PARTE II – OS EXTERMINADORES
DO PASSADO
ESCRAVIDÃO NEGRA
NO SERTÃO PARANAPANEMA
Nunca bem esclarecidas, tanto a escravidão negra quanto
a indígena foram realidade no sertão
do Paranapanema, de 1851 a 1890, mesmo quando já declarada
a abolição no Brasil.
Quase todos os autores regionais evitam o assunto escravidão,
como se ela não houvesse existido. Até quando
citações são inevitáveis, são
todas revestidas de branduras, os desbravadores eram bons,
piedosos e protetores, jamais escravistas.
Quando impossível omitir a matança do índio,
alguma crueldade contra escravos ou a violência dos mandatários
contra a própria população branca, dizem
que tais medidas eram necessidades numa época que todos
esperavam atos mais severos daqueles que eram líderes,
para s segurança coletiva e defesa territorial da comunidade.
- Entende-se tal posicionamento dos regionalistas, porque
ainda são muitos os descendentes dos pioneiros, quase
sempre famílias tradicionais, impolutas, enfim gentes
que desfrutam prestígios e, de certa forma, os poderes
político e econômico.
A escravidão negra, ao lado da indígena, foi
realidade no Vale Paranapanema, tanta que alguns enfoques merecem
destaques, na tentativa de elucidar fatos ainda obscuros, e
por ter sido pelo trabalho escravo, a força e a inteligência
com fatores essenciais a uma sociedade em formação,
contextos quais obviamente não se pode excluir o branco.
Os primeiros informes de escravos negros na região são
dados superficialmente pelos historiadores regionais, como
meros integrantes das comitivas pioneiras na região
do Vale Paranapanema, especialmente Santa Cruz do Rio Pardo,
São Pedro do Turvo, Campos Novos e Conceição
de Monte Alegre. Também em Santa Bárbara do Rio
Pardo, Cerqueira César, Avaré e Lençóis
[Paulista] entre demais localidades desbravadas por José Theodoro,
as primeiras famílias vieram sempre acompanhadas de
seus escravos.
Curiosamente um dos maiores escravistas no Vale Paranapanema foi Antonio
Joaquim Melchior de Camargo (1), negro ex-escravo alforriado, que chegou à região
de Conceição de Monte Alegre e Capivara [atuais localidades de
Paraguaçu Paulista], na mesma época que as famílias Alvim,
Vieira, Nantes, Vencio, Medeiros, Costa, Ferreira e Figueiredo, também
todas escravagistas.
- Parece que nenhum autor regional, à exceção
de Leoni Ferreira, cita o fazendeiro Melchior como negro,
ex-escravo alforriado, possuidor de muitos escravos, homem
bastante rico e que foi doador de terras para o patrimônio
de Nossa Senhora do Patrocínio, atual Maracaí (2)
e outros povoados adjacentes.
José Theodoro
de Souza possuía pelo menos cinco escravos negros (3)
e deles se fez acompanhar em suas entradas no Vale Paranapanema
e estabelecimento em São Pedro do Turvo.
Botucatu
foi mercado nacional ou entreposto de escravos, de grande importância,
cujas peças para comercialização vinha de Minas Gerais,
Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Norte. Em 1865 era possível encontrar
negros norte-americanos – Estados Unidos da América do Norte,
acompanhantes de seus proprietários sulistas (4) que buscaram asilo
no Brasil.
Um escravo negro geralmente era caro, preços variáveis.
Transcreve Donato transações de compra e venda
entre dois senhores de escravos, “João por dois
contos de réis, Joana por um conto e 200, Elizário
por quatrocentos, Maria por 700”. (...). “A crioula
Carolina, cor fula, de oito para dez anos de idade, que ouve
por arrematação que fez em hasta pública
nesta Vila”, ao preço de 500 mil
réis (5). Negros se compravam e vendiam em mercados
em transações livres, ajustes particulares e
leilões públicos.
- A título de comparação quanto valia
um escravo negro em proporção a algum bem,
na época, por 500 mil réis, “comprava-se
propriedades de mais de 5 mil alqueires de área”,
quando um conto de réis valia um milhar de mil-réis,
esclarece-nos José Jorge Junior (6).
O escravo negro era de alto valor no mercado escravagista
paulista, poucos podiam tê-los e, ainda assim, entre
os anos de 1873 (7) e 1878 (8), correspondia a 12,80% de toda
a população, fenômeno demográfico
significativo, mas com índice percentual bem abaixo
em relação ao Nordeste.
Em 1870
o Brasil tinha 3 milhões de escravos para uma população
de 10 milhões de habitantes (9), em maior número no Nordeste.
As numerações
aos negros, constantes dos registros em Botucatu e Santa Cruz do Pardo, revelaram
aumento da população negra, entre os anos de 1873 a 1880, em
conseqüência à chegada de famílias brancas abastadas
na região: “A população escrava aumentava. Não
sabemos o quanto montou o número de escravos, mas os registros revelam
a sua progressão” (10), quando então cessaram os registros
de entradas de escravos no Vale Paranapanema e, mais que isso, os fazendeiros
declaram, em Cartório, gradativamente, livres os seus negros cativos,
a partir de 1881.
Ainda se discute por qual motivo cessaram as entradas de escravos
em território paulista; talvez por ausência de
interessados, os fazendeiros temiam compra-los por altos preços
e, de repente, ver triunfar o movimento abolicionista com prejuízo
certo. a qualquer momento.
No ano de
1881, na região do Vale Paranapanema, acontece o fenômeno de se
declarar livre os escravos negros, através de “Contratos de Trabalho
em Troca de Liberdade” – subtítulo utilizado por Donato,
que menciona e transcreve contratos daquela natureza a bem expressar realidade
dos senhores de escravos que, em documento, anteciparam abolição
da escravatura, embora, na prática retardaram-na (11).
Cientes
prováveis que a abolição da escravatura não tardaria,
os fazendeiros concediam liberdade a seus escravos, devidamente lavrada em
Cartório, mediante comprometimento de o liberto prestar serviços
gratuitos ao ex-dono, durante determinado tempo, a título de reparação,
isto a se tratar de evidente estratagema, conforme Leoni, posto escrituras
lavradas “com datas atrasadas, com poucos dias de antecedência
ao decreto, diferenciando algumas de prazo maior, outras de menor prazo, mas
se vê que tudo era a mesma coisa” (12).
Na Comarca
de Campos Novos Paulista, muitos fazendeiros concederam liberdade a seus escravos
antes da Lei Áurea, como se num gesto humanitário sem prejuízos,
porém comprometendo-se o liberto, dali para frente, trabalhar gratuitamente
para o ex-senhor durante determinado período, fosse a título
de indenização ou alforria, sendo muitos documentos sem datas
e assinaturas, ou nem preenchidos, para uso posterior em caso de necessidade.
O mesmo
Leoni descreve-nos uma escritura pública – lavrada e registrada
em Campos Novos Paulista aos
06 de abril de 1888, em que o fazendeiro João Marques da Silva concede
liberdade à escrava
Vitória, matriculada na Coletoria de Santa Cruz do Rio Pardo, sob condição dela
prestar-lhe serviço gratuito pelo prazo de um ano (13), documento qual
Leoni faz juntar fac-símile de em sua obra (14). Para a escrava Vitória,
livre por documento oficial em 6 de abril
de 1888, a escravatura terminou, na realidade, em 1889.
Piraju, ainda São Sebastião do Tijuco Preto,
por Lei Municipal de 15 de janeiro de 1888 declarou libertos
todos os escravos dentro de sua jurisdição (15),
mediante compensação indenizatória aos
ex-senhores, na forma de prestação de serviço
gratuito. Já passada a abolição alguns
negros ainda pagavam o preço da sua libertação
negociada.
Donato
transcreve alguns documentos em que os ex-senhores concederam liberdade aos
escravos “mediante contratos de trabalho: carta de alforria em troca
de compromisso que mantinha o liberto jungido aos mesmos compromissos de quando
escravo. Por um tempo além daquele certamente previsto para a abolição“ (16).
