PARTE II – OS EXTERMINADORES
DO PASSADO
11. CAMPOS NOVOS PAULISTA
Consta que em 1852, na exploração de suas posses
a partir de São Pedro do Turvo [Capela de São
João Batista], Theodoro fez acampamento nas proximidades
de um riacho que denominou Água da Barraca. Pouco mais
adiante viria encontrar o rio que chamou de Novo, onde fez
levantar uma cruz, sob invocação de São
José, ficando a localidade sob denominação
de São José do Rio Novo, e a partir daí a
história do povoado e o avanço sertanejo para
o sertão, mesmo diante dos freqüentes conflitos
com indígenas, aos poucos afugentados ou exterminados
(1).
Os problemas indígenas praticamente impediram, por anos,
instalações de famílias na região,
precisando em algum momento Theodoro contra-atacar, desalojando índios
e “obrigando-os fugirem e se mudarem para mais longe” (2),
através de razias, já mencionamos, desde ali às
cercanias do rio Capivara [hoje em município de Paraguaçu
Paulista] e contravertentes do Peixe, alguns dos sobreviventes
atravessando o rio Paranapanema, outros a refugiarem-se nas
matas do Peixe ou buscar abrigos além da Serra do Diabo,
no extremo oeste Paulista.
Se os índios quase não reagiram às entradas
dos mineiros nos vales do Pardo e Turvo, certamente porque
ainda tinham na lembrança as terríveis e recentes
dadas que lhes aplicara o exército de Theodoro desde
a região de Avaré, em São José do
Rio Novo os restos Xavantes e Guaranis [Caiuás] se opuseram
tenazmente aos brancos.
Impossível saber quantos índios foram exterminados
pelas investidas de Theodoro e seus bugreiros, apenas sabendo
dos sobreviventes que atravessaram antes o rio Paranapanema
ou se embrenharam nas matas do Vale do Peixe, ou alguns deles
capturados e metidos em aldeamentos onde puderam contar os
seus medos e dizer dos muitos e muitos mortos.
A vitória de Theodoro sobre os índios fez aparecer
os primeiros brancos interessados para aquela região
de terras férteis e virgens, logo chegando outros interessados
para juntos formar um pequeno bairro rural ou se fixar em propriedades
nos arredores. Somente depois do assentamento e aparente segurança
dos brancos, os índios, unidos a outros grupos, retornaram
para atacar, numa tática diferente de enfrentamento,
evitando confronto direto e nem se opor às entradas
ou assentamentos conjuntos, apenas investir contra grupos isolados,
preferencialmente duas ou no máximo três pessoas,
com bastante crueldade, como crucificações, decapitações,
mutilações de membros, esquartejamento e empalações.
Depois demoravam semanas ou meses, mas apareciam, atacavam
um ou dois roceiros e fugiam rápidos, deixando os corpos
estraçalhados, levados em partes, cabeças e membros,
ou postos de maneira aterrorizante – empalados ou crucificados.
Por volta 1864, ou seja, já mais de dez anos depois
das primeiras fixações de famílias brancas
em Santa Cruz do Rio Pardo e São Pedro do Turvo, a região
de Campos Novos ainda praticamente não tinha nenhuma
família fixada, apenas um grupo ou outro que se aventuravam
umas cinco léguas adiante de São Pedro, para
logo retornar pela absoluta falta de segurança. A ameaça
indígena, principalmente Caingangue, era terrível
a quem ousasse aventurar-se por aqueles campos.
No ano de 1864 o pioneiro Theodoro foi obrigado a intervir
de vez na região, com todo seu contingente bugreiro,
levantando um povoado para nele se instalar com a própria
família para residir no novo povoamento, intencionado
declarar tranqüilidade aos interessados em adquirir terras
e por lá também fazer moradia. Com Theodoro e
seu batalhão presente os índios não ousavam
atacar, e em 1868 o povoado tinha já diversas casas
e acentuado progresso em relação a São
Pedro do Turvo e Santa Cruz do Rio Pardo, na condição
de ultima sentinela da civilização no sertão
Paranapanema.
Pelas conclusões de Amador Nogueira Cobra, os bugreiros
barbarizaram a região de Campos Novos para conquistar
terras indígenas, enfatizando que “muita gente
se dedicou ao serviço de matar índios e muitos
indivíduos vangloriavam-se das façanhas praticadas
e dos montes de cadáveres que fizeram (...) na sanha
de bater o bugre (...) e procediam impiedosamente. Os naturaes,
depois de expellidos da posse de Theodoro (...) que pouco a
pouco os immigrantes estavam povoando, concentraram-se na posse
Paula Moraes e no rio Feio” (3).
O pioneiro permaneceu por quatro anos no bairro que ele mesmo
denominou São José do Rio Novo, homenagem ao
padroeiro de seu prenome, até estabelecida segurança
suficiente para dispensar sua presença, em 1868, quando
retornou ao povoado de São Pedro do Turvo.
Com a Guerra do Paraguai, de 1865 a 1870 a população
tornou-se crescente na região, com os mineiros “que
para lá emigraram, a fim de encontrar refúgio
e calma” (4) longe do recrutamento de seus jovens, além
da perspectiva de enriquecimento. Essa procura pelo lugar promoveu
crescimento acelerado do povoado até em detrimento a
outros centros como São Pedro e Santa Cruz do Rio Pardo,
porque lá residia José Theodoro de Souza, o latifundiário
vendedor de terras a bom preço, e a quem os índios
temiam; isto sem dúvidas um sinônimo de segurança.
A partir de 1868 quando Theodoro fez doação de
um terreno para o patrimônio, São José do
Rio Novo tornou-se “célula-mater da colonização
de todo oeste paulista, do Norte do Paraná e do Sul
do Mato Grosso, e até de parte do Sudoeste do Triangulo
Mineiro, cidade geratriz, Santuário de metade do Estado
de São Paulo” (5).
Tal doação, por escritura lavrada em São
Domingos em 1868, apontou a iniciação oficial
do vilarejo, embora pesquisadores, como Amador Nogueira Cobra,
considerem 1864 como ano real da fundação, mas
em referida localidade foram desmanchados os ranchos e construídos
outros mais adiante, exatamente em 1868, por questões
de segurança conforme o próprio Amador “A
villa actual não é a mesma que teve início
logo apoz a formação do patrimônio. A primitiva
[de 1864] começou à beira da estrada que vem
do Turvo, a seis legoas deste, precisamente alli onde inda
hoje [então entre 1922 / 23] se vê, erguido, o
symbolo da Redempção, única recordação
que ficou. Tudo mais foi transferido para 2 kilometros adeante
[em 1868], à margem esquerda do Rio Novo, onde permaneceu
e pouco se desenvolveu o outro núcleo” (6).
São José do Rio Novo teve condição
de Distrito Policial em 24 de junho de 1878 (7), depois a Distrito
de Paz aos 13 de abril de 1880 pela lei de n.º 62, no
município de Santa Cruz do Rio Pardo, com o nome de
Campos Novos. A lei 25, de 10 de março de 1885
elevou aquele distrito à condição de Município,
sob denominação Vila de Campos Novos do Paranapanema
(8).
Entre 1886 / 87 se pretendia uma estrada de ferro, de São
Paulo a Mato Grosso, a atravessar todo o território
do município Campos Novos, em cuja vila “achava-se
Ewerton Quadros, por esse tempo official de engenharia militar, à frente
de uma companhia do exército, comissionado pelo Ministério
da Guerra para estudar projecto de estrada de ferro (...).
Cuidava-se de varar para Matto Grosso, afim de ligar essa provincia
com a Capital do Imperio, porque da Guerra do Paraguay dura
lição ficára para o Brasil, quando suas
populações foram massacradas pela barbara gente
de Solano Lopes, na fronteira, devido á falta de communicação
rápida” (9) . O oficial, com os prenúncios
da queda do Império, foi recolhido ao Rio de Janeiro
pelo seu superior, o Ministro da Guerra. Estudos posteriores,
sob responsabilidade de Teodoro Sampaio, inviabilizaram, anos
depois, o projeto inicial de Ewerton Quadros.
Com a implementação dos Serviços de Imigração
e Colonização no Estado, preparada inclusive
em infra-estrutura para acolher o progresso e aumento populacional,
com a vinda dos imigrantes italianos, Campos Novos experimentou
progresso na evolução demográfica, intelectual,
social e econômica, tanto que a Comissão Militar
[de Governo], em 1889, apressou concluir a demarcação
das terras para o patrimônio daquela nova Vila, além
de todo o projeto para instalação urbana local,
tida como exemplo modelo, para futuros centros populacionais
(10).
- Uma forte corrente de imigrantes italianos se estabeleceu
ali [em Campos Novos]: Nicolau de Maio, Padre Paulo Maio,
Nicolau de Maio Sobrinho [ocupante de cargos no império
e na república], André Anselmo, João
Giannasi, Domingos Ursaia, os parentes Basílio, Hilário,
Florindo e Eugênio Bonini, Jácomo e Benedicto
Rici, Domingos Grisolia, Paulo Capanacci, José Ângelo
e Augusto Bertoncini, Francisco de Vecchi, Alexandre Mesturini,
Raphael de Giovanni, Emilio Ghilardi, Emilio Contrucci, Ângelo
Nicolesi, Onofre la Selva, [dr] Casimiro Masini, [dr] Miguel
Japolucci, [dr] João Aurélio Cataldi, Pasqual
Cataldi, Emilio Cinelli, Francisco Grilli, Geraldo Gerdulo,
Francisco Gizzi, Affonso Tozzi, Balthazar Lorenzetto, Fachi,
Gattai, Muselli e outros (11).
Com o advento da República, a florescente Campos Novos
sofreu profunda mudança política regional, com
a ascensão do fazendeiro e praticante de dadas, Coronel
Francisco Sanches Figueiredo, juntamente com seu aliado Marciano
Ferreira. João Fernandes de Araújo Leite, o João
Gordo, de idéias republicanas desde antes, portanto,
natural líder político pela nova situação,
foi obrigado a deixar a Comarca por ordem do novo mandatário,
sob risco de morte (12).
Também o italiano farmacêutico licenciado, Nicolau
de Majo [Maio] antigo morador e ex-prefeito de Campos Novos,
monarquista convicto e que gozava privilégios de ter
sido amigo do falecido José Theodoro de Souza, recusando-se
submeter à vontade dos republicanos “cortaram-lhe
a freguezia, não por denúncia falsa ao Serviço
Sanitário, como prohibindo aos sertanejos a comprar
delle” (13). Bruno Giovannetti dedica todo o capítulo
a Nicolau de Maio, de sua ascendência nobre na Itália
e até o considera real fundador de Campos Novos, embora
tenha chegado somente em 1873, depois de residir alguns anos
em Sapecado [MG] (14). Sobreviveu financeiramente graças
ao prestígio do irmão padre Paulo de Maio, 1o.
Vigário de Campos Novos, e do parente Nicolau de Maio
Sobrinho, ocupante de “cargos públicos, seja
no tempo do Império como no regime republicano” (15)
que lhe valeu nos momentos difíceis, recuperando o antigo
prestígio tão somente depois da morte do Coronel
Sanches [1912]. Nicolau morreu aos 11 de junho de 1918.
- Nicolau de Maio representava o Partido Liberal nos tempos
da monarquia, enquanto o Partido Conservador era controlado
por José Vicente Figueiredo. Apenas João Gordo
tinha idéias republicanas declaradas, todavia, enredado
e posto em descrédito, deu azo para a família
Figueiredo assumir controle e mando político regional,
na pessoa do Coronel Francisco Sanches de Figueiredo.
Marciano Ferreira foi vítima seguinte do Coronel Sanches,
num rumoroso caso, a ser comentado num outro capítulo.
Com Marciano retirado do caminho, Sanches não teve mais
nenhum opositor político declarado enquanto viveu.
Sem dúvidas
Sanches imprimiu ritmo de progresso à Vila de Campos Novos que, aos
25 de agosto de 1892, ganhou foro de Comarca instalada em 16 de fevereiro de
1893, sendo seu primeiro juiz Dr. José Baltazar de Abreu Sodré (16).
Foi uma festa, a nova Comarca conquistava autonomia jurídica de uma
imensa área de 16 léguas – do divisor do Peixe-Paranapanema às
barrancas do Paranapanema, a partir do ribeirão Coimbra, por 50 léguas
adiante, ou seja, até as margens do rio Paraná (17), onde quer
houvesse arranchamentos. Com isto, Campos Novos desligou-se em definitivo de
Santa Cruz do Rio Pardo, da qual era Termo desde 1889, uma realidade nunca
de todo concluída, porque os campos-novenses optavam por Lençóis
para seus ajustes, apesar da distância maior.
