PARTE II – OS EXTERMINADORES
DO PASSADO
FRENTES DE EXPANSÃO – 1856 / 1864
Os grandes latifúndios regionais, pelos nomes dos
rios, Abaré-y, Lençóis, Batalha, Alambari,
Turvo, Pardo e partes do Paranapanema foram ocupados, já a
partir de 1850/51, umas porções pelos comandados
de Theodoro, pois “que na partilha que se fizer dessas
terras, depois de medidas, sejam aquinhoados os que bem servirem
na expedição a que se destina a bandeira (...)” (1),
outras partes foram entregues aos licenciados por Capitão
Tito Correa de Mello, e aquelas transferidas através
de compra ou qualquer ulterior meio. Victoriano de Souza
Rocha, por exemplo, côo-fundador da Vila do Rio Novo – atual
Avaré, contado entre os membros do bando de Theodoro
(2), recebeu terras na região pelos serviços
prestados.
A partir do rio Turvo as terras eram todas de Theodoro, de
direito e fato, tanto que o pioneiro confirmou suas demarcações
e dividiu o latifúndio em quatro grandes áreas,
a saber, Turvo, Rio Novo, Pari e Capivara, cada uma em aguadas,
ou porções de terras entre morros divisores,
de maneira a formar micro-bacias hidrográficas. A área
do Turvo resguardou para si, familiares, amigos mais próximos,
pondo à venda, gradativamente, uma após outra
desde as cercanias do Turvo às margens do rio das
Anhumas.
Ano de 1856: “Chegado, que foi, ao sertão,
de volta de Minas, Theodoro permaneceu no Turvo e alli fixou
residência, pois não podia fazel-o além.
Até o fim da vida, passou mais tempo nesse logar que
em outros” (3). Arruda Dantas descreve que: “Fixado
em São Pedro do Turvo [então Capela São
João Batista], José Theodoro continuou explorando
terras, valendo-se das próprias trilhas abertas pelos índios,
até seu falecimento” (4). Vendeu terras a muitas
famílias mineiras, lá mesmo nas Minas Gerais
em 1856, àquelas que o acompanharam e outras que,
compradoras, somente mais tarde resolveram assumir as propriedades
adquiridas, de modo no decorrer de quase uma década
ainda chegavam aparentados para se estabelecerem adiante
do Turvo, já nas adjacências do rio Novo (5).
O assentamento familiar em seguida ao Turvo foi extremamente
complicado, índios expulsos de outras regiões
ali se reagruparam inamistosos, além dos Coroados
[Caingangues] intolerantes ante a presença branca
em seus territórios, ou proximidades, com prenúncios
de lutas e mortes. Algumas famílias abandonaram suas
posses, outras pretendiam o mesmo, dado assédio indígena
em pontos diversos e distantes, entre Tietê e o Paranapanema,
especialmente em terras de Bauru e Rio Novo.
Os bugreiros reagiram. Theodoro tinha terras para vender,
reputação de bom lugar e segurança garantida,
por isso a fazer repetidas incursões ao rio Novo,
mostra-nos Amador Cobra, “ajudado pelos filhos e genros,
pelo cunhado João da Silva, e pelos primeiros imigrantes” (6),
em perseguir índios e os recuar para além da
Serra do Mirante, proximidades da atual Echaporã.
Relatório do Presidente da Província de São
Paulo, de 1857, trouxe denúncia do padre Tristão
Carneiro de Mendonça “expondo diversos atos
de violências praticadas contra os indígenas
de Bauru e Paranapanema”, (7).
De vencida os índios, Theodoro determinou a fundação
de pequeno povoado, à margem esquerda do rio Novo,
onde “as casas ergueram-se dos quatro lados da praça,
em cujo centro se levantou a capellinha” (8), sob invocação
do orago São José, acrescido do topônimo
Campos Novos, então, Capela de São José dos
Campos Novos, em 1857 já conhecida por Campos Novos.
A simples presença de Theodoro fazia tremer os índios.
Campos Novos tornou-se centro de apoio a moradores, sentinela
avançada do sertão com destacamento fortemente
armado, desta forma relativamente segura para seus primeiros
habitantes, passado o mês de agosto de 1857, quando
do embate final entre bugreiros de Theodoro e indígenas
do local. João da Silva, genro de Theodoro, era bugreiro,
assim o seu genro Francisco de Paula Moraes, o filho conhecido
por José Theodorinho, o irmão Francisco de
Souza Ramos e o inseparável parente [sobrinho] João
Vicente de Souza.
Um relatório oficial de 21 de abril de 1858, do Presidente
da Câmara Municipal de Botucatu, Francisco de Paula
Vieira, ao Conselheiro José Joaquim Fernandes Torres,
Presidente da Província de São Paulo, não
deixou dúvidas dos perigos no Sertão do Planalto
Ocidental Paulista, incluso Campos Novos, por certas ocorrências
em 1857. Das saudações iniciais às apresentações,
descreve o autor por objeto daquele relatório:
“Verá V.Excia, pelo mapa junto que a Villa de Botucatu se
acha junto à fralda da Serra, havendo de distância a mesma Villa
a foz do rio Turvo com o rio Pardo 36 léguas, pouco mais ou menos, habitadas;
sem que tenha outro centro de administração de justiça
e de socorros espirituais q. esta Villa, e com falta de estradas.
Nas margens do rio Tiete 18 ou 20 léguas achão-se
habitadas até o lugar denominado “Campos Novos” lutando-se
com as mesmas dificuldades acima expendidas. Levo à consideração
de V.Excia, q. são as mais urgentes, pois o estado
de desesperação dos indígenas tem feito
com q. desde agosto p.p. até há pouco, 14 a
16 famílias tenham abandonado seu sítios; dos
quais estavam na posse de seus domínios há nos;
tem também havido conflictos, nos quais, para mais
de sette chefes de famílias teem sido mortos, alem
dos estragos q. os mesmos indígenas tem feito nas
margens do Tiete, lugar dos Campos Novos, já devastando,
já atacando. (. . .).
Não havendo segurança alguma para os habitantes
daqueles lugares, q. vêem continuadamente suas vidas
e fortunas expostas aos indígenas, a quem longe de
fazerem o menor mal, até deixão nos lugares
por elles infestados objetos que mais aprecião, citando
(...)”.
Francisco de Paula Vieira, na oportunidade, mencionou nomes
de vítimas destacando Felicíssimo Antonio de
Souza Pereira como exemplo, pede abertura de uma estrada
entre Campos Novos aos Campos de Guaiandava [à margem
esquerda do Tietê], diz das cheias do Tietê – “(...)
estado apestilencial em q. se acha alguns mezes. . .”,
das outras dificuldades para o avanço do progresso, “ocasionado
não só pela proibição da Lei
das terras, como também por ser infestadas pelos indígenas
da Serra dos Agudos e suas imediações”.
. .(9).
Relatório Oficial da Repartição Geral
das Terras Públicas, do Ministério dos Negócios
do Império, 1859, Rio de Janeiro, prestou-nos que “no
sertão de Botucatu, em matas que demoram entre os
rios Tietê e Paranapanema, existem selvagens indômitos
(...) que não perdem ocasião de hostilizar
os moradores das fazendas e lugares que mais perto ficam
(...) a moradores da margem do rio Batalha (...) e da fazenda
Alambary, no termo de Botucatu, a 40 léguas dessa
vila. Posteriormente a essas atrocidades foi salteada pelos índios
a freguesia de São Domingos; mas os moradores repeliram-nos,
obrigando-os abandonar na fuga diversos objetos, muitos dos
quais tinham sido roubados” (10).
Daqueles e outros atrozes acontecimentos, alguns com mortes
violentas, os registros soaram alarmantes, como o trucidamento
de Pedro Francisco Pinto; a fuga de Felicíssimo Antonio
de Souza Pereira e a família que, mais uma vez, abandonaram
a fazenda e escaparam dos ataques indígenas; da morte
de uma mulher [esposa de Faustino ou Fortunato da Silva Bueno – as
fontes divergem] e cinco filhos, com outros dois gravemente
feridos; graves ferimentos aos trabalhadores de Joaquim Corrêa
de Toledo, “alguns inutilizados”; um filho e
uma filha de João Mendes, atacados à traição
e empalados; às cabeceiras do Dourado um grupo de
sertanistas, quando em perseguição dos índios
que mataram duas pessoas, encontrados ainda a desmembrar
um deles para lhe tirar a bota; os sertanejos Jerônimo
Pinto Gonçalves e os irmãos Antonio e Joaquim
Ferreira foram mortos com requintes de crueldade; Modesto
Antonio da Silva foi achado nu, no Avanhandava, com ferimentos
profundos, enquanto seus companheiros fugiram. “No
Alambary e no Batalha as propriedades foram abandonadas,
depois de morrerem em breve período, pelo menos sete
chefes de família”; “outros quinze a dezesseis
morticínios”; e mais sete pessoas morreram e
outras ficaram feridas em pontos diferentes, numa serie de
ataques indígenas no Alambary, no Dourado, no Avanhandava,
e outras partes do sertão oeste paulista (11).
Tais relatórios são postos em dúvidas,
por exageros ou argumentos para justificar ataques preventivos
contra indígenas, porque apresentados sem causas ou
motivações, afinal que reação
outra teria o índio em ver seu território invadido
e morto seu povo? “Exagerado ou comedido, o relatório
do Paula Vieira levantava ecos ou ecoava o preparo de contra-ataques
organizados aqui e ali” (12).
De alguns desforços indígenas contra os desbravadores,
isolados ou não, revertiam-lhes novas violentas perseguições
impostas pelos brancos, sob a justificativa de apenas se
defenderem. Era o que diziam os fazendeiros, sempre. No entanto,
entendendo que nem Xavantes, Caiuás, ou mais corretamente
seus destroços tribais, podiam opor-se diante dos
conquistadores, antes a eles quase sempre se sujeitavam,
as ações e reações dos brancos,
portanto, diziam respeito quase tão somente aos Caingangues
opoentes às invasões de suas terras.
O governo ciente ser quase inevitável o massacre aos
Caingangues, às pressas fez convocar a Felicíssimo,
em 1858, para detalhar aquele seu antigo plano de 1836 e
de como recuar os índios, para depois do rio Paraná,
sem violências desmedidas, afinal, dizia-se, o governo
desejava tanto salvar o índio, com o menor dano possível
diante do confronto com o branco, quanto afastar sua ameaça
o mais longe possível do oeste paulista.
Projeto apresentado, discutido e aprovado, inclusive as recomendações
de cuidados aos índios enfermos ou feridos, velhos,
mulheres e crianças que não conseguissem partir
mais adiante, deveriam ser conduzidos para algum aldeamento
na região, com pleno conhecimento e concordância
de Felicíssimo. O acordo mereceu comunicado oficial
do Presidente da Província de São Paulo, José Joaquim
Fernandes Torres, justificando despesas, mencionando voluntariado
de Felicíssimo e seu grupo para referida empreitada,
a proposta da abertura de estrada de Bauru [ou Campos Novos
de Bauru], até Campos de Avanhandava para se chegar
a Mato Grosso e, com tal rede de comunicação,
de vez afastar o perigo indígena (13).
Felicíssimo retornou à região de Bauru,
no ano seguinte, 1859, “à frente de 135 homens
divididos em três grupos, todos bem armados” (14),
para praticar terrível massacre contra indígenas,
visto por ato de vingança pela derrota que lhe foi
imposta em 1836, para se tornar conhecido em todo Império
como exterminador de índios, a maioria mulheres
e crianças, dando subsídios aos jornais de
oposição e causa maior de sérios embates
políticos entre conservadores e liberais, com isso
a exigir urgentes medidas das autoridades. Meteu-se em dificuldades
com a justiça por ordem expressa do Governo Imperial,
em causa às treze ou dezesseis baixas causadas aos
Caingangues.
Fracassados os intentos de Felicíssimo, os índios
retornaram mais ameaçadores, motivando outros relatórios
dos iminentes perigos que novamente apresentavam requintes
de crueldades que atravancam de vez o progresso, pelo temor.
Os fazendeiros não mais esperaram soluções
do governo, antes convocaram José Theodoro
de Souza para pacificar a região, como havia feito
em Campos Novos, então ação recente.
