Tamanho da fonte    

RAZIAS
INCURSÕES PREDATÓRIAS EM TERRITÓRIOS INDÍGENAS DO VALE PARANAPANEMA

PARTE II – OS EXTERMINADORES DO PASSADO

 

3. AVARÉ

Alguns historiadores parecem não fazer qualquer ligação histórica da atual Avaré com Abaré-y, aquele aldeamento exterminado numa razia promovida por José Theodoro de Souza, a mando do Capitão Tito Correa de Mello. Também nenhum interesse aparente de pesquisas quanto ao mencionado lugarejo de nome Abaré, relatado na obra de Jean-Claude Valla, desde época pré-cabraliana, como ponto de pouso ou que seja mera citação, às margens da estrada Peabiru.

Posto isto, a história que se pretende para a atual Avaré tem início quando por lá apossaram terras os pioneiros, Major Victoriano [Vitoriano] de Souza Rocha e o alferes José Domiciano Santana, a partir de 1850, depois contando com as vindas de outros posseiros, José Antônio do Amaral, Generoso Teixeira, Antônio Bento Alves, Jacinto Gomes de Morais, Dionísio José Franco, Francelino de Mello e João Antônio de Souza (1).

Atesta o Capitão Tito: “Foi ele [Vitoriano], com o auxílio de outros posseiros, quem, em 1861, ergueu uma capela com o nome de Nossa Senhora das Dores do Rio Novo. Em 1862, o Major Vitoriano e seu vizinho o compadre Domiciano Santana vieram a Botucatu e me procuraram para levá-los à casa do tabelião Francisco Antônio de Castro. Aí redigi a escritura de dação que ambos faziam, na parte em que seus sítios dividiam, cortados por um riacho ou córrego, de um terreno de quarto de légua (ou 27 hectares) para o patrimônio de Nossa Senhora das Dores. Essa escritura foi lavrada em 15 de maio de 1862. Nesse tempo já havia um cruzeiro em frente da capela e oito casinhas de pau a pique, cobertas de sapé. Foi esse o princípio da vila de Nossa Senhora das Dores do Rio Novo, cuja capela foi inaugurada em 10 de julho de 1861, dizendo a primeira missa que ali se realizou com a licença do Sr. Bispo, o vigário de Botucatu Padre Joaquim Gonçalves Pacheco” (2).

Foi a partir da tomada da região de Abaré-y e instalações das famílias sertanistas pioneiras, que os fatos notáveis de Avaré, então Rio Novo, têm seqüência histórica, evidentemente nada fácil em seus pontos conflitantes ou onde as lendas sobrepõem-se àquilo que se pretende por oficial.

Manuel [Manoel] Marcelino de Souza Franco, o Mestre Maneco Dioniso (3), explica o nome Rio Novo para povoado:

“A denominação de “Rio Novo” dada à nascente povoação, foi por ficar mais próxima do rio desse nome, bastante conhecido, o qual nasce na proximidade de Avaré e que na opinião de pessoas competentes, não é cordilheira aquela, mas serra distinta. E a origem daquele nome, dado ao rio, segundo tradição, foi por terem os antigos posseiros, quando o atravessaram no verão, em conquista da nova Canaan sonhada, nos ínvios sertões da margem direita do Paranapanema, encontrado reduzido a pequeno regato, quase seco, sem corrente, fenômeno hidrográfico conhecido em certas regiões mais ignorado pelos intrépidos e ingênuos posseiros, que, decorridos alguns meses, em seu regresso, pelo que, estupefatos, exclamaram: ”Rio Novo” e o denominaram assim, como faziam os lugares por onde passavam, aproveitando o mais simples acontecimento ou mais superficial observação para a escolha do nome pelo qual devia ser conhecido o local” (4).

A primeira eleição para a Câmara de Rio Novo ocorreu aos 26 de fevereiro de 1876, eleitos os indicados ou impostos pela líder monarquista Bárbara Fé do Nascimento, que alguns preferem por cujo prestígio foram eleitos, o filho da matriarca Major Francisco Theobaldo Pinto de Mello [Presidente], o aparentado Francisco Pereira de Souza [Vice-Presidente], os membros José Pinto de Andrade Mello [também filho], José Carvalho de Oliveira [primo], José Pereira da Silva [sobrinho] e o jovem protegido Manoel Marcellino de Souza Franco - Maneco Dionísio [Secretário], sendo a festiva posse aos 27 de março de 1876 (5).

Bárbara Fé do Nascimento, mulher de Francelino de Mello – viúva desde logo naquele sertão, exerceu poder absoluto em Rio Novo [Avaré] por mais de vinte anos, tanto em liderança pessoal de mando quanto nas eleições provinciais, sempre a levar de vencida seu figadal opositor, o republicano Coronel Eduardo Lopes de Oliveira.

Uma lenda, certamente, dá conta que Coronel Eduardo estava praticamente vencedor no pleito municipal de 1876, quando às vésperas agonizava a matriarca, e Maneco Dioniso percorreu com seus companheiros, casa a casa da zona rural, convidando a todos moradores para o funeral tido por certo, ou, não o sendo que rezassem por ela, na missa de corpo [vivo ou morto] presente, no dia 26 de fevereiro. Bárbara ainda estava moribunda num catre lá na Igreja - sacristia, como a despedir-se de todos durante a missa, quando Maneco faz emocionado discurso sobre as qualidades caritativas de Bárbara Fé, com apelo final que o ultimo desejo dela era ver eleito seu filho Theobaldo, família e indicados [entre eles o próprio Dionísio]. E o povo, ainda sob forte comoção, pelos votantes elegeu todos os membros da família de Bárbara Fé.

Após a missa iniciaram-se as eleições, urnas colocadas em próprios da Igreja com os votantes a passar próximos do leito de enferma com aquele olhar de piedoso agradecimento.

Finda as votações, Bárbara Fé do Nascimento saiu-se vitoriosa, e ainda vivia, sobreviveu mais um ou dois dias e, surpreendentemente, recuperou a saúde, e dela ainda se ouviu falar em 1890.
  • Corre história paralela que a matriarca teria mesmo morrido naquele dia 26 de fevereiro 1876. Não temos informações seguras dos acontecimentos, senão que o pleito municipal foi real, bem como a relação dos eleitos.

Também faz parte do anedotário histórico de Avaré [Rio Novo] que o Coronel Eduardo, culpando o padre pelo revés político, mandou jagunços agredi-lo e coloca-lo fora do lugar. Aproveitaram o momento que o reverendo cura saíra para atender um enfermo, quando o cabecilha o acercou e perguntou como bater num padre sem cometer pecado. O padre ciente das intenções disse que todo sacerdote era um representante de Deus, e somente podia ser agredido acima da cabeça. Esperto, o chefe dos jagunços mandou virar o padre de cabeça para baixo e bater-lhe à vontade por todo o corpo.   

