PARTE II – OS EXTERMINADORES
DO PASSADO
BRANCOS QUE ATACAM, ÍNDIOS QUE MATAM
José Theodoro era um obsidente exterminador de índios,
através das razias com emprego das dadas. Parecia acreditar-se
ungido numa missão de eliminar índios, para a
chegada do homem civilizado e a promoção do progresso.
Segundo antigos contadores regionais, em partes expressos conforme
narrativa de Francisco Marins, em sua obra Clarão na
Serra (1), para caça ao índio Theodoro levava
consigo um bom número de jagunços, todos fortemente
armados com o que havia de mais moderno e mortal dentre os
equipamentos de guerra que pudessem carregar às costas,
em busca da aldeia pretendida.
A viagem era cautelosa, rápida e silente, procurando
postarem-se nas cercanias do aldeamento altas horas da noite,
para distribuição dos homens em pontos estratégicos.
Eram incursões ligeiras, menos de dez dias, pelas dificuldades
de se levar mantimentos, armas e munições às
costas de cada soldado.
Para bons efeitos das táticas de guerras em cercar os
inimigos, Theodoro colhia informações de seus índios
domesticados, que lhes serviam de espiões. Por isso
sabia como se deslocar pelos campos, cerrados e matas, bem
como dividir seu exército.
- Nas matarias não se usavam animais para qualquer
tipo de cerco pela vulnerabilidade do atacante, dificuldades
de movimentação e presença facilmente
denunciada.
Aguardava o amanhecer para dar sinal de ataque, procurando
surpreender o inimigo ainda na indolência do sono, quando
uns atiravam e outros invadiam os ranchos com ataques a facões
e punhais, pondo em fuga os sobreviventes que iam exatamente à direção
pretendida, ou seja, num beco sem saída, onde eram abatidos
pelos atiradores, sem piedade. Não era fácil
algum indígena sobrevivente, como difícil algum
branco ferido sob proteção de escupis – grossos
jaquetões feitos e preparados a prova de flechas.
Dentro dos ranchos mulheres e crianças eram mortas a
golpes de facões e os velhos, geralmente, degolados.
Disto advinham as maiores crueldades imagináveis, ventres
rasgados, corpos infantis atravessados por punhais, empalações,
membros decepados.
Algumas vezes incendiavam as moradias, enquanto os soldados colocados
em seus pontos estratégicos aguardavam os fugitivos,
para abatê-los a tiros. Em outras, quando não
incendiavam tudo, os assassinos deixavam água e vitualhas
envenenadas, caso algum sobrevivente ou ausente necessitasse
delas.
Os índios temiam as dadas e as razias, o que os levava
para bem longe da região, assim a salvos da morte, não
sendo incomum encontrar aldeias desabitadas recente ante a
simples ameaça que Theodoro precisava de índios,
ou estava na região. Por isso os xavantes e guaranis
caiuás, dos campos e cerrados, quando não podiam
fugir, bem rápidos vinham se colocar ao dispor para
preamento, tão logo o caçador saísse para
as costumeiras caças. Era-lhes mais interessante morrer
alguns dos seus que exterminados membros de toda tribo; e ele
[Theodoro] realmente fazia matar aqueles alguns para se fazer
respeitar pelos restantes e mostrar-lhes sua magnanimidade
em deixar sobrevivente. Theodoro executava apenas índios
velhos, crianças e grávidas, tomando os demais
por escravos a favor dos sertanejos.
Para preação Theodoro preferia os campos abertos
porque lhe era mais fácil combater índios cujas
defesas e ataques tinham pouca eficácia diante das armas
de fogo do sertanista. Mais que isto, quase não encontrava
resistências, pois que xavantes e caiuás temiam-no,
certamente em lembranças às investidas mortíferas
que o sertanista lhes aplicara em 1850. Os destroços
Xavantes e Caiuás fugindo de Theodoro, não podiam
entrar nas matas dos rios do Peixe, do Feio e do Paraná,
sem defrontarem com outro inimigo igualmente cruel, os Caingangues,
preferindo ser escravizados pelos brancos, nem todos maus,
que a dizimação em mãos Caingangues.
José Theodoro não temia os Caingangues, mas raramente
os capturava para servidão, preferindo mata-los todos,
porque eram os terrores dos sertanistas e atrapalhavam em muito
o progresso do sertão.
Pelas atitudes do sertanista-mor pouco lhe importava o direito
indígena de viver, ter sua liberdade, o seu zelo pelas
terras, os seus apegos familiares, o respeito pelas crianças
e gratidões aos velhos. Theodoro, em suas razias e dadas,
mostrava-se desbravador sem nenhum outro fito que não
matar índios, escraviza-los e tomar-lhes toda a terra.
Deixa-los viver em liberdade era a quase certeza que eles voltariam,
mais fortes e unidos, para os contra-ataques.
Um dos tantos textos da época descreve os horrores das
dadas praticadas, para concluir que a terra empapada de
sangue era sempre terra mais fértil, numa paráfrase
ao Coronel Alfredo Marcondes Cabral, um desenvolvimentista
do oeste paulista, ao se referir às disputas assassinas
pelas terras desde os tempos de Theodoro (2).
Mas os índios também matavam brancos, em defesa
territorial e um ou outro caso de vinganças, apesar
da desigualdade de armas e dos objetivos de lutas. Para alguns
autores, Giovannetti entre eles, aconteceram lutas violentas
entre bárbaros selvagens e os homens civilizados, na
verdade alguns ataques Caingangues contra indivíduos
ou grupos reduzidos, eivados de extremas crueldades, como empalações,
degolas, crucificações, esquartejamentos, práticas
que os indígenas aprenderam dos brancos.
Os Caingangues não tinham por regra atacar povoados,
embora alguns registros de ataques indígenas, pelos
Caingangues, de grandes proporções, contra a
Vila de São José do Rio Novo [Campos Novos Paulista],
em 1874 em citado episódio que ficou conhecido em todo
sertão, por Batismo de Sangue de Campos Novos.
São muitos os relatos de ataques indígenas contra
os brancos, mais entre os rios Peixe e Feio/Aguapeí,
uns isolados e outros na atual região de Paraguaçu
Paulista, onde ficaram célebres os embates dos coroados
com a família Vieira. A maioria desses encontros ocorreu
depois da morte do pioneiro José Theodoro de Souza.
O primeiro embate sério entre índios e brancos,
já morto Theodoro, aconteceu nas proximidades de Paraguaçu
Paulista, em 1878, Fazenda Água das Mortes, quando de
inesperado ataque indígena a José Theodoro de
Souza Junior [Teodorinho] e suas gentes, com saldo de treze
brancos mortos, inclusive Teodorinho e toda sua família,
e uma criança levada pelos índios, que Giovannetti
menciona e cita testemunhos dos irmãos Joaquim e Jerônimo
Vieira (3).
O filho de José Theodoro de Souza morreu flechado e
teve o corpo esquartejado, seus camaradas também foram
mortos, enquanto mulheres e crianças refugiaram-se numa
das casas, logo cercada pelos índios que ali consumaram
a matança, inclusive a esposa e filhos de Teodorinho,
salvando-se apenas uma mulher e seu filho de três meses,
escondidos numa moita salvadora (4).
Da chacina na Água das Mortes, embora Leoni assegure
que apenas uma mulher, por nome Nicolaia, se salvou, sem criança
alguma (5), na região de Paraguaçu Paulista descendentes
da primeira e segunda geração de João
Batista Vieira, fonte primária de José Jorge
Junior, se lembravam que a mulher sobrevivente, já em
Minas Gerais, procurou pela família para contar-lhe
o acontecido e dissuadi-la, em vão, de fazer sertão
(6).
Pretensos herdeiros de José Theodoro de Souza firmam-se
descendentes de José Teodorinho, por aquela criança
salva da mortandade. Não procede, aqueles sobreviventes
[mãe e filho] foram para sua família em Minas
Gerais.
Anterior a 1880 aconteceu um outro massacre pelos Coroados
[Caingangues], que atacaram e incendiaram o rancho de José Vieira – Vieirinha,
agregado do fazendeiro Joaquim Vicente Ferreira, na Água
do Brejão, região de Paraguaçu Paulista. “A
mulher sucumbiu no próprio leito, e, ele, não
passou da porta do seu rancho em chamas, caindo flechado pelos índios.
Os pequenos, à medida que se libertavam da fornalha,
iam sendo massacrados impiedosamente. A filha mais velha, entre
menina e moça, em desabalada carreira foi mais longe
na sua fuga (...) a sua sorte, porém, estava selada.
Ao atravessar a pinguela certeira flecha traspassou-lhe o corpo
franzino”. Morreram o casal e cinco filhos (7).
Por volta de 1883 foi vez do fazendeiro Joaquim Vicente Ferreira
e dois agregados, um deles por nome Vicente Garcia, quando
faziam descoivara final da terra. Os índios caíram-lhes
em cima matando-os a golpes de bordunas, retalharam os corpos
e decapitaram Vicente e sua cabeça levada pelos atacantes.
Um filho de Joaquim, que estava mais distante do grupo, conseguiu
empreender fuga (8).
Em 1887 os Coroados [Caingangues] promoveram ataque surpresa
ao fazendeiro Manoel Pereira Alvim e seus ruralistas, pondo
em fuga os brancos, os indígenas pacificados e os escravos
negros à exceção de Luiza, que ficou junto
do seu senhor e de Antônio Luiz Ferreira, genro de Alvim,
que foram então mortos e esquartejados, sendo a cabeça
de Luiz levada pelos índios. A mulher de Alvim ficou
ensandecida, e sua filha, esposa de Antonio Luiz, entrou em
choque vindo falecer três dias após (9).
Os Pereira Alvim foram à forra seguindo trilha dos assassinos,
com sessenta homens fortemente armados, para além do
rio do Peixe e, já nas vertentes do Feio, encontraram
uma única aldeia, com velhos e feridos, imediatamente
mortos. Sem outros índios à vista ou saciada
a vingança, fizeram pouso a margem do rio do Peixe e,
ao amanhecer do dia foram surpreendidos pelos índios,
num ataque rápido que deixou dois brancos mortos e os
demais postos em fuga (10).