Campos Novos, que já se mostrava progressista e com
os primeiros problemas de crescimento demográfico, mais
ou menos desordenado, com sua nova condição de
Comarca e os núcleos povoadores adiante do rio Pari-Veado,
teve seus problemas agravados, face sua responsabilidade por
toda uma imensa área conflituosa, onde já pululavam
os grileiros, os geradores de falsos títulos de propriedades,
os disputantes de posses que podiam terminar em mortes, as
vendas de terras à revelia dos legítimos proprietários,
as escrituras irreais outorgadas e assinadas por posseiros
sabidamente analfabetos, a rogos forjados, herdeiros desamparados,
coronéis ou lugares tenentes donos do poder cujas vontades
eram leis, juizes sem pulso ou retaguarda do governo de província
[depois estado], prenunciando o caos.
Amador informa que Dr. José Baltazar de Abreu Sodré,
após quatro anos de magistrado, um pouco mais talvez,
deixou de ser juiz para advogar na localidade, depois de convencido
pelo Coronel Sanches a assumir o comando político local,
enquanto o próprio Coronel optou residir numa fazenda
em Platina, lugar que ele próprio fundou. Essa estratégia
de Sanches foi muito importante para apadrinhados políticos,
nas inúmeras querelas judiciais ou contenciosas que
se viam envolvidos (18).
Quanto a isto, Amador Cobra foi peremptório: “Em
Campos Novos, nessa epocha, juizes de direito não paravam.
O primeiro nomeado foi o único que se deu bem no logar;
deixando o cargo, depois de quatro ou cinco annos de exercício,
alli ficou advogando e dirigindo agremiação partidária.
Os outros, mal tomavam posse, requeriam licença e de
licença ficavam indefinidamente, já por falta
de conforto no lugar, já por não ter garantias
para o livre exercício do cargo. Destarte estava quasi
sempre com a vara o primeiro juiz de Paz da séde da
comarca, leigo, eleito pelo partido dominante, a cujo cabeça
devia obedecer, seguindo orientação do advogado
que ao mesmo tempo presidia o directorio” (19).
Na ausência de Juiz de Direito nomeava-se Juiz de Paz,
eleito pelo partido político dominante que lhe dava
sustentação, o que equivale dizer que um Juiz
de Paz era pessoa da mais absoluta confiança do mandatário
político. Com os Juízes de Paz de Campos Novos
transitou em juízo quase todos os documentos referentes
a conflitos de terras, legitimações de posses,
acertos de compras e vendas suspeitosas, ações
conflituosas, sempre de conformidade com a ordem política
emanada. Por conseguinte, o progresso de Campos Novos e sua
vasta comarca já ponteada de núcleos povoadores
e famílias bem intencionadas em nela estabelecer, promoveu
reconhecimentos de terras e legitimações judiciais
de posses, com isso a facilitar chegadas de engenheiros, agrimensores,
advogados e outros liberais, além de equipes de governo,
que deram ao lugar certa consideração de intelectualidade
progressista.
Também os grandes latifúndios, reconhecidos e
legitimados sem aqui importar como, facultaram fracionamentos
em propriedades menores, com isso a atrair mais e mais gentes
para a região, porque já compravam terras certas,
livres e desembaraçadas.
Mera coincidência ou não, desde quando Campos
Novos nas condições de Termo da Comarca de Santa
Cruz do Rio Pardo, depois como Comarca instituída até sua
transferência para Assis, foi o período de maior
intensidade de vendas de terras por parte dos herdeiros, legitimações
de posses duvidosas e encerramentos de área de conflitos.
Antes de ser Termo ou Comarca, Juízes, Coletores e Promotores
vinham a Campos Novos para recolhimento de documentos que eram
levados para a Capital, quase todos desaparecendo durante os
trâmites para uma solução definitiva. Amador
Cobra, nas condições de advogado paulistano que
militava ativamente no Fórum da Comarca, intenta que
quase meia tonelada de documentos levados para São Paulo,
num curto período de tempo (20).
Mas prevaleceram os erros e más conseqüências
do rápido crescimento de Campos Novos, famosa como lugar
atrativo para a chegada de todos aqueles elementos indesejáveis,
bem como estabelecimento de cartorários e escrivães
inescrupulosos.
Com os erros e acertos, Campos Novos se viu metida na Revolução
Federalista de 1892 quando o Rio Grande do Sul, com idéias
revolucionárias de se restaurar a Monarquia, resolveu
pela destituição do governo republicano. Isto
repercutiu forte em Campos Novos que se pôs em alerta
máxima, conforme veremos, com voluntários e convocados
fortemente armados sob o comando do Coronel Sanches, desde
a tomada do Paraná pelas tropas rio-grandenses-do-sul.
A imprensa chegou a Campos Novos em 1910, quando “Redatoriado
pelo vibrante jornalista [e advogado] Dr. Amador Nogueira Cobra,
saiu à luz a primeira folha Campos Novos. Este jornal
possuiu um estilo atraente com a colaboração
de ilustres advogados que militavam no Foro da Comarca. (...).
Tendo o proprietário da tipografia mudado de pensamento
político desapareceu o jornal que, em curto espaço
de tempo ia-se impondo pela correção absoluta,
reconhecida e proclamada por todos” (21).
- Amador Nogueira Cobra – um dos melhores, senão
o melhor advogado paulista da sua época, ele mesmo
nos informa (22), chegou a Campos Novos em 1909, onde já existiam
outros três advogados.
Em 1912 surge o periódico O Paranapanema (23), sob
direção de Nicanor da Silva Ribeiro, vindo de
Santa Cruz do Rio Pardo. Giovannetti elogia este hebdomadário
que “Trazia artigos de fundo bem elaborado com um noticiário
desenvolvido. Esta folha foi uma das mais violentas que surgiram
em nossa zona. Teve varios colaboradores entre os quaes lembramos
os nomes jà desaparecidos de Adolfo Rodrigues Dantas,
Padre Ernesto E. Cangueiro, João Aurélio Cataldi,
Dr. Brito de Araújo etc. O Dr. Brito [médico,
orador forense e cercado de admiradores pela florida eloqüência]
foi o verbo inflamado daquele convívio intelectual (...)” (24).
Mais adiante veremos, também, a colaboração
do Dr. Amador Nogueira Cobra neste jornal, que circulou em
Campos Novos até 1917, quando substituído pela
hebdomadária Folha de Campos Novos.
- De Nicanor da Silva Ribeiro: “Viéra de Santa
Cruz typographo com o material [gráfica]” (25)
para instalação do periódico O Paranapanema,
em 1912 (26).
Campos Novos parece ter parado no tempo quando morto Sanches,
o seu líder maior, embora este já algum tempo
residisse em Platina, lugar que fundou para lhe servir de descanso,
quando resolvesse se aposentar. Dr. José Baltazar de
Abreu Sodré, o ex-juiz e então advogado e chefe
partidário, jamais teve o carisma nem a autoridade do
Coronel.
A situação esteve a pior quando se cogitou transferência
da sede de Comarca para a Assis, por conta do progresso que
a estrada de ferro trouxe ao passar por lá, tanto que
em 26 de dezembro de 1918, pela lei 1630 – promulgada
pelo governador de São Paulo, Dr. Altino Arantes Marques,
a sede da Comarca foi enfim transferida para Assis, assim a
selar para sempre o destino de Campos Novos, fadada desde então
a ser um pequeno povoado.
Diz Leoni Ferreira que quase toda população de
Campos Novos mudou para Assis, e também a Vila de Platina
perdeu mais da metade de seus moradores (27).
Outras verdades
históricas, Campos Novos teria para contar, “infelizmente
os livros preciosos, documentos, relatórios, mapas etc,
que formavam uma coletânea interessante de notícias,
um manancial de informações fidedignas, sobre a
vida primitiva do Município, foram queimados por estarem
corroídos pelas traças e deteriorado pela ação
do tempo” (28), justamente quando a sede de Comarca lhe
foi tirada, restando poucas evidencias – ainda que assombrosas,
das quantas falcatruas por lá realizadas. Certamente Bruno
Giovannetti, ao escrever aquelas linhas, não tenha refletido
sobre a verdade dos fatos, nem vivido a suficiente para saber
que aquela incineração foi considerada criminosa,
na mais autêntica e literal queima de arquivos.
12. CONCEIÇÃO DE MONTE ALEGRE
Na ultima década do século XIX, dizem os historiadores,
ninguém tinha vida tranqüila em Campos Novos ou
Platina senão membros do partido político único
da região. Mesmo dentro do território da Comarca
era preciso estar sempre vinculado a subchefes do partido dominante
na sede. “Advogados, médicos, agrimensores e
pharmaceuticos, eram os mais hostilisados pela sua posição
social, pela sua influencia no animo dos sertanejos e ingerencia
nas questões de terras. (...). Patrono que, alli chegando,
tentasse defesa de direitos de algum legitimo proprietario
contra intrusos, não pararia na Comarca nem uma semana” (1).
Não podendo harmonizar-se com o Coronel, asseveravam
os antigos, pouco importava se o indivíduo era algum
agente do governo, juiz ou promotor, pois quem mandava era
o chefe político, e quaisquer que se metessem interferir
ou contrariar ditames, primeiro era comunicado para deixar
o lugar dentro de determinado tempo, depois, caso ainda se
recusasse, era o mesmo coercitivamente conduzido para fora
dos limites de mando do coronel; se houvesse resistência
ou o indivíduo resolvesse retornar, a morte por encomenda
lhe era dada por melhor destino.
Amador Cobra não economiza palavras para descrever a
política abusiva do poder, opressiva e sanguinária
exercida na Comarca de Campos Novos (2), desde os tempos de
vila, quando o Coronel Sanches assumiu controle absoluto da
política local e estendeu suas garras por todo sertão,
adiante das divisas de São Pedro do Turvo, entre o Peixe
e o Paranapanema às barrancas do Paraná.
Conceição de Monte Alegre contrastava a realidade
do restante da Comarca; nela cada habitante tinha sua moradia
própria, o seu emprego ou profissão. Aquele que
possuísse sua terra, a tinha por legítima aquisição
direta dos pioneiros, através de escritura pública,
desde antes das grandes disputas por terras e dos grilos,
por isso ali grileiros não tinham vez, nem
pendengas por resolver, “assim não dependiam de
chefes políticos para se manterem nos immoveis. (...)” (3).
Um outro fenômeno característico de Conceição
de Monte Alegre era a união de seus moradores, diante
daqueles que os quisesse forçar situações
diferentes àquelas que desejavam. Também lá a
administração local – política,
tinha apoio oficial e sempre lhe era nomeado alguém à sua
própria índole. Pela pacatez e fama de um bom
lugar para se viver em paz, Conceição se fez
próspera, com população maior que a própria
Campos Novos, embora com reduzido número de eleitores
[conforme regras da época], porém membros realmente
representativos da comunidade.
A população dali se isolara ao máximo
sua dependência de Campos Novos, Platina e dos outros
povoados que viviam sob os mandos e desmandos do chefe político
da sede da Comarca. Relacionava-se bem com Santa Cruz do Rio
Pardo e depois Salto Grande, quando nesta inaugurada a linha
férrea em 1909.
Conceição por algum tempo foi a ultima sentinela
avançada para colonização do sertão,
diretamente fundada por um pioneiro do grupo primitivo de Theodoro;
mais que isso, teria sido o próprio Theodoro quem doou
o terreno necessário para instalação de
um povoado através de escritura pública, lavrada
em 20 de agosto de 1873. Também foi Theodoro quem foi,
em dezembro de 1873, escolher o lugar ideado para aquele propósito
posto em escritura, e lhe dar o nome primeiro, Nossa Senhora
da Conceição da Boa Vista.
- A viagem do pioneiro até o local onde se levantaria
Conceição de Monte Alegre, teria sido a ultima
que realizou em seus domínios, retornando para São
Pedro do Turvo e de lá não mais saiu até sua
morte, menos de dois anos depois. O registro do documento
daquela doação patrimonial, somente viria se
realizar em 1902.
A
denominação do local foi alterada para Nossa
Senhora da Conceição de Campo Alegre, quando
de sua elevação a Distrito de Paz, pelo Decreto
Estadual n.º 142, de 14 de março de 1891. Tornou-se
município pela Lei n.º. 400, de 22 de junho de
1896, efetivamente instalado em 22 de março de 1913,
sendo Agostinho Ortiz de Oliveira, “o primeiro prefeito
do município de Conceição de Monte Alegre” (4).