As gentes da matriarca chamavam de Farrapos os agregados do Coronel, perdedor na Revolta dos Liberais de 1842 contra os Conservadores. Aqueles que seguiam o Coronel, diziam que os monarquistas de Avaré eram os Cascudos [Casca Grossa], ou seja, renitentes ao avanço republicano nas Américas e submissos ao Cabeça Coroada [D. Pedro II] (6).  

  • Eduardo Lopes de Oliveira saíra fugido de Sorocaba, com toda sua parentela, e somente depois de quase duas décadas chegou a Rio Novo. Durante todos aqueles anos permaneceu anônimo na região entre Itapetininga e Botucatu até que lhe surgiu oportunidade de se fixar na nova e promissora região.

Com o advento da república, os seguidores do Coronel Eduardo Lopes procuraram ir à forra contra os monarquistas, determinando expulsão de Maneco Dionísio da cidade, mas uma revolta popular, pacífica e sem precedentes no sertão, trouxe de volta Maneco quatro meses depois, para reassumir suas funções de Tabelião (7).  

Com tão grande manifestação de apoio popular, a ousadia e inteligência de Maneco Dionísio, aliado à Igreja local igualmente monarquista, extrapolou limites em fazer prevalecer por tempos leis monarquistas não revogadas pela República, por entender e defender que antes de nova Constituição aprovada, sancionada e outorgada, o governo republicano arbitrariamente já desmembrava do estado e destituía de qualquer função oficial os atos da Igreja.  

Exemplo disto foi que em Avaré não funcionou a proclamação republicana, antes de vigorar a nova Constituição, que determinava fosse respeitado o recém-criado sistema de cartórios, como responsável pela constituição oficial do registro civil, ou seja, para nele se proceder a assentos de nascimentos, casamentos e óbitos, antes realizados pela Igreja a quem também competia o registro paroquial de terras, as eleições, recenseamentos, definições de áreas populacionais e demais atos convalidados pelas leis desde os tempos coloniais.

Consta nos anais de Avaré a recusa paroquial de se cumprir ordens republicanas que determinavam os sepultamentos, só fossem realizados depois de cumpridas as exigências policiais de identificação do morto, da causa morte notificada pela autoridade responsável pela higiene e saúde do município, ou morte confirmada por duas testemunhas idôneas, e por fim a competente Certidão de Óbito expedida pelo Cartório (8). A tal ordem se opôs o padre [Antonio Gomes Xavier], conforme a descreve o Professor José Leandro Franzolin:

“Também dessa época é o impasse criado entre a Câmara e o Padre Antônio Gomes Xavier que evocando do púlpito o edital de Maneco Dionísio, recusava-se a obedecer as ordens do novo governo, que mandava que os sepultamentos só fossem realizados depois de expedido um alvará pelo Cartório e cumpridas as exigências policiais de identificação do morto e da “causa mortis” notificada pela autoridade responsável pela higiene e saúde do município. E sob a evocação de que o cemitério era propriedade particular da Igreja, prosseguia os enterramentos segundo os cânones da Igreja. Afinal, como representante da Cúria o padre afirmava estar defendendo o patrimônio de Nossa Senhora das Dores. Essa atitude valeu-lhe a antipatia do Poder Político e a Câmara dirigiu denúncias ao Bispo e ao governo do Estado. Entretanto, bem orientado por Maneco Dionísio o Padre Xavier também escreveu ao governador Américo Brasiliense que em resposta a ambos, cobrou energicamente que a Igreja e a Câmara Municipal (que ele mesmo havia guindado da situação de Vila do Rio Novo para Cidade do Avaré) que se ajustassem sem agastar e sem prejuízos para a população” (9).

E o impasse ganhou notoriedade em todo território paulista, somente resolvido com a destinação de outra área para o Cemitério Municipal.  
Outra notável discussão pós-república entre a Igreja e o Poder Público em Avaré, pode ser mais bem compreendida em relatos da própria Câmara Municipal, “a Igreja continuava, e fazia questão de continuar fiel à tradição monarquista; fato que acabou por instalar uma séria desavença com a Câmara Municipal. Os resíduos desse fato estão presentes no Museu de Avaré, em papéis autênticos e em transcrições de publicações que permitem ressuscitar e de romancear. Num desses documentos – transcrição de um edital publicado na edição do dia 1º de Maio de 1890 – “...faz saber a todos os interessados, que em virtude da decisão do Governo do Estado, de 07 do corrente e Aviso de 11 de fevereiro de 1886, competindo-lhe e não à Câmara ou à Intendência a administração dos terrenos do patrimônio, de ora em diante é a Mesa Administradora da Irmandade de Nossa Senhora das Dores, através de seu provedor que concederá datas de terrenos para edificações, mediante foro rascavel e, oportunamente venderá ditos terrenos (...) “. Como Provedor, assina o edital o mesmo admirável homem público, Maneco Dioniso que, por esse tempo não exercia cargo na vereança" (10).

Num documento de próprio punho, datado de 26 de fevereiro de 1891, o cidadão Carossa Domenico (Domingos Carozza) “(...) requer ao Sr. Provedor da Irmandade de Nossa Senhora das Dores do Rio Novo a concessão de uma data que se acha devoluta fazendo divisa com a data do Sr. Salturmi Domenico com a rua que segue pelo lado de cima e do lado do Matadouro com o Ribeirão e em caso efetivo (...)” (11). O pedido, que pela República deveria ser dirigido ao Poder Público constituído, foi deferido pela Irmandade que cuidava dos bens locais da Igreja, e o solicitante tornou-se um próspero industrial na área de pastifícios.

Enquanto não revogadas pela república, uma a uma conforme circunstâncias, as leis do império prevaleceram em Avaré.

4. LENÇOIS PAULISTA

Lençóis Paulista, anteriormente terras de uma sesmaria de meia légua de cada margem do rio Lençóis, concedida a Antonio Antunes Cárdia por D.João VI, Carta de 1818 lavrada em São Paulo, era local desabitado e livre de ocupações (1), quando o pioneiro José Theodoro fez o desbravamento da região, e nela erigiu um pouso ou ponto de apoio na rota para o sertão.

  • Antes de Antonio Antunes Cárdia os pouso e porto de Lençóis já figuravam na rota dos bandeirantes e dos caminhos religiosos, dentro de sesmarias da família dos Campos Bicudo, porém certas como devolutas quando Cárdia as recebeu para nenhuma atenção, tanto que nunca demarcadas nem apossadas conforme exigências legais. Estavam, de fato, terras abandonadas e apenas a velha estrada e o porto ainda eram utilizados pelos passantes.   

 Muitas informações históricas regionais dão conta que José Theodoro de Souza, “O bandeirante conhecido como Matador de Índios e que chegou a dizimar tribos indígenas inteiras a golpes de facão”, chegou à região de Lençóis em meados do século 19, perseguindo índios, limpando os caminhos para os primeiros povoadores, mas o fundador seria tal Francisco Alves Pereira, de acordo com a maioria dos historiadores regionais (2).