Documentos atestam presença de Theodoro em terras
de Bauru – região do rio Batalha, (15), sinal
de massacre indígena em curso, a nos informar Tidei
Lima que “pouco depois, o Juiz Municipal de Botucatu
denuncia uma chacina na ‘região do rio Batalha’,
perpetrada, entre outros, por José Theodoro de Souza, ‘velho
sertanista, notável pela sua vida tragueira e ainda
mais notável pelo temor que seu nome inspira nos selvagens,
pelas barbaridades por ele praticadas nos encontros com os índios
tem tido’. Acrescentou ainda o magistrado que ‘esta
imensa área na sua quase totalidade tem sido apropriada
e vendida por José Theodoro de Souza e pelos irmãos
Francisco e Antonio de Campos. É pois manifesto
que essas pretendidas posses são a causa da destruição
do índio que em direito é melhor possuidor
dos terrenos'.” (16).
As denúncias deram em nada, certamente Capitão
Tito tenha exercido sua influência para abafar o caso.
De vez para apaziguar ânimos, em 1862 Theodoro empreendeu
viagem à Capital do Império, com mais de trezentos índios
que o chamavam de pai e outras parlapatices, que
os homens do governo e políticos lhe referenciaram,
por exemplo, Joaquim Antonio Pinto Junior, para quem Theodoro “(...) é um
homem de coração bem formado, que se tem constituído
protetor dos índios, que lhe dão até o
nome de pai; ele, as expensas suas, os conduziu a esta capital,
para apresenta-los ao Governo; é ele que os auxilia
em suas necessidades mais urgentes; é em sua fazenda
que encontram todos os socorros; de uma modéstia a
toda prova, não faz ostentação de seus
serviços” (17).
Este episódio teria influenciado João Mendes
Junior se referir sobre Theodoro como: “um dos maiores
posseiros das regiões do Paranapanema, foi o sertanejo
José Theodoro de Souza” (18), em seu livro,
Os Indígenas do Brasil.
A Presidência da Província de São Paulo
cedeu, de vez, às pressões dos proprietários
e aos próprios interesses para proteger as localidades
ocupadas por gente civilizada, laboriosa e útil
ao país. A própria Diretoria Geral do Índio – criada
em 1845 para, civilização, exercício
de catequese e atuação em favor do índio
como sua porta voz, alterou dispositivos para assumir frente
de expedição armada contra hordas selvagens: “que
impedem o progresso nas fronteiras do império” (19),
ato seguido pela Presidência da Província de
São Paulo a permitir, uma vez mais, a repressão
ao índio através de sugerido aldeamento para
aprendizado de serviços úteis à civilização
ou sua retirada “para lugares longínquos (...)
além do Paraná e neste caso destruindo os seus
alojamentos para que não possam regressar a eles (...)” (20).
Pacificada a região do Pardo e Turvo, Bauru em situação
contornada pelos lados de Agudos e Lençóis,
José Theodoro se transferiu em 1864, com toda sua
família, para o pequeno povoado à margem esquerda
do Rio Novo, para garantir maior segurança aos novos
imigrantes que chegam de Minas.
Amador Cobra informa que a atual Campos Novos não é a
mesma “que teve inicio logo apoz a formação
do patrimônio. A primeira começou à beira
da estrada que vem do Turvo, a seis legoas deste, precisamente
alli onde inda hoje se vê, [1922/23], erguido, o symbolo
da Redempção, única recordação
que ficou. Tudo mais foi transferido para 2 kilometros adeante, à margem
esquerda do Rio Novo, onde permaneceu e pouco se desenvolveu
o outro núcleo” (21).
Nas proximidades de São José do Rio Novo [Campos
Novos], naquela época, já se encontravam algumas
fazendas formadas, a de Antonio Botelho de Carvalho no ribeirão
Jacutinga; Joaquim Pereira de Toledo, dono da Fazenda Grande,
nas vertentes do rio Novo; João Lopes, assentado na
Fazenda Ribeirão Santo Antonio; Antonio Alves Nantes,
na Fazenda Santa Rosa, comprou depois a Fazenda do Paiol;
a Fazenda Manoel José era de Manoel José de
Jesus; e a Fazenda Campo do Meio foi doada por Theodoro a
um casal protegido, com respectivos rebentos que, diziam,
Theodoro os tinha por filhos, sentimento de paternidade do
pioneiro que se transformou em malícia (22).
Seguiram demais transações, Joaquim Alves de
Lima no Taquaral, tributário do Pari, junto aos Campos
do Veado, onde a posse de Francisco de Souza Ramos, irmão
de Theodoro; Pedro Alves de Moraes vendeu sua propriedade
a José da Costa Allemão Coimbra, e o local
teve a denominação Coimbra. Outra fazenda vendida
ficava junto às vertentes do rio Capivara, mas seu
comprador, Francisco Osório de Oliveira, ainda não
aparecera, em 1864, para reclamar os direitos, adquiridos
numa transação levada a efeito na localidade
de São João da Boa Vista, onde morava, quando
por lá passou Theodoro a caminho de Pouso Alegre (23).
Outros também compraram terras nestas condições.
Os feitos de Theodoro em Campos Novos e Bauru chegaram às
Minas Gerais e Rio de Janeiro, assim os mineiros, fluminenses
e gentes de outras regiões mais antigas de São
Paulo, desejaram o Vale Paranapanema pela excelência
das terras e preços ínfimos, alguns compraram
para depois chegar, sistema que não mais interessava
ao grande pioneiro porque deseja povoação e
valorização maior e mais rápida das
terras.
Ao retornar do Rio de Janeiro, se com alguma recomendação
política não se sabe, mas a pretensão
de Theodoro já não era matar índios
e sim captura-los para aldeamentos, pois que assim agindo
o governo e a oposição não teriam motivos
de reclamar qualquer barbárie; os bugreiros tornaram-se
preadores, por objetivo apenas aprisionar indígenas,
o maior número possível deles, para os aldeamentos.
Theodoro tinha pressa em limpar suas terras, livra-las de
vez do perigo indígena, sem problemas com políticos
e imprensa, que tão bem soubera ludibriar, em sua
viagem ao Rio de Janeiro. O pioneiro entendeu que precisava
de mão de obra para trabalhar seu sertão, torná-lo
seguro e apresentável, àqueles que tivessem
interesses por lá fazer vida e empregar nativos pacificados.
Essa mudança de atitude tinha seus fundamentos, uma
nova etapa ou mentalidade para recuperar termos da revogada
Carta Régia, de 5 de novembro de 1808, que permitia
guerra ao índio e sua escravização.
Os índios continuavam matar, cruelmente, os fazendeiros,
familiares e agregados, e as fazendas se despovoando, fazendo
cada dia mais evidente que não havia outro meio de
civilizar aqueles bárbaros senão mete-los em
escola severa, para que aprendessem ser úteis à civilização,
através de serviços compulsórios gratuitos,
por até quinze anos, conforme nova denominação
ao escravagismo (24).
Em
Salto Grande, 1862, foi implantado um Aldeamento Indígena sob a autoridade
de José Theodoro de Souza, conforme Ofício da Câmara Municipal
de Botucatu “(...) os índios foram levados do Aldeamento de Piraju
para o de Salto Grande e lá estão sob vigilância gratuita
do sertanejo José Soares de Souza, que sendo pouco hábil para
isso, tem mantido fortes e robustas chamadas a ordem (...) os índios
respeitam e lhe chamam de Pai Velho”, conforme Maria do Carmo Sampaio
di Creddo, em sua tese de doutorado apresentada ao Departamento de História
da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, USP, 1987, intitulada A
propriedade da terra no Vale Paranapanema – A Fazenda Taquaral, Capítulo
II – A Política Indígena e a Formação da
Propriedade da Terra, com referências devidas e transcrições..
A mesma autora, naquela obra e capítulo, às páginas
110/11diz de Aldeamento da Província do Paraná,
também sob controle de José Theodoro de Souza.
FRENTES DE POVOAMENTO – DE 1865
A 1878
Não convinha Theodoro vender suas terras para ocupações
futuras porque a região permaneceria inabitada e enfraquecida
diante dos perigos representados pelos índios. Até mesmo
Theodoro, cujo nome apavorava a indiada, precisou recorrer às
dadas e razias para reconhecimento das terras, desde as margens
do rio Novo [Campos Novos] às cercanias do rio Capivara
[Paraguaçu Paulista] e contravertentes do Peixe, vindo
os índios sobreviventes atravessar o rio Paranapanema,
refugiarem-se nas matas do Peixe ou abrigarem-se além
da Serra do Diabo, no extremo oeste Paulista.
Pioneirismo em crise, as famílias não chegavam.
Vinham indivíduos, homens que portavam armas por instrumentos
de trabalho, muitos foragidos da justiça, contratados
ou aliados a alguns pioneiros que saiam à luta, adiante
do rio Novo.
O sertanista não se deixou abater, auxiliado “pelos
seus decididos companheiros, resistia sempre aos ataques
dos índios e, por sua vez, contra-atacava, desalojando-os
e obrigando-os a fugirem e a se mudarem para mais longe” (1).
Não foi assim tão fácil, precisava de
gente para povoar a terra, caso contrário retornavam
os índios, além do perigo Caingangue, ameaça
constante e sempre voluntarioso em suas arremetidas, apavorando
gentes dia e noite tirando-lhes a paz, para evitar instalações
de novas frentes.
O fracasso bateu-lhe às portas, por isso o gesto
temerário de se mudar para São José do
Rio Novo – povoado ainda capenga em 1864, com toda
sua família, numa região não liberta
das ciladas do sertão. Uma espécie de tudo
ou nada, em mostrar segura a região, sem os convencimentos
esperados, talvez pelo instinto dos interessados em evitar
os perigos e preservar vidas.
Ao Theodoro, todavia, socorreu-lhe o incidente internacional
com o envolvimento do Brasil na Questão do Prata,
ou seja, a invasão temporária do Uruguai pelo
Brasil em favor de Venâncio Flores, entre junho de
1864 a janeiro de 1865, no sentido de se conseguir pacificação
imediata sob ameaça de alcançá-la por
meios violentos. O Brasil recorreu às armas, e, Solano
Lopez – ditador paraguaio, enfim conseguiu o pretexto
aguardado para se intrometer na política cisplatina,
sob argumento do expansionismo brasileiro que logo alcançaria o
Paraguai.
Em agosto de 1864 sabia-se inevitável a Guerra com
o Paraguai. O efetivo do exército brasileiro contava
apenas entre dez ou doze mil homens, de formação
precária e em número insuficiente, para enfrentar
uma guerra que prometia ser longa e cruel, por isso o conclame
para a Cruzada Patriótica, cada brasileiro a se apresentar
voluntariamente para a defesa da Pátria (2).
Atenderam ao chamado as milícias da Guarda Nacional
de São Paulo, Minas Gerais e Goiás, mais pela
obrigação e dever que muitos até alforriaram
seus escravos para a formação dos Voluntários
da Pátria, ou bem entendido, os escravos lutariam
em seus lugares, ou de seus parentes, e depois os sobreviventes
seriam alforriados.
Em 10 de novembro de 1864 o Paraguai aprisionou um navio
brasileiro em águas do rio Paraguai e, pouco depois,
as tropas de Solano invadiram Mato Grosso para assim deflagrar
o conflito aos 23 de dezembro do mesmo ano.
O voluntarismo não fora o esperado e, nos últimos
dias de 1864, se iniciou recrutamento compulsório
de jovens, adultos solteiros e viúvos, em centros
bastante povoados e relativamente próximos da capital
do Império onde se treinavam e enviavam as tropas
de guerra para as frentes de batalhas. O recrutamento era
arbitrário, violento e discriminatório, pois
não buscavam os ricos nem os protegidos.
O sul de Minas esteve entre os primeiros centros alvos dos
recrutadores, obrigando famílias mineiras partirem
rumo ao sertão Paranapanema, para escapar do arrolamento
compulsório para a guerra, entre os quais “muitos
havia, pela idade, isentos do serviço militar e partiram,
simplesmente, acompanhando filhos e netos” (3), enteados,
sobrinhos e mesmo futuros genros, elegendo Campos Novos por
núcleo urbano, como ponto de apoio para avanço
e exploração econômica da região,
logo a experimentar esplendor em sua vida comercial, com
repercussões em toda província paulista.
