneco Dionísio nascido aos 27 de junho de 1851 na cidade
de Limeira, Minas Gerais, foi o mais importante líder
político do Rio Novo e da formação de
Avaré. Sua família, procedente de Minas Gerais,
chegou a Rio Novo em 1864, com a comitiva do Major Vitoriano
de Souza Rocha. Precoce, aos dezesseis anos integrou a Junta
Administrativa que governou Rio Novo, e foi o primeiro secretário
da Câmara Municipal, em 1875.
Polemico e inteligente Maneco, católico e monarquista,
tinha sua ocupação mais discutida a de Provedor
da Irmandade de Nossa Senhora das Dores, quando ostensivamente
contestava o regime republicano instalado no Brasil, especialmente
no tocante às leis não revogadas.
Membro da Guarda Nacional, em 1888 fundou o jornal O Rio-Novense – em
cujas páginas ele advogou a mudança do traçado
da estrada de ferro, projetado para passar longe do Rio Novo,
convencendo as autoridades provinciais a mudarem o projeto
e dar a Avaré a sua estação ferroviária,
em 1896, como conquista decisiva para o desenvolvimento local.
- O Jornal Rio-Novense foi o segundo de Rio Novo [Avaré],
fundado em 1888, precedido pelo O Autonomista fundado em
setembro de 1885 (3),
Maneco mantinha bons relacionamentos políticos com
seu amigo pessoal Prudente de Moraes, com o qual veio fundar
o importante Instituto Histórico e Geográfico
de São Paulo.
Esse relacionamento com Moraes, Presidente de São Paulo
em 1889 e do Brasil, em 1894, certamente justificou o êxito
de Maneco em fazer passar por Avaré a desejada estrada
de ferro.
Intelectual, fundou o Clube de Leitura de Avaré, publicou
pesquisas sobre as origens de Avaré e de Itaí,
editou trabalhos sobre pesquisas que apontavam a existência
de carvão de pedra no subsolo do município, e
outros temas discutíveis e avançados para a época.
Muito religioso promoveu a primeira conferencia vicentina de
Avaré, o que lhe possibilitou três anos depois
audiência particular com o Papa
Leão XIII, em
1900.
Pela sua
competência em dirigir a Irmandade Nossa Senhora das Dores, foi escolhido,
em 1904, Diretor do Banco de Custeio Rural de Avaré.
Viúvo e com a saúde debilitada afastou-se do
meio político e social, vindo falecer aos 23 de maio
de 1930, vitima de uma doença – possivelmente
Mal de Alzheimer que o fez perder a memória inclusive
da própria personalidade.
De alguns outros feitos
de Maneco Dionísio citamos
tais no tópico Primeiros Núcleos Povoadores – Avaré.
3. FRANCISCO SANCHES
DE FIGUEIREDO O MAIS PODEROSO DOS CORONÉIS
Segundo Leoni, a história do mineiro Francisco Sanches
[Sancho] de Figueiredo, na região, teve início
por volta de 1875, em terras adquiridas diretamente de José Theodoro
de Souza, na localidade onde hoje Palmital (1).
Amador Cobra identifica Sanches “que para alli chegou
pouco depois da morte de Theodoro. Com seu pae, Francisco Lourenço
e tios, comprou as terras que chamaram ‘dos Figueiredos’,
em 1876, próximo ao Taquaral. Era simples lavrador e
eleitor até poucos anos antes de assumir a chefia política
que conservou até 1912, quando foi assassinado” (2).
As terras foram adquiridas de João da Silva Oliveira – cunhado
de Theodoro, numa transação ilícita em
prejuízo ao herdeiro póstumo do pioneiro-mor,
morto em 1875.
Depois Sanches já entra feito para a história,
como dono de terras nas imediações de Campos
Novos, beiras do rio do Peixe e a atual Platina pelo rio Pari-Veado,
divisando-se com o Capitão Francisco de Assis Nogueira
[fundador de Assis], indo suas divisas até a margem
paulista do Paranapanema, para se unir com sua fazenda primeira
[em Palmital].
O sertão
exigia homens fortes e corajosos para conquistá-lo, capazes de enfrentamentos
aos índios e demais perigos de se habitar regiões inóspitas
e proteger aqueles que lhe eram subservientes e correligionários, com
o que se justificam os autores regionais que Coronel Sanches foi tanto um matador
de índios, quanto implacável com seus adversários, porque
o meio assim exigiu dele, um homem destemido, progressista e fadado a ser líder.
Não são poucas as referências históricas
ao Coronel Sanches e sua obsessão em caçar, matar,
escravizar índios e tomar-lhes as terras – que
considerava suas por compra ou fosse a qualquer modo, com violência
tanta que até o renomado Giovannetti, apologista maior às
qualidades humanitárias daquele chefe político,
admite que “O Cel. Francisco Sancho de Figueiredo, iniciou
uma luta sistemática contra os indígenas, organizando
expedições que denominou dadas. Nas investidas
trouxe para sua fazenda vários índios, talvez
com o fim, de civiliza-los encaminhando-os para os trabalhos
agrícolas” (3).
Do Coronel Sanches contam-se horrores em suas empreitadas contra
indígenas. João Francisco Tidei Lima transcreve-nos: “Numerosos
grupos chefiados pelo Coronel Francisco Sanches de Figueiredo,
partiu de Campos Novos, atravessou o rio do Peixe, seguindo
rumo noroeste alcançou as vertentes do rio Feio e pela
madrugada aproximou-se da aldeia [dos Caingangues]. Esta era
composta de 5 [cinco] linhas de rancho, de uma cerca de 40
[quarenta] metros de comprido, roça de milho calculada
em 12 [doze] alqueires, animais domésticos, 500 [quinhentos] índios
(...). Pereceram todos os capitães da aldeia )...)” (4).
Prossegue Tidei Lima: “Mais tarde, o superior dos capuchinhos,
Fr. Bernardino de Lavalle, ao se referir ao massacre de 1886
[o acima citado] acrescentaria também a utilização
de ‘1 kg de Strychnina, para extinguir, com um intervalo
de 5 a 6 meses’, a população de mais duas
aldeias Caingangues (5). Teriam perecido, em conseqüência
do envenenamento dos suprimentos de água, mais de 1000
[mil] Caingangues” (6).
Tremendo morticínio ganhou manchetes de jornais da época
e denúncias às autoridades constituídas.
O Governo da Província de São Paulo declarou-se
incrédulo: “Procurando colher informações
seguras sobre tão grave assunto, não obtive,
felizmente, confirmação da notícia que
aliás parecia à primeira vista inverossímil” (7). Pouco
depois, assegura-nos Tidei Lima, “a mesma fonte admitia
implicitamente a procedência da denúncia, ao justificar
a necessidade das missões religiosas como meio de abrandar
o ódio dos nacionais contra os selvagens” (8).
Desta prática de Sanches confirma-nos Amador, ao esclarecer
que o sistema de combate, frente a frente “não
acabavam com os indígenas, que eram em grande numero
no valle rio do Peixe, principalmente no divisor das águas
deste com o rio Feio. Foi mister adoptar, ao lado da antiga
tática [dadas], uma outra (...) deitavam substâncias
venenosas nos utensílios de cozinha e nos alimentos
alli guardados, para que fosse victimado no comer algum que
porventura sobrevivesse” (9).
Também não são poucos os informes de confrontos
com indígenas, quando Sanches comandou a abertura da
Estrada Boiadeira concluída em 1884, a acuar restos
tribais Oitis e Caiuás para além dos rios Paraná e
Paranapanema, não sendo poucos os mortos naquelas investidas
em nome da civilização progressista.
- Sanches era extremamente rico e o mais poderoso dos coronéis
em 1906, quando contratado pela Companhia de Viação
São Paulo – Mato Grosso, como empreiteiro, porque
diante dele e seus homens fugiam os índios, os últimos
Caingangues que ainda insistiam lutar contra os brancos.
Francisco
Sanches foi, talvez à exceção de José Theodoro
de Souza e João da Silva, o maior
matador de índios dos Vales do Peixe e do Paranapanema,
sendo famosas suas dadas a arrasar
tribos inteiras, além das razias praticadas sobre caingangues
em terras do rio do Peixe. A
guerra do branco contra o índio sempre foi desigual, “terminada
sempre com a vitória dos atacantes” (10),
e os armamentos do Coronel, veremos, eram próprios para
a guerra – recebidos do governo
para a Revolução Federalista, assim como seus
homens treinados para os mesmos propósitos.
Homem inquieto, de varações e conquistas, sua
progressão econômica ocorreu mais rapidamente
entre 1880 e 1890, quando comprava propriedades, subtraia-as
dos legítimos donos das posses ou nelas fazia entrar
prepostos – falsos agricultores, para torná-las
mais seguras e, portanto, mais valorizadas, para vendê-las
aos colonizadores que chegavam. Era a prática do grilo.
Com o começo da República, a florescente vila
de Campos Novos experimenta profunda mudança política,
com a queda do chefe João Fernandes de Araújo
Leite, o João Gordo, que embora republicano de primeira
chamada, se viu substituído pelo Coronel Francisco Sanches
Figueiredo.
- A família Sanches, antes da proclamação
da República, era do Partido Conservador monarquista,
liderado pelo parente José Vicente Figueiredo em oposição
aos liberais comandados pelo italiano por Nicolau de Maio.
Apenas João Gordo tinha idéias republicanas
declaradas, todavia, enredado e posto em descrédito,
deu azo para a família Figueiredo assumir controle
e mando político regional, na pessoa do Coronel Francisco
Sanches de Figueiredo.
Em
desgraça João Gordo se viu na obrigação
de deixar a Comarca, sob risco de morte; certo Vicente Lena
fora encarregado por Sanches de assassinar João Gordo
(11), mas lhe foi permitido deixar a Comarca em segurança
dentro de determinado prazo. Consta que Lena ficou próximo
da casa de João Gordo até que este veio se mudar,
acompanhando-o até a divisa com a Comarca de Santa Cruz
do Rio Pardo.
Em poucos anos Sanches cresceu e seu poder agigantou-se, estendeu
influências, preocupou outros mandatários políticos
regionais.
Lenda ou certo, por volta de 1893 outros coronéis houveram
por bem eliminar Francisco Sanches; decidido o seu destino
as tropas inimigas invadiram sua fazenda em Palmital, numa
famosa refrega acabando Sanches por vitorioso, ciente antecipadamente
do ataque através do Coronel Marciano José Ferreira,
seu aliado desde a traição aos demais colegas
de patente.
Historicamente o poder de Sanches consolidou-se a partir de
1893, quando Campos Novos tornou-se Comarca desmembrada de
Santa Cruz do Rio Pardo, uma conquista de Sanches, até como
conseqüência natural dos fatos, pois desde sua ascensão à condição
de chefe político, os moradores de Campos Novos afluíam
a Lençóis para seus negócios comerciais,
forenses e serviços de correspondências [correios],
evidente rivalidade a Santa Cruz do Rio Pardo.
Já desde antes do poderio do Coronel que Campos Novos
e Santa Cruz mantinham rixas político-administrativas,
embora Santa Cruz contasse com Agência Postal [Correio] – desde
1876; Termo Judicial [outubro de 1877] para certos serviços
forenses sob jurisdição de um Juiz, e Coletoria
de Rendas Gerais em 1878, os moradores de São José do
Rio Novo [Campos Novos Paulista] optavam por Lençóis
para tais soluções.
Amador Cobra assegura que
desde 1893 Sanches era o chefe e dominava sua Comarca a partir
de Campos Novos (12).
3.1 O EXERCÍCIO ABSOLUTO
DO PODER
Dono absoluto do poder em toda Comarca, à exceção
de Conceição de Monte Alegre, Sanches convenceu
o Juiz de Direito José Baltazar de Abreu Sodré – o
primeiro da localidade, a deixar a magistratura para advogar
a seu favor e assumir o comando político em seu lugar,
uma importante estratégia para beneficiar os apadrinhados
de seu grupo político, nas inúmeras querelas
contenciosas, que se viam envolvidos juridicamente (13).