Para Nelson Faillace, sobre a obra Lençóis Paulista e suas Origens, “Realmente a figura de José Theodoro de Souza é de suma importância para o conhecimento de nossa história. Foi ele o grande desbravador, aquele que, vindo das Minas Gerais, adentrou por estes campos e matas, abria picadas, enfrentava os índios, fundava capelas e requeria posses das terras que desbravava (...). No nosso caso específico é notório que os primeiros cidadãos a aportarem estas paragens, foram Francisco Alves Pereira e seus companheiros” (3).

Alexandre Chitto (4) afirma que o fundador de Lençóis foi Francisco Alves Pereira, que por acaso chegou àquelas paragens, supostamente quando participava de uma expedição de Itu a Goiás, via rio Tietê, da qual se desligara por desentendimentos, predominando consenso que Francisco chegou a Lençóis com a mulher e filhos, escravos e mais alguns acompanhantes mineiros, para se instalar num local que denominou Bairro dos Lençóis. Seria um lugar por ele já conhecido anteriormente, quando fizera parte de expedição em reconhecimento de terras para ocupações.

Para Donato, Lençóis seria inicialmente local de “pouso na rota para o sertão” que atraiu gentes tão logo a Câmara de Botucatu oficializou o local e para lá incentivou moradores, “entre eles Francisco Alves Pereira que imprimiu tal impulso ao lugar, que logo passou a reivindicar serviços públicos (...)” (5).  

De Francisco Alves Pereira quase nada se sabe, posto que nenhum documento até hoje foi encontrado que possa comprovar sua origem, porque chegou, ou para onde se mudou após deixar Lençóis, por qual razão partiu e, menos ainda, onde foi sepultado.  Dele sabe-se apenas que durante anos conviveu, harmoniosamente, com outros moradores do local, mas a ninguém jamais revelou sua história, e os antigos que o conheceram apenas informaram que o acompanhava uma mulher e três crianças que não traziam o sobrenome Pereira, o que faz aumentar ainda mais o mistério em torno desse pioneiro.

A história oficial de Lençóis Paulista, a partir do século XIX, informa ter sido ela parte integrante do território de Botucatu, elevada à condição de Freguesia em 28 de abril de 1858, pela Lei n° 36, sob a jurisdição da comarca de Itapetininga até o ano de 1866. Aos 25 de abril de 1865, pela lei n.º 90, Lençóis foi elevado à categoria de município, sob jurisdição da Comarca de Botucatu entre 1866 a 1877, quando guindada também a Comarca conforme lei de n.º 25, de 7 de maio de 1877, com efetiva instalação em 20 de outubro do mesmo ano.

A lei 635, de 22 de julho de 1899, transferiu a sede da Comarca para São Paulo dos Agudos, secundada pela lei n° 785, de 15 de julho de 1901, que determinou o cancelamento de Comarca de Lençóis, passando a chamar-se simplesmente de Comarca de Agudos. Lençóis novamente viria recuperar sua emancipação política pela lei 2456, de 30 de dezembro de 1953, cuja reinstalação ocorreu aos 25 de janeiro ao ano de 1954.

Segundo a Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, “a freguesia que data de 28-4-1858 fora criada sob a invocação de Nossa Senhora da Piedade, que é padroeira da cidade, não se conhecendo com exatidão, em que data foi criada a paróquia, devendo, no entanto, ter sido por volta do ano de 1865, quando teve na paróquia o Re. Padre Antônio de Santa Ana Ribas Sandin seu 1° pároco, isto de 26 de fevereiro de 1861 até 2-7-1865” (6).

Lençóis, como comarca de todo oeste paulista em formação, pelo menos num tempo, exemplos de Bauru, Agudos, Pederneiras, Santa Bárbara do Rio Pardo, Macatuba, Santa Cruz do Rio Pardo, São Pedro do Turvo e Campos Novos, também foi, por longos anos, porto fluvial [Tietê] como via de escoamento mercadorias produzidas no sertão (7), rivalizando-se comercialmente com São Manuel e a própria Botucatu.

A importância de Lençóis Paulista, na penetração e povoamento dos primeiros cinqüenta anos do oeste paulista, foi de tal relevância histórica que cada município daquele século a registra, de uma maneira ou outra, em suas próprias origens.

5. SANTA BÁRBARA DO RIO PARDO

A região de Santa Bárbara do Rio Pardo foi apossada por alguns membros do bando de José Theodoro de Souza, participantes do combate aos índios em 1850/51, o que bem parece de acordo com Francisco Marins quanto aos avanços daquela tropa a partir da Serra de Botucatu (1), mais as informações do professor José Ricardo Rios, que o pioneiro descendo o rio “fundou Santa Bárbara do Rio Pardo” (2), região dividida entre os representantes das famílias Bernardino de Souza, Marques Valle e Dias Batista. 

Cinco anos depois da conquista, já registradas suas posses em 31 de maio de 1856, José Theodoro viajou para Minas Gerais para trazer povoadores, e os trouxe, sabendo nós que “Atraz, nas vertentes do Rio Pardo ficaram o Cel. Francisco Dias Baptista, José Marques do Vale, Jorgino Marques, João Gonçalves Ferreira, José Ferreira Maciel, Carlos Bernardino de Souza, Joaquim Luiz Dutra, José Pinto Cardoso etc. Mas José Teodoro de Souza quiz ir adiante” (3). Destes, Cel. Francisco Dias Baptista, José Marques do Valle, Carlos [Carrito] Bernardino de Souza, juntamente com Pedro Dias Batista [Capitão Apiaí], estão entre os primeiros moradores e fundadores oficiais de Santa Bárbara do Rio Pardo.

Diz a história das origens da atual Estância Hidromineral Águas de Santa Bárbara, que José Marques do Valle, sua mulher, seu filho Mizael e mais doze crianças, partiram da cidade mineira de Carmo do Rio Claro, em setembro de 1856, acompanhados ainda dos jovens irmãos Salustiano Bernardino de Souza e Carlos Bernardino de Souza [apelidado Carrito], rumo a São Domingos [do Tupá], visando as férteis terras às margens do rio Pardo. Uma semana depois, também de Minas Gerais partiria a família de Pedro Dias Batista, chefiada pelo [Coronel] Francisco Dias Batista, com dezoito pessoas, familiares e escravos, para o mesmo destino (4), cujas caravanas se encontraram em Botucatu e juntas chegaram a São Domingos, em janeiro de 1857, rumando a seguir para as margens do rio Pardo, onde aquelas famílias levantaram a Capela de Santa Bárbara e doaram terras para o patrimônio.

  • O nome Santa Bárbara vincula-se à esposa de José Marques do Valle que, organizada a caravana em Minas Gerais, adquiriu de um artesão, em Ouro Fino, pequena imagem de madeira em estilo barroco, daquela padroeira, da qual todos eram devotos. Levantada a capela entronizou-se a consagrada sobre o altar.

