PARTE II – OS EXTERMINADORES
DO PASSADO
O MAIOR DOS DESBRAVADORES DO SERTÃO
PAULISTA
RETRATO ESCRITO
Um homem franzino, de pequena estatura e fala mansa,
tipo caboclo com fronte larga, olhos miúdos e queixo
fino, pele clara com sardas, quase imberbe senão
uma barba rala a cobrir-lhe o rosto e fios esparsos de
cavanhaque no queixo. Vestia roupas simples e rudes, pés
quase sempre descalços.
Esta é a única descrição
de um homem lendário, um obstinado matador de índios
para lhes tomar as terras, porque também as ambicionava
até onde a imaginação lhe pudesse
levar, com isso a se tornar o mais ousado desbravador de
sertões no oeste paulista no século XIX,
conseqüentemente o maior latifundiário particular
de todos os tempos que São Paulo, capitania, província
ou estado, já conheceu.
Era intrépido, alegre, folgazão,
festeiro e perdulário tanto, dizem, que chegou a
trocar uma enorme fazenda por um negro escravo, violeiro
e cantador de cateretê.
Amado pelos amigos, odiado pelos inimigos, mas
indistintamente temido por todos, se era chamado de Pai
pelos nativos, a História, no entanto, o registrou
para sempre como O Exterminador de Índios.
Quase três décadas depois de 1847,
quando de sua entrada triunfal em terras do oeste paulista,
este homem morreu pobre e esquecido por todos, conta a
história, exceto talvez por um indígena vingador
de seu povo, que o matou a golpes de borduna em 24 de setembro
de 1875, deixando o corpo no local para ser sepultado no
Cemitério de São Pedro do Turvo, numa cova
que de tão simples ninguém mais sabe onde
encontra-la.
Bem ou mal, é a este homem que se deve todo
o desenvolvimento do oeste paulista. Seu nome, José Theodoro
de Souza.
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Toda a história de Theodoro confunde-se
com as lendas a seu respeito; sua morte, por exemplo,
teria ocorrido em 24 de setembro de 1875 – conforme
inventário, embora outros historiadores citam-na
aos 24 de julho de 1875.
O pioneiro teve os seguintes filhos com
sua mulher Francisca Leite da Silva: Flausina Maria
de Souza, Francisco Sabino de Souza, Maria Theodora de
Souza, José Theodoro da Souza Júnior, Agostinha
Maria de Souza e um filho póstumo, José Luiz
de Souza, nascido de Anna Luiza de Jesus.
Outra fonte informa filhos de Theodoro com
dona Francisca: José Theodoro de Souza Junior, Maria
Theodora de Souza, casada com Francisco de Paula Moraes,
a mulher de Francisco Sabino de Souza, a mulher de José Inácio
Pinto e a mulher de Josué Antonio Diniz. Com Anna
Luiza de Jesus lhe nasceu José Luiz de Souza, em
23 de setembro de 1875.
Francisco Sabino aparece filho numa citação e
genro em outra, nisto a ausência ou não de
possível filha.
Não constam filhos de seu
casamento com Maria José – [de 30 de janeiro
de 1838].
Dados colhidos para referido retrato escrito dos
seguintes autores e obras:
- Amador Nogueira Cobra, Em um
Recanto do Sertão Paulista, Tipografia
Hennies Irmãos – 1923.
- Bruno Giovannetti, Esboço Histórico
da Alta Sorocabana, Empresa Gráfica da Revista
dos Tribunais Ltda. São Paulo.
- Francisco Marins, Clarão na Serra, 10a.
edição, Editora Ática – São
Paulo, 1985.
- José Magali Ferreira Junqueira, Santa
Cruz do Rio Pardo / Memórias / Subsídios
para a História de uma Cidade Paulista, edição
de 1994.
Leoni Ferreira da Silva, Minha Terra, Assis – edição
1979 pela Tipografia Nigro – Assis-SP.
INVASÕES PREDATÓRIAS D’ALÉM
SERRA BOTUCATU
Em princípios do século XIX os índios,
expulsos pelo Coronel [ou Capitão] Francisco Manuel
Fiúza [1770], estavam de volta para os lados da serra
de Botucatu com descendentes e agrupados Entre os anos de
1780 a 1830, vindos não se sabe bem de onde, diversas
tribos Guaranis [Caiuás] e Jês [Oti-Xavantes]
retornaram ou chegaram ao Planalto, acrescidos de outros
grupos e restos tribais descendentes dos antigos aldeados
em fazendas jesuíticas – Guareí e Botucatu,
para formar numerosa e preocupante população
indígena.
Soma-se àqueles grupos o Jê Caingangue que aparece,
aos magotes, junto às matas marginais dos rios, Batalha,
Peixe, Aguapeí, Pardo, Paranapanema, partes do Tietê e
Paraná. Embora discutível ainda, quando aconteceu
a primeira presença Caingangue na região e
suas razões migratórias, João Francisco
Tidei Lima assinala que “desde os princípios
do século XIX, sua presença é oficial
e ostensivamente acusada no ocidente da Capitania, entre
os rios Tietê, Paraná e Paranapanema” (1).
Também surgem outros grupos Caiuás e Guaranis,
propriamente ditos, do sul de Mato Grosso, Paraná,
leste do Paraguai e nordeste da Argentina, onde desapossados
de seus termos procuram segurança em terras do Planalto
Ocidental Paulista, pós 1835, depois de infausta querença
pelos lados de Itapetininga e Itapeva, para uns a causa do
lendário Êxodo Guarani em busca da Terra-Sem-Males,
quando uma das hordas a caminho “sem canoas, pouco
abaixo da foz do Ivahy, subindo então pela margem
esquerda deste rio até a região de Villa Rica,
onde cruzando o Ivahy, passou-se para o Tibagy, que atravessou
na região de Morro Agudos. Rumando sempre em direção
ao leste, atravessou com seu grupo o rio das Cinzas e o Itararé até se
deparar finalmente com os povoados de Paranapitinga e Pescaria
na cidade de Itapetinga, cujos primeiros colonos nada melhor
souberam fazer que arrastar os recém-chegados a escravidão” (2).
Lenda ou não, é certo que o avanço do
homem branco em busca de boas terras para pastagens e para
lavouras, para os lados de Itapetininga, Itararé,
Itapeva, Porangaba, Tatuí e Guareí, obrigaram
grupos Guaranis e Caiuás buscar segurança para
além da serra Botucatu, a partir de 1808. Considerando
Carta Régia do mesmo ano 1808, que permite a guerra
ao índio e sua escravização, arregimentaram-se
bandeiras, a soldo de fazendeiros e dos donos de engenhos
de açúcar de Itapetininga e Itapeva, “homens
ricos que nas mesmas não residem” (3), para
apresamento de “(...) índios bárbaros
que infestam esse território” (4), com propósitos
de tomar suas terras, torna-los escravos ou afugenta-los
para bem distante.
Outra causa da maior presença indígena no Planalto
decorre pelo fracasso das fazendas concebidas no ultimo quartel
do século XVIII, ou pós-jesuítas, já desfeitos
os planos de povoação intentados por Morgado
de Mateus, pelo sucessor Martim Lopes, com isso a propiciar
o retorno dos índios quase sem resistência alguma.
Portanto, somadas as diversas tribos recém instaladas
na região a partir dos anos 1800, não é errado
afirmar que havia bem mais índios em 1830 que em
1760, quando encerradas as atividades jesuíticas na
região; também é correto que as tribos
do século XIX eram mais ferozes que as suas precedentes
catequizadas e semicivilizadas, desta forma vistas como hordas
bárbaras a justificar reações brancas
com eficazes armas de fogo contra obsoletas flechas e bordunas.
Alguns estudiosos apontam, ainda, presenças Jês
Kaiapós entre Salto de Avanhandava e Itapura, conforme
menção de João Francisco Tidei Lima: “Dos
Kaiapós-Meridionais – tribo do grupo Jê que,
durante muito tempo, habitara o noroeste de São Paulo,
compreendido entre o Rio Grande e o Paraná” (5),
tratando-se, a nosso juízo, de população
flutuante entre São Paulo, Mato Grosso [do Sul], sul
de Goiás e Minas Gerais.
Os índios, independente de qual nação
ou tribo, quase nunca atacavam pessoas em trânsito,
somente as assentadas, por isso o êxito dos aventureiros
pelos caminhos do sertão. Também, raríssimas
vezes investiam contra povoados brancos de vinte ou mais
pessoas, optando por ataques isolados de surpresa a uma,
duas ou três, no máximo seis pessoas, geralmente
nos roçados. Mas, eram exatamente os ataques indígenas
isolados que mais causavam pânico entre os brancos,
sobretudo pelos casos ditos de empalações,
crucificações, esquartejamentos e amputações
dos membros de pessoas ainda vivas.
Se
os índios não atacavam povoados, certamente assustavam seus moradores
durante a noite, rondando as imediações e fazendo notórias
suas presenças ameaçadoras; provocando incêndios ou matança
de animais, principalmente cães que facilmente lhes detectavam as presenças,
alertando os donos. Consta que os índios imitavam cães em alertas
ou brigas para despreocupar os donos, enquanto matavam os animais e os carregavam
para longe, com alguns relatos que se alimentavam das carnes caninas.