O poder e a influência de Sanches chegaram até a
Capital da Província, na época da Revolução
Federalista. Exageros ou não, o chefe político
Coronel Francisco Sanches de Figueiredo oficiou o Comandante
em Chefe das tropas de São Paulo, “receando que
as nossas fronteiras sofressem o insulto da invasão
do inimigo que se achava em Tibagi, cuja povoação
havia aderido ao movimento revolucionário, organizava
um batalhão de guardas nacionais voluntários,
para guardar as fronteiras do Tibagi” (14).
O gesto do Coronel Sanches o levou como herói à presença
do Governador de São Paulo onde expôs os perigos “que
os sertões do Paranapanema viessem a soffrer com a invasão
das tropas federalistas” (15). Conquistou o apoio necessário
para armar seus homens e guarnecer sentinelas do lado paulista
em pontos julgados vulneráveis.
Amador Cobra diz que Sanches recebeu do Governo algumas dezenas
de carabinas, munições e 60 contos em dinheiro,
a ordem de pagamento que lhe deram no Tesouro do Estado, uma
grande soma para a época, que o Coronel afirma ter recebido
apenas 30 contos. Amador indaga “E os outros trinta onde
foram parar! Na algibeira do portador do cheque que, em companhia
do destinatário da quantia, foi recebel-a no banco.
O chefe político de Campos Novos dizia que achou exquisito
o caso, mas não teve remédio senão concordar
com a divisão a meio, pois que o sócio era graúdo,
cujo nome declinava; contra esse, cousa alguma podia fazer” (16).
Finda a revolução não havia dinheiro para
restituir, enquanto as carabinas e munições restantes
ficaram sob a guarda do Coronel, enfim, não houve nenhuma
prestação de contas. Consta, no entanto, que
Sanches realmente armou seus voluntários, intimou outros,
mais de duzentos homens postos diante da barra do Tibagi, por
alguns meses, durante os quais nenhum só tiro de batalha
se fez ouvir (17).
Apesar de tanto poder e prestígio, o Coronel não
exercia influências com as gentes de Conceição
de Monte Alegre, que se via, no entanto, cerceada em suas aspirações
políticas e dependências econômicas do governo
de São Paulo, retaliação do Coronel Sanches,
pelo que nos dá entender José Jorge Junior: “Esta
incompreensível demora de autonomia de Conceição
deve-se, além da falta de contatos políticos
entre os seus líderes e a capital, os trabalhos de obstrução
praticados pelos políticos de Campos Novos (...)” (18).
O Coronel conquistou Conceição bem mais tarde,
desde que por lá assumiu controle o Capitão-Ajudante
da Guarda Nacional, Viriato Olympio de Oliveira, que antes
servil e sempre à disposição do Coronel.
Diz Benedicto Benício: “(...) Capitão Viriato
se projetou no cenário político, granjeando a
simpatia e a confiança dos munícipes, e notadamente
do “staff” político regional, na ocasião
liderado pelo Coronel Francisco Sanches Figueiredo (...)” (19).
Sanches de Figueiredo residiu por anos em Campos Novos e, por
fim, decidiu fixar residência numa fazenda próxima
da vila Saltinho do Paranapanema, que ele mesmo fundou e logo
se chamaria Platina.
3.2 O PODER CONTESTADO
Apesar de bem protegido por seus jagunços, Capitão
Sanches sofreu sério atentado em 1897, tocaiado e ferido,
no entanto pondo a correr seus assaltantes, Leoni assim o afirma,
ocasião que o Coronel fez vir o primo Vicente Lourenço
Ferreira [membro do grupo primitivo de Theodoro], para cuidar
seus ferimentos (20). Sanches e Vicente mais tarde também
se desentenderiam.
O atentado sofrido pelo Coronel o foi em razão de disputas
de terras à margem esquerda do rio Pari, que Sanches
adquirira ilegalmente de João da Silva Oliveira – cunhado
de Theodoro, em prejuízo ao herdeiro póstumo
José Luiz de Souza. Confiava na ação do
tempo para tornar efetivamente sua aquela imensa fazenda usurpada
do legítimo herdeiro, antes mesmo de nascer.
De imediato
o Coronel fez povoa-la através de prepostos de titularidades, ou seja,
de falsos e mesmo inexistentes agricultores, apenas para garantir posses até se
consumar a prescrição aquisitiva, para que ela lhe retornasse
limpa. Era o chamado grilo articulado.
No entanto, atingida a maioridade, José Luiz apresentou-se
titular daquelas terras, alienando-as a um aparente cultivador
que resolveu assumi-la. O Coronel reagiu, certamente, porque
era isto que se esperava dele, além de não tolerar
alguém confronta-lo com títulos de domínios,
verdadeiros ou não, de uma propriedade que considerava
sua ou de seus correligionários.
Amador assim descreve os acontecimentos (21):
“No município, quando se soube do ocorrido, o espanto foi geral.
O adquirente dos bens dizia estar na mesma incluída a margem esquerda
do Pary, toda ou porção della; viu-se, por isso, ameaçado
em sua vida e teve que sair da comarca. De fora deu passos necessários
e, por intermédio de terceiros [compradores de partes das suas terras],
foi entrando nos lugares em que dizia haver terras pertencentes ao espólio
que representava.
Dirigindo suas vistas para os lados do Pary, seus interesses
collidiam com os de todos [os homens do Coronel] que ocupavam
a faixa, desde Platina até o Paranapanema (...).
Surgiu dahí tremenda lucta entre os intrusos [os homens
do Coronel] e o pretendente ao qual homens de Piraju, compraram
partes dos terrenos provenientes de José Luiz, no centro
dos quaes se collocaram com o fim de desfrutar o seu e o mesmo
tempo vigiar o resto que o vendedor ainda possuía.
Mas não convinha aos direitos dos contrários
esse estado de cousas e a hostilidade recrudesceu. O povo do
lugar relacionou com a questão a tentativa de morte
de que foi victima o chefe da política [Coronel Sanches],
quando viajava de Platina para a fazenda. Ao passar por uma
porteira recebe um tiro de emboscada que lhe não produziu
mortal ferida. O companheiro, pedindo socorro, em altos brados,
parece ter concorrido, com isso, para que os assassinos não
secundassem a descarga e fugissem”.
Parece
certo que os jagunços do Coronel foram atraídos por alguns movimentos
suspeitos mais adiante e para lá acorreram, enquanto os assassinos tocaiados
atingiram a vitima.
“Procedeu-se impiedosamente no castigo que se infligiu aos auctores,
afim de não se repetir o facto e servir de exemplo a repressão.
Abriu-se inquérito rigoroso, com feição inquisitorial.
Uma escolta de civis foi até a morada dos indigitados criminosos acompanhando
o subdelegado. Aos moradores que encontrou conduziu até Platina, debaixo
dos maiores vexames e pancadas. Um destes recebeu descarga [tiro], da parte
dos encarregados da prisão, chegando a villa, quase morto. Atirado ao
chão, em redor de uma fogueira, os circunstantes, querendo certificar-se
se estava vivo ou não, levavam-lhe à boca cigarro acceso – o
lado que queimava divertindo-se com os movimentos que a vitima fazia, devido
as queimaduras. Dahi foram todos transportados para Campos Novos, metidos na
cadeia, na qual passaram por torturas, não se respeitando nem mulheres
[dos suspeitos], segundo ouvimos”.
Os acusados foram libertados até o julgamento, ocorrido
três anos depois, período qual estiveram ausentes
da região. Absolvidos – já se sabiam ser
outros os autores do atentado, voltaram residir nas terras
que consideravam suas, com a devida permissão do Coronel
acatando sugestão de seus conselheiros, mais como forma
de recompensar injustiças feitas.
Para muitos, com tal ação de benevolência começou
a cair o poder do Coronel, mas o comprador das terras de José Luiz,
ainda dono da maior parte adquirida, abandonou a Comarca e a outrem vendeu
seus direitos.
O novo adquirente meteu-se a reconhecer a propriedade, avalia-la
e, em juízo reclama-la sua, por fim determinando o Judiciário
processar a respectiva divisão e entrega-las às
partes legitimadas. Os esbulhados tomaram as terras do outro
lado do rio Pari, e logo teriam a contestação
dos sucessores do Capitão Francisco de Assis Nogueira
que, à mesma época que Sanches, adquiriu aqueles
lados juntamente com.José Machado de Lima.
Quando, em 1912 o processo ainda por concluir, Coronel Sanches
sofre novo atentado, desta vez fatal.
3.3 QUE MOTIVO ALGUÉM ASSASSINAR
SANCHES?
O Coronel sabia que inimigos pretendiam sua morte, por isso
sempre cercado de capangas – guarda reforçada
desde 1897, quando que lhe atentaram contra a vida, até a
fatídica noite de 22 de fevereiro de 1912 em que alvejado
por dois pistoleiros que o encontram, estranhamente desacompanhado,
num trecho da Estrada Boiadeira entre Campos Novos e Platina.
Foram tiros certeiros, o primeiro em sua mula outros dez ou
mais em seu corpo.
- Sanches também metido a médico do sertão,
na data de seu assassinato fora chamado, às pressas,
para atender o filho de um amigo fazendeiro (22), permanecendo
no local até o iniciar da noite.
Inexplicável porque estava só, sem nenhum segurança,
quando atacado e morto, provavelmente por aqueles dois homens
que já o procuravam desde manhã, em Platina e
depois na Fazenda Água do Matão, como se desejassem
encontra-lo para algum recado, talvez pedir emprego, não
se soube e nenhuma suspeita daquilo que realmente pretendiam
fazer, nem se eles o fizeram de fato.
João Antonio de Campos e Brasiliano da Silveira Castro
foram acusados do assassinato. O primeiro foi preso em Pereiras
nas proximidades de Botucatu, morrendo na Cadeia Pública,
antes do julgamento, de acordo com Amador Nogueira Cobra (23).
Brasiliano se refugiou na Argentina e nunca foi preso pelo
crime cometido (24).
De um homem que colecionou tantos inimigos na vida, qualquer
deles que se visse prejudicado, ou sua parentela, seria potencial
mandante da execução do rival poderoso; “e
há notícias de que muitos crimes tinham ligação
com este assassinato, segundo relatório do Doutor Cobra [Amador
Nogueira Cobra]. (...)”. Infelizmente o autor encerra
com lacônica sentença, “entretanto não
nos interessa averiguar tais fatos” (25).
As atrocidades de Sanches foram muitas, porém, do ponto
de vista político nenhuma maior que a supostamente cometida
contra o Coronel Marciano, o homem que o livrara da morte na
Guerra dos Coronéis e quem o ajudara firmar-se líder
político em Campos Novos.
- Do Coronel Marciano José Ferreira, diz Amador Nogueira
Cobra: “Viera de S. Simão para o Paranapanema,
em companhia de outros parentes, entre os quaes o cel. Antonio
Evangelista da Silva, chefe político de prestígio
em Santa Cruz do Rio Pardo (...)” (26).
Coronel Marciano era homem destemido, falador e dado a confusões;
foi agrimensor de terras no Vale Paranapanema, partes do Peixe,
com a técnica de medir espigões secundários
como primários, com isso a determinar a área
e deixar terras de fora (27), ou medir espigões ignorando
baixadas, para concluir menor o tamanho da propriedade em questão,
embora com mais terras.
Coronel Sanches, dado a compras de vendas de terras, tinha
seus interesses em Marciano, também por isso, além
da gratidão por ocasião da Guerra dos Coronéis.
Um dia se desentenderam por motivo ignorado, e Marciano mudou-se
para São Pedro do Turvo.