Sob certos aspectos, proximidades de datas e publicações oficiais, a história de Santa Bárbara se confunde com a de São Domingos, tanto que alguns entendem aquelas mesmas famílias também fundadoras de São Domingos: “A caravana chegou ao município de Agudos, dando início à fundação de uma pequena Paróquia, denominada São Domingos do Tupá, nas proximidades do distrito de Domélia” (5), então Santa Cruz [da Boa Vista]. A confusão aprofunda-se quando outros pretendem Santa Bárbara e São Domingos por um só núcleo, vista em matéria publicada pelo Projeto Brasil que informa Santa Bárbara “fundada em 20 de Abril de 1858, por Francisco Dias Batista e Pedro Dias Batista, como São Domingos, formada por um grupo de migrantes oriundos do Sul de Minas Gerais” (6).

  • Tais situações são confutadas pela história, posto São Domingos com origem anterior a 1850, enquanto Santa Bárbara surge como povoado apenas em 1856/57.

Giovannetti menciona que, no ano de 1867, Santa Bárbara do Rio Pardo tornou-se vila (7), elevada à categoria de município em 1876, pela Lei nº 82, conquistando assim a emancipação político-administrativa. Segundo Donato, Santa Bárbara era “já povoado razoável quando (1885) foi desmembrado de Botucatu, levando São Domingos para compor o próprio município” (8).

A primeira missa celebrada em Santa Bárbara ocorreu apenas em 1874, pelo padre visitador, o espanhol Julio Augusto Gonzáles, que permaneceu no local durante uma semana, atendendo aos fiéis e celebrando batizados e casamentos (9).

6. AGUDOS

Não se sabem nenhum nome entre os primeiros posseiros das terras de Agudos, certamente membros do exército de José Theodoro de Souza, comprometidos na guerra aos índios, a partir de Avaré, entre 1850/51. Aparentemente tais posseiros seriam empregados de Faustino Ribeiro da Silva, nascido mineiro, rico fazendeiro botucatuense, investidor de alguns de seus homens na aventura de José Theodoro de Souza e do amigo Capitão Tito Corrêa de Mello. 

A história agudense tem início oficial por volta de 1853, quando algumas propriedades, em verdade grandes extensões de terras para cultura no Ribeirão da Batalha e Barra do Córrego do Veado, Água Parada, Ribeirão Grande e Cervo Grande, são adquiridas dos pioneiros pelo mineiro Faustino Ribeiro da Silva, que também aquistou, posteriormente, outra propriedade de campos e matas na localidade denominada Conceição.

Faustino era riquíssimo, tinha escravos e trouxe com ele um grupo de mineiros como trabalhadores livres em troca de terras, na então Capela de São Paulo dos Agudos, denominação em honra ao orago Paulo e por achar-se situada na Serra dos [Morros] Agudos, parte do sistema da Serra do Mar. O fazendeiro Faustino Ribeiro da Silva faz doação, de mais ou menos treze alqueires de terras à Igreja, para Capela e futura Freguesia.

  • O fazendeiro Faustino foi Vereador e Intendente em Lençóis, quando nomeado Arruador para a localidade de Bauru.

O local apresenta sinais de povoamento maior, pelos idos de 1862, quando a Freguesia de Lençóis é separada de Botucatu “e a pequena localidade de Agudos é incluída como um dos quarteirões de Lençóis” (1).

Nos anos de 1890 chegam os paulistas vindos de Lençóis, Delfino Alexandrino de Oliveira Machado e seu genro, o Capitão Benedicto Ottoni de Almeida Cardia (2), este tido por descendente e herdeiro do antigo sesmeiro Antonio Antunes Cardia (3).

Com impulso cafeeiro São Paulo dos Agudos, já conhecido Distrito Policial, é elevado à condição de Distrito de Paz, do município e comarca de Lençóis, pela Lei nº.514, de 02 de agosto de 1897. Em 27 de julho de 1898, pela Lei nº. 543, o Distrito de Paz se torna Município, com sede na vila de igual nome, desmembrando-se de Lençóis e, aos 20 de fevereiro de 1899, tem instalado sua primeira Câmara Municipal, com o Coronel Joaquim Ferreira Souto para Presidente, e Benedito Otoni de Almeida Cardia para Intendente (4).

Pela lei 635, de 22 de julho de 1899, “a Comarca que originalmente tinha sede em Lençóis Paulista (criada pela Lei nº 25 de 07 de maio de 1877) foi (...) transferida para São Paulo dos Agudos a qual, pelo mesmo instrumento legal, foi elevada à categoria de Cidade” (5).

Em 1901, pela Lei nº 785 de 15 de julho, a Comarca de Lençóis Paulista passou a denominar-se Comarca de Agudos. Em 1955 o Município de Lençóis Paulista retornou à condição de Comarca, separando-se de Agudos.

A Lei estadual 975, de 20 de dezembro de 1905, simplificou para Agudos a toponímia da cidade, do município e do distrito de São Paulo dos Agudos (6).

6.1 AGUDOS EM FOCO

Para melhor compreensão do nosso estudo, daqueles outros tempos, Agudos tem destacada importância pelos seus vínculos político-administrativos com Lençóis, Bauru, São Domingos [do Tupá], Piratininga, Bandeirante [atual Paulistânia] e Santa Cruz do Rio Pardo, esta no ato representada pelo antigo Bairro Santa Cruz da Boa Vista [depois Dona Amélia e, finalmente Domélia].

Destarte, vejamos então o histórico oficial de Agudos (7) a partir de 16 de dezembro de 1910, quando lhe é anexado o distrito de Piratininga, desmembrado do município de Bauru, pela lei estadual nº 1225. A divisão administrativa do Brasil de 1911, compõe o município de Agudos com os distritos de Agudos e Piratininga.

A lei estadual nº 1395, de 17/12/1913, desmembra de Agudos o distrito de Piratininga, elevado então à categoria de município.
Pela lei estadual nº 1494, de 29/12/1915, desmembrado do município de Lençóis, o Distrito de Tupá é anexado ao município de Agudos. Pela datação final de ano, costuma-se dizer aquela anexação ocorrida em 1916.

Nos termos da divisão territorial brasileira, de 1933, o município de Agudos é constituído pelos distritos Agudos e Tupá. Depois, pelo decreto nº 6789, de 23/10/1934, os bairros de Santa Cruz da Boa Vista e Bandeirantes, são constituídos distritos e anexados ao município de Agudos.

  • O bairro Santa Cruz [da Boa Vista] pertencia ao município de Santa Cruz do Rio Pardo, tratando-se de núcleo residencial rural. Referido bairro já era conhecido por Domélia, corruptela de Dona Amélia, a proprietária da fazenda onde se situava o núcleo residencial.

Em divisões territoriais datadas de 31 de dezembro de 1936 e 31 de dezembro de 1937, bem como no quadro anexo ao decreto-lei estadual nº. 9073, de 31 de março de 1938, figura o referido município, com quatro distritos: Agudos, Bandeirantes, Santa Cruz da Boa Vista e Tupá.

Decreto Estadual de nº. 9775, de 30 de novembro de 1938, traz por Quadro Anexo [Administrativo / Territorial], em vigor para qüinqüênio 1939-1943, que torna extinto o distrito de Tupá e seu território passa integrar o do distrito de Agudos, ficando o município constituído, assim, dos seguintes distritos: Agudos, Bandeirantes e Dona Amélia (ex-Santa Cruz da Boa Vista). Conforme vista, num mesmo ato decretatório não só o distrito de São Domingos [do Tupá] deixa de existir, como o distrito de Santa Cruz da Boa Vista passa denominar-se Dona Amélia.