Giovannetti diz do encontro entre os índios Coroados
com a população de Paraguaçu Paulista,
próximo mais ou menos meio quilometro do centro, com
mortes para ambos os lados, sendo os índios rechaçados
(11).
- Paraguaçu Paulista ainda não existia, estando
o centro referido por Giovannetti aonde hoje a Igreja Matriz.
Em 1898, no Vale do Feio à margem do rio Dourado, os índios
Caingangues atacaram e mataram dois roceiros, com alto grau
de crueldade, mutilando os corpos; ao primeiro degolaram,
descalçaram uma bota, enquanto que a outra foi cortada
com a própria perna e tiraram-lhe todas as roupas e
o submeteram ao suplício da empalação. Ao
segundo cortaram e levaram um braço, cortaram mais a
mão e os pés, rematando as atrocidades com a
empalação (12).
Ainda no Feio/Aguapeí, num bairro chamado Pires, próximo á fazenda
Acampamento, Caingangues atacaram dois jovens roceiros,
degolando-os e dando-lhe fortes mordidas no rosto desfigurando-os;
também lhes amputaram as mãos e os pés.
A mãe viu ao longe a terrível morte dos filhos,
reuniu gente armada se pondo ao encalço dos assassinos,
enquanto estes numa estratégia de fuga pensada, retornaram
ao povoado para saqueá-lo enquanto vazio de homens,
com especiais atenções na residência daquela
mãe enlutada.
Também em 1898, outro grande ataque teria acontecido
no bairro rural do São Mateus [Paraguaçu Paulista],
local denominado Aldeia – um reduto de índios
pacificados, onde Caingangues selvagens atacaram e mataram
dez famílias da mesma tribo que se deixaram civilizar,
portanto a quebrar regras tribais (13). Os índios massacrados
pertenciam antes ao Coronel Francisco Sanches de Figueiredo
e moravam na Fazenda do Coronel, em Palmital, sendo removidos,
por motivos de segurança, para a Aldeia, em terras das
famílias Alvim e Paiva, porque já ameaçados
pelos Coroados selvagens (14).
Por vingança porque não índios se envolveram
num problema tribal, não se sabe, os Caingangues voltaram
atacar no São Mateus, margem direita, fazendo vítimas
fatais três escravos do fazendeiro José Antonio
de Paiva.
João Baptista Vieira e Silva e os filhos Jerônimo,
Domingos [Minguta] e Joaquim, mais o genro José Antonio
da Costa Vasconcelos, outros brancos e escravos, num verdadeiro
exercito de homens adultos, fixados na região hoje de
Paraguaçu Paulista, foram os que mais confrontos tiveram
com os Caingangues, ora em combates diretos, ora em defesa
ou socorro de outras famílias vítimas dos ataques.
Giovannetti diz que embates entre os Coroados e a família
Vieira eram constantes, certamente porque os Vieira fixaram
residência no imóvel Fazenda Pontinhas, bem a
meio do caminho e de comunicação entre as tribos
do Peixe com as do Paranapanema (15).
O mais violento combate entre os Vieira e os Caingangues acontecera,
acredita-se em 1888, quando o patriarca João Vieira
fora vitima de ataque indígena, mas socorrido pelos
parentes escapou ileso das mãos dos assaltantes. Apesar
de ter sido ocorrência sem maior conseqüência,
poderia ter sido pior, João Vieira optou pelo ataque
punitivo contra os índios, organizando uma expedição
de voluntários da região, de negros escravos, índios
catequizados em São Pedro de Alcântara [Jataizinho – Pr]
e mais o bugreiro Francisco Lourenço, homem experimentado
nas razias e nas dadas contra indígenas (16).
Sob ordens de Jerônimo Vieira e de Chico Lourenço,
a expedição partiu rumo a atual Tupã,
atravessaram o Peixe para encontrar uma grande aldeia nas vertentes
do Feio, onde numa emboscada, nunca esclarecida, exterminaram
aqueles Caingangues, à exceção de uma
criança de, aproximadamente, quatro anos, tomada pelos índios
mansos com objetivos de criá-la.
Praticada a matança a expedição pôs-se
de volta por caminho onde outros Caingangues os aguardavam,
tocaiados próximos a um rio desconhecido. O primeiro
a tombar foi um índio catequizado, depois outro ferido
e assim começou a batalha até que os atacantes
se retiraram mata adentro.
Os índios catequizados vingaram-se na criança
Caingangue fazendo-a aos pedaços, antes que algum membro
da comitiva pudesse impedir a barbárie.
Jerônimo Vieira, ferido num dos braços durante
confronto, jamais comentou os horrores desta dada. Antigos
moradores de Paraguaçu Paulista, amigos da família
Vieira, creditavam o massacre aos índios pacificados
ou aos negros, talvez para abrandamento da consciência
de Jerônimo, que nunca vira tantos horrores quanto àqueles
praticados por Chico Lourenço e demais participantes
da expedição, com maiores ou menores participações,
todos igualmente cruéis (17).
Depois de quase uma década, pelas informações
de José Jorge Junior, os Caingangues voltaram atacar,
em 1896, desta vez para matar ex-escravos negros que invadiram
um roçado que os indígenas por lá iniciavam.
Aparentemente o grupo atacante seria formado de remanescentes
Coroados que pretendiam se estabelecer às margens do
rio Alegre [Burrinho], afluente do rio Capivara (18).
Um último
combate entre coroados e brancos na região
de Paraguaçu Paulista ocorreu por volta de 1901, novamente
com a família Vieira, sem conseqüências maiores
(19).
A VIDA NO SERTÃO DO PARANAPANEMA
Relatamos que até os idos de 1719 o assentamento europeu
na Província de São Paulo, rumo ao oeste, não
ia além da Fazenda [Jesuítica] de Guareí,
somente neste ano chegando a Botucatu, também por uma
Fazenda Jesuítica, embora o Vale Paranapanema sempre
tivesse sido corredor de passagem, para entradistas e bandeirantes,
em busca do ouro e do índio para preação,
ocorrências quase ininterruptas entre os séculos
XVI ao primeiro quarto do XIX.
Também vimos que a região tivera pelo menos duas
experiências de fixação territorial, primeira
com os jesuítas espanhóis [1608 – 1629]
na Província de Guairá [atual estado do Paraná a
partir das margens dos rios Paranapanema e Tibagi], e a segunda
também com jesuítas [portugueses], entre os anos
1719 e 1759, na região de Botucatu.
Houve, ainda, algumas fazendas estabelecidas com seus bairros
rurais que serviam de moradias para capatazes, roceiros, vaqueiros,
carreiros e outros praticantes de atividades necessárias
para o desenvolvimento e bem estar de tais tipos de núcleos
residenciais, como marceneiros, ferreiros, construtores, artesãos,
mestres de engenhos e reparadores gerais entre outros.
Também aconteceram os arranchamentos ao longo dos caminhos,
alguns atribuídos aos indígenas, outros feitos
pelos religiosos – caminhos internos, as veredas de integração
e defesa territorial dos militares, além das rotas alternativas
dos tropeiros. Esses arranchamentos ruralistas, quase sempre,
serviam de pousos nos caminhos das interiorizações
e passagens do homem branco pela região.
A região do atual município de Piraju esteve “na
rota de antigos caminhos” (1) de passagem [rotas alternativas]
aos tropeiros vindos do sul, por volta de 1800, e alguns por
ali se estabeleceram tomando posse e construindo os primeiros
ranchos, por exemplo, em Timburi onde uma família já se
havia fixado em 1799. Também Sobrado, ponto de parada
desde os tempos jesuíticos [1719/1760], ainda em 1822
fornecia estadias às expedições que se
aventuravam pelos sertões. Outros registros indicam
arranchamentos na região da hoje Santa Cruz do Rio Pardo, à beira
do caminho militar de 1772, além de Itatinga que, por
Hernâni, antes de 1884 – da formação
efetiva do povoado, foi “pouso e rancho durante decênios” nas
rotas tropeiras (2).
O Vale Paranapanema não era, portanto, uma zona tão
desconhecida, nem tampouco totalmente desabitada, embora com
população rala, flutuante e sujeita aos sucessos
ou não de suas empreitadas, especialmente de convivência
com os índios.
Sem dúvidas, dos tropeiros foram as primeiras informações
aos mineiros sobre férteis terras desabitadas do Sertão
Paranapanema. A famosa feira de Sorocaba os atraia para os
grandes negócios de muares, eqüinos e gado vacum,
que eram levados para Minas Gerais, Bahia, Rio de Janeiro e
Goiás, muitas vezes pelos caminhos das Terras dos Baurus.
Nessa época a Província de São Paulo estava
esvaziada, porque parte de sua população correra
para as riquezas de Minas Gerais, enquanto outra continuava
envolvida com a plantação da cana mélica
para a produção do açúcar. Então
os gados que os mineiros tanto precisavam, muares, eqüinos
e vacuns teriam que vir do sul – Rio Grande do Sul e
Argentina, bem como outros produtos básicos transportados
da Bahia e Rio de Janeiro.
Bem cedo os paulistas interiorizados em Sorocaba, Itapetininga
e Porto Feliz, ali outrora em busca do ouro e depois fixados
na terra para produção agro-pecuária de
sustentação, se aperceberam primeiro que estavam
situados num local estratégico da rota Sul-Minas, depois
que podiam buscar ou fazer trazer aquilo que os mineiros precisavam
comprar, e, por fim, centralizar em Sorocaba a grande feira
de tropas. Os jesuítas e a família Campos Bicudo
se fizeram pioneiros, como relatamos, ainda antes do estabelecimento
oficial da Feira de Sorocaba.