Certos
contratos consideravam o escravo ter recebido antes determinado valor pela
sua liberdade, ou seja, o período que o patrão lhe cuidou, seu
preço de compra, os gastos com alimentações, vestuários,
medicações e prejuízos causados, morte provocada ou não
de algum animal, dias parados por quaisquer motivos, quebras de equipamentos
ou maquinários, entre outras ocorrências, por isso o serviço
gratuito em retribuição.
Quando do
vencimento do prazo contratual, se anterior a Lei Áurea, renovava-se
o período sob qualquer pretexto ou exigência patronal.
A
certo Prudêncio, liberto em 02 de julho de 1887, sob
condição de prestar serviços ao
seu ex-senhor por três anos, seu livramento, diz Donato, “chegaria
em 1890” (17).
Apesar das peculiaridades locais, não se pode pretender
que o regime de escravidão negra no Vale Paranapanema
tenha sido diferente das demais regiões, pelo menos,
na província de São Paulo. Assim, pode-se asseverar
que os negros escravos do Vale Paranapanema também foram
protagonistas de diversas rebeliões, fugas e mesmo formações
de quilombos, de onde partiram suas resistências contra
a escravidão, fossem através de assassinatos
de preadores e colaboracionistas, fossem através das
promoções de fugas (18).
Onde atual município de Paraguaçu Paulista existiu
o Quilombo Patrimônio das Antas, fundado por escravos
antes da Lei Áurea. Diziam os antigos que o Patrimônio
das Antas já existia quando da chegada dos primeiros
desbravadores, com os quais tiveram uma convivência mais
ou menos pacífica, desde que por lá não
se abrigassem negros fugidos dos fazendeiros locais.
Referido Patrimônio foi praticamente extinguido nos primeiros
anos do século XX, por tuberculose, daí alguns
sobreviventes não contaminados fundarem uma espécie
de Comunidade Negra em terras adquiridas no local ainda hoje
conhecido por Salto Seródio – no rio Sapé nas
proximidades de Conceição de Monte Alegre.
João Chrysostomo Giannasi (19) confirma o Patrimônio
das Antas “(...) fundado antes da Lei Áurea por
ex-escravos alforriados e, após essa lei, tinha crescido
consideravelmente, com adesão de muitas famílias
de libertos”. Igualmente se refere a tal Comunidade Negra
e descreve fatos pitorescos dos dois refúgios (20).
Hércule Florence menciona um Quilombo às margens
do rio Paranapanema, umas léguas acima da sua desembocadura
no Paraná, numa citação muito semelhante
a outro Quilombo nas proximidades do rio Tietê, também
dentro da nossa área de estudo (21).
“No dia 14, passamos pela embocadura do rio Quilombo e, pouco abaixo,
pela ilha e cachoeira do mesmo nome. Ali se haviam antigamente refugiado
muitos negros, pois quilombo é palavra que designa o asilo onde eles
se reúnem nas matas. Foram descobertos por negociantes que voltavam
de Cuiabá e que, apenas chegados a Pôrto Feliz, armaram, por espírito
de ganância, uma expedição com a qual atacaram aqueles
infelizes, aprisionando mais de cento e vinte. Amontoados em canoas, voltaram
os mal-aventurados aos pontos em que sofriam o cativeiro. Foi-nos o fato contado
pelo guia. Em Pôrto Feliz haviam-me narrado outro tão semelhante
que se pudera crer ser o mesmo; mas esse quilombo estava junto ao Paranapanema
que corre para o N.O. pelo país dos Xavantes. Contarei essa história
no fim do diário. Talvez sejam com efeito dois sucessos diferentes um
do outro" (22).
Tiramos por conclusões que uns os negros, tão
logo liberados de seus compromissos, procuraram por Quilombos
ou Comunidades Negras onde o trabalho por conta própria;
outros permaneceram trabalhadores da terra – mão
de obra remunerada, à vezes no próprio local
onde foram escravos.
Para muitos estudiosos, no entanto, a maioria dos negros libertos
buscou centros maiores para se empregar, com isso a quebrar
um período da transição entre os negros
e a chegada dos imigrantes, a gerar consequentemente clima
de pessimismo e caos econômico no sertão, como
de resto em todo o Brasil.
- Desconhecendo as regras da liberdade e o preço exigido
para um homem ser livre, os negros que se fizeram urbanos
foram repelidos para as periferias, formando os primeiros
bolsões de miséria dos grandes centros, que
depois se tornariam cada vez mais distantes e pobres originando
as favelas.
Os
idealistas pensaram fácil a abolição da
escravatura, não contando que os negros não
sabiam outra vida de trabalho que não a servidão
imposta e forte, por isso quando livres todos
se tornaram indolentes e trabalhadores ineficientes, entregando-se
rápidos a uma vida dissoluta
e de fanfarrices, porque era assim que entendiam a vida livre
que seus antepassados não
tiveram e de repente lhes foi ofertada.
- Os negros não se sujeitariam mais trabalhar para
aqueles que tanto afligiram suas vidas, também porque
sabiam o caos econômico que causariam nos ex-patrões
agora obrigados a pagar serviços ou mear lucros.
Com a libertação dos negros e até a chegada
não uniforme dos imigrantes, toda carga de trabalho recaiu
sobre os índios, que já não eram mais tão
dóceis para o trabalho servil, certamente inspirados nos
negros e seus movimentos em pró a liberdade. Sabendo viver
nas florestas e amando a vida livre, os índios fugiam
de seus senhores, cada vez mais, sendo notícias tribos
inteiras abandonarem suas aldeias nas fazendas, para embrenharem-se
nas matas, numa volta aos antigos hábitos extrativistas,
vindos aos povoados apenas para as práticas de pequenos
furtos e atazanarem os brancos.
A IMPLANTAÇÃO CAPITALISTA E
OS CAMINHOS OFICIAIS PARA A INTEGRAÇÃO
“No oeste estavam as esperanças e as ameaças.
Para lá iam os homens, por sua vontade ou por decisão
de outrem. Portanto, para o oeste continuaram apontando os
caminhos” (1).
No ano de
1870 as grandes lavouras cafeeiras de São Paulo ainda não ultrapassavam
Botucatu, permanecendo concentrada no Vale Paraíba (2) onde a riqueza,
acumulada com sua produção, dinamizava o mercado consumidor e
estimulava o desenvolvimento industrial.
A Guerra do Paraguai, no entanto, impôs atenções
bélicas em detrimento ao avanço da estrada de
ferro, rumo ao Planalto Ocidental Paulista. O progresso não
chegou e as lavouras não progrediram nem avançaram
territórios, pela distância e dificuldades de
transportes para escoamento de suas produções.
Depois surgiram as conseqüências do pós-guerra,
o endividamento do Brasil com a Inglaterra – financiamento
da guerra, o elevado custo governo-igreja e o senado vitalício,
a emissão de moedas, a inflação, os problemas
militares e escravistas, como exemplos da ampla crise que envolveu
todos os segmentos sociais e setores econômicos da vida
nacional.
O Brasil buscou socorro internacional, com garantias suficientes
para o capital estrangeiro nele ampliar sua presença,
através de grandes investimentos junto ao governo e
aos grandes empreendedores nacionais, facilitando-lhes o crédito
e financiando o desenvolvimento industrial vinculado à economia
cafeeira.
Nisto se pode visualizar a nova ordem econômica mundial
ditar regras para o Brasil, ou seja, a implementação
capitalista de produção em atividades organizadas
nas grandes lavouras de café e outras culturas. Na Alemanha
[1873] surgiu o “primeiro consórcio internacional
para controlar o comércio do café”, seguido
após pelos norte-americanos [1880] para assim a “formação
de um truste de importação e de venda do café” (3).