Depois disto, coronel Marciano e sua equipe, em número
de trinta pessoas, foram contratados para medir e divisar terras
lá para os lados do rio das Anhumas, adiante das terras
dos Medeiros, a ultima sentinela do sertão. Nessa empreitada,
durante as medições, Marciano desapareceu, misteriosamente,
de nada a adiantar tantas expedições procura-lo.
Encontraram roupas e armamento de Marciano, viram restos de
fogueiras recentes, à maneira dos brancos, mais nada.
Usaram outras expedições, inclusive do exército,
sem resultados e até recorreram ao Coronel Sanches que
tinha os melhores homens do sertão.
Dos componentes da expedição de Sanches, Amador
Cobra descreve-os como “(...) os mais afamados conhecedores
do sertão, tendo à frente o cel. Sanches de Figueiredo,
Domiciano Luiz da Rosa e tantos outros; sua opinião
não podia ser fructo de um erro de observação;
conheciam perfeitamente os hábitos dos silvícolas,
por ter dirigido campanha contra elles durante muitos annos!
Com que fundamento regressou Sanches affirmando que, a seu
inimigo Marciano, o indígena capturara e conduzira para
aldeia? Ninguem deu credito a essa balela” (28).
O Coronel Sanches teria motivos para matar Marciano, porque
este o teria denunciado ao governo central das praticas das
suas dadas e semi-escravização indígena,
como bem nos informa Amador Cobra destas práticas de
Sanches (29). Tal hipótese ganha força quando
sabemos que o governo federal enviou a Campos Novos membros
da Comissão Rondon para procurar Marciano e levantar
responsáveis (30).
Mais propriamente acreditamos que o desentendimento, entre
Marciano e Sanches, tenha ocorrido em razão das delituosas
medidas de terras e divisões das posteriores entre eles.
Muitos outros também tinham interesses no desaparecimento
do Coronel Marciano. Por exemplo, ele teria feito sumiço
de seu genro Augusto, e a família resolveu pelo revide.
Esteve suspeito no assassinato de João Pedro, o líder
político de São Pedro do Turvo.
Envolveu-se em distintos entreveros e tantos ódios em
Campos Novos e região (31), que até na morte
de Emigdio Piedade Filho, em Ipaussu, esteve suspeito de participação,
como talvez favores prestados ao primo Tonico Lista, o maior
beneficiado com as mortes de João Pedro e Emigdio Piedade.
Nenhum argumento, todavia, foi mais forte para livrar suspeitas
que Sanches tenha feito seqüestrar e matar Marciano.
Amador, em entrelinhas, deixa-nos entender que o tipógrafo jornalista
Nicanor da Silva Ribeiro, diretor proprietário do jornal O Paranapanema,
teria informações seguras que Sanches seria assassinado por aqueles
dias.
- Nicanor como jornalista atacava primeiro os situacionistas
para depois a eles se aliar, e mudar conduta editorial como
disse Amador Cobra (32), e isto já vinha desde Santa
Cruz do Rio Pardo, quando teria atacado o Coronel Antonio
Evangelista da Silva – Tonico Lista, motivo de sua
transferência para Campos Novos, e num desses procedimentos
teria encontrado motivos para se redimir perante o Coronel
passando-lhe informações que incriminariam
Sanches no caso Marciano. A suspeita não prosperou
por absoluta ausência de interesses.
Explicamos melhor: a mulher de Nicanor da Silva Ribeiro, antes
de viajar ás pressas de Campos Novos para Santa Cruz
do Rio Pardo e seu marido para a Capital,
passou informações ao advogado Amador Nogueira
Cobra, conforme que ele mesmo esclareceu “que ia se dar
um barulho, naqqueles dias, em Campos Novos” (33), ou
seja, o assassinato do Coronel Sanches, com detalhes e mandantes
do crime, que Amador não ousou revelar nem a si mesmo
como escritor.
- Amador em nota de rodapé – referência
acima diz de Nicanor e mulher, assim como das informações
recebidas, evidentemente a se furtar dos detalhes mais comprometedores,
posto possível defensor do acusado João Antonio
de Campos. Amador jamais nem ao menos insinuou o nome de
algum possível mandante do crime.
Descobertos os assassinos, um deles preso e outro em fuga,
soube-se que grande quantia em dinheiro, que o Coronel guardara
em casa em lugar costumeiro, fruto da venda de umas terras,
havia desaparecido, sendo improvável que na data de
sua morte a vítima tivesse saído com tanto dinheiro
na guaiaca, algo em torno de 30.000$000.
O crime repercutiu em todo território paulista, e o
governo do encaminhou para Campos Novos o Alferes João
Antonio de Oliveira (34), comissionado no posto de Tenente
Chefe do Serviço de Captura da Polícia de São
Paulo, o famoso Tenente Galinha – caçador de homens,
de 1888 a 1913 – quando assassinado.
Galinha chegou a região de Platina e Campos Novos usando
de tremenda violência contra aqueles considerados suspeitos,
posseiros e desapossados de terras, principalmente os fixados
mais próximos do Pari. Além da violência,
nenhuma simpatia granjeada, nenhuma solução esperada
para o crime.
É entendimento final que o dinheiro desaparecido
foi distribuído
entre chefes políticos de Campos Novos. Quanto o mandante
do atentado este jamais foi revelado.
4. CORONEL ANTONIO
EVANGELISTA DA SILVA – A
TRAJETÓRIA E O DESTINO DE UM HOMEM
Houve uma época que a força política
do Coronel João Baptista Botelho, de Santa Cruz do
Rio Pardo, era a mais expressiva da região de todo oeste
paulista, sendo meros coadjutores o Coronel
João Fernandes de Araújo Leite na região
de Campos Novos [São José do Rio Novo], Coronel
Anacleto Pires em Avaré [Rio Novo], Coronel Firmino
Braga em Piraju [Tijuco Preto], Coronel Pedro Pocaí – Salto
Grande, Emigdio Piedade Filho – Iapuçu e Coronel
João Pedro em São Pedro do Turvo, além
de outros de menores expressões.
- Relatório da Secretaria da Agricultura do Estado
de São Paulo, de 1902, São Paulo, no Quadro
Demonstrativo das Terras Dadas em Registro, páginas
98 a 161, consta o nome do Coronel João Baptista Botelho,
entre os poucos proprietários paulistas com cerca
de 100 mil ou mais alqueires de terras (1).
O poder político-econômico era todo do jovem
Coronel Baptista Botelho, em 1892, quando a família
Evangelista da Silva veio a residir em Santa Cruz do Rio Pardo,
proveniente de São Simão. O filho Antonio Evangelista
da Silva – Tonico Lista (2) tinha apenas vinte três
anos, posto nascido em 1869.
Foi naquele mesmo ano de 1892, dez de junho, que Tonico Lista
se meteu num entrevero, na zona do baixo meretrício,
matando a tiros dois soldados integrantes do grupo de Escolta
de Capturas da Força Pública do Estado aquartelado
em Santa Cruz, com objetivos de prender um místico cognominado
Frei Manoel, arrebanhador de seguidores na região de
São Pedro do Turvo e Campos Novos Paulista.
Tonico Lista livrou-se da prisão conhecendo assim a
ação e o poder do Coronel Batista Botelho, que
mantinha sob controle advogados, delegado, outras autoridades
e até juízes, além daqueles que lhe deviam
favores. Grato ao seu protetor, Tonico filiou-se ao Partido
Republicano Paulista.
Inteligente, prestativo e sabendo aquilo que bem pretendia,
Tonico cedo aprendeu os meandros da política, a força
do poder e a energia necessária para se fazer líder
respeitado; também logo aprenderia não tolerar
oposições. Coisas do poder.
Não se sabe como Tonico reagiu diante da instalação
da Comarca de Campos Novos Paulista, em 1893, que deixava de
ser Termo de Santa Cruz a despeito dos esforços do Coronel
Botelho; mas certamente ficou preocupado com a ascensão
do Coronel Sanches em detrimento ao mando regional do Coronel
Botelho. Ficaria mais inquieto quatro ou cinco anos depois,
quando o Juiz de Direito de Campos Novos, Dr. José Baltazar
de Abreu Sodré, deixa a magistratura para advogar e
assumir controle político da nova comarca, na condição
de lugar tenente do já poderoso Coronel Sanches.
- A importância política da família Abreu
Sodré estava crescente em toda região. Dr.
José Baltazar de Abreu Sodré, chefe político
em Campos Novos, o Tenente Coronel Baltazar de Abreu Sodré – dono
de farmácia, coletor e 2o. Juiz de Paz em Santa Cruz
do Rio Pardo, o médico e fazendeiro Francisco Paula
de Abreu Sodré – que se tornara adversário
do Coronel Botelho, e o engenheiro Lauro Sodré, residente
na capital federal [Rio de Janeiro], postulante ao cargo
de senador federal.
O
ascenso político de Ataliba Leonel, em Piraju, também
viria abalar a força regional de mando do Coronel Botelho,
que passa a colecionar subtrações regionais sucessivas,
a culminar com a perda do diretório
municipal do PRP para o médico Francisco Paula de Abreu
Sodré,
este sob orientações do Deputado Federal Antonio
José da Costa Junior e prestígios do sobrenome.
Para
o Coronel João Baptista Botelho nenhuma perda foi maior que a amarga
derrota dentro
de seu próprio domínio, Santa Cruz do Rio Pardo, jamais dissimulada
mesmo com a criação
do seu PRP dissidente. Ausentou-se da política, preocupou amigos e familiares,
sua ala partidária
omitiu-se da votação de 21 de maio de 1902 para o governo de
São Paulo e juizes de paz
da localidade, para enfim o próprio Coronel declarar aos 09 de julho
de 1902 o fim de uma época que foi sua, com
um tiro no ouvido.
Olympio Pimentel assumiu o PRP dissidente, preparou-o para
as eleições de vinte oito de fevereiro de 1903,
criou tumultuo, lançou protesto, mudou o local de votação
para seu pessoal e simpatizantes, registrou seus votos em cartório,
perdeu as eleições.
Enquanto Pimentel insistia em sua pugna contra Abreu Sodré,
o acaso favoreceu Tonico quando, numa viagem de negócios
a São Paulo e sua costumeira visita ao PRP, conheceu
Julio Prestes e depois Ataliba Leonel, o chefe político
de maior prestígio do Vale Paranapanema. Boas conversas
e entrosamentos, os principais do governo paulista não
desejavam um PRP dividido, investiram Tonico no cargo de Presidente
da Comissão Diretora do Partido Republicano Paulista – Diretório
de Santa Cruz do Rio Pardo.
Antonio Evangelista da Silva – o Coronel Tonico Lista,
herdou assim todo patrimônio político do Coronel
Botelho, fazendo-se o poderoso da ainda vasta comarca de Santa
Cruz do Rio Pardo. Casou-se com a viúva do coronel Botelho.
Tonico se tornou político hábil em manobrar as
massas, teve o apoio ou o temor dos pobres, a simpatia e servilidade
dos ricos e o respeito dos adversários. Arguto colocou
seus interesses pessoais juntamente com os da comarca que dirigiu,
numa projeção nominal tanto política quanto
econômica.
Em sua escalada adquiriu inimigos que lhe criaram dificuldades,
tornou-se inflexível nas negociações políticas,
acercou-se de jagunços, fez uso e força do poder
absolutista que entendeu possuir, sem abrir mão de métodos
violentos com os inimigos seus, para não se mostrar
fraco perante correligionários e protegidos.
Acusaram-lhe de encabrestar votos, fraudar eleições,
eliminar inimigos, mas nada se provou e sua fama correu sertão,
espécie de lenda viva, aquele que apenas pelo querer
tudo podia e fazia, a favor do seu povo ou diante dos seus
inimigos.
Não é difícil compreender que Lista acreditava
ser ele e apenas ele o predestinado a conduzir a Comarca para
o lugar que ela merecia, em nível de estado. Seu poder
local em 1908 era inconteste, um espaço conquistado
que não cedia a ninguém, companheiro ou adversário..