Para
Antonio Cândido “os estabelecimentos humanos [brancos] só aparecem
(nessa região) em pleno século 19, sob a forma de fazendas e
sítios polarizados por Tatuí, na maior parte, e por Botucatu
os que se localizavam nas fraldas da serra. (...). Na direção
de Botucatu, o acesso ao planalto se tornava bastante difícil pela serra,
cujos morros fechavam a passagem para o sul, atingindo também àqueles
que vinham de Tietê e os que desciam de Anhembi e, apenas para o lado
de Porangaba e Tatuí as comunicações eram desimpedidas
para o lado de Bofete; por aí, certamente, penetraram povoamento e cultura
naquela direção” (6).
A
geografia era bastante favorável para presença indígena
regional, podendo à distância vigiar os propósitos dos
brancos e intercepta-los quando necessário, por isso uma temeridade
nos idos 1835/36 se fixar no sertão, isoladamente ou em pequenos grupos,
além da serra Botucatu.
O tropeiro Pedro Nardes Ribeiro e o fazendeiro botucatuense,
Felicyssimo [Felicíssimo] Antônio de Souza Pereira,
ambos mineioros, desavisados não se sabe, em 1836
ousaram, com a família e agregados, avançar
até os campos de Bauru, quando atacados por índios
bravios que feriram gravemente os acompanhantes, salvando-se
Felicíssimo e sua família, sem mencionar a
sorte Nardes e companheiros feridos. Certamente Felicíssimo
e Nardes tenham se aventurado após avanço dos
fazendeiros sorocabanos, Domingos Palmeira e Procópio
José de Matos, em 1835, até onde fundaram a
fazenda São Domingos (7), cuja sede se tornou “a
primeira povoação a se formar no oeste (...)
nas cabeceiras do rio Turvo” (8).
Da
ocorrência citada dá-nos provas uma das missivas de Felicíssimo,
datada de outubro de 1836, encaminhada ao Presidente da Província de
São Paulo (9), a reclamar providências do governo em relação
aos índios bravios, sugerir a criação de uma aldeia para
nela encerrá-los e educa-los para mão de obra escrava. Felicíssimo,
na oportunidade, fez ameaças ao governo quanto possível reação
sua e de outros fazendeiros atacados pelos selvagens, para tudo terminar numa
carnificina, caso pelo menos não fossem expulsos os silvícolas.
A carta de Felicíssimo, que se encontra no Arquivo do Estado de São
Paulo – AESP, esteve ignorada até 1858 (10).
Outras denúncias, que os índios estavam a atacar
abridores de fazendas, terminavam em apelos ao governo para
providenciar aldeamento dos assassinos ou expulsa-los da
região. Algumas recomendações pediam
levantamento de sentinelas militares avançadas, a
cada cinco léguas de sertão adentro, para segurança
dos desbravadores e repelir os índios, como pensava
Francisco de Paula Vieira, citado por Hernâni Donato
(11).
Ignorados pelo governo os fazendeiros se mobilizaram sob
a liderança do Capitão Tito Corrêa de
Mello (12), não só para defesa de suas propriedades,
no alto da serra, com jagunços disponíveis,
mas para as razias em territórios indígenas
com objetivos em avançar frentes pioneiras além
da serra, ou mais propriamente, adiante de São Domingos
[do Tupá].
Fracassadas as tentativas de adentrar os sertões,
Capitão Tito fez vir com urgência de Pouso Alegre
[Minas Gerais] o cabecilha José Theodoro de Souza, “através
de uma carta com muitas promessas de riqueza. Este, por sua
vez, convidou outros desbravadores, dentre os quais, o major
Victoriano de Souza Rocha, o fundador da Vila do Rio Novo,
atual Avaré” (13). Theodoro, mais adiante
descrito, em fins de 1849 estava em Pouso Alegre se preparando
para a grande marcha rumo ao oeste paulista, quando lhe chegou
a carta de Capitão Tito cuja urgência do pedido
o fez deixar os encargos sob responsabilidades de parentes.
- Victoriano de Souza Rocha, para uns, chegou procedente
de Bragança Paulista, para outros, de Pouso Alegre
para se integrar no bando de Theodoro.
A proposta de Tito praticamente ratificou a oferta que seu
sogro José Gomes Pinheiro fizera ao mesmo Theodoro: “Gomes
aproveitara o descanso forçado para responder as cartas
[dos amigos] e interessar gente de outros rincões
nas terras de ‘seu’ sertão. Aquele mundo
precisava de gente valente e de braço. (...). Lembrou-se
de um amigo, José Teodoro de Souza. Que viesse ver
as terras da serra. Garantia que não ia se arrepender” (14).
Foi em atenção a esta missiva que Theodoro
realizara um primeiro reconhecimento em terras do Vale Paranapanema,
no ano de 1847, interessando-se por elas.
A missão de Theodoro, a pedido do Capitão Tito,
era exterminar os índios e recuar os sobreviventes,
havendo-os, para além do Paranapanema, Paraná e
do Aguapeí, a partir da região de Avaré,
tomando-lhes as terras para entregá-las limpas e seguras
aos interessados, mediante paga – vendas das terras,
ou gratuitamente pelos serviços prestados à civilização,
isto é, do haver participado do grupo exterminador.
JOSÉ THEODORO DE SOUZA, CABEÇA
DE ENTRADA
Houve um tempo que todo o interior paulista, entre os rios
Tietê e Paranapanema, a partir dos povoados de Botucatu
e São Domingos [do Tupá], se não de
todo desabitado, era ainda um imenso sertão desconhecido
do chamado homem civilizado, quando entra em cena a figura
controversa do pioneiro desbravador José Theodoro
de Souza, para proceder ao seu registro paroquial de terras
na então Vila de Botucatu, aos 31 de maio de 1856:
- “Sou senhor de umas terras de cultura no logar
denominado Rio Turvo, districto desta Villa de Botucatú,
e suas divisas são as seguintes: Principiando esta
divisa no barranco do Rio Turvo, barra do Correguinho da
Porteira, divisando com os herdeiros e meeira de José Alves
de Lima, e cercando as vertentes com quem direito for até encontrar
terras de José da Cunha de tal até atravessar
o rio Pardo, por outro lado até o espigão
fóra com quem direito for até cahir no mesmo
barranco do Paranapanema, por este abaixo até frontear a
barra do rio Tibagy, e daqui cercando as vertentes desta
agua que se acha dentro deste círculo até encontrar-se
com terras de Francisco de Souza Ramos, daqui descendo
até o barranco do São João, por elle
abaixo até sua barra no Turvo, por este acima até encontrar
com a barra do ‘Correguinho da Porteira’ donde
foi o princípio e finda esta divisa. Cujas terras
assim divisadas e confrontadas as possuo por posses mansas
e pacíficas que fiz no anno de 1847 e nellas tenho
morada habitual até o presente. Por José Theodoro
de Souza, Francisco das Chagas Motta. Apresentado aos 31
de maio de 1856. Vigário Modesto Marques Teixeira”.
Era uma imensidão de terras constante do Registro
Paroquial nº. 516 fls.168 – verso, que em muito
extrapolava os limites legais permitidos ou tolerados pelo
Império, numa descrição sumária,
porém imprecisa e que ainda hoje suscita dúvidas
quanto suas reais dimensões.
Seguindo os historiadores entende-se que as posses de Theodoro
iam desde o Rio Turvo e Ribeirão das Antas, entre
os Rios do Peixe e do Paranapanema, até o Rio Paraná,
embora as terras de referido registro atingissem somente
até as margens do rio das Anhumas, compreendendo apenas
o Vale Paranapanema.
Ainda assim, as posses de Theodoro possuíam algo em
torno de 60 quilômetros de testada por 150 de fundos,
ou seja, quase nove mil quilômetros quadrados de terras.
Conforme Antônio de Arruda Dantas (1), até onde
a oficialidade lhe permitiu, as posses de Theodoro
incluiriam, os municípios de São Pedro do Turvo,
Ubirajara, Alvinlândia, Lupercio, Ribeirão do
Sul, Salto Grande, Ibirarema, Campos Novos Paulista, Ocauçu,
Platina, Echaporã, Palmital, Candido Mota, Assis,
Florínea, Cruzália, Maracaí, Paraguaçu
Paulista, Lutécia, Oscar Bressane, Borá, Quatá,
João Ramalho, Iepê, Rancharia, Martinópolis,
Indiana, Regente Feijó e parte de Anhumas, até às
margens do rio que tem o mesmo nome.
Para a Comissão de Exploração do Rio
do Peixe, criada em 1908, “Theodoro apossou-se da região
do campo, habitada pelos chavantes e que se estende desde
a encosta da Serra dos Agudos, às proximidades do
Paranapanema, e até frontear do Ribeirão das
Anhumas; João da Silva apossou-se das Anhumas para
baixo e Francisco de Paula Morais a região da mata,
no vale do Rio do Peixe” (2).
- João da Silva Oliveira e Francisco de Paula Moraes,
respectivamente cunhado e genro de José Theodoro
de Souza, não registraram suas posses, cabendo daí a
confusão que tudo era de Theodoro, sabendo-se que
João da Silva, como procurador geral do cunhado
famoso, tenha mesmo assinado venda de algumas de suas terras
e de Francisco de Paula Moraes, como se fossem realmente
do pioneiro-mor, situações que criariam sérios
litígios aos compradores, diante da não regularização
fundiária ou reconhecimento legal de propriedade.
Apesar do exagero da posse, Theodoro lançara ainda,
na mesma data e paróquia, registros de três
outras propriedades menores, apossadas entre os ribeirões
do Alambary e São João (3) – títulos
abaixo resumidos, sob números 518, 519 e 520 (4):
Registro 518: “Principia no lado
de cima divisando com Messias José de Andrade e
pelo alto com quem de direito for até encontrar
com terras de Manoel Alves dos Reis e pelo espigão
abaixo com o mesmo Alves até o rio e pelo veio do
rio acima até encontrar o princípio desta
divisa”.