“Com a Guerra do Paraguai, a população [do Vale Paranapanema]
aumentou, rapidamente, diante da vinda de moradores de Pouso Alegre, que para
lá emigraram. A fim de encontrar refúgio e calma, uma vez que
a célebre cidade mineira estava no caminho das tropas militares; bem
como chegaram homens fugindo à convocação e ao voluntariado” (4).
Os novos chegamentos deram impulsos para o povoamento do
sertão Paranapanema, consistidos por grupos migratórios
de distintos objetivos, entre eles, primeira e principalmente,
os mineiros fugidos da convocação para as tropas
que iriam lutar na Guerra do Paraguai, com intenções
de trabalhar a terra, ainda em economia de subsistências
e primeiras trocas; depois os paulistas das regiões
velhas e caras em busca de terras baratas e solo fértil,
com pretensões de especulação imobiliária
e a colonização, pelo fracionamento dos grandes
latifúndios, ainda assim grandes fazendas. Os fluminenses
também vieram.
O êxodo mineiro foi tanto que, já em 1866, terras
disponíveis somente em regiões já adiante
de Assis. Capitão Francisco de Assis Nogueira, por
exemplo, adquiriu de José Theodoro de Souza partes
da Fazenda Taquaral, em 9 de julho de 1866, conforme registro
pelo Cartório de Casa Branca, constando “de
toda bacia do Taquaral, isto é, com todas as suas
vertentes ou córregos tributários, partindo
da Serra do Mirante – hoje cidade de Echaporã,
ocupando toda a margem direita do rio Pari-Veado até o
rio Paranapanema, confinando por outro lado, com as fazendas:
São Bartolomeu, Tição, Fazenda Antas,
Fazenda Cervo, Fazenda Fortuna ou Cervinho, Fazenda Queixadas,
Fazenda Macuco ou Jacutinga, até o rio Paranapanema,
onde situa hoje, o Porto Raul Marinho, travessa para o estado
do Paraná” (5).
Junto a Capitão Assis, José Machado de Lima
adquiriu de Theodoro, também em 1866, terras à margem
direita do rio Pari-Veado e, depois, diversas sortes à margem
esquerda (6). Capitão Assis, no entanto, somente mais
tarde veio tomar posse de seus bens, 6.380 alqueires de terras
virgens separando áreas de Campos Novos até Pari-Veado – margem
esquerda [onde hoje a sede do município de Platina] às
confrontações descritas. Encontrou diversos
posseiros em sua propriedade, compradores de direitos com
seus comprovantes, invasores ou posseiros de boa fé,
motivos de litígios, acordos e expulsões, às
exceções dos confrontantes, Vicente Ferreira
e filhos, Joaquim Melchior de Camargo, José Jorge
de Pontes, Joaquim José Soares e Ananias de Pontes
(7).
Realmente, até pelas condições técnicas
da época e vagas descrições quanto localizações
e confrontações das propriedades, “havia
larga margem para arbítrio na apreciação
de cada caso e os legitimantes, por isso mesmo, ficavam a
mercê de um funcionário encarregado do serviço
(...)” (8). Ainda em 2005 questionavam-se terras não
escrituradas ou de registros imprecisos que deixaram lacunas
discutíveis de vastas porções de terras,
depois ocupadas indevidamente, discutíveis se realmente
o Capitão Assis comprara terras de Theodoro em 1866,
diretamente, ou as tenha adquirido irregularmente de João
da Silva Oliveira, depois de morto o pioneiro em 1875, lembrando
que João da Silva era cunhado e procurador de Theodoro
[analfabeto], e comprovadamente, veremos, fez muitas vendas
irregulares de terras, retroagindo datas.
- Capitão Assis e Machado de Lima teriam comprado
através de instrumento particular de venda, em 1866,
outorgado diretamente pelo pioneiro, a rogo. O Capitão
somente registrou suas posses em 1898, com fortes suspeições
de documentos forjados desde a compra da propriedade Taquaral,
pelas tantas demandas enfrentadas com posseiros pobres
que detinham título originais de compras ou que
haviam adquirido partes do herdeiro póstumo de Theodoro,
José Luiz de Souza. Na mesma região de Platina,
Coronel Francisco Sanches [ou Sancho] de Figueiredo também
procedeu de maneira idêntica.
A ocupação imposta pelos primeiros desbravadores
transformou a região Vale Paranapanema, gradativamente, à maneira
que avançavam sertão em detrimento aos índios,
as principais vítimas dum processo traumático
conseqüente das frentes de conquistas e de ocupações,
ora a lhes espoliar as terras, ora valerem-se da sua mão
de obra compulsoriamente gratuita.
Devidas as distâncias e dificuldades de transportes
para possíveis safras, os primeiros desbravadores
do Sertão Paranapanema, por volta de 1868, ainda não
se interessavam pelo plantio do café, que já vinha
fazendo sucesso em regiões do Vale do Paraíba
e lados de Botucatu. Leoni, no entanto, nos informa dos primeiros
cafeicultores nas regiões onde seriam Assis e Echaporã,
cujos produtos eram transportados por carreiros e tropeiros
(9) até São Domingos [do Tupá], Lençóis
ou São Manuel.
Dentre as famílias migrantes, durante período
da Guerra do Paraguai – 1865 a 1870, algumas tiveram
destaques em Avaré, Santa Cruz do Rio Pardo e em pontos
mais avançados do sertão, além do rio
Turvo, das quais destacamos apenas as abaixo citadas e localidades,
meros exemplos apenas, sem nenhuma preocupação
quanto ao grau de importância, menor ou maior no contexto
histórico regional, de pessoas ou povoados.
- Avaré: Da formação
e progresso de Rio Novo [Avaré], à exclusão
dos fundadores, agregados e escravos, “(...) seguiram-se
na posse das terras da região de “Abaré”,
outros agricultores: José Antônio do Amaral,
Generoso Teixeira, Antônio Bento Alves, Jacinto Gomes
de Morais, Dionísio José Franco, Francelino
de Melo e João Antônio de Souza. São
estes, segundo uma informação do capitão
Tito Correa de Melo, publicada em 1889, os primeiros posseiros
da região do Rio Novo, anteriormente chamado Abaré” (10).
- Santa Cruz do Rio Pardo: As famílias
Pereira Alvim, Paiva, Bicudo, Soares, Pontes, Marques do
Valle e Andrade, estão entre as primeiras de Santa
Cruz do Rio Pardo, antiga Capela de São Pedro. O
bugreiro José Antonio de Paiva Junior (11), mineiro
nascido em 1825, chegou à região nos primeiros
tempos com o pioneiro Theodoro (12), antes de seguir com
parte dos familiares e da família Pereira Alvim,
rumo a São Mateus – Conceição
de Monte Alegre, que hoje pertence ao município
de Paraguaçu Paulista, onde morreu em 1933, aos
106 anos de idade (13). Os irmãos Messias e Manoel
Bicudo que “vieram de Santa Cruz do Rio Pardo” estão
contados entre os pioneiros do extinto povoado de Dourado,
em partes hoje da cidade de Assis (14). Da família
Andrade foi precursor Messias José de Andrade, em
1847 (15), depois chegou Luiz Manoel de Andrade que se
mudou para a bacia do rio Capivara (16), na mesma época
da chegada dos duplamente cunhados Joaquim Manoel de Andrade,
vindo de Itapetininga, e de Manoel Francisco Soares, de
Pouso Alegre [MG], para o início da história
oficial de Santa Cruz do Rio Pardo (17).
- Cerimônia: Patrimônio
extinto onde “existiam cerca de 50 ranchos construídos
pelas pessoas que demandavam o sertão a fim de estabelecer
suas moradias efetivas” (18). Durante anos, Cerimônia
foi espécie de povoado de transição,
moradores ali permaneciam até estabelecer moradias
efetivas em povoados que seriam levantados mais próximos
de suas propriedades. Constando famílias, agregados,
escravos e rebanhos, por lá residiram os desbravadores
adquirentes das seguintes aguadas entre os rios Capivara,
região de Conceição de Monte Alegre
[rio Sapé], Capivari, São Mateus e outros
rios menores, ribeirões e córregos; Custódio
Vencio e Domingos Ferreira Medeiros, em Anhumas além
do rio Laranja Doce; José Teodorinho [filho do pioneiro-mor]
no ribeirão Água das Mortes – a dois
quilômetros da hoje Paraguaçu Paulista; José Antonio
de Paiva Junior e Manoel Pereira Alvim, às margens
do rio São Mateus (19); Joaquim Melchior de Camargo
escravo alforriado, abastado e senhor de numerosos escravos
e rebanhos (20), tornou-se dono da Fazenda Roseta [onde
atual distrito com mesmo nome], Fazenda Pouso Alegre, que
abrange atual Cardoso de Almeida, Fazenda Fortuna ou Água
da Serraria nas imediações da hoje cidade
de Assis e Fazenda Pitangueiras, cuja sede se tornou a
cidade de Maracaí; Bernardino José de Souza,
irmão do pioneiro, na Água do Macuco; Antonio
José de Moraes, na Fazenda Pontinhas; Luiz Manoel
de Andrade, partes do ribeirão das Antas e margem
direita do rio Capivara – barra do rio Capivari;
Francisco Hermínio da Costa e outros, em partes
da Água do Cervo; João Geraldo, em Ribeirão
Grande, e junto a este mesmo Ribeirão, Antonio Leonel
Mattoso; João Vieira no Alegre; Salvador Ortiz de
Oliveira, no Sapé; Manoel Pedro Dutra, José Gabriel
Machado e José Antonio da Silva, no Capivari; Joaquim
José Pereira, partes nas vertentes rio Capivara
com Ribeirão Grande; João Antonio Martins
partes nas vertentes rio Capivara; Fidelis José Rodrigues
e João Diniz, rio Paranapanema – barra
do Capivara e partes nas vertentes; Martiniano Miguel Pereira,
no Cocais,; Balbino José de Lima, na Escaramuça;
Antonio da Silva, em Rancharia; João Francisco Grillo
e João Baptista Leme, na Marambaia (21).
- Dourado: Antigo povoado
em partes hoje da cidade de Assis, residiram Manoel Alves
dos Reis, do grupo primitivo [1847] – sua primeira
propriedade fazia divisas com Theodoro (22), seu irmão
João Martins dos Reis, seu cunhado João Hipólito
Alves de Barros (23) – bugreiro e acompanhante de
Theodoro no grupo de 1850/51, Joaquim Bernardino de Souza – parente
de Theodoro, José Flauzino Pereira, João
Miranda, Salvino Domiciano Rosa [sobrinho-neto de Theodoro]
e Antonio Caçador, todos com posses de terras na Água
da Cabiúna, também na região de Assis,
propriedade dita adquirida pelo Capitão Francisco
de Assis Nogueira, em 1866, diretamente de José Theodoro,
numa suspeitosa transação na mesma gleba
da Fazenda Taquaral, a qual abrangia, de modo geral, todas
as aquisições, inclusive posses, dos citados
pioneiros, dando causa a litígio de posse, anos
depois solucionado por divisão judicial e acordos.
Foram moradores da localidade, na época, ainda os
seguintes pioneiros: Vicente Ferreira e filhos, Melchior
de Camargo, José Jorge Pontes, Joaquim José Soares
e Ananias de Pontes, proprietários de terras limitantes
com a Fazenda Taquaral (24).
Uns nomes e outros se repetem, nas fontes consultadas, pela
flutuação residencial e transações
de propriedades – compras, vendas e trocas, com famílias
avançando aos poucos, até fixação
final. Também, se tem notícias que algumas
micro-bacias ficaram sem compradores, porém ocupadas,
outras tiveram documentos duplicados ou triplicados que,
num futuro próximo, dariam motivos para sérias
disputas judiciais. Muitos adquirentes de terras somente
vieram apossá-las, ou registra-las, anos depois, às
vezes assim a confundir chegadas e efetivas compras, com
larga margem para invasões ou grilagens depois da
morte de Theodoro.
