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RAZIAS
INCURSÕES PREDATÓRIAS EM TERRITÓRIOS INDÍGENAS DO VALE PARANAPANEMA

PARTE II – OS EXTERMINADORES DO PASSADO

 

BRANCOS QUE ATACAM, ÍNDIOS QUE MATAM

José Theodoro era um obsidente exterminador de índios, através das razias com emprego das dadas. Parecia acreditar-se ungido numa missão de eliminar índios, para a chegada do homem civilizado e a promoção do progresso.

Segundo antigos contadores regionais, em partes expressos conforme narrativa de Francisco Marins, em sua obra Clarão na Serra (1), para caça ao índio Theodoro levava consigo um bom número de jagunços, todos fortemente armados com o que havia de mais moderno e mortal dentre os equipamentos de guerra que pudessem carregar às costas, em busca da aldeia pretendida.

A viagem era cautelosa, rápida e silente, procurando postarem-se nas cercanias do aldeamento altas horas da noite, para distribuição dos homens em pontos estratégicos. Eram incursões ligeiras, menos de dez dias, pelas dificuldades de se levar mantimentos, armas e munições às costas de cada soldado.  

Para bons efeitos das táticas de guerras em cercar os inimigos, Theodoro colhia informações de seus índios domesticados, que lhes serviam de espiões. Por isso sabia como se deslocar pelos campos, cerrados e matas, bem como dividir seu exército.

  • Nas matarias não se usavam animais para qualquer tipo de cerco pela vulnerabilidade do atacante, dificuldades de movimentação e presença facilmente denunciada.

Aguardava o amanhecer para dar sinal de ataque, procurando surpreender o inimigo ainda na indolência do sono, quando uns atiravam e outros invadiam os ranchos com ataques a facões e punhais, pondo em fuga os sobreviventes que iam exatamente à direção pretendida, ou seja, num beco sem saída, onde eram abatidos pelos atiradores, sem piedade. Não era fácil algum indígena sobrevivente, como difícil algum branco ferido sob proteção de escupis – grossos jaquetões feitos e preparados a prova de flechas.

Dentro dos ranchos mulheres e crianças eram mortas a golpes de facões e os velhos, geralmente, degolados. Disto advinham as maiores crueldades imagináveis, ventres rasgados, corpos infantis atravessados por punhais, empalações, membros decepados.

Algumas vezes incendiavam as moradias, enquanto os soldados colocados em seus pontos estratégicos aguardavam os fugitivos, para abatê-los a tiros. Em outras, quando não incendiavam tudo, os assassinos deixavam água e vitualhas envenenadas, caso algum sobrevivente ou ausente necessitasse delas.

Os índios temiam as dadas e as razias, o que os levava para bem longe da região, assim a salvos da morte, não sendo incomum encontrar aldeias desabitadas recente ante a simples ameaça que Theodoro precisava de índios, ou estava na região. Por isso os xavantes e guaranis caiuás, dos campos e cerrados, quando não podiam fugir, bem rápidos vinham se colocar ao dispor para preamento, tão logo o caçador saísse para as costumeiras caças. Era-lhes mais interessante morrer alguns dos seus que exterminados membros de toda tribo; e ele [Theodoro] realmente fazia matar aqueles alguns para se fazer respeitar pelos restantes e mostrar-lhes sua magnanimidade em deixar sobrevivente. Theodoro executava apenas índios velhos, crianças e grávidas, tomando os demais por escravos a favor dos sertanejos.

Para preação Theodoro preferia os campos abertos porque lhe era mais fácil combater índios cujas defesas e ataques tinham pouca eficácia diante das armas de fogo do sertanista. Mais que isto, quase não encontrava resistências, pois que xavantes e caiuás temiam-no, certamente em lembranças às investidas mortíferas que o sertanista lhes aplicara em 1850. Os destroços Xavantes e Caiuás fugindo de Theodoro, não podiam entrar nas matas dos rios do Peixe, do Feio e do Paraná, sem defrontarem com outro inimigo igualmente cruel, os Caingangues, preferindo ser escravizados pelos brancos, nem todos maus, que a dizimação em mãos Caingangues. 

José Theodoro não temia os Caingangues, mas raramente os capturava para servidão, preferindo mata-los todos, porque eram os terrores dos sertanistas e atrapalhavam em muito o progresso do sertão.

Pelas atitudes do sertanista-mor pouco lhe importava o direito indígena de viver, ter sua liberdade, o seu zelo pelas terras, os seus apegos familiares, o respeito pelas crianças e gratidões aos velhos. Theodoro, em suas razias e dadas, mostrava-se desbravador sem nenhum outro fito que não matar índios, escraviza-los e tomar-lhes toda a terra. Deixa-los viver em liberdade era a quase certeza que eles voltariam, mais fortes e unidos, para os contra-ataques.

Um dos tantos textos da época descreve os horrores das dadas praticadas, para concluir que a terra empapada de sangue era sempre terra mais fértil, numa paráfrase ao Coronel Alfredo Marcondes Cabral, um desenvolvimentista do oeste paulista, ao se referir às disputas assassinas pelas terras desde os tempos de Theodoro (2).

Mas os índios também matavam brancos, em defesa territorial e um ou outro caso de vinganças, apesar da desigualdade de armas e dos objetivos de lutas. Para alguns autores, Giovannetti entre eles, aconteceram lutas violentas entre bárbaros selvagens e os homens civilizados, na verdade alguns ataques Caingangues contra indivíduos ou grupos reduzidos, eivados de extremas crueldades, como empalações, degolas, crucificações, esquartejamentos, práticas que os indígenas aprenderam dos brancos.

Os Caingangues não tinham por regra atacar povoados, embora alguns registros de ataques indígenas, pelos Caingangues, de grandes proporções, contra a Vila de São José do Rio Novo [Campos Novos Paulista], em 1874 em citado episódio que ficou conhecido em todo sertão, por Batismo de Sangue de Campos Novos.

São muitos os relatos de ataques indígenas contra os brancos, mais entre os rios Peixe e Feio/Aguapeí, uns isolados e outros na atual região de Paraguaçu Paulista, onde ficaram célebres os embates dos coroados com a família Vieira. A maioria desses encontros ocorreu depois da morte do pioneiro José Theodoro de Souza.

O primeiro embate sério entre índios e brancos, já morto Theodoro, aconteceu nas proximidades de Paraguaçu Paulista, em 1878, Fazenda Água das Mortes, quando de inesperado ataque indígena a José Theodoro de Souza Junior [Teodorinho] e suas gentes, com saldo de treze brancos mortos, inclusive Teodorinho e toda sua família, e uma criança levada pelos índios, que Giovannetti menciona e cita testemunhos dos irmãos Joaquim e Jerônimo Vieira (3).

O filho de José Theodoro de Souza morreu flechado e teve o corpo esquartejado, seus camaradas também foram mortos, enquanto mulheres e crianças refugiaram-se numa das casas, logo cercada pelos índios que ali consumaram a matança, inclusive a esposa e filhos de Teodorinho, salvando-se apenas uma mulher e seu filho de três meses, escondidos numa moita salvadora (4).

Da chacina na Água das Mortes, embora Leoni assegure que apenas uma mulher, por nome Nicolaia, se salvou, sem criança alguma (5), na região de Paraguaçu Paulista descendentes da primeira e segunda geração de João Batista Vieira, fonte primária de José Jorge Junior, se lembravam que a mulher sobrevivente, já em Minas Gerais, procurou pela família para contar-lhe o acontecido e dissuadi-la, em vão, de fazer sertão (6).

Pretensos herdeiros de José Theodoro de Souza firmam-se descendentes de José Teodorinho, por aquela criança salva da mortandade. Não procede, aqueles sobreviventes [mãe e filho] foram para sua família em Minas Gerais.

Anterior a 1880 aconteceu um outro massacre pelos Coroados [Caingangues], que atacaram e incendiaram o rancho de José Vieira – Vieirinha, agregado do fazendeiro Joaquim Vicente Ferreira, na Água do Brejão, região de Paraguaçu Paulista. “A mulher sucumbiu no próprio leito, e, ele, não passou da porta do seu rancho em chamas, caindo flechado pelos índios. Os pequenos, à medida que se libertavam da fornalha, iam sendo massacrados impiedosamente. A filha mais velha, entre menina e moça, em desabalada carreira foi mais longe na sua fuga (...) a sua sorte, porém, estava selada. Ao atravessar a pinguela certeira flecha traspassou-lhe o corpo franzino”. Morreram o casal e cinco filhos (7).

Por volta de 1883 foi vez do fazendeiro Joaquim Vicente Ferreira e dois agregados, um deles por nome Vicente Garcia, quando faziam descoivara final da terra. Os índios caíram-lhes em cima matando-os a golpes de bordunas, retalharam os corpos e decapitaram Vicente e sua cabeça levada pelos atacantes. Um filho de Joaquim, que estava mais distante do grupo, conseguiu empreender fuga (8)

Em 1887 os Coroados [Caingangues] promoveram ataque surpresa ao fazendeiro Manoel Pereira Alvim e seus ruralistas, pondo em fuga os brancos, os indígenas pacificados e os escravos negros à exceção de Luiza, que ficou junto do seu senhor e de Antônio Luiz Ferreira, genro de Alvim, que foram então mortos e esquartejados, sendo a cabeça de Luiz levada pelos índios. A mulher de Alvim ficou ensandecida, e sua filha, esposa de Antonio Luiz, entrou em choque vindo falecer três dias após (9).

Os Pereira Alvim foram à forra seguindo trilha dos assassinos, com sessenta homens fortemente armados, para além do rio do Peixe e, já nas vertentes do Feio, encontraram uma única aldeia, com velhos e feridos, imediatamente mortos. Sem outros índios à vista ou saciada a vingança, fizeram pouso a margem do rio do Peixe e, ao amanhecer do dia foram surpreendidos pelos índios, num ataque rápido que deixou dois brancos mortos e os demais postos em fuga (10).