Os acontecimentos contam a história, o café brasileiro
teve sobrevalorização repentina no exterior,
pois seus concorrentes diretos enfrentaram graves crises ao
mesmo tempo, Java [Indonésia] teve seus cafezais atacados
por pragas e foi obrigada a erradicação total
de suas plantações, o Haiti enfrentou grave crise
social com a revolução dos escravos e a seguir
a independência da ilha, deixando atrás de si
lavouras destruídas ou abandonadas, enquanto no Ceilão
[atual Sri Lanka] os solos esgotaram-se, sem nutrientes nem
húmus para vigorar a plantação. “Outros
fatores decisivos foram a estabilização do comércio
internacional, depois das guerras napoleônicas (Tratado
de Versalhes, 1815) e a expansão da demanda européia
e americana por uma bebida barata” (4).
O sucesso da exportação e a valorização
do produto tornaram mais vigorosa a expansão cafeeira
no Planalto Ocidental Paulista, onde as terras eram intocadas
e adequadas para o plantio e melhor produtividade, sobretudo
diante dos métodos mais racionais de se trabalhar o
solo..As vias férreas deixaram de ser projetos e avançaram,
criando povoados, trazendo o comércio e indústrias
que aumentaram e prosperaram na produção de bens.
Um
novo fenômeno, “as culturas do açúcar e do algodão
estavam em crise, batidas no mercado internacional pela produção
das Antilhas e dos EUA; por isso, os fazendeiros precisavam encontrar outro
produto de fácil colocação no mercado internacional. Nas
décadas de 1870 – 1880, o café passou a representar até 56%
do valor das exportações” (5) do Brasil.
Os
ingleses investiam nas estradas de rodagem, nos portos fluviais e nas ferrovias,
encurtando caminhos para melhor se adequar à produção
em grande escala para atendimento ao mercado consumidor. Exatamente o binômio
transporte / agricultora responsabilizaram-se pelo aumento e progresso de indústrias,
evolução dos povoados em cidades.
O
Brasil conseguiu, economicamente, superar a crise causada pela abolição
da escravatura [1888] com a substituição do trabalho escravo
pelo livre. A abolição representou para, os negros e mestiços
cativos, ato redentor de juridicidade governamental, mas não sua emancipação
civil, política e econômica, mantendo-os segregados sociais, dependentes
de subempregos, incapazes de algum movimento que os tornasse iguais ou competidores
com a mão de obra dos imigrantes europeus e asiáticos.
- Politicamente a abolição foi um desastre
para o governo, pois ao ceder às pressões internacionais
e aos ideais abolicionistas, "Vossa Alteza redimiu
uma raça, mas perdeu o seu trono" (6), vez que
os grandes prejudicados pela Lei Áurea foram os senhores
da elite escravagista, sustentáculos da monarquia,
cuja reação imediata foi o abandono ao regime,
dezoito meses depois substituído pela república.
O capital não deixou abalar a economia do Brasil, ao
contrário, os credores investiram em fazer crescer a
indústria brasileira atrelada ao café e à imigração
oficial de mão de obra assalariada, de produção
ou de pareceria. “No início do século [XX],
empresas estrangeiras instaladas no país, como a anglo-canadense
Light & Power e a norte-americana Bond and Share, ampliaram
os serviços urbanos de água, esgoto luz e transportes.
A indústria da carne é dominada pelos frigoríficos
Wilson, Armour, Swift e Anglo; os vagões ferroviários
são feitos pela fábrica norte-americana Pullman
(...) na siderurgia, os franceses e belgas tomam a dianteira
com a Companhia Belgo-Mineira (...)” (7).
Outras
culturas como o algodão, o açúcar
e mais a criação de gado, estavam entre as primeiras
atividades de produção organizada do país,
mas foi a cultura do café a grande mola propulsora do
progresso, objeto de pesados investimentos estrangeiros e modificações
ao meio de vida sertanejo.
1. VIA TERRESTRE
O Vale Paranapanema foi chão de passagem para expedições
entre o Atlântico e o Pacífico, portanto um fator
de integração entre povos tão distantes,
desde antes da chegada dos conquistadores europeus do século
XVI.
Não
bastasse essa grande Peabiru, já estudada, outras trilhas indígenas
cortavam aquele sertão, e igualmente serviram como meios terrestres
de comunicações entre os primeiros povoados, quase sempre construídos à beira
daqueles antigos caminhos de tal forma facilitar comunicações,
viagens e transportes.
Os primeiros
entradistas e bandeirantes que utilizavam trilhas indígenas, também
abriram seus próprios traçados na procura do ouro e metais preciosos,
embrenhando-se pelas matas, serras e grotões, longe daqueles caminhos
primários.
No século
XVII, surgiram as vias religiosas, dos padres jesuítas, em partes aproveitando
a Peabiru, em outras as trilhas indígenas além das próprias
veredas que encurtavam caminhos, evitavam perigos, despistavam inimigos [caçadores
de índios] e conduziam a outros destinos.
Depois vieram os tropeiros com suas picadas matas adentro como
rotas alternativas, para condução de bovinos,
eqüinos e muares, todas elas com seus pousos e currais,
alguns desses locais evoluídos para condições
de povoados, outros chegando a prósperas cidades, além
dos extintos que não resistiram o progresso.
- Os tropeiros, para o transporte de suas mercadorias, evitavam
as rotas oficiais fugindo das fiscalizações.
Com
as vindas de pioneiros, muitos instalados em grandes latifúndios,
houve a necessidade
de abertura de picadões internos para pontos distantes
de uma mesma propriedade. Com
a posterior divisão das terras, pelos herdeiros, por
vendas ou doações a patrimônios, muito
dos picadões tornaram-se estradas de integração
rural ou mesmo urbana.
Como
se pode observar, os caminhos eram abertos conforme as necessidades. Quase
todos eles tinham pousos ao seu curso, com distâncias variadas.
O
Morgado de Mateus, por exemplo, quando à frente do governo da Província
de São Paulo entendeu
a necessidade de caminhos militares, para rápidos deslocamentos de tropas
em caso de ataques dos inimigos castelhanos,
que perderam territórios para Portugal, subentendido Brasil.
Já descritos
os caminhos do Morgado que, a partir de Botucatu, levavam aos rios Tietê e
Paranapanema, este ultimo a passar pela atual Santa Cruz do
Rio Pardo, de onde saia a estrada pretendida rumo a
hoje Campos Novos Paulista, não indo além talvez de Santa Cruz, embora
o projeto determinasse as barrancas do rio Paraná.
Além dos caminhos militares, o Morgado pretendeu, ao
longo deles, povoar os sertões, planos frustrados, ao
menos pelos lados de Botucatu e adiante da serra, porque seu
sucessor Martim Lopes não lhes deu as prioridades devidas,
nem de manutenções, tanto que em 1847 quase nada
restava do caminho militar, senão seu indicativo em
documento salvaguardado em Arquivos da Província, recuperadas
cópias e utilizadas no século XIX para penetrações
rumo ao sertão.
A incursão
de Theodoro pelo sertão no ano de 1847, foi pelo leito e margem dos
rios, Pardo e Paranapanema; já a segunda entrada, em 1851, o pioneiro
fez por caminho terrestre, a restaurar o antigo trajeto do Morgado de Mateus,
passando pela atual Santa Cruz do Rio Pardo para se dirigir ao local onde hoje
São Pedro do Turvo.
Pelos caminhos de Botucatu a São Domingos, Theodoro
avançou pelo espigão entre o Pardo e Turvo, ou
seja, pelo antigo caminho religioso e militar do século
XVIII, a passar por Santa Cruz do Rio Pardo com destino a São
Pedro do Turvo, onde fixou residência, para somente depois
se dirigir a Campos Novos, por um caminho, não sabendo
se aquele trajeto determinado pelo Morgado de Mateus. Igualmente
por terra, o pioneiro percorreu trecho até Santo Grande,
para fazer uso do Paranapanema, mas também seguiu adiante
pelos campos, através de um picadão, com notória
desenvoltura para não saber por que caminho trilhava.
Pelas considerações
de Leoni Ferreira (8), a seguir, os primeiros entradistas partiram
de Campos Novos [entre 1864 – 1868], nas pegadas de Theodoro,
pelo caminho dos campos até transpor o rio Pari-Veado,
onde se levantou uma sentinela que logo se transformaria em
pouso e base de apoio aos sertanistas, carreiros e tropeiros.