Com a evolução do povoado de Campos Novos e
pacificação dos índios até o
rio das Anhumas, Theodoro retornou para sua pacata Capela
de São João Batista – São Pedro
do Turvo, em 1868.
As imigrações, como programas impostos pela guerra,
continuariam até 1878, por referidas motivações,
sendo posteriores deslocamentos mineiros, aos limites do século,
vistos por anomalias econômico-financeiras de sitiantes
empobrecidos do sul de Minas, que bem poderiam fazer-se ricos
no sertão do Paranapanema.
ROMPENDO AS FRONTEIRAS DO SERÃO PARANAPANEMA
O Registro Paroquial de Terras número 516 lavrado
em Botucatu [SP], a favor de José Theodoro de Souza,
indicava o latifúndio entre os rios Turvo e Anhumas,
adiante do tributário paranaense Tibagi, embora comumente
inferido que todas as terras, entre os rios Peixe e o Paranapanema,
a partir do rio Turvo à barranca do rio Paraná,
pertenciam ao desbravador. Talvez, à exceção
possível de pequeno grupo próximo ao conquistador,
ninguém mais parecia saber os limites daquelas posses.
A Guerra do Paraguai otimizara a venda de terras além das expectativas,
quase todas as áreas vendidas, apenas “alguns córregos e
ribeirões ficaram sem compradores” (1). Os preços subiram,
muitos queriam mais terras férteis do Vale Paranapanema, com forte especulação
imobiliária até o rio Anhumas, aonde as vendas chegaram. Era necessário
ir além, que Theodoro pusesse logo à venda terras adiante.
Giovannetti narra uma viagem que Theodoro fez, por volta de 1871, com seu genro
Francisco de Paula Moraes, adiante do rio das Anhumas, pelo Paranapanema, até a
Cachoeira do Frade, “reconhecendo todos os afluentes que ficavam abaixo
do ribeirão Anhumas” (2), intenção evidente de estender
suas posses naquela direção, afinal, que outro interesse teria
ele naquela viagem senão avançar divisas?
Para realizar legalmente seus objetivos carecia de uma sentença expedida
por um Juiz de Direito, que eram suas aquelas terras omitidas no Registro Paroquial,
porém legalmente apossadas e lançadas em memorial descritivo para
o qual evocava testemunhos, o que não lhe era difícil, pois todos
entendiam suas posses além dos limites estabelecidos naquele registro
516.
Precisava, outrossim, de ato declaratório do poder público atestando-o
pessoa idônea, de bons antecedentes e boa conduta presente, um homem religioso,
desbravador sertanista com longa permanência e história no sertão,
fundador de povoados e abridor de estradas às próprias expensas
e assim mantidas. enfim pessoa de reconhecida utilidade pública sócio-comunitária.
Requereu e o teve deferido unânime pela Câmara Municipal de Lençóis,
em 1º de março de 1872 (3).
Não levou adiante seus planos, pois nesta época João da
Silva Oliveira, cunhado e procurador de Theodoro, “entendeu de fazer tambem
as suas posses, ao tempo em que a do cunhado se acabara" (4) e assim “apossou-se
das Anhumas para baixo” (5), ao descer “o Paranapanema até a
Cachoeira do Frade, não longe da barra deste no rio Paraná, reconhecendo
mais os ribeirões Mosquito, Rebojo, Laranjeira e innumeros outros” (6), “e
que se apossou do território até, inclusive à Serra do Diabo,
compreendendo ao atual município de Teodoro Sampaio” (7).
Teria sido esta a causa do rompimento das relações entre Theodoro
e seu cunhado e procurador João da Silva, embora se possa admitir que
a desavença entre eles tenha ocorrido em 1868, quando João da Silva
assinou vendas de algumas terras sem o conhecimento do pioneiro-mor, que se viu
na obrigação de honrar compromissos. Apontam que foi esse o motivo
por que Theodoro passou vender terras diretamente aos compradores, sob a supervisão
do sobrinho Vicente sem a participação de João da Silva.
- José Theodoro se viu doravante em dificuldades
por não saber quanto ainda tinha de terras para
vender, nem os números de famílias por chegar
ou o lugar onde destina-las, tal sua dependência
do cunhado, e disto se aproveitou João para assinar
uns tantos documentos de vendas de terras com datas anteriores,
com auxílios dos célebres fazedores de
falsas escrituras.
As medidas das posses de Silva eram próximas ou maiores
que o tamanho das legitimadas pelo cunhado, análise
que “por ahi teremos uma idéia approximada da
extensão que o ex-logar tenente de Theodoro reconheceu
para deante do ponto extremo que atingira” (8).
Nenhum historiador entendeu certo porque João da Silva
não prosseguiu suas posses até as barrancas
do Paraná, estando tão próximo.Theodoro
também não fora além em suas observações.
De qualquer forma, até onde João da Silva estabelecera
os limites, eram terras sem assenhoreamento primário,
mas “não podendo registrar <<occupações>>,
pois que a lei de 1850 prohibira, traduziu sua intenção
nas escripturas de venda, pura e simples, que outorgou como
realmente vendesse o que era seu, de muito tempo” (9).
Mas as vendas assim eram difíceis, todos queriam terras
de Theodoro em causa da credibilidade e certeza que eram
legais. Em pelo menos seis transações de suas
posses Silva usou seu genro Antonio de Paula Rodrigues
[o Ourives], Joaquim Alves de Lima e outros nomes, reais
ou não, que comprariam terras de Theodoro, através
dele [Silva] na condição de procurador – já não
era mais, com datas retroativas, para permutar com as suas
e daí repassá-las aos compradores como propriedades
de Theodoro.
- Tais feitos de João da Silva criariam sérios
litígios diante da posterior impossibilidade de
regularização fundiária ou reconhecimento
legal de propriedade.
Ainda nada refeito da traição do cunhado,
pretendeu o pioneiro se voltar, então, para os lados
da Serra do Mirante, Vale do Peixe, mas lá João
da Silva também chegara antes por “mais terras
ignotas, além daquelas. (...) transpoz o espigão
que separa o Valle do Paranapanema do Valle do rio do Peixe
(...) e assignalou dois ribeirões que não denominou“ (10).
Silva repassou estas terras a João Antonio de Moraes – vulgo
João Beraldo, irmão de Francisco de Paula Moraes,
o genro de José Theodoro de Souza, cuja intenção
de posse foi posteriormente ampliada, para adiante das cabeceiras
do rio Capivara às contravertentes avistadas, pelo
Vale do Peixe algumas léguas abaixo, quando outorgada
escritura de compra e venda de João Beraldo a favor
de Francisco de Paula Moraes, de acordo com a descrição:
“Uma fazenda de terras de cultura na serra dos Campos
Novos, pendente ao rio Tietê com as divisas seguintes:
Principiando, na cabeceira do Rio Capivara, e seguindo pela
divisa, que confina com a Fazenda dos Figueiredos até onde
faz a demarcação de duas léguas, quebrando
a direita, cortando todas as águas passando por baixo da lagoa na primeira
fluencia a um ribeirão que faz na lagoa, e sempre seguindo pelo espigão,
e confinando sempre com os mesmos Figueiredos, até na mesma serra, por
esta seguindo pelo lado do nascente, cercando todas as águas do ribeirão
do Peixe, voltando para o poente sempre seguindo pelo espigão, abrangendo
todas as vertentes, concernente ao mesmo ribeirão do Peixe, até frontear
uma corredeira ao mesmo ribeirão, e de aqui, a extensão de duas
léguas pelo mesmo espigão, e de esta raia cortando a rumo direito
a mesma serra, voltando pelo cume da serra do Nascente, até onde teve
princípio e fim ditas divisas: cuja fazenda assim dita e divisada nesta
data vendem e como de fato vendido tinham para o segundo, Francisco de Paula
Moraes, pelo preço e quantia de um conto e quinhentos mil réis,
que nesta data receberão em moeda corrente, e por isso transferem na
pessoa dele comprador toda posse jus domínio e senhorio que em dita
fazenda tinham, podendo ele comprador gozar como se sua que fica sendo de hoje
para todo sempre: dito isto pelo comprador foi aceito e ai me apresentou certidão
de Siza” (11).
A escritura foi celebrada no Cartório de Jacob Antonio
Molitor, Santa Cruz do Rio Pardo, apenas em 19 de fevereiro
de 1877, tratando-se de falcatrua entre João da Silva
e Francisco de Paula contra as pretensões de José Theodoro
de Souza, com óbvias intenções de se
apossar todo o Vale do Peixe, todavia ainda igualmente incompreendido
porque a propriedade não chegava até o rio
Paraná em sua extensão.
- Uma das razões apregoadas considera que os antigos
ainda não sabiam o Peixe por afluente do rio Paraná,
entendendo-o tributário do Feio/Aguapeí,
como adiante veremos. Já pelos lados do Vale Paranapanema
o mistério continuava.
Hoje é possível atinar porque João
da Silva e Francisco de Paula não estenderam suas
posses, Paranapanema e Peixe respectivamente, às barrancas
do rio Paraná, postos que unidos juntamente com outro
pioneiro, Joaquim Alves de Lima, entre 1868/1871, em detrimento
a José Theodoro de Souza, na apropriação
conjunta de umas terras que denominaram Fazenda Pirapó-Santo
Anastácio, em nome de certo José Antônio
Gouveia, de forma a preencher aqueles espaços entre
o Peixe e o Paranapanema ao rio Paraná.
Antônio José Gouveia, ou José Antônio
Gouveia, havia requerido e extraído registro paroquial
daquele latifúndio, denominado Fazenda Pirapó-Santo
Anastácio, aos trinta e um do mês de maio de
1856, na Paróquia de São João Batista
do Rio Verde – atual Itaporanga, referido registro
assinado pelo vigário Pacífico de Monte Calvo.
Gouveia declarara, ainda, ser morador no local desde 1848,
onde trabalhava com lavoura e criações, numa
posse mansa e pacífica, cuja “gleba em questão
se estende por uns 300.000 hectares, desde a barra do rio
Paranapanema, seguindo por 10 léguas rio Paraná acima
e voltando-se para leste, pelas vertentes do rio Pirapó,
até encontrar-se de novo com o rio Paranapanema” (12).
Seria esta mais ou menos a descrição do latifúndio,
cuja maior extensão de área se encontra onde
o denominado Pontal do Paranapanema, terras ainda em litígio
[ano de 2005] originariamente de “José Antônio
Gouveia, que segundo depoimentos prestados nos autos do processo
de legitimação de posse, pouco tempo ficou
por essas paragens, transferindo a sua posse por título
escrito de abril de 1861 em favor de Joaquim Alves de Lima,
o qual, por seu turno e de imediato, transferiu a gleba em
apreço ao filho João Evangelista de Lima” (13).
A escritura foi lavrada em Pirassununga [SP].
Todavia o documento das terras de Gouveia foi tido por imprestável,
juridicamente, já a partir do Registro Paroquial,
quando se descobriu forjada a assinatura do vigário
Pacífico de Monte Calvo. Também causou estranheza
o pedido de reconhecimento das terras, apenas em 1886, com
a aberração geográfica “na qual
o rio Paranapanema atravessa o rio Paraná e segue
Mato Grosso adentro” (14), além da inexistência
de algum rio Pirapó no local indicado em terras paulista,
a evidenciar, salvo melhor juízo, grande farsa engendrada
entre 1868/1871, com retroação de datas e incendimentode
documentos originais.
Para eficácia de seus logros, João da Silva
contava com as colaborações de Manoel Joaquim
Bueno, Cartorário e Agente Fiscal em São Domingos
do Tupá, e de Jacob Antonio Molitor, do Tabelião
de Paz da então Freguesia de Santa Cruz do Rio Pardo.
Este Manoel Bueno tinha em seu poder formulários oficiais
em branco, estampilhas e impressos que vinham, “com
armas imperiaes e as datas constatando o exercício
financeiro para o qual eram destinadas, junctamente com aquellas
(...) antigas estampilhas ainda não utilizadas”,
dando autenticidade aos documentos, retroagindo datas entre
os anos de 1856 a 1864, inclusive com lançamentos
em livros próprios, que consistia em fazer duplicata
acrescendo os assentamentos desejados, algo trabalhoso porém
vendido a altos preços (15).