Registro 519: “Principiando na barranca
do rio São João e seguindo por um espigão
divisando com Matheus Leite de Moraes e rodeando as vertentes
de um braço do São João até encontrar
com terras de Francisco de Souza Ramos, até o veio
do rio São João e por este acima até onde
principia e finda esta divisa”.
Registro 520: “Principiando esta
divisa no barranco do rio São João defronte
de um pau de cabiúna aonde faz ponto de divisa com
Francisco de Souza Ramos até encontrar com terras
de João Vicente de Souza daqui seguindo por um espigão
dividindo com o mesmo Souza até encontrar com terras
de Manoel Joaquim da Cunha até a barranca do rio
São João e por este acima até encontrar
com terras de Anastácio José Feliciano, divisando
com José Antonio Diniz até encontrar com
terras de Francisco de Souza Ramos onde fez princípio
e finda esta divisa”.
Os proprietários de terras divisas com Theodoro estão
entre os membros da expedição pioneira de 1847,
em terras recebidas do próprio desbravador, a fim
de congregar gentes e tornar a região segura para
a vinda e fixação das primeiras famílias,
a partir de 1851.
Ainda, naquele mesmo 31 de maio de 1856, na Vila de Botucatu,
José Theodoro de Souza procedeu ao registro paroquial
e obteve cópia assinada, pelo vigário Modesto
Marques Teixeira, de uma “vastíssima área
entre a [atual] cidade de Bauru e as margens do rio Paraná.
O registro denomina a área Fazenda Rio do Peixe, ou
Fazenda Boa Esperança do Aguapeí” (5),
principiando desde as fraldas da serra de Agudos, entre o
Peixe e o Feio, englobando todas as terras até o rio
Paraná.
Os
antigos historiadores nada ou pouco mencionam José Theodoro
nesta transação, ou que fosse ele titular de
terras em regiões de Bauru, todavia encontramos a
seguinte referência em João Francisco Tidei
Lima: “Além do mesmo José Theodoro, cuja
presença na região do rio Batalha é registrada
em 1861, avultam também, entre outros (...) detentores
de numerosas posses na região”. Além
desta menção, o mesmo Tidei Lima apresenta
documento do Juiz Municipal de Botucatu que, em carta/ofício
de 23/agosto/1861, ao Presidente da Província de São
Paulo, denuncia que Bauru, “esta imensa área
na sua quase totalidade tem sido apropriada e vendida por
José Theodoro de Souza e pelos irmãos Francisco
e Antonio de Campos” (6).
Outros estudiosos regionais reconhecem em Theodoro o desbravador
das regiões de Lençóis Paulista, Bauru,
Avaré, Cerqueira César entre outras, aparentemente
sem apossá-las, cabendo lembrança que, dos
registros de suas terras [516, 518, 519 e 520] não
há menção alguma do número 517,
se posto em registro de posse da Fazenda Rio do Peixe/Boa
Esperança do Aguapeí, se invalidado ou alguém
dele tenha se apropriado, para requer terras devolutas, mediante
falso registro de propriedade.
As posses de Theodoro eram terras livres de ocupações
primárias e nelas não havia sinais de entradas
nem assentamentos de exploração, não
restando dúvidas ser ele o primeiro branco a entrar
nelas, com os cuidados de anotações de divisas
e delas apropriar-se.
- Se alguém antes esteve na região, foi tão
somente de passagem e nenhuma fixação observável
senão aquela no século XVII [1610-1628], à margem
direita do rio Paranapanema [redução espanhola
São Pedro, de curta duração, no lado
paulista] entre os afluentes Tibagi e Pirapó, conforme
créditos dados a Bruno Giovannetti e Arruda Dantas
que mencionam a redução espanhola São
Pedro, dentro do território hoje paulista. Também,
no século XVIII [1719/1759], os Jesuítas
eram proprietários de terras na região de
Botucatu, mas tudo desde Avaré e adiante de São
Domingos estava em completo abandono desde 1780, inclusive
Paranan-Itu e Pouso de Lençóis, embora tais
localidades ainda servissem de corredor de passagem rumo
ao sertão.
Theodoro sabia, para o registro paroquial de terras, necessário
tão somente o ato declaratório do possuidor
ao Vigário, a quem cumpria transcrever num livro próprio
e fornecer cópia ao declarante, sem questionar a origem
ou a verdade do ato, sendo obrigado proceder a lançamento
mesmo sabendo falsas as declarações, pois contra
o registro cabiam apenas pareceres de autoridades civis da
província, que pudessem tornar nulos o direito de
posse, com aplicações de penalidades cabíveis,
quando esgotados os recursos.
Alguns autores acreditam que José Theodoro, em 1856,
simulara data atrasada da posse das terras, 1847, para apresentar
ao Registro Paroquial em Botucatu e assim, legalmente, garantir
sua propriedade, de acordo com termos da denominada Lei da
Terra de 1850.
Para os historiadores, a partir de referido registro começaram
as discussões de quando efetivamente José Theodoro
de Souza chegou à região, em 1847 [data informada
de suas posses] ou 1856 [data dos registros], se veio algum
dia, ou mesmo que tenha existido, posto considerado pelo
Governo do Estado de São Paulo, 1955/1958 – administração
Jânio da Silva Quadros, como figura imaginária,
inexistente e reconhecida como tais (7).
Unanimidade, José Theodoro de Souza teria sim existido
e adentrado o sertão paulista, em alguma data entre
os anos de 1847 e 1856, com pequena comitiva vinda de Pouso
Alegre [MG], para dominar toda extensão de terras
entre o divisor do Vale do Peixe com o Paranapanema, a partir
do Rio Turvo a descer pelo mesmo rio Paranapanema, além
da desembocadura das águas do paranaense Tibagi ou,
mais propriamente, do afluente paulista rio das Anhumas ou
do ribeirão Água Boa, por alguns autores, subindo
até sua nascente para encontrar os espigões
da região de Bartira.
Alguns pesquisadores, conforme veremos, acreditam que Theodoro,
para tamanha ousadia de posses, tenha se valido da influência
de seu compadre e conterrâneo Capitão Tito,
com quem tinha um acordo de tornar suas as terras além
do Rio Turvo, até onde sua ambição o
levasse. Outros entendem que o sertanista teve promessa do
próprio Imperador, em tornar suas as terras livres
apossadas.
Para o engenheiro e pesquisador Bruno Giovannetti, o pioneiro
Theodoro, nascido em Pouso Alegre, Minas Gerais, entre 1805
e 1815, chegou à região em 1855, com um plano
já traçado de assenhorar-se de muitas terras,
e para o registro se viu obrigado “(...) declarar que
tinha posse nas ditas terras desde o ano de 1847 para ser
considerado legítimo o ato de ocupação,
em face da Lei 601 de 1850, em virtude da qual tornavam-se
nulas as ocupações das terras devolutas, por
outro título que não fosse o de compra. Em
30 de janeiro de 1854 foi promulgado seu regulamento, pondo
fim às apropriações de terras devolutas,
tentando assim de salvar o patrimônio devoluto da Província” (8).
Desta maneira, da promulgação da Lei 601 de
1850 e seu regulamento em 30 de janeiro de 1854, Theodoro
se aproveitara do prazo legal maior concedido para legalização
de posses que ia até 1856, para o registro de suas
terras com data de posse em 1847, um mero artifício
para que o ato não se tornasse nulo de plenos direitos,
nem viesse o declarante incorrer em penalidade legal.
Professor José Magali Ferreira Junqueira escreve: “Um
dos mais intrépidos, senão o pioneiro desbravador
do Sertão do Paranapanema, será JOSÉ THEODORO
DE SOUZA, bandeirante nascido no Rio de Janeiro, transferido
ainda criança para Pouso Alegre, Minas Gerais, onde
casou-se aos 24 anos de idade, com Maria José no dia
30 de janeiro de 1838”. José Magali dá-nos
o saber que José Theodoro teria nascido entre 1813/1814
e chegado à região do Paranapanema “nos
meados do século XIX” (9).
- Outros autores atestam esposas de José Theodoro,
as senhoras, Francisca Leite da Silva – com quem
chegou ao sertão, e depois Anna Luiza de Jesus quando
se enviuvou. Conforme cópia de Certidão de
Casamento cedida pelo pesquisador santa-cruzense do Rio
Pardo, Geraldo Vieira Martins Junior, Theodoro teve realmente
um primeiro casamento em Minas Gerais, com Maria José.
O advogado e historiador Amador Nogueira Cobra cita José Theodoro
de Souza como desconhecido lavrador, natural de Pouso Alegre,
Minas Gerais, que além do meado do século XIX,
teve a “idéia de se aventurar até a região
do Paranapanema, à procura de terras de cultura, afim
de tomal-as por ocupação originária”.
Ainda, segundo Amador Nogueira, Theodoro era casado em primeiras
núpcias com Francisca Leite da Silva, analfabeto,
mas “dotado de intelligencia, e, sobre tudo, de uma
constituição physica excellente” que,
já no sertão, enviuvado, se casara com Anna
Luiza de Jesus (10).