Giovannetti diz do encontro entre os índios Coroados com a população de Paraguaçu Paulista, próximo mais ou menos meio quilometro do centro, com mortes para ambos os lados, sendo os índios rechaçados (11).

  • Paraguaçu Paulista ainda não existia, estando o centro referido por Giovannetti aonde hoje a Igreja Matriz.

Em 1898, no Vale do Feio à margem do rio Dourado, os índios Caingangues atacaram e mataram dois roceiros, com alto grau de crueldade, mutilando os corpos; ao pri­meiro degolaram, descalçaram uma bota, enquanto que a outra foi cortada com a própria perna e tiraram-lhe todas as roupas e o submeteram ao suplício da empalação.  Ao segundo cortaram e levaram um braço, cortaram mais a mão e os pés, rematando as atrocidades com a empalação (12).

Ainda no Feio/Aguapeí, num bairro chamado Pires, próximo á fazenda Acam­pamento, Caingangues atacaram dois jovens roceiros, degolando-os e dando-lhe fortes mordidas no rosto desfigurando-os; também lhes amputaram as mãos e os pés. A mãe viu ao longe a terrível morte dos filhos, reuniu gente armada se pondo ao encalço dos assassinos, enquanto estes numa estratégia de fuga pensada, retornaram ao povoado para saqueá-lo enquanto vazio de homens, com especiais atenções na residência daquela mãe enlutada.

Também em 1898, outro grande ataque teria acontecido no bairro rural do São Mateus [Paraguaçu Paulista], local denominado Aldeia – um reduto de índios pacificados, onde Caingangues selvagens atacaram e mataram dez famílias da mesma tribo que se deixaram civilizar, portanto a quebrar regras tribais (13). Os índios massacrados pertenciam antes ao Coronel Francisco Sanches de Figueiredo e moravam na Fazenda do Coronel, em Palmital, sendo removidos, por motivos de segurança, para a Aldeia, em terras das famílias Alvim e Paiva, porque já ameaçados pelos Coroados selvagens (14).

Por vingança porque não índios se envolveram num problema tribal, não se sabe, os Caingangues voltaram atacar no São Mateus, margem direita, fazendo vítimas fatais três escravos do fazendeiro José Antonio de Paiva.

João Baptista Vieira e Silva e os filhos Jerônimo, Domingos [Minguta] e Joaquim, mais o genro José Antonio da Costa Vasconcelos, outros brancos e escravos, num verdadeiro exercito de homens adultos, fixados na região hoje de Paraguaçu Paulista, foram os que mais confrontos tiveram com os Caingangues, ora em combates diretos, ora em defesa ou socorro de outras famílias vítimas dos ataques.

Giovannetti diz que embates entre os Coroados e a família Vieira eram constantes, certamente porque os Vieira fixaram residência no imóvel Fazenda Pontinhas, bem a meio do caminho e de comunicação entre as tribos do Peixe com as do Paranapanema (15).

O mais violento combate entre os Vieira e os Caingangues acontecera, acredita-se em 1888, quando o patriarca João Vieira fora vitima de ataque indígena, mas socorrido pelos parentes escapou ileso das mãos dos assaltantes. Apesar de ter sido ocorrência sem maior conseqüência, poderia ter sido pior, João Vieira optou pelo ataque punitivo contra os índios, organizando uma expedição de voluntários da região, de negros escravos, índios catequizados em São Pedro de Alcântara [Jataizinho – Pr] e mais o bugreiro Francisco Lourenço, homem experimentado nas razias e nas dadas contra indígenas (16).

Sob ordens de Jerônimo Vieira e de Chico Lourenço, a expedição partiu rumo a atual Tupã, atravessaram o Peixe para encontrar uma grande aldeia nas vertentes do Feio, onde numa emboscada, nunca esclarecida, exterminaram aqueles Caingangues, à exceção de uma criança de, aproximadamente, quatro anos, tomada pelos índios mansos com objetivos de criá-la.

Praticada a matança a expedição pôs-se de volta por caminho onde outros Caingangues os aguardavam, tocaiados próximos a um rio desconhecido. O primeiro a tombar foi um índio catequizado, depois outro ferido e assim começou a batalha até que os atacantes se retiraram mata adentro.

Os índios catequizados vingaram-se na criança Caingangue fazendo-a aos pedaços, antes que algum membro da comitiva pudesse impedir a barbárie.

Jerônimo Vieira, ferido num dos braços durante confronto, jamais comentou os horrores desta dada. Antigos moradores de Paraguaçu Paulista, amigos da família Vieira, creditavam o massacre aos índios pacificados ou aos negros, talvez para abrandamento da consciência de Jerônimo, que nunca vira tantos horrores quanto àqueles praticados por Chico Lourenço e demais participantes da expedição, com maiores ou menores participações, todos igualmente cruéis (17).

Depois de quase uma década, pelas informações de José Jorge Junior, os Caingangues voltaram atacar, em 1896, desta vez para matar ex-escravos negros que invadiram um roçado que os indígenas por lá iniciavam. Aparentemente o grupo atacante seria formado de remanescentes Coroados que pretendiam se estabelecer às margens do rio Alegre [Burrinho], afluente do rio Capivara (18).

Um último combate entre coroados e brancos na região de Paraguaçu Paulista ocorreu por volta de 1901, novamente com a família Vieira, sem conseqüências maiores (19).

A VIDA NO SERTÃO DO PARANAPANEMA

Relatamos que até os idos de 1719 o assentamento europeu na Província de São Paulo, rumo ao oeste, não ia além da Fazenda [Jesuítica] de Guareí, somente neste ano chegando a Botucatu, também por uma Fazenda Jesuítica, embora o Vale Paranapanema sempre tivesse sido corredor de passagem, para entradistas e bandeirantes, em busca do ouro e do índio para preação, ocorrências quase ininterruptas entre os séculos XVI ao primeiro quarto do XIX.

Também vimos que a região tivera pelo menos duas experiências de fixação territorial, primeira com os jesuítas espanhóis [1608 – 1629] na Província de Guairá [atual estado do Paraná a partir das margens dos rios Paranapanema e Tibagi], e a segunda também com jesuítas [portugueses], entre os anos 1719 e 1759, na região de Botucatu.

Houve, ainda, algumas fazendas estabelecidas com seus bairros rurais que serviam de moradias para capatazes, roceiros, vaqueiros, carreiros e outros praticantes de atividades necessárias para o desenvolvimento e bem estar de tais tipos de núcleos residenciais, como marceneiros, ferreiros, construtores, artesãos, mestres de engenhos e reparadores gerais entre outros.   

Também aconteceram os arranchamentos ao longo dos caminhos, alguns atribuídos aos indígenas, outros feitos pelos religiosos – caminhos internos, as veredas de integração e defesa territorial dos militares, além das rotas alternativas dos tropeiros. Esses arranchamentos ruralistas, quase sempre, serviam de pousos nos caminhos das interiorizações e passagens do homem branco pela região.

A região do atual município de Piraju esteve “na rota de antigos caminhos” (1) de passagem [rotas alternativas] aos tropeiros vindos do sul, por volta de 1800, e alguns por ali se estabeleceram tomando posse e construindo os primeiros ranchos, por exemplo, em Timburi onde uma família já se havia fixado em 1799. Também Sobrado, ponto de parada desde os tempos jesuíticos [1719/1760], ainda em 1822 fornecia estadias às expedições que se aventuravam pelos sertões. Outros registros indicam arranchamentos na região da hoje Santa Cruz do Rio Pardo, à beira do caminho militar de 1772, além de Itatinga que, por Hernâni, antes de 1884 – da formação efetiva do povoado, foi “pouso e rancho durante decênios” nas rotas tropeiras (2).

O Vale Paranapanema não era, portanto, uma zona tão desconhecida, nem tampouco totalmente desabitada, embora com população rala, flutuante e sujeita aos sucessos ou não de suas empreitadas, especialmente de convivência com os índios.

Sem dúvidas, dos tropeiros foram as primeiras informações aos mineiros sobre férteis terras desabitadas do Sertão Paranapanema. A famosa feira de Sorocaba os atraia para os grandes negócios de muares, eqüinos e gado vacum, que eram levados para Minas Gerais, Bahia, Rio de Janeiro e Goiás, muitas vezes pelos caminhos das Terras dos Baurus.  

Nessa época a Província de São Paulo estava esvaziada, porque parte de sua população correra para as riquezas de Minas Gerais, enquanto outra continuava envolvida com a plantação da cana mélica para a produção do açúcar. Então os gados que os mineiros tanto precisavam, muares, eqüinos e vacuns teriam que vir do sul – Rio Grande do Sul e Argentina, bem como outros produtos básicos transportados da Bahia e Rio de Janeiro.

Bem cedo os paulistas interiorizados em Sorocaba, Itapetininga e Porto Feliz, ali outrora em busca do ouro e depois fixados na terra para produção agro-pecuária de sustentação, se aperceberam primeiro que estavam situados num local estratégico da rota Sul-Minas, depois que podiam buscar ou fazer trazer aquilo que os mineiros precisavam comprar, e, por fim, centralizar em Sorocaba a grande feira de tropas. Os jesuítas e a família Campos Bicudo se fizeram pioneiros, como relatamos, ainda antes do estabelecimento oficial da Feira de Sorocaba.