Amador Nogueira Cobra descreve uma escritura falsificada,
resguardando identidade do envolvido e dos assinantes a rogo,
a qual transcrevemos, a titulo de exemplo:
“Dizemos nós abaixo assignados, eu José Theodoro de Souza
e minha mulher Francisca Leite da Silva que entre os bens que somos senhores
e possuidores livres e desembaraçados de qualquer onus e bem assim uma
sorte de terras nas paragens do Paranapanema divisada pela maneira seguinte:
principiando na barranca do Paranapanema abaixo divisando com Francisco Antonio
de Figueredo, subindo pelo espigão mestre e aguas vertentes do rio Pary
até divisar com terras de Antonio Pereira Alvim e Joaquim José Raposo
ou terras denominadas Barreiro a divisar com Apolinário da Costa Fragoso,
a procura do espigão que divide as duas aguas denominadas P. de A. e
P. e por seguimento a linha divisoria que vae à barranca do Rio Paranapanema
e descendo por este até onde teve principio esta demarcação.
As quaes terras assim divisadas e demarcadas possuímos ocupação
primaria e vendemos de nossa livre vontade ao Senhor P.A.C. pelo preço
e quantia de 190$000 que recebemos e damos quitação. Pedimos
a justiça do Império dar a esta a escriptura particular força
de escriptura publica. O comprador fica obrigado a pagar ‘os direitos
nacional’. Por não sabermos escrever assigna ao nosso rogo L.J.T.”
“Lançados sobre o papel esses dizeres (que poucas variantes apresentavam
em cada documento, por isso que são consagrados) mais o sello e a data,
escriptos por um entendido na feitura do instrumento, intervinham, finalmente,
dois indivíduos assignando, um a rogo dos vendedores e outro, do comprador,
e duas testemunhas” (16).
- Manoel Bueno deixou os serviços em São
Domingos, vindo exercer suas fraudes a favor dos primeiros
grileiros do Vale Paranapanema, contando com ajuda de outros
cartorários, a exemplo de Jacob Antonio Molitor,
de Santa Cruz do Rio Pardo, não hesitando inclusive
incendiar arquivos para fins determinados.
Distante de tais artifícios e burlas, José Theodoro
era considerado honesto em seus negócios, homem de
palavra em suas transações. “Com ele
podia-se fechar, verbalmente, um contrato de compra e venda,
antecipar o pagamento, certo de que, na primeira viagem a
São Domingos a escritura seria lavrada, confirmando
a transação” (17).
Por honrar a palavra dada, também acreditava nas pessoas.
Com a ausência de Silva à frente de seus negócios,
mais de uma vez Theodoro vendeu terras por instrumento particular,
a seu rogo e da mulher, sem lavra e autenticação
em livro oficial (18), situações que no futuro
facultariam falsos títulos de domínios e vendas
fictícias.
A despeito destes acontecimentos, o sertão vivia o
expansionismo ocupacional de suas terras, os mineiros continuavam
chegar. Campos Novos deixou de ser núcleo populacional
apenas de pessoas amigas, parentas ou unidas em interesses,
pois as famílias já não eram mais arregimentadas
nem escolhidas por algum dos pioneiros, portanto sem saber
se confiáveis e honestas, assim o sertão a
experimentar conseqüências de crescimento desordenado,
com gentes diferentes e de estranhos comportamentos, foras
da lei e marginais que simplesmente resolveram chegar por
ali, por refúgio e lugar propício para o exercício
de embustes e engodos contra gente inocente e de boa fé.
Mas é dentro deste fenômeno migratório,
bom e não de todo mau, que o sertão conheceu
seu progresso expansionista, mesmo por motivação
a Guerra do Paraguai, vinculado ao capitalismo nas relações
povoamento e ocupação da terra, já evoluído
a partir da cultura de subsistência para a exploração
diversificada, isto é, da socialização
produtiva ao incremento das atividades comerciais, estabelecidas
como relações de trabalho, entre senhores e
trabalhadores.
Nem todos vinham para ser patrão, portanto, sob ponto
de vista desenvolvimentista ou de organização
natural do processo disciplinador de mercado, ocorreu ali
nova identidade da força de produção,
ou seja, das leis da concorrência da terra e do homem.
E tudo começou apenas com vontade de Theodoro vencer
os obstáculos naturais, matar índios, ocupar
as terras e fazer vida no sertão.
O fim da Guerra do Paraguai historicamente assinala início
de transformações na sociedade brasileira,
fortalecendo o exército e instituições
civis enquanto o enfraquecimento do Império, por conseguinte
obrigado a reformas republicanas e abolicionistas de maneira
atingir o ponto vital da economia brasileira, ainda centrada
na mão de obra escrava. Mas, o que efetivamente se
viu no Vale Paranapanema foi a ocupação e a
posse do espaço físico para fins de produção,
com atenções voltadas primeiro para o mercado
interno que se urbanizou, depois para o exterior, com isso
a incrementar a agricultura e pecuária em maior escala.
O ciclo do café a ocupar grandes fazendas numa espécie
monocultura, abriu espaço para prosperar, até em
maior proporção, as lavouras de culturas diversas,
quando o Vale Paranapanema ganhou atenções
e Campos Novos tornou-se referencia, ao mesmo tempo corredor
de passagem e/ou ponto de partida para lugares mais distantes,
passou a bacia Capivara e chegou para lados dos rios Sapé,
São Mateus e Anhumas onde os limites das terras do
pioneiro. Projetou-se aí o povoado de Conceição
de Monte Alegre, por ultima referencia rumo ao oeste paulista,
para ampliação dos limites ocupacionais e,
um pouco mais adiante no tempo, as partes do sudoeste paulista
que também conheceriam a onda cafeeira.
Foi o entusiasmo das vendas de terras que levou Theodoro
a demarcar um território, para “outro patrimônio.
(...). Era já tempo. De São José do
Rio Novo até alli, caminhara cerca de doze legoas,
distância que as duas futuras povoações
conservariam entre si, de modo que uma não fosse,
em território, prejudicada pela outra” (19).
O local escolhido viria se chamar Nossa Senhora da Conceição da
Boa Vista, depois do Campo Alegre e, por fim, de
Monte Alegre.
Tal feito ocorreu em 1868, quando o pioneiro iniciava as
vendas adiante do rio Capivara às margens do rio das
Anhumas, efetivado através de escritura pública
lavrada em 20 de agosto de 1873, demora ocorrida por discórdia
quanto a exata localização do imóvel
doado, obrigando o próprio Theodoro pessoalmente,
em dezembro de 1873, escolher o lugar ideado para aquele
propósito posto em escritura, com aquele nome primeiro
de Nossa Senhora da Conceição da Boa Vista,
futura Conceição de Monte Alegre (20). O registro
da doação patrimonial somente viria se realizar
em 1902.
- Antes de Conceição se tornar realidade,
o ultimo ponto de parada, passado Campos Novos, era o patrimônio
Cerimônia que, a partir de então, entrou em
decadência até o desaparecimento.
Aquela viagem do pioneiro teria sido a ultima em seus domínios
já fracionados, retornando para São Pedro do
Turvo e de lá não mais sair até sua
morte, menos de dois anos depois, por um indígena,
a golpes de borduna, em 24 de setembro de 1875.
Diferente das afirmações de muitos autores,
Theodoro não morreu pobre, apenas sua viúva
e seu filho póstumo não receberam os tantos
bens deixados pelo falecido, porque João da Silva
já havia inaugurado, no Vale Paranapanema, a grilagem
de terras e esquentamento de documentos frios, retirando
terras destes herdeiros de Theodoro. Ainda assim, José Luiz
de Souza – filho nascido pós-morte de Theodoro,
quando completada maioridade, “induziram-no a tomar
conta da herança que desconhecia e, em seguida, alienou
dando origem esse acto a uma contenda (...)” (21). “No
espólio do mineiro, sobre tudo, sabemos que existiam
muitas águas que reunidas às outras, irregularmente
alienadas, por falta de registro, formavam bloco, assaz considerável
(...)” (22).
- Foi inventariante a mulher de Theodoro, Ana Luiza de
Jesus, e como procurador João da Silva Oliveira.
No Termo de Louvação, um quase nada de bens
e valores declarados, 940$000 rs em bens de raiz [casa
coberta de telhas, uma casa coberta de sapé e um
cercado], móveis 44$000 rs, objetos de cobre e ferro
38$000 rs e um cavalo de 60$000 rs, totalizando 1:082$000
rs, mais uma escrava [Honória] de 16/18 anos, avaliada
em 1:000$000 rs, com valor geral de 2.082$000 rs. Dona
Ana Luiza, por seu procurador João da Silva, não
arrolou nenhuma fazenda às quais “sabe que
existe, mas não sabe onde” – I/JTS.
C/2º. AO (23).
Apenas quase ao final da vida, Theodoro teria descoberto
vendas não autorizada de terras que eram suas e, para
não criar embaraços, jamais às contestou.
As ações de Silva prejudicaram Theodoro e herdeiros,
através de vendas continuadas mesmo depois de seu
falecimento, através de procuração que
lhe fora outorgada e nunca revogada, com o intrujão
a retroagir datas ou fazer uso de instrumentos particulares
de vendas a rogo.
Também Manoel Joaquim Bueno ficou
com um quinhão
de terras de Theodoro, entre o rio Capivara e Bugio às
margens do Paranapanema, por escritura falsificada transcrita
por Amador Cobra, com ocultação de nomes entre
os envolvidos, cujas localizações indicam o quanto
surrupiado por Bueno (24); terras posteriormente questionadas
judicialmente, umas porções por posseiros com
títulos de compras, outras apropriadas pelo Padre Francisco
Seródio e contendidas por décadas.
O HOMEM POR DETRÁS DAS LENDA
Theodoro foi antes de tudo um exterminador
de índios
que fez história na região Vale Paranapanema,
juntamente com seu cunhado, João da Silva Oliveira,
seu genro Francisco de Paula Moraes, o Chico Paula, outros
parentes e um grupo de aventureiros sertanistas, sendo muitas
as histórias contadas, verdades ou mentiras, a respeito
deles.
Interessa-nos o pioneiro-mor Theodoro,
analfabeto, assistido nos negócios pelo cunhado João da Silva Oliveira
que lhe servia de procurador e secretário nos negócios.
Desentendendo-se com Silva “desviou de um colégio
de Minas Gerais, num autêntico rapto, um menor de quinze
anos de idade, que trouxe consigo, para as funções
de escriturário. Esse menor – Vicente Lourenço
Ferreira – foi bem protegido por José Teodoro,
que lhe montou um armazém e lhe fez doação
de dois casais de escravos” (1).
Leoni, no entanto, contesta a afirmativa
informando que aquele mesmo Vicente, nascido em Cabo Verde
[MG] no ano de 1830, a despeito da idade de 17 anos, chegou
com Theodoro já na primeira comitiva, de 1847, desde então
escriturário e anotador em diário sobre as
atividades dos pioneiros (2). Leoni confirma que Vicente
foi sim beneficiado pelo tio padrinho, com comércio
em Conceição de Monte Alegre e uma fazenda
nas proximidades do rio Capivari, e que anos depois da morte
do chefe pioneiro adquiriu terras dos herdeiros, onde hoje
a cidade de Candido Mota (3), sem nenhum outro benefício
recebido em doação.
Descendentes de pioneiros contavam
que Theodoro realmente se desentendera com o pai de Vicente
porque o filho optou seguir o sertanista que a permanência em Minas Gerais
para prosseguir os estudos. Quando Francisco Lourenço
Nogueira, [irmão de Vicente], teve idade, também
resolveu seguir destino para os lados do Vale Paranapanema.
Por diversos autores, José Theodoro era perdulário
tanto que, certa vez ao assistir um escravo tocar viola e
cantar cateretê, sem se cansar, durante toda a duração
do baile, resolveu compra-lo fosse a qualquer, com transação
acordada na troca de uma fazenda pelo escravo e seu instrumento.
A fazenda seria a “Borda do Campo, próxima a
atual Campos Novos, com uma área de 3.500 alqueires” (4).