- Uma tradição dizia que Lista teria impedido
a Sorocabana fazer seu entroncamento ferroviário em
Santa Cruz. Tal não procede, a mudança de planos
da Companhia foi imposição dos governos de
São Paulo e Federal, para abrir e integrar novos povoados
ao longo da estrada de ferro, com raras exceções,
e assim preterir localidades mais antigas já em outros
caminhos pioneiros de interiorização.
A partir de 1909 assassinatos e agressões aconteciam,
quase em série, nas comarcas de Santa Cruz e Campos
Novos, tratando-se de confrontos políticos, eliminações
de adversários, sem saber ao certo os articuladores
ou, quem sabe, um único mentor de tudo aquilo.
Os atentados eram inteligentes, eliminando as influências
dos Coronéis de outras localidades, primeiro aqueles
que não pesavam tanto no jogo político, mas gentes
ligadas algumas a Sanches [Comarca de Campos Novos], outras
a Pedro Pocaí, um líder crescente na localidade
de Salto Grande, e aqueles outros que ousavam mais abertamente
desafiar o Coronel Lista, nome sem dúvidas no topo dos
principais suspeitos no cometimento dos crimes.
Coronel Sanches foi assassinado, em 1912, conhecidos os assassinos,
mas não o mandante ou os mandantes. Em setembro de 1913
morreu Pedro Pocaí, de Salto Grande, que pretendia ocupar
o espaço deixado por Sanches. A história foi
silente durante todo aquele período que, sabidamente,
nem juízes, promotores ou delegados nomeados na Capital,
puderam ficar na Comarca de Santa Cruz, porque não contavam
com o beneplácito do chefe Lista.
Os crimes ganharam manchetes, preocuparam o governo e as autoridades,
até que chegou a Santa Cruz o Juiz de Direito Francisco Cardoso Ribeiro,
para esclarecer crimes, punir responsáveis – nem que fosse Tonico
Lista, e por ordem às confusões reinantes na região.
Ciente o novo juiz que todos os acontecimentos estavam ou podiam
estar ligados direta ou indiretamente ao Coronel Tonico Lista,
a quem se subordinavam o delegado e os juizes anteriores. Cardoso
Ribeiro, que dizia ter retaguarda na Capital, resolveu inquirir
fatos ouvindo os adversários de Lista, desprezando conselhos
dados para que usasse de bom senso e cautela.
- Dr. Washington Luis Pereira de Sousa era a retaguarda avocável
do juiz Cardoso Ribeiro. Washington, formado em Direito tornou-se
político, primeiro como Deputado paulista de 1904
a 1908, depois Secretário de Justiça [1912],
Prefeito de São Paulo [1914], Governador de São
Paulo [1920-24], Senador Federal de 1924 a 1926 e, por fim,
Presidente da República gestão de 1926 a 1930.
O juiz, em suas investidas, atritou-se diretamente com o Coronel,
recebendo deste o ultimato para deixar a Comarca, ordem cumprida
na madrugada imediata até a estação ferroviária
de Bernardino de Campos, o Juíz escondido numa carroça
para transporte de pães.
- Washington Luiz, como Secretário da Justiça,
fora o responsável pela nomeação de
Dr. Cardoso Ribeiro, Juiz de Santa Cruz do Rio Pardo, mas
não mais ocupava o cargo quando da expulsão
de Cardoso, no entanto conseguiu, por influência, nomeá-lo
juiz em Campinas.
Quase duas décadas de mando e o poder desgastou Lista,
os amigos pediam mais do que ele podia oferecer. Enquanto os
inimigos se fortaleciam Tonico Lista mostrava-se enfadoso;
pior que isso somente Washington Luiz ser eleito governador
do Estado e, de pronto, fazer seu Secretário da Justiça
o Dr. Cardoso Ribeiro.
Cardoso Ribeiro veio à forra contra Tonico Lista, ao
nomear Delegado de Polícia para Santa Cruz do Rio Pardo,
Dr. Coreolano de Góes, o mais temível – e
dizem-no mais cruel, dentre todos os delegados e policiais
de São Paulo, depois do Tenente Galinha.
Os processos contra Lista foram todos desarquivados, alguns
possivelmente forjados, refeitos ou extintos, escolhidos aqueles
de maior impacto, testemunhas seguras e enfim levado a juízo.
Sentenças dadas e sentenças reformadas, Lista
conseguiu se ver livre através de advogados de primeira
linha, os melhores e mais caros: Dr. Julio Prestes [pouco depois
seria governador de São Paulo e depois presidente da
república – derrubado por golpe], Altino Arantes
[recém saído da chefia do governo do estado de
São Paulo] e mais Dr. Raphael Corrêa de Sampaio
[professor, dos maiores nomes em Direito do Brasil].
Tonico Lista, ainda que um tanto empobrecido, quis retornar
forte na política local; reorganizou o partido e se
preparou para as eleições de 29 de abril de 1922,
para deputados e senadores do estado.
Santa Cruz entrou em ebulição, oposição
e situação digladiaram-se, deixando o plano das
ameaças e partindo para os confrontos armados, com mortos
e feridos. Tonico Lista prestou declarações,
justificou-se, procurando incriminar a oposição.
Coronel Arlindo Crescencio da Piedade, o chefe da oposição,
também faz o mesmo; são opositores, Lista era
o prefeito, Coronel Piedade o Juiz de Paz em exercício.
- Arlindo Crescencio Piedade era chefe político do
Partido Municipal, criado sob inspiração do
Secretário da Justiça, Dr. Cardoso Ribeiro,
para ser oposição a Tonico Lista [PRP].
A contestação fora notória, atrevida
até, tanto que para alguns companheiros Tonico entrava
em declínio político, não era mais o temido
de antes, a oposição estava crescente e ousou
desafia-lo, em público, segundo os acontecimentos de
29 de abril. Mesmo assim os opositores que antes das ultimas
eleições acreditavam-no enfraquecido, agora tem
certeza que o Coronel se fortalecera nas adversidades e ainda
era um rival longe de ser batido.
As opiniões entre situação e oposição
estavam divididas, apenas uma certeza em comum, o Coronel corria
risco de sofrer algum atentado. Muitos lhe desejavam a morte,
mas temiam a responsabilidade da culpa, pois à oposição
não interessava incriminações e para isso
dizia que Tonico Lista colecionara muitos inimigos, dentro
e fora de Santa Cruz, não somente políticos,
que bem poderiam atentá-lo.
Lista parecia ser o único considerar-se acima das possibilidades
de sofrer algum tipo de atentado, mesmo depois de 29 de abril
quando os tiros, ele mesmo informou isso, lhe foram endereçados.
Entendia ser caso isolado no calor de uma disputa eleitoral.
No dia oito de julho de 1922, Coronel Antonio Evangelista da
Silva cumpria a mesma rotina sempre que se encontrava em Santa
Cruz do Rio Pardo: levantou cedo e se dirigiu ao armazém
de um amigo, para ler jornal, conferir algum apontamento particular
ou da municipalidade, às vezes apenas para colocar conversa
em dia com os amigos. Lista aparentava tranqüilidade quando
um soldado, da Força Pública de São Paulo,
entrou – dizem que uma segunda vez, então para
apontar ao Coronel dois revolveres, já atirando – pelo
menos um tiro mortal, em nada a resolver pronta reação
que atingiu o assassino em fuga, pelas costas, num disparo
não fatal.
O assassino declarou vingança pessoal,
em honra da família,
por questões de terras, crime de empreita, outros motivos
e contradições nada comprovados.
4.1 QUE PESSOAS TERIAM RAZÕES
MAIORES PARA MATAR TONICO LISTA?
Obviamente todos aqueles que se sentiram, um dia, prejudicados
por ele, e eram tantos, pois
o Coronel em nada se importava colecionar inimigos.
Para o professor Wilson Gonçalves em seu artigo “Tonico
Lista, Gurucaia de São Simão
Transplantado à Beira do Rio Pardo”, o Juiz Cardoso
Ribeiro tinha motivo maior de vingança contra o Coronel
Lista (3). Também o Professor José Ricardo Rios
aponta para a mesma linha de raciocínio (4).
- Este capítulo, firmado naqueles dois autores, não
os desacredita posto o primeiro, sobrinho do Coronel por
afinidade, e o segundo, filho e neto de contemporâneos
do mesmo Coronel. Ambos apenas sugerem com bastante intensidade,
mas não afirmam nem descartam o juiz Cardoso relacionado
direta ou indiretamente ao assassínio do Coronel.
Buscando pistas para o mistério de quem mandou matar
o coronel, não se deve desprezar as declarações
do Coronel Arlindo Crescencio da Piedade, junto a Delegacia
de Polícia de Santa Cruz do Rio Pardo, dos acontecimentos
de 29 de abril de 1922 (5) “que com a posse do Dr. Washington
Luís a presidência do Estado e conseqüente
posse do Dr. Cardoso Ribeiro na pasta da Justiça e Segurança
Pública, o povo de Santa Cruz tomou o alvitre a organizar
um partido político em opposição ao Coronel
Antonio Evangelista da Silva, vulgo Tonico Lista, o que foi
feito e a que deram o nome de Partido Municipal, sendo, então,
o declarante convidado a assumir a presidencia do Directório
(...)”.
O declarante que fez questão de se identificar com o
Dr. Cardoso o desafeto poderoso de Tonico Lista, também
tinha motivo forte para atentar contra Tonico Lista, desde
o assassinato de seu parente Emigdio Piedade Filho [chefe político
de Ipauçu] o qual, em andanças pelos lados de
Irapé encontrou a porteira do caminho amarrada ao batente
e, enquanto se curvava sobre a montaria para desatar o nó,
um balaço traiçoeiro lhe atravessou o peito.
Os antigos diziam Lista o mandante.
Teriam os dois [Cardoso
Ribeiro e Crescencio Piedade] se associado para a execução
de Tonico Lista?
5. ATALIBA LEONEL:
O ULTIMO DOS CORONÉIS
ATÉ FOI
GENERAL
Descendente de ricas e tradicionais famílias paulistas,
Ataliba Leonel (1) nasceu em Itapetininga aos 15 de maio de
1875, filho de Major Mariano Leonel Ferreira e Dona Francisca
Rolim Leonel Ferreira.
Ataliba
estudou nas melhores escolas de São Paulo, como o Seminário Episcopal
de São Paulo e Ateneu Paulista, para graduar-se em Ciências Jurídicas
e Sociais pela Faculdade de Direito de São Paulo, em 1895.
Escolheu a localidade de Piraju para advogar
e administrar propriedades da família, no ramo do café. Irrequieto,
contestador, Ataliba cedo se meteu em política, pela oposição,
sendo eleito vereador no ano de 1898, já no ano seguinte fundou e organizou
o diretório municipal pirajuense do Partido Republicano Paulista – PRP,
quando Presidente da Câmara.
Enérgico,
organizado e líder, ganhou prestígios entre correligionários,
foi reeleito vereador e, em 1904 elegeu-se Deputado Estadual, reelegendo-se
outras vezes, vindo ocupar, inclusive o cargo público de Senador Estadual,
por eleição, e de deputado federal.
Meteu-se
no universo dos coronéis para se fazer um deles, de grande mando e prestígio,
pregando a união de seus pares em torno de um nome para representá-los
junto ao governo do estado, e esse nome era o seu, o mais letrado de todos
os chefes políticos regionais do oeste paulista.
Através
de sua argúcia convenceu coronéis a limitar-se em seus próprios
territórios, sem invasões dos alheios, ficando por chefe maior
os coronéis de comarcas, que tudo podia e mandava.
Ataliba
pareceu jamais ter agido à maneira e semelhança dos demais coronéis,
optando por representá-los em nível de governo central, sem se
envolver nos mandos e desmandos localizados, senão como conselheiro
e apaziguador, funções que viria abandonar cedo para se ver apenas
representante político.