Sorocaba era ponto privilegiado às pretensões de comércio intermediário, Sul-Minas, depois à Bahia, Goiás, Mato Grosso ou mesmo Rio de Janeiro, porque nela se iniciava [e findava] a única estrada segura e oficial ao sul do Brasil, a Viamão, um percurso longo de Viamão no Rio Grande do Sul, em direção a Sorocaba, São Paulo, um aproveitamento de partes de trilha indígena que interligava as Peabiru Santa Catarina com a de São Vicente.

Para escoamento ou transação dessas mercadorias, surgiram intermediários de compra e venda de animais, os denominados tropeiros, também porque eles próprios com seus peões conduziam as tropas [buscavam e levavam] para a Feira ou, desde a origem para o local de destino, passando por Sorocaba, caminho oficial único e obrigatório.

  • Poucos se arriscavam pelas rotas do contrabando, antes exclusividades dos Campos Bicudo e jesuítas, porque deles eram as terras por onde passavam as trilhas. Com a expulsão dos padres jesuítas e o desinteresse da família pelas terras da região de Botucatu, pelos tantos motivos já expostos, a alternativa de um caminho livre de impostos e taxas foi, aos poucos, restabelecido.

Sorocaba tornou-se próspera e sua Feira de Comércio conhecida em todo Brasil, cujo sucesso fez com que os ricos e aventureiros comprassem fazendas no interior paulista e investissem na criação de bovinos, eqüinos e muares.

No princípio do século XIX já era o tropeiro o elemento mercantilista e responsável pela integração e interação de regiões diversas do Brasil e, principalmente naquilo que diz respeito aos paulistas e mineiros. 

Vicente Tapajós (3) menciona J.F. Normano, [Evolução Econômica do Brasil], para explicar que o tropeiro “uma figura, menos histórica, mais mercantilista, veio substituir o bandeirante como fator de expansão”, além de recorrer a Bernardo Guimarães para descrever o tropeiro também como intermediário para outras transações, ou seja, “o transportador de mercadorias, de pessoas, de dinheiro, de notícias e da correspondência pessoal”, sem prejuízos de suas funções originárias de conduzir gados e tropas.

Aos bandeirantes e entradistas sucedeu o tropeirismo mineiro-paulista, influenciador direto para surgimento dos primeiros arranchamentos no sertão de São Paulo, como pontos de apoios e pousos nas rotas abertas [picadões], para o contrabando da mercadoria transportada ou, como mais comum dito, para se evitar os postos oficiais de controles, onde os tropeiros deixavam boa parte dos lucros, em pesadas contribuições compulsórias ao erário.

Foram os tropeiros que observando a fertilidade do solo paulista, por onde transitavam pelas rotas clandestinas, quem indicaram as boas terras àqueles que desejavam nelas se estabelecer, construindo os primeiros ranchos de moradia.

No caso específico dos tropeiros mineiros em terras paulistas, muitos se empregavam primeiro em fazendas mais próximas do rio Tietê, para somente depois ingressar como posseiros em áreas interessadas, como Joaquim Costa o mineiro condutor de gado que, antes de apossar terras em Botucatu, fez-se empregado na Fazenda Sobrado [no atual município de São Manoel] de propriedade de um portofelicense (4).

Do inter-relacionamento de mineiros e paulistas, entre os anos 1775 a 1822, surgiram os primeiros povoados paulistas na região de Araraquara e, alguns anos depois, no Vale do Paranapanema. Não menos interessante a vinda, também, de gentes fluminenses – Rio de Janeiro, e aquelas do sul, rio-grandenses-do-sul ou gaúchos, mais para as regiões de Tatuí e Porangaba, porém de pouca influência nos surgimentos dos primeiros povoados além São Domingos [do Tupá]. 

Retrospectiva histórica evidencia a descoberta das grandes jazidas, em Minas Gerais, por fator decisivo da densa povoação mineira, das riquezas, desenvolvimento regional e das grandes fortunas pessoais. Quase 2/3 das antigas cidades mineiras originaram-se das atividades de mineração e do terço restante, grande parte surgiu dentro de propriedades de antigos e abastados mineiros.

No século XVIII as riquezas mineiras despertaram interesses europeus, obrigando Portugal rapidamente intervir no Brasil e assim deslocar seu interesse econômico para as terras brasileiras, mais especialmente, Minas Gerais. Essa intromissão do Estado [Governo] no controle das principais jazidas minerais, em fins do século XVIII e princípios do XIX deixou bem pouco espaço para quem ainda ousasse aventuras em busca do ouro, o que obrigava o mineiro pobre recorrer a trabalhos outros além das divisas de Minas Gerais.

Os primeiros migrantes mineiros, para a Província de São Paulo, seriam antigos tropeiros que conheceram antes a região, mais aqueles indivíduos estabelecidos à beira dos caminhos alternativos que conduziam a Minas Gerais.

Muitos mineiros já enriquecidos ou proprietários de jazidas sem futuro, venderam suas posses ao governo ou delas foram expropriados, com negociatas e vendas de minas esgotadas, para aquisições de grandes propriedades voltadas às atividades agro-pecuárias.

Esse novo endereçamento da riqueza impossibilitou a aquisição de terras para os menos afortunados, obrigando-os partir para a Província de São Paulo, região de Araraquara. Também, muitos dos pequenos proprietários resolveram vender suas poucas terras a preços elevados, para adquirir propriedades maiores para onde transferiam moradas.

O tropeiro Pedro José Neto vindo de Minas Gerais com destino a Sorocaba, por volta de 1807, passou pelas terras da futura região de Araraquara [Campos de Aracoara], para onde retornou tempos depois. Em 1817 o povoado de São Bento de Araraquara foi elevado à condição de freguesia, já com mais de trezentos habitantes.

 De 1817 a 1822 ocorreu o maior número de famílias mineiras vindas de Pouso Alegre, Poços de Caldas, Ouro Fino, Formiga, Baependi, Machado, São João Del Rei, Alfenas entre outras cidades mineiras, para a região araraquarense, sendo dessa época surgimentos de povoados como a própria Araraquara, Itirapina [Itaqueri da Serra], Dois Córregos, Dourado, Brotas, Jaú e outras localidades, direta ou indiretamente sob influência mineira. As famílias chegavam pelo caminho de Mogi Mirim a Itaqueri da Serra – hoje Itirapina, ou ainda os alternativos, como Franca, Batatais, São Simão e Casa Branca, conhecidos como velhos caminhos, de 1820, quando maior número de mineiros desceu para São Paulo, povoando as regiões centrais e do médio Tiete.

O fenômeno migratório de 1820/22 foi decorrente da decadência das minas de ouro de ouro e o incremento à pecuária, que tornou ainda mais proibitivo os preços de terras em Minas, numa época que a atração dos negócios ainda era Araraquara.

Quando a vasta região de Araraquara tornou-se saturada de ocupações, o destino se voltou então para as terras do Vale do Paranapanema, ou para adiante do Tietê, aonde em 1847/1850 o sertanejo José Theodoro de Souza vinha fazendo razias em territórios indígenas, com o propósito de torná-los habitáveis pelos brancos progressistas. 

Como sempre, primeiros chegaram os indivíduos depois as famílias, em viagens longas e difíceis, em caravanas com três ou mais carros de boi, carroções e carroças, burros de carga, montarias, arrastadores para cargas menores ou de difíceis transportes, escravos negros de algumas famílias de maiores recursos, familiares quase todos, os homens, as mulheres, os jovens, os velhos e as crianças, ou sejam, filhos, genros, cunhados, netos, pais, tios e avós. São diversos os registros de crianças que nasceram em carros de bois improvisados de moradia ambulante.

Os migrantes traziam seus pertences básicos, tudo quanto podiam transportar, por caminhos vagarosos porque conduziam também seus suínos, caprinos, ovinos, eqüinos, bovinos, além das crias, muitas nascidas durante a jornada. Traziam ainda galináceos e outras aves domesticadas, como patos, perus, gansos e galinhas de angola, todos seguidos de perto por muitos cães.

Tinham armas, munições, mantimentos, ferramentas e a esperança de conseguir terras por um bom preço, arrendar, mear ou simplesmente empregar-se para um dia, quem sabe, tornar-se proprietário também. Os mineiros vinham praticamente dos mesmos lugares das Minas Gerais, daqueles que saíram décadas ou anos antes para as terras de Araraquara, sendo suas caravanas atrações pelos caminhos onde passavam, a atrair gentes da própria província de São Paulo que, por vezes, resolviam acompanha-los naquelas aventuras.

  • Entre as cidades antes mencionadas e outras, ainda se destacam as localidades mineiras de Botelhos, Cabo Verde, Cambuí, Campestre, Caracol, Carmo, Carmo do Pouso Alto, Cristina, Escaramuça, Jacuí, Passos, São Gonçalo do Sapucaí, São Joaquim da Serra Negra, São José do Paraíso, Rezende e Vila Nova.

Tendo indicações de suas terras, os caminhos a elas eram abertos a facão, foice e machado, até encontrar o lugar mais ideal para definitiva instalação. Quase todos que chegaram depois do grupo primitivo de 1851 se estabeleceram em terras de São José do Rio Novo, exceto aqueles mais abastados que podiam adquirir áreas em locais civilizados, Santa Bárbara do Rio Pardo, Santa Cruz do Rio Pardo, e Espírito Santo do Turvo, ou mesmo São Pedro do Turvo.

Gentes que chegaram entre 1851 a 1856 derrubaram as matas, fizeram seus ranchos e seus bairros, isto é, desbravaram as terras e as deixaram livres dos índios, para vendê-las a pessoas interessadas [grupos de 1865, 1870, 1890 e 1896] e que tinham recursos para tanto, indo os pioneiros mais adiante com os mesmos propósitos de amanhar sertão para chegada de novos adquirentes.    