A troca, absurda para muitos, de uma fazenda por um escravo
cantador tem outras versões, por exemplo, Amador Cobra
informa que: “Estando elle [Theodoro] em Minas assistiu,
certa vez, a catêretê em que um preto, apellidado
de Carioca, escravo do dono da casa onde se dançou,
tocou viola admiravelmente, durante toda a noite, sem se
fatigar, imprimindo vida e animação ao divertimento.
José Theodoro, enthusiasmou-se com a habilidade de
violeiro e deliberou compral-o. Como não possuía
dinheiro na occasião, propoz dar o ‘ribeirão
Borda do Campo’ em troca do escravo com o instrumento,
o que foi acceito” (. . .) “(...) figurando o
escravo como dinheiro recebido” (5).
Para Francisco Marins a história ocorreu na região
de Botucatu [Sant’Ana], o escravo era o mesmo Carioca,
pertencente a um certo Nho Antão, e a fazenda seria
a Laranja Azeda, “um pedaço de cinco mil alqueires
de terras pelo escravo cantador” (6) e seu instrumento.
Os antigos diziam que realmente ocorrera a troca da fazenda
pelo escravo cantador, mas a propriedade tinha por nome Laranja
Doce, na região de Paraguaçu Paulista.
- Por título comparativo de preços na época,
possível transação não era
nenhum absurdo, um escravo negro custava 500 mil réis
ou mais (7), quantia com a qual “comprava-se propriedades
de mais de 5 mil alqueires de área” (8), quando
um conto de réis valia um milhar de mil-réis.
O sistemático caçador e matador de índios,
homem que enfrentava a família para conseguir seus
objetivos, ao mesmo tempo em que perdulário e cheio
de vontades, de maneira igual era visto como fundador de
povoados, muitos jamais além de arranchamentos, alguns
que evoluíram para bairros rurais e assim extintos,
aqueles ainda distritos e uns poucos elevados às condições
de cidades.
Católico fervoroso, sempre o primeiro cuidado de Theodoro
em suas entradas pelo sertão, nos locais ermos onde
fazia suas paradas para descanso mandava erigir uma capela,
construir dois ou três ranchos, denominar o local e
nele deixar uns tantos companheiros, para o reconhecimento
das terras e delas cuidarem, localizar possíveis predecessores
e dar caça ao índio.
Agiu assim pelo menos em Avaré [Rio Novo], Cerqueira
César [Três Ranchos], Águas de Santa
Bárbara [Santa Bárbara do Rio Pardo], Agudos
[São Paulo dos Morros dos Agudos], Bauru / Espírito
Santo da Fortaleza, Pratânia [Prata], São Manuel
[Águas Claras], Lençóis Paulista [Pouso
dos Lençóis ou Campos de Lençois], Santa
Cruz do Rio Pardo [Capela de São Pedro] e São
Pedro do Turvo [Capela de São João].
Tais
localidades ele mesmo as desbravou entre 1850 a 1856, e nelas fixou companheiros
de empreitadas ou famílias mineiras mais abastadas, a mando e venda
por Capitão Tito Correa de Mello, à exceção das
localidades adiante do rio Turvo, exemplo de São Pedro do Turvo, Campos
Novos Paulista e Conceição de Monte Alegre,
A fundação de um povoado tinha dois objetivos
principais, primeiro a segurança de todos, depois
a inevitável chegada do progresso. O povoador doava
determinada área para a Igreja [capela, cemitério
e praça] e partes destinadas às ruas, como
passo inicial para a formação de um núcleo
populacional, já com as vendas de lotes que lhe garantia,
de certa forma, liderança local e enriquecimento com
a venda de pouca terra.
Benedicto Benício, quanto à formação
do povoado de Sapezal, dá-nos a notícia que “dessa área,
dividida em lotes, o pioneiro Evaristo Soares Monteiro reservou
lugar para a capela, para o cemitério, pátio
da estação ferroviária e para as ruas
da povoação”. Benício esclarece
que Evaristo, com a venda dos lotes, destinava o dinheiro “à construção
da pequena capela e do fecho do terreno do cemitério” (9).
Mas não se sabe se Theodoro usou esta prática
em locais que foi ele o fundador.
Se o pioneiro e seu grupo viviam a infernizar a vida dos índios
em suas terras e aldeias, também os índios
eram arrelientos aos brancos, na região de Campos
Novos, de tal forma que os agricultores, quando saiam para
o trabalho, levavam toda a família, deixando guardas
para defesa do patrimônio, e ainda assim, quase sempre
aconteciam incêndios e mortes isoladas.
Os índios sempre desejaram a morte de José Theodoro,
difícil imaginar o contrário por tudo aquilo
que foi e lhes fez o pioneiro. Contam que certa feita os
Caingangues ameaçaram atacar Campos Novos porque sabiam
que Theodoro viria em socorro da população,
daí uma cilada em algum ponto a partir de São
Pedro do Turvo.
Era difícil índios atacar povoados com mais
de vinte famílias estabelecidas, mas nada impossível,
afinal eles viviam pelas matas, às ocultas, aterrorizando
os brancos e, vez ou outra, a simular ataques ou mesmo incendiar
uma ou outra residência durante a noite, geralmente
quando ausentes os moradores.
Certo ou errado se os índios Caingangues pretendiam
mesmo atacar Campos Novos, Giovannetti dá conta que
a situação precipitou-se numa manhã de
domingo, entre nove e dez horas, quando uma escrava distanciou-se
da casa à procura de uma ave “no meio de uma
capoeirinha”, se deparando com alguns índios
escondidos. O grito da negra atraiu toda população
branca que, naquela hora da manhã estava rezando como
de costume ao pé do cruzeiro, na entrada do povoado,
porque era o costume de se rezar ali sempre aos domingos.
Correram todos para o centro urbano onde algumas casas já ardiam
em fogo (10).
Do embate ocorrido em 1874, descreve o mesmo Giovannetti: “O
formidável tiroteio sacudiu a pacatez da Vila abalando
a sua calma habitual. O povo viveu horas de labaredas. Nuvens
de flechas escureceram o horizonte. No meio da luta surgiu
uma mulher, verdadeiro tipo de Vesta, de nome Leopoldina
Maria de Jesus, que se tornou a heroína da épica
jornada. Transportando arcabuzes, espingardas, garruchas
e mosquetes e carregando as armas detonadas para ajudar os
homens, deu exemplo vivo de força e entusiasmo, atiçando
o ardor da batalha com palavras de incitamento que lhe crepitavam
o fundo do coração. As palavras de Leopoldina
davam a impressão de uma verdadeira descarga de fuzilaria.
Esta legionária ficou ferida por uma flecha. Apesar
da superioridade formidável dos atacantes, a Vila
resistiu. As duas horas da tarde os índios sobreviventes,
estrondosamente derrotados nessa tentativa de conquista,
fugiram, e a calma voltou de novo no seio pacato da população” (11).
Theodoro não estava no local quando Campos Novos teve
o seu “batismo de sangue”, aliás, contestado
por Leoni Ferreira que considera o relato fantasioso, “isto
nunca aconteceu e nenhuma vila onde havia povoado em grupo
os índios jamais atreviam atacar” (12), senão
de surpresas em locais isolados e de poucos indivíduos.
A história do pioneiro é rica em incidentes
e sempre despertou polêmica e contradição
em torno de seu nome e da própria existencialidade.
Arruda Dantas, por exemplo, descreve-nos que, “fixado
em São Pedro do Turvo, José Theodoro continuou
explorando terras, valendo-se das próprias trilhas
abertas pelos índios, até seu falecimento”.
(...). “Era analfabeto, e se tem como homem generoso,
bom e caridoso, protetor de toda gente. Inclusive, não
quis seviciar os índios, mas atraí-los com
amor à civilização, – o que não
concorda com sua atuação anterior, no Abaré-i,
segundo Hernâni Donato. Tanto, que os mesmos o tratavam
de <Pai> (13)”, portanto um Theodoro bom e às
avessas de sua imagem assassina.
Bruno Giovannetti apaixonadamente expõe-nos que a
região Paranapanema “não podia continuar
sendo habitada por índios e animais ferozes. Eis que
[então] surgiu o Hércules do Sertão
ma pessoa maciça de José Theodoro de Souza.
Esse rude homem montanhês partiu para um lugar qualquer
sem um objetivo que lhe pudesse garantir o triunfo real da
conquista. A posse das terras foi a mais potente força
que impeliu este arrojado desbravador para regiões
longínquas; foi ela que atraiu fortes energias humanas
para o desconhecido, foi ela que mais tarde criou o dinamismo
propulsor de uma nova riqueza. Foi um produto do espírito
da época. (...). Não foram escravos que seguiram
o forte sertanejo no Novo Eldorado, mas lavradores livres
homens afeitos a dura e áspera vida da selva bravia” (14).
Giovannetti não nos dá notícias das
razias praticadas por Theodoro e seus bugreiros contra a
população indígena cujo número,
segundo Arruda Dantas, “calcula-se que a população
indígena, à época, era de 5.000 (cinco
mil)” indivíduos (15), aos
quais inferimos todos dizimados pela inquietação theodoriana dos
primeiros sertanistas desbravadores.
Consta nos Anais da História que José Theodoro
de Souza, por todos seus feitos e bravura, recebeu patente
da Guarda Nacional de Botucatu, sob número 198, com
solenidade especial na Câmara Municipal da localidade,
em 1865 (16), embora o entendimento que o ingresso à Guarda
Nacional, quase sempre, tratava-se de contribuição
paga.
Theodoro ainda vivia, quando João
da Silva Oliveira e Francisco de Paula Moraes
deram início ao surgimento
dos primeiros grilos oficiais no Vale Paranapanema – oeste
paulista.
FAZEDORES DE FALSAS ESCRITURAS
E OS PRIMEIROS GRILOS
Os mineiros que chegaram com Theodoro
e aqueles primeiros adquirentes de terras
eram quase todos de boa índole,
de costumes tradicionais, religiosos, não
dados às práticas de violências,
honestos em seus compromissos, se respeitavam
e se conheciam desde antes, quando não
vinculados por algum grau familiar, de
compadresco ou parenteiro. Em maioria iletrada,
arranchada, era gente pouca em busca de
melhor sorte naquelas paragens.
Com a Guerra do Paraguai e suas conseqüências, “começaram
a apparecer, por esse tempo, entre os sertanejos,
malquerenças que provinham dos choques
de interesses. Cada qual procurava legitimar
seu quinhão e muitas vezes era contrariado
por outrem que egualmente o pretendia” (1),
até entre os primeiros, uns e outros
mostraram facetas desconhecidas, anos depois,
ao se enveredarem para as artes do logro
e da industria das falsificações
de títulos dominiais.
Quando da morte de Theodoro, em 1875, São
José do Rio Novo [Campos Novos]
era habitada por numerosas famílias
com residência fixa, duzentos fogos
ou mais diziam os antigos, “pessoas
de alguma cultura intelectual (...) homens
de traquejo da vida de cidade, entendidos
em administração municipal
e de política (...) não se
incluíam tantos indivíduos
analfabetos (...)” (2), que por lá chegaram
fugitivos do recrutamento, outros das conseqüências
do pós-guerra e, então mais
recente, aqueles que vieram em busca de
enriquecimentos num lugar próspero,
de bom comércio e forte incremento
imobiliário, além de contar
com profissionais do campo [agrimensores
e engenheiros], trabalhadores autônomos
[construtores, carpinteiros, ferramenteiros,
artesãos, oleiros e outros], liberais
[farmacêuticos, advogados e facultativo],
religiosos e funcionários públicos
[tabeliães, cartorários e
arruador].
João da Silva Oliveira, na qualidade
de parente [cunhado] e bastante procurador
de José Theodoro de Souza, não
teve escrúpulos em lhe tomar partes
de terras ou negociar outras sem conhecimento
do titular, além de entrar em áreas
devolutas e vender quinhões, às
vezes recorrendo a permutas de áreas
legitimadas pelo cunhado com outras sem
títulos de domínio, ou alienar
terras pretensamente de Theodoro por legítimas.