Já era
o ultimo dos coronéis, com a morte de Tonico Lista em 1922, quando recebeu
o título honorário de General do Exército Brasileiro,
pelos relevantes serviços prestados aos legalistas, na revolução
de 1924.
Em
1927 elegeu-se novamente Deputado Estadual, e reeleito para o mandato seguinte.
Era um vencedor consagrado pelas urnas, desenvolvimentista de todo Vale Paranapanema,
em luta pelos municípios
e comarcas, muitos dos quais criados e elevados sob sua indicação
e defesa parlamentar.
No
golpe de 1930, Ataliba [então senador do estado] foi enquadrado às
novas regras políticas para ressurgir forte na Revolução
Constitucionalista de 1932. Com a derrota dos paulistas foi preso, exilado
e depois anistiado, sem forças para fazer de novo um grande líder
político. Faleceu em Piraju, no dia 29 de outubro de 1934.
Ataliba
foi antes de tudo um homem inteligente que soube, ao longo dos
anos de vida pública, excluir de seu currículo
todos os cometimentos negativos e de violências que cometera,
na qualidade de coronel, que lhe pudessem manchar a honra.
6. FRANCISCO JOSÉ SERÓDIO – O
PADRE QUE AMAVA AS MULHERES E COM ELAS GEROU FILHOS E FILHAS
Padre Francisco José Seródio [ou Serôdio]
nascido em Portugal (1) exerceu seu ministério no Brasil
onde dele ouvimos falar, uma primeira vez, em Paraibuna [SP],
como Diácono e Coadjutor na inauguração
da nova Igreja Nossa Senhora do Rosário: “Preenchida
a solenidade da bênção da nova igreja,
conforme o ritual Romano, foi em 8 de 1871, cantada a primeira
missa solene, sendo celebrante o então vigário
Antônio Pires do Prado, Diácono o coadjutor Francisco
José Serôdio, cantando a Epístola o secular
competentemente habilitado Manoel Amâncio de Oliveira,
e pregando o Sermão análogo o coadjutor” (2).
Padre Seródio começou fazer história no
sertão oeste paulista, em 1872, quando nomeado pároco
em São Domingos [do Tupá], então cabeça
eclesiástica adiante de Botucatu, para os novos povoados
[Capelas] que iam surgindo no sertão pós-entrada
avassalante dos entradistas mineiros em meados do século
XIX (3). Seródio foi pároco em São Domingos
num primeiro período de 15/03/1872 a 31/05.1872 – quando
substituído, e de janeiro de 1873 a setembro ou dezembro
do mesmo ano.
Deixando
São Domingos e as Capelas entre elas as de Santa Cruz do Rio Pardo e
São Pedro do Turvo, Seródio teve passagens por Paranapanema,
Guareí e depois Porangaba [então Bela Vista do município
de Tatuí], conforme encontramos: “O pe. Francisco José Seródio
foi o segundo padre residente na Bela Vista, porém somente permaneceu
4 meses e alguns dias; veio transferido de Guareí e já tinha
trabalhado antes, em Santa Cruz do Rio Pardo e Paranapanema. Daqui foi transferido
para Iapussu” (4). Passagens todas aparentemente rápidas até que
o inquieto padre viesse ter em Campos Novos. Há registros de sua presença
também nas Capelas de Espírito Santo do Turvo, Chavantes e Piraju.
Mas foi
em Campos Novos que Seródio fez história, não tanto como
clérigo, pois lá existia o Padre Paulo de Majo [Mayo] espécie
de cadeira cativa no lugar, e sim como Delegado de Polícia, afamado
em todo sertão, depois de enfrentar sublevação do seu
destacamento policial. Reza a história que o padre, juntamente com o
coronel Marciano José Ferreira, tentou apaziguar os policiais quando
dois deles, mais exaltados, avançaram contra Marciano não restando
ao padre delegado outra alternativa senão abate-los a tiros de carabina,
morrendo um instantaneamente e outro, gravemente ferido, a seguir morto com
tiro de execução deferido por Francisco Lourenço de Figueiredo
(5) – pai do Coronel Francisco Sanches de Figueiredo.
- Faz parte do anedotário histórico regional,
que tão logo tombados os sediciosos, Padre Seródio
se dirigiu até a Igreja paramentou-se e aí,
na condição de sacerdote, deu a extrema unção
e encomendou as almas dos mortos cujos corpos ainda estavam
em meio da rua.
Por essa época o padre corria todo sertão adiante
de Campos Novos, como Platina, Dourados [Assis], Cerimônia,
Maracaí, Conceição de Monte Alegre e outros
povoados incipientes, tanto na qualidade de capelão
quanto interessado em adquirir terras. Fez-se grande fazendeiro,
já em 1900/1902 relacionado pelo Governo de São
Paulo entre aqueles com cerca de 100 mil alqueires de terras
ou mais (6).
Seródio ocupou um outro cargo público, eleito
1o. Juiz de Paz do Distrito Conceição de Monte
Alegre em 1893, quando da ascensão de Conceição à categoria
de Distrito de Paz. Disto esclarece-nos José Chrysostomo
Giannasi: “A eleição de 1893 apenas o confirmou
no cargo, que, ‘ad referendum’, ele já exercia
desde a elevação da vila [povoado] à categoria
de Distrito de Paz, pelo Decreto Estadual no. 142, de 24/02/1891” (7).
Seródio despachava seus expedientes através de bilhetes,
um deles reproduzido pelo mesmo Giannasi: “Rocha: isto ahi em Cartorio
ate segunda ordem. Monte Alegre, Maio de 93. Seródio” (8). Fernando
Avelino Rocha era escrivão do Juízo [Cartório] de Paz
do Distrito de Conceição de Monte Alegre.
O
padre foi, ainda, grande latifundiário tendo adquirido a Fazenda do
Bugio [região de Assis] que estava em discussão familiar, outras
terras tomadas dos incautos que nele confiavam, e aquelas advindas de posseiros
prepostos, ou seja, naquilo que se denomina grilagem articulada.
Leoni descreve
Padre Seródio “bastante aventureiro em questão de terras,
constituindo posse em toda parte, onde melhor lhe parecia; montava posseiro
por sua conta e muitas vezes o suposto posseiro nomeado era fictício” (9).
O mesmo Leoni insere fotocópia de documento [de nº 12 em sua obra],
que comprova Seródio apresentando uma escritura em nome de sua amante
Joana Maria Pinto, como senhora de terras postas para arrendamento (10).
Outros autores regionais, como Giannasi, confirmam relacionamento
marital entre Seródio e Joana Maria Pinto, nascendo-lhes
filhos e filhas (11).
Seródio conhecia bem o sertão, sabia das terras
contenciosas, foi Delegado, Juiz de Paz, conhecia segredos
de confissão, controlava escrivães que redigiam
e registravam escrituras em livros próprios e insuspeitos.
Leoni afirma que são muitos os contratos públicos
de arrendamentos, de terras que não eram suas, mandados
lavrar pelo Padre Seródio, com contratantes fantasmas,
mesmo em documentos oficiais, em que não compareciam
as partes contratantes, ou seja, os arrendatários, obviamente
com a participação conivente do tabelião
de cartório (12).
Uma curiosidade
histórica mostra que o padre era realmente homem sedutor, amante irresistível,
que viveu com muitas mulheres, negras, brancas e mulatas, deixando numerosa
prole de diferentes feições e tipos, alguns desordeiros, violentos
e assassinos – inclusive uma de suas filhas, famosa pela coragem e mortes
colecionadas; outros filhos foram pessoas honradas, homens do trabalho ou fazendeiros.
Teve os ricos, os pobres e pelo menos uma filha com problemas mentais (13).
Relatam
os antigos e alguns descendentes de Seródio, que estando ele a desfazer
de seus bens, com intenções de retornar a Portugal, suas mulheres
e parentes delas forçaram-no reconhecer os filhos, publicamente, por
legítimos. O padre não se furtou das responsabilidades, determinando
ao Tabelionato de Campos Novos que lavrasse a escritura de reconhecimento de
todos os seus filhos, reunidos no dia 25 de novembro de 1891 para tais propósitos,
alguns acompanhados de suas mães.
Diz o documento transcrito por Leoni Ferreira, respeitado grafia
da época (14):
“Escriptura de Perfilhação que faz o Padre Francisco
José Seródio, como abaixo se vê: Saibão quantos
esta pública escriptura de perfilhação virem que no ano
do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo, de mil oitocentos e noventa e
um, aos vinte cinco dias do mês de Novembro do dicto ano, nesta Villa
de Campos Novos do Paranapanema, comarca de Santa Cruz do Rio Pardo, Estado
de São Paulo, em meu cartório comparece o o Padre Francisco José Seródio,
Fazendeiro, residente neste município e termo, reconhecido pelo próprio
de mim tabelião, do que dou fé e das duas testemunhas adiante
nomeadas e no fim assignadas, em presença das quaes, por elle me foi
dicto que sendo clerigo de ordens sacras, houvera de mulher solteira, com quem
não tinha parentesco, algum, os seguintes filhos a saber: - Helena,
nascida em Santo Antonio da Boa Vista, aos nove dias do mes de Dezembro de
mil oitocentos e oitenta e dois, às nove horas da manhã. Foi
baptizada de idade de seis meses em São Sebastião do Tijuco Preto,
pelo Vigário Padre Pedro Montello. Foram padrinhos Manoel Isidoro Brenha
e dona Alexandrinha Brenha, casados; - Cândida, nascida em São
Sebastião do Tijuco Preto, aos vinte dois dias de Fevereiro de mil oitocentos
e oitenta e três. Foi baptizada pelo Vigário Padre Pedro Montello
aos dezesseis de Outubro do dicto ano; forão padrinhos, José Amaro
de Castro e dona Maria Lionel de Castro, casados, professores públicos
da dicta Villa. José, nascido as des horas do dia dois de Maio de mil
oitocentos e oitenta e quatro, em São Sebastião do Tijuco Preto,
baptizado pelo Vigário Pedro Montello, de idade de seis meses. Foi padrinho,
Francisco Gonçalves Serodio e madrinha, dona Maria da Cruz, casados,
residentes no Rio Novo e com procuração a Capitão Joaquim
Calixto de Medeiros e sua mulher dona Francisca de Medeiros. – Adelaide,
nascida as des horas da noitedo dia quatorza de agosto de mil oitocentos e
oitenta e sete, na Villa de Campos Novos de Paranapanema. Foi padrinho o doutor
José Ribeiro da Silva Pirajá e sua mulher dona Adelaide Mascarenhas
Pirajá. Foi madrinha por procuração, dona Gertrudes Honoria
de Souza, sendo baptizado feito no dia vinte e quatro de junho de mil oitocentos
e oitenta e oito. – Manoel, nascido aos quatorze de fevereiro de mil
oitocentos e oitenta e nove, as des horas da noite, na Villa de Campos Novos
de Paranapanema. Foi baptizado pelo Vigário Padre Paulo de Mayo, no
dia cinco de Maio do dicto ano. Forão padrinhos, doutor Manoel Joaquim
de Albuquerque Lins e sua mulher dona Helena de Queiroz Lins, residentes em
São Paulo, por procuração a Francisco Sanches de Figueiredo
e sua mulher dona Anna Rita de Oliveira. – Maria, nascida na Villa de
Campos Novos de Paranapanema, no dia vinte e seis de agosto de mil oitocentos
e noventa, as des horas da noite. Foi baptizada pelo Vigário Padre Paulo
de Mayo, no dia dezesseis de Outubro do dicto ano. Foi padrinho, José Justino
Ferreia e madrinha, a Protectora Nossa Senhora da Aparecida, sendo apresentada
na Pia Baptismal, por dona Gertrudes Thomasia de Souza. Que por este instrumento
reconhece inspontaneamente por seus filhos os menores já mencionados
que tem creado em sua companhia; os quaes todos assim reconhece para todos
os effeitos legaes e para que a lei concede aos filhos perfilhados. Que portanto,
consente que seus filhos agora perfilhados, usem dos apelidos delle outorgante
perfilhador e que de hoje em diante, não usem nenhum outro, para que
possam gosar de todo os direitos de herança, honras e prerrogativas,
como se legítimos fossem. A vista, pediu que lhe lavrasse esta escriptura
que lhe sendo lida, aceitou e assigna com as testemunhas, Alferes João
Torquato da Piedade e Rodolpho Gersino dos Santos, conhecidos de mim, João
da Silva Ribeiro, tabelião que a escrevi. A) o Tabelião – João
da Silva Ribeiro. Livro 18, folhas 47 a 49, Arquivos – Cartório
1o. Ofício de Assis.