Os primeiros moradores preferiam casas em áreas longe das matas, para evitar os perigos indígenas, mas logo descobririam as vantagens de agrupamentos num determinado local, os bairros rurais, para melhores defesas. As casas eram rústicas – sem confortos, de pau a pique ou feitas de paus roliços, algumas cobertas de sapé, outras de troncos de coqueiros abertos ao meio ou de pequenas tábuas lascadas. Depois de algum período de fixação, levantaram-se as primeiras casas de madeira lavrada e as de adobe, que Aurélio descreve como de “bloco semelhante ao tijolo, preparado com argila crua, secada ao sol, e que também é feito misturado com palha, para se tornar mais resistente” (5). As coberturas das casas também evoluíram para as placas de cedro trabalhadas, ou as telhas de barro, moldadas nas coxas, de tamanhos irregulares daí o termo feito nas coxas para objetos não uniformes. 

As casas em geral tinham quintais cercados, para proteção própria e contenção das aves e cães, e neles quase sempre à montante havia um poço que atingia o lençol aqüífero, enquanto à jusante estava a latrina. Fora do quintal ficava a pocilga ou curral de porcos, quase a céu aberto não fora a cobertura dos cochos, o chiqueiro de engorda e os compartimentos das crias.

Os piquetes ou pequenos potreiros, também se localizavam fora, servindo para guarda de animais empregados nos trabalhos do dia-a-dia, como cavalos de montaria, vacas de leite, além dos separados [cercados] para os bezerros e animais doentes.

Quase sempre com um curso dágua nas proximidades da casa, montavam-se os monjolos para beneficiar o arroz, descascar o café e pilar o milho. Próximo ao monjolo, uma construção simples – tipo barracão ou cobertura apenas, às vezes chamada de fábrica ou fabriqueta, onde se preparavam farinhas de milho e mandioca em fornos próprios.

Num pequeno engenho moíam a cana para extração da garapa, usada diretamente como adoçante, ou para fabricação de rapadura que, moída, substituía o açúcar. Alguns historiadores locais, como José Jorge Junior, lembram que naqueles tempos, quando inexistia o café na região, o caboclo valia-se das sementes torradas e moídas do fedegoso fervidas em água com garapa (6). Da cana também produziam a cachaça em pequenos alambiques.

Dentre os maquinários rudimentares era quase obrigatório o descaroçador de algodão, a carda [para desembaraçar, destrinçar e pentear o algodão sem caroço, num só sentido e separado em fios], e o tear para produzir os tecidos. Algumas casas tinham os bilros para fazer renda.

Antigos relatos dão conta das habilidades de certas mulheres e homens em manusear bilros ou na produção de tecidos de algodão, magistralmente tingidos em cores diversas com uso de folhas, sementes, frutos, cascas, madeira ou raízes vegetais.

Os móveis eram toscos, as camas, armários, guarda-roupas, bancos, mesas e cadeiras; quase todas as casas tinham um oratório, em homenagem ao santo padroeiro, alguns artisticamente trabalhados e trazidos na viagem.

Para a iluminação valiam-se do candil preso à parede ou suspenso, com recipiente de barro ou ferro, envolto em folha-de flandres, abastecido com banha de porco na qual se embebia um pavio para nele por fogo. Nalgumas famílias usavam-se velas de sebo animal.

A medicina era empírica, ou seja, baseada na experiência geralmente familiar ou dos mais antigos, com aproveitamento de certas espécies vegetais, desde as folhas, frutos, sementes, às cascas e raízes, para beberagens em casos de males internos, ou ungüentos quando de problemas externos. “Nas doenças dispunham de uma infinidade de chás e ungüentos à base de raízes, folhas, sementes, sumos, etc. de real eficácia” (7).  Em casos de torções graves e quebraduras, faziam uso de talas, rígidas ou flexíveis, para imobilizações das partes de membros afetados. Os mais letrados tinham em casa exemplar do Chernoviz, o livro mais eficaz de receitas para todas as doenças conhecidas, e uma farmácia montada com vidros de remédios variados (8).

Praticavam agricultura de subsistência, com as derrubadas de matas para plantios de arroz, feijão, milho, abóbora, mandioca, batata doce, cana e algodão, havendo um ou outro experimento de cultivos de arvores silvestres frutíferas. A caça e pesca eram abundantes, havendo, portanto, fartura de tudo quanto necessitavam para aquele modo de vida, excetos o sal, as ferramentas agrícolas, munições e armas, além de uma ou outra novidade para o lar ou de uso pessoal.

O preparo da terra para agricultura era a denominada cultura do fogo, as queimadas, com a marcação de datas e por períodos, de maneira a recuperar o solo e a vegetação, quando o terreno não fosse utilizado pela pecuária, inicialmente feita nos campos e não nas matas derrubadas.

Da precisão de alguns produtos indispensáveis a vida sertaneja, ou mesmo garantia de sobrevivência, obrigou os pioneiros produzirem excedentes para trocas ou vendas, com objetivos de conseguir satisfazer necessidades.

Estes excedentes eram tecidos manufaturados, esteiras, cestas, balaios, doces em calda ou cristalizados, queijos, rapaduras, fumo e cereais postos em carroções e carros de boi, mas as principais mercadorias eram de origem animal, carne de porco conservada em banha suína derretida e acondicionada em latas ou potes, toucinho salgado ou defumado [esfumaçado], charques, carnes de fumeiro, lingüiças [secas, defumadas ou acondicionadas em gordura animal], embaladas e protegidas em palhas de milho, acondicionadas em balaios de taquaras e postos nos carroções, quando não em jacás de taquara ou de cipó levados às costas de animais. Ainda eram levados couros bovinos, salgados ou estacados.

Os balaios acomodavam mais ou menos quatro arrobas de mercadoria – 60 quilos, enquanto os jacás não ultrapassavam os 25 quilos. Um carro de boi tinha capacidade para mais de tonelada e meia, o carroção não indo além dos trezentos quilos; tipos carretões mais ou menos mistos de carro de boi tinham capacidade de até meia tonelada. Cada muar levava às costas cinqüenta quilos sem muitos esforços. Alguns pioneiros faziam também uso de força escrava [de negros e índios] para transportar mercadorias. Quase sempre nas viagens comerciais uniam-se grupos de famílias, para melhor aproveitamento dos veículos disponíveis e segurança pessoal.

As mercadorias eram acomodadas e sobrepostas nos respectivos carros de boi, cujos lados, feitos de esteiras trançadas em taquaras removíveis, tinham altura entre 1,00 a 1,20 metros, com teto trabalhado em couro de boi. Assim os comboios saiam para uma viagem de ida, para além de dezoito dias em tempo bom, um carro após outro, com guieiros ao lado tangendo os bois.

As mulas iam, com cangalhas postas a sustentar sacos de couro para transporte de objetos e mercadorias de uso diário – panelas e mantimentos, e iam as marchas lentas na frente ou seguindo as carretas carregadas e os carros de bois, com aquele ranger característico do atrito do eixo de madeira com o mancal também de madeira.

Algumas caravanas valiam-se do arrastador, um tabuão ou tábuas sobre sarrafões atrelados a um animal, com capacidade para mais ou menos cem quilos de tralhas e ferramentas de uso mais contínuo durante a viagem.

Os donos das mercadorias montados a cavalo, por vezes a pé, em outras se revezando, cuidavam de todos os detalhes e constantemente se informavam, por sinais, com os batedores ou guias que, distantes do grupo, cuidavam da segurança de todos, por exemplo, da presença de índios.

Pouco variava os hábitos das caravanas; às quatro horas colocavam os bois e demais alimárias para pastagem, sob rígida vigilância, enquanto os responsáveis pela cozinha preparavam a refeição da hora, arroz, feijão com torresmo ou couro de porco, carne seca, carne de gordura ou carne fresca de alguma caça abatida pelos caminhos. Geralmente o arroz era preparado com algum ingrediente adicional, ovo, lingüiça ou pedaços de toucinho, sendo as refeições preparadas em panelas de ferro sobre suporte de três escoras – trempe ou tripé, e ao final da refeição era servido o fedegoso adoçado com rapadura, antes de uma boa pitada num cigarro de palha ou cachimbo de barro.

Ao alvorar se punham em caminho até por volta do meio dia, quando paravam para o almoço rápido, a paçoca, ou seja, farinha de milho socada no pilão com carne de carne de boi, ou de porco, frango ou, ainda, de algum animal silvestre como cateto, paca, cotia e veado. Esta parada quase sempre acontecia à beira de alguma aguada para que os animais pudessem saciar a sede.

A caminhada às vezes era interrompida por quebra de algum carro, uma ou outra ponte que precisava de reparos, chuvas que impediam a marcha, quando não a presença do índio feroz que, embora raramente atacasse caravanas, durante noite a soltava animais, rondava o acampamento, ou lançava fogo nos carroções fazendo perder as mercadorias.

Quando do entardecer faziam a parada de pouso, onde novamente se alimentavam daquela paçoca preparada em casa – pouco antes da partida, acondicionada em picuás e geralmente suficiente para toda viagem, ida e volta. Os animais eram atrelados para pastagem, os bois um a outro por tiras de couro, passante pelos furos nas pontas dos chifres, enquanto os cavalos e burros também eram amarrados aos pares, pelo pescoço, para evitar fugas.

Os guias ou batedores que se adiantavam do grupo, escolhiam o lugar da parada noturna e cercavam com laços, cordas e sovéis um espaço de campo, com aguada e boa pastagem, e sobre os estirões colocavam galhos de árvores de modo impedir que os animais fossem além dos limites ou que pudessem escapar. Assim os homens podiam se alimentar, tomar o fedegoso, conversar ao pé do fogo até que lhes chegasse o sono e assim pudessem dormir em suas esteiras – alguns se utilizavam de redes, sob os carros de boi ou mesmo ao relento, com a arma sempre ao alcance das mãos.