Leoni Ferreira da Silva assegura que “Na década
de mil oitocentos e cinqüenta [José Theodoro
de Souza] procedeu [a]o registro de sua posse, obedecendo
a legislação em vigor. Há entretanto,
quem tenha descrito que Teodoro simulou data atrasada para
apresentar ao Registro da Paróquia em Botucatu. Não é verdadeira
tal descrição”. Para o autor, José Theodoro
de Souza, nascido em Pouso Alegre (MG) no ano de 1797, casado
em primeiro consórcio com Francisca Leite da Silva,
chegou mesmo à região do Paranapanema em 1847;
enviuvado, casou-se depois com Anna Luzia de Jesus, vindo
a falecer em 1875 aos setenta e oito anos de idade (11).
José Joaquim Gonçalves Melo relata, por José Antonio
de Lima – cunhado de José Theodoro de Souza, “que
este tinha autorização expressa e escrita por
ordem do Imperador D. Pedro II, para fazer o levantamento
das terras e registros das mesmas” (12).
Cristiano Machado informa, por supostos familiares
de José Theodoro, ser este nascido em Pouso Alegre
em 1805, vindo ao oeste paulista em 1847, por ordem imperial,
para constatar ou não civilização no
local e receber do imperador aquelas terras inabitadas e
nem antes apossadas (13).
Discussões à parte, a história registra
em 1842 a primeira presença [sabida] de José Theodoro
na Província de São Paulo, em contato com Eusébio
Costa e, provavelmente, o Capitão José Gomes
Pinheiro, residentes em Itapetininga, dois dos maiores fazendeiros
e rivais políticos na região de Botucatu.
O encontro com Eusébio nos é fornecido pelo
historiador botucatuense Hernâni Donato, ao informar
José Theodoro de Souza, cabecilha de mercenários
numa outra obrigação em Sorocaba, quando soube
que aquele seu coestaduano, no início da Revolução
Liberal [maio de 1842], caíra prisioneiro dos liberais
momentaneamente senhores da situação, sendo
então “(...) libertado, quase a força,
por um outro caudilho, José Theodoro, nascido no Rio
de Janeiro, mas tido e havido por mineiro” (14).
Não se sabe o que Theodoro fazia na região,
em maio de 1842, por certo travestido de tropeiro presente
em Sorocaba para a feira anual de animais, também
realizada em mês de maio, onde se negociavam tropas
de muares vindas do sul, com grande freqüência
de compradores baianos, fluminenses e, sobretudo, mineiros.
- A localidade de Sorocaba era famosa por sua feira anual
de animais, em meio a festas religiosas e eventos desportivos
como as montarias, as provas de laços e as touradas.
Ali compareciam pessoas das mais diversas regiões
do Brasil.
Os mineiros que participavam da feira anual de Sorocaba,
raramente se valiam dos caminhos pelo Vale Paraíba,
optando pelo trajeto Botucatu, São Domingos [do Tupá],
Bauru e Lençóis [Paulista], depois transposto
o Tietê, Jaú, São Carlos, São
Simão e Franca ou Casa Branca. Este percurso era conhecido
como Caminho das Tropas, ou Rota do Contrabando, bastante
utilizada pelos mineiros [tropeiros] que assim bem sabiam
daquelas terras adiante de Botucatu.
Talvez por isso, ou avisado pelo coestaduano Costa de boas
terras a serem apossadas adiante de São Domingos [do
Tupá], Theodoro quando de volta para Minas Gerais
teria passado pelo lugarejo, ocasião provável
de uma primeira incursão pelas margens do rio Turvo,
quando o pioneiro e alguns companheiros chegaram pelos lados
de Espírito Santo do Turvo, ainda em 1842 (15), ou
mais adiante, não se sabendo oficialmente da permanência
de alguém da equipe naquela região, senão
a partir de 1847, quando José Alves de Lima (16) instalado
onde o Correguinho da Porteira [que informam ser o atual
Córrego dos Mineiros], afluente do rio Turvo, conforme
Registro de Posse de Terras nº 520, de 31 de maio de
1856, em nome de José Theodoro de Souza.
- Maria José Corrêa de Oliveira Zanoni afirma-nos: “O
pioneiro nos avanços por estes lados foi José Teodoro
de Souza, que fundou São Pedro do Turvo em 1842”.
A autora prossegue: “(...) foi uma ocupação
lenta [referindo-se a Santa Cruz do Rio Pardo] tanto que
a cidade de São Pedro do Turvo (...) foi fundada
30 anos antes da fundação de Santa Cruz do
Rio Pardo [oficialmente em 1872]” – Santa Cruz
do Rio Pardo, Nossa Terra, Nossa Gente, Off-Set Osmare
/ Bauru, edição 1976, páginas 55 e
56..
Francisco Marins indica-nos que o Capitão José Gomes
Pinheiro, de sua fazenda Monte Alegre no alto da Serra de
Botucatu, escrevera ao amigo José Teodoro de Souza,
em algum tempo entre 1842 e 1844, para que este viesse ver
as terras da região, que “precisa de gente valente
e de braço” (17). Não se sabe quando
Theodoro atendeu o convite.
Theodoro, já conhecedor e interessado naquelas terras,
em atenção ou não ao convite do Capitão
Gomes montou, em Pouso Alegre, toda infra-estrutura necessária
para uma grande jornada de reconhecimento ao oeste paulista,
desde a mobilização da comitiva, às
construções de canoas e demais instrumentos
de trabalho feitos por operários e artesãos,
tarefas árduas e demoradas para a época. Em
1847, efetivamente, ele e sua comitiva chegaram a Botucatu,
com interesses em penetrar o sertão do Paranapanema,
conhecer e apossar as boas terras que lhe falara por carta
o Capitão José Gomes Pinheiro.
- A sorte favoreceu o mineiro, pois, além de Gomes,
tinha ele conhecimentos desde Pouso Alegre com o Capitão
Tito, agora residente em Botucatu, e certamente bem se
entenderiam por muitos anos, conforme registrou a história.
Fizeram parte da primeira comitiva [pioneira] de Theodoro,
em 1847, José Alves de Lima, José da Cunha,
Manoel Joaquim da Cunha, Messias José de Andrade,
Manoel Alves dos Reis, Matheus Leite Moraes, João
Vicente de Souza, Francisco de Souza Ramos [irmão
de Theodoro], José Antonio Diniz e Anastácio
José Feliciano (18). A todos José Theodoro
doaria porções de terra para “congregar
gente em um ponto determinado, onde pudesse surgir povoação,
servindo de apoio àquele punhado de homens, perdidos
na solidão imensa” (19).
Theodoro fez, portanto, sua primeira incursão oficial
pelo Vale Paranapanema em 1847, para reconhecimentos de áreas
pelo rio Pardo, Paranapanema e Turvo, este ultimo pelo qual
subiu desde o encontro com o Pardo até encontrar um
afluente que denominou São João e, por este,
até a embocadura de um ribeirão batizado São
Pedro, local que escolheu para si, familiares e amigos mais
próximos. Dispôs, ainda, dos terrenos marginais
ao rio Pardo, à margem esquerda do rio Turvo, dos
lados circundantes do Alambari e da Jacutinga, destinando
melhores regiões de cultura às famílias
cujos responsáveis fossem de sua confiança
e do Capitão Tito, para construir ranchos – povoados,
trazer agregados e trabalhar a terra, visando garantir posses
e direitos de propriedade (20).
O pioneiro voltou a Pouso Alegre, acompanhado de seu irmão
Francisco de Souza Ramos e de João Vicente de Souza,
para buscarem familiares e arregimentar voluntários
interessados em possuir terras. Deixaram na região
os demais integrantes da comitiva, em pontos estratégicos
para garantir as posses, localizar os melhores lugares para
formar povoados, procurar predecessores possíveis
e anotar divisas, afora matar índios ou afugenta-los
para o mais distante possível. Estes guardiões,
tendo base de apoio e quartel general onde hoje São
Pedro do Turvo, permaneceriam no local por alguns anos até que
pudessem chegar as primeiras famílias em devida segurança.
Pelas citações nominais, dos limitantes com
as posses de Theodoro, ficaram na região, José da
Cunha, próximo do Bairro Santa Cruz [da Boa Vista] – atual
Domélia, Messias José de Andrade na hoje Santa
Cruz do Rio Pardo, onde suas terras à margem esquerda
do rio Turvo desde a frente onde a barra do Alambari, enquanto
Manoel Alves dos Reis, Manoel Joaquim da Cunha, Anastácio
José Feliciano, José Antonio Diniz e Mateus
Leite de Moraes dividiriam posses entre áreas dos
atuais municípios de Lucianópolis, Cabrália
Paulista, Alvinlandia, Ocauçu, Ubirajara e Ribeirão
do Sul, nas ultimas duas localizadas estavam as propriedades
de Francisco de Souza Ramos e de João Vicente de Souza.
José Alves de Lima instalou-se junto ao Correguinho
da Porteira, nesta mesma época, vindo falecer algum
tempo depois e sua posse entregue aos herdeiros e à sua
viúva e meeira, conforme posto em Registro Paroquial
de Terras, número 516, de José Theodoro de
Souza.
Todas as propriedades menores em nome de Theodoro estavam
de certa forma, dentro da gleba maior. O pioneiro, em 1856,
assim procedeu para comprovar outras posses na região
que lhe faziam divisas – retroagindo registros e, assim,
justificar as suas.
Não houve registros de nenhum outro fenômeno migratório
para a região entre os anos de 1847 – 1850, sendo
também ignorado quanto tempo Theodoro permaneceu na
região, a partir de 1847, sabendo, no entanto, que em
1849/1850 ele se encontrava em Pouso Alegre, quando lhe chegou às
mãos uma convocação, por carta, do Capitão
Tito Correa de Mello, fazendeiro, político e mandatário
de Botucatu e região.