Sorocaba era ponto privilegiado às pretensões
de comércio intermediário, Sul-Minas, depois à Bahia,
Goiás, Mato Grosso ou mesmo Rio de Janeiro, porque nela
se iniciava [e findava] a única estrada segura e oficial
ao sul do Brasil, a Viamão, um percurso longo de Viamão
no Rio Grande do Sul, em direção a Sorocaba,
São Paulo, um aproveitamento de partes de trilha indígena
que interligava as Peabiru Santa Catarina com a de São
Vicente.
Para escoamento ou transação dessas mercadorias,
surgiram intermediários de compra e venda de animais,
os denominados tropeiros, também porque eles próprios
com seus peões conduziam as tropas [buscavam e levavam]
para a Feira ou, desde a origem para o local de destino, passando
por Sorocaba, caminho oficial único e obrigatório.
- Poucos se arriscavam pelas rotas do contrabando, antes
exclusividades dos Campos Bicudo e jesuítas, porque
deles eram as terras por onde passavam as trilhas. Com a
expulsão dos padres jesuítas e o desinteresse
da família pelas terras da região de Botucatu,
pelos tantos motivos já expostos, a alternativa de
um caminho livre de impostos e taxas foi, aos poucos, restabelecido.
Sorocaba tornou-se próspera e sua Feira de Comércio
conhecida em todo Brasil, cujo sucesso fez com que os ricos
e aventureiros comprassem fazendas no interior paulista e investissem
na criação de bovinos, eqüinos e muares.
No princípio do século XIX já era o tropeiro
o elemento mercantilista e responsável pela integração
e interação de regiões diversas do Brasil
e, principalmente naquilo que diz respeito aos paulistas e
mineiros.
Vicente Tapajós (3) menciona J.F. Normano, [Evolução
Econômica do Brasil], para explicar que o tropeiro “uma
figura, menos histórica, mais mercantilista, veio substituir
o bandeirante como fator de expansão”, além
de recorrer a Bernardo Guimarães para descrever o tropeiro
também como intermediário para outras transações,
ou seja, “o transportador de mercadorias, de pessoas,
de dinheiro, de notícias e da correspondência
pessoal”, sem prejuízos de suas funções
originárias de conduzir gados e tropas.
Aos bandeirantes e entradistas sucedeu o tropeirismo mineiro-paulista,
influenciador direto para surgimento dos primeiros arranchamentos
no sertão de São Paulo, como pontos de apoios
e pousos nas rotas abertas [picadões], para o contrabando
da mercadoria transportada ou, como mais comum dito, para se
evitar os postos oficiais de controles, onde os tropeiros deixavam
boa parte dos lucros, em pesadas contribuições
compulsórias ao erário.
Foram os tropeiros que observando a fertilidade do solo paulista,
por onde transitavam pelas rotas clandestinas, quem indicaram
as boas terras àqueles que desejavam nelas se estabelecer,
construindo os primeiros ranchos de moradia.
No caso específico dos tropeiros mineiros em terras
paulistas, muitos se empregavam primeiro em fazendas mais próximas
do rio Tietê, para somente depois ingressar como posseiros
em áreas interessadas, como Joaquim Costa o mineiro
condutor de gado que, antes de apossar terras em Botucatu,
fez-se empregado na Fazenda Sobrado [no atual município
de São Manoel] de propriedade de um portofelicense (4).
Do inter-relacionamento de mineiros e paulistas, entre os anos
1775 a 1822, surgiram os primeiros povoados paulistas na região
de Araraquara e, alguns anos depois, no Vale do Paranapanema.
Não menos interessante a vinda, também, de gentes
fluminenses – Rio de Janeiro, e aquelas do sul, rio-grandenses-do-sul
ou gaúchos, mais para as regiões de Tatuí e
Porangaba, porém de pouca influência nos surgimentos
dos primeiros povoados além São Domingos [do
Tupá].
Retrospectiva histórica evidencia a descoberta das grandes
jazidas, em Minas Gerais, por fator decisivo da densa povoação
mineira, das riquezas, desenvolvimento regional e das grandes
fortunas pessoais. Quase 2/3 das antigas cidades mineiras originaram-se
das atividades de mineração e do terço
restante, grande parte surgiu dentro de propriedades de antigos
e abastados mineiros.
No século XVIII as riquezas mineiras despertaram interesses
europeus, obrigando Portugal rapidamente intervir no Brasil
e assim deslocar seu interesse econômico para as terras
brasileiras, mais especialmente, Minas Gerais. Essa intromissão
do Estado [Governo] no controle das principais jazidas minerais,
em fins do século XVIII e princípios do XIX deixou
bem pouco espaço para quem ainda ousasse aventuras em
busca do ouro, o que obrigava o mineiro pobre recorrer a trabalhos
outros além das divisas de Minas Gerais.
Os primeiros migrantes mineiros, para a Província de
São Paulo, seriam antigos tropeiros que conheceram antes
a região, mais aqueles indivíduos estabelecidos à beira
dos caminhos alternativos que conduziam a Minas Gerais.
Muitos mineiros já enriquecidos ou proprietários
de jazidas sem futuro, venderam suas posses ao governo ou delas
foram expropriados, com negociatas e vendas de minas esgotadas,
para aquisições de grandes propriedades voltadas às
atividades agro-pecuárias.
Esse novo endereçamento da riqueza impossibilitou a
aquisição de terras para os menos afortunados,
obrigando-os partir para a Província de São Paulo,
região de Araraquara. Também, muitos dos pequenos
proprietários resolveram vender suas poucas terras a
preços elevados, para adquirir propriedades maiores
para onde transferiam moradas.
O tropeiro Pedro José Neto vindo de Minas Gerais com
destino a Sorocaba, por volta de 1807, passou pelas terras
da futura região de Araraquara [Campos de Aracoara],
para onde retornou tempos depois. Em 1817 o povoado de São
Bento de Araraquara foi elevado à condição
de freguesia, já com mais de trezentos habitantes.
De 1817 a 1822 ocorreu o maior número de famílias mineiras
vindas de Pouso Alegre, Poços de Caldas, Ouro Fino, Formiga, Baependi,
Machado, São João Del Rei, Alfenas entre outras cidades mineiras,
para a região araraquarense, sendo dessa época surgimentos de
povoados como a própria Araraquara, Itirapina [Itaqueri da Serra], Dois
Córregos, Dourado, Brotas, Jaú e outras localidades, direta
ou indiretamente sob influência mineira. As famílias chegavam
pelo caminho de Mogi Mirim a Itaqueri da Serra – hoje Itirapina, ou ainda
os alternativos, como Franca, Batatais, São Simão e Casa Branca,
conhecidos como velhos caminhos, de 1820, quando maior número de mineiros
desceu para São Paulo, povoando as regiões centrais e do médio
Tiete.
O fenômeno migratório de 1820/22 foi decorrente
da decadência das minas de ouro de ouro e o incremento à pecuária,
que tornou ainda mais proibitivo os preços de terras
em Minas, numa época que a atração dos
negócios ainda era Araraquara.
Quando a vasta região de Araraquara tornou-se saturada
de ocupações, o destino se voltou então
para as terras do Vale do Paranapanema, ou para adiante do
Tietê, aonde em 1847/1850 o sertanejo José Theodoro
de Souza vinha fazendo razias em territórios indígenas,
com o propósito de torná-los habitáveis
pelos brancos progressistas.
Como sempre, primeiros chegaram os indivíduos depois
as famílias, em viagens longas e difíceis, em
caravanas com três ou mais carros de boi, carroções
e carroças, burros de carga, montarias, arrastadores
para cargas menores ou de difíceis transportes, escravos
negros de algumas famílias de maiores recursos, familiares
quase todos, os homens, as mulheres, os jovens, os velhos e
as crianças, ou sejam, filhos, genros, cunhados, netos,
pais, tios e avós. São diversos os registros
de crianças que nasceram em carros de bois improvisados
de moradia ambulante.
Os migrantes traziam seus pertences básicos, tudo quanto
podiam transportar, por caminhos vagarosos porque conduziam
também seus suínos, caprinos, ovinos, eqüinos,
bovinos, além das crias, muitas nascidas durante a jornada.
Traziam ainda galináceos e outras aves domesticadas,
como patos, perus, gansos e galinhas de angola, todos seguidos
de perto por muitos cães.
Tinham armas, munições, mantimentos, ferramentas
e a esperança de conseguir terras por um bom preço,
arrendar, mear ou simplesmente empregar-se para um dia, quem
sabe, tornar-se proprietário também. Os mineiros
vinham praticamente dos mesmos lugares das Minas Gerais, daqueles
que saíram décadas ou anos antes para as terras
de Araraquara, sendo suas caravanas atrações
pelos caminhos onde passavam, a atrair gentes da própria
província de São Paulo que, por vezes, resolviam
acompanha-los naquelas aventuras.
- Entre as cidades antes mencionadas e outras, ainda se destacam
as localidades mineiras de Botelhos, Cabo Verde, Cambuí,
Campestre, Caracol, Carmo, Carmo do Pouso Alto, Cristina,
Escaramuça, Jacuí, Passos, São Gonçalo
do Sapucaí, São Joaquim da Serra Negra, São
José do Paraíso, Rezende e Vila Nova.
Tendo indicações de suas terras, os caminhos
a elas eram abertos a facão, foice e machado, até encontrar
o lugar mais ideal para definitiva instalação.
Quase todos que chegaram depois do grupo primitivo de 1851
se estabeleceram em terras de São José do Rio
Novo, exceto aqueles mais abastados que podiam adquirir áreas
em locais civilizados, Santa Bárbara do Rio Pardo, Santa
Cruz do Rio Pardo, e Espírito Santo do Turvo, ou mesmo
São Pedro do Turvo.
Gentes que chegaram entre 1851 a 1856 derrubaram as matas,
fizeram seus ranchos e seus bairros, isto é, desbravaram
as terras e as deixaram livres dos índios, para vendê-las
a pessoas interessadas [grupos de 1865, 1870, 1890 e 1896]
e que tinham recursos para tanto, indo os pioneiros mais adiante
com os mesmos propósitos de amanhar sertão para
chegada de novos adquirentes.