O destino era São Domingos [do Tupá], onde muitos aproveitavam a oportunidade para além de negociar seus produtos, cuidar de assuntos cartoriais, como registros de documentos, títulos, escrituras e certidões. Outros, no entanto, iam direto para São Manoel, como entreposto comercial ligando o sertão com os grandes centros, onde aconteciam os melhores escambos, compras e vendas.

Lençóis também estava por destino em causa do porto, junto ao Tietê, para escoamento de mercadorias, dividindo com São Domingos e São Manoel a preferência do sertanejo para seus acertos (9).   

José Jorge Junior, em qual trabalho baseamos tais descrições, das primeiras viagens comerciais sertanejas aos mercados distantes, conclui que os antigos sertanejos viandantes “Terminadas as transações, que procuravam realizar o mais rápido possível, iniciavam a grande viagem de volta por mais outros 18 ou 19 dias de caminhada” (10).

PRIMEIROS NÚCLEOS POVOADORES – [RESUMOS HISTÓRICOS]

1. SÃO DOMINGOS – NAS BOCAS DO SERTÃO OESTE PAULISTA

"As verdadeiras origens de Tupá talvez nunca sejam reveladas. Sua memória e sua história estão sepultadas para sempre nos túmulos destruídos e sem registros abandonados naquela gleba no pequeno distrito de Domélia" – [Revista DMais – Ano I nº 3: Tupá, em busca da cidade perdida – História de Tupá mostra que Santa Cruz é anterior a 1870, encarte da edição Jornal Debate, Santa Cruz do Rio Pardo – SP, edição 1195, de 29 de fevereiro de 2004, página 11].

Velhas tradições indicam o local, aonde viria ser São Domingos ou Tupá, como antigo retiro da Fazenda Jesuíta [1719 – 1759], com ranchos para os cuidados de gado invernado e bem servir aos tropeiros e itinerantes sertanistas. A dar crédito aos relatos de antanho, lá se poderia até considerar a ultima povoação da ultima vila [Sorocaba], a partir da Serra de Botucatu, à qual se referiu o bandeirante Bartholomeu Paes de Abreu, em 1721 em documento encaminhado à Câmara de São Paulo, para reivindicar o seu caminho para as Minas de Cuiabá.

Em tal lugar, um bairro rural já com característica urbana, os jesuítas teriam construído, muito tempo antes, um reservatório de águas colhidas de minas adjacentes, depois conduzidas até ao povoado, por um canal feito em pedras, num rumorejo constante como leve trovejar, razão do topônimo indígena Tupá, por significar "o que troveja ou trovejante".

Para os mais velhos, que ouviram dos mais antigos moradores do lugar, teriam sido os padres, que eles mesmos também não conheceram, os construtores daquela obra, que lembram "os sistemas de abastecimentos de águas para Pedra Ferro e Sobrado, conhecidos bairros rurais da Fazenda Jesuítica de Botucatu" [Celso Prado – referências: Razias (...), Fazenda Jesuítica de Botucatu – Os bairros rurais].

Lendas ou não, em São Domingos existiu um adutor de águas para o povoado. Em entrevista à reportagem Jornal Debate, o pecuarista Henrique Dyna, ex-cartorário de distrito, ao se recordar da povoação dos anos de 1930, ainda se lembrava em funcionamento aquele canal condutor de águas, todo feito em pedras, conhecido como "Água das Pedras" – [Revista DMais, citada, Tupá teve quase 200 imóveis e uma economia muito forte, páginas 10].

Apesar dos relatos e coincidências, reconhecemos, as provas são frágeis para remontar ao século XVIII as origens de São Domingos.

Alternativamente a oficialidade determina, apenas, que por volta de 1835 a história "civilizada" do sertão paulista, entre os rios Tietê e Paranapanema às barrancas do rio Paraná, não contava nenhuma povoação adiante da Serra do Botucatu, senão num lugarejo conhecido por São Domingos, à beira do antigo "Caminho pr Guatemy", entre os ribeirões São Domingos e Forquilha – afluentes do Turvo, onde brancos e Otis conviviam pacificamente e se protegiam.

Não se sabe desde quando a existência da povoação, todavia antigos apontamentos cartoriais indicam-na sob o nome Bairro [Invernada] da Forquilha na propriedade São João de Domingos, que se prova dos fazendeiros sorocabanos Procópio José de Matos e Domingos Palmeira, em 1835.O historiador HernaniDonato menciona a propriedade "nas alturas do antigo campo de criar que fora dos jesuítas", por volta daquele ano de 1835, identifica os fazendeiros e diz que Domingos "(...) teria dado o seu nome à Fazenda", sem informar qualquer núcleo populacional ou que lá tenha sido o princípio de São Domingos – [Hernani Donato, Achegas para a História de Botucatu, 3ª edição [reescrita], 1985 – publicação pelo Banco Sudameris Brasil e Prefeitura Municipal de Botucatu, página 51].

Entretanto, documento oficial de doação territorial para a formação de Lucianópolis – SP atesta escritura lavrada em 1862, "no cartório da extinta Freguesia de São Domingos, anteriormente conhecida por São João de Domingos e mais primitivamente, Bairro da Forquilha" – [Lucianópolis: Sua terra e sua gente, publicação eletrônica pela Prefeitura Municipal: http://www.lucianopolis.ddns.com.br/index.php?exibir=secoes&ID=39].

Comprovamos referência à Invernada da Forquilha, numa anosa escritura de compra e venda de terras datada de 20 de dezembro de 1845, na qual:

  • "Flávia Domitila Monteiro, viúva de Ignácio Dias Baptista, vende a Silvério Gomes dos Reis (...) huns campos denominado Turvo e Mattas adjacentes ao mesmo campo no distrito d'esta Villa de... '(a vila é Itapetininga)'... em Sima da Serra de Botucatu (...), a qual parte sua divisa hé a seguinte = principiará nas cabeceiras do rio Turvo, por este baixo thé o ponto da matta onde se considera adjacente ao mesmo campo e por esta matta adiante thé entestar nas flardas do Serrote, e por este adiante athé a supra dita cabecceira do Turvo; ficando livre e d'esta venda qualquer parte que pertença a Invernada da Furquia (...)" – [Trajano Carlos Figueiredo Pupo e Paulo Pinheiro Machado Ciaccia, Primeiras Fazendas  da Região de Botucatu, página 6 –  D 2, – Campos do Turvo, 1ª edição Gráfica G 3]. 
    João Dornas Filho [Aspectos da Economia Colonial Itatiaia. Belo Horizonte. 2ª edição. 1959]. assegura-nos por Invernada a qual lugar "os camaradas constroem cabanas perto do local onde pastam os animais (...). Em geral esse nome é dado a locais em que as caravanas param durante algum tempo" – [Almanaque Mineiro traz publicação em sítio eletrônico http://lusitanocoelhomg2004.blogspot.com].

Nestes considerandos, a "Invernada da Furquia [Forquilha]" seria um antigo bairro rural da Fazenda São João de Domingos, ou seja, ajuntamento de moradias naquela propriedade, com presenças de pouso e currais.
Dão-nos provas das proximidades de Forquilha com São Domingos, outro registro de compra e venda de terras, de 19 de dezembro de 1851, no qual Manoel Joaquim de Andrade e seu irmão Joaquim Manoel de Andrade, este o futuro co-fundador oficial de Santa Cruz do Rio Pardo, adquirem pelo valor de 2.600$000 uma "Fazenda de Campos e Matas no lugar denominado São Domingos. Principiando da barra do Rio São Domingos, e por este acima, até as cabeceiras e daqui em rumo a procurar uma Fazenda que sai do Ribeirão da Forquilha, e por ela abaixo, até onde faz barra no Turvo, e por este abaixo, até encontrar a barra onde teve princípio esta divisa (...)" – [Pupo e Ciaccia, p. 136, documento E 30].

Arruda Dantas afiança-nos que "A primeira povoação a se formar no Oeste foi São Domingos, nas cabeceiras do rio Turvo, por volta de 1835 e elevada a freguesia em 1855 (...)" – [Antonio de Arruda Dantas, Memórias do Patrimônio de Assis, 2a. edição, 1980, páginas 23].

Cobra descreve que "Esta localidade [São Domingos], foi, por longos annos, a boca do sertão e sede de distrito de Paz. (...). Precedeu a de Lençóes a receber os fóros de freguezia" – [Amador Nogueira Cobra, Em um Recanto do Sertão Paulista, Tipografia Hennies Irmãos, São Paulo - SP, 1923, página 18 – nota 1], ciente aquele autor que Lençóis chegou a tal posição de freguesia em 28 de abril de 1858, portanto em acordo próximo com Arruda Dantas, que atesta São Domingos por freguesia em 1855.

São Domingos tornou-se freguesia em 1855 como circunscrição eclesiástica regional, cabeça de sertão para os novos povoados [capelas] que surgiam no Vale Paranapanema, assegurando-lhes a administração civil como instituição oficial para transcrição de atos, fatos, títulos e documentos, dando-lhes autenticidade e força legal de prevalecer contra terceiros, com garantias de reconhecimentos pelas instituições brasileiras, posto sua condição cível e eclesiástica, de importância tamanha que "São Domingos ou Tupá ostentara, por meados do século XIX, o status de Comarca Imperial e Eclesiástica" – [Professor José Magalli Junqueira, Santa Cruz do Rio Pardo – Memórias: Subsídios para a história de uma cidade paulistana, 2ª. Edição, Editora Viena Ltda. Santa Cruz do Rio Pardo – SP, 2006, páginas 37].