Pelo decreto-lei estadual nº 14334, de 30/11/1944, o distrito de Dona Amélia tornou-se Domélia e o distrito de Bandeirantes a denominar-se Paulistânia. Em divisão territorial datada de 1o. de julho de 1950, o município é constituído de três distritos: Agudos, Domélia (ex Dona Amélia) e Paulistânia (ex-Bandeirante), assim permanecendo em divisão territorial datada de 01 de julho de 1960.

Pela lei estadual nº. 9330, de 27/12/1995, o distrito de Paulistânia desmembra-se do município de Agudos, elevado à categoria de município.

Em divisão territorial datada de 15 de julho de 1997, o município é constituído de dois distritos: Agudos e Domélia, assim permanecendo sua divisão territorial datada de 14 de maio de 2001.

7. TIMBURI

Em 1799, a sabendas, certo Francisco Ferreira dos Santos, sua esposa Maria Prudência de Oliveira ou Maria Ferreira e o filho Antonio [ainda criança] chegaram aonde atual município Timburi, provenientes de Ouro Fino, Minas Gerais, após rápida permanência em Jaú [SP]. O rancho, onde residia Francisco Ferreira, situava-se seis quilômetros acima da confluência dos rios Itararé e Paranapanema, local daquele município.

O casal teve, depois, os filhos Emigdio, Bento e José Maria Ferreira. Viúva, Maria Prudência teve ainda os filhos João e Sebastião.

A história relata que a família viveu várias décadas sem nenhum contato com a civilização, explorando as margens do rio Itararé, apossando-se bacias de vários córregos e correntes dágua, inclusive partes no atual estado do Paraná, mas marido e mulher não podiam apresentar-se para legalização de direitos sem receios de traírem suas presenças (1).

Entretanto, a biografia de Timburi aponta “(...) Francisco Ferreira dos Santos e seus companheiros, pois consta que, aposseando a água que nasce onde está a sede da Fazenda Domiciano, a qual na barra também se chamou Ribeirão do Saltinho e das Cinco Ilhas, chegando ao alto da serra em um domingo, declararam que esta parte seria para São Domingos, do que não se lavrou documentos” (2), porque Francisco temia ser reconhecido.

  • Hoje não se excluem presenças de outras gentes em Timburi, desde os primeiros tempos de Francisco, até porque a rota do contrabando de muares passava por partes da propriedade, e a presença do pioneiro não podia deixar de ser notada. Talvez ele mesmo soubesse daquelas terras, desde antes, nalguma viagem tropeira.

Não se tem conhecimento se os homens de José Theodoro de Souza chegaram por lá, quando das razias contra Caiuás e Botocudos em Avaré, mas naquele ano já havia morrido Francisco Ferreira dos Santos, e dos seus haveres consta que “em 1850 os irmãos Joaquim e José Ribeiro Tosta registraram a posse das terras com a partilha dos bens apurados” (3), porque Francisco não pode antes fazê-lo “por haver cometido grave delito em Ouro Fino (...)” (4). Outros posseiros também fizeram o registro de suas posses em Faxina – atual Itapeva.

Sabemos que Francisco Ferreira dos Santos vendeu parte de sua propriedade, aproximadamente ¼ da área total de Timburi – medida por base no ano de 1922, à margem direita do rio Itararé, a Benedito de Tal – vulgo Chapéu de Couro, que de pronto as repassou para João Batista de Paiva, transação registrada em escrituras com a data de 06 de novembro de 1849, em Faxina (5).

  • Chapéu de Couro figurou como posseiro. “Sendo Francisco Ferreira dos Santos um criminoso, as posses eram registradas por outros, entre os quais, além dos Tosta, Pedro Rodrigues, João Antonio Leal – conhecido por João Delgado, e seu irmão Daniel. João Rodrigues, Salvador Rodrigues e Juca Euzébio” (6). Os caboclos se entendiam, e não temos conhecimento de algum tipo de desavença entre eles por questões de terras.

João Batista de Paiva e sua esposa Maria Rita Borges vieram de Alfenas [MG], com oito filhos e numerosos escravos, destacando-se de sua prole Francisco [de] Paiva que fez, na área que lhe foi destinada, um retiro para criação de porcos, o que veio trazer por Retiro o primeiro nome para a região, “cujas terras foram transferidas a vários sucessores da família até Pedro Dias Ribeiro” (7), doador de pequena área para formação de patrimônio em torno da primeira capela erigida.

Diz-nos antigos relatos que “Francisco de Paiva, filho de casal de Alfenas, vendeu este terreno [aonde viria se instalar o Distrito de Timburi] a Ildefonso José de Mello, que vendeu para Antonio Pinto da Fonseca, e este a Antonio Theodoro de Souza, cujos herdeiros a venderam a Pedro Dias Ribeiro, que fez a primeira doação para o Patrimônio Eclesiástico (...)” (8), intenção vinda de comprador a comprador, para o povoado rudimentar já existente desde os tempos de Francisco Ferreira dos Santos e seus companheiros.

Por indicação do Capitão Tito Corrêa de Mello famílias chegaram adquirindo posses de herdeiros e sucessores. “A posse de Água Preta foi feita por João Antônio Leal; a água do Poço do Dourado foi apossada por Domingos Antônio de Lima e da Areia Branca por João da Cruz Pereira. A Água do Palmital pertenceu, inicialmente, a José Alves Machado, do Rio de Janeiro, que por sua vez foi vendida a Domingos Pereira Fernandes, de Botucatu, a cujos herdeiros pertenceu a maior fazenda deste Município. Um deles, o Major José Pereira Fernandes, deu ao Retiro o nome de Santa Cruz do Palmital. Estava, assim, estruturada a povoação do nascente Distrito” (9), onde se ergueu outra capela ao centro de uma área doada à Igreja para formação do novo povoado, extinguido que foi o antigo Retiro.

Santa Cruz do Palmital tornou-se Distrito de Paz do município e comarca de Piraju, pela lei 869 de 21 de agosto de 1903, publicada apenas em 11 de outubro de 1916, já com a nominação Timburi [Timbury] (10) em razão de grande quantidade de madeira com esse nome na região.

  • A historiógrafa Marileide assinala um nome intermediário, entre Santa Cruz do Palmital e Timburi, posto que “(...) existe na cidade, em, poder do Sr. Lindolfo Camargo Alves, um documento de escritura pública de compra e venda de um imóvel, no livro de notas n° 03 fls. 62 e verso 63, referência a um terceiro nome, dado ao referido distrito, de Santa Cruz do Paraíso datado de 20 de abril de 1901 tendo como vendedores Manoel Simões da Silva e sua mulher Maria Pereira de Brito, e como comprador, Antônio Martins Estevão; transação feita no valor de um conto de réis. Esta escritura foi feita pelo tabelião Manuel Luiz Valim” (11). Aparentemente trata-se de erro cartorário ou de informação.