Bastante notória a venda ilegal
de gleba que João da Silva fez aos
parentes Figueiredo [Francisco Lourenço,
Joaquim Pedro e José Vicente], conforme
escritura lavrada em 1876 por Jacob Antonio
Molitor, Tabelião de Paz da Freguesia
de Santa Cruz do Rio Pardo:
“Tendo principio na cabeceira do Taquaral, ao pé do cafezal de
Joaquim Alves de Lima e seguindo pela mesma confinando com terras de Francisco
Osório que é cabeceira do rio Capivara até a volta da
Serra tomando por um espigão abaixo distancia de duas léguas
quebrando a direita para o nascente a procurar a primeira fluência de
um outro ribeirão que vem da mesma serra para baixo do ribeirão
da Lagoa e aí segue pelo espigão abrangendo todas as vertentes
dos dois ribeirões até a mesma serra na segunda baixa que faz
na mesma serra que o ribeirão do Veado larga da referida Serra e por
este cume seguindo sempre até onde teve princípio e fim ditas
divisas” (3).
Eram terras originariamente de José Theodoro
de Souza, morto no ano anterior, 1875,
apropriadas por Silva que, em ato da venda
aos Figueiredo, assinou por si e por sua
mulher, Rosa Maria de Jesus, mediante procuração
lavrada no ano de 1871, em notas do escrivão
de Paz de São Domingos, Manoel Joaquim
Bueno.
No final dos anos de 1970, Leoni Ferreira
da Silva fez constar em seu livro que o
grande latifúndio, adquirido pelos
Figueiredo, no ato representado pelo Coronel
Francisco Sanches, ocorrera antes de 1875
e negociado diretamente com José Theodoro
de Souza (4). Leoni, parente do Coronel
a quem faz apologia e dedica todo um capitulo
de sua obra (5), e outras citações
esparsas, parece-nos um tanto suspeito
em suas informações por não
fornecer documentos, além da notória
intenção de limpar o
nome do famigerado Coronel Sanches, o maior
praticante de dadas e o mais poderoso dentre
os coronéis do Sertão Paranapanema.
- Na obra, Minha Terra – Assis,
Leoni caracteriza-se notório citador
de fontes, apresentador de documentos
[fac-similados] e indicador onde encontrar
as provas para suas sustentações,
o que não faz em relação
ao Coronel Sanches assunto referente
a aquisição das terras..
Conforme anotações extraídas
da obra de Amador Nogueira Cobra, inclusive
com a localização de cada
uma das posses, João da Silva retalhou
e alienou outras porções
de terras apossadas ilegalmente, através
de simulacros e mudanças de nomes
de aguadas, e ainda assim cinco compradores
conseguiram legitimação de
posses indevidas, perante o juízo
competente do governo, entre dezenas de
rejeitadas durante o 1880 a 1890. Na mesma época,
Silva vendeu e teve por legítimas
outras oito propriedades subtraídas
do cunhado José Theodoro, e apenas
um comprador de Francisco de Paula Moraes
teve legitimada posse originariamente ilegal
(6).
Joaquim Alves de Lima, amigo de José Theodoro,
também não hesitou meter-se
numa rendosa falcatrua, ao adquirir a Fazenda
Pirapó-Santo Anastácio, de
Antônio José Gouveia, pessoa
que sabia não existir, para imediatamente
repassa-las ao filho, João Evangelista
de Lima, esquentando a escritura
para uma suspeitosa troca com a Fazenda
Rio do Peixe / Boa Esperança do
Aguapeí, então em nome do
agrimensor Manoel Pereira Goulart, propriedade
esta cujo registro original o foi em nome
de José Theodoro de Souza, conforme
vimos.
João Evangelista teve negado o reconhecimento
da Pirapó-Santo Anastácio,
em 1886 por despacho do Juiz Comissário
de Campos Novos [Paulista], pelas “tantas
nulidades na parte jurídica quanto
erros na parte técnica” (7).
A insistir no reconhecimento, coube ao
governo Dr. Prudente de Moraes, decidir
pelo indeferimento por considerar “imprestável
e nula a medição da área”,
diante do que lhe informa o Inspetor Especial
de Terras e Colonização, “uma
estranha planta na qual o rio Paranapanema
atravessa o rio Paraná e segue Mato
Grosso adentro, ‘com pasmo e contra
a natureza das coisas’ (. . .) e
o rio Pirapó, simples invenção,
nunca existiu onde o local indicado para
a Fazenda Pirapó-Santo Anastácio” (8).
A Procuradoria Geral do Estado de São
Paulo – Revista 49/50, janeiro /
dezembro de 1998, ao descrever sua atuação
na solução dos conflitos
fundiários no Pontal do Paranapanema,
discorre em detalhes sobre a falcatrua.
Depois, no mesmo ano de 1886, Manoel Pereira
Goulart requereu legitimação
da posse da Fazenda Rio do Peixe/Boa Esperança
do Aguapeí, afirmando nela residir
com a mulher e filhos desde o ano de 1850,
com atividades agro-pecuárias. A
solicitação, pelos erros
e falsas informações contidas,
fez com que o governo de São Paulo
declarasse formalmente, em 1889, “não
só a nulidade e falsidade das peças
e atos apresentados”, como fez responsabilizar
criminalmente Manoel Goulart e o escrivão
que prepara os autos com falsos documentos
para fundamentar a pretensão (9),
sendo-nos oportuno lembrar que tal propriedade
era a mesma registrada em nome de José Theodoro
de Souza, em 1856.
Por fim, o indeferimento da legitimação
da Fazenda Rio do Peixe/Boa Esperança
do Aguapeí, em 1889, deixava prever
o mesmo destino para a Pirapó-Santo
Anastácio, o que levou Manoel Goulart
e João Evangelista, de comum acordo
com o tabelião José Manoel
de Almeida, permutar entre si as duas fazendas,
com o devido registro em Santa Cruz do
Rio Pardo aos 11 de janeiro de 1890 (10),
de maneira quando do indeferimento governamental
para a Fazenda Pirapó-Santo Anastácio,
no mesmo ano de 1890, referido imóvel
já pertencia ao agrimensor Goulart,
enquanto João Evangelista estava
de posse da Fazenda Rio do Peixe / Boa
Esperança do Aguapeí.
A partir da efetivação de
trocas, cada proprietário buscou
caminhos para legalizar suas propriedades
(11). Assim, Manoel Goulart, apesar do
indeferimento da legitimação
de suas terras, valeu-se da legislação
baixada pelo recém instalado Governo
Republicano, para celebrar contrato de
assentamentos de imigrantes, num ousado
projeto de instalar duas mil famílias
em sua fazenda Pirapó-Santo Anastácio.
Arriscou, protocolou intenções
e, com cópia do requerimento e do
projeto a ele anexado, preliminarmente
com vistas para o Ministério da
Agricultura, conseguiu deste Ministério
um documento que acusa recebimento da proposta
e sua viabilidade, o bastante para que
Goulart considere legitimada sua posse,
e assim vender 30 mil alqueires a centenas
de compradores, enquanto aguardava autorização
do Governo Federal para instalar os
estrangeiros.
Quando Goulart internado por problemas
mentais, e enquanto ainda tramitava o processo,
sua mulher D. Militânia Cândida
Marques conseguiu, em 1908, mediante alvará judicial,
alienar à Companhia dos Fazendeiros
de São Paulo, dois terços
do que restava da Pirapó-Santo Anastácio,
no ano de 1908, vista em escritura lavrada
em São Paulo, datada de 5 de outubro
do mesmo ano, 2.º Tabelionato. Foi
transferido à Companhia dos Fazendeiros
de São Paulo 100 mil alqueires de
terras, ainda restando aos herdeiros de
Goulart 90 mil alqueires.
- Goulart veio a falecer no hospital
Juqueri, em São Paulo, aos 14
de março 1909.
Após instalação e êxito
da Companhia, outras empresas do ramo acorreram
para a região, dando surgimento
de Presidente Prudente, Presidente Bernardes,
Presidente Venceslau, Presidente Epitácio, Álvares
Machado, Santo Anastácio, Piquerobi,
Caiuá, Teodoro Sampaio, Marcondes,
Taciba, Regente Feijó, Pirapozinho,
Narandiba, Sandovalina, Marabá Paulista,
O que restou da Fazenda Pirapó-Santo
Anastácio, desde então, tem
sido violenta área de disputa entre
fazendeiros e sem terras, e diz o MST – SP,
que “a Pirapó-Santo Anastácio,
extremo oeste puro, é o próprio
Pontal do Paranapanema. . .” (. .
.) “que em sentença
judicial de 29 de julho de 1980, encerrando
um processo iniciado 23 anos antes, o juiz
de Mirante do Paranapanema dá a
seguinte sentença: "Declaro
devolutas e pertencente ao domínio
do Estado as terras contidas no 14º perímetro
desta comarca de Mirante do Paranapanema" (12),
enquanto a UDR entende ser “Indisfarçável
que o objetivo do Estado não era
outro senão tentar retomar [a si]
as propriedades para redistribuí-las
entre os chamados sem terra”. “No
entanto impõe-se ponderar que isso
não é moral e nem justo com
aqueles que estão trabalhando, por
si e antecessores, por período superior
a um século nessas terras, munidos
de títulos de propriedade que o
próprio Estado colaborou na sua
ção” (13).
A região ainda vive, em 2005, entre
conflitos dos ruralistas e sem terras,
bastante distante de bons termos, não
nos cabendo mérito de juízo,
assim nada mais a acrescentar quanto a
Pirapó-Santo Anastácio.
Para João Evangelista de Lima, proprietário
da Fazenda Rio do Peixe/Boa Esperança
do Aguapeí, o gesto do poder público
lhe foi beneplácito, pela lei n.º 545,
de 02 de agosto de 1898, que declarou legitimadas
todas as posses adquiridas por títulos
até a promulgação
da lei 323 de 22 de junho de 1895, em seus
respectivos enquadramentos. Preenchia os
requisitos.
Foram muitas outras transações
irregulares de terras, através de
falsários e de agentes públicos
que lhes davam legitimidade ou aparência
dela.
Um falsário quando precisava dos
cartorários para oficialização
dos documentos, quase sempre recorriam
aos, Jacob Antonio Molitor, José Manoel
de Almeida, Domiciano Rosa e José Manoel
Bueno, que estavam entre os mais hábeis
e confiáveis fazedores de falsas
escrituras, transcrições,
emissões e registros de lançamentos,
dando-lhes características de verdadeiras
e, quando necessário, aparências
de antigas, geralmente envelhecidas numa
caixa úmida para envelhecimento,
ou recorriam à esfumação
para o mesmo propósito. A partir
daí, o falso dono ou vendia a propriedade
ao incauto ou nela entrava, como se realmente
sua, aguardando acontecimentos (14).
- Jacob Antonio Molitor e José Manoel
de Almeida, por Santa Cruz do Rio Pardo,
Luiz Domiciano Rosa, por Campos Novos,
e Manoel Joaquim Bueno, primeiro por
São Domingos e depois Campos Novos,
foram agentes públicos de elevados prestígios junto
aos Promotores e Coletores de Renda,
em suas petições sempre
julgadas a favor, conforme registros
em Arquivo Público da Província
[depois Estado] e da Capital do Império
[a seguir, República], que assim
deixam entender o atendimento mais que
satisfatório às necessidades
da clientela. Formavam uma quadrilha
de corruptos e corruptores, de atos improbidade
e outros ilícitos administrativos.
Diziam os antigos de um outro método
para envelhecer documentos, que seria deixá-los
com alguns grilos, numa caixa vedada por
alguns meses, os grilos comiam as bordas
do papel e, ao morrerem desprendiam substâncias
quem manchavam os documentos, daí o
termo grilo, grileiro e grilagem para apossamentos
ilegais de terras, com apresentação
de documentos falsos aparentemente antigos
e verdadeiros.
- Para muitos tal método, com
uso do inseto ortóptero, teve
início quando certo embusteiro,
ante a necessidade de mostrar documento
que comprovaria ser ele o dono de determinada
propriedade, ao retirá-lo da gaveta
veio junto um grilo que lhe saltou das
mãos.
Existiam também escrituras falsificadas
já feitas, das quais Amador Nogueira
Cobra teria testemunhado algumas delas,
que um inocente sertanejo lhe apresentou
para examinar, se uma ou outra prestaria
aos interesses para se apossar de certa
gleba (15).