Das cópias e transcrições de documentos civis e religiosos produzidos em São Domingos, século XIX, nenhum em nosso poder ou conhecimento traz o título Comarca Imperial e Eclesiástica, apenas "Freguezia de S. Domingos" = [Prado], mas nada a obstar possibilidades, por se tratar de antiga forma de relações entre Igreja e Estado que, geralmente, conferia a este a iniciativa de determinar a divisão administrativa de uma região, classificá-la por definição de área e nominá-la por competência territorial, como atribuição do governo central delegada ao governo de província, requisitos exigidos pelo poder civil para se alçar uma comunidade às condições de freguesia.

A Comarca Eclesiástica de São Domingos teve por primeiro pároco o padre Andrea Barra, entre 1856 a 1870, também capelão das povoações que pertenciam a tal circunscrição eclesial. Desta forma, Padre Barra prestou serviços religiosos em Santa Cruz do Rio Pardo, como capelão, de "18/02/1856 a 13/09/1870"[Maria José Corrêa de Oliveira Zanoni, Santa Cruz do Rio Pardo, Nossa Terra, Nossa Gente, edição 1976 pela Editora Osmare – Bauru, às páginas 61].

O pesquisador Frei João Basílio, ex-vigário da Paróquia de São Sebastião em Santa Cruz do Rio Pardo, afirmou em entrevista jornalística ter encontrado "documentos da Igreja, atestando que o padre italiano Andrea Barra era o pároco da matriz de São João e São Domingos – nome eclesiástico daquela paróquia no século XIX – e batizou, em 18 de fevereiro de 1856, o garoto Geronymo , filho de José Venâncio de Lima e Fabriciana Maria de Jesus" –  [Revista DMAIS, citada, página 11]. Referido Frei consta autor do trabalho não publicado, Origens Eclesiásticas de Santa Cruz do Rio Pardo.

Por razões suficientemente demonstradas, entendemos como equívoco ou não compreensão histórica do Frei, quanto ao nome eclesiástico daquela antiga paróquia, ao livremente interpretar São João e São Domingos em vez de São João de Domingos.

Frei João Basílio noticia, em mesma entrevista, de "uma ata de 25 de junho de 1857 que registra o batismo de Anari, filho de Antonio Rodrigues de Moraes e Ana Aparecida da Conceição, mineiros que residem no 'bairro de Santa Cruz'. O registro está no Livro I, página 5, de São Domingos (...)" – [Revista DMais, página11]. Este documento eclesial é a primeira referência, como Santa Cruz, da nova denominação da antiga Capela de São Pedro.

A oficialidade documental nos informa que "O distrito com a denominação de São Domingos, foi criado pela Lei Provincial n° 27, de 20 de abril de 1858" – [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) / Enciclopédia dos Municípios Brasileiros (EMB), Volume XXX – Santa Bárbara do Rio Pardo [SP], páginas 82/83].

Nos anos de 1871 e 1872 o padre Antonio Zianhisk substituiu Andrea Barra na paróquia de São Domingos e as capelas que lhe eram subordinadas, assim, responsável capelão em Santa Cruz do Rio Pardo, entre 08 de janeiro de 1871 a 07 de abril de 1872 [Zanoni, p. 61].

De 1872 existe o registro, de próprio punho, do padre nascido português, Francisco José Serodio como pároco em São Domingos: "Achei a dita Egreja, que já era freguesia há mais de 10 anos... Consta a freguesia desta São Domingos, Santa Cruz do Rio Pardo Capella, pertencente a São Domingos, São Pedro Capella Também, Campos do Rio Novo também Capella (...)".

A íntegra da carta, transcrita pelo Jornalista Marcos Paulo da Silva, em grafia da época, diz:

  • "Aos 15 de março do ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil oitocentos e setenta e dois. Cheguei nesta freguesia, ultima do sertão de Botucatu onde me deu hospedagem o Ilmo Sr Justino Carneiro Geraldes que se achava nessa ocasião na pequena povoação de São Domingos em cuja companhia e no seio desta boa família passei mais de mez que me trataram com familiaridade como se pessoa de sua família; a quem sempre me confesso muito e muito grato e nos dia seguinte, fui celebrar na Egreja cuja parede da frente estava ameaçando ruínas. Achei a dita Egreja, que já era freguesia há mais de 10 anos, paupérrima de Paramentos, de tudo finalmente, nem castiçais no altar, eram garrafas que serviram de castiçais. Era um sertão sem recursos, tinha 12 casas, cobertas e assoalhadas só 4 o resto não tinha soalhos. Consta a freguesia desta São Domingos, Santa Cruz do Rio Pardo capella, pertencente a São Domingos, São Pedro Capella Também, Campos do Rio Novo também Capella, onde morava o sertanejo José Theodoro de Souza e tinha apenas 5 famílias Brasileiras; estava distante desta sede da Freguesia 20 léguas de mais caminhos e sem pontes e muito pouco moradores. Todavia era povoado de Mineiros, gente muito atrasadas, mas muito hospitaleiras e de bons costumes, mas de pouca religião. A freguesia de São Domingos nesse tempo era um lugar no extremo Oeste de São Paulo, que estava em sertão sem comodidades algumas. Botucatu que era cabeça desta grande comarca Sertaneja não tinha hotel; tinha naquela esquina onde hera hotel Areias uma venda do pai desse malvado assassino chamado Dioguinho que tava sumido He o que diz um antigo portuguez deste lugar. Não tinha uma única fharmacia nem .........? nem rua.......? não tinha médico algum formado, justiça era só dr. Juiz de Direito Dr. Machadinho, vindo de Itapetininga até promotor era nomeado na hora, rábula, advogado era só Dr Bernardo que era da terra, muito ruim e muito orgulhoso de sabichão e um mestre escola pública um tal Cel. Cananéia que era chefe político do Partido Conservador e a mulher professora pública como tudo e Botucatu. Já estava com o resto no lugarzinho que comprou do ex patrão Antonio Bento Alves que mudou para Rio Novo e lá prestou muitos serviços públicos e homem muito honrado.
    São Domingos 15 de março de 1872, (assinado) O vigário Padre Francisco José Seródio".

Na transcrição acima não constam as referências dadas pelo Frei João Basílio, atribuídas ao Padre Serodio: "Saí em viagem para o sertão de minha freguesia: fui em Santa Cruz do Rio Pardo, São Pedro e Campos Novos, de onde voltei adoentado com uma febre palludoza", talvez um outro documento, pois se sabe que aos 31 de maio do mesmo ano de 1872, padre João Domingues [Domingos] Figueira substituiu padre Seródio, até dezembro de 1872 ou janeiro de 1873, período em que Figueira foi capelão em Santa Cruz do Rio Pardo, antes de assumir ali a condição de vigário, a partir de 13 de janeiro de 1873.

Aquela carta /relato de Serodio, com ou sem os acréscimos, abrange assuntos gerais que mais parecem desabafos de quem, a contragosto, foi posto num determinado lugar. Padre Serodio reassumira a Paróquia de São Domingos para nela permanecer até setembro ou dezembro de 1873, transferido a seguir para Campos Novos [Paulista], aonde viria fazer fama, poder e fortuna.

A elevação de Santa Cruz do Rio Pardo à condição de Paróquia, em 13 de janeiro de 1873, retirou de São Domingos sua importância eclesiástica junto às capelas do Vale Paranapanema até então exercida, com isto a significar, para muitos, sua decadência efetivamente selada em 1877, com a criação da Comarca Eclesiástica de Santa Cruz do Rio Pardo.

Valendo-se dos critérios demográficos e dos termos de competências, avocados politicamente pela província paulista, São Domingos foi classificada à condição civil de distrito em 20 de abril de 1858, pela lei n.º 626, subordinando-se administrativa e politicamente à Vila de Botucatu, que atesta Hernâni Donato, páginas 103, "em terras do município [de Botucatu] foi ereta a freguesia de São Domingos, resultado da ocupação por grupo de famílias botucatuenses (...)". 

Ajustadas as partes, São Domingos garantiria seus privilégios eclesiásticos, mesmo quando a transferência de sua subordinação civil para Lençóis [Paulista], aos 17 de abril de 1868, pela lei provincial de nº 056, ou seja, dez anos após sua subordinação a Botucatu. 

Sem tempo para adaptações junto à nova sede, a Assembléia Provincial de São Paulo autorizou, pela lei nº. 35, de 19 de julho de 1868, o governo transferir a sede de distrito de São Domingos para "as margens do rio Pardo", onde instalado o núcleo Santa Bárbara do Rio Pardo. Esta perda civil de categoria parece em nada ter afetado São Domingos em suas responsabilidades sobre as demais capelas que lhe eram subordinadas, tanto que somente em 1890 o governo paulista faria cumprir aquela transferência de competência distrital autorizada, ou seja, vinte e dois anos depois.   967 19 de julho de 1867 

O atraso em cumprimento da autorização justifica-se: "não eram incomuns certos arranjos políticos para criações, instalações, supressões e transferências de competências, territorialidades e nomes de termos, havendo situações de interesses conflituosos que impediam a instalação ou mesmo o funcionamento jurídico estabelecido em lei" – [Prado]. Tais circunstâncias políticas faziam atrasar, suprimir, subordinar ou simplesmente deixar em esquecimento certas autorizações legais, muitas para aplicações num momento politicamente mais oportuno.

Apesar dos reveses eclesiásticos de 1873, quando perdeu as Capelas de Espírito Santo do Turvo, Santa Cruz do Rio Pardo, Ipaussu [Ilha Grande], São Pedro do Turvo e Campos Novos [Paulista], São Domingos, se pareceu não haver sofrido com nenhum ato político ou religioso, não lhe foi possível, porém, resistir ao advento da república, nem a separação entre Igreja e o Estado, tanto que Amador Cobra chegou às raias da indignação quando o poder civil, em 1890, anulou de vez os privilégios de São Domingos: "Em 1890 tiraram-lhe a sede de distrito, transferiram-no para Santa Bárbara do Rio Pardo, e mudaram-lhe até o nome que passou a ser Tupá (...). Tendo sido, pois, por longos anos a cabeça do sertão do Paranapanema e centro de grande movimento, por caprichos políticos, talvez, baixou de categoria" – [Cobra, p. 48 – notas 1].