PARÊNTESE HISTÓRICO
Uma intrigante questão para os historiadores regionais é porque
Theodoro, sendo pioneiro, não veio ocupar a bacia
do rio Pardo. Acreditam uns que ele fora precedido por outros
desbravadores e assim passou adiante, enquanto outros crêem
em seu desinteresse por aquela área de espessas matarias
que caracterizavam a região.
Existem opiniões que Theodoro teria algum acordo,
primeiro com Capitão Gomes, depois com o genro deste
o Capitão Tito, de somente ocupar terras além
do rio Turvo, por isso a não se interessar pelo Vale
do Pardo.
Num erro histórico, Amador Cobra noticia que Theodoro
seguiu adiante do Pardo até o Turvo porque “Ai
terminavam as posses já tomadas por outros que precederam
ao mineiro” (21). Muitos autores subseqüentes,
tendo Amador por referência, cometeriam o mesmo lapso.
A história, no entanto, não ratifica nenhuma
das opiniões, a partir do registro da grande posse
de José Theodoro, sabendo de antemão apenas
da existência de São Domingos [do Tupá]
a lhe anteceder no bruto sertão.
Esmiuçado, diz aquele registro 516:
1. “Sou senhor de umas terras (...) e suas divisas
são as seguintes: Principiando esta divisa no barranco
do rio Turvo, barra do Correguinho da Porteira, divisando
com os herdeiros e meeira de José Alves de Lima (...)”.
Entende-se: onde o Correguinho da Porteira
deságua no rio Turvo principiava as terras de Theodoro, a fronteirar
onde a propriedade dos herdeiros e meeira de José Alves de Lima que
lhe faz divisa. O Correguinho da Porteira tornou-se conhecido por Correguinho
ou Córrego dos Mineiros (22).
2. “(...) e cercando as vertentes com
quem direito for até encontrar terras de José da
Cunha (...)”.
Acompanhando o espigão à direita são
as terras de Theodoro até divisar com José da
Cunha (23).
3. “(...)de tal até atravessar
o rio Pardo (...)”
A propriedade de Theodoro transpõe o rio Pardo, situação
jamais observada ou explicada por qualquer historiador. Isto
significa que a linha divisória das terras do pioneiro,
sempre pelas vertentes, dirige-se ao rio Pardo (24).
4. “(...) por outro lado até o espigão
fora com quem direito for (...)”.
Assim, transposto o rio Pardo, chega-se ao espigão,
em direção às atuais divisas municipais
do Óleo com Bernardino de Campos (25).
5. “(...) até cair no mesmo barranco
do Paranapanema (...)”.
Entre os municípios Óleo e Bernardino, a divisa
ruma-se para as margens do rio Paranapanema (26).
6. “(...) por este abaixo até frontear
a barra do rio Tibagi (...)”.
A divisa de Theodoro segue agora pelo rio Paranapanema abaixo
até a foz do afluente paranaense Tibagi (27);.
7. “(...) e daqui cercando as vertentes desta água
que se acha dentro deste círculo até encontrar
as terras de Francisco de Souza Ramos (...)”.
Atingida a extensão pretendida de sua propriedade
e largura de fundos junto ao espigão contravertente
do rio do Peixe, o divisor das terras de Theodoro retorna
até encontrar com aquelas de Francisco de Souza Ramos
(28).
8. “(...) daqui descendo até a barranca
do São João, por ele abaixo até sua
barra no Turvo, por este acima até encontrar com a
barra do Correguinho da Porteira donde foi o principio e
finda esta divisa” (...).
A propriedade alcança o rio São João
e por ele se chega ao Turvo e daí, rio acima sempre
a divisar com seus confrontantes, atingir o Correguinho da
Porteira (29) onde o princípio e fim do latifúndio.
Devidamente analisado, o declaratório de José Theodoro
que deu origem ao Registro de Posse, não excluiu o
território de Santa Cruz do Rio Pardo, nem Bernardinho
de Campos, Ipauçu ou mesmo partes do Óleo,
conforme entendimentos nas interpretações de
mapas, textos, cópias e transcrições
de antigos documentos oficiais (30).
- Onde o atual município de Ipaussu estava a Semaria
das Antas, de propriedade do sertanista Tenente Urias Emygdio
Nogueira de Barros [1790 – 1882], conforme relatos
do autor Luiz Gonzaga da Silva Leme, Volume VI, Título
Bicudos – Parte 3, páginas 384 a 425 de sua
Genealogia Paulistana. As demais terras até a barra
do Pardo eram devolutas da outrora Sesmaria de Antonio
de Almeida Taques, e das posses de João Alavares
de Araujo para além do Pardo. As Sesmarias foram
outorgadas em 1725, às respectivas famílias
vinculadas aos [Campos] Bicudo.
Para Amador Cobra, mantida grafia da época, o pioneiro
Theodoro “À medida que seguia rio [Paranapanema]
abaixo, assignalava os tributarios da margem direita do Paranapanema,
unicos que lhe interessavam, observando a largura das barras
e o volume do líquido que se despejava, elementos
com que, approximadamente, podesse calcular a extensão
da bacia de cada um. Antes da do Pary, passára pelas
do rio Pardo, do ribeirão dos Bugres, Três Ilhas,
Ribeirão Vermelho, Palmital e, para deante, [do Pari]
mais as dos seguintes Macuco, Barranco Vermelho, Queixadas,
Taquarassú, Dourados, Bugios, Anhumas, Capivara e,
finalmente, ribeirão da Figueira, este mais ou menos
em frente ao Tibagy” (31).
Com as conquistas e avanços pelo sertão Theodoro
tornou-se “dono de território igual ao da Holanda”,
segundo Hernâni Donato (32), ou seja, mais de 34 mil
quilômetros quadrados; enquanto para Francisco Marins,
com a abertura da região de Avaré [1850] Theodoro
era o homem que mais tinha terra na província paulista
(33), praticamente todo o oeste paulista que atuais pressupostos
herdeiros, devidamente identificados, pretendem reivindicação
na Justiça de partes já conhecidas e mais
um território, “desde o município de
Brotas (leste) ao rio Paraná (oeste), incluindo até as
fronteiras dos rios Aguapeí (norte) e Paranapanema
(sul)”, com apresentação de documentos
que julgam habilita-los para as pretensões requeridas
(34).
A reivindicação aparenta descabida, estando
o município de Brotas no centro geográfico
do Estado de São Paulo, integrado à bacia hidrográfica
do rio Jacaré-Pepira afluente do Tietê – margem
direita (35), onde nada parece atestar presença de
Theodoro. Todavia, nos anos de 1970, ditos descendentes observavam
constante em citado Registro Paroquial 516, que as terras
de Theodoro divisavam com herdeiros e meeira de José Alves
de Lima, entendendo tratar-se de uma viúva e filhos
que tinham meação com tal José Alves,
cujas terras situavam-se entre Brotas e Dourado, às
margens do rio Jacaré-Pepira.
Coincidência ou não, anotações
paroquiais em Brotas, de 5 de maio de 1856, certo José Alves
de Lima [natural de São José das Formigas,
Paraisópolis - MG] registrou posse de terras “no
lugar denominado Dourado, que havia por posse feita há vinte
e seis anos mais ou menos”, consoante Livro 20, registro
nº 60.
Igualmente no mesmo mês e ano, Maria Francisca de Jesus,
viúva de Joaquim Pereira de Araújo, também
na Paróquia de Brotas registrava posse de terra “as
margens do rio Jacaré-Pepira...”, local denominado “Sítio
do Dourado”, de acordo com fls. 101v, registro nº 190
(36).
De fato, estando Maria Francisca de Jesus por meeira de José Alves,
certamente a situação passa a ser bem mais
coincidente que o imaginário de supostos herdeiros
de Theodoro, mesmo a Justiça ainda não se pronunciando
a respeito, pelo menos até dezembro de 2005.
Tal mistério soma-se ao da Fazenda Rio do Peixe ou Boa
Esperança do Aguapeí, pretensamente do mesmo
Theodoro, igualmente ainda não decifrado se até lá chegaram
as posses do pioneiro.
RETOMANDO A HISTÓRIA
Escolhido o local que lhe serviria de base para o arrojado
projeto de interiorização, quando viesse efetivamente
ocupar aquelas terras vistas em 1847, encontramos José Theodoro
de Souza em sua cidade de Pouso Alegre, Minas Gerais, no
ano de 1849, envolvido nas arregimentações
de parentes, amigos e voluntários, com respectivas
famílias, que desejassem fazer vida no sertão
do Paranapanema.
Foi nesta época quando recebeu uma carta de seu compadre
e conterrâneo Capitão Tito Corrêa de Melo,
convocando-o vir logo a Botucatu para empreitadas contra índios,
ferozes, que impediam o avanço do homem branco rumo
ao oeste paulista.
Garantiu-lhe o Capitão, como recompensa, torna-lo “dono
de meio mundo naquele sertão, que começava
na serra” (37), até onde lhe chegasse a ambição.
A urgência do pedido aparentemente levou Theodoro abandonar
os propósitos iniciais, repassando aos seus irmãos
Bernardino José de Souza e Francisco de Souza Ramos,
a responsabilidade da condução de toda comitiva
e parentela à Província de São Paulo,
quando avisados do momento seguro, e assim somente chegariam à atual
São Pedro do Turvo aos 26 de junho de 1851 (38).