Os primeiros moradores preferiam casas em áreas longe
das matas, para evitar os perigos indígenas, mas logo
descobririam as vantagens de agrupamentos num determinado local,
os bairros rurais, para melhores defesas. As casas eram rústicas – sem
confortos, de pau a pique ou feitas de paus roliços,
algumas cobertas de sapé, outras de troncos de coqueiros
abertos ao meio ou de pequenas tábuas lascadas. Depois
de algum período de fixação, levantaram-se
as primeiras casas de madeira lavrada e as de adobe, que Aurélio
descreve como de “bloco semelhante ao tijolo, preparado
com argila crua, secada ao sol, e que também é feito
misturado com palha, para se tornar mais resistente” (5).
As coberturas das casas também evoluíram para
as placas de cedro trabalhadas, ou as telhas de barro, moldadas
nas coxas, de tamanhos irregulares daí o termo feito
nas coxas para objetos não uniformes.
As casas em geral tinham quintais cercados, para proteção
própria e contenção das aves e cães,
e neles quase sempre à montante havia um poço
que atingia o lençol aqüífero, enquanto à jusante
estava a latrina. Fora do quintal ficava a pocilga ou curral
de porcos, quase a céu aberto não fora a cobertura
dos cochos, o chiqueiro de engorda e os compartimentos das
crias.
Os piquetes ou pequenos potreiros, também se localizavam
fora, servindo para guarda de animais empregados nos trabalhos
do dia-a-dia, como cavalos de montaria, vacas de leite, além
dos separados [cercados] para os bezerros e animais doentes.
Quase sempre com um curso dágua nas proximidades da
casa, montavam-se os monjolos para beneficiar o arroz, descascar
o café e pilar o milho. Próximo ao monjolo, uma
construção simples – tipo barracão
ou cobertura apenas, às vezes chamada de fábrica
ou fabriqueta, onde se preparavam farinhas de milho e mandioca
em fornos próprios.
Num pequeno engenho moíam a cana para extração
da garapa, usada diretamente como adoçante, ou para
fabricação de rapadura que, moída, substituía
o açúcar. Alguns historiadores locais, como José Jorge
Junior, lembram que naqueles tempos, quando inexistia o café na
região, o caboclo valia-se das sementes torradas e moídas
do fedegoso fervidas em água com garapa (6). Da cana
também produziam a cachaça em pequenos alambiques.
Dentre os maquinários rudimentares era quase obrigatório
o descaroçador de algodão, a carda [para desembaraçar,
destrinçar e pentear o algodão sem caroço,
num só sentido e separado em fios], e o tear para produzir
os tecidos. Algumas casas tinham os bilros para fazer renda.
Antigos relatos dão conta das habilidades de certas
mulheres e homens em manusear bilros ou na produção
de tecidos de algodão, magistralmente tingidos em cores
diversas com uso de folhas, sementes, frutos, cascas, madeira
ou raízes vegetais.
Os móveis eram toscos, as camas, armários, guarda-roupas,
bancos, mesas e cadeiras; quase todas as casas tinham um oratório,
em homenagem ao santo padroeiro, alguns artisticamente trabalhados
e trazidos na viagem.
Para a iluminação valiam-se do candil preso à parede
ou suspenso, com recipiente de barro ou ferro, envolto em folha-de
flandres, abastecido com banha de porco na qual se embebia
um pavio para nele por fogo. Nalgumas famílias usavam-se
velas de sebo animal.
A medicina era empírica, ou seja, baseada na experiência
geralmente familiar ou dos mais antigos, com aproveitamento
de certas espécies vegetais, desde as folhas, frutos,
sementes, às cascas e raízes, para beberagens
em casos de males internos, ou ungüentos quando de problemas
externos. “Nas doenças dispunham de uma infinidade
de chás e ungüentos à base de raízes,
folhas, sementes, sumos, etc. de real eficácia” (7). Em
casos de torções graves e quebraduras, faziam
uso de talas, rígidas ou flexíveis, para imobilizações
das partes de membros afetados. Os mais letrados tinham em
casa exemplar do Chernoviz, o livro mais eficaz de receitas
para todas as doenças conhecidas, e uma farmácia
montada com vidros de remédios variados (8).
Praticavam agricultura de subsistência, com as derrubadas
de matas para plantios de arroz, feijão, milho, abóbora,
mandioca, batata doce, cana e algodão, havendo um ou
outro experimento de cultivos de arvores silvestres frutíferas.
A caça e pesca eram abundantes, havendo, portanto, fartura
de tudo quanto necessitavam para aquele modo de vida, excetos
o sal, as ferramentas agrícolas, munições
e armas, além de uma ou outra novidade para o lar ou
de uso pessoal.
O preparo da terra para agricultura era a denominada cultura
do fogo, as queimadas, com a marcação de datas
e por períodos, de maneira a recuperar o solo e a vegetação,
quando o terreno não fosse utilizado pela pecuária,
inicialmente feita nos campos e não nas matas derrubadas.
Da precisão de alguns produtos indispensáveis
a vida sertaneja, ou mesmo garantia de sobrevivência,
obrigou os pioneiros produzirem excedentes para trocas ou vendas,
com objetivos de conseguir satisfazer necessidades.
Estes excedentes eram tecidos manufaturados, esteiras, cestas,
balaios, doces em calda ou cristalizados, queijos, rapaduras,
fumo e cereais postos em carroções e carros de
boi, mas as principais mercadorias eram de origem animal, carne
de porco conservada em banha suína derretida e acondicionada
em latas ou potes, toucinho salgado ou defumado [esfumaçado],
charques, carnes de fumeiro, lingüiças [secas,
defumadas ou acondicionadas em gordura animal], embaladas e
protegidas em palhas de milho, acondicionadas em balaios de
taquaras e postos nos carroções, quando não
em jacás de taquara ou de cipó levados às
costas de animais. Ainda eram levados couros bovinos, salgados
ou estacados.
Os balaios acomodavam mais ou menos quatro arrobas de mercadoria – 60
quilos, enquanto os jacás não ultrapassavam os
25 quilos. Um carro de boi tinha capacidade para mais de tonelada
e meia, o carroção não indo além
dos trezentos quilos; tipos carretões mais ou menos
mistos de carro de boi tinham capacidade de até meia
tonelada. Cada muar levava às costas cinqüenta
quilos sem muitos esforços. Alguns pioneiros faziam
também uso de força escrava [de negros e índios]
para transportar mercadorias. Quase sempre nas viagens comerciais
uniam-se grupos de famílias, para melhor aproveitamento
dos veículos disponíveis e segurança pessoal.
As mercadorias eram acomodadas e sobrepostas nos respectivos
carros de boi, cujos lados, feitos de esteiras trançadas
em taquaras removíveis, tinham altura entre 1,00 a 1,20
metros, com teto trabalhado em couro de boi. Assim os comboios
saiam para uma viagem de ida, para além de dezoito dias
em tempo bom, um carro após outro, com guieiros ao lado
tangendo os bois.
As mulas iam, com cangalhas postas a sustentar sacos de couro
para transporte de objetos e mercadorias de uso diário – panelas
e mantimentos, e iam as marchas lentas na frente ou seguindo
as carretas carregadas e os carros de bois, com aquele ranger
característico do atrito do eixo de madeira com o mancal
também de madeira.
Algumas caravanas valiam-se do arrastador, um tabuão
ou tábuas sobre sarrafões atrelados a um animal,
com capacidade para mais ou menos cem quilos de tralhas e ferramentas
de uso mais contínuo durante a viagem.
Os donos das mercadorias montados a cavalo, por vezes a pé,
em outras se revezando, cuidavam de todos os detalhes e constantemente
se informavam, por sinais, com os batedores ou guias que, distantes
do grupo, cuidavam da segurança de todos, por exemplo,
da presença de índios.
Pouco variava
os hábitos das caravanas; às quatro horas colocavam os bois e
demais alimárias para pastagem, sob rígida vigilância,
enquanto os responsáveis pela cozinha preparavam a refeição
da hora, arroz, feijão com torresmo ou couro de porco, carne seca, carne
de gordura ou carne fresca de alguma caça abatida pelos caminhos. Geralmente
o arroz era preparado com algum ingrediente adicional, ovo, lingüiça
ou pedaços de toucinho, sendo as refeições preparadas
em panelas de ferro sobre suporte de três escoras – trempe ou tripé,
e ao final da refeição era servido o fedegoso adoçado
com rapadura, antes de uma boa pitada num cigarro de palha ou cachimbo de barro.
Ao alvorar se
punham em caminho até por volta do meio dia, quando paravam para o almoço
rápido, a paçoca, ou seja, farinha de milho socada no pilão
com carne de carne de boi, ou de porco, frango ou, ainda, de algum animal silvestre
como cateto, paca, cotia e veado. Esta parada quase sempre acontecia à beira
de alguma aguada para que os animais pudessem saciar a sede.
A caminhada às vezes era interrompida por quebra de
algum carro, uma ou outra ponte que precisava de reparos, chuvas
que impediam a marcha, quando não a presença
do índio feroz que, embora raramente atacasse caravanas,
durante noite a soltava animais, rondava o acampamento, ou
lançava fogo nos carroções fazendo perder
as mercadorias.
Quando
do entardecer faziam a parada de pouso, onde novamente se alimentavam
daquela paçoca preparada em casa – pouco antes da partida, acondicionada
em picuás e geralmente suficiente para toda viagem, ida e volta. Os
animais eram atrelados para pastagem, os bois um a outro por tiras de couro,
passante pelos furos nas pontas dos chifres, enquanto os cavalos e burros também
eram amarrados aos pares, pelo pescoço, para evitar
fugas.