- Em vez da assinatura do Padre está escrito: “SEM
EFEITO” (15), e isto gerou especulações
parecendo certo, porém, que Seródio teve que
se ausentar no momento da lavratura e nunca mais retornou
para apor sua assinatura; ainda assim os filhos tiveram sobrenome
Seródio em seus documentos. Proximidades de datas
dos nascimentos de Helena e Cândida indicam mães
diferentes, com as quais convivia o padre.
Consta que Seródio, também foi Juiz de Paz em
Campos Novos, com sérios enfrentamentos, segundo Giovannetti,
que fez célebre o nome daquele padre “nos anaes
forenses da Comarca, como protagonista de questões de
terras, nas fases em que os processos divisorios tiveram sua
epoca de intensa atividade” (16). Giannasi endossa: “(...)
ele foi protagonista de complexas questões de terras
quando, na região, em decorrência de delimitações
muito vagas, houve muitos
processos divisórios conturbados, e seu nome sempre
estava envolvido” (17).
Uma das
propriedades de Seródio deu origem ao atual município de Pedrinhas.
Consta em uma pesquisa de
texto que três glebas faziam parte do atual território de Pedrinhas
(18):
1. Gleba
Pedrinhas, de José Gonçalves Seródio [filho do padre],
2. Fazenda
São Geraldo, de Quirino Leme da Silva [posseiro preposto
do padre];
3. Fazenda Anhumas em nome de Joana Maria Pinto,
amante do padr.e.
O pioneiro Teodoro teria vendido o conjunto das três
fazendas ao sertanista José Justino Ferreira, no ano
de 1875. José Justino negociou referidas terras diretamente
com Padre Seródio em 1890, que a desmembrou naquelas
três parte. Depois disso surgiu registro de 1919
em que Joana alienou suas terras a certo Antonio da Cruz Carvalho
que, quase de imediato a repassou para José Gonçalves
Seródio, adquirente inclusive da parte de Quirino Leme
da Silva (19).
A mais famosa demanda de terras de Padre Seródio, sem
dúvidas, trata-se da Fazenda Bugio, que o padre dizia
sua propriedade quando surgiram “outras pessoas com títulos
comprobatórios – da aquisição das
mesmas terras, – cujos títulos também,
sabe Deus se legítimos ou falsos – mas deu demanda
e demanda graúda que se arrastou no foro de Assis, por
mais de cinqüenta anos” (20), sem solução
até os anos de 1980, e, certamente ainda hoje [2005].
Velho e
alquebrado, dizem que enojado, talvez, de falcatruas, demandas
de terras, entre outras
aventuras e dos rumos finais de sua vida, Seródio retirou-se
para Portugal, vindo falecer na
cidade de Lisboa (21), embora um túmulo na cidade de
Maracaí indique ali sua sepultura (22),
certamente ocorrendo translado dos restos mortais.
São
desencontradas as informações se realmente
em Maracaí estão os despojos do Padre Seródio,
ou a se tratar, segundo muitos, apenas túmulo simbólico.
7.
FREI MARIANO DE BAGNAIA
Frei Mariano nasceu Saturnino, na localidade de Bagnaia, província
de Viterbo [Itália]. Vocacionado,
aos 15 anos optou pela vida religiosa ao entrar para a Ordem
dos Capuchinhos, onde concluiu os estudos em Teologia, Filosofia
e Letras. Adotou nome religioso de Mariano de Bagnaia (1),
requerendo autorização da Ordem para integrar
o quadro de Missionários Estrangeiros.
Chegou ao Brasil, Rio de Janeiro, em março de 1847 e,
desde logo ensejou vida missionária de catequização
ao índio, no atual estado do Mato Grosso, primeiro Cuiabá depois
Diamantino, antes de partir para a aldeia dos Kinikinos, futura
Vila do Bom Conselho, na região do Baixo Paraguai.
Precisando retornar ao Rio de Janeiro, Mariano o fez pelo caminho
dos rios Paraguai, Paraná e Prata, para depois subir
pelo litoral até o destino proposto. Teve problemas
de saúde – febres, que o obrigou permanecer semanas
em tratamento no Convento dos Capuchinhos em Buenos Aires.
Prestando contas a seus superiores e autorizado voltar para
o interior do Mato Grosso, com os companheiros freis Ângelo
Antonio de Caramanico e Jerônimo S. Columba, resolvendo
Columba permanecer em Sorocaba, enquanto Mariano e Ângelo
Antonio dirigiram a Corumbá [hoje cidade do Mato Grosso
do Sul], onde se separaram: Ângelo com destino a Vila
do Bom Conselho [Kinikinos] e Mariano a Cuiabá.
Com a declaração de guerra do Paraguai contra
o Brasil, em 1864, a tropa de Solano Lopez, na região,
encontra frei Mariano em Miranda, como vigário e com
jurisdição sobre todo o sul circunvizinho. Mariano
resiste a invasão e é preso, torturado e conduzido
para o presídio de Niasc [Paraguai], onde se encontra
com frei Ângelo, também capturado.
Mariano e Ângelo passaram por diversas prisões
paraguaias, conforme movimentações do exército
paraguaio. Giovannetti relata que a derrota paraguaia, na batalha
de Lomas Valentinas, fez com que Lopez ordenasse matança
diária de prisioneiros, inclusive religiosos, sendo
frei Basilino Landini o primeiro padre sacrificado, em Assunção.
Frei Ângelo foi decapitado e Mariano foi conduzido com
outros prisioneiros para Parrero Grande, para execução.
Quis o destino que soldados brasileiros se encontrassem com
aquela ala do exército paraguaio, dando inicio a um
inesperado combate, facilitando fuga de frei Mariano que, perseguido
e sem alternativas se lançou em águas do rio
Apa, mesmo sem saber nadar, porém salvo por um soldado
brasileiro.
Visivelmente abalado pela guerra, Mariano retomou suas atividades
em Corumbá, como herói de guerra e com a nomeação
de Pregador Imperial e honras de Major do Exército Brasileiro,
por Carta Imperial de 08 de outubro de 1873.
Na capital do Império em 1886 foi designado para substituir
o diretor do Aldeamento São Pedro Alcântara, em
Jataizinho [Paraná] às margens do rio Tibagi.
Meses depois frei Mariano retornou para o Rio de Janeiro, para
receber ordens de fundar Catequese em Campos Novos. Giovannetti
diz que Mariano mesmo adoentado “deliberou obedecer às
ordens superiores”.
Abalado mentalmente, perseguido pelas visões noturnas
e os terríveis lamentos dos tantos torturados de guerra,
que presenciara frei Mariano quando de passagem por São
Pedro do Turvo, não resistiu às tentações
que o acusavam indigno de viver, enquanto seus discípulos
e companheiros de fé sofreram o martírio, quis
ir ao encontro deles, suicidando-se.
Mariano cortara os pulsos e ainda levado com vida a Campos
Novos, onde Padre Paulo de Mayo lhe ministrou os últimos
sacramentos.
8. FREI MANOEL – O
HOMEM-DEUS DO SERTÃO
PARANAPANEMA
A vida de um profeta raramente é fácil e quase
sempre ele é incompreendido e não assimilado
por sua época (1).
Não se sabe exatamente quando nem onde, o nortista Manoel
Izabel recebeu o chamado de Deus para o ministério de
salvação, pois que ele já surge Frei Manoel
e pregador pronto, por volta de 1892, no sertão Paranapanema
vindo dos lados do Paraná, primeiro em Piraju, para
anunciar o fim dos tempos, a separação do trigo
do joio, e o estabelecimento do reino divino na terra (2).
A História
relata-o como homem de estatura mediana, cabelos encrespados, barba hirta e
negra a cobrir-lhe o rosto saliente e precocemente enrugado; trajava-se de
longa túnica sobre roupas comuns, valia-se de um velho chapéu
esverdeado [pelo tempo de uso] e calçava alpercatas. Fumante, os fiéis
disputavam as pontas de cigarro que tocaram os lábios santos (3).
Percorreu
regiões de Piraju, Avaré, Santa Cruz do Rio Pardo, São
Pedro do Turvo e Campos Novos, onde o fazendeiro Manoel José lhe ofereceu
lugar para abarracamento, com seus seguidores, à margem direita do Rio
Novo, bem próximo do povoado.
Dentre os acompanhantes e admiradores de frei Manoel, em Campos
Novos, Amador Nogueira Cobra menciona certo jovem culto “(...)
formado pela Faculdade de Direito de S. Paulo. Moço
eloqüente, promotor público da comarca, tomava
a palavra freqüentemente e dirigia-se aos circumstantes
que em torno do abarracamento se reuniam a ver o frei. Mostrava
quaes as virtudes deste, seu dom de prophecia e, sobre tudo,
o poder de tornar o corpo de mortal invulnerável às
armas de fogo, de corte e (...)” (4).
As pregações de Frei Manoel eram vibrantes, convincentes
e seguidos de admiradores empolgados e em números crescentes,
extasiados pelas palavras do santo, seus vaticínios
e demonstrações físicas de homem ungido,
contra quem nenhum malefício podia atingir.
Apesar de
população esparsa no sertão Paranapanema, o número
de seguidores de Frei Manoel impressionava, crescia e já preocupava
as autoridades locais que o denunciaram ao poder central. Giovannetti diz que
Frei Manoel conquistava corações dos humildes, impressionava
aqueles que o ouviam e quando alguém o encontrava nalguma caminhada
dizia “Eu temo o Deus que passa!” (5).
O mesmo
Giovannetti menciona ocorrências da época como preocupantes: “Os
agricultores abandonavam os campos para seguir o Monge nas longas procissões.
Ninguém cuidava mais em fazer plantações e, a vida, ficou
profundamente perturbada. Roças sem queimar, terras sem plantar: o horizonte
da zona Campos-novense apresentava sinais de tristeza e de fome. Foi um ano
de crise espantosa. A lenda do fantástico homem ultrapassava os limites
da antiga Vila de Campos Novos, e espalhava-se em Salto Grande, Platina, Conceição
de Monte Alegre, até aos últimos moradores de Anhumas e Jaguaretê.
Os fanáticos cresciam (...). A Fazenda Manoel José transformou-se
numa verdadeira Meca (...)” (6).
Amador Cobra
descreve o Frei um embusteiro, autor de falsos milagres dados
aos seguidores, como o anuncio do apagar momentâneo do sol, de fechar o corpo contra
armas brancas e de fogo, imunidade às moléstias e promoções
de curas (7).
- O auto-intitulado Frei certamente tinha conhecimento prévio
de eclipse solar, sabia fazer munição de festim
e habilidade em manusear navalha parecendo passar a lâmina
afiada pelo corpo, seu o de algum assistente, sem perigos
de danos. Também aparentava conhecer o empirismo médico
e trazia consigo sempre o herbário para diagnosticar
as principais doenças e promover as curas, além
do Chernoviz – o antigo livro de receita para todas
as moléstias (8).
Frei Manoel tinha suas virgens consagradas, com as quais mantinha,
na qualidade de ungido, certos deveres sexuais para o sucesso
da comunidade, realizações de ritos em contatar
os santos, imunizações contra enfermidades ou
fechamentos de corpos. Uma das virgens certamente traria ao
sertão, em breve, o Filho de Deus.