Theodoro chegou a Botucatu em 1850, entendeu-se com o Capitão
Tito Corrêa de Mello “e ambos traçaram
o plano da conquista da região habitada pelos índios.
Na entrada da sertania serpeava um rio ao qual os índios
Caiuás chamavam “Abaré-i” (rio
do homem solitário ou da sentinela, segundo uns, ou
do padre ou monge, conforme interpretação de
outros). E foi o vale do rio “Abaré” o
primeiro local visado pelos “posseiros” vindos
de Pouso Alegre. Exterminados ou expulsos os selvagens Caiuás,
cuja taba ficava onde hoje se localiza a fazenda da Boa Vista,
o mineiro José Teodoro de Souza pôs o nome de
Rio Novo ao Abaré, e a região desbravada foi
dividida entre os componentes da caravana de civilizadores” (39).
“A mudança do nome rio Abaré para “Rio Novo” é explicado
pelo capitão Tito, da seguinte forma: “De volta de sua excursão
nas terras dos índios Caiuás e Botocudos, José Teodoro
de Souza, que chefiava o bando de ”posseiros”, consultou-me se
devia conservar o nome dado pelos selvagens aos rios e morros encontrados,
bem como aos campos, ao que retorqui ser melhor dar-lhes nomes novos, de acordo
com a nossa linguagem. E então ficou combinado o registro das posses
efetuadas. O primeiro rio batizado foi o “Abaré”, que nasce
umas 15 ou 20 léguas distantes da povoação de Botucatu,
próximo de um morro, de forma abaulada. E o nome que se deu ao “Abaré” (que
na língua bugre quer dizer “solitário” ou “sentinela”,
segundo informação colhida por José Teodoro de uma índia
aprisionada por ele), foi de “Rio Novo”, por ser o primeiro curso
de água encontrado na avançada do sertão bravo” (40).
Acrescenta Francisco Marins que, “Com aquela luta na
região de Avaré quebrara-se a ultima resistência
dos bugres, pois o caminho ficara aberto, da serra para frente,
em largo trecho e os perigos e sobressaltos das caminhadas
iam desaparecendo. Os pioneiros, pondo pé de apoio
na serra, invadiam o sertão e iam fazendo nascer os
povoados de Avaré, Lençóis, Santa Bárbara
do Rio Pardo, Timburi, São Manuel” (41).
Exterminados as tribos dos Caiuá e Botocudo, o caudilho
Theodoro prosseguiu as razias em outros territórios
indígenas, com as temíveis dadas, tornando
aquelas áreas prontas para a fixação
do homem civilizado, geralmente mineiros e fluminenses, sob
controle do sócio financista Tito que assim promovia
notável obra de empreendimento civilizacional, em áreas
antes abandonadas por antigos sesmeiros e fazendeiros, que
deram em nada, para vende-las com bons lucros, desde os lados
de Timburi, Avaré, Itatinga, São Manoel, Cerqueira
César, Pratânia, Lençóis, Bauru
e Agudos até os limites de São Domingos [do
Tupá]. Depois viriam, Santa Bárbara do Rio
Pardo, Santa Cruz do Rio Pardo, São Pedro do Turvo,
Campos Novos Paulista e Conceição de Monte
Alegre (42).
De uma reação indígena, Marins nos relata
outros horrores daquela guerra: “A gente de Teodoro
[Theodoro] queria se vingar dos índios que tinham
feito um ataque ao acampamento e caíra em cima da
bugrada sem dó. Mataram quase todos os homens e, das
mulheres, só deixaram as novas para se aproveitarem
delas. Tinham tanta sede de sangue que iam estripando até crianças
e velhos, que achavam pelas redes, ainda dormindo. Dizem
que atiravam indiozinho de colo para cima e esperavam embaixo,
na faca. Pegavam outros pelas pernas e batiam com a cabeça
deles nos barrotes das choças. Encontraram uma índia
grávida e abriram a barriga dela (...). A aldeia dos índios
ficou que era só cadáver que eles largaram
para os urubus comerem, quando não atiravam às águas
para pasto dos jacarés famintos (...)” (43).
Os Caiuás “(...) que habitavam a região
acabaram exterminados pela tropa comandada por José Theodoro
de Souza e Tito Corrêa Mello, numa guerra sangrenta
que preparou o terreno para a chegada dos históricos
fundadores da cidade de Avaré, o major Vitoriano de
Souza Rocha e o alferes José Domiciano Santana” (44),
o ultimo também mineiro de Pouso Alegre, sendo o Major
Victoriano de Souza Rocha, pelo menos, partícipe naquele
terrível massacre, segundo informes do Capitão
Tito:
“O Major Vitoriano, a que me prendiam laços de parentes por lado
de minha mãe, em 1840 viera comigo de Pouso Alegre e ficara em Sorocaba
negociando em tropas, do qual era entendido, pois fora o mais conhecido tropeiro,
desde a cidade de Campanha até Ouro Fino. Anos depois, passando por
Sorocaba, o meu compadre José Teodoro de Souza, que vinha à Botucatu
a meu chamado e conhecendo a finalidade da viagem do conterrâneo, o Major
Vitoriano incorporou-se ao grupo de pousoalegrenses que vinham povoar
o sertão do Paranapanema. Era um homem alegra, folgazão, valente,
domador sem igual e muito devoto. Tomou posse de chão perto do rio Novo,
conhecido antes por “Abaré”, nome dado pelos índios
Caiuás que habitavam a margem direita. Tomou parte na Revolução
de 1842, tendo brigado na coluna desbaratada na Venda Grande, próximo
de Campinas. Foi ele, com o auxílio de outros posseiros, quem, em 1861,
ergueu uma capela com o nome de Nossa Senhora da Dores do Rio Novo. Em 1862,
o Major Vitoriano e seu vizinho o compadre Domiciano Santana vieram a Botucatu
e me procuraram para levá-los à casa do tabelião Francisco
Antônio de Castro. Aí redigi a escritura de dação
que ambos faziam, na parte em que seus sítios dividiam, cortados por
um riacho ou córrego, de um terreno de quarto de légua (ou 27
hectares) para o patrimônio de Nossa Senhora das Dores. Essa escritura
foi lavrada em 15 de maio de 1862. Nesse tempo já havia um cruzeiro
em frente da capela e oito casinhas de pau a pique, cobertas de sapé.
Foi esse o princípio da vila de Nossa Senhora das Dores do Rio Novo,
cuja capela foi inaugurada em 10 de julho de 1861, dizendo a primeira missa
que ali se realizou com a licença do Sr. Bispo, o vigário de
Botucatu Padre Joaquim Gonçalves Pacheco” (45).
Mas, o pioneiro Theodoro e seu bando não se limitaram às
ações praticadas em Avaré, prosseguindo
com a mesma crueldade de matança aos indígenas,
tomando-lhes as terras e entregando-as aos colaboradores
ou aqueles ordenados pelo Capitão Tito, que se propusessem
trabalhar a terra e construírem povoados.
Em terras onde a atual Timburi, mais ou menos uma légua
acima da confluência dos rios Itararé e Paranapanema,
desde 1799, com breve passagem por Jaú, residia tal
Francisco Ferreira dos Santos, sua esposa Maria Prudência
de Oliveira, também conhecida por Maria Ferreira,
e [pelo menos] um filho, constatando referido Francisco foragido
de Ouro Fino – Minas Gerais, onde cometera crime de
morte (46). Outras famílias chegaram em 1852, pondo-se
nas proximidades do mesmo rio Palmital, onde uma Capela e
poucas casas formavam incipiente povoado sob sugestivo nome
Retiro.
A antiga localidade denominada Três Ranchos, onde hoje
Cerqueira César, determinou-se a construção
de três choças e uma capela, deixando homens
no local, certamente Domingos Faustino de Souza, João
Antonio Graciano e certo Nunes (47), que estenderam seus
domínios até as margens do Paranapanema – Piraju,
para que a terra não viesse ser retomada pelos índios,
nem apossadas por aventureiros outros, que logo chegariam
por aquelas paragens.
- Historicamente a origem de Cerqueira César ocorre
a partir de 1873, quando ainda Três Ranchos, dentro
da propriedade de Antonio Bento Alves (48).
A região de Itatinga foi tomada dos índios
em favor dos pioneiros, José Pinto de Oliveira e Antonio
Francisco da Silva, que fizeram erigir a Capela em louvor
ao orago São João Batista [de Itatinga]. Depois
chegam os familiares dos desbravadores e a primeira comitiva
comandada pelo Major Francisco Gomes da Silva Prado e o Coronel.
Eduardo Lopes de Oliveira (49). O povoado garante origem
oficial apenas a partir de 1875, mas tem sentido antiga tradição
que diz o local de Pedra Branca, Itatinga, habitado antes
pelos quilombolas, umas poucas famílias brancas e
tribos indígenas convivendo pacificamente entre si,
quando da passagem de Theodoro.
No local denominado por Água Clara fazem posse o Alferes
Manuel Gomes de Faria e Antônio Joaquim Mendes que,
em seguida, trazem de Minas Gerais os seus parentes e pessoas
que desejam aventurar-se no sertão paulista. Os proprietários
doam terras para o patrimônio da Capela de São
Manuel, conforme documento datado de 19 de abril de 1870
(50). O povoado onde se ergueu São Manuel, "origina-se
da concentração de um grupo de pacíficos
lavradores, que começaram a surgir desde 1848 (...)” (51),
portanto antecedente à passagem avassalante de Theodoro,
onde lavradores brancos conviviam com indígenas da
região.