Os guias ou batedores que se adiantavam do grupo, escolhiam
o lugar da parada noturna e cercavam com laços, cordas
e sovéis um espaço de campo, com aguada e boa
pastagem, e sobre os estirões colocavam galhos de árvores
de modo impedir que os animais fossem além dos limites
ou que pudessem escapar. Assim os homens podiam se alimentar,
tomar o fedegoso, conversar ao pé do fogo até que
lhes chegasse o sono e assim pudessem dormir em suas esteiras – alguns
se utilizavam de redes, sob os carros de boi ou mesmo ao relento,
com a arma sempre ao alcance das mãos.
O destino era São Domingos [do Tupá], onde muitos
aproveitavam a oportunidade para além de negociar seus
produtos, cuidar de assuntos cartoriais, como registros de
documentos, títulos, escrituras e certidões.
Outros, no entanto, iam direto para São Manoel, como
entreposto comercial ligando o sertão com os grandes
centros, onde aconteciam os melhores escambos, compras e vendas.
Lençóis também estava por destino em causa
do porto, junto ao Tietê, para escoamento de mercadorias,
dividindo com São Domingos e São Manoel a preferência
do sertanejo para seus acertos (9).
José Jorge Junior, em qual trabalho baseamos tais descrições,
das primeiras viagens comerciais sertanejas aos mercados distantes,
conclui que os antigos sertanejos viandantes “Terminadas
as transações, que procuravam realizar o mais rápido
possível, iniciavam a grande viagem de volta por mais
outros 18 ou 19 dias de caminhada” (10).
PRIMEIROS NÚCLEOS POVOADORES – [RESUMOS
HISTÓRICOS]
1. SÃO DOMINGOS – NAS BOCAS DO SERTÃO OESTE PAULISTA
"As verdadeiras origens de Tupá talvez nunca sejam reveladas. Sua memória e sua história estão sepultadas para sempre nos túmulos destruídos e sem registros abandonados naquela gleba no pequeno distrito de Domélia" – [Revista DMais – Ano I nº 3: Tupá, em busca da cidade perdida – História de Tupá mostra que Santa Cruz é anterior a 1870, encarte da edição Jornal Debate, Santa Cruz do Rio Pardo – SP, edição 1195, de 29 de fevereiro de 2004, página 11].
Velhas tradições indicam o local, aonde viria ser São Domingos ou Tupá, como antigo retiro da Fazenda Jesuíta [1719 – 1759], com ranchos para os cuidados de gado invernado e bem servir aos tropeiros e itinerantes sertanistas. A dar crédito aos relatos de antanho, lá se poderia até considerar a ultima povoação da ultima vila [Sorocaba], a partir da Serra de Botucatu, à qual se referiu o bandeirante Bartholomeu Paes de Abreu, em 1721 em documento encaminhado à Câmara de São Paulo, para reivindicar o seu caminho para as Minas de Cuiabá.
Em tal lugar, um bairro rural já com característica urbana, os jesuítas teriam construído, muito tempo antes, um reservatório de águas colhidas de minas adjacentes, depois conduzidas até ao povoado, por um canal feito em pedras, num rumorejo constante como leve trovejar, razão do topônimo indígena Tupá, por significar "o que troveja ou trovejante".
Para os mais velhos, que ouviram dos mais antigos moradores do lugar, teriam sido os padres, que eles mesmos também não conheceram, os construtores daquela obra, que lembram "os sistemas de abastecimentos de águas para Pedra Ferro e Sobrado, conhecidos bairros rurais da Fazenda Jesuítica de Botucatu" – [Celso Prado – referências: Razias (...), Fazenda Jesuítica de Botucatu – Os bairros rurais].
Lendas ou não, em São Domingos existiu um adutor de águas para o povoado. Em entrevista à reportagem Jornal Debate, o pecuarista Henrique Dyna, ex-cartorário de distrito, ao se recordar da povoação dos anos de 1930, ainda se lembrava em funcionamento aquele canal condutor de águas, todo feito em pedras, conhecido como "Água das Pedras" – [Revista DMais, citada, Tupá teve quase 200 imóveis e uma economia muito forte, páginas 10].
Apesar dos relatos e coincidências, reconhecemos, as provas são frágeis para remontar ao século XVIII as origens de São Domingos.
Alternativamente a oficialidade determina, apenas, que por volta de 1835 a história "civilizada" do sertão paulista, entre os rios Tietê e Paranapanema às barrancas do rio Paraná, não contava nenhuma povoação adiante da Serra do Botucatu, senão num lugarejo conhecido por São Domingos, à beira do antigo "Caminho pr Guatemy", entre os ribeirões São Domingos e Forquilha – afluentes do Turvo, onde brancos e Otis conviviam pacificamente e se protegiam.
Não se sabe desde quando a existência da povoação, todavia antigos apontamentos cartoriais indicam-na sob o nome Bairro [Invernada] da Forquilha na propriedade São João de Domingos, que se prova dos fazendeiros sorocabanos Procópio José de Matos e Domingos Palmeira, em 1835.O historiador HernaniDonato menciona a propriedade "nas alturas do antigo campo de criar que fora dos jesuítas", por volta daquele ano de 1835, identifica os fazendeiros e diz que Domingos "(...) teria dado o seu nome à Fazenda", sem informar qualquer núcleo populacional ou que lá tenha sido o princípio de São Domingos – [Hernani Donato, Achegas para a História de Botucatu, 3ª edição [reescrita], 1985 – publicação pelo Banco Sudameris Brasil e Prefeitura Municipal de Botucatu, página 51].
Entretanto, documento oficial de doação territorial para a formação de Lucianópolis – SP atesta escritura lavrada em 1862, "no cartório da extinta Freguesia de São Domingos, anteriormente conhecida por São João de Domingos e mais primitivamente, Bairro da Forquilha" – [Lucianópolis: Sua terra e sua gente, publicação eletrônica pela Prefeitura Municipal: http://www.lucianopolis.ddns.com.br/index.php?exibir=secoes&ID=39].
Comprovamos referência à Invernada da Forquilha, numa anosa escritura de compra e venda de terras datada de 20 de dezembro de 1845, na qual:
- "Flávia Domitila Monteiro, viúva de Ignácio Dias Baptista, vende a Silvério Gomes dos Reis (...) huns campos denominado Turvo e Mattas adjacentes ao mesmo campo no distrito d'esta Villa de... '(a vila é Itapetininga)'... em Sima da Serra de Botucatu (...), a qual parte sua divisa hé a seguinte = principiará nas cabeceiras do rio Turvo, por este baixo thé o ponto da matta onde se considera adjacente ao mesmo campo e por esta matta adiante thé entestar nas flardas do Serrote, e por este adiante athé a supra dita cabecceira do Turvo; ficando livre e d'esta venda qualquer parte que pertença a Invernada da Furquia (...)" – [Trajano Carlos Figueiredo Pupo e Paulo Pinheiro Machado Ciaccia, Primeiras Fazendas da Região de Botucatu, página 6 – D 2, – Campos do Turvo, 1ª edição Gráfica G 3].
João Dornas Filho [Aspectos da Economia Colonial Itatiaia. Belo Horizonte. 2ª edição. 1959]. assegura-nos por Invernada a qual lugar "os camaradas constroem cabanas perto do local onde pastam os animais (...). Em geral esse nome é dado a locais em que as caravanas param durante algum tempo" – [Almanaque Mineiro traz publicação em sítio eletrônico http://lusitanocoelhomg2004.blogspot.com].
Nestes considerandos, a "Invernada da Furquia [Forquilha]" seria um antigo bairro rural da Fazenda São João de Domingos, ou seja, ajuntamento de moradias naquela propriedade, com presenças de pouso e currais.
Dão-nos provas das proximidades de Forquilha com São Domingos, outro registro de compra e venda de terras, de 19 de dezembro de 1851, no qual Manoel Joaquim de Andrade e seu irmão Joaquim Manoel de Andrade, este o futuro co-fundador oficial de Santa Cruz do Rio Pardo, adquirem pelo valor de 2.600$000 uma "Fazenda de Campos e Matas no lugar denominado São Domingos. Principiando da barra do Rio São Domingos, e por este acima, até as cabeceiras e daqui em rumo a procurar uma Fazenda que sai do Ribeirão da Forquilha, e por ela abaixo, até onde faz barra no Turvo, e por este abaixo, até encontrar a barra onde teve princípio esta divisa (...)" – [Pupo e Ciaccia, p. 136, documento E 30].
Arruda Dantas afiança-nos que "A primeira povoação a se formar no Oeste foi São Domingos, nas cabeceiras do rio Turvo, por volta de 1835 e elevada a freguesia em 1855 (...)" – [Antonio de Arruda Dantas, Memórias do Patrimônio de Assis, 2a. edição, 1980, páginas 23].
Cobra descreve que "Esta localidade [São Domingos], foi, por longos annos, a boca do sertão e sede de distrito de Paz. (...). Precedeu a de Lençóes a receber os fóros de freguezia" – [Amador Nogueira Cobra, Em um Recanto do Sertão Paulista, Tipografia Hennies Irmãos, São Paulo - SP, 1923, página 18 – nota 1], ciente aquele autor que Lençóis chegou a tal posição de freguesia em 28 de abril de 1858, portanto em acordo próximo com Arruda Dantas, que atesta São Domingos por freguesia em 1855.
São Domingos tornou-se freguesia em 1855 como circunscrição eclesiástica regional, cabeça de sertão para os novos povoados [capelas] que surgiam no Vale Paranapanema, assegurando-lhes a administração civil como instituição oficial para transcrição de atos, fatos, títulos e documentos, dando-lhes autenticidade e força legal de prevalecer contra terceiros, com garantias de reconhecimentos pelas instituições brasileiras, posto sua condição cível e eclesiástica, de importância tamanha que "São Domingos ou Tupá ostentara, por meados do século XIX, o status de Comarca Imperial e Eclesiástica" – [Professor José Magalli Junqueira, Santa Cruz do Rio Pardo – Memórias: Subsídios para a história de uma cidade paulistana, 2ª. Edição, Editora Viena Ltda. Santa Cruz do Rio Pardo – SP, 2006, páginas 37].