Timburi atingiu a sua emancipação política, através de um plebiscito, pela lei 233 de 24 de dezembro de 1948, e sua primeira eleição em 13 de março de 1949 com posse aos 02 de abril do mesmo ano (12).

8. SANTA CRUZ DO RIO PARDO

Clique aqui para ver na integra Santa Cruz do Rio Pardo Historiografia Cronológica para o Século XIX

8.1 RETROAÇÃO HISTÓRICA

Às vezes confunde-se Santa Cruz do Rio Pardo com o bairro Santa Cruz [da Boa Vista] – atual distrito de Domélia, município de Agudos, citada em 1857, nas proximidades de São Domingos [do Tupá], também à beira daquele caminho que, vindo de Botucatu e por São Domingos, descia em direção ao rio Paranapanema, pelo Vale do Pardo, caminho este que das proximidades da atual Santa Cruz do Rio Pardo pretendia-se uma senda em direção a Campos Novos Paulista.

  • Historicamente o lugarejo Santa Cruz da Boa Vista, conhecido por Bairro de Santa Cruz, é o atual Distrito de Domélia, com nome intermediário, Dona Amélia, que lhe foi dado pelo Decreto Estadual 9775, de 30/11/1938, simplificado depois para Domélia, em 30/11/1944, pelo Decreto-Lei Estadual 14334 (28). O bairro pertenceu à jurisdição político-administrativa de Santa Cruz do Rio Pardo, até sua anexação ao município de Agudos pelo decreto 6789 de 23/10/1934.

Intentado pelo bandeirante Bartholomeu Paes de Abreu em 1721, referido caminho foi largamente utilizado nos tempos dos jesuítas botucatuenses, e sobre ele se assentou parte da estrada projetada pelo governo Morgado de Mateus em 1771, com arranchados à sua margem daquele trecho aberto pelo menos até onde a atual Santa Cruz do Rio Pardo, conforme atestam documentos oficiais e tão bem já nos informou Hernâni Donato.

Havendo arranchamentos e estando o lugar, da atual Santa Cruz do Rio Pardo, a meio caminho da estrada [picadão] que chegava ao Paranapanema e era princípio de outra, rumo a Campos Novos, admite-se para Santa Cruz do Rio Pardo ao menos algum ajuntamento de ranchos em 1771, local de pouso e parada aos passantes, como bem nos dá prova a carta-ofício de 12 de fevereiro de 1771, do governador de São Paulo, que obriga ajuda compulsória dos moradores “arranchados ao longo do traçado previsto” (29), ao encarregado de abrir o caminho de Botucatu à barra do rio Pardo.

Não existe informe algum quanto tempo tenha durado aqueles arranchamentos, nem o que foi feito dentro da sesmaria de Antonio de Almeida Taques [1772] – outorgada à família por volta de 1725/1730, que abrangia terras além do rio Pardo até sua barra no Paranapanema, portanto inclusa Santa Cruz do Rio Pardo. A assunção de Martim Lopes ao governo de São Paulo, fez desaparecer muita das realizações e obras pretendidas pelo seu antecessor, o Morgado de Mateus, a partir de Botucatu, como o abandono oficial do pretendido caminho para Guatemy em 1777, quando tomado e destruído o presídio [forte] Iguatemi, e certamente o cessar de incentivos aos incipientes arranchamentos do Vale do Pardo.  

  • Já a partir de 1776 o governador Martim Lopes se encarregou de desmanchar qualquer obra de seu antecessor, apagar-lhe os vestígios, desmoraliza-lo e de vez sepultar os projetos e realizações, a tornar o sertão a partir de Botucatu em completo abandono, possivelmente um ou outro indivíduo arranchado, talvez alguma família embrenhada em suas matas.

Comprova-se, por documentos e citações históricas já postas, que o fazendeiro João Álvares de Araújo, por volta de 1730 ou pouco depois, tenha se posicionado além do rio Pardo, onde se pretendeu em 1771 a confluência dos caminhos à barra do Pardo e início para Campos Novos, que o Morgado de Mateus, governador da Província de São Paulo confirmou abertura em 1772, até o entroncamento nas imediações de Santa Cruz, parte menor daquilo que até onde desejava realizar.

Desconhecendo continuidade ou não de conjuntos de ranchos onde hoje Santa Cruz do Rio Pardo, cabe registro que ali nada mais pareceu existir, naquilo que se pode acreditar de um pronunciamento na Câmara Municipal de Itapetininga, de 15 de agosto de 1845, quando o fazendeiro botucatuense e vereador em Itapetininga, capitão José Gomes Pinheiro Machado, se pôs a reclamar condição de freguesia para Botucatu, por ser “(...) inegável que aquele território tem propriedade para berço de uma populosa vila, porque a abundância de campos, além de outros que se poderão descobrir, boas matas de cultura, fertilizada de vertentes colocadas entre dois poderosos rios, Paranapanema e Tietê, clima salubre e abundância de peixe e caça, a cana, café, fumo e algodão têm aí franca vegetação, além do terreno que vai findar nas margens do Paraná”. O vereador acrescenta que “Onde faz barra o rio Pardo no Paranapanema há um extenso terreno coberto de matas de cultura muito boas, e apropriado o lugar para edificar-se uma colônia estrangeira, lugar salubre (...)” (30).

Compreende-se disto a pretensão de se fixar colônias de estrangeiros no Vale do Pardo, mais propriamente na altura de Santa Cruz do Rio Pardo, a deduzir Hernâni que “A ser exata a notícia que da terra fornece o capitão José, além da criação do gado, era já regular o cultivo do algodão e do fumo e, mesmo, começava aparecer a do café” (31).

9. PIRAJU

O povoado Piraju [antes Tijuco Preto] situado “na rota de antigos caminhos tropeiros, e da penetração acelerada de pioneiros na metade do século 19 (...)” (1), aliás, Tijuco Preto seria a semelhança dos sons da expressão guarani Teyquê-pê que significa Caminho de Entrada (2). Pelas indicações trata-se dum picadão aberto por tropeiros, em direção a Botucatu, para escapar da fiscalização e pagamento de taxas sobre os animais que traziam do sul do país.

Diante do exposto é possível o início de Piraju, com seus primeiros arranchamentos, por volta de 1800, fato já existir a tal estrada que atravessava suas terras e servia de acesso aos viajantes do sul para diversas localidades, como os Campos do Paiol e a Serra de Botucatu. Por ser ponto de passagem e graças à fertilidade do solo, certamente uns e outros colonos foram ali se estabelecendo, tomando posse e construindo os primeiros ranchos de moradia.

Em seu histórico sobre Piraju, o autor Oswaldo de Almeida cita o erudito Escragnolle Doria, para quem “em 1847 veio para a região que hoje pertence a Itaporanga um frade capuchinho, Frei Pacífico Montefalco, como guia espiritual que, atravessando o rio Itararé, se fixara nas proximidades do rio Verde. O referido frade fundou um patrimônio, sob o orago de São João Batista, sendo possível, então, que as famílias dos Gracianos e dos Faustinos tenham procedido de Itaporanga para Piraju onde se estabeleceram” (3).