O local foi chamado Saltinho antes de ser denominado Platina.
A estrada seguiu curso, a partir de Platina, com a nova onda
de mineiros [de 1870], em direção a um pouso
levantado às margens e cabeceiras do ribeirão
Jacu, onde partes da cidade agora Assis, para daí rumar
ao Cervinho, anos depois estação ferroviária,
hoje somente ruínas.
- Pioneiros e descendentes, assentados na região de
Paraguaçu Paulista, diziam que por lá chegaram
pela estrada centenária, um picadão
já existente sertão adentro, que eles apenas
recuperaram.
Do Cervinho se chegava ao Sopapo [Supapo], região adjacente
ao rio Capivara, onde, segundo a tradição, se
encontrou restos de antiga construção pau a pique,
taipa de sopapo ou de mão, antigo sistema de construção
cabocla, cujas divisões e formas atestavam presença
branca anterior.
A partir de Sopapo a senda prosseguia a Conceição
de Monte Alegre rumo ao São Mateus [onde se instalaram
as famílias Paiva e Alvim], e lá existia uma
trilha – depois retocada, que pouco adiante do Ribeirão
Rancharia se dividia em duas, a esquerda defronte a barra do
Tibagi no Paranapanema, a passar pelos campos do Jaguaretê [Fazenda
dos Nantes], enquanto a direita levava às cabeceiras
do Ribeirão Laranja Doce [futura propriedade dos Medeiros],
e prosseguir até a Serra do Diabo e Corredeira dos Frades.
(9).
Dos Medeiros adiante, um trilho espaçado por alguns
palmos de capim, em mata bruta, chegava às margens do
rio Paraná, defronte a desembocadura do Pardo. Este
caminho foi, depois, retocado e ampliado para passagem de carros
de boi, carroções e transporte de boiada.
Sobre este caminho, talvez um ou outro desvios para atender
interesses, calcou-se o leito da Estrada Boiadeira, que Leoni
assegura concluída e transitável para as finalidades
sertanejas, no final dos anos 1880, posto que uma parte da
família Nantes, ao se transferir para Mato Grosso, fez
uso daquela estrada em princípio de 1890 (10).
Pelo mesmo autor, o alargamento do caminho de Platina ao rio
Paraná, o executor foi o Coronel Sanches, com seus escravos
[negros e índios] e os escravos [também negros
e índios] e agregados de outros fazendeiros, conforme
as regiões de passagem, para uma união de todos
quando além do rio das Anhumas, um imenso vazio, até o
destino final (11).
- O picadão original é em maior extensão
o mesmo projetado e aberto pelo bandeirante Bartholomeu Paes
de Abreu em 1721/22, caminho sobre o qual Morgado de Mateus
da mesma forma intentou sua estrada militar meio século
depois [1771].
Em
1886 Teodoro Sampaio, sob contrato com o governo paulista e
financiado pelo capital estrangeiro, fez a mais completa e
detalhada descrição geográfica, até então,
de toda bacia Paranapanema até sua barra no rio Paraná,
para concluir o grande vazio entre os divisores Peixe – Paranapanema.
O governo entendeu a necessidade de abrir estradas e povoar
a imensa região, integrando-a aos centros mais desenvolvidos
(12).
Seguindo descrições de Bruno Giovannetti, vistas
em informes seqüentes, quatro anos depois, 1890, Francisco
Glycério, Chefe do Governo de São Paulo, nomeou
uma Comissão sob responsabilidade do engenheiro José Alves
de Lima, para promover levantamentos técnicos complementares
e viabilizar a construção de uma estrada, desde
as cercanias de Lençóis ao alto do rio Paraná.
Levantado o financiamento público a Comissão “chegou
a construir uma estrada até as cabeceiras do rio Feio” (13),
porém não pode cumprir o contrato, tanto pelo
elevado custo – a Construtora a qual repassado os serviços
pedia mais dinheiro, quanto pela forte oposição
Caingangue, não considerada no relatório preliminar
de José Alves de Lima.
O governo paulista insistiu, em 1892, no mesmo propósito
e, para isto, designou uma nova Comissão, sob a coordenação
do engenheiro Olavo Hummel, encarregada de elaborar o melhor
trajeto para uma estrada de Campos Novos rumo a barra do Santo
Anastácio.
Hummel, em janeiro de 1893, percorreu com atenções
a estrada Boiadeira, inclusive o tal caminho vindo das cabeceiras
do ribeirão Laranja Doce, a cruzar aquela estrada – à qual
já nos referimos, pelos campos do Jaguaretê, em
direção ao Aldeamento São Pedro de Alcântara
e ao Forte Militar levantados às margens do Tibagi – onde
está a localidade de Jataizinho.
- Tratava-se originalmente de trilha indígena usada,
pelos brancos desde 1855 para se chegar ao Aldeamento São
Pedro de Alcântara, em busca de índio para mão
de obra ou entrega dos ferozes capturados.
O governo aprovou o relatório de Hummel, autorizando
a construção de uma estrada de quatro metros
de largura e vinte quatro pontes a ser instaladas, tudo aos
encargos da contratada ou encarregada, ou seja, a própria
Comissão instituída, como contrapartida para
a exploração comercial. Segundo Giovannetti o
serviço teve louvável precisão técnica,
pois que “foram determinadas as coordenadas geográficas
da barra do rio Santo Anastácio e barra do rio Paranapanema”,
vindo alcançar o rio Paraná “a uma distância
certa de 260 metros abaixo da barra do rio Santo Anastácio” (14).
A despeito do dinheiro público tomado de empréstimo
para execução da obra, a estrada dada por concluída
jamais foi construída, senão partes reformadas
da Boiadeira e as pontes, talvez nem isso, apenas uma estrada
quase sem trânsito numa região ainda despovoada,
sem nenhum porto no rio Paraná que lhe permitisse avançar
Mato Grosso adentro (15). Um desperdício.
Em 1904 o Governo de São Paulo tinha em mãos
um relatório que dava conta da precariedade daquela
estrada oficial, em completo abandono, sendo por causa a ausência
de um porto no rio Paraná, para a ligação
São Paulo – Mato Grosso (16).
Seguindo
texto do Projeto Bandeira (17) e ao longo deste subtítulo, o governo
paulista optou reabrir a estrada, através da empresa Tibiriçá & Diederichesen
criada [juridicamente] para administrar o projeto, sendo sócio-proprietários
o fazendeiro Coronel Arthur de Aguiar Diederichesen e o médico Francisco
Tibiriçá. Ao sócio Tibiriçá competia
abrir e administrar a estrada do lado mato-grossense, cabendo
a Diederichesen o lado paulista.
Arthur de Aguiar Diederichesen, morador em São Paulo,
era dono de fazendas de gado e café na região
de Ribeirão Preto, sob os cuidados de seu auxiliar Capitão
Francisco de Aguiar Whitaker, mais conhecido por Capitão
Chiquita. Tibiriçá era médico estabelecido
na capital paulista, de rica e influente família, tanto
que o governador de São Paulo era o seu primo Jorge
Tibiriçá, o mesmo que o indicou para tal empreitada.
- Francisco Tibiriçá certamente sabia, pelo
primo governador, que a Estrada de Ferro não tardaria
chegar às margens do Paraná, para competir
com vantagens sobre a Boiadeira, por isso sua opção
pelo risco menor, ou seja, explorar a estrada de terra do
lado mato-grossense, até a região de Vacaria.
Tibiriçá iniciou sua parte de imediato, ainda
em 1904.
A empreitada, do lado paulista, teve início em 24 de
abril de 1906, a partir de Platina, sendo designado chefe de
serviço técnico o engenheiro Otto Meusser, à frente
de uma centena de trabalhadores. Essa primeira entrada consistia
fazer levantamentos das reais condições da estrada
a ser reconstruída.