Das cópias e transcrições de documentos civis e religiosos produzidos em São Domingos, século XIX, nenhum em nosso poder ou conhecimento traz o título Comarca Imperial e Eclesiástica, apenas "Freguezia de S. Domingos" = [Prado], mas nada a obstar possibilidades, por se tratar de antiga forma de relações entre Igreja e Estado que, geralmente, conferia a este a iniciativa de determinar a divisão administrativa de uma região, classificá-la por definição de área e nominá-la por competência territorial, como atribuição do governo central delegada ao governo de província, requisitos exigidos pelo poder civil para se alçar uma comunidade às condições de freguesia.
A Comarca Eclesiástica de São Domingos teve por primeiro pároco o padre Andrea Barra, entre 1856 a 1870, também capelão das povoações que pertenciam a tal circunscrição eclesial. Desta forma, Padre Barra prestou serviços religiosos em Santa Cruz do Rio Pardo, como capelão, de "18/02/1856 a 13/09/1870" – [Maria José Corrêa de Oliveira Zanoni, Santa Cruz do Rio Pardo, Nossa Terra, Nossa Gente, edição 1976 pela Editora Osmare – Bauru, às páginas 61].
O pesquisador Frei João Basílio, ex-vigário da Paróquia de São Sebastião em Santa Cruz do Rio Pardo, afirmou em entrevista jornalística ter encontrado "documentos da Igreja, atestando que o padre italiano Andrea Barra era o pároco da matriz de São João e São Domingos – nome eclesiástico daquela paróquia no século XIX – e batizou, em 18 de fevereiro de 1856, o garoto Geronymo , filho de José Venâncio de Lima e Fabriciana Maria de Jesus" – [Revista DMAIS, citada, página 11]. Referido Frei consta autor do trabalho não publicado, Origens Eclesiásticas de Santa Cruz do Rio Pardo.
Por razões suficientemente demonstradas, entendemos como equívoco ou não compreensão histórica do Frei, quanto ao nome eclesiástico daquela antiga paróquia, ao livremente interpretar São João e São Domingos em vez de São João de Domingos.
Frei João Basílio noticia, em mesma entrevista, de "uma ata de 25 de junho de 1857 que registra o batismo de Anari, filho de Antonio Rodrigues de Moraes e Ana Aparecida da Conceição, mineiros que residem no 'bairro de Santa Cruz'. O registro está no Livro I, página 5, de São Domingos (...)" – [Revista DMais, página11]. Este documento eclesial é a primeira referência, como Santa Cruz, da nova denominação da antiga Capela de São Pedro.
A oficialidade documental nos informa que "O distrito com a denominação de São Domingos, foi criado pela Lei Provincial n° 27, de 20 de abril de 1858" – [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) / Enciclopédia dos Municípios Brasileiros (EMB), Volume XXX – Santa Bárbara do Rio Pardo [SP], páginas 82/83].
Nos anos de 1871 e 1872 o padre Antonio Zianhisk substituiu Andrea Barra na paróquia de São Domingos e as capelas que lhe eram subordinadas, assim, responsável capelão em Santa Cruz do Rio Pardo, entre 08 de janeiro de 1871 a 07 de abril de 1872 [Zanoni, p. 61].
De 1872 existe o registro, de próprio punho, do padre nascido português, Francisco José Serodio como pároco em São Domingos: "Achei a dita Egreja, que já era freguesia há mais de 10 anos... Consta a freguesia desta São Domingos, Santa Cruz do Rio Pardo Capella, pertencente a São Domingos, São Pedro Capella Também, Campos do Rio Novo também Capella (...)".
A íntegra da carta, transcrita pelo Jornalista Marcos Paulo da Silva, em grafia da época, diz:
- "Aos 15 de março do ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil oitocentos e setenta e dois. Cheguei nesta freguesia, ultima do sertão de Botucatu onde me deu hospedagem o Ilmo Sr Justino Carneiro Geraldes que se achava nessa ocasião na pequena povoação de São Domingos em cuja companhia e no seio desta boa família passei mais de mez que me trataram com familiaridade como se pessoa de sua família; a quem sempre me confesso muito e muito grato e nos dia seguinte, fui celebrar na Egreja cuja parede da frente estava ameaçando ruínas. Achei a dita Egreja, que já era freguesia há mais de 10 anos, paupérrima de Paramentos, de tudo finalmente, nem castiçais no altar, eram garrafas que serviram de castiçais. Era um sertão sem recursos, tinha 12 casas, cobertas e assoalhadas só 4 o resto não tinha soalhos. Consta a freguesia desta São Domingos, Santa Cruz do Rio Pardo capella, pertencente a São Domingos, São Pedro Capella Também, Campos do Rio Novo também Capella, onde morava o sertanejo José Theodoro de Souza e tinha apenas 5 famílias Brasileiras; estava distante desta sede da Freguesia 20 léguas de mais caminhos e sem pontes e muito pouco moradores. Todavia era povoado de Mineiros, gente muito atrasadas, mas muito hospitaleiras e de bons costumes, mas de pouca religião. A freguesia de São Domingos nesse tempo era um lugar no extremo Oeste de São Paulo, que estava em sertão sem comodidades algumas. Botucatu que era cabeça desta grande comarca Sertaneja não tinha hotel; tinha naquela esquina onde hera hotel Areias uma venda do pai desse malvado assassino chamado Dioguinho que tava sumido He o que diz um antigo portuguez deste lugar. Não tinha uma única fharmacia nem .........? nem rua.......? não tinha médico algum formado, justiça era só dr. Juiz de Direito Dr. Machadinho, vindo de Itapetininga até promotor era nomeado na hora, rábula, advogado era só Dr Bernardo que era da terra, muito ruim e muito orgulhoso de sabichão e um mestre escola pública um tal Cel. Cananéia que era chefe político do Partido Conservador e a mulher professora pública como tudo e Botucatu. Já estava com o resto no lugarzinho que comprou do ex patrão Antonio Bento Alves que mudou para Rio Novo e lá prestou muitos serviços públicos e homem muito honrado.
São Domingos 15 de março de 1872, (assinado) O vigário Padre Francisco José Seródio".
Na transcrição acima não constam as referências dadas pelo Frei João Basílio, atribuídas ao Padre Serodio: "Saí em viagem para o sertão de minha freguesia: fui em Santa Cruz do Rio Pardo, São Pedro e Campos Novos, de onde voltei adoentado com uma febre palludoza", talvez um outro documento, pois se sabe que aos 31 de maio do mesmo ano de 1872, padre João Domingues [Domingos] Figueira substituiu padre Seródio, até dezembro de 1872 ou janeiro de 1873, período em que Figueira foi capelão em Santa Cruz do Rio Pardo, antes de assumir ali a condição de vigário, a partir de 13 de janeiro de 1873.
Aquela carta /relato de Serodio, com ou sem os acréscimos, abrange assuntos gerais que mais parecem desabafos de quem, a contragosto, foi posto num determinado lugar. Padre Serodio reassumira a Paróquia de São Domingos para nela permanecer até setembro ou dezembro de 1873, transferido a seguir para Campos Novos [Paulista], aonde viria fazer fama, poder e fortuna.
A elevação de Santa Cruz do Rio Pardo à condição de Paróquia, em 13 de janeiro de 1873, retirou de São Domingos sua importância eclesiástica junto às capelas do Vale Paranapanema até então exercida, com isto a significar, para muitos, sua decadência efetivamente selada em 1877, com a criação da Comarca Eclesiástica de Santa Cruz do Rio Pardo.
Valendo-se dos critérios demográficos e dos termos de competências, avocados politicamente pela província paulista, São Domingos foi classificada à condição civil de distrito em 20 de abril de 1858, pela lei n.º 626, subordinando-se administrativa e politicamente à Vila de Botucatu, que atesta Hernâni Donato, páginas 103, "em terras do município [de Botucatu] foi ereta a freguesia de São Domingos, resultado da ocupação por grupo de famílias botucatuenses (...)".
Ajustadas as partes, São Domingos garantiria seus privilégios eclesiásticos, mesmo quando a transferência de sua subordinação civil para Lençóis [Paulista], aos 17 de abril de 1868, pela lei provincial de nº 056, ou seja, dez anos após sua subordinação a Botucatu.
Sem tempo para adaptações junto à nova sede, a Assembléia Provincial de São Paulo autorizou, pela lei nº. 35, de 19 de julho de 1868, o governo transferir a sede de distrito de São Domingos para "as margens do rio Pardo", onde instalado o núcleo Santa Bárbara do Rio Pardo. Esta perda civil de categoria parece em nada ter afetado São Domingos em suas responsabilidades sobre as demais capelas que lhe eram subordinadas, tanto que somente em 1890 o governo paulista faria cumprir aquela transferência de competência distrital autorizada, ou seja, vinte e dois anos depois. 967 19 de julho de 1867
O atraso em cumprimento da autorização justifica-se: "não eram incomuns certos arranjos políticos para criações, instalações, supressões e transferências de competências, territorialidades e nomes de termos, havendo situações de interesses conflituosos que impediam a instalação ou mesmo o funcionamento jurídico estabelecido em lei" – [Prado]. Tais circunstâncias políticas faziam atrasar, suprimir, subordinar ou simplesmente deixar em esquecimento certas autorizações legais, muitas para aplicações num momento politicamente mais oportuno.
Apesar dos reveses eclesiásticos de 1873, quando perdeu as Capelas de Espírito Santo do Turvo, Santa Cruz do Rio Pardo, Ipaussu [Ilha Grande], São Pedro do Turvo e Campos Novos [Paulista], São Domingos, se pareceu não haver sofrido com nenhum ato político ou religioso, não lhe foi possível, porém, resistir ao advento da república, nem a separação entre Igreja e o Estado, tanto que Amador Cobra chegou às raias da indignação quando o poder civil, em 1890, anulou de vez os privilégios de São Domingos: "Em 1890 tiraram-lhe a sede de distrito, transferiram-no para Santa Bárbara do Rio Pardo, e mudaram-lhe até o nome que passou a ser Tupá (...). Tendo sido, pois, por longos anos a cabeça do sertão do Paranapanema e centro de grande movimento, por caprichos políticos, talvez, baixou de categoria" – [Cobra, p. 48 – notas 1].