Pratânia tem sua origem por ordem do Capitão
José Gomes Pinheiro, pensada em 1842 (52), cujo núcleo
inicia-se em terras do próprio Capitão, para
formar posterior povoado na confluência dos rios Jacu
(também conhecido como rio da Prata) e Claro, limítrofes
a Botucatu, em tal fazenda da Prata de propriedade de José Gonçalves
de Araújo, Aureliano Feliciano Vieira e do próprio
Capitão José Gomes Pinheiro (53). Em 1850 os índios
habitavam a região e eram ameaça aos brancos,
quando lá chegou Theodoro com finalidades de desocupação.
Às margens do rio Lençóis se fixou Francisco Alves Pereira,
que fez vir de Minas sua mulher e filhos, seguidos de outras famílias
e escravos, sendo o lugar denominado Bairro dos Lençóis (54).
A história aponta o local sob o nome anterior de Pouso de Lençóis,
parada de descanso na rota dos tropeiros e porto para travessia do rio Tietê,
desde os tempos jesuíticos – 1719 / 1759..
As terras de Agudos foram repassadas ao rico empreendedor
mineiro Faustino Ribeiro da Silva (55), primeiro lá permanecendo
homens seus a serviço de Theodoro e Tito, até que
ele mesmo chegasse ao local, em 1852, à frente de
um grupo de mineiros, como trabalhadores livres em troca
de terras, e muitos escravos para a cultura de café e
abertura de fazendas. Faustino fundou o povoado de São
Paulo dos Morros Agudos e fez erguer outros bairros rurais
dentro de sua imensa propriedade, deixando as famílias
mais próximas dos locais de trabalho.
Assumiram a região de Bauru, Sebastião Pereira,
Pedro Francisco Pinto e Rodrigues de Campos. A primeira povoação
somente ocorreu com a chegada de Antônio Teixeira do
Espírito Santo, fundador de uma fortaleza para garantir
a segurança daqueles que desejassem trabalhar a terra.
Ao abrigo da sentinela ergueu-se um povoado logo conhecido
por Fortaleza do Espírito Santo, depois Espírito
Santo de Fortaleza.
Sem dúvidas a inquietação progressista
do Capitão Tito foi o fator determinante para a conquista
do sertão, a partir de Avaré.
Em junho de 1851 o vitorioso Theodoro chega a São
Domingos [do Tupá] para se encontrar com familiares
e demais membros da comitiva mineira, tendo os seus por objetivo
maior onde atual São Pedro do Turvo, enquanto outros
companheiros e famílias ficariam pelos caminhos.
O pioneiro, juntamente com o Capitão Tito Correa de
Mello, já alienara grandes porções de
terra em posses abertas no Vale do Rio Pardo, naquilo que nos
corrobora José Ricardo Rios, às páginas
27 de seu livro Coronel Tonico Lista – O perfil de uma época,
publicação Debate, edição de
2004.
PRIMEIRAS FRENTES DE OCUPAÇÃO
Não sabemos todos os nomes de integrantes da comitiva
de Theodoro, do ano de 1851, apenas de parentes seus e alguns
de amigos mais próximos que chegaram até nós:
Marcelino Leme da Silva, Francisco de Paula Moraes, João
da Silva Oliveira, Domiciano de Paula, João Lourenço
Ferreira, Vicente Lourenço Ferreira (1) e Francisco
de Souza Ramos (2). Bernardino José de Souza, irmão
de José Teodoro não se acha colocado em nenhum
rol da comitiva de 1851, mas sabemo-lo em Pouso Alegre envolvido
nos preparativos daquela expedição (3).
As relações nominais dos pioneiros variam um
ou outro nome, de autor para autor, alguns a colocar num
mesmo ror aqueles dos chegamentos de 1847, 1851 e 1856. Os
autores minimizam presenças de escravos naquelas comitivas,
e nenhum deles menciona os jagunços como tais elementos,
dos quais Theodoro jamais abriria mão numa empreitada
como aquela, sendo ele próprio chefe de capangas,
acostumado a refregas e ciente do que o aguardava no bruto
sertão. Também os autores subestimam o extermínio
indígena nas regiões de chegadas dos desbravadores.
Conhecemos, por Bruno Giovannetti, que aquela comitiva [de
1851] chegou a São Domingos [do Tupá], de onde
partiu com destino a atual São Pedro do Turvo, pelo
espigão entre os rios Turvo e Pardo, sem seguir “rigorosamente
o curso do rio Pardo, pois a mataria espessa teria esbarrado
a arrojada e feliz aventura”, passando por agora Santa
Cruz do Rio Pardo para atravessar o rio Turvo, “no
ponto em que hoje surge a Vila de São Pedro [do Turvo]” (4).
Antonio de Arruda Dantas, por referências: “Consta
que os pioneiros chegaram a estas paragens e se fixaram no
local no dia 26 de junho de 1851, onde deliberaram, dada
fertilidade das terras, a abundância da água
e de madeiras de lei, erigir a primeira povoação
que seria, não só a base, mas também
o quartel general de seu arrojado empreendimento. (...).
Localizou os companheiros nas imediações do
local, estabelecendo cada um em águas que vertiam
para o rio Turvo, próximo, e São João,
e cuidou de efetuar as primeiras plantações
para garantia de abastecimento (...)” (5).
Conquistado o direito de possuir aquelas terras desejadas
desde 1847, a elas o pioneiro retornou em 1851, quando fez
erguer a Capela São João e ranchos, no qual
lugar seria São Pedro do Turvo. Também, a seguir,
erigiria a Capela de São Pedro, pois que Theodoro “funda
a Capela de São João e São Pedro e,
em seguida, outra capela mais adiante, a de São José dos
Campos Novos” (6). Nestes considerandos, sabendo então
gentes na região no mês de junho de 1851, próximo
ou entremeio às datas dos santos João e Pedro,
nenhuma dúvida paira sobre as origens da Capela de
São João Batista – para São Pedro
do Turvo, e Capela de São Pedro – para Santa
Cruz do Rio Pardo, naquele mesmo mês e ano. A Capela
de São José [dos Campos Novos], hoje Campos
Novos Paulista, somente teria história por volta de
1855.
- Para dirimir incertezas onde localizar Capelas São
João e São Pedro, documentos oficiais dão
conta que, pela lei de número 71, de 20 de abril
de 1872, a Capela de São Pedro, no município
de Lençóis, foi elevada à condição
de Freguesia, com o nome de Santa Cruz do Rio Pardo; enquanto
outra lei provincial, a de número 4 – publicada
aos 5 de julho de 1875, alçou a Capela de São
João Batista [e apenas esta] à categoria
de Distrito, com a denominação de São
Pedro dos Campos Novos do Turvo – depois São
Pedro do Turvo, igualmente do município de Lençóis.
A Capela denominada São José dos Campos Novos,
embora com história desde 1855, povoação
em 1864 e marco fundamental em 1868, conforme escritura
lavrada em São Domingos [do Tupá] é hoje
a localidade de Campos Novos Paulista, a não caber,
portanto, questionamento por parte dos historiadores.
Senhor absoluto das terras até onde lhe chegassem,
não mais a ambição ou a coragem, e sim
a condição de domínio, José Theodoro
retornou a Pouso Alegre em 1851 ou 1852, o que bem nos dá prova
um documento, de 27 de abril de 1852, pelo qual José Theodoro
de Souza e sua mulher Francisca Leite da Silva “doam
um terreno dentro do [entre os] rio São João
e ribeirão São Pedro, para neste terreno se
edificar uma capela e freguesia invocada a São João
Batista”, conforme registro no Cartório de Paz
da Freguesia de São João da Boa Vista do Jaguari – atual
São João da Boa Vista, no município
de Mogi Mirim, da Sétima Comarca da Imperial Cidade
de São Paulo (7).
Inexiste indicativo se Dona Francisca viajou com Theodoro
a Minas Gerais ou o aguardava por lá, desta forma
ignorada se o ato da transmissão ocorreu na ida ou
na volta daquela jornada, permanecendo apenas a certeza oficial
que referida doação aconteceu quatro anos antes
do registro paroquial das terras em Botucatu.
- Não obstante Certidão de Casamento de José Theodoro
de Souza com dona Maria José, no Sertão Paranapanema
sempre constou sua esposa Dona Francisca Leite da Silva,
assim identificada em todos os livros de registros em documentos
públicos, títulos, procurações,
escrituras e certidões. Enviuvado, Theodoro casou-se
com dona Anna Luiza de Jesus (8).
Após 27 de abril de 1852 até 31 de maio de
1856 ocorre uma lacuna nos feitos de José Theodoro,
na região do Vale Paranapanema, quando certamente
na exploração de suas posses, dimensionando-as
e consolidando divisas para proceder ao competente registro
de posse lavrado, aos 31 de maio de 1856, em conformidade
com legislação vigente.
De posse dos registros, o pioneiro faz sua ultima viagem
ao chão mineiro, para recrutar interessados em trabalhar
e povoar as terras do grande sertão ainda desocupado.
Consta que João Vicente já estava por lá preparando
as comitivas e aguardando a chegada do parente principal,
para convencer de vez e com documentos aquelas gentes das
vantagens oferecidas, na bacia do Pardo e outras partes do
Vale Paranapanema.