Pelo diário de Otto é possível acompanhar
os trabalhos de sua equipe até a chegada ao rio Paraná no
dia 1.º de setembro, trabalhos preliminares concluídos
no dia 17 e retorno no dia 24 do mesmo mês de setembro
de 1906. Pouco depois Otto, alcoólatra segundo Giovannetti,
era encontrado morto numa das ruas de Campos Novos (18).
- Engenheiro ou agrimensor, não se sabe bem ao certo,
Otto era, antes de tudo, um intelectual formado na Alemanha
em Filosofia e Letras, que desde 1893 residia em Campos Novos
onde exercia funções de agrimensura, segundo
citações encontradas em Giovannetti. Otto era
amigo particular do médico Francisco Tibiriçá e
do então governador Jorge Tibiriçá.
Sua morte, aparentemente por afogamento numa poça
dágua onde caíra, jamais foi de todo esclarecida.
Capitão Whitaker [Chiquita] associou-se aos dois empresários,
e a firma passou a se chamar Companhia de Viação
São Paulo – Mato Grosso, sendo os serviços – parte
paulista, entregues ao Coronel Sanches de Figueiredo, como
empreiteiro, para ultimar a obra a partir de Platina, enquanto
Chiquita coordenaria os trabalhos no rio Paraná, próximo à barra
do Santo Anastácio, ou seja, escolher e dar infra-estrutura
ao melhor lugar para instalar o porto que seria denominado
Tibiriçá.
- A Companhia Viação São Paulo – Mato
Grosso, pela sua predecessora, obteve concessão do
Governo de São Paulo, para construir e explorar comercialmente
a estrada através dos postos de pedágio, pousos
e currais em lugares estratégicos, com poder de polícia
para se evitar desvios de rotas. Também conseguiu,
do Governo Federal, licença de exclusividade para
empreender navegação comercial no rio Paraná e
afluentes, inclusive pontos de travessias por balsas.
Escolhido o local do porto, o auxiliar Paulino Carlos Filho,
juntamente com o Capitão Chiquita, desceu pelo Tietê,
desde Ibitinga, com barcaças e lanchas trazendo equipamentos
necessários para instalações de balsas,
chegando ao destino final [Porto Tibiriçá] em
01 de janeiro de1907, por informações do próprio
Capitão, ou seja, trinta e um dia depois de iniciada
a viagem.
Em 17 de
setembro de 1907, tudo estava pronto para a Companhia de Viação
São Paulo - Mato Grosso iniciar sua rentável
exploração. Nas solenidades de inauguração foi
ela quem construiu aquela estrada boiadeira, inclusive do lado paulista,
conforme registra a história oficial.
A velha Boiadeira tornou-se, enfim, estrada oficial, a primeira
e mais bem equipada a cortar o sertão Paranapanema e
integrá-lo aos grandes centros. Por ela se podia ir
a Campos Novos Paulista, Santa Cruz do Rio Pardo, São
Manoel e até Botucatu e desta a Avaré, Itapetininga,
Piracicaba, Porto Feliz, Sorocaba, São Paulo e Santos
[porto marítimo] entre as principais localidades.
- De Santa Cruz do Rio Pardo se chegava a São Domingos,
Espírito Santo da Fortaleza, Bauru, Agudos e Lençóis,
para regiões além do Tietê, a exemplos
de Jaú, Araraquara, São Carlos, Franca, São
Simão, Casa Branca e até as Minas Gerais.
Ao longo dos caminhos sertanistas da estrada fundavam-se povoados,
as boiadas iam e vinham, já sem precisar a grande volta
pelo Triângulo Mineiro (19), enquanto o comércio
fluía com mais dinamismo como prova do progresso. Pessoas
circulavam pelas estradas, a cavalo ou a burro, e até as
famílias podiam se deslocar seguras, em carroças
e charretes bem mais ágeis e confortáveis que
os velhos carroções e carros de boi.
No entanto, apesar da magnitude progressista e reconhecida
da estrada de integração, necessária e
de grande utilidade pública, além de todo progresso
dela advindo, os contratos da Companhia com os governos estadual
e federal, sempre estiveram sob fortes suspeições,
inclusive a obtenção de verbas públicas
para sua execução final.
Outrossim, é certo que Concessionária São
Paulo - Mato Grosso negociou, diretamente com os fazendeiros
e mandatários das regiões, a exploração
de percursos por onde a estrada passava, a outorgar assim,
a uns os direitos percentuais nas cobranças de pedágios
e taxas, a outros o comércio de pousos, currais, armazéns
e entrepostos de compras e vendas em geral. Uma desavença
com a família Medeiros, Fazenda Água das Anhumas,
fez a Companhia desviar o trajeto, de São Mateus aos
campos de Marambaia, Rancharia e Indiana, para retomar o curso
primitivo restante nas vizinhanças onde depois a cidade
Regente Feijó.
Os pousos, currais, postos de controles [pedágios] e
armazéns foram distribuídos entre amigos da Companhia,
pelos seus três representantes, Capitão Whitaker,
Paulino Carlos Filho e Alonso Junqueira. Em Conceição
de Monte Alegre foi beneficiado o sertanejo Viriato Olympio
de Oliveira, não apenas por ser o auxiliar regional
do Capitão Whitaker e de Alonso Junqueira (20), mas,
sobretudo por seu vínculo até de subordinação
ao mandatário-mor de todo o oeste paulista a partir
de Campos Novos, Coronel Francisco Sanches de Figueiredo.
O fazendeiro Viriato recebeu patente de Capitão-Ajudante,
do 245o. Batalhão de Infantaria, segundo distinguido na
obra de Benedicto Benício (21).
2. VIA FÉRREA
Dos assuntos discorridos a seguir e informações
sobre o avanço da estrada de ferro, no Vale Paranapanema,
foram colhidos de Acervos da Revista Ferroviária (22),
da RFFSA [Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima]
(23), EFS [Estrada de Ferro Sorocabana] – de Lourenço
Sene Paz (24), e da obra Estações Ferroviárias
do Estado de São Paulo, de Ralph Mennucci Giesbrecht
(25).
A Companhia Estrada de Ferro Sorocabana surgiu da dissidência da Companhia
Ituana de Estradas de Ferro, quando um grupo de acionistas sorocabanos, sob liderança
do engenheiro Luiz Matheus Maylasky, discordou da decisão de se construir
linha férrea de Jundiaí a Itu, em detrimento a ligação
Sorocaba – São Paulo. A fundação da Ituana foi no
ano de 1870, enquanto a Sorocabana dois anos depois.
Diz a história que a Sorocabana teve início aos 13 de junho de
1872, em Ipanema, depois Varnhagen, onde se instalou a primeira indústria
de siderurgia no Brasil [e América Latina], a Real Fábrica de Ferro
de São João de Ipanema, no atual município de Iperó.
Em 10 de julho de 1875, 120 quilômetros de trilhos ligavam Ipanema a São
Paulo. A fundação da Siderurgia foi em 1811 por ordem direta do
Príncipe Regente D. João VI.
Nos anos de 1872/73, as Companhias controladoras das Estradas de Ferro Ituana
e Sorocabana disputavam concessões do governo paulista, para explorar
serviços e avançar trilhos para o interior, por caminhos diferentes.
A Ituana pretendia o ramal Capivari – Tietê, enquanto a Sorocabana
já conseguira licença para chegar a Boituva, com pretensões
a Botucatu.
Sem perda de tempo, a Companhia Sorocabana apresentou ao governo paulista um
audacioso projeto de integração fluvial e via férrea, não
aprovado porque o relatório de Teodoro Sampaio não recomendava
navegação dos rios Tibagi [paranaense], Paranapanema, Peixe, Aguapeí e
Santo Anastácio.
Frustrada em sua primeira investida rumo ao sertão, a Sorocabana apresentou
nova proposta, avanço para o oeste rumo a Botucatu, pelo vale do Tietê,
e seguir adiante pelos povoados que surgiram ao longo da estrada de terra que
já avançava para além de Conceição de Monte
Alegre. Com algumas modificações, sem alterar objetivos maiores,
aos 25 de setembro de 1882 a Sorocabana teve deferido seu pedido de chegar a
Botucatu, abrindo mão de financiamento público e garantia de juros
públicos [participação estatal] que, costumeiramente, o
governo oferecia aos empreendimentos pioneiros de grande monta.