São Domingos, outrora São João de Domingos e Forquilha, teve, então, oficializado o nome, Tupá, conforme vista, um designativo tupi-guarani com o mesmo significado que Tupã, ou seja, trovão ou trovejante, associado ao Deus cristão pela reverência naturista indígena. O nome Tupá, segundo as tradições, já vinha de muito antes e as referências, ainda no século XX, dão-nos conta da denominação São Domingos do Tupá.
Apesar de ter existido no local uma aldeia Oti, a história relata pelo menos um problema dos moradores de São Domingos com ataques indígenas de outra nação, quando por volta de 1859 "(...) foi salteada pelos índios a freguesia de S. Domingos; mas os moradores repeliram-nos, obrigando-os a abandonar na fuga diversos objetos, muitos dos quais tinham sido roubados (...)" – [João Francisco Tidei Lima, A Ocupação das Terras e a Destruição dos Índios na Região de Bauru, Dissertação de Mestrado em Ciências Humanas na área de História Social, pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 1978, páginas 72, por fonte o Ministério dos Negócios do Império, em Relatório da Repartição Geral das Terras Públicas, Rio de Janeiro, 1859].
Henrique Dyna, à mesma Revista D Mais, menciona um outro problema dos habitantes de São Domingos com índios na região: "contam os mais antigos que certa vez, talvez no final do século XIX, um grupo de agricultores resolveu tomar terras indígenas e partiu para enfrentar os índios na região do rio Alambari, perto de Caporanga. Houve uma grande batalha e os índios venceram: pelo menos dois carros de bois voltaram carregados de defuntos".
Mas São Domingos teve tempos melhores, tanto que em 1852 era sede do 12º Quarteirão Eleitoral de Botucatu, o segundo maior, com 44 votantes[Pupo e Ciaccia, dados às páginas 97-103]. Outra referência eleitoral, de 1873, classifica a localidade como parte do distrito eleitoral de Botucatu, com três colégios, enquanto a própria sede mantinha seis daqueles conjuntos.
Se em 1862 foi negada a São Domingos uma Agencia Postal, como igualmente o foi para Lençóis e demais localidades adiante de Botucatu, desde 1858 suas correspondências eram entregues na vila de Botucatu a cada dez dias, embora o próprio serviço em Botucatu fosse alvo de denuncias como extravios de cartas, violações e pouco zelo [H. Donato, p. 123].
Também em 1862 a Câmara de Botucatu destinou importância em dinheiro para reparos de estrada e ponte no caminho para São Domingos como um daqueles que mais interessava para o comércio da região [Donato, p.139].
A freguesia de São Domingos teve eleições para juiz de paz, inclusive uma [anulada] para o quadriênio de 1865 a 1868, relatada por Donato, páginas 90 e 91.
Em 1870, documentos da Câmara de Lençóis designou São Domingos como Freguesia, mas em 1873, no Quadro da Divisão Civil, Judiciária e Eclesiástica da Província de São Paulo, São Domingos apareceu com classificação superior, na qualidade de Vila integrante da Comarca de Botucatu [Joaquim Manoel de Macedo, Noções de Corografia do Brasil, editado em Rio de Janeiro, ano de 1873, páginas 255].
Documentos do Conselho de Qualificação e Reclamação da Guarda Nacional e do Conselho de Revisão – Botucatu, de 1872/1873, em Arquivos do Estado [Donato, p.126], atesta que São Domingos teve Guarda Nacional.
De acordo com o Censo Oficial de 1872 – 1o. de Agosto, mas na Província de São Paulo apenas concluído em 30 de janeiro de 1874, a população de São Domingos era de 3.629 pessoas livres [2004 homens e 1625 mulheres], e 116 escravos [64 masculinos e 52 femininos], com maior número de cidadãos livres que Santa Cruz do Rio Pardo [FERNANDES Edson, Família Escrava numa Boca do Sertão, Lencóes, 1860-1888, partes de dissertação de mestrado, em abril de 2003, publicação pela Revista de História Regional, páginas 14/15].
Registros do Governo Provincial de são Paulo, publicações de atos oficiais, indicam que São domingos teve escola de primeiras letras com salas de aulas para os sexos masculino e feminino, conforme transcrições da Provincial Presidential Reports (Almanaque Laemmert), 1830-1930 – São Paulo.
Todavia a gloriosa Comarca Imperial e Eclesiástica de São Domingos, ou apenas Freguesia de São Domingos, principal centro de quase todos os negócios de terras do Vale Paranapanema, grandes e pequenos, tornou-se não mais que um simples bairro, denominado distrito, em 1890, pelo novo conceito republicano, e seu declínio enfim, inevitável.
A localidade já não representava importância quando a lei nº 1494, de 29/12/1915, ao estabelecer novas divisas administrativas, transferiu o Distrito de Paz de Tupá, do Município de Lençóis para o de Agudos [IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Divisas Administrativas de 1915], situação mesma na divisão de 1933, como integrante do município de Agudos. Também nas divisões territoriais datadas de 31 de dezembro de 1936 e 31 de dezembro de 1937, bem como no quadro anexo ao Decreto-Lei estadual n.º 9073, de 31 de março de 1938, o distrito de Tupá continuou vinculado a Agudos.
Finalmente, o Decreto Estadual 9775, de 30 de novembro de 1938, o extinguiu e seu território passou a integrar o distrito de Agudos, homônimo do município.
A partir das fundamentações legais citadas, desde a Lei Provincial n.º 27, de 20 de abril de 1858, que classificara São Domingos como distrito, até o Decreto Estadual n.º 9775, de 30 de novembro de 1938 que decretou sua extinção, São Domingos teve [oficialmente] sua importância regional até 1890 quando enfim transferidos para Santa Bárbara do Rio Pardo [atual Águas de Santa Bárbara] o seu Cartório de Paz e sua Agencia Fiscal, por decisão do governo de São Paulo em cumprir autorização legislativa de 19 de julho de 1868 – Lei n.º 35. Cobra, às páginas 58, diz que em 1890 os arquivos daqueles órgãos de Tupá foram transferidos para Santa Bárbara
Por São Domingos, o pioneiro José Theodoro de Souza teria feito uma primeira incursão em partes da bacia do rio Turvo, pois "foi no ano de 1842 que, para Espírito Santo do Turvo vieram o celebre posseiro mineiro José Teodoro de Souza, juntamente com Joaquim Antonio Pereira de Lima e Antonio Lemes da Silva. Estes foram quem fizeram o primeiro levantamento das terras do Rio Turvo e também do Rio Pardo (com documentos)" – [José Joaquim Gonçalves Melo, Espírito Santo do Turvo – Sua História e Seus Filhos, edição de maio de 1999, páginas 3].
Avançam neste sentido Oliveira Zanoni, às páginas 55 e 56, e o Professor C.F. dos Santos Silva, por referência àquela, que Theodoro não apenas se aventurou pelo rio Turvo em 1842, como neste mesmo ano fundou São Pedro do Turvo – [Revista Panorama, Ano I, nº 1, agosto de 1954, Santa Cruz do Rio Pardo, sob responsabilidade do Professor Carlos Frederico dos Santos Silva e Equipe, páginas 5, Oficinas da Escola Tipográfica Dominicana, Santa Cruz do Rio Pardo - SP].
Infelizmente os autores citados não apresentam documentos nem citam fontes.
2. BOTUCATU
Como entroncamento de ramais e local de paragem às
margens da vereda Peabiru, “Ibytu-katu” tornou-se
ponto de referência para caminhos a seguir, desde a chegada
dos europeus à América do Sul e tão logo
o uso daquela estrada. Seu nome significa bons ventos da serra,
embora existam outros tantos significados às formas
diferentes de formação das palavras e pronúncias,
quase sempre com o significado toponímicos de bons ares
da serra ou apenas, bons ares.
A expulsão dos padres em 1759 e o confisco da Fazenda
Jesuítica, com o conseqüente abandono dos povoados
rurais e, de resto toda a propriedade e suas alimárias,
fez-se notar por quase dez anos. Aparentemente nem todos povoados
da fazenda dos padres foram desativados, a servir de moradias
a mestiços, índios, negros e brancos, que insistiam
permanecer naquelas terras tanto que os arrematantes da propriedade,
em 1766, contrataram o Coronel Francisco Fiúza, com
seus bugreiros para exterminar índios, capturar negros
e mestiços, e expulsar os brancos para a instalação
dos novos proprietários.
A ação levada a efeito, com extrema violência
e crueldade até 1770, quando quebrada a ultima resistência
dos ocupantes das áreas em conflito, pode se erguer,
enfim, a Capela Nossa Senhora das Dores de Cima da Serra, nome
dado ao local desde 1766, onde se firmou o novo povoado em
cima do arrasado aldeamento Oiti.
Com a chegada do Morgado de Mateus ao poder em São Paulo,
a região experimentou certo progresso, com fluxo de
pessoas vindas principalmente de Sorocaba, Itu, Itapetininga,
Porto Feliz e localidades outras instaladas ao longo do rio
Tietê, atraídas diante de promessa de fundação
de novos povoados e distribuições de terras nas
cercanias e adiante da Serra.
Todo projeto entrou em colapso quando Martim Lopes, novo titular
do governo optou em apagar da história tudo quanto planejara
ou realizara Morgado de Mateus. As terras foram aos poucos
abandonadas, a permanecer apenas alguns daqueles arranchados à beira
do antigo caminho para Iguatemi.