São certas as presenças das famílias Graciano e Faustino, ao lado da Nunes, em região de Piraju, no ano de 1859, quando da chegada de Joaquim Antonio de Arruda, com a família, os escravos e agregados. Joaquim Antonio de Arruda, parente do Barão do Rio Branco, chegou a Piraju vindo de Tietê, em 1859, passando por Rio Novo [Avaré], Três Ranchos [Cerqueira César], São Bartolomeu [São Berto] e Manduri, até avistar-se com as três famílias precursoras para ajustes de divisas, aparentemente recuando Nunes para a região de São Berto e Manduri, onde se tornou próspera família, deixando de fazer parte da história de Piraju.

  • Domingos Faustino de Souza, João Antonio Graciano [este de Cambuí – MG] e Nunes – incerto o prenome, se têm por membros da expedição de José Theodoro de Souza, na Guerra aos Caiuás e Botocudos em 1850/51, compensados com terras na região de Cerqueira César, estendidas desde São Berto e Manduri às margens do Paranapanema – Piraju, no intuito que aquelas terras não viessem ser retomadas pelos índios, nem apossadas por aventureiros que logo chegariam àquelas paragens (4).

Com as doações das famílias de Joaquim Antonio de Arruda, João Antonio Graciano e Domingos Faustino de Souza (5), fundou-se o patrimônio a que foi dado o nome de São Sebastião do Tijuco Preto, em fins de 1860, alguns dizem em honra ao santo de devoção da família Arruda, tanto que o patriarca trouxera consigo uma imagem esculpida em madeira, que ainda hoje existe na Matriz local. Outra versão diz tal nome em virtude de uma imagem de São Sebastião, datada do século XVII, encontrada em poder dos índios que habitavam a região (6).

Antigos relatos, no entanto, dão conta que a imagem de São Sebastião pertencia ao aldeamento indígena existente nas proximidades desde 1854, sendo tal levada pelo pioneiro Joaquim Antonio de Arruda, ou a ele cedida pelo administrador José Joaquim Alves Machado. Entretanto, alguns dos índios não concordando com a troca ou cessão, tiraram-na do altar e a retornaram para a aldeia, então invadida de assalto pelos brancos, com extrema violência e à força das armas retomando a imagem.

Alguns relatores abrandam a história, que a imagem fora trocada por ferramentas e objetos de utilidade para a aldeia, e posta no altar da capela de onde foi retirada por alguns índios discordantes, revoltando-se um grupo de brancos que recuperou a imagem, quase à força (7).

Oficialmente a existência do Aldeamento Indígena de Tijuco Preto, fundado em 1854, nenhum historiador parece associar o início de tal instituição com alguma povoação branca nas imediações, senão a partir de 1859/1860. Também os relatórios oficiais da Câmara Municipal de Botucatu, co-responsável com Itapetininga pelo Aldeamento, ou atos de ofícios da Direção, nada prestam quanto algum possível povoado nas adjacências antes de 1859.

A primeira missa, como fundação ou consagração do povoado, foi realizada no dia 20 de janeiro de 1861, sendo oficiante o capelão Frei José Loro, de Itaporanga, numa capela na confluência das três posses dos doadores, onde já construídas as primeiras casas.

Em 1866 foi construída uma outra capela, em substituição a anterior, bastante tosca com vigas de madeiras encaixadas nos esteios de cantos, para apoiar as paredes, partes de barro e tijolos. Esta capela tornou-se a primeira matriz quando, em 29 de agosto de 1872 deu-se a criação da Paróquia de São Sebastião do Tijuco Preto, que passa pertencer [1877] à Comarca Eclesiástica de Santa Cruz do Rio Pardo, até sua elevação também como Comarca Eclesiástica, quase ao final do século XIX. 

Em 1871 foi criado o distrito de "São Sebastião do Tijuco Preto", pertencendo ao município de São João Batista do Rio Verde (Itaporanga), mas sua sede eclesiástica até a emancipação foi Santa Cruz do Rio Pardo, a partir de 13 de janeiro de 1873.

São Sebastião do Tijuco Preto tornou-se vila em 25 de abril de 1880 e município no mesmo ano. O governo da Província de São Paulo concedeu-lhe o nome tupi-guarani de Piraju – Peixe Dourado, em 1891, a pedido da Câmara Municipal de São Sebastião do Tijuco Preto. A comarca foi criada em 1892.

10. SÃO PEDRO DO TURVO

Em 1847 o desbravador José Theodoro de Souza, em sua primeira incursão pela região, teria escolhido o lugar aonde São Pedro do Turvo, para sua moradia junto dos familiares, caso viesse se apossar daquela terra.

Nos anos 1850/51, conforme já referências e documentos indicados, o pioneiro José Theodoro de Souza estava com seu bando a praticar razias em territórios indígenas, desde as margens do rio Abaré-y ao de Lençóis, Batalha, Peixe, Pardo, Turvo e Paranapanema, enquanto seus familiares eram trazidos de Minas Gerais, em segurança, para as regiões do rio Turvo.

O pioneiro e a comitiva se encontraram em São Domingos [do Tupá], no mês de junho de 1851, para continuidade de viagem até o local que escolhera para si e os seus, que viria denominar Capela de São João Batista, hoje a São Pedro do Turvo.

Theodoro e comitiva chegaram pelo caminho situado no espigão entre os rios Pardo e Turvo (1), ou seja, o leito da antiga trilha jesuítica do século XVIII, depois passagem oficial militar de 1772, cujo trajeto passava “nas vizinhanças da hoje Santa Cruz do Rio Pardo (...)” (2), onde a comitiva fez pouso antes de prosseguir viagem para São Pedro do Turvo.

“Assim é que, pelos meados do ano de 1851, José Teodoro de Souza e sua comitiva atingiu estas paragens [São Pedro do Turvo]; rezam as crônicas que eles aqui chegaram no dia 26 de junho de 1851, onde deliberaram, dada a fertilidade das terras, a abundância de água e de madeiras de lei, erigir a primeira povoação que seria, não só a base, mas também o quartel general de seu arrojado empreendimento. Isto em região então habitada pelos índios Xavantes” (3).

Termo legal de transmissão gratuita de domínios indica que José Theodoro de Souza e esposa, Francisca Leite da Silva, “doavam dentre os seus bens que possuíam entre os rios de nome São João e o ribeirão de nome São Pedro, da barra deste em o rio São João, subindo por eles acima de um e outro lado a distância de um quarto de légua, isto é, o terreno que fica compreendido dentro do rio São João e Ribeirão São Pedro, para neste terreno se edificar uma capela e freguesia dedicada ou invocada a São João Batista”. Referido documento foi lavrado aos 27 de abril de 1852, no Cartório de Paz da Freguesia de São João da Boa Vista do Jaguari, agora São João da Boa Vista, da Sétima Comarca da Imperial cidade de São Paulo (4).