Nunca satisfatoriamente
esclarecido, porque a instalação do município tenha ocorrido
quase dezessete anos depois da lei que assim o qualificou. José Jorge
Junior concorda que “Esta incompreensível demora de autonomia
de Conceição deve-se, além da falta de contatos políticos
entre os seus líderes e a capital, os trabalhos de obstrução
praticados pelos políticos de Campos Novos (...)” (5). Óbvio
que tal independência em nada agradava o coronelismo regional, que assim
procurava impedir o governo paulista de favorecer, sem que tais benefícios
requeridos e / ou concedidos, não passassem pelas mãos do chefe
político.
Se o local era o paraíso para os brancos, ou o oásis
de paz numa comarca turbulenta, o mesmo não era ou não
fora para os índios, dali expulsos ou mortos em algumas
das famosas chacinas promovidas pelos ditos civilizados, os
mesmos ou descendentes que quase em seguida não tolerariam
homens violentos e invasores em seu seio. Os índios
não eram tolerados nem quando faziam pacificamente uso
de caminho, nas proximidades, que os levavam às margens
do Paranapanema.
A essas ações do branco parecem justificar algumas
reações indígenas, principalmente dos
Caingangues, quase num ritual a passar sempre pelos mesmos
caminhos sem se desviar deles, com o tempo às ocultas,
para destruir qualquer obra levantada pelos desbravadores nas
proximidades do trajeto.
Leoni atesta que em 1886 já não havia índios
bravios na região, firmando-se num documento de 02 de
setembro daquele ano para concluir que “o imenso sertão
desta nossa paragem, principalmente todo o vale do rio Paranapanema,
estava completamente isento das atividades dos selvagens bravos” (6).
Mas os índios
bravos na região viviam nômades, com hábito de atacar de
surpresa e fugir, conforme situação ocorrida dentro da territorialidade
de Conceição de Monte Alegre, ainda em 1901, quando os Vieira
e auxiliares, montados a cavalo e bem armados, atacou Caingangues em retirada
que dizem, depois de uma incerta contra os brancos, ferindo a tiros dois deles
que foram presos em laços fortes e arrastados até duas árvores
próximas das casas dos perseguidores, onde aqueles índios, se
já mortos não se sabe, foram dependurados com braços e
pés estendidos em forma de cruz, ficando “expostos até que
numa noite, foram levados pelos companheiros” (7).
- Relembramos que membros da família Vieira sempre
estiveram às voltas com os Caingangues, porque estabelecidos
próximos às suas rotas habituais (8).
Findo os problemas com os selvagens e em relativa paz com
os civilizados, a inércia ou incapacidade política
dos administradores de Conceição de Monte Alegre,
permitiu que os trilhos da Sorocabana passassem longe de seu
núcleo residencial, num tão incipiente e inexpressivo
povoado dentro de seu território, que a própria
gare quando inaugurada em 1916 teve por nome “Monte Alegre”,
somente depois modificado.
Para alguns antigos moradores, a decadência do lugar é atribuída
a não passagem da estrada de ferro em seu centro urbano,
o que parece realmente justificado no progresso de Paraguaçu
Paulista, onde se fez a gare, numa época que a estrada
de ferro foi, para muitas localidades, o símbolo maior
do progresso político, econômico e social.
Outros aliam a esta argumentação à ausência
de um líder político, desde que por lá assumiu
controle o Capitão-Ajudante da Guarda Nacional, Viriato
Olympio de Oliveira, liderado pelo Coronel Francisco Sanches
de Figueiredo, o mandatário-mor da Comarca de Campos
Novos que, enfim, pode estender suas mãos sobre a pacata
localidade (9).
Para nós o empacamento desenvolvimentista de
Conceição de Monte Alegre, talvez possa ser visto
no mapa oficial de 1907 que assinalava entre as nascentes do
Rio Santo Anastácio e Ribeirão do Mandaguari,
pequena indicação aonde viria ser a sede do município
de Presidente Prudente, uma elevação com o nome
de Alto do Tamanduá (10).
Por aquele lado onde apontado no mapa, desde 1890, o insano
Manoel Goulart, apesar do indeferimento da legitimação
de suas posses, pretendeu vender terras ou em partes delas
assentar famílias imigrantes, numa ousada proposta ao
governo federal para instalar duas mil famílias em sua
fazenda Pirapó-Santo Anastácio. Arriscou, protocolou
seu projeto com vistas preliminares para o Ministério
da Agricultura que lhe deferiu a proposta, embora sem mérito
de legalidade ou não da propriedade, já o suficiente
para Goulart considerar legitimadas suas posses, e assim vender
30 mil alqueires a centenas de compradores, com isso formar
diversos núcleos povoadores, embriões de cidades,
enquanto aguardava autorização do Governo Federal
para instalar os estrangeiros (11).
Benício informa que o ultimo prefeito, nomeado, para
município de Conceição de Monte Alegre,
o engenheiro civil Henrique Pelegrini, procedente de São
Paulo, “Empossado no cargo, aí por volta do início
de 1932, encontrou ele o velho município em franca decadência,
não oferecendo condições para o desempenho
da missão que lhe fora confiada pelo Interventor Federal
em São Paulo, nem tampouco um ambiente propício
ao seu trabalho” (12).
Ainda, por Benício, “Pelegrini propôs ao
governo paulista a transferência da sede do município
de Conceição, primeiro para Iepê, depois
para SAPEZAL” – Grifo original do autor (13).
O desfecho final para o município de Conceição
de Monte Alegre, veio pelo Decreto [estadual] de nº 6059,
de 19 de agosto de 1933, em seu artigo 1.º - “Fica
transferida para o Distrito de Sapezal, a sede do município
de Conceição de Monte Alegre”, sendo o
artigo seguinte a entrada em vigor a partir da data da publicação,
revogadas as disposições em contrário.
Hoje aquela mesma Conceição de Monte Alegre é um
pacato distrito de Paraguaçu Paulista.
13. BAURU
A primeira referência histórica
ao nome Bauru – Terra dos Baurus, adiante
de Botucatu e da Serra dos Agudos, consta do
ano de 1750, quando o bandeirante Manuel Lopes
pretendeu por lá, lavouras e cercados
de gados para abastecer monçoeiros que
faziam uso do Tietê (1). Os silvícolas
cognominados Beuruz, não admitiram a
fixação de Lopes nem de sua gente
naqueles territórios, entre os vales
dos rios posteriormente designados Bauru e
Batalha, onde abundavam os pássaros
uru – galináceos da família
dos faisões, e a ubá – tipo
de planta herbácea utilizada para se
fazer cestos, jacás e balaios.
Outro experimento de fixação
ocorreu apenas em 1836, quando Felicíssimo
Antônio de Souza Pereira tentou se estabelecer
naqueles confins com a família e agregados.
Contou-se com Felicíssimo o tropeiro
e desbravador mineiro, Pedro Nardes Ribeiro,
que teria conhecido a região em 1834,
quando de passagem com suas tropas em direção
a Minas Gerais (2). Era a época que
fazendeiros, principalmente de Sorocaba, Itapetininga
e Porto Feliz, já avançavam para
além da Serra de Botucatu, lá pelos
lados e adiante onde se iniciava a povoação
de São Domingos [do Tupá].
A ousadia de Felicíssimo teria sido
desastrosa, diante dos Caingangues, precisando
fugir com a família para não
ser trucidado como seus companheiros, um acontecimento
narrado em detalhes numa representação
do próprio Felicíssimo Pereira,
ao Presidente da Província de São
Paulo, em outubro de 1836, solicitando providencias
em relação aos selvagens, expulsa-los
da região ou que fossem metidos em aldeamentos,
antes que os fazendeiros [também atacados
por índios] promovessem uma carnificina.
- De Nardes o autor não mais ouviu
dizer, se morto no massacre, se voltou para
sua Minas Gerais depois dos acontecimentos,
ou qualquer outro motivo.
Tal denúncia nunca foi levada a sério
pelas autoridades, nenhuma providência
tomada e o documento apenas arquivado. Para
alguns autores, tal expediente teve redação
em 1856 (3),
enquanto Donato afirma e confirma
(4).
O missivista Felicíssimo, vivendo ou
não aquele episódio em 1836,
cumpriu as ameaças e praticou as dadas
em 1858, para assim tornar a região
de Bauru conhecida em todo Império,
como local de massacre aos índios,
cujos acontecimentos subsidiaram notícias
aos jornais de oposição ao governo,
além do caso se transformar causa maior
para os embates políticos entre conservadores
e liberais, com isso a exigir urgentes medidas
das autoridades. Das dadas feitas e das conseqüências,
poucos historiadores regionais relatam.
Quatorze anos decorridos após aquele
infausto 1836, José Theodoro de Souza
chegou à região de Bauru, com
seu bando, para matar índios e, assim, livrar aquelas
terras das ocupações selvagens
e entrega-las aos brancos. Desde então
constam registros das presenças pioneiras
de Pedro Francisco Pinto [ou Franco] e Sebastião
Pereira, aquinhoados com terras tomadas dos índios,
glebas onde se ergueriam as fazendas Flores
e Grande, ponto de partida para a ocupação
territorial de Bauru.
- “Dentre aqueles que primeiro se aventuraram
a percorrer os sertões bravios, (...)
os historiadores são unânimes
em apontar dois nomes, que ficaram na memória
de muitos, como os posseiros do movimento
do desbravamento e colonização
daquelas regiões inóspitas,
domínio dos íncolas e de feras
selvagens. Trata-se, respectivamente, de
Pedro Francisco Pinto e Sebastião
Pereira. (...). Essas incursões partiram
de Botucatu (...)” (5). Pedro Pinto
[ou Pedro Franco] foi trucidado por índios, às
margens do rio Batalha, conforme relatório
oficial de 1858 (6).
O pioneiro Sebastião Pereira repassou
partes de terras a favor de Mariano José da
Costa e João Batista Monteiro, aparecendo,
ainda, tal Rodrigues de Campos como dono de
terra com registro anterior para a mesma propriedade,
Fazenda [Córrego] das Flores, que viria
ão Batista Monteiro (7).
Registraram-se, ainda, até meado dos
anos 1850, as presenças de Vicente Martins,
Luiz Francisco Gomes e José Gomes Pinheiro
Veloso, entre outros, aparentados e na qualidade
de posseiros e/ou bugreiros, como os irmãos
Francisco e Antonio [Rodrigues] Campos denunciados
na região juntamente com José Theodoro
de Souza, como apoderadores de terras na região
do rio Batalha e da Fazenda Peixe/Boa Esperança
do Aguapeí, desde as fraldas da Serra
de Agudos, entre os vales do rio do Peixe e
do Feio, até o rio Paraná.
As grandes propriedades foram quase todas divididas
em fazendas menores e postas a vendas, e outras
partilhadas entre herdeiros e meeiros, para
chegada das primeiras famílias e o lugar
se tornar mais seguro, com os proprietários
residentes próximos, a permitir características
de bairro rural, assim denominado “O
Bairro do Bauru que era em verdade, no dizer
de José Fernandes, um vasto complexo
de sítios povoados que se disseminavam
ao longo do curso do Ribeirão Bauru
e de seus pequenos afluentes, e se estendia
muitas léguas em redor, pela Água
Parada, Anhumas, São Sebastião
da Alegria, Rosa da Batalha, Soturna e Quilombo” (8).
Aos 15 de abril de 1856, aquele mesmo Felicíssimo
registrou suas posses na Paróquia da
Vila de Botucatu: “O abaixo assinado
possui uma fazenda de matas denominada Batalha,
nesta Freguesia de Botucatu, suas divisas são
as seguintes: pelo nascente, Faustino [fazendeiro
em Agudos], pelo norte com Vicente Martins,
e pelo poente e sul com o mesmo Faustino, cujas
terras comprei a Luiz Francisco Gomes. Bauru,
15 de abril de 1856” (9). Felicíssimo
também teria adquirido propriedades
de Mariano José da Costa – a Fazenda Água
Parada [ou Água do Sobrado] e de João
Batista Monteiro, uma parte na denominada Fazenda
[Córrego] das Flores (10).
Juntamente com Felicíssimo, segundo
a história, chegou Antônio Teixeira
do Espírito Santo, para fixar-se um
pouco adiante de atual Agudos, nas posses adquiridas
de Rodrigues de Campos, onde fundou uma fortaleza
para garantir a segurança daqueles que
desejassem chegar e trabalhar a terra. Ao abrigo
desta sentinela ergueu-se o povoado logo conhecido
por Fortaleza do Espírito Santo, depois
Espírito Santo de Fortaleza, em 1859
(11).
- Alguns historiadores indicam que Felicíssimo
teria vindo pouco depois, juntamente com
a parentela de Antônio Teixeira, outros
interessados e sua própria família.