Rapidamente a Sorocabana abriu eito e deitou trilhos numa seqüência
admirável, de 1883 em Cerquilho a 1889 em Botucatu, embora a lei que aprovava
o avanço da Sorocabana, de Boituva a Botucatu somente ocorreria aos 19
de março de 1887 [lei de nº. 25] estabelecendo as estações
ou paradas. O artigo 3º da mesma lei estabelecia permissão para a
Sorocabana explorar, por setenta e cinco anos, o trecho Boituva – Botucatu,
e seu prolongamento até “o rio Paranapanema, desenvolvendo-se a
mesma pelo vale da margem direita do rio Pardo em direção da Vila
de Santa Cruz (...)”, onde se pretendia trevo ferroviário, um pelo
projeto conhecido por Linha Tibagi [Paranapanema] e outro ao rio Paraná,
em áreas do Vale do Peixe.
- Acontecida a República, as permissões foram
ratificadas pelo novo governo através do Decreto nº 32,
de 3 de dezembro de 1889.
A Sorocabana enfim vencera a rival Ituana, dando por encerradas
suas competições rumo ao interior em 1892, com
a fusão entre elas formando a Companhia União
Sorocabana e Ituana, com 820 quilômetros de linhas férreas
e mais de duzentos quilômetros de vias fluviais, nos
rios Tietê e Piracicaba.
O progresso que a Sorocabana trouxe a Botucatu se fez rápido,
além das mercadorias e pessoas que chegavam, havia principalmente
o escoamento em grande escala das mercadorias da região,
como o café, algodão e outros produtos agrícolas
e a madeira, além do transporte de cargas vivas, bovinos,
suínos, muares e aves, sem dizer dos passageiros locais
que com facilidade e conforto podiam se deslocar para outros
centros.
Com a ferrovia também chegaram as primeiras indústrias
de máquinas agrícolas, fábricas de móveis,
imprensa, oficinas, residências para funcionários
graduados e ferroviários da Companhia, com expansões
de bairros e loteamentos para atender gentes que chegavam desejando
ficar.
A ferrovia precisava crescer, outros lugares requeriam o progresso,
necessidades urgentes de prolongamentos de trilhos em direção
a Campos Novos e Bauru. Depois de arrazoados estudos o governo
concedeu à Companhia União Sorocabana e Ituana
o alvará para desbravar e depois explorar, o lado esquerdo
do Peixe e direito do Santo Anastácio. À Estrada
de Ferro Noroeste outorgou todo o Feio [Aguapeí] e a
esquerda do Tietê.
O projeto original da estrada de ferro, em seu prolongamento
para o oeste paulista, a chamada linha Tibagi [Paranapanema]
não tinha previsto passagem por Rio Novo [Avaré],
mas a ação do Alferes Manoel Marcellino de Souza
Franco – o Maneco Dionísio, a advogar a mudança
do traçado convenceu políticos e técnicos
da Companhia Ferroviária para modificação
do traçado e assim Rio Novo, que viria ser Avaré,
teve a sua estação inaugurada em 1896, como conquista
decisiva para o desenvolvimento local.
- Maneco Dionísio na época era a maior expressão
política do Vale do Paranapanema conhecido, amigo
pessoal e parceiro intelectual de Prudente de Moraes, inclusive
co-fundadores do Instituto Histórico e Geográfico
de São Paulo.
A
União Sorocabana Ituana entrou em séria crise
financeira nos anos seguintes à fusão, levando
o governo federal encampa-la em 1904 e, no ano seguinte, transferida
para o governo estadual que a arrendou para o consórcio
franco-americano liderado por Percival Farquhar, em 1906,
sob a denominação Sorocabana Railway Company,
como parte integrante da empresa Brazil Railway, controladora
de diversas outras ferrovias no país.
No interstício 1904-1906, o Decreto Federal 5349, de
18 de outubro de 1904, instruindo concessões anteriores
para a Sorocabana e Noroeste, regiões Peixe e Aguapeí,
estabeleceu, para a Companhia Noroeste do Brasil exploração
do trecho a partir da então Vila de Bauru em direção
ao rio Paraná, como prolongamento da União Sorocabana
Ituana que chegou àquele destino já em 1905.
O encontro ferroviário em Bauru foi, certamente, exigência
da Brazil Railway para assumir o arrendamento da Sorocabana.
Em 1910 a Companhia Paulista de Estradas de Ferro também
chegaria a Bauru, em detrimento a Santa Cruz do Rio Pardo que
perdera aí, definitivamente, sua condição
de entroncamento ferroviário.
Para muitos
estudiosos foi grave erro do governo paulista arrendar a União Sorocabana
- Ituana, sem nenhuma melhoria pós 1906, com diretores inacessíveis
e moucos aos reclamos dos usuários mal servidos, deterioração
das vias e a não reposição material necessária
para segurança das ferrovias. Por sua vez, reclamavam os dirigentes
que produtos transportados permaneciam abandonados no pátio das estações,
causando-lhes grandes prejuízos.
Outros entendem
que a ferrovia, pelo Vale Paranapanema, foi próspera e se fizeram prósperos
os povoados que surgiam ao longo de seu curso, no período de 1906 a
1919, além de importantes melhoramentos em sua malha, reformas e modernizações
de suas estações, construções de casas para funcionários,
e aquisições de locomotivas, plantios de árvores [horto
florestal] e reflorestamento de áreas devastadas.
Em
1906 a estrada chegou a Manduri e, em 1908, a Bernardino de Campos com ramal
para Santa Cruz do Rio Pardo, aos 06/abril/1908. A seqüência da
linha Tibagi alcançou Ipauçu e Ourinhos também em 1908,
mas em Salto Grande apenas em 1910, onde permaneceu estacionado por dois anos,
para chegar a Assis no ano de 1914.
- De Ourinhos, em 1925, saiu uma estrada férrea para
o Norte do Paraná [Estrada São Paulo – Paraná]
chegando a Cianorte, dando origem a diversas localidades
paranaenses, destacando-se Londrina e Maringá.
Aos
19 de janeiro de 1919 a estrada de ferro chegou a Presidente
Prudente, então um simples
vagão de trem parado a servir de Posto Telegráfico, à volta
do qual se ergueria a futura cidade.
Também neste ano findou o arrendamento e a ferrovia
retornou ao controle do estado, com
a denominação de Estrada de Ferro Sorocabana.
Finalmente,
em 1922, a linha atinge as margens do rio Paraná, fim da linha, onde
surge o povoado de Presidente
Epitácio.
- A última estação do ramal Tibagi deveria
chegar a um ponto no rio Paraná, próximo ao
Porto Tibiriçá. O ramal tornou-se tronco e
o nome da localidade veio a ser Presidente Epitácio
[Pessoa], em homenagem ao presidente que deixava o cargo
naquele mesmo ano.
Nunca ficou esclarecido porque a linha férrea
conhecida por Sorocabana, denominada Tibagi, originariamente
projetada para entroncamento em Santa Cruz do Rio Pardo, não
tenha assim acontecido, como também mal explicado porque
o percurso Santa Cruz ao norte da barra do Peixe, no rio Paraná,
jamais saiu das planilhas.
A melhor especulação diz que o projeto original
Tibagi desviou-se da rota das localidades mais antigas, às exceções
de Avaré [Rio Novo], Ipauçu [Ilha Grande] e Assis [Dourado],
para originar novos povoamentos a cada parada [estação] do trecho,
como objetivos do governo em melhor povoar e integrar o sertão, daí prejudicados
locais tradicionais, como Santa Cruz do Rio Pardo, São Pedro do Turvo,
Campos Novos Paulista, Platina e Conceição de Monte Alegre, ao
lado de Espírito Santo do Turvo, São Domingos [do Tupá]
e Santa Bárbara, todos à beira dos caminhos pioneiros de interiorização,
portanto já integrados.