O lugar se tornou vazio de gentes até as primeiras três
décadas do século XIX, quando novamente o sertão
de Botucatu tornou-se atrativo, com suas terras férteis
para o plantio, quase todas devolutas, não demarcadas,
prontas para apossamentos efetivos, ao lado de algumas sesmarias.
Ressurgiram as fazendas,
Para moradias dos poucos trabalhadores braçais, apenas
as localidades de Nossa Senhora das Dores de Cima da Serra,
ao lado de São Bom Jesus do Ribeirão Grande,
Capão Bonito e Sobrado, povoações já citadas
e estudadas.
Notavam-se, ainda, as presenças de fugitivos da lei,
dos perseguidos por algum mandatário de outro lugar,
de jagunços contratados para serviços de encomendas
[razias, assassinatos e invasões de propriedades para
guarda de posses], ou trabalhos na terra, estando o sertão,
conforme Donato, “incrementado por causas diversas e
poderosas: fuga ao recrutamento, perseguições
políticas, receio à ação policial,
deserção dos contingentes de tropa e da polícia
(...)” (1).
Em 1830 a localidade Nossa Senhora das Dores de Cima da Serra
apresentava uma população bastante flutuante,
sendo radicados somente os capatazes de fazendas, trabalhadores
rurais, vaqueiros, carreiros, ferramenteiros e alguns artesãos
das fazendas mais próximas, num lugar carente de recursos,
com poucos nascimentos cujos registros lavrados eram levados
para Itapetininga. As raras casas eram toscas, desconfortáveis,
quase todas de madeira e cobertas de sapé.
O lugarejo, no entanto, se tornou progressista e atrativo às
pessoas de outras localidades mais desenvolvidas, como Sorocaba
Itapetininga, Parnaíba, Porto Feliz e da região
Sul de Minas, para atividades agro-pecuárias iniciadas
na Fazenda Monte Alegre, do Capitão José Gomes
Pinheiro Machado.
Capitão José Gomes Pinheiro Machado era natural
de Santos, vindo residir em Itapetininga, posto a serviço
da Guarda Nacional. Rico e político liberal atuante,
adquiriu três fazendas [das Pedras, Morrinhos e Capão
Bonito] no alto da serra Botucatu reunindo-as em apenas uma,
a Monte Alegre, que lhe serviu de esconderijo quando da fracassada
Revolução Liberal de 1842 (2). Donato acrescenta
que na propriedade Monte Alegre “inseria-se fazenda menor,
Fortaleza ou Palmeiras (...)”, e também eram fazendeiros
na região o Capitão Inácio Apiaí – Fazenda
Rio Claro; Raimundo de Tal que se apossou de terras denominadas
fazendas Pulador e Boqueirão; e Fazenda Bom Jardim de
um posseiro conhecido por Marques (3)..
- Donato esclarece que Raimundo transferiu suas posses para
os genros, Capitão Joaquim Gabriel de Oliveira Lima
e José Inocêncio da Rocha. Nada se sabe a respeito
do tal Marques, e o Capitão Inácio é o
mesmo que foi morto e crucificado pelos índios (4).
A povoação Nossa Senhora das Dores de Cima da
Serra [de Botucatu] ganhou impulso maior com a chegada do tropeiro
Joaquim Costa de Abreu, do Sul de Minas, que se empregou antes
como capataz em Sobrado, então fazenda de um portofelicense,
encarregado de trazer cavalos e muares do Rio Grande do Sul
para a venda em Sorocaba, além de gado bovino para engorda
nas invernadas.
Inteligente, embora analfabeto, Costa logo descobriu meios
de se evitar pagamentos de taxas de barreiras, imposto sobre
os animais postos em Sorocaba e o preço da corretagem
aos intermediários de vendas, com a reabertura ou uso
daquele picadão desde o Paraná direto a Botucatu,
e depois a condução seguida do gado a Minas,
negociando diretamente com os compradores, com maior lucro.
Era aquele o mesmo caminho utilizado décadas antes pelos
jesuítas e a Família Campos Bicudo, e foi nessa
utilização do caminho que Costa conheceu as boas
terras de Capitão Gomes Pinheiro, campos e matos.
- Diz Donato que nos primeiros tempos do século XIX,
fugindo do fisco, preços elevados de pastagens e pousos
praticados em Sorocaba, “os tropeiros buscaram outro
caminho para conduzir animais cruzando a província
paulista. Fugiam ao fisco, ao alto custo dos pastos e das
pousadas. Dos campos gerais do Paraná buscaram vadear
o Paranapanema onde ainda não era caudal e orientaram-se
para a serra de Botucatu. Subiram-na, deram refresco aos
bichos logo nos aparados, descansaram e seguiram para Minas
Gerais, via São Carlos e Franca” (5), ou passando
por Batatais e Casa Branca em direção à cidade
mineira de Poços de Caldas. Costa abriu picadas mata
adentro para o trânsito das tropas, como desvios de
caminhos tradicionais ou oficiais, ou seja, aqueles caminhos
dos padres.
Cumprida a missão delegada, Costa procurou pelo Capitão
Gomes em Itapetininga para saber até onde iam suas posses
em Botucatu e divisas com as fazendas existentes, do Capitão
Inácio Apiaí, Capitão Joaquim Gabriel
de Oliveira Lima, José Inocêncio da Rocha e a
do tal Marques. Excluídas tais propriedades, quase tudo
mais era de Gomes Pinheiro que, entendendo a vontade do mineiro
Costa e sua coragem em enfrentar índios e posseiros,
propôs-lhe toda parte do mato de sua propriedade, deixando
os campos, no famoso acordo campos e matos (6).
A prosperidade do Costa e a fixação de homens
em terras que ia conquistando com a derrubada das matas, logo
trouxeram desacordos entre ele e Gomes Pinheiro, embora o próprio
Capitão entendesse tarde para livrar-se de Joaquim Costa,
como bem tarde compreendeu que as melhores terras não
estavam nos campos.
Em 1843, num célebre acordo para findar litígio
com a família Costa, Capitão José Gomes
Pinheiro Machado doou uma porção de terras para
criação do patrimônio e futura freguesia,
com mudança do nome da padroeira, em vez de Nossa Senhora
das Dores de Cima da Serra [de Botucatu], para Santa Ana de
Cima da Serra [de Botucatu], para uns, singela homenagem à esposa
Ana, para outros, forte exigência contra Costa obrigado
se curvar, politicamente, diante da importância da Família
Pinheiro Machado, mesmo com a derrota dos Liberais em 1842.
- A família Costa era do Partido Conservador, enquanto
Pinheiro Machado pertencia ao Partido Liberal, então
figadais adversários e inimigos. Para os liberais
derrotados e anistiados, a formação de um Ministério
Liberal soou-lhes como vitória, reconhecida até pelos
Conservadores.
Em fins de 1845, o Capitão José Gomes Pinheiro,
como vereador, insistia na criação da freguesia,
para a qual doou terras, ratificando suas reivindicações
em outubro e dezembro do mesmo ano [1845], conforme atas legislativas,
até que aos 19 fevereiro de 1846, o governador da Província
de São Paulo, Manoel da Fonseca Lima e Silva, sancionou
a lei n.º 283, criando uma freguesia no Distrito de Cima
da Serra de Botucatu, sob a invocação de Santa
Ana.
Capitão José Gomes se fez oficialmente o fundador
de Botucatu, porém o desbravador foi, sem dúvidas,
Joaquim Costa.
No ano de 1847 chegou a Botucatu o Capitão Tito Correia
de Mello, genro do Capitão José Gomes, para construir
sua residência conhecida por Fortaleza diante tamanha
magnitude e segurança, para iniciar a denominada “Era
Tito Correa de Mello” (7) que vigoraria até os
primeiros anos do século XX.
Com a vinda de Tito, também surgiu o progresso com a
instalação da subdelegacia, em 1847, ocupada
pelo juiz de paz João da Cruz Pereira, então
a acumular funções (8). Em 1850 veio o Padre
Joaquim Gonçalves Pacheco, como primeiro vigário
geral, encerrando a fase dos padres visitadores de Itapetininga
(9).
Pela lei de nº. 506, de 14 de Abril de 1.855, a freguesia
foi elevada à condição de vila, num local
onde já se erguiam quarenta casas cobertas por telhas
e um outro tanto por sapé. Informações
históricas registradas dão conta de oitenta e
três casas.
Em 20 de abril de 1866, por interferência de Capitão
Tito, instalou-se a Comarca de Botucatu, pela lei nº.
61. A vila tornou-se economicamente próspera e sua política
foi das mais atuantes da Província de São Paulo.
A inauguração da primeira escola de alfabetização
ocorreu em 1867, pela sua professora Francisca Bertolina de
Souza Cananéia (9), esposa do Tenente Coronel João
Carlos de Souza Cananéia, mais conhecido por Coronel
Cananéia, que substituiu membros da família Costa
na liderança Conservadora local: “um mestre escola
pública um tal Cel. Cananéia que era chefe político
do Partido Conservador e a mulher professora pública
como tudo e Botucatu”. (10).
Em 1871 descobriu-se o Café Amarelo de Botucatu com
características diferentes das demais variedades já conhecidas.
Francisco Marins dedicou algumas páginas de uma obra
sua, sobre o misterioso aparecimento desta variedade de café (11).
A vila tornou-se enfim cidade aos 16 de março de 1876,
pela Lei nº. 18 contando com população acima
de cinco mil habitantes livres e mais ou menos mil escravos.
Nesta mesma época foi instalado em Botucatu o entreposto
de venda de escravos no interior paulista (12).
A estrada de ferro lhe chegou em 1889 e, com ela, o progresso
maior para ingressar o município numa fase de
grandes obras de engenharia urbana, de saneamento e de saúde
pública.
Na passagem do século XIX para o XX, Botucatu contava
com mais de doze mil habitantes, era a mais progressista cidade
do interior paulista, cognominada "Princesa da Serra".
Por este tempo possuiu um importante entroncamento ferroviário
da Ferrovia Sorocabana, Paulista e Norte do Paraná.