O progresso do místico foi rápido demais, já vinham
gentes de outros rincões atraídos pelo sucesso
do santo, em suas palestras abertas geralmente depois de entrar às
virgens, num compartimento fechado, somente permitido aos iniciados,
certamente ele só e as jovens consagradas. E assim,
Frei Manoel em pouco tempo ganhou tantos adeptos, separou famílias,
adquiriu riquezas doadas pelos fiéis, mas cometeu o
erro de permanecer no local maior período que o necessário,
subestimando a inteligência de todos e a capacidade de
percepção do homem do sertão.
Alguns observadores não adeptos já se intrigavam
que frei Manoel fazia pregações, curas e certas
demonstrações de poder, em público, mas
fechamentos de corpo ou imunizações a doenças,
por exemplo, apenas em particular com a pessoa interessada,
homem ou mulher, para os responsos e certos rituais secretos,
já colocados por suspeitos.
Amador Cobra descreve numa clara insinuação de
práticas aberrativas e homossexuais do profeta, que “Não
demorou muito tempo descobrir-se abertamente a impostura que
se encerrava no processo de se tornar invulnerável o
corpo às armas e às doenças (...). Aquela
extranha creatura, quando submettia o paciente à demonstração
de que a navalha não cortava, fazia-o publicamente.
Porém não procedia à outra prova, rodeava-se
de cautelas e precauções e fechava-se com aquelle,
em praticas mysteriosas; estas concluídas, retirava-se
do compartimento reservado, onde passava o dia, quase todo,
reclinado em tarima; elle não descansava desse trabalho,
dessa espécie de vaccinação geral contra
todas as moléstias conhecidas, que afligiam a humanidade,
e as que ainda podessem apparecer: noite e dia applicava seu
systema” (9).
Mas foi certamente por alguma mulher, filha ou prometida [namorada,
quem sabe noiva] de algum figurão deixar-se encantar
pelo ungido, ou algumas daquelas casadas, o fato é que
os principais dos indignados do sertão se insurgiram
contra o profeta, liderados por um advogado igualmente carismático,
o qual segundo Amador Cobra: “Achava-se alli [em Campos
Novos] advogando um bacharel intelligente, ainda moço
[Dr. Affonso Gonçalves Fraga] e de acção,
que instigou os habitantes a tomarem armas e enxotarem o falso
propheta com os seus para fora do sertão. Secundou-o
o chefe político no plano de combate. Reuniu-se um grupo
de homens decididos que se apresentaram para a lucta” (10).
O Governo do Estado alertado do que se passava na região
de Campos Novos, urgente encaminhou vinte soldados sob comando
de um tenente (11), para a captura ou morte de Frei Manoel
e, assim, dispersar os fanáticos. Manoel percebeu que
o perigo lhe rondava e assim, cercado dos seus mais próximos,
retirou-se de Campos Novos numa fuga improvisada para São
Pedro do Turvo, onde o aguardava outro seu inimigo, “soldados
da Polícia” segundo Giovannetti (12), ou foi “alcançado
pelos civis que no seu encalço partiram” conforme
Amador Nogueira Cobra (13), de qualquer forma o ungido surpreendido
pelos inimigos, sem tempo de reagir nem se embrenhar mata adentro,
morto por um tiro certeiro de carabina [Giovannetti] senão
vários tiros [Amador Cobra].
José Ricardo Rios nos dá entender que Frei Manoel
foi morto por civis, pois a Escolta de Capturas da Força
Pública do Estado, com a missão de capturar o
líder místico, ficou estacionada em Santa Cruz
do Rio Pardo, sem seguir rumo no dia seguinte porque soubera-no
já morto (14).
Neste destino
final do profeta ocorre divergência irreconciliável entre os pesquisadores
José Ricardo Rios e Bruno Giovannetti, a respeito de quando foi morto
Frei Manoel. Diz José Ricardo que na noite de dez de junho de 1892 soldados
da Força Pública de São Paulo estavam em Santa Cruz do
Rio Pardo, de onde partiriam na manhã seguinte para São Pedro
do Turvo, com a missão de capturar referido frei. Na mesma noite de
dez de junho, o jovem Antonio Evangelista da Silva – futuro Coronel Tonico
Lista, desaviu-se com dois soldados daquele batalhão e os matou na zona
do baixo meretrício. A morte dos dois soldados, a busca do assassino,
corre-corres, acertos e fuga, o batalhão não seguiu rumo a São
Pedro, no dia seguinte, também porque souberam já morto Frei
Manoel (15).
Bruno Giovannetti,
por seu turno, informa que a morte do místico, igualmente no ano de
1892, ocorrera quando “Era o mez de Setembro (...). O governo do Estado
avisado do que se passava em Campos Novos, mandou soldados da Polícia
para debandar os fanáticos e punir o autor de tamanha desorganização
social. O encontro deu-se em São Pedro. Os soldados esperavam provavelmente
encontrar resistência, porque o bando de aldeães estava armado.
Frei Manoel nem sequer pensou em reagir. O Deus Homem, tombou ao chão,
matado por bala de carabina” (16).
Amador Nogueira
Cobra comenta que “Em S. Pedro, para onde se dirigiu antes de vir a força
do governo (...). “Prevendo o desfecho de sua vida de aventuras, fugiu
de S. Pedro para o matto, do lado do Ribeirão Bonito, e alli foi alcançado
pelos civis que no seu encalço partiram. Recebendo vários tiros,
cahiu morto e junto delle o seu mais dedicado servidor” (17). O ilustre
autor, que advogava em Campos Novos desde 1909, portanto bastante próximo
aos fatos, não diz a data dos acontecimentos e nem mês, apenas
referência ao ano, 1892, além da versão que Frei Manoel
fora morto por populares instigados contra ele.
Cientes dos acontecimentos
em Santa Cruz do Rio Pardo, incontestáveis,
Frei Manoel foi mesmo morto em junho de 1892, possivelmente no
dia 11.
9. JOSÉ SOARES
MONTEIRO [VULGO VALDOMIRO BANDEIRA JUNQUEIRA] – UM
MATADOR DE HOMENS
9.1 PREÂMBULO FAMILIAR
Em 1890/92 chegou à região do Vale Paranapanema
a numerosa família dos Soares (1),
parte fixando-se junto a Água do Cervo e outra às
margens do rio Capivara, a exemplo dos Soares Monteiro, entre
os quais o menino José Soares Monteiro, nascido em Poços
de Caldas – Minas Gerais, em 1880, filho de Antonio Soares
Monteiro e dona Carolina Teixeira de Jesus.
José Soares era, portanto, irmão de Evaristo
Soares Monteiro, o fundador de Sapezal (2),
na região atual de Paraguaçu Paulista.
A família tinha boa reputação e os seus
membros conhecidos como exímios cavaleiros, igualmente
destemidos e de pouca tolerância, por exemplo, Evaristo
quando bebia se tornava inconveniente e uma das suas incivilidades
quase se transformou em tragédia, numa quermesse na
cidade de Assis, durante o leilão, em que ele ao fazer
determinado lance não ouviu alguém cobrir sua
oferta e levar a prenda.
Evaristo não se conformou nem quis explicações,
dando origem a grave tumulto muitos se voltando contra ele.
Ligeiro e bom de briga não se deixou apanhar, até chegar
junto de sua montaria e, sobre ela retornar ao salão,
de chibata na mão, recepcionado por tiros, num corre-corre
e gritaria geral, enquanto o cavaleiro “chamou nas
esporas o valente matungo, balanceava-o nas rédeas para
a esquerda, para a direita e o cavalo de saltos e priscos para
todos os lados, como se estivesse num verdadeiro campo de batalha
e o tiroteio foi cerrado de tal forma que o povo enraivecido
sequer via mais nada; era atirar para matar, era alinhavar
Evaristo” que, ao se ver perdido, sacou seu revólver
e abriu caminho a balas, dois homens estatelados ao chão,
num “tiroteio como nunca houvera em todos os tempos na
história de Assis (...) mas o danado safou-se” (3).
Assim era Evaristo Soares, caboclo admirado e respeitado,
apesar dos seus arroubos que o irmão José Soares,
dezessete anos mais novo, parecia tanto admirar. Inclui-se
em relatos de família que José Soares foi em
verdade criado por seu irmão, no Sertão Paranapanema,
tanto que muitos – até parentes descendentes o
têm realmente por filho de Evaristo (4).
9.2 JOSÉ SOARES MONTEIRO – DOS
PRIMEIROS CRIMES
José Soares era jovem de vinte dois anos, se tanto,
quando encarregado para acerto de contas – uma dívida,
com um alemão em São José das Laranjeiras,
para os lados de Nossa Senhora do Patrocínio, ou Patrocínio
de Pitangueiras, atual Maracaí no estado de São
Paulo.
A pessoa procurada estava na lavoura, com outros companheiros,
quando Soares chegou apeado da montaria, roça adentro
para fazer a cobrança, a causar certo constrangimento
ao grupo que não entendia bem o português, nem
os costumes caboclos. Um jovem alemão e companheiros
armados com instrumentos cortantes, repeliram o cobrador que
se afastou prudentemente, até próximo de sua
montaria, para então sacar duma arma de fogo e ferir
mortalmente o líder dos agressores, fazendo parar os
outros, o que lhe permitiu a fuga.
Soares procurou pelo cunhado João Lourenço Nogueira,
esperando se por a salvo, mas foi denunciado pelo aparentado
e preso, até o julgamento, quando liberto por se tratar
de legítima defesa. Sabe-se deste crime, mas não
se conseguiu até o momento algum indicativo de possível
prisão e julgamento, senão pelos relatos de família.
José Soares Monteiro, após isto, enveredou-se
para a senda do crime, sob o nome de Valdomiro Bandeira Junqueira,
preso três vezes por homicídio (5) e
denúncias outras inclusive por agressões.
Não se sabendo ao certo quando sua primeira prisão,
todavia em 1917 esteve ele recluso na Cadeia Pública
de Campos Novos de Paranapanema pelo assassinato de Laurindo
Thomaz de Moura, em 3 de dezembro de 1916, por motivo alegado
de honra.
Segundo declarações em Auto de Qualificação
e Declarações, perante o Delegado de Polícia
Doutor Carlos Gomes de Freitas, Soares afirmou que durante
sua ausência, “trabalhando no Rio do Peixe”,
Laurindo teria perseguido sua mulher e chegado agarrar sua
filha Sebastiana, de quatorze anos, prosseguindo neste intento
por outras vezes. De volta ao lar Soares, ciente dos
fatos, “procurou tirar satisfações de Laurindo
e o mesmo ainda o insultou dizendo que elle Laurindo não
se casaria [com Sebastiana] porque quando precisava de mulher
esta acostumado a procural-as em casa dos outros”. Foi
absolvido pelo Tribunal do Júri em 1º de setembro
de 1922 – Processo 5/1922, Alvará de Soltura às
páginas 217 verso e 218.
Quando preso em Campos Novos do Paranapanema, informa-nos
o Inquérito Policial 17, de 26 de setembro de 1917,
que José Soares evadiu-se da prisão e correu
pelas ruas da cidade, perseguido por policiais, recebendo à distância
um tiro de carabina no braço, antes de entrar numa residência
para pôr-se a salvo. Deu azar e o caso entrou para o
anedotário policial, pois a residência escolhida
ao acaso, ou por estar aberta, era do Juiz de Direito e que
parecia uma fortaleza de tantos homens armados para proteção
do magistrado, numa das épocas mais turbulentas de Campos
Novos do Paranapanema. Soares não sabia, “sendo
de novo preso pelos soldados que o alcançaram em casa
do Doutor Juiz de Direito (...)”.
Nos anos de 1928/29 Soares cumpria pena de doze anos, na cidade
de Assis, em sua terceira prisão por assassinato. Contra
sua vontade foi obrigado integrar o bando de presos forçados
ao trabalho para construção do Palácio
Episcopal, a ocorrer daí um incidente quando seu cunhado,
João Lourenço, resolveu doar laranjas aos presos
trabalhadores, numa intenção bastante clara de
provocar Soares.