Amador Nogueira Cobra apresenta a versão, que o traçado
ferroviário original primeiro, ou seja, o ramal Tibagi,
realmente haveria de passar por Santa Cruz, São Pedro
do Turvo, Campos Novos, Platina, [Tibagi defronte sua barra],
depois Conceição de Monte Alegre [proximidades]
para findar em Água Boa, inclusive a apontar onde o
ponto final do trajeto, no quintal da casa do conhecido sertanista
Antonio Ourives, à beira do Paranapanema.
Amador entende que, “Por serem excellentes as terras
da margem do Paranapanema, onde muito cafezal, na epocha da
construcção se encontrava em formação
e mais pelo facto de os proprietarios dalli term agido junto
aos poderes públicos deu-se outro rumo ao traçado
do antigo ramal do Tibagy que, de Mandury, se dirigiu para
Salto Grande e Assis; de Assis ao Rio do Peixe, pelo espigão
da margem esquerda e deste e do Santo Anastácio a barranca
esquerda do Paraná, de onde se internará por
Matto Grosso” (26).
Quanto a linha férrea de Santa Cruz – rio Paraná era
certa sua construção, por terras do Vale do Peixe,
como certas as ações do Coronel José Rodrigues
Tucunduva, que comprou terras no rio do Peixe, a fazenda
Monte Alvão [município de Quatá], porque
ali passariam os trilhos daquela estrada. Nos Arquivos do Governo
de São Paulo, constam documentos que referido percurso
era projeto original da ferrovia, com protocolos de intenções
aprovados e assinados pela direção da Companhia
Ferroviária e pelo Governo [Presidência] de São
Paulo, devidamente aprovado pelo Senado Estadual, quando lhe
foi apresentado, todavia rejeitado pela Assembléia dos
Deputados de São Paulo, oposicionista ao governo de
Albuquerque Lins.
- Os empenhos políticos de Tucunduva para a sua ferrovia,
especialmente em 1908 quando instalado o ramal Santa Cruz,
constam dos Anais Históricos de Quatá (27).
Santa Cruz do Rio Pardo, além de não conseguir
seu entroncamento ferroviário, nem ramal teria, não
fosse a Câmara Municipal autorizar seu Presidente, Dr.
Francisco de Paula Abreu Sodré, também à frente
do executivo [posto acéfalo entre 1906/07 – 1908],
celebrar contrato para a construção de 24 quilômetros
de ramal, a partir de Bernardino de Campos, obra em boa parte
financiada pelo município, dando causa a um enorme endividamento
municipal que perdurou por décadas.
- Excluída a coincidência de aquele ramal fazer
parada na fazenda de Abreu Sodré, a atual Sodrélia,
o contrato celebrado e o endividamento municipal sempre tiveram
motivos para suspeição de desvio do dinheiro
público. Não vem ao caso.
Às entradas de pioneiros na região do Vale Paranapanema
e depois as frentes de trabalho para a construção
da Estrada Boiadeira, suas reformas e os outros caminhos entre
povoados diversos, fizeram reduzir e recuar indígenas, à exceção
Caingangue que insistia permanecer às margens do Peixe.
Com fundamentos colhidos junto aos acervos ferroviários
(28) a Estrada de Ferro Sorocabana não teve sérios
problemas com indígenas, embora alguns de seus trabalhadores
tenham morrido em frentes de trabalhos, a maioria por doenças,
de ataques por animais selvagens, somente um ou outro flechado
por índios.
Desde os primeiros anos do século XX não havia índios
que pudessem ameaçar o avanço branco pelo sertão
Paranapanema, nem para os lados da bacia do Santo Anastácio. Índios
bravios somente nos Vales do Peixe e Feio/Aguapeí, de
onde, talvez, alguma tribo ou grupo em seu nomadismo cíclico,
eventualmente tenha se confrontado com os picadeiros.
- A abertura da estrada São Paulo - Mato Grosso, a
Boiadeira, desestimulara qualquer presença selvagem
na região. Alguns relatos de ataques indígenas
aos trabalhadores ferroviários parecem mais imaginações
estimuladas, a despeito de tantas aparições
e dos ataques tantas vezes contados, que até se transformaram
em acontecimentos tidos reais.
Os
boiadeiros e tropeiros de Mato Grosso, antes do advento da
Boiadeira com sua balsa e lanchas no rio Paraná e afluentes,
somente podiam alcançar a São Paulo e Rio de
Janeiro, sem grandes dificuldades, pelo Triângulo Mineiro.
Tratava-se de percurso bem maior e, consequentemente, mais
demorado e caro. Com a Sorocabana e explorações
de travessias dos rios Santo Anastácio, Paranapanema,
Tibagi e do próprio Paraná, fez-se mais eficiente
para integrações com o Mato Grosso, Paraná e
mesmo o Paraguai.
A Estrada de Ferro Sorocabana foi um importante contribuinte
no andamento da ocupação em terras paulistas
do oeste. A princípio, a ferrovia teria se originado
para o escoamento de ferro da fábrica de São
João do Ipanema, mas o plantio do café fez acontecer
a sua expansão. Após o período da Primeira
Guerra Mundial, a região do Paranapanema abre-se ao
povoamento. O transporte mais rápido, seguro e barato,
oferecido pela Sorocabana, trazia os compradores de terras
das grandes fazendas subdivididas em áreas menores.
Ao longo dos trilhos os núcleos urbanos se multiplicavam.
- Os historiadores citam como exemplo de importância
ferroviária, para integração e progresso
local e regional, a gare Sapezal que tanto fizera prosperar
o local que chegou a município, que também
teve outra importância histórica quando, em
1924, lá chegaram os imigrantes letões que,
depois da longa travessia oceânica, desembarcaram em
Santos para seguir viagem de trem por quase 24 horas. Da
estação de Sapezal os chamados letos fizeram
um percurso de 30 quilômetros ou mais, para uma região
entre as atuais Quatá e Tupã, além do
rio do Peixe, onde fundaram as colônias cristãs
Varpa e Palma.
A
criação de gado também viria a aparecer
como uma condicionante para a expansão da ferrovia.
Antes de alcançar as regiões interioranas, a
Sorocabana experimentaria um plano de integração
a um sistema de navegação fluvial pelos rios
Tibagi e Paranapanema, mas não houve sucesso.
De acordo com as expedições científicas
de Teodoro Sampaio, estes rios não poderiam
ser navegados e o projeto sofreu modificações.
Pode-se
relacionar a expansão geográfica dos Caingangues
com as pressões que as expedições de conquista
foram promovendo. Alguns caciques optaram ou foram coagidos ao
aldeamento e se fizeram aliados dos brancos, obrigando grupos
recalcitrantes a se retirarem para lugares distantes da rota
expansionista, liberando parte dos seus territórios para
os fazendeiros e colonos nacionais e estrangeiros que não
tardaram chegar até os novos locais escolhidos pelos índios.
GRANDES NOMES PRECURSORES DA HISTÓRIA DO
VALE PARANAPANEMA
1. CAPITÃO
TITO CORREA DE MELLO – QUEM
FEZ A HISTÓRIA ACONTECER
Mineiro de Pouso Alegre, Tito Correa [Corrêa] de Mello
foi o mais influente e polêmico político do Quinto
Distrito Eleitoral da Província de São Paulo,
Botucatu, por ele elegendo-se deputado algumas vezes (1).
Nascido
em 1824 e descendente das famílias fidalgas portuguesas, Távora
e Aveiro (2),
Tito Correa de Melo foi um homem controverso, amado ou odiado,
porém temido e respeitado por todos de sua época.
Na política era bem quisto e aplaudido pelos liberais
enquanto os conservadores o mantinham sob denúncias
terríveis, conforme registros de pronunciamentos da
Assembléia Provincial de São Paulo.
Para Napoleão Moreira da Silva, Tito era agricultor
e foi rábula (3). Gilberto Fernando Tenor, afirma que
ele “educou-se em São Paulo, onde permaneceu trabalhando
em diversas repartições públicas” (4).