A tradição, no entanto, admite-os
juntos, em 1855 / 56, quando “ao se
estabelecerem nesta região, iniciaram
um difícil trabalho, isto é,
a derrubada das matas seculares, onde ergueram
paliçadas rústicas e levantaram
casebres para que pudessem alojar suas famílias”.
(12).
Em 1859, enquanto Bauru apenas bairro rural
ou sede de fazenda, Fortaleza prosperava até à condição
de Freguesia [eclesiástica e administrativa],
em 1880, pela Lei número 61, sob a mesma
denominação de Espírito
Santo da Fortaleza, município de Lençóis.
Elevada à categoria de Vila, por Lei
Provincial de 02 de abril de 1887, tornou-se
então município da Comarca de
Lençóis, instalado aos 7 de janeiro
de 1889, com a eleição de sua
primeira Câmara Municipal.
- O município era constituído
de dois distritos, Espírito Santo
da Fortaleza – sede, e Piatan (13),
além do bairro rural de Bauru, já com
características urbanas, o qual, vencendo
resistências de Lençóis
e Fortaleza, em 30 de agosto de 1893, pela
Lei nº 209, foi feito Distrito de Paz
anexo a Espírito Santo de Fortaleza,
instalado em 6 de julho de 1894, como Boca
do Sertão regional.
Os primeiros problemas de Fortaleza tiveram
início, em 1884, quando seu fundador
Antonio Teixeira do Espírito Santo transferiu
residência para o bairro rural Bauru,
Fazenda das Flores, parte restante adquirida
de João Batista Monteiro. Muitos fortalecenses,
seguindo o pioneiro, venderam suas propriedades
para adquirir outras, mais nas proximidades
de Bauru onde levantaram suas casas, favorecidos
pela iniciativa de Antonio Teixeira que doara,
em 15 de novembro de 1884, uma área
de terras ao Divino Espírito Santo e
a São Sebastião de Bauru, de
57 hectares e 25 ares, para formação
do patrimônio, com documento escriturado
em 21 de março de 1885 e assim descrito:
“Digo eu abaixo assinado Antonio Teixeira do Espírito Santo que
dentre os meus bens que sou senhor e legítimo possuidor com livre e
geral administração e assim uma fazenda no lugar denominado nas
vertentes do Ribeirão de Bauru neste distrito da freguesia Espírito
Santo da Fortaleza e termo da Vila de Lençóis, cuja fazenda já foi
inventariada por falecimento de minha mulher Marcilina Marta de Jesus e a mim
tocou a meação ou duzentos mil réis, do legítimo
de minha parte faço doação ao Santo Sebastião e
Divino Espírito Santo da quantia de cem mil réis, bem entendido,
que será esta doação no capão ligado com as terras
tantas mesmas pela água abaixo: Digo pelo veio da água abaixo
até a barra: e subindo pelo veio da água abaixo até a
barra: e subindo pelo veio de Bauru acima, até fronteirar com as mesmas
divisas feitas nas escrituras velhas que eu fiz doação e por
ser esta doação de minha plena vontade, e sem constrangimento
de pessoa alguma, transfiro-lhes toda a posse, (. . .), eu tinha ficado assim
o curador da Igreja na obrigação de pagar a competente SIZA.
E por ser esta doação de minha livre vontade, peço ‘a
justiça do Império que dê a esta escritura todo inteiro
vigor, como se fosse em pública forma e por eu não saber ler
e nem escrever pedi a quem assinasse comigo. Sitio do Barreiro, 21 de março
de 1885. A rogo do doante Antonio Teixeira do Espírito Santo.
José Jacinto de Morais.
Tenente Veríssimo Antonio Pereira
Joaquim Antônio Prudente” (14).
Depois, em 3 de maio de 1893, Veríssimo
Antonio Pereira, descendente de Felicíssimo,
doou para o mesmo patrimônio uma área
que "tem início no Ribeirão
Bauru, junto à divisa da primeira doação,
subindo por este até a foz do Córrego Água
do Sobrado, de onde parte uma linha reta em
W-E até encontrar-se com o Córrego
das Flores e descendo por este até a
divisa com a primeira divisão. Esta área é de
134 hectares e 80 ares" (15). Teixeira
e Felicíssimo passaram para a história
como fundadores de Bauru.
Bauru somente se tornou progressista a partir
de 1888, com a chegada do mineiro Azarias Ferreira
Leite, “juntamente com a esposa e o
sogro, ambos fluminenses” (16), para
organizar uma grande fazenda de café e
atrair outros pioneiros para o local, em sua
maioria amigos e parentes de Azarias Ferreira
Leite e seu parente e sogro João Batista
de Araújo Leite.
Na época, as mais recentes sentinelas
regionais do sertão quase sempre tendiam
para maior crescimento populacional e desenvolvimento
que aquelas que lhe deram procedência,
porque delas partiam as marchas para interiorizações,
e a elas recorriam os desbravadores para os
seus acertos. Sob tais aspectos o vilarejo
de Bauru, já suplantava Fortaleza, a
sede do município, então reduzida
apenas a centro político-social.
Já vimos que vencidas resistências
de Lençóis e Fortaleza,em 30
de agosto de 1893, pela Lei nº 209, Bauru
foi feito Distrito de Paz anexo a Espírito
Santo de Fortaleza, como Boca do Sertão
regional rumo a interiorização.
Assim, na eleição municipal de
30 de julho 1895 triênio 1896/1898, para
a Câmara Municipal [de Fortaleza], concorreram
candidatos dos dois distritos, e tudo parecia
indicar que a sede teria quatro das seis cadeiras
do legislativo, com isso a eleger, ainda, o
Intendente [Prefeito]. Como esperado, não
foi uma eleição tranqüila,
tanto que ainda hoje os historiadores divergem
quanto ao resultado, relação
dos eleitos, e das artimanhas e conseqüências
de tal pleito.
Uma fonte tida oficial nos diz que “no
auge das discussões entre os políticos
de Bauru e os de Fortaleza, uma honrosa composição
foi proposta, com os lideres de nossa cidade
[Bauru] fingindo aceitar, possibilidades, [para
que] o sangue não viesse manchar aquele
acontecimento. No Cartório de João
Pedro de Oliveira funcionou a seção
eleitoral do Distrito e o juiz de Paz, Araújo
Leite foi quem a presidiu, sob os olhares rigorosos
de uma fiscalização atenta de
ambos os lados. E assim chegou-se o final do
pleito (30 de julho de 1895), felizmente com
a ausência de um conflito que estava
previsto, mas não consumado. Procedida
a votação seis bauruenses conseguem
se eleger: Manoel Jacynto Bastos, Domiciano
Silva, João Antônio Gonçalves,
José Alves de Lima, Joaquim Pedro da
Silva e Francisco Pereira da Costa Ribeiro” (17).
Outra citação, que figura em
referências oficiais, informa-nos que: “Pretendia,
porém, Fortaleza, que quatro dos vereadores
pertencessem a sua sede municipal. Mas o resultado
(...) favoreceu quatro moradores no Bauru (João
Antônio Gonçalves, José Alves
de Lima, Manuel Jacinto Bastos, e Domiciano
Silva), sendo que por Fortaleza elegeram-se
apenas Joaquim Crispim Alves Ferreira e José Teodoro
Pereira” (18).
Márcia Nava diz, numa terceira versão,
que “Ao se realizar a apuração
dos votos o presidente da Câmara de Fortaleza.
José Theodoro Petente, denunciou haver
irregularidade na eleição, pois
o Distrito do Bauru elegera todos os seus candidatos
a vereadores. Visto que anteriormente havia
sido feito em Bauru, um novo cadastramento
eleitoral aumentando os eleitores de Bauru,
enquanto que em Fortaleza não havia
sido feito o mesmo” (19). Fortaleza contou
apenas 24 eleitores cadastrados, enquanto Bauru
apresentou 66 votantes.
Fortaleza, por inconformismo, conquistou deferimento
do Senado Estadual para nova eleição
aos 07 de novembro de 1896, repetindo Bauru
o mesmo desempenho dos seis a zero – primeira
fonte, ou tudo em vão para
Fortaleza, de acordo com a segunda origem,
sem informar números ou nomes dos eleitos,
certamente os mesmos.
Para Nava o resultado foi jurídico e
não político, ao cientificar
que os vereadores, José Theodoro Petente
e Cornélio Brantes Freire da Rocha recorreram
ao Tribunal de Justiça do Estado e a
apuração ficou suspensa três
meses, até o julgamento, com sentença
desfavorável aos fortalecenses. Cientes,
os vereadores impetrantes não comunicaram
o despacho, para com isso retardar ou evitar
a posse aos bauruenses eleitos, fato este descoberto
por Domiciano Silva.
Apesar da confirmação dos resultados
das urnas, à prepotência dos representantes
de Fortaleza reagiram os eleitos por Bauru,
num estratagema político que retirou
de Fortaleza a sede municipal a favor de Bauru,
com sérios desentendimentos sobre competências
da Câmara em tais assuntos, conflitos
e atos isolados de violências entre populares.
Tal transferência de sede ocorreu com
anuência do chefe político de
Bauru, Araújo Leite, a custos convencido por
seu genro e sucessor Azarias Leite. O vereador
fortalecense Domiciano Silva – então
Vice-Presidente da Câmara Municipal em
encerramento de mandato, já algum tempo
estabelecido no Distrito de Bauru e por este
reeleito, fez a seguinte narrativa dos fatos:
“Às onze e meia, os vereadores de Bauru, cujo relógio marcava
doze horas, entraram no recinto da Câmara. Declarando a ausência
do Presidente da Legislatura anterior, José Teodoro Petente, a quem
cumpria de acordo com a Lei, instalar a sessão, eu, na qualidade de
Vice-Presidente, o declarei feito e convidei o vereador eleito mais idoso,
que era Manuel Jacinto Bastos, a assumir a Presidência. Joaquim Alves
Ferreira, Intendente e Vereador eleito, que se achava no recinto, estranhou
a abertura dos trabalhos, puxando o seu relógio, que marcava onze e
trinta, mais ou menos; e apresentou protesto que não se estava na hora
legal e nem se achava presente o Presidente. Insistimos, procurando convence-lo
de que o relógio estava errado, mas não se convenceu e deixou
o recinto, com a declaração de que não tomaria parte
nos trabalhos. Tomamos então a iniciativa de fazer o reconhecimento
dos poderes, passando logo depois a eleger os membros da mesa. Foi eleito para
Presidente Joaquim Pedro da Silva: eu para Vice-Presidente e José Alves
de Lima para Intendente. A seguir, o Capitão João Antonio Gonçalves,
nosso companheiro, tirou do bolso a indicação histórica,
que eu redigira aqui em Bauru, e que ele fora incumbido de apresentar, propondo
a mudança da sede do Município”.
Esta
foi a histórica indicação do edil Capitão João
Antonio Gonçalves:
“CONSIDERANDO que os vereadores que compõem a Câmara Municipal
do Espírito Santo da Fortaleza são todos residentes na próspera
e frutuosa povoação de Bauru:
Que aquela povoação dista mais
de quatro léguas da decadente Vila de
Fortaleza;
Que por causa da distância os vereadores
não poderão reunir-se tão
frequentemente quanto exigem os interesses
municipais que lhes foram confiados pelo eleitorado;
Que, além desse inconveniente, sobressai
ainda o da falta de recursos que há na
despovoada Vila da Fortaleza, onde nem sequer
existe quem possa fornecer aos vereadores,
em épocas de sessão, as refeições
diárias;
Que a Vila de Fortaleza está em completa
decadência e total abandono, ao passo
que a futurosa povoação de Bauru
prospera, aumenta e povoa-se dia a dia;
INDICO que seja elevada a Vila a povoação
de Bauru pedindo-se para esse ato a aprovação
do governo do Estado e desde este dia considere
mudada para aquela Vila a sede da Municipalidade,
dando-se disto conhecimento ao governo do Estado” (20).
Para Márcia Nava, o horário da
sessão de posse dos novos vereadores
ocorreu da seguinte forma: ”Prevenido
de qualquer atitude de represália de
Petente, no dia da posse da nova Câmara,
em 7 de janeiro de 1896, Domiciano juntamente
com os vereadores bauruenses, combinaram a
seguinte estratégia: A sessão
estava marcada para as 1 0h00, todavia quando
eram 9h30 minutos os vereadores adiantaram
os seus relógios em 30 minutos, chegando
a Fortaleza as 10h00, horário alterado.
Não estando presente o presidente da
Câmara, José Theodoro Petente,
o vice- presidente Domiciano Silva, assumiu
a presidência e deu início a sessão” (21).