O nome Capela de São João Batista logo seria mudado para São Pedro dos Campos Novos do Turvo, por volta de 1857, pela existência anterior de outra Capela São João Baptista [depois São João Batista da Faxina, São João Batista do Rio Verde e, finalmente, Itaporanga]. A denominação São Pedro não confundiria com Capela de São Pedro porque esta passou a se chamar, na mesma época, Santa Cruz do Rio Pardo.   

Arruda Dantas informa que Theodoro “localizou os companheiros nas imediações do local, estabelecendo cada um em águas que vertiam para o rio Turvo, próximo, e São João, e cuidou de efetuar as primeiras plantações para garantia do abastecimento da arrojada aventura” (5). Trabalhar a terra de imediato era garantia não só da sustentação do grupo, como também, de manutenção de posse.  

O pioneiro Theodoro fixou por ali residência até sua morte em setembro de 1875, pouco depois de ver o local ser elevado à condição de Distrito de Paz São Pedro dos Campos Novos do Turvo, município de Lençóis, em 5 de julho de 1875, pela Lei Provincial de número 4. Em 24 de fevereiro de 1876 foi o Distrito transferido para o município de Santa Cruz do Rio Pardo.

  • Por um período de quatro anos, 1864-1868, José Theodoro residiu em atual Campos Novos Paulista, localidade também por ele fundada.

A importância de São Pedro do Turvo no século XIX, certamente foi não apenas por nela residir o então maior latifundiário da Província de São Paulo, mas pela instalação de base de apoio aos sertanistas e quartel general para os bugreiros, além de centro de comercializações de terras, entre 1851 a 1864, a todos quantos pretendiam avançar o sertão.

Pela Lei Estadual 181 de 29 de maio de 1891, o Distrito foi posto a município, na condição de Vila, desmembrando-se de Santa Cruz do Rio Pardo, porém somente a receber foros de cidade aos 19 de dezembro de 1960, conforme Lei 1038.

São Pedro dos Campos Novos do Turvo, pela divisão administrativa do Brasil em 1911, teve o nome reduzido para São Pedro do Turvo. Pela divisão administrativa de 1933 e as territoriais em 1936 e 1937, o município ficou composto de dois Distritos: São Pedro e Ubirajara (antiga localidade de Caçador), este desmembrado e elevado a município pela lei estadual nº 223, de 24 de dezembro de 1948.

Pelo Decreto-Lei Estadual nº 9073, de 31 de março de 1938, São Pedro do Turvo tornou-se componente ao termo judiciário de Santa Cruz do Rio Pardo.

10.1 IMPORTÂNCIA REGIONAL

São Pedro do Turvo simboliza sem dúvidas a ousadia do pioneirismo de José Theodoro de Souza, como referência e caminho àqueles interessados em demandar o sertão. Não era apenas lugar de pouso habitado por um punhado de lavradores, e sim uma verdadeira fortaleza onde moravam os parentes do pioneiro e seus principais homens de guerra, intrépidos sertanistas matadores de índios que garantiam a segurança não só do lugarejo, mas de todos que desejam terras protegidas, o máximo possível.

Durante o período do pioneirismo oeste paulista adiante do rio Turvo, entre 1851 a 1875, São Pedro foi sede principal das compras e vendas de terras, cabeça de sertão e empório comercial, para onde afluíam, também, os habitantes já mais adentrados no sertão, ainda antes de Campos Novos e Conceição de Monte Alegre se revelarem bases importantes como pontos avançados e de segurança aos desbravadores.   

Apesar de sua importância sertaneja e condição de ultima sentinela da civilização do Sertão Paranapanema, São Pedro do Turvo era um núcleo habitado quase somente por parentes e agregados do pioneiro, por isso com poucas casas. Não prosperou muito em mais ou menos meio século, pois em 1904, escreve Cornélio Schimidt – Diário de uma viagem pelo sertão de São Paulo, a vila tinha 77 casas e em torno de 500 moradores – Publicação Anais do Museu Paulista Tomo XV, 1961, páginas 423.

Não era muito mais que nos tempos do pioneiro. Após a morte de Theodoro, em 1875, o povoado viu partir seus primeiros filhos para a chegada de outras pessoas, adquirentes de terras já desbravadas. Os pioneiros, aos poucos, venderam suas terras, a bom preço, para se aventurar em novos lugares que se povoavam.

Na virada do século XIX para o XX, São Pedro nada lembrava a base de apoio e quartel general de Theodoro, porém desde 1876 por lá se estabelecera José Ferreira da Silva, o Silvinha, como primeiro chefe político local cuja relação com o poder provincial contribuiu, para desmembrar São Pedro de Lençóis, de certa forma auxiliando Santa Cruz do Rio Pardo ser guindada às condições de vila e município. Em 1891 conseguiu que a própria São Pedro ganhasse foro de município.

Com a morte de Silvinha, Coronel João Pedro assumiu o mando político local, com pretensões regionais em oposição ao Coronel Tonico Lista, até ser vítima de assassinato em 1908, sendo suspeito pela execução do crime o Coronel Marciano José Ferreira.

Coronel Marciano marcou época no sertão e dele nos fala Amador Nogueira Cobra, Em um recanto do sertão paulista, Typ Hennies Irmãos – São Paulo, edição 1923, às páginas 217, grafia da época: “Viera de São Simão para o Paranapanema, em companhia de outros parentes, entre os quaes o cel. Antonio Evangelista da Silva, chefe político de prestígio em S. Cruz do Rio Pardo, onde há pouco morreu assassinado; Virgilio Ferreira, Lydio Ferreira e outros residentes em Salto Grande; Azarias Gomes Ferreira e Joaquim Ferreira de Lima , em Platina, além de filhos e genros, residentes no Turvo [São Pedro do Turvo]. Por questões políticas tornára-se inimigo do chefe de Campos Novos [o Coronel Francisco Sanches de Figueiredo], depois de ter sido, por alguns annos, companheiro deste e também chefe. Retirou-se, por isto, para o vizinho município [São Pedro do Turvo]”.

Com o misterioso desaparecimento do Coronel Marciano em 1911 - adiante descreveremos o assunto, fez-se chefe político o Coronel Manoel Marques Vieira e, no distrito de Caçador [atual Ubirajara] pertencente ao município de São Pedro, o Coronel Porcino de Lima, ambos aliados do Coronel Antonio Evangelista de Souza.

O lugar teve participação na formação desenvolvimentista do Vale Paranapanema, sem experimentar as conseqüências desta evolução por ser núcleo essencialmente familiar, enquanto viveu o pioneiro José Theodoro de Souza até 1875.

Seu ingresso no cenário sertanista já estava defasado em relação a outras regiões, pois que a civilização já ia adiante de Conceição de Monte Alegre.

PÁGINAS: 01 - 02 - 03 - 04 - 05 - 06 - 07 - 08
 Voltar     Imprimir
DESENVOLVIMENTO E HOSPEDAGEM DE WEBSITES