Leoni, na qualidade de experiente cartorário,
se reporta ao Cartório de Campos
Novos onde foram encontrados quatro livros
oficiais de notas gerais, para lançamentos
de escrituras, sob mesma numeração,
uns documentos sem assinaturas e outros
sem datas, ou ambas as situações
num só lançamento. Trata-se
de feito ilegal concebido para inserções
de documentos de grilos, ou seja, utilização
quando necessário retroagir datas,
para uso daquilo que se pretendia (16).
Aparentemente o Cartório de Campos
Novos sofrera incerta de autoridades, num
dia que os agentes públicos falsários
pretendiam retiradas dos respectivos documentos,
antes da efetiva transferência de
sede da Comarca de Campos Novos para Assis.
A ação coincidente das autoridades
permitiu que referidos livros não
fossem destruídos, e assim chegassem às
mãos de Leoni, durante um levantamento
para fins de arquivamento final.
Os principais fazedores de escrituras corrompiam
autoridades, usavam de agentes intermediários
para transações irregulares
ou fraudulentas, vendas e permutas seguidas
de uma mesma terra para apagar os rastros
de ilegalidade e deixar oculta a identidade
do verdadeiro interessado. Não eram
incomuns incêndios parciais em sacristias
onde ficavam os registros paroquiais, que
viravam pressupostas cinzas, e de outros
incêndios denominados particulares
com a queima de uma casa, geralmente imprestável,
para maior credibilidade aos fatos, onde
pretensamente estariam documentos originais, então
incinerados, deixando aos interessados
apenas a pública forma,
que não permitia exames que pudessem
identificar algum embuste. Pública
Forma seria segundo Aurélio, “cópia
integral, exata e certificada, de um documento,
feita por tabelião, e que pode substituir
esse documento na maioria dos casos” (17).
Num dos grilos mais famosos do Sertão
Paranapanema, relata Amador Cobra, “o
escrivão ao redigil-o, se perturbou
quanto ao nome da primeira mulher de José Theodoro:
Não se recordava bem se era Francisca
ou Anna e para sahir do embaraço,
escreveu – Anna Francisca Leite
da Silva. Anna chamava-se a segunda mulher
de José Theodoro – Anna Luiza
de Jesus, e Francisca Leite da Silva a
primeira” (18).
Entretanto, a maior legalização
de terras ilegais de todos os tempos em
São Paulo – província
ou estado, no nome de uma só pessoa,
certamente tenha sido a pretendida por
Francisco da Paula Moraes, no Vale do Peixe,
a partir quando seu aparentado João
da Silva resolveu se apossar das terras
do Alto Paranapanema, Chico Paula decidiu
que todo Vale do Rio do Peixe lhe pertencia,
ainda que, igualmente àquele, sem
o competente registro das terras. Já vimos
esta história em suas origens, mas
não o desfecho.
Aos fundos da gleba adquirida de João
da Silva pelos Figueiredo, nas contravertentes
do Peixe se estendia grande área,
estreita, mas longa e de boas matas, para
além das elevações
e das escarpas. Francisco de Paula Moraes,
o Chico Paula genro de Theodoro, e seu
irmão João Antonio de Moraes,
também conhecido por João
Beraldo, penetraram naquele grande vale
rodeado de paredões e penhascos,
descobrindo o rio do Peixe que pensavam
afluente do Feio, para daí traçar
planos de como conseguir aquelas terras
habitadas por ferocíssimos Caingangues
(19).
- Os antigos tinham que o rio do Peixe
era tributário do rio Feio/Aguapeí,
não do Paraná, porque não
notavam que a barra do Peixe escondia-se
atrás da Ilha do Tigre, entre
o Peixe e o Paraná, a dividir
o Peixe em dois ramos menores para o
deságüe, conforme comprovou
a Comissão Geográfica do
Estado. O célebre mapa adendo à obra
Retirada de Laguna, do Visconde de Taunay,
também omite a foz do Peixe no
rio Paraná, então não
apenas uma ignorância sertaneja
(20).
Transpondo os obstáculos naturais,
certamente os irmãos Chico e Beraldo
se perderam, ou obrigados ao recuo pelos
Caingangues, para que as medidas da área
ficassem reduzidas até as contravertentes
do Feio, a divisar partes com famosa Fazenda
Rio do Peixe/Boa Esperança do Aguapeí.
O demarcado, pelo possível engano
ou não, era apenas um tanto de todo
avistamento inicial, adiante das cabeceiras
do rio Capivara [Echaporã] às
contra-vertentes avistadas do Feio, e pelo
Peixe algumas léguas abaixo, transcrito
como o todo que Beraldo vendeu a
seu irmão Chico, por idéias
de João da Silva, numa tentativa
que podia dar em nada porque sabiam vedadas
ções de terras.
Celebraram então escritura no cartório
de Jacob Antonio Molitor, Santa Cruz do
Rio Pardo, em 19 de fevereiro de 1877,
com a descrição de:
“Uma fazenda de terras de cultura na serra dos Campos Novos, pendente
ao rio Tietê com as divisas seguintes: Principiando, na cabeceira do
Rio Capivara, e seguindo pela divisa, que confina com a Fazenda dos Figueiredos
até onde faz a demarcação de duas léguas, quebrando
a direita, cortando todas as águas passando por baixo da lagoa na primeira
fluencia a um ribeirão que faz na lagoa, e sempre seguindo pelo espigão,
e confinando sempre com os mesmos Figueiredos, até na mesma serra, por
esta seguindo pelo lado do nascente, cercando todas as águas do ribeirão
do Peixe, voltando para o poente sempre seguindo pelo espigão, abrangendo
todas as vertentes, concernente ao mesmo ribeirão do Peixe, até frontear
uma corredeira ao mesmo ribeirão, e de aqui, a extensão de duas
léguas pelo mesmo espigão, e de esta raia cortando a rumo direito
a mesma serra, voltando pelo cume da serra do Nascente, até onde teve
princípio e fim ditas divisas: cuja fazenda assim dita e divisada nesta
data vendem e como de fato vendido tinham para o segundo, Francisco de Paula
Moraes, pelo preço e quantia de um conto e quinhentos mil réis,
que nesta data receberão em moeda corrente, e por isso transferem na
pessoa dele comprador toda posse jus domínio e senhorio que em dita
fazenda tinham, podendo ele comprador gozar como se sua que fica sendo de hoje
para todo sempre: dito isto pelo comprador foi aceito e ai me apresentou certidão
de Siza” (21).
Para mais fácil legitimar vendas
de partes de um latifúndio, a eficiência
estava em vender pequenas propriedades
a diversos interessados, como meio de tornar
morta a Lei de Terras, sem suspeições
dos comissários do governo. Francisco comprou
aquelas terras para vendê-las
logo e não para fixar posses ou
nelas trabalhar, e disto sabiam os envolvidos,
mas não teve a sorte de João
da Silva que rapidamente vendia seus lotes
divididos em aguadas. Ainda assim Chico
conseguiu vender três fazendas de
seu todo pretenso, Água Três
Lagoas para Aleixo de Sandys Goudin [Goudim];
a Pomba do Futuro, a Emydio José da
Piedade, e a Pomba de Prata a Augusto César
[Cezar] da Piedade (22).
- Silva certamente tinha maior credibilidade
e segurança por ter sido procurador
de José Theodoro, tornando assim
mais respeitadas suas negociatas, embora
tal sucesso faça pressupor que
o cunhado não denunciara suas
falcatruas, talvez por motivo bastante
forte – parentesco ou envolvimento
visto que as primeiras vendas das terras de
Silva foram a nome de José Theodoro
e enquanto este vivia, assim a honrar
a fazer desacreditado o cunhado, porque
isto o tornaria igualmente não
confiável. Mas Theodoro e Silva
romperam relações de negócios,
conforme já identificamos.
Chico Paula, com escritura em mãos,
dizia-se dono de todo pressuposto Vale
do Rio do Peixe, desde a nascente na Serra
de Agudos – localização
então quase certa, ao deságüe
que se pensava no rio Aguapeí/Feio,
em algum lugar que ele não sabia,
embora soubesse na verdade proprietário
de nada, por isso mesmo a se dirigir ao
Imperador D. Pedro II, para que este determinasse
como suas as ambicionadas terras que desejava
vender (23) .
Num determinado dia, apresentou-se perante
o Imperador Pedro II, aquele homem alto,
magro, porém espadaúdo, forte, ágil,
alegre e jovial, peludo, de barba longa
e escura que Giovannetti diz se parecer
uma trincha de marinheiro, vestido com
trajes sertanejos – camisa e calça
de algodão duro protegidas pelo
gibão e sobre calças de couro;
também trazia chapéu de couro,
trabuco posto no marchetado cinturão
de onça pintada, alpercatas e na
algibeira trazia o isqueiro de pedra e
o rolo de fumo, enquanto num picuá a
paçoca com carne de porco; às
ocultas sob aquelas vestimentas, certamente
o afiado punhal e a inseparável
garrucha, sempre ao alcance ágil
das mãos, um costume antigo de homem
prevenido (24). Este homem era Francisco
de Paula Moraes.
Fora curiosidade que foi alvo pelas suas
vestimentas, o Imperador nada podia fazer
senão determinar ao Ministro competente
pela área, medir um tanto de terra
e conceder ao peticionário, a preço
simbólico, ou este medir às
próprias expensas a área
descrita naquela escritura outorgada por
Beraldo, desde que comprovada a posse e
por ela pagasse o preço a ser arbitrado.
Ao Chico não convinha aceitar as
propostas, porque desejava toda a terra
que sabia muito maior que a parte escriturada;
afinal, ele dizia ser proprietário
de todo o Vale do Peixe, da nascente à barra
do rio, mesmo sem saber onde davam uma
e a outra.
Apesar do fracasso aparente, a ousadia
de Chico favoreceu sua sorte quanto às
vendas fracionadas de suas terras, com
boas negociações a partir
de então.
Diziam que Francisco de Paula Moraes trouxera
um documento do Governo, que pretensamente
dizia sobre o reconhecimento da sua área.
No entanto, tal expediente parecia tratar-se
de uma declaração que Francisco
chegara de fato ao Palácio Imperial,
com propósitos de legalizar áreas
de terras, com assunto dado por resolvido,
portanto, um documento que nada dizia,
mas para os caboclos era a prova que faltava
para Chico comprovar suas as terras do
Vale do Peixe. Amador Cobra cita as duas
alternativas dadas pelo governo e encerra: “não
sabemos, precisamente, que foi que no mínimo
obteve” (25).
Em 1883 Francisco de Paula Moraes foi assassinado
pelo italiano Francisco Caputo, com tiro
traiçoeiro após desentendimento
ordinário. Este Caputo, protegido
pela colônia, fugiu para Baependi
[MG] onde se associou no comercio a um
também italiano chamado Braz, com
quem veio desentender-se e, dias depois
ao atacar Braz com uma navalhada no pescoço
recebeu de volta algumas punhaladas, morrendo
os dois (26).
Por Giovannetti, em 22 de setembro de 1883,
na comarca de Santa Cruz do Rio Pardo,
o agente público Luiz Domiciano
Rosa inventariou toda a bacia do rio do
Peixe, desde as nascentes em Serra de Agudos
até o rio Paraná – então
descoberta recente, uma área de
500 mil alqueires (27), quantia que o próprio
Chico jamais imaginara, acreditando feliz
que o seu rio do Peixe desaguava no Feio,
mesmo que num lugar jamais descoberto (28).
Luiz Domiciano a custo de ótima
recompensa fora inescrupuloso em proceder
aquele inventário, fazendo do falecido
senhor de quase treze mil quilômetros
quadrados de terra [seis léguas
de largura por cinqüenta de fundos],
avaliados em lotes distintos, excluídos
os anteriormente vendidos, sendo o inventário
julgado favorável por sentença
em Lençóis aos 12 de abril
de 1886, pelo Juiz de Comarca, Joaquim
Antonio do Amaral Gurgel (29).
Rapidamente a família fracionou o
imenso latifúndio para venda, contribuindo
de certa maneira para o progresso de uma
das mais importantes regiões de São
Paulo (30).
|