São Domingos, outrora São João de Domingos e Forquilha, teve, então, oficializado o nome, Tupá, conforme vista, um designativo tupi-guarani com o mesmo significado que Tupã, ou seja, trovão ou trovejante, associado ao Deus cristão pela reverência naturista indígena. O nome Tupá, segundo as tradições, já vinha de muito antes e as referências, ainda no século XX, dão-nos conta da denominação São Domingos do Tupá.

Apesar de ter existido no local uma aldeia Oti, a história relata pelo menos um problema dos moradores de São Domingos com ataques indígenas de outra nação, quando por volta de 1859 "(...) foi salteada pelos índios a freguesia de S. Domingos; mas os moradores repeliram-nos, obrigando-os a abandonar na fuga diversos objetos, muitos dos quais tinham sido roubados (...)" – [João Francisco Tidei Lima, A Ocupação das Terras e a Destruição dos Índios na Região de Bauru, Dissertação de Mestrado em Ciências Humanas na área de História Social, pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 1978, páginas 72, por fonte o Ministério dos Negócios do Império, em Relatório da Repartição Geral das Terras Públicas, Rio de Janeiro, 1859].

Henrique Dyna, à mesma Revista D Mais, menciona um outro problema dos habitantes de São Domingos com índios na região: "contam os mais antigos que certa vez, talvez no final do século XIX, um grupo de agricultores resolveu tomar terras indígenas e partiu para enfrentar os índios na região do rio Alambari, perto de Caporanga. Houve uma grande batalha e os índios venceram: pelo menos dois carros de bois voltaram carregados de defuntos".  

Mas São Domingos teve tempos melhores, tanto que em 1852 era sede do 12º Quarteirão Eleitoral de Botucatu, o segundo maior, com 44 votantes[Pupo e Ciaccia, dados às páginas 97-103]. Outra referência eleitoral, de 1873, classifica a localidade como parte do distrito eleitoral de Botucatu, com três colégios, enquanto a própria sede mantinha seis daqueles conjuntos.

Se em 1862 foi negada a São Domingos uma Agencia Postal, como igualmente o foi para Lençóis e demais localidades adiante de Botucatu, desde 1858 suas correspondências eram entregues na vila de Botucatu a cada dez dias, embora o próprio serviço em Botucatu fosse alvo de denuncias como extravios de cartas, violações e pouco zelo [H. Donato, p. 123].

Também em 1862 a Câmara de Botucatu destinou importância em dinheiro para reparos de estrada e ponte no caminho para São Domingos como um daqueles que mais interessava para o comércio da região [Donato, p.139].

A freguesia de São Domingos teve eleições para juiz de paz, inclusive uma [anulada] para o quadriênio de 1865 a 1868, relatada por Donato, páginas 90 e 91.

Em 1870, documentos da Câmara de Lençóis designou São Domingos como Freguesia, mas em 1873, no Quadro da Divisão Civil, Judiciária e Eclesiástica da Província de São Paulo, São Domingos apareceu com classificação superior, na qualidade de Vila integrante da Comarca de Botucatu [Joaquim Manoel de Macedo, Noções de Corografia do Brasil, editado em Rio de Janeiro, ano de 1873, páginas 255].

Documentos do Conselho de Qualificação e Reclamação da Guarda Nacional e do Conselho de Revisão – Botucatu, de 1872/1873, em Arquivos do Estado [Donato, p.126], atesta que São Domingos teve Guarda Nacional.

De acordo com o Censo Oficial de 1872 – 1o. de Agosto, mas na Província de São Paulo apenas concluído em 30 de janeiro de 1874, a população de São Domingos era de 3.629 pessoas livres [2004 homens e 1625 mulheres], e 116 escravos [64 masculinos e 52 femininos], com maior número de cidadãos livres que Santa Cruz do Rio Pardo [FERNANDES Edson, Família Escrava numa Boca do Sertão, Lencóes, 1860-1888, partes de dissertação de mestrado, em abril de 2003, publicação pela Revista de História Regional, páginas 14/15].

Registros do Governo Provincial de são Paulo, publicações de atos oficiais, indicam que São domingos teve escola de primeiras letras com salas de aulas para os sexos masculino e feminino, conforme transcrições da Provincial Presidential Reports (Almanaque Laemmert), 1830-1930 – São Paulo.

Todavia a gloriosa Comarca Imperial e Eclesiástica de São Domingos, ou apenas Freguesia de São Domingos, principal centro de quase todos os negócios de terras do Vale Paranapanema, grandes e pequenos, tornou-se não mais que um simples bairro, denominado distrito, em 1890, pelo novo conceito republicano, e seu declínio enfim, inevitável.

A localidade já não representava importância quando a lei nº 1494, de 29/12/1915, ao estabelecer novas divisas administrativas, transferiu o Distrito de Paz de Tupá, do Município de Lençóis para o de Agudos [IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Divisas Administrativas de 1915], situação mesma na divisão de 1933, como integrante do município de Agudos. Também nas divisões territoriais datadas de 31 de dezembro de 1936 e 31 de dezembro de 1937, bem como no quadro anexo ao Decreto-Lei estadual n.º 9073, de 31 de março de 1938, o distrito de Tupá continuou vinculado a Agudos.

Finalmente, o Decreto Estadual 9775, de 30 de novembro de 1938, o extinguiu e seu território passou a integrar o distrito de Agudos, homônimo do município.

A partir das fundamentações legais citadas, desde a Lei Provincial n.º 27, de 20 de abril de 1858, que classificara São Domingos como distrito, até o Decreto Estadual n.º 9775, de 30 de novembro de 1938 que decretou sua extinção, São Domingos teve [oficialmente] sua importância regional até 1890 quando enfim transferidos para Santa Bárbara do Rio Pardo [atual Águas de Santa Bárbara] o seu Cartório de Paz e sua Agencia Fiscal, por decisão do governo de São Paulo em cumprir autorização legislativa de 19 de julho de 1868 – Lei n.º 35. Cobra, às páginas 58,  diz que em 1890 os arquivos daqueles órgãos de Tupá foram transferidos para Santa Bárbara

Por São Domingos, o pioneiro José Theodoro de Souza teria feito uma primeira incursão em partes da bacia do rio Turvo, pois "foi no ano de 1842 que, para Espírito Santo do Turvo vieram o celebre posseiro mineiro José Teodoro de Souza, juntamente com Joaquim Antonio Pereira de Lima e Antonio Lemes da Silva. Estes foram quem fizeram o primeiro levantamento das terras do Rio Turvo e também do Rio Pardo (com documentos)" – [José Joaquim Gonçalves Melo, Espírito Santo do Turvo – Sua História e Seus Filhos, edição de maio de 1999, páginas 3].

Avançam neste sentido Oliveira Zanoni, às páginas 55 e 56, e o Professor C.F. dos Santos Silva, por referência àquela, que Theodoro não apenas se aventurou pelo rio Turvo em 1842, como neste mesmo ano fundou São Pedro do Turvo – [Revista Panorama, Ano I, nº 1, agosto de 1954, Santa Cruz do Rio Pardo, sob responsabilidade do Professor Carlos Frederico dos Santos Silva e Equipe, páginas 5, Oficinas da Escola Tipográfica Dominicana, Santa Cruz do Rio Pardo - SP].

Infelizmente os autores citados não apresentam documentos nem citam fontes.

2. BOTUCATU

Como entroncamento de ramais e local de paragem às margens da vereda Peabiru, “Ibytu-katu” tornou-se ponto de referência para caminhos a seguir, desde a chegada dos europeus à América do Sul e tão logo o uso daquela estrada. Seu nome significa bons ventos da serra, embora existam outros tantos significados às formas diferentes de formação das palavras e pronúncias, quase sempre com o significado toponímicos de bons ares da serra ou apenas, bons ares.

A expulsão dos padres em 1759 e o confisco da Fazenda Jesuítica, com o conseqüente abandono dos povoados rurais e, de resto toda a propriedade e suas alimárias, fez-se notar por quase dez anos. Aparentemente nem todos povoados da fazenda dos padres foram desativados, a servir de moradias a mestiços, índios, negros e brancos, que insistiam permanecer naquelas terras tanto que os arrematantes da propriedade, em 1766, contrataram o Coronel Francisco Fiúza, com seus bugreiros para exterminar índios, capturar negros e mestiços, e expulsar os brancos para a instalação dos novos proprietários.

A ação levada a efeito, com extrema violência e crueldade até 1770, quando quebrada a ultima resistência dos ocupantes das áreas em conflito, pode se erguer, enfim, a Capela Nossa Senhora das Dores de Cima da Serra, nome dado ao local desde 1766, onde se firmou o novo povoado em cima do arrasado aldeamento Oiti.

Com a chegada do Morgado de Mateus ao poder em São Paulo, a região experimentou certo progresso, com fluxo de pessoas vindas principalmente de Sorocaba, Itu, Itapetininga, Porto Feliz e localidades outras instaladas ao longo do rio Tietê, atraídas diante de promessa de  fundação de novos povoados e distribuições de terras nas cercanias e adiante da Serra.

Todo projeto entrou em colapso quando Martim Lopes, novo titular do governo optou em apagar da história tudo quanto planejara ou realizara Morgado de Mateus. As terras foram aos poucos abandonadas, a permanecer apenas alguns daqueles arranchados à beira do antigo caminho para Iguatemi. 