Apesar dos protestos políticos e apelações
ao Tribunal de Justiça, a solução
definitiva foi dada pelo Senado Estadual ao
confirmar a transferência da sede do
município pela Lei 428 sancionada pelo
governo paulista, em 1o. de agosto de 1896: “O
município de Espírito Santo de
Fortaleza passa denominar-se Bauru, mudando-se
a sua sede para esta ultima povoação”,
revogadas as disposições em contrário,
para selar de vez o infausto político
e administrativo de Espírito Santo de
Fortaleza.
- Diz a história que tudo transcorreu
favorável às pretensões
de Bauru, graças a intervenção
política do Deputado Estadual Ezequiel
Ramos.
Essa mudança da sede de município
encerra uma fase da formação
de Bauru, enquanto Fortaleza do Espírito
Santo, já desde 1903 seu território
anexado ao distrito de Piatã, nome pelo
qual surge como distrito de Bauru, no ano de
1911, em divisão administrativa do Brasil,
até ser formalmente extinto pela Lei
Estadual 1590, de 17 de dezembro de 1917.
O progresso bauruense aconteceu de vez quando
editado o Decreto 5349, de 18 de outubro de
1904, que estabeleceu traçado em definitivo
da Companhia de Estradas de Ferro Noroeste
do Brasil, a partir da Vila de Bauru, por prolongamento
da Estrada de Ferro Sorocabana que chegou ao
local em julho de 1905.
O ápice progressista
conseqüente
do final do século XIX, enfim surgiria
em 1910, com a chegada da Companhia Paulista
de Estradas de Ferro, firmando-se no denominado
trinômio das paralelas de aço como
Cidade Sem Limites.
14. ESPÍRITO SANTO DO TURVO
A região que corresponde ao vale dos rios Pardo e
Turvo começou a ser colonizada a partir de 1847, com
a chegada inaugural dos mineiros integrantes do bando de
José Theodoro de Souza, que ficaram pela região
até chegada das primeiras famílias e daí início
ao processo de povoação regional que, aos poucos,
se espalhou por todo sertão, entre os rios Tietê e
Paranapanema, a partir de São Domingos às barrancas
do rio Paraná.
Não se sabe, portanto, por quem e quando surgiu a informação
que José Theodoro de Souza e um grupo seu, esteve na região de
Espírito Santo do Turvo em 1842. Menos ainda, o que efetivamente fazia
por lá.
A história
parece proceder de antigos habitantes regionais. José Joaquim Gonçalves
Melo, descendente de pioneiros, diz textualmente: “foi no ano de 1842
que, para Espírito Santo do Turvo vieram o celebre posseiro mineiro
José Teodoro de Souza, juntamente com Joaquim Antonio Pereira de Lima
e Antonio Lemes da Silva. Estes foram quem fizeram o primeiro levantamento
das terras do Rio Turvo e também do Rio Pardo (com documentos).” (1),
mas não cita referidos documentos, nem indica onde encontra-los.
Professora
Maria José Corrêa de Oliveira Zanoni aponta na mesma direção: “A
região de Santa Cruz do Rio Pardo era parte do Sertão do Paranapanema
e seu povoamento foi iniciado por mineiros. O primeiro no avanço por
estes lados foi José Teodoro de Souza, que fundou São Pedro
do Turvo em 1842” (2), igualmente sem mencionar fontes ou citações
alusivas.
Apesar da
ausência de documentos e os autores não apresentam nem informam
fontes, a presença do pioneiro na região, naquele longínquo
1842, bem pode ser possível, por razões já anteriormente
mencionadas. No mês de maio de 1842, José Theodoro de Souza esteve
em Sorocaba, inclusive a meter-se num episódio político tão
logo a eclosão da Revolução dos Liberais (3). O retorno
do mineiro teria ocorrido por São Domingos [do Tupã], onde fez
parada, com oportunidades e tempo para alguma interiorização
provável pela bacia do Turvo.
Outrossim,
não há registros da permanência de algum companheiro de
Theodoro na região, pelos lados de Espírito Santo do Turvo em
1842, conforme nos enseja José Joaquim, que “[José] Antonio
Pereira de Lima ficou em Espírito Santo do Turvo, tomando posse das
terras que margeavam as águas do Rio Turvo. Este faz o registro competente
[das terras] na cidade de Botucatu, precisamente no ano de 1842” (4).
- Provavelmente o autor cita o ano 1842 não como
registro das terras, mas a época retroativa de ocupação.
O
que temos disponível para a região, a partir
de 1847, indica presenças de José da Cunha
pelos lados de Domélia, Manoel Joaquim da Cunha em
atual Cabrália Paulista, e José Alves de Lima
junto ao Correguinho da Porteira, para os lados de São
João do Turvo. Em 1851, José Antonio Pereira
de Lima, cunhado de José Theodoro de Souza, e o irmão
Manoel Pereira de Lima apresentam-se possuidores de terras
aonde Espírito Santo do Turvo.
Manoel Pereira
de Lima e sua mulher Francisca Áurea da Silva doam, em 1853, dentre
os bens que possuíam na região, agora de Espírito Santo
do Turvo – pertencente à Vila de Botucatu, uma área de
30 alqueires de terras ao Divino Espírito Santo do Turvo, para elevação
de uma igreja e povoado (5), já com alguns ranchos no local e rústica
capela.
- Em 1873 “foi lavrada a escritura de doação
do terreno onde se localiza o lugar, por Manoel Antônio
Pereira de Lima (80 anos) e sua mulher Francisca Áurea
da Silva (70 anos), feita pelo Tabelião de São
Domingos na data de 09.12.1873, tendo como recebedor José Gonçalves
da Silva, encontrando-se nos livros 7 e 8” (6).
Ainda que ausente a oficialidade desejada, interessantes
uma outra narrativa, em separado, de José Joaquim
Gonçalves Melo (7), sobre a evolução
histórica do povoado de Espírito Santo do Turvo,
com os principais fatos marcantes, em artigo dedicado a um
dos pioneiros do lugar:
“Os primeiros habitantes deste pequeno lugar tiveram em José Gonçalves
da Silva uma ponte para se manter e a esperança de dias melhores para
se viver, obtendo o que aqui não se produzia.
Com o pensamento perdido num passado, os primeiros habitantes
contribuíram com trabalho, fé e esperança,
na construção do pequeno lugar quando aqui
chegaram em 1842.
Como somos o prolongamento dessas pessoas que regaram com
seu suor a pequena planta, que sobreviveu, coloco em entrelinhas: “Só Deus
conhece o propósito de todas as existências,
não cabendo a nós julgá-las. Nada custa
dizer que o silêncio, na maioria das vezes, é uma
mentira”. – Na trajetória de sua vida
tinha em mente o crescimento do lugar, por isso os anos passaram-se
e, numa seqüência, ele foi fazendo o que podia
dentro de suas possibilidades.
Em junho de 1866 montou a primeira casa de comércio
(armazém), portanto praticamente 140 anos atrás,
dando início efetivamente a Espírito Santo
do Turvo. Criou condições para que várias
pessoas se estabelecessem nos arredores, ajudando todos aqueles
que o procuravam.
No ano de 1873, por sua iniciativa, foi lavrada a escritura
de doação do terreno onde se localiza o lugar,
por Manoel Antônio Pereira de Lima (80 anos) e sua
mulher Francisca Áurea da Silva (70 anos), feita pelo
Tabelião de São Domingos na data de 09.12.1873,
tendo como recebedor José Gonçalves da Silva,
encontrando-se nos livros 7 e 8.
Em 1882, graças a sua influência e de seus outros
amigos, foi criado o Cartório, com a nomeação
de um Juiz Togado. Em 1887, com suas idéias avançadas,
conseguiu que o lugar passasse a ser distrito.
No ano de 1889, nesta época município, foram
construídas 27 casas de “material”, Recebedoria
de Rendas Federais, Correio, olaria, alambiques, construção
da segunda igreja — esta com tijolos — coberta
com telhas e assoalhada.
No final do século, após 1892, foi construído
juntamente com outros amigos, com grande sacrifício,
o cemitério.
Em 1906 teve início e o término da igreja que
foi demolida recentemente, onde teve a participação
efetiva de Clementino Gonçalves da Silva, em substituição
ao pai José Gonçalves da Silva, que veio a
falecer no ano seguinte (1907). Cem (100) anos se passaram
e uma outra pessoa veio a fazer um relevante serviço
a Espírito Santo do Turvo.
(. . .)”.
Num histórico oficial da cidade informa “Segundo
documentos, Espírito Santo do Turvo surge na história
como Patrimônio Religioso, pois com a influência
de políticos das vizinhanças, foi conseguida
a doação de uma área para construção
de uma igreja, dando início assim a um povoado. Não
existe data exata de sua fundação, mas em 23
de março de 1878, com um significativo crescimento,
passa a ser Freguesia através da Lei [Provincial]
n° 08, e em 10 de março de 1885 passa a ser Vila,
pela Lei [Provincial] n° 20” (8).
Sua primeira referência documental aparece na Representação
da Câmara de Botucatu ao Imperador, datada de 08 de
outubro de 1858, no sentido de se extinguir a dependência
judicial de Botucatu em relação a Itapetininga,
da qual Termo Unido desde 29 de agosto de 1857, a justificar
que “O município tem duas Freguezias a dos Lençoes
e S. Domingos e ainda muitas vão se criando, como
a de Bauru, Fortaleza, Turvo, Rio Novo, Piraju, Tiete, e
Campos de Guanhandava (...)” (9).
Uma segunda menção surge em 1870, pela Câmara
de Lençóis ao Presidente da Província
paulista, para reivindicar sua elevação para
Comarca separada de Botucatu, a justificar abrangência
sobre territórios determinados e “das Capelas
do Espírito Santo do Turvo, São José dos
Campos Novos e da do Espírito Santo da Fortaleza” (10).
Quanto sua formação administrativa, segundo
dados do IBGE (11), em 1878 o povoado foi classificado como
Freguesia do município de Lençóis e,
em 1885, desmembrado para se tornar Vila e município
constituído do distrito sede, a tornar-se Cidade,
pela Lei Estadual 1038, de 19 de dezembro de 1906, e assim
aparecer nas Divisões Administrativas, de 1911 e de
1933.
- O município, extinto pelo Decreto Estadual 6448,
de 21 de maio de 1934, tem seu território “anexado
do município de Apiaí” – provável
erro de publicação pela Biblioteca IBGE,
para depois figurar no município de Santa Cruz do
Rio Pardo, nas divisões territoriais de 31 de dezembro
de 1936 e 31 de dezembro de 1937, como Distrito de Espírito
Santo do Turvo.
Já avançado o Século XX o Distrito
tem seu nome modificado para Rio Turvo, Decreto Estadual
9775, de 30/11/1938, para assim figurar no quadro fixado
para o período de 1944-1948.
Aos 31 de dezembro de 1953, pela Lei Estadual 24456, o Distrito
Rio Turvo voltou a denominar-se Espírito Santo do
Turvo. Em divisão territorial de 01 de julho de 1960,
permanece no município de Santa Cruz do Rio Pardo,
igualmente em divisão territorial de 18 de agosto
de 1988.
Novamente à categoria de Município, com a
denominação Espírito Santo do Turvo,
por Lei Estadual 6645, de 09 de janeiro de 1990, desmembrado
de Santa Cruz do Rio Pardo, tendo por sede o antigo distrito
de Espírito Santo do Turvo, instalado em 01 de janeiro
de 1993, assim vista em divisão territorial de 01
de junho de 1995, constituído do distrito sede em
divisão territorial de 14 de maio de 2001.
Dentre
seus ilustres destaca-se o Deputado Imperial, Emídio
[Emygdio] José Piedade, sorocabano nascido em 1831,
eleito para a legislatura 1870/1871, pelo 3º Distrito
Eleitoral de São Paulo, depois reeleito pelo 5º Distrito,
sucessivas vezes, até o final do Império e na
Velha República inclusa a Legislatura 1904-1906, quando
se retirou da vida pública vindo falecer em Espírito
Santo do Turvo aos 30/03/1910. Seu nome consta na Galeria dos
Deputados e Senadores Paulistas da Velha República e
do Império, sendo reconhecido o seu trabalho para toda
região.
15. IPAUSSU
O sertanista Tenente Urias Emygdio Nogueira de Barros “foi
senhor dasseguintes sesmarias: (...); Rio Verde, na Faxina;
Antas, em Lençóis, onde hoje está a
povoação da Ilha Grande no município
de Santa Cruz do Rio Pardo; (...)” (1).
Conforme considerações históricas, as
sesmarias Rio Verde [Faxina, hoje Itapeva] e Antas [Ilha
Grande, atual Ipaussu] foram outorgadas em 30 de abril de
1725 e 9 de dezembro de 1725, respectivamente, a Luiz Pedroso
de Barros, com propósito de povoamento e desenvolvimento
da agricultura e criação. As terras foram repassadas
a José Monteiro de Barros, avô materno de Urias..