Alguns pontos conflitantes, pouco importam, mas todos os historiadores
entendem que o jovem Tito, desde cedo metido em política
paulista, foi quem teve primeiro a idéia de desbravar
o imenso sertão desconhecido, a partir de Botucatu às
barrancas do rio Paraná.
Conhecido por poucos autores regionais, Tito foi quase nada
citado nem pelos antigos historiadores, a despeito de seus
relatos publicados em 1889 (5), que trouxeram à luz
os principais fatos do sertão oeste paulista dos primeiros
tempos, como o avanço dos desbravadores e fundações
dos primeiros povoados. Sem a sua presença e participação,
a história do Vale Paranapanema certamente seria outra;
também a do vale do Peixe e a do Feio / Aguapeí.
A “Era Tito” em Botucatu começou por volta
de 1847, o “(...) jovem mineiro que residira em São
Paulo, Rio Claro, Itu, Itapetininga onde tomou por esposa uma
filha de José Gomes [Machado] Pinheiro, razão
direta da sua vinda para as terras que o sogro possuía.
Todo o resto do século e os primeiros anos da centúria
seguinte ressoarão com os ecos da atividade do capitão
Tito. A esse dilatado período chamou-se Era Capitão
Tito” (6).
O deputado Moraes Barros denunciou Tito como tirano, fora da
lei e mandatário único de Botucatu e região,
cuja palavra era lei e ordem, sem contestações,
a sobrepor-se ao próprio estado de direito. Donato cita
a denuncia de Deputado Moraes Barros, de 4 de março
de 1884, contra Tito: “Há na província
uma comarca populosa e importante que tem sido posta fora da
lei: é a de Botucatu. Há ali uma causa perturbadora
da administração da justiça, que impede
a permanência dos juízes que procuram conservar
a independência e isenção de espírito
que deviam investir a todos os magistrados. (...).” (7).
Rangel Pestana, o imortal articulista do jornal A Província
de São Paulo – atual O Estado de São Paulo,
assim resumiu o poder de Capitão Tito: “desde
o juiz de direito até os suplentes de juizes, de juiz
municipal e de subdelegado, todas as autoridades da comarca
são nomeadas mediante consulta feita ao chefe liberal
(...)” (8). Também o Deputado Silveira da Motta
que conclamou por “gente insuspeita, de todos os credos
políticos congraçada para por um paradeiro à série
de desmandos praticados pelo Tutu [apelido depreciativo de
Tito] de Botucatu” (9).
Sobre ou a respeito de Tito, também a Imprensa estava
dividida; o jornal A Província de São Paulo era
hostil ao Capitão, declaradamente, traduzindo tudo de
ruim que pensam dele ou denunciam os inimigos, a realçar
e às vezes reproduzir críticas que lhe eram feitas
na Assembléia.
Mas Tito sabia se defender, tanto pela Tribuna da Assembléia
quanto pelos jornais Diário de São Paulo e Tribuna
Livre, que lhe eram favoráveis e encontravam e defendiam
suas qualidades, lhe dando oportunidades para esclarecer fatos
e refutar acusações. Se os inimigos o odiavam,
os amigos jamais duvidaram de sua lealdade (10).
Tenor apresenta-nos o perfil do homem Tito: “Era o Capitão
Tito, para alguns, um bom homem, um grande chefe. Outros viam-no
como truculento, vingativo e perigoso. Entretanto, um fato é inegável:
o capitão Tito foi uma figura inteligente, dono de boa
cultura e muito caritativo. Era mesmo considerado o pai dos
pobres, aos quais socorria como conselheiro, advogado e com
seus conhecimentos em medicina, além de ajuda-los financeiramente.
A afabilidade com que recebia aos ricos, Tito recebia os pobres,
pelo que era idolatrado. Falecendo sua primeira esposa, contraiu
segunda núpcias em Sorocaba, com Constância Braga
de Mello, de cujo matrimônio nasceu um filho, Benedicto.
Fora de seus casamentos teve ainda cinco filhos, que com sua
honra, deu-lhes o seu sobrenome, são eles: Fortunato,
Brasilisa, Isabel, Francisco e João. (...). Do seu [primeiro]
enlace nasceram dois filhos, Gustavo e Amador Bueno” (11).
Donato,
por sua vez, nos dá uma visão mais brutal do Capitão,
talvez mais realista: “Além das mortes, ferimentos
e expulsões mencionadas e de que tratamos com detalhes (...) referente à história
da Justiça em Botucatu, provocou estupefação maior na
Assembléia, entre o público
da galeria e na imprensa, a invasão de Botucatu para a expulsão
de um juiz e de um promotor. Com 50 homens armados, sendo 15 a 20 escravos
seus e de Ferreira Gordo portando foices,
ladeado por três filhos, o capitão penetrou a cidade e manteve-a
sob medo. Os visados haviam-na
abandonado duas horas antes” (12).
- Ferreira Gordo era um pequeno fazendeiro sempre disposto
aos serviços sujos do Capitão, mantendo-se
a este fiel até o fim de sua vida, jamais incriminando
Tito Mello.
A
história não esconde o caráter duvidoso
de Tito, nem o seu poder truculento, menos ainda
sua impunidade, tanto que apesar de tudo quanto falavam dele
ou das acusações que diziam comprovadas, jamais
o Ministério da Justiça conseguiu processa-lo
ou condena-lo, pois que
o Capitão fazia correr para fora de Botucatu os juizes
de direito, sendo os suplentes seus apaniguados
e subservientes, o primeiro suplente seu cunhado, o segundo
o próprio filho, uma constante.
- Tito foi tido mandante do assassinato
do juiz, ou ex-juiz, Antonio José Gonçalves
da Rocha, que ousou confronta-lo. Também recaiu sobre
o Capitão a ordem de expulsar de Botucatu os juízes
Luiz Ernesto Xavier, Antonio de Carvalho e J.F. de Barros
Barreto, também o promotor público Antonio
Marcelino de Carvalho, e grande número de advogados
e opositores políticos (13).
Aquele deputado Moraes Barros, do Partido Conservador por
Piracicaba, não parecia temer o capitão, segundo
alguns porque tinha retaguarda imperial e a esta o Tito jamais
se arremeteria. Moraes Barros sustentava que o juiz Luiz Ernesto
Xavier fora expulso de Botucatu, mas Capitão Tito defendia-se
ao esclarecer que referido Juiz foi apenas intimado retirar-se
da cidade dentro de vinte e quatro horas, ele e o promotor
Antonio Marcelino de Carvalho.
- Tais episódios que parecem partes do anedotário
histórico estão relatados no livro No Velho
Botucatu, de Sebastião Almeida Pinto, referência
para autores regionais e que dele também se serviu
Hernâni (14).
O
advento da república em nada diminuiu o poder truculento
do Capitão Tito, nem a ascensão do Partido Republicano
Paulista – PRP, igualmente feroz, foi capaz de lhe fazer frente
em toda comarca de Botucatu.
No início do século XX, Tito estava em completa
decadência, velho, cego e sem nenhum substituto ungido,
embora ainda a traçar planos, mandar espancar opositores
e ganhar a eleição.
Numa ultima situação de mando contra opositores
aconteceu uma morte, provocada por seus capangas na região
de Bocaina, um jovem assassinado, filho de algum outrora companheiro,
ou que ela tenha sido acidental ou, ainda, por se tratar de
uma quase criança conhecida por Quinzote [Joaquim de
Freitas] (15).
Por uma razão ou outra, Capitão Tito Correa de
Mello, depois de meio século exercendo o poder, desgostoso,
deixou-se finalmente vencer.
Com todo poder exercido e toda
fortuna ao bem dispor, Tito não
fora além de Capitão da Guarda Nacional, talvez
pela sua prepotência e fama de perseguidor de magistrados,
o que levara D. Pedro II recusar promove-lo a coronel, grau máximo
da instituição. Também dizem que Tito jamais
desejou ser Coronel, pois como Capitão fazia correr todos
aqueles que se colocavam em seus caminhos, inclusive coronéis,
porque se sentia maior que todos eles.