O lugar se tornou vazio de gentes até as primeiras três décadas do século XIX, quando novamente o sertão de Botucatu tornou-se atrativo, com suas terras férteis para o plantio, quase todas devolutas, não demarcadas, prontas para apossamentos efetivos, ao lado de algumas sesmarias. Ressurgiram as fazendas,

Para moradias dos poucos trabalhadores braçais, apenas as localidades de Nossa Senhora das Dores de Cima da Serra, ao lado de São Bom Jesus do Ribeirão Grande, Capão Bonito e Sobrado, povoações já citadas e estudadas.

Notavam-se, ainda, as presenças de fugitivos da lei, dos perseguidos por algum mandatário de outro lugar, de jagunços contratados para serviços de encomendas [razias, assassinatos e invasões de propriedades para guarda de posses], ou trabalhos na terra, estando o sertão, conforme Donato, “incrementado por causas diversas e poderosas: fuga ao recrutamento, perseguições políticas, receio à ação policial, deserção dos contingentes de tropa e da polícia (...)” (1).

Em 1830 a localidade Nossa Senhora das Dores de Cima da Serra apresentava uma população bastante flutuante, sendo radicados somente os capatazes de fazendas, trabalhadores rurais, vaqueiros, carreiros, ferramenteiros e alguns artesãos das fazendas mais próximas, num lugar carente de recursos, com poucos nascimentos cujos registros lavrados eram levados para Itapetininga. As raras casas eram toscas, desconfortáveis, quase todas de madeira e cobertas de sapé.

O lugarejo, no entanto, se tornou progressista e atrativo às pessoas de outras localidades mais desenvolvidas, como Sorocaba Itapetininga, Parnaíba, Porto Feliz e da região Sul de Minas, para atividades agro-pecuárias iniciadas na Fazenda Monte Alegre, do Capitão José Gomes Pinheiro Machado.

Capitão José Gomes Pinheiro Machado era natural de Santos, vindo residir em Itapetininga, posto a serviço da Guarda Nacional. Rico e político liberal atuante, adquiriu três fazendas [das Pedras, Morrinhos e Capão Bonito] no alto da serra Botucatu reunindo-as em apenas uma, a Monte Alegre, que lhe serviu de esconderijo quando da fracassada Revolução Liberal de 1842 (2). Donato acrescenta que na propriedade Monte Alegre “inseria-se fazenda menor, Fortaleza ou Palmeiras (...)”, e também eram fazendeiros na região o Capitão Inácio Apiaí – Fazenda Rio Claro; Raimundo de Tal que se apossou de terras denominadas fazendas Pulador e Boqueirão; e Fazenda Bom Jardim de um posseiro conhecido por Marques (3)..

  • Donato esclarece que Raimundo transferiu suas posses para os genros, Capitão Joaquim Gabriel de Oliveira Lima e José Inocêncio da Rocha. Nada se sabe a respeito do tal Marques, e o Capitão Inácio é o mesmo que foi morto e crucificado pelos índios (4).

A povoação Nossa Senhora das Dores de Cima da Serra [de Botucatu] ganhou impulso maior com a chegada do tropeiro Joaquim Costa de Abreu, do Sul de Minas, que se empregou antes como capataz em Sobrado, então fazenda de um portofelicense, encarregado de trazer cavalos e muares do Rio Grande do Sul para a venda em Sorocaba, além de gado bovino para engorda nas invernadas.

Inteligente, embora analfabeto, Costa logo descobriu meios de se evitar pagamentos de taxas de barreiras, imposto sobre os animais postos em Sorocaba e o preço da corretagem aos intermediários de vendas, com a reabertura ou uso daquele picadão desde o Paraná direto a Botucatu, e depois a condução seguida do gado a Minas, negociando diretamente com os compradores, com maior lucro. Era aquele o mesmo caminho utilizado décadas antes pelos jesuítas e a Família Campos Bicudo, e foi nessa utilização do caminho que Costa conheceu as boas terras de Capitão Gomes Pinheiro, campos e matos.

  • Diz Donato que nos primeiros tempos do século XIX, fugindo do fisco, preços elevados de pastagens e pousos praticados em Sorocaba, “os tropeiros buscaram outro caminho para conduzir animais cruzando a província paulista. Fugiam ao fisco, ao alto custo dos pastos e das pousadas. Dos campos gerais do Paraná buscaram vadear o Paranapanema onde ainda não era caudal e orientaram-se para a serra de Botucatu. Subiram-na, deram refresco aos bichos logo nos aparados, descansaram e seguiram para Minas Gerais, via São Carlos e Franca” (5), ou passando por Batatais e Casa Branca em direção à cidade mineira de Poços de Caldas. Costa abriu picadas mata adentro para o trânsito das tropas, como desvios de caminhos tradicionais ou oficiais, ou seja, aqueles caminhos dos padres.

Cumprida a missão delegada, Costa procurou pelo Capitão Gomes em Itapetininga para saber até onde iam suas posses em Botucatu e divisas com as fazendas existentes, do Capitão Inácio Apiaí, Capitão Joaquim Gabriel de Oliveira Lima, José Inocêncio da Rocha e a do tal Marques. Excluídas tais propriedades, quase tudo mais era de Gomes Pinheiro que, entendendo a vontade do mineiro Costa e sua coragem em enfrentar índios e posseiros, propôs-lhe toda parte do mato de sua propriedade, deixando os campos, no famoso acordo campos e matos (6).

A prosperidade do Costa e a fixação de homens em terras que ia conquistando com a derrubada das matas, logo trouxeram desacordos entre ele e Gomes Pinheiro, embora o próprio Capitão entendesse tarde para livrar-se de Joaquim Costa, como bem tarde compreendeu que as melhores terras não estavam nos campos.

Em 1843, num célebre acordo para findar litígio com a família Costa, Capitão José Gomes Pinheiro Machado doou uma porção de terras para criação do patrimônio e futura freguesia, com mudança do nome da padroeira, em vez de Nossa Senhora das Dores de Cima da Serra [de Botucatu], para Santa Ana de Cima da Serra [de Botucatu], para uns, singela homenagem à esposa Ana, para outros, forte exigência contra Costa obrigado se curvar, politicamente, diante da importância da Família Pinheiro Machado, mesmo com a derrota dos Liberais em 1842.

  • A família Costa era do Partido Conservador, enquanto Pinheiro Machado pertencia ao Partido Liberal, então figadais adversários e inimigos. Para os liberais derrotados e anistiados, a formação de um Ministério Liberal soou-lhes como vitória, reconhecida até pelos Conservadores.

Em fins de 1845, o Capitão José Gomes Pinheiro, como vereador, insistia na criação da freguesia, para a qual doou terras, ratificando suas reivindicações em outubro e dezembro do mesmo ano [1845], conforme atas legislativas, até que aos 19 fevereiro de 1846, o governador da Província de São Paulo, Manoel da Fonseca Lima e Silva, sancionou a lei n.º 283, criando uma freguesia no Distrito de Cima da Serra de Botucatu, sob a invocação de Santa Ana.

Capitão José Gomes se fez oficialmente o fundador de Botucatu, porém o desbravador foi, sem dúvidas, Joaquim Costa.

No ano de 1847 chegou a Botucatu o Capitão Tito Correia de Mello, genro do Capitão José Gomes, para construir sua residência conhecida por Fortaleza diante tamanha magnitude e segurança, para iniciar a denominada “Era Tito Correa de Mello” (7) que vigoraria até os primeiros anos do século XX. 

Com a vinda de Tito, também surgiu o progresso com a instalação da subdelegacia, em 1847, ocupada pelo juiz de paz João da Cruz Pereira, então a acumular funções (8). Em 1850 veio o Padre Joaquim Gonçalves Pacheco, como primeiro vigário geral, encerrando a fase dos padres visitadores de Itapetininga (9).

Pela lei de nº. 506, de 14 de Abril de 1.855, a freguesia foi elevada à condição de vila, num local onde já se erguiam quarenta casas cobertas por telhas e um outro tanto por sapé. Informações históricas registradas dão conta de oitenta e três casas. 

Em 20 de abril de 1866, por interferência de Capitão Tito, instalou-se a Comarca de Botucatu, pela lei nº. 61. A vila tornou-se economicamente próspera e sua política foi das mais atuantes da Província de São Paulo.

A inauguração da primeira escola de alfabetização ocorreu em 1867, pela sua professora Francisca Bertolina de Souza Cananéia (9), esposa do Tenente Coronel João Carlos de Souza Cananéia, mais conhecido por Coronel Cananéia, que substituiu membros da família Costa na liderança Conservadora local: “um mestre escola pública um tal Cel. Cananéia que era chefe político do Partido Conservador e a mulher professora pública como tudo e Botucatu”. (10).

Em 1871 descobriu-se o Café Amarelo de Botucatu com características diferentes das demais variedades já conhecidas. Francisco Marins dedicou algumas páginas de uma obra sua, sobre o misterioso aparecimento desta variedade de café (11).

A vila tornou-se enfim cidade aos 16 de março de 1876, pela Lei nº. 18 contando com população acima de cinco mil habitantes livres e mais ou menos mil escravos. Nesta mesma época foi instalado em Botucatu o entreposto de venda de escravos no interior paulista (12).

A estrada de ferro lhe chegou em 1889 e, com ela, o progresso maior para  ingressar o município numa fase de grandes obras de engenharia urbana, de saneamento e de saúde pública.

Na passagem do século XIX para o XX, Botucatu contava com mais de doze mil habitantes, era a mais progressista cidade do interior paulista, cognominada "Princesa da Serra". Por este tempo possuiu um importante entroncamento ferroviário da Ferrovia Sorocabana, Paulista e Norte do Paraná.
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