Por volta de 1860 chegaram os bugreiros João Antonio
Justino, vulgo João dos Santos (2), e João
Correa de Miranda, [em alguns registros João Corra
de Miranda]. Os cabecilhas vinham à frente de um grupo
fortemente armado para enfrentar índios, tomar-lhes
as terras e ocupa-las urgente, porquanto os selvagens estavam
a preocupar povoadores de Santa Cruz do Rio Pardo e São
Pedro do Turvo.
- Cabe-nos pressupor, além da ameaça indígena,
que o Tenente Urias tenha se desfeito da Sesmaria em favor
dos pioneiros, ou a eles tenha vendido suas posses antes
que aventureiros por lá se fixassem.
Encontraram os Caingangues [Coroados], que a historíola
diz ser encontro pacífico e de longa convivência,
até que os índios sentindo-se incomodados com
a crescente presença branca abandonaram aquelas paragens,
de livre e espontânea vontade. A realidade registra,
no entanto, massacres de muitos índios e expulsões
dos sobreviventes para o outro lado do rio.
Para os acontecimentos de povoamento, propriamente dito,
os exploradores escolheram o lugar aonde um coqueiral pelas
condições apresentadas, para servir de fortaleza
e proteção aos núcleos de São
Pedro do Turvo, Santa Cruz do Rio Pardo e bairros adjacentes,
contra os índios do médio rio Paranapanema
ou aqueles vindos do Paraná.
A oficialidade histórica aponta que os exploradores
percorreram os arredores onde se levantaria o povoado, até as
margens do rio Paranapanema bem defronte a uma ilha logo
denominada Ilha Grande do Paranapanema, distante duas horas
do ponto de partida, e que para lá convergiram outros
exploradores, para a fundação do vilarejo cujo
nome foi igualmente dado por Ilha Grande do Paranapanema.
Para essa convergência oficial entenda-se razia em
território originalmente ocupado por índios.
O núcleo urbano cresceu lentamente, apesar do excelente
solo e das matas virgens. O perigo indígena, favorecido
pela geografia, não fazia do local o seu melhor atrativo.
A partir da instalação de referido bairro residencial
os pioneiros foram, aos poucos, ampliando as posses, com
segurança, para dividi-las em fazendas menores e pô-las
a venda, para a chegada das primeiras famílias. A
partir da efetivação de Ilha Grande como ponto
de referência populacional, bem como sua constituição
territorial, até se tornar a hoje Ipaussu, seus passos
foram regidos por leis e decretos, a exemplos de todo e qualquer
outro núcleo urbano reconhecido como tal.
Assim, “a antiga povoação de Ilha Grande,
no Município de Piraju. (...) por força da
Lei 187 de 23-8-1893 passou a pertencer ao Município
de Santa Cruz do Rio Pardo” (3).
Aos 16 de novembro de 1896, Ilha Grande [Ipaussu] foi elevada à categoria
de Vila, por ato do Legislativo de Santa Cruz do Rio Pardo,
juntamente com a localidade de Óleo. O ato foi nulificado
aos 26 de novembro do mesmo ano, por inconstitucionalidade,
pela Secretaria dos Negócios do Interior do Governo
de São Paulo (4).
Pela Lei Estadual 550, de 13 de agosto de 1898, o local foi
classificado Distrito de Paz, com todas suas atribuições
segundo histórico elaborado pela Municipalidade, pois
que desde então lá se lavraram “os registros
da vida civil da população: Nascimento, casamento
e óbitos. Entretanto, os benefícios representados
pelo retorno de sua atividade econômica se encontravam
em favor do município de Santa Cruz do Rio Pardo” (5).
A mesma referência prossegue:
“Os primeiros ensaios de independência foram feitos pelo Dr. Cleophano
Pitaguari de Araújo, advogado e deputado estadual, eleito pelo 5º Distrito
Eleitoral que, após muitas e incontáveis gestões junto
ao governo do Estado, fez com que Ilha Grande se elevasse à categoria
de Distrito de Paz. Na Câmara dos Deputados (atual Assembléia
Legislativa Paulista), o Dr. Pitaguari, juntando os documentos exigidos e interpondo
a sua ação parlamentar, criou condições para a
criação do distrito.
Aos 19 de dezembro de 1906, sob a denominação
de ILHA GRANDE DO PARANAPANEMA, por força da lei estadual
nº 1038, eleva-se à condição de
Vila. Um reconhecimento decorrente de sua expansão
natural.
Para se elevar a Distrito, como vimos, houve uma ação
enérgica e insistente do Dr. Pitaguari, para subir à categoria
de Vila, ao que tudo indica, essa evolução
foi natural. Aqui se fixavam os primeiros imigrantes. As
proles da época eram, de costume, numerosas. A riqueza
do solo, a vocação agrícola sendo o
próprio fundamento da economia. Em resumo, a ascensão
a distrito de paz e, posteriormente, a vila, deixava a cidade
na mesma dependência, embora tenha sido importante
ter galgado esses degraus, pois sem tais degraus não
seria possível tornar-se município. O fato é que
a população não foi participante nesses
embates. O Dr. Cleophano praticamente sozinho proclamou a
elevação a Distrito de Paz”
A Lei Estadual n° 1465, de 20 de setembro de 1915, elevou
a localidade à condição de Município,
com a denominação de Ipauçu, corruptela
de Ipa-guaçu – Ilha Grande, de origem tupi-guarani,
pertencente à comarca de Santa Cruz do Rio Pardo,
formado pelo distrito de paz de Ilha Grande do Paranapanema
e com sede no respectivo povoado, estabelecendo suas novas
divisas.
Em 15 de novembro de 1915, aconteceu a primeira eleição
de sua história, tendo o município como prefeito
o Coronel Henrique da Cunha Bueno.
Conforme quadro fixado pelo Decreto n° 9775, de 30 de
novembro de 1938, o município de Ipauçu passou
a se subordinar à comarca de Ourinhos, voltando a
pertencer à comarca de Santa Cruz do Rio Pardo de
acordo com o Decreto-lei n° 14334, de 30 de novembro
de 1944 (6).
Por Lei Municipal número 55 de 01 de outubro de 1990,
pela Câmara Municipal, Ipauçu tem seu nome alterado
para Ipaussu, grave erro ortográfico, segundo lingüistas
e o Dicionário Aurélio, pois as grafias de nomes
derivados do tupi-guarani grafam-se sempre com cedilha.
ESCRAVIDÃO ÍNDIGENA E OS ALDEAMENTOS
NO VALE PARANAPANEMA
O elemento português tão logo estabelecido
em terras do Brasil, conforme vista, de imediato pôs-se
a aprisionar índios para a escravização,
tomando alguns por aliados para a interiorização
em busca de outros cativáveis.
O cometimento de abusos despertou uma campanha da Igreja,
pelo Padre Manoel da Nóbrega, contra a escravização
indígena, tanto que a partir de 1550 / 51 o índio
somente poderia ser escravizado mediante dispositivo legal
do Ius Gentium ou Guerra Justa, se declarada pelo
Governador Geral ou por ele autorizada. Este dispositivo
Ius Gentium tinha sentido interpretativo diverso, ou mesmo
subjetivo, para a declaração da Guerra Justa,
desde a simples recusa do índio para a evangelização
cristã à sua defesa territorial, condições
suficientes para serem legitimamente aprisionados, escravizados
ou mortos.
A Igreja entendia e justificava a escravidão indígena
por passagem necessária à libertação
e salvação da sua alma, que o índio
possuía apenas vestígios de humanidade, posto
que lascivos e mais próximos às bestialidades
pelas práticas anticristãs, ou melhor, pelas
práticas condenadas pela Santa Sé, tais como
sodomias, incestos, prostituição, de canibalismo
e sacrifícios humanos, todas tidas e vistas como ações
demoníacas (1).
Questiona-se o papel da participação ou não
da Igreja na escravização indígena no
Brasil, assunto polêmico e sempre tratado de maneira
secundária, mas evidente que jamais a Igreja utilizou
toda sua importância e força para que a escravatura
fosse proibida. Às vezes até se pode ver o
Clero por inspirador escravocrata, nos relacionamentos entre
os fazendeiros e padres, em busca de fórmulas alternativas,
como a utilização do trabalho compulsório
gratuito de comunidades indígenas, obviamente para
aquela mesma eficácia espiritual de salvação.
Diante da fragilidade legal, civil e eclesiástica,
que em nada impedia a escravização de indígenas,
ou a dizimação sistemática daqueles
que não se deixavam capturar, já D. Duarte
da Costa na qualidade de Governador-Geral do Brasil, aos
30 de julho de 1566 por recomendação da Igreja
e da Ouvidoria Geral, decretou medidas protecionistas, como
a criação de uma Procuradoria voltada aos problemas
do índio e a nomeação de meirinhos
indígenas, um em cada tribo ou mesmo aldeia.
Não bastasse a impraticabilidade óbvia do ato
governamental, o decreto ainda assegurava aos colonizadores
o uso do trabalho temporário dos índios em
suas propriedades, mediante paga pelos serviços prestados,
não necessariamente em dinheiro, daí certas
fórmulas encontradas para a utilização
do trabalho compulsório de comunidades indígenas,
como retribuição devida por morar numa propriedade
pertencente ao branco. Também era motivo para o índio
retribuir com serviços aos brancos, a segurança
que o branco lhe oferecia contra índios bravios ou
tribos inimigas, ainda que presumíveis, além
do nobre ato em tornar cristão o selvagem.
Nos tempos da dominação filipina [1580-1640],
em que Espanha, Portugal e respectivas colônias tornaram-se
um só reino, recomendou-se não utilizar o índio
como mão de obra escrava. Igualmente às demais
medidas, também a recomendação espanhola
jamais surtiu efeitos em benefício aos povos indígenas.
O alto custo do escravo negro, proibitivo a muitos fazendeiros,
aliado à necessidade de mão de obra em quantidade
para a sistemática ocupação da terra,
tornavam necessária a desobediência em capturar índios
para servidão ou busca-los nos aldeamentos, para agricultura,
pecuária, abertura e manutenção de estradas
ou para as razias contra os bravios que insistiam impedir
o avanço do homem branco em seus territórios.
Foram diversas as leis proibitivas de guerra ao índio
e sua escravização, a primeira delas ainda
em de 1570, lei parcial por permitir a escravização
sob referida alegação de "guerra justa",
quando no ano de 1609 achou-se por bem ratificar o direito
indígena à liberdade, sem nada lhe acrescer às
garantias individuais. No ano de 1758 foi declarado o fim
da escravidão indígena, sob qualquer pretexto,
aparentemente se não prejudicada pela Carta Régia
de 1808 que permitia, excepcionalmente, a guerra e escravização
indígena, de tribos que atacam os brancos, impedem
o progresso e o avanço civilizacional; tal carta,
revogada em 17 de outubro de 1831, não impediu a mobilização
indígena para trabalho obrigacional gratuito em quase
final do século XIX.
Não era complicado burlar a legislação,
muitos fazendeiros mantinham diversas famílias indígenas
em suas propriedades, como aldeamento particular protecionista,
para com isso obter do índio a retribuição
legalmente admitida, ou seja, o trabalho obrigacional gratuito.
Sob todos os aspectos, a mão de obra indígena
era barata, sem custos com alimentação, remédios,
vestimentas, bastando lhes dar espaço de terra para
a aldeia e pequenos roçados, cuidados pelas mulheres,
pelos velhos e crianças, também responsáveis
pela coleta extrativista enquanto os adultos trabalhavam
para os brancos. É certo que o índio perdia
sua condição seminômade, mas lhes era
preferível tal subjugação que os riscos
de enfrentamentos com os brancos, ou obrigados a fugas constantes.
Portanto, os fazendeiros utilizavam a mão de obra
indígena em suas propriedades, em regime de servidão,
porém declarando-os aldeados ou que viviam pacificamente
em suas terras, apenas pagando com serviços voluntários
a proteção que lhes eram ofertadas contra inimigos,
além da moradia e alimentação. “Qualquer
morador que segurar algum destes Indios, poderá consideral-os
por quinze annos como prisioneiros de guerra, destinando-os
ao serviço que mais lhe convier” (2).