O próprio Lourenço foi autorizado de levar as
frutas a cada detento, amistosamente conversando com eles,
até que chegou a vez do cunhado e daí o imprevisto:
Soares tomou as laranjas para lançá-las contra
o ofertante, e depois socos e pontapés acompanhados
de xingações, Lourenço ao chão
e Soares já apanhava um paralelepípedo para esmagar
a cabeça do rival, quando os guardas, atônitos
ainda, conseguiram dominar o preso agressor (6).
9.3 DE OUTROS FEITOS DE JOSÉ SOARES
MONTEIRO
São tantas as histórias a respeito de José Soares
ouvidas ainda no primeiro qüinqüênio do século
XXI, algumas já misturadas a outras que se acrescentam,
no entanto a atestar a vida daquele que mesmo a serviço
do crime, e a quase meio século de sua morte, ainda
fazia suscitar opiniões entre o certo, o errado e o
abominável, além das questões do livre
arbítrio e das opções de escolhas do indivíduo,
quanto ao destino inexorável de um homem em que cedo
aprendeu matar seu semelhante, sob encomenda ou em defesa da
honra.
Conta-se que Soares à procura de Antonio Bernardino
para matá-lo, perguntou a um grupo de pessoas onde encontra-lo
e, informado, algum curioso quis saber o que desejava com o
procurado, com a resposta pronta “Vocês querem
ver caboclo fazer careta para morrer, venham comigo assistir,
pois vou matá-lo agorinha (...) – É claro
que ninguém o acompanhou; apenas em poucos instantes
ouviram a detonação da arma e o pobre caiu no
local, sobre a enxada que usava no trabalho de capinação
de sua lavoura, sem tempo sequer de saber porque morrera”. Leoni
informa que este episódio faz parte de processo arquivado
no Fórum de Assis (7).
A maioria dos crimes de José Soares Monteiro, ou Valdomiro
Bandeira Junqueira, ficou impune, pois eram crimes de empreitada
a favor de mandatários regionais ou locais, por exemplo,
para o Coronel Antonio Evangelista de Souza, de Santa Cruz
do Rio Pardo, em algumas ocasiões. Chamavam-no Justiceiro
e a ele são atribuídos muitos assassinatos à traição,
frente a frente e crimes misteriosos cuja autoria jamais pode
ser confirmada, mesmo todos cientes que eram feitos de Valdomiro
Bandeira.
Comentava-se reservadamente, em família e conhecidos
mais próximos, que Soares teria assassinado, em 1911,
o Coronel Marciano José Ferreira (8),
a mando de um chefe político regional – o Coronel
Francisco Sanches de Figueiredo, pois Marciano “Por questões
políticas tornára-se inimigo do chefe de Campos
Novos, depois de ter sido, por alguns annos, companheiro deste
e também chefe” (9).
- · Em
causa desta querela Capitão Sanches sempre foi tido
mandante do assassinato de Marciano, crime jamais esclarecido
pelas autoridades e do qual ninguém soube ainda
explicar, vez que o corpo nunca apareceu apesar de procurado
por homens do Governo Federal, Polícia do Estado e
os mais afamados conhecedores do sertão.
Igualmente se comentava de certo homem que, após assassinar
parente de um fazendeiro na região, fugiu para Minas
Gerais com vagas informações onde poderia estar.
Soares com a foto ou descrições de sua vítima
foi ao encalço e, quando próximo ao destino encontrou
uns peões de estrada, sob a sombra de uma árvore,
preparando-se para a refeição do dia. Conversaram,
se informaram, comeram e beberam juntos até que os homens
ensaiaram as despedidas e Soares lhes disse menos um deles,
a apontar quem e citar o nome daquele que ele deveria matar,
e assim o fez.
A vitima foi morta, a orelha cortada para entrega ao mandante
do crime, um costume da época que garantia a execução
do serviço.
Soares não tinha artelhos num dos pés, aparentemente
cortado e cauterizado a fogo. Disto contam que Soares e dois
amigos fizeram uma aposta, ficando ele dentro de um círculo
e se movimentar, mas não sair, enquanto os dois a determinada
distância lhe atirariam sabugos [de milho] postos em
dois balaios cheios. Caso o acertasse uma única vez,
Soares cortaria os pododáctilos de um dos pés, à exceção
do maior para evitar sangria; se duas vezes o atingissem, os
do outro pé, à mesma maneira, seriam amputados.
Machado posto ao fogo, um toco ao lado, começou a disputa.
Num certo momento Soares foi acertado – comentam que
de raspão, mas o suficiente para ele, num gesto rápido,
tomar o machado e cortar os dedos antes de intentar retorno
para o círculo; nem precisou voltar, pois os amigos,
apavorados, imploraram para acabar a brincadeira. Todos que
conheceram José Soares sabiam fácil por onde
ele andava, sempre pela marca impressa no chão, com
a falta dos dedos, pois que nunca mais usou calçado,
para alguns, outra das clausulas daquela aposta absurda (10).
Joaquim Raimundo [Moreira] da Silva era amigo de Soares, quase
parente – porque a mulher de Moreira era sobrinha de
Evaristo Soares e cunhada de uma das sobrinhas do matador.
Certa ocasião desapareceu uma mula de Moreira, que
estaria na fazenda de Capitão Viriato, na época
o homem mais poderoso e temido da região de Conceição
de Monte Alegre e Sapezal, como representante do temível
Coronel Sanches, com isso melhor esquecer a mula que procura-la
por aquelas bandas, embora Moreira e Viriato fossem parentes
por afinidades. Soares então soube das dificuldades
de Moreira e se propôs recuperar o animal.
Alguns capangas de Viriato teriam encontrado Soares já dentro
da propriedade e quando intentaram detê-lo, um tiro derrubou
a montaria de um deles e o atirador gritou aos demais que fossem
logo avisar o Capitão que ele, Valdomiro Bandeira Junqueira,
ali estava em busca de uma mula desaparecida.
A sede era longe, Soares passo a passo em sua montaria, cauteloso
de tocaias e fazendo desvios e voltas para chegar, bem depois,
quando diversos muares já estavam presos numa mangueira.
Não sabendo qual a mula de Moreira, diante de outras
assemelhadas, aceitou a sugestão do Capitão em
levar todas, ver qual era a procurada e escolher outras que
pudessem servir Soares, e que devolvesse aquelas que não
lhe interessasse (11).
Existem outros feitos de Soares que conta-los todos se tornam
enfadonhos, porém destaca-se o seguinte relato para
melhor entender o temor que ele causava em poderosos, por exemplo,
de certo fazendeiro em Sapezal, André Wirgues, adquirente
de propriedades diversas dentre as quais as terras pertencentes
aos herdeiros de Evaristo Soares, quando José encontrava-se
preso. Cumprida a pena quis ele rever sua pretensa parte, algum
quinhão outrora prometido pelo irmão falecido,
com isso a ignorar qualquer acordo familiar ou de possível
procuração transmitida, vindo cercar aproximadamente
sessenta alqueires de terras, que dizia suas, dentro da fazenda
de Wirgues.
Apenas quando morto José Soares, quase três décadas
depois,, o fazendeiro pode enfim retomar a área que
efetivamente lhe pertencia por direito de compra (12).
Ainda, este tópico se tornaria incompleto sem mencionar
um caso em família, com observações a
certas regras que então regiam o sertão. Uma
viúva, com filhos e filhas, casara-se em segundas núpcias,
e tudo parecia bem até que o novo consorte estuprou
uma das filhas da pobre mulher. O fato gerou todo aquele drama
em família, optante por não levar o caso às
autoridades até porque o agressor se mostrava violento
e podia causar algum dano maior.
Soares soube ou foi avisado do ocorrido, logo a circular que
ele chegaria ao local para resolver o problema. O agressor,
alegando viagem inadiável pelos lados de Minas Gerais,
partiu antes da vinda do justiceiro.
A reunião familiar com aquela mãe, um dos filhos
e outros parentes, sem dúvidas era para se tratar da
morte do estuprador, serviço que Soares faria gratuitamente
pela honra, bastando que lhe dessem uma arma e munição,
e não podia ser diferente porque naquele ato, segundo
regras da época, ele representava a vingança
em nome da família [direta] da infeliz jovem.
A família, pacata e religiosa, decidiu-se que não
haveria justiça com as próprias mãos,
até porque o agressor evadira-se, talvez para nunca
mais retornar.
Meses depois chegou notícias no povoado que o estuprador
foi morto no estado do Mato Grosso, numa tocaia, sua
genitália extirpada e, dizem, empalado, não se
sabendo o caso a mando familiar ou não, ou que Soares
por si tenha praticado a ação, um assassinato
que ele jamais admitiu ser o executor, embora em família
todos suspeitassem dele.
Soares sabia ler, escrever, tinha boa caligrafia e conhecimentos
de Direito Penal e Civil, conforme se pode observar em seus
depoimentos e qualificações nos autos processuais (13).
Foi casado com Prudenciana Ignês de Jesus, filha de Francisco
Lourenço Nogueira – membro de uma das comitivas
de José Theodoro de Souza, e com ela gerou filhos e
filhas., vindo ele a falecer no final dos anos de 1950, enquanto
ela viveu até 1980, quase centenária.
10. DE JOSÉ ORTIZ
DE OLIVEIRA E DESCENDENTES
De José Ortiz de Oliveira e Venância Maria de
Jesus nasceu Salvador Ortiz do Oliveira, em 1837, na localidade
de Pouso Alegre [MG].
Salvador Ortiz de Oliveira casou-se com Maria Luiza de Jesus,
e dentre os filhos gerados, Ana Ortiz teve por marido Antonio
Porfírio de Salles, e desta união lhes nasceu,
entre outros, Osória Ortiz de Salles, em 1901, na zona
rural de Conceição de Monte Alegre. Osória
também era conhecida por Osória Geminiana de
Salles, porque era gêmea de Osório..
- Salvador Ortiz faleceu em sua propriedade aos 21 de maio
de 1918, conforme certidão lavrada em Conceição
de Monte Alegre [22/05/1918].
Osória foi dada em casamento a Joaquim Raimundo da
Silva, cujo nome às vezes surge como Joaquim Moreira
da Silva, nascido em 1889, na localidade de Agudos [SP], filho
de Manoel Caetano e Dona Francisca.
Dos
filhos de Osória e Joaquim, um foi chamado Onice Prado, aos 20 de maio
de 1929, morto em 25 de Abril de 2002.
Onice
teve por mulher Maria de Lourdes Freiria, nascida em abril de 1932 de Salvador
Henrique Freiria e Maria Severina de Jesus. Da união Onice e Maria de
Lourdes [Prado], nasceram-lhes Celso, Juarez, Onice, Marisa e Paulo.
Celso
[Prado] teve um primeiro casamento com Maria Felícia Rodrigues Castilho,
deles nascendo Arthur Celso Castilho Prado aos 28 de dezembro de 1973, e Gisele
de Castilho Prado em 01 de março de 1975. Do segundo casamento, com
Junko Sato, nasceram Mitchell Yutaka Sato Prado aos 24 de fevereiro de 1979,
e Lorana Harumi Sato Prado em 23 de setembro de 1983.
Além de descender diretamente do desbravador Salvador Ortiz
de Oliveira, a família do autor tem ligação histórica
e de parentesco com o fundador de Sapezal, Evaristo Soares Monteiro, casado
com Virginia Maria de Jesus, filha do desbravador Ortiz de Oliveira. Virginia
era, portanto, tia de Osória Geminiana Ortiz de Salles.
Dos filhos de Evaristo e Virginia, Augusta se casou com o seu
primo João Ortiz de Salles, irmão de Osória.
O
autor busca pela genealogia da família de sua progenitora,
e acréscimos àquela existente.
- F I M -