Buscou-se um sistema de aldeamento oficial, pretendido desde
1839, pelo Instituto Histórico: da Sociedade Auxiliadora
da Indústria Nacional, com fundamentos em idéias
de José Bonifácio de Andrada e Silva, de que
a religião cristã e a cultura do ocidente industrializado
poderiam ser impostas aos hábitos e costumes indígenas,
idéias estas a se locupletarem com o pensamento de
um dos fundadores do Instituto, o cônego Januário
da Cunha Barbosa, para quem os nativos [devidamente instruídos]
seriam aos poucos introduzidos ao mercado de trabalho livre
e remunerado, regular e disciplinado, em condições,
portanto, de satisfazer as exigências do capital apoiado
no industrialismo nascente.
- Referido Órgão em 1847 passou denominar-se
Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico
do Brasil.
O sistema pretendido pelo Instituto facultou o Regulamento
das Missões em 1845, voltado para a catequese e civilização
dos índios e sua transformação em mão-de-obra
livre a ser usada pelos proprietários de terras, não
apresentou a eficácia desejada por incompetência
administrativa, a ineficiência de fiscalização
do governo e a ausência de medidas legais complementares
para corrigir distorções.
Aquelas pretensões, portanto, a despeito do brilhantismo
das idéias, jamais foi além de induzir o nativo
a procurar um aldeamento – ou para lá conduzi-lo
na marra, para que recebesse instruções devidas,
e depois introduzi-lo no mercado de trabalho, como homem
temente a Deus, pacífico e doutrinado à obediência
servil, ou seja, prestador de serviço obrigacional
gratuito. Os fazendeiros preferiam índios catequizados
que o selvagem, como mão de obra, indo buscá-los
nos aldeamentos, já domesticados e preparados para
o servilismo.
Desta forma, como real conjunto de soluções
para se burlar a legislação a respeito da escravização
indígena, os preadores tornaram-se elementos de convencimento
ao índio aldear-se, cabendo ao administrador do Aldeamento
repassa-lo aos interessados em colaborar com
a Instituição, na educação e
profissionalização do bárbaro, com isso
a evitar extermínios ou guerras desiguais entre indígenas
e fazendeiros, mascarando de certa forma a matança
e o tráfico de mão de obra escrava nativa,
proibida por lei. Ao indígena restava lutar contra
invasão branca ou submeter-se ao aldeamento, para
depois se integrar como força de trabalho.
Os aldeamentos do século XIX tinham, portanto, por
objetivos o recolhimento dos índios, tanto para permitir
o avanço pacífico dos brancos sobre seus territórios,
quanto sua transformação em homens trabalhadores à disposição
dos fazendeiros, ou de algum branco estabelecido em vilarejos
iniciantes, a continuar os abusos, constatações
que levaram as autoridades legalizar, em meados de 1870,
a proibição da escravidão voluntária
de nativos no Brasil.
A legalização da proibição também
deu em nada e os abusos continuaram, posto que os proprietários
mais abastados, que no sertão faziam suas próprias
leis, mantinham famílias indígenas em suas
propriedades, como aldeamento particular protecionista, para
com isso obter do índio a retribuição
legalmente admitida, ou seja, o trabalho obrigacional gratuito.
Participa-nos Giovannetti que o Coronel Francisco Sanches
de Figueiredo, sistemático matador de índios,
nas suas investidas pelo sertão sempre “trouxe
para sua fazenda vários índios, talvez com
o fim, de civiliza-los encaminhando-os para os trabalhos
agrícolas (...) foi um sertanejo de invulgar valor” (3).
Oficialmente, nas fazendas, os índios recebiam em
troca dos serviços a alimentação, o
pouso e a segurança contra inimigos, além da
educação cristã e do aprendizado trabalhista,
como forma despretensiosa do branco colaborar na manutenção
do Aldeamento.
Na província paulista existiram diversos núcleos
de proteção ao índio – os Aldeamentos,
em regiões litorâneas, próximos à capital
e outros espalhados pelo interior, por exemplo, no Vale Paranapanema
contando o São João Batista do Rio Verde [futura
Itaporanga] – desde 1845, e o de São Sebastião
do Tijuco Preto [onde atual Piraju] datado de 1854. Todos
eles firmavam-se conforme estatuído pela Diretoria
Geral do Índio, decorrente do Estatuto do Índio
denominado Regimento das Missões, pelo decreto de
1845, cujo responsável, em cada Província,
era de livre nomeação do próprio Imperador,
cabendo ao Presidente da Província nomeações
dos Diretores de Aldeamentos.
Os dois primeiros Aldeamentos no Paranapanema desde o princípio
se mostravam com população já excedente,
somente com índios egressos do Mato Grosso [ao sul],
Paraná, leste do Paraguai e nordeste da Argentina,
487 deles instalados em Rio Verde e 210 para o Tijuco Preto
(4). Nenhum índio da região estava aldeado
neles, aliás, à exceção Caingangue,
praticamente não mais existiam outros índios
por estes lados, exterminados por José Theodoro e
bugreiros.
Aldeamentos para índios autóctones ou excedentes
existiam apenas em propriedades particulares, conforme vistas
num futuro próximo em domínios do Capitão
Francisco Sanches de Figueiredo, Fazenda Matão, onde
hoje município paulista de Palmital, e na localidade
denominada Aldeia, confluência das posses das famílias
Paiva e Alvim, às margens do rio São Mateus,
em atual município de Paraguaçu Paulista (5).
Sob muitos aspectos, os Aldeamentos Oficiais no Vale Paranapanema
se transformaram em viveiros de cativáveis e depósito
de valetudinários, os primeiros entregues ao servilismo
sem nenhum critério ou pudor, pelo mínimo que
fosse; por isso os optantes pelas fugas para além
do Paranapanema ou pelas matas próximas, ficando para
trás apenas os velhos caquéticos, os doentes
e os inutilizados.
Patente desde logo que os índios livres ou fugitivos
evitavam os Aldeamentos porque neles podiam ser requisitados,
para serviços obrigacionais nas fazendas, como parte
educativa à inserção social e econômica
no universo capitalista do branco. Os administradores dos
Aldeamentos justificavam ainda o índio em servidão
obrigacional, porque as lavouras dos brancos eram atacadas
por índios bravios e tudo se perdia, com a solução única
de encaminhar os aldeados para as fazendas a fim de amenizar
perdas dos fazendeiros, como forma de reparação,
além daquele oferecimento aos índios mansos,
o aprendizado de bons costumes e ofícios agrícolas.
Relatos outros, velados, indicam que os índios também
temiam o aldeamento porque muito deles, postos para o trabalho,
eram mortos a mando dos requisitantes, sob pretextos de tentativas
de fugas ou de rebeliões provocadas, quando na realidade
seriam atos de vinganças dos ataques indígenas
de outrora, que teriam vitimado parentes, amigos ou agregados
de algum dos fazendeiros.
Por outro lado, ao evitar o Aldeamento o índio era
então caçado, preso e, quando não morto
ou que lograsse fuga, compulsoriamente aldeado, sem dúvidas
formas de convencimentos
sem objeções. Verdades ou não aqueles
Aldeamentos jamais evitaram o aumento de índios mortos
ou perseguidos no Sertão Paranapanema.
Como outra
agravante contra os índios, alguns fazendeiros já se interiorizavam
no atual estado do Paraná,
também necessitando de mão de obra que lhes era fornecida por
preadores, os quais se não conseguiam capturar índios, simplesmente
os matavam para que não mais viessem importunar os pioneiros.
Já em 1856, pelo menos o Aldeamento do Tijuco Preto
mostrava seu fracasso, o dinheiro não vinha, os mestres
que deveriam ensinar ofícios aos índios não
apareciam, Botucatu, como sede administrativa, era distante
e não tinha autonomia para prontas soluções. “Na
verdade, desde a sua fundação, na década
de 1850, o aldeamento do Tijuco Preto era um foco permanente
de tensões” (6), desde logo os índios
já ressentidos da violenta invasão que os moradores
do povoado próximo, São Sebastião do
Tijuco Preto [futura Piraju], fizeram ao local para recuperar
a imagem de São Sebastião, que alguns índios
trouxeram de volta porque pertencia a aldeia.
- Antigos relatos contam que a imagem de São Sebastião
pertencia ao aldeamento indígena de Tijuco Preto,
cujo administrador José Joaquim Alves Machado cedeu
a relíquia ao fazendeiro Joaquim Antonio de Arruda,
côo - fundador de pequeno povoado próximo,
que tinha aquele santo por orago. Alguns índios
aldeados entraram na capela do vilarejo e recuperou o objeto
de sobre o altar, levando de volta para a aldeia, a seguir
invadida de assalto pelos brancos, com extrema violência
e à força das armas retomando a imagem. Alguns
relatores abrandam a história, que a imagem fora
trocada por ferramentas e objetos de utilidade para a aldeia,
e posta no altar da capela de onde foi retirada por alguns índios
discordantes, revoltando-se os brancos que, quase a força.
. .
O
Tijuco Preto tornou-se um caos tanto que, para evitar os
flagelos da fome e aliviar ocupações compulsórias
das dependências do Aldeamento, os índios úteis
eram entregues aos fazendeiros que também levavam
por empréstimos as ferramentas e utensílios
de trabalhos, que quase nunca retornavam.
Para o vereador botucatuense Claudino Ferreira, o fracasso
do Aldeamento Tijuco Preto era
a improbidade administrativa do seu Diretor, Tenente Coronel
José Joaquim Alves Machado,
com “suas prevaricações em proveito próprio
(...) [com a] prepotência que nos seus negócios
poim em pratica” (7).
Para a Câmara Municipal de Botucatu os problemas do
Aldeamento [de Piraju] estavam no
administrador e, com a promessa de levar os problemas diretamente às
autoridades da Província e do Império, ganhou
tempo com os fazendeiros para que estes não atacassem
os índios, e com os índios conseguiu,
com mediação do frei José de Loro que
os manteve reunidos defronte
a Capela de São Sebastião do Rio Verde [atual
Itaporanga] para evitar confrontos com os brancos (8).
Comprovadas
as denuncias as autoridades de governo ainda acreditavam nos objetivos do Aldeamento,
designando para seu diretor o capuchinho frei José de Loro, religioso
comprovadamente hábil em lidar com os índios. A nomeação
do frei agradou todas as partes, os índios retornaram para o aldeamento,
os fazendeiros serenaram os ânimos, mas a morte do padre pouco depois “significou
novamente a dispersão dos últimos indígenas do município” (9).
Ainda assim o aldeamento é visto em 1888, pelo Relatório do
Presidente da Província de São Paulo, como um empreendimento “que
não tem condições de manutenção por falta
de patrimônio (...)” (10).
A situação indígena no Vale Paranapanema
era preocupante tanto que, já em 1855, como evidente
fracasso do Aldeamento Piraju, o governo Imperial autorizou
a Ordem dos Capuchinhos fundar
e administrar o Aldeamento de São Pedro de Alcântara,
próximo às edificações de um
forte militar que, na mesma época, se ergueu junto às
margens do Tibagi, onde hoje a cidade de Jataizinho estado
do Paraná. “Os missionários introduziram – por
meio da escola e do trabalho – valores de natureza
igualitária e universal, investindo na criação
de uma linguagem de mediação, rapidamente incorporadas
pelas lideranças e indivíduos das diferentes
etnias que ocupavam a posição de agentes no
contato das sociedades indígenas com a sociedade nacional” (11).
No Aldeamento
de São Pedro de Alcântara (Paraná) havia três aldeias
distintas que respeitavam as diferenças culturais indígenas.
Nelas, os Kaingang, Kaiowá e Guarani-Ñandeva estabeleceram
formas diferenciadas de utilização dos equipamentos da missão
católica e de apropriação
dos instrumentos de “catequese e civilização” – entre
eles, uma destilaria de aguardente – dispostos
aos índios pelo governo do império. Outra grande novidade estava
na liberdade dada ao índio, ele
podia ir e vir conforme desejasse embora o atrativo maior para o índio
aldear-se era, mesmo o grande empreendimento alambiqueiro de aguardente dentro
do próprio Aldeamento (12).
Relatos Capuchinhos, de autoria de Frei Timóteo de
Castelnuovo e outros diretores ou responsáveis pelo
Aldeamento São Pedro, diz das instalações
das máquinas de serrar madeira, movidas a água,
da moenda para cana de açúcar, dos alambiques
e outros engenhos para atividades fabris, descrições
ratificadas por Telêmaco Borba em sua Actualidade Indígena,
de 1876, e em pronunciamentos e atos oficiais de Joaquim
Faria Sobrinho, Presidente da Província do Paraná (13).
Este início
promissor levou os Capuchinhos fundarem um outro aldeamento
em 1859, o de São Jerônimo, que deu origem à cidade
de São Jerônimo
da Serra, também no atual estado do
Paraná.
O Aldeamento de São Pedro enfrentava, no entanto,
sérias dificuldades com os fazendeiros e posseiros
paulistas do Vale Paranapanema, primeiro os índios
de destroços tribais que na liberdade de ir e vir
cometiam pequenos delitos em terras paulistas, geravam conflitos
para rapidamente se colocar sob proteção dos
padres; depois os Caingangues que, em passagens pelos seus
caminhos entre o Peixe e o Aldeamento, destruíam todos
os pertences e realizações dos brancos, ou
mesmo ataca-los se vistos isolados ou longe dos povoados.
- Ficaram célebres os constantes enfrentamentos
entre a família Vieira [na atual região de
Paraguaçu Paulista] e os Caingangues, porque aqueles
se estabeleceram nas proximidades de caminhos indígenas
(14).
Giovannetti aponta e esclarece outros caminhos indígenas
entre as cabeceiras do ribeirão
Laranja Doce ao Aldeamento São Pedro Alcântara
que “servia evidentemente de comunicação
entre os índios aldeiados da margem esquerda do rio
Paranapanema e os da margem direita, espalhados em vários
núcleos, entre os quais os da Serra do Diabo e Corredeira
do Frade” (15). O autor avança ainda mais, “que
os selvícolas do rio do Peixe tinham comunicações
com os índios localizados na Serra do Mar e, talvez,
com as tribus da zona oceânica” (16), portanto
constantes as passagens dos índios por terras apropriadas
e defendidas pelos brancos, dando causa a certos encontros
violentos.
Os
problemas provocados no lado paulista pelos aldeados de São
de Pedro, especialmente na grande região de Campos Novos Paulista, exigiu
providências do mandatário Coronel Sanches, ante os reclamos dos
fazendeiros, posseiros e de seus próprios agregados sob constantes ameaças
com Caingangues instalados nos Vales Paranapanema e do Peixe, que continuadamente
faziam incursões para atacar e destruir tudo aquilo que dizia respeito
aos brancos, inclusive a própria vida. A solução estaria
nas dadas já iniciadas pelo Coronel, apoiado pelos fazendeiros, levantando
sentinelas ao longo do Paranapanema com a estratégia de não deixar
o índio transpô-lo para se socorrer junto ao Aldeamento.
Parece-nos
objetivos dos padres evitarem massacres indígenas na região,
pelas notícias que lhes chegavam, sem descartar intermediação
do governo de São Paulo, alarmado pelas carnificinas promovidas pelo
Coronel Sanches, em solicitar a intervenção capuchinha. Não
se podem descartar exigências do Coronel que religiosos e políticos
resolvessem de vez a situação, sob pena de invadir e destruir
o Aldeamento São Pedro, por lá acoitar índios
assassinos.
Os envolvidos sabiam que o Coronel Sanches tinha condições
para ao menos iniciar a bravata, com a agravante possível
de fazer espalhar a guerra contra o índio por todo
o Vale Paranapanema e do Peixe até as ribas do Paraná.
O governo da Província de São Paulo recorreu
ao Comissário da Ordem dos Capuchinhos para evitar
novos massacres como aqueles realizados indiscriminadamente
na região do Paranapanema, resolvendo os padres negociar
diretamente com o Coronel e organizar um Aldeamento em Campos
Novos.
- O Aldeamento São Pedro, desde então, perdeu
sua importância e, em 1895, encerrou suas atividades.
Sobrevivera por quarenta longos anos.
Aos 7 de maio de 1888, chegam a Campos Novos os freis Mariano
de Bagnaia e Francisco de Alatri, para as primeiras negociações
quanto a instalação de uma Missão Catequizadora.
O pároco Paulo de Maio [Majo] e o Coronel Francisco
Sanches de Figueiredo representavam os interesses de Campos
Novos (17).
O estabelecimento
do Núcleo Capuchinho em Campos Novos foi um empreendimento fadado ao
fracasso, desde o princípio, quase nem saiu das boas intenções
e nem mereceria história, não fosse seu pioneiro o insigne frei
Mariano de Bagnaia, nomeado Pregador Imperial do Brasil por D Pedro II, ao
mesmo tempo em que recebeu também as honras de Major do Exercito do
Brasil, pela sua participação heróica na Guerra do Paraguai.
Sabe-se desse Aldeamento pelos Relatos da Ordem dos Capuchinhos e sua imortalização
nas páginas da obra de Bruno Giovannetti, que lhe dedica todo um capítulo,
A Catequese dos Índios, que ora apanhamos por referências justapostas
(18).
Os padres, sob direção de Frei Mariano de Bagnaia,
chegaram para fundação de Aldeamento de Proteção
ao Índio, numa imensa região de conflitos,
estimando-se a população indígena selvagem
entre o Peixe e o Paranapanema, a partir de Campos Novos
Paulista até as proximidades da Cachoeira dos Padres
[Teodoro Sampaio], superior a 5 mil pessoas, talvez entre
oito e dez mil almas, considerando presenças flutuantes
de tribos dos vales Aguapeí, Santo Anastácio
e Paraná.
A morte inesperada de Frei Mariano de Bagnaia, pouco depois
de chegar a Campos Novos, fez cessar o Aldeamento no local,
retornando os índios para a vida nômade nas
florestas e o branco novamente em seu encalço. Para
substituir Mariano foi designado frei Sabino de Rimini o
qual, sem êxitos em Campos Novos, decidiu fundar um
Aldeamento às margens do rio Batalha, nas proximidades
de Lençóis [Paulista], também um empreendimento
fracassado, acabando Rimini por coadjutor do Padre José Magnani
então pároco em Lençóis.
- Consta desta época, por volta de 1890, o interesse
em se levantar o aldeamento em Santa Cruz do Rio Pardo,
um projeto que não saiu das intenções.
Depois, em 23 de julho de 1901, chegou a Campos Novos o
padre Bernardino de Lavalle para saber dos fracassos e reinstalar
o Aldeamento de Campos Novos. Lavalle traçou planos
com o pároco [de Campos Novos] Paulo de Maio, depois
com padre Magnani, de Lençóis, para finalmente
receber aprovação de sua proposta e autorização
final de sua Ordem e recursos financeiros do governo de São
Paulo.
Em maio
de 1902 Lavalle retornou a Campos Novos acompanhado de frei Daniel de Santa
Maria, frei Boaventura de Adeno, o leigo Paulo de Sorocaba e o ex-carmelita
padre Francisco Savelli. Lavalle decidiu transferir o Aldeamento para as proximidades
da Serra do Mirante,
mais propriamente às cabeceiras do ribeirão Veado.
Em agosto do ano de 1904, Coronel Sanches solicitou que os
padres contatassem os Caingangues que viviam um pouco mais
adiante, às margens do rio do Peixe. “Como o
Cel. Sancho [Sanches] levasse consigo uma turma de cerca
60 homens armados de carabina, os índios atacaram
a caravana que regressou sem ter conseguido o fim almejado”,
conta Bruno Giovannetti que ouviu “da boca do padre
a narrativa dessa expedição e as agruras profundamente
sentidas”.
Numa versão paralela, os padres comunicaram a intenção
de contatar os Caingangues, dentro das posses do Coronel
Sanches ainda em poder daqueles índios. O coronel
concordou, todavia consideraram prudente enviar seus melhores
homens, para a segurança dos religiosos até o
encontro com os primeiros índios, quando se adiantaram
os padres até eles, cada qual com um crucifixo na
mão, procurando estabelecer diálogo. Assustados
ou agressivos talvez, os índios levantaram suas armas
num instinto de atenção máxima, apavorando
os religiosos que gritaram àqueles que os escoltavam: “Atirem
nos selvagens, atirem” (19).
Amador Cobra, numa outra linha interpretativa para o mesmo
episódio, destaca objetivos da Ordem Capuchinha, do
entendimento com Coronel Sanches “afim de dissuadil-o
de continuar a fazer dadas e pedir-lhe auxílio
para a catechese que iam organizar, nos pontos da matta que
o chefe [coronel] conhecia. Com isto, (suppunham os bons
frades), poriam cobro aos encontros sangrentos; pois aldeiados
os índios, tornar-se-iam amigos dos civilisados” (20). O
mesmo autor atribui certa ingenuidade piedosa aos Capuchinhos,
que fizeram festas e discursos antes do embrenhar mata adentro,
pedindo aos acompanhantes que poupassem os irmãos
habitantes da selva; talvez tenha faltado aos Capuchinhos
melhor conhecer as intenções do Coronel Sanches
que a índole dos índios.
As diferentes versões quanto às intenções
da empreitada, ainda que próximas, deixam pressupor
que o Coronel tivesse intenções de vez acabar
ou expulsar os Caingangues, para prometida segurança
da missão oficial, por ordem do chefe de governo Dr.
Jorge Tibiriçá, em explorar o rio do Peixe.
Os padres apenas serviram de isca para aproximações
dos selvagens então abatidos a tiros, assim “a
missão [contra as dadas], destarte, se transformou
noutra dada” (21).
Com o episódio Coronel Sanches retomou suas dadas
contra os Caingangues no rio do Peixe, sem nenhuma oposição.
Encontrou o pretexto oficial.
Desmoralizados perante os brancos e os índios,
os padres ainda ficaram na região até 1907,
quando a abandonaram, repentina e sem esclarecimentos, transferindo-se
para Conceição de Monte
Alegre, onde não havia padre fixo, local que também viriam abandonar,
sem explicações, em 1916.
Por Giovannetti se sabe que frei Boaventura de Adeno, como
novo responsável pelos Capuchinhos na região,
a partir de Conceição de Monte Alegre, tentou
levantar um Aldeamento – com fracasso quase imediato,
em Porto Tibiriçá no ano de 1912, auxiliado
pelo frei Sigismundo de Conazei. Frei Boaventura também
fracassou, a seguir, num Aldeamento pretendido, nas confluências
do Ribeirão Marreca com o Rio Paraná, denominado
de Aldeia de São José.
Em 1916 ainda se ouve falar em Boaventura, desta vez na localidade
de Penápolis [Santa Cruz do Avanhandava], depois de
procurar um lugar adequado para instalação
de uma paróquia na região de São José do
Rio Preto (22).
Com a morte do Coronel Sanches,
em 1912 se finda as práticas de extermínio indígena no
Vale Paranapanema, por solução adequada aos interesses do Brasil
diante da enorme pressão internacional, para a redefinição
do destino das populações nativas. “No Congresso Internacional
dos Americanistas em Viena surgiria uma acusação contra colonizadores
brasileiros e europeus, da região sul do país [São Paulo
era região sul], de serem os responsáveis pela escravização,
raptos, assassinatos e introdução das doenças contagiosas
nas aldeias indígenas. Presentes neste congresso estavam representantes
das comunidades cientificas do Brasil e do mundo, solicitando ao governo brasileiro
que tomasse conhecimento do fato e cessasse o extermínio” (23)
e a prestação compulsória de serviços gratuitos.
Mais ou menos intenso, o escravismo indígena no Vale
Paranapanema somente acabaria de entre 1893 – 1895,
com sua substituição pela mão de obra
européia – italiana, espanhola e portuguesa,
ainda assim nos primeiros anos do século XX era comuns
indígenas prestando trabalho servil em troca de pequenos
favores dos brancos. Sem opções baratas, os
fazendeiros do Vale Paranapanema aceitaram os imigrantes
europeus – italianos, espanhóis, portugueses
e alemães [depois viriam os letões, os japoneses,
e outros.].
Somente em 1912 os Caingangues foram pacificados e postos
em territórios destinados, de acordo com a proposta
de pacificação e integração indígena
pelo Serviço de Proteção ao Índio – SPI,
criado em 1910. “Para as tribos nômades, como
os Kaingang, a vida em reserva atingiria a sua cultura de
forma drástica, o exemplo seria a importância
da prática agrícola, que parecia ser a única
via de subsistência” (24).
Em
Salto Grande, 1862, foi implantado um Aldeamento Indígena sob a autoridade
de José Theodoro de Souza, conforme Ofício da Câmara Municipal
de Botucatu “(...) os índios foram levados do Aldeamento de Piraju
para o de Salto Grande e lá estão sob vigilância gratuita
do sertanejo José Soares de Souza, que sendo pouco hábil para
isso, tem mantido fortes e robustas chamadas a ordem (...) os índios
respeitam e lhe chamam de Pai Velho”, conforme Maria do Carmo Sampaio
di Creddo, em sua tese de doutorado apresentada ao Departamento de História
da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, USP, 1987, intitulada A
propriedade da terra no Vale Paranapanema – A Fazenda Taquaral, Capítulo
II – A Política Indígena e a Formação da
Propriedade da Terra, com referências devidas e transcrições..
A
mesma autora, naquela obra e capítulo, às páginas
110/11diz de Aldeamento da Província do Paraná,
da mesma forma sob controle de José Theodoro de Souza.