Desta ultima empreitada José Theodoro retornou de
Minas Gerais, entre setembro / dezembro de 1856, à frente
de um grande contingente de mineiros ao Vale Paranapanema,
muitos deles para adquirir terras já adiante do Vale
do Turvo, como as famílias e agregados de Antonio
Alves Nantes com um genro, Manoel José de Jesus,
Antonio de Paula Rodrigues [o Ourives], João Lopes,
Joaquim Alves de Lima, Antonio Botelho de Carvalho, Joaquim
Pereira de Toledo, um casal das relações do
pioneiro (9) e Bernardino José de Souza. “Atraz,
nas vertentes do rio Pardo ficaram o Coronel Francisco Dias
Batista, José Marques do Vale, Jorgino Marques, João
Gonçalves Ferreira, José Ferreira Maciel, Carlos
Bernardino de Souza, Joaquim Luiz Dutra, José Pinto
Cardoso, etc” (10). Destes se sabe que
José Marques do Valle, Carlos [Carrito] Bernardino
de Souza, Pedro Dias Batista [Capitão Apiaí]
e o Coronel Francisco Dias Batista, com respectivas famílias,
agregados e escravos, estão contados entre os primeiros
moradores de Santa Bárbara do Rio Pardo, em 1857 (11),
localidade esta fundada pelo próprio José Theodoro
de Souza (12).
- Segundo o autor Cláudio Dias Batista, “alguns
pesquisadores atribuem o título 'Capitão
Apiaí' ao filho de Inácio [Dias Batista – Capitão
Apiaí], Pedro Dias Batista. Encontramos vários
escritos onde pode-se verificar tal inexatidão. É importante
salientar: Pedro não nasceu nem viveu em Apiaí e
não se tem notícia de que possuísse
qualquer patente da Guarda Nacional” (13) Entendemos
tratar-se de homônimo, vista Pedro Dias Batista estar
contado na caravana pioneira do Coronel Francisco Dias
Baptista [Batista], vinda diretamente de Minas Gerais (14).
Jorgino Marques, João Gonçalves Ferreira,
José Ferreira Maciel, Joaquim Luiz Dutra, José Pinto
Cardoso, e outros, não se fixaram em Santa Bárbara
do Rio Pardo, nem acompanharam Theodoro até a Capela
de São João [São Pedro do Turvo], daí situá-los
entre o Bairro de Santa Cruz [da Boa Vista] – Domélia
e a Capela de São Pedro [Santa Cruz do Rio Pardo]
desde janeiro de 1857, sendo conhecido que Antonio Rodrigues
de Moraes foi residente no Bairro Santa Cruz (15), em 1857,
enquanto as famílias Marques, Gonçalves, Dutra
e Cardoso se encontram entre as pioneiras de Santa Cruz do
Rio Pardo, não sendo mero acaso um Marques [Claudino
J] nela eleger-se vereador em 15 de outubro de 1876 (16),
quando da primeira Câmara Municipal da localidade.
Compreendemos, assim, a importância de Theodoro para
o conhecimento da história do Planalto Ocidental Paulista,
como desbravador a adentrar campos e matas, abrir picadas
e enfrentar índio, requerer posses e fundar capelas
(17) para nelas instalar gentes que pudessem fazer progredir
o sertão, porque era este o grande objetivo, levantar
povoados, alguns hoje transformados em cidades consolidadas,
outros feitos distritos com ou sem experimentar prosperidade,
e aqueles jamais além arranchamentos extinguidos pelo
tempo. Assim o pioneiro povoou as regiões desde Avaré,
Agudos, Lençóis Paulista e Bauru, depois São
Pedro do Turvo, Santa Bárbara do Rio Pardo, Santa
Cruz da Boa Vista, Santa Cruz do Rio Pardo e, um pouco de
tempo adiante, Campos Novos Paulista e Conceição
de Monte Alegre.
O sucesso migratório decorreu principalmente que Minas
Gerais, já em início do século XIX,
enfrentava a decadência da mineração
e a entrada do ciclo agro-pecuário em grandes propriedades,
tornando proibitivo o valor das suas terras disponíveis.
Também o aumento populacional e divisão sucessiva
das terras, entre herdeiros, diminuíram espaço
para criações e lavouras, inviabilizando acomodações
para as famílias, por isso os sucessores venderem
suas herdadolas para buscar melhores condições
em outras regiões.
Os mineiros “num primeiro momento dirigiram-se para
os contrafortes paulistas da Serra da Mantiqueira” (18);
depois, outros deles “saíram de suas vilas em
direção à região de Araraquara
(...)” (19), para enfim o Vale Paranapanema depois
de meado do século XIX, adquirindo de José Theodoro
de Souza glebas destinadas para agricultura de subsistência,
horti-fruti-granjeiros e pastoreio, formando os primeiros
pequenos bolsões de povoamentos, caracterizados como
bairros residenciais, pela necessidade gregária, como
relação de ajuda mútua nos serviços,
mais propriamente o sistema mutirão e segurança.
Para as atividades assentadas na economia natural, ou seja,
produção daquilo que necessitavam sem a preocupação
de gerar excedentes, dedicaram-se à própria
subsistência e escambos, num primeiro momento, posteriormente
a vislumbrar mercado consumidor e, com isso, integrar novas
pessoas ao grupo como mão de obra, para maior produção
com possibilidade e disponibilidade em acompanhar e viver
as dinâmicas do expansionismo econômico.
Além de pequenas lavouras de subsistência, a
principal atividade econômica dos mineiros era a criação.
Os animais eram soltos no campo, aproveitando-se a vegetação
natural. Criavam-se porcos, muares e gado vacum que, juntamente
com seus derivados [queijo e embutidos] e excedentes agrícolas
eram levados para venda, junto ao mercado de São Manuel
[do Paraíso], retornando com mercadorias essenciais
como sal, querosene, pólvora, remédios e ferramentas
para melhor trabalhar a terra (20). Suínos e bovinos
podiam ser conduzidos vivos ou então abatidos e preparados
em peças para o transporte em carros de boi.
Nas circunstâncias expostas, com a ampliação
do mercado, o aumento da produção e melhores
qualidades ofertadas, os produtos logo se transformaram em
moeda, não mais simplesmente peças de trocas,
cabendo ao sertanejo a opção por outras variedades
de compras que não apenas o seu necessário.
Deste processo ou conjunto de bens produzidos não
só para subsistência e sim como fator de satisfação
de outras necessidades, com a moeda por base de troca e medida
de valor, organizara-se a produção visando
o lucro crescente, inclusive o acúmulo de dinheiro
para formação de capital.
Esse passo iniciou-se, consoante Amador Cobra, já com
as “aquisições das primeiras sortes [de
terras] e, em conseqüência, o povoamento dos sertões
(...) provocando verdadeiro alvoroço entre os lavradores,
grandes e pequenos, proprietários e simples jornaleiros” (21),
uma vez que muitas propriedades adquiridas ou produções
delas auferidas, não foram necessariamente para o
uso ou consumo [estágio pré-capitalista] e
sim para a venda, com perspectivas de bons lucros (22), características
próprias de fenômeno capitalista mesmo que inicial.
Assim, indica-nos Maria Sílvia Moraes Nórcia: “A
abertura dos sertões do Vale do Paranapanema pelos
mineiros, que marcou a conquista da última região
não desbravada do Estado de São Paulo, estava
ligada diretamente à expansão do capitalismo
subdividido em dois momentos: a Frente de Expansão
e a Frente Pioneira” (23), com desdobramentos significativos
para todo oeste paulista, primeiro com a Frente de Expansão, “quando
ainda os participantes (posseiros) dedicam-se principalmente à própria
subsistência e secundariamente à troca (...)”,
depois, num segundo momento, quando entra em cena a Frente
Pioneira, entre os anos de 1880 a 1910, visando as características
e potencialidades do Vale Paranapanema, com suas terras férteis
próprias para o plantio do café, para assim
se instalar, “(...) como empreendimento econômico:
empresas imobiliárias, ferroviárias, comerciais,
bancárias, etc, loteiam terras, transportam mercadorias,
compram e vendem, financiam a produção e o
comércio” (24).
Óbvio tal curso de acontecimentos conduzirem, gradativamente, para a
ocupação sistematizada de todo Planalto Ocidental Paulista, através
da consolidação do Capitalismo, desde a implementação
das grandes lavouras cafeeiras às conseqüências progressistas,
sobrevindas com as empresas ferroviárias, industriais, comerciais e
bancárias, pela ofensiva do capital inglês para compra, venda
e financiamento da produção e comercialização,
além do empreendimento imobiliário loteando terras e promovendo
a imigração estrangeira.
Mas, respeitando os grandes nomes que se firmam em José de
Souza Martins e o próprio (25), ousamos discordar,
em parte, quando referem apenas a duas fases ou frentes de
ocupação oeste paulista, mais propriamente
o Vale Paranapanema a partir do rio Turvo, por compreendermos
que as entradas de Theodoro, de 1847 e 1850/51, não
foram a custo de reconhecimento territorial pacífico,
avaliações potenciais de perspectivas e perigos
insalubres da região, mas sim de extermínio
de tribos indígenas inteiras, por vitimas de traumático
processo de conquista de terras para ocupação
por gentes do Capitão Tito e do próprio chefe
de bugreiros, ações que outro nome não
poderia ter senão de Frentes de Invasões Predatórias
em Territórios Indígenas, ou seja, das conquistas
através da prática contumaz de razias, pelas
dadas ou por entre outros dispositivos de dizimação
inapelável, a destruírem com aquelas vidas
toda a organização social e cultural de povos
unicamente considerados atravancadores do progresso.
Para certos autores locais e historiadores regionais, Theodoro é visto
de maneira bastante simplista, homem que vivia espécie
de troca de favores e serventias mútuas, como as chamadas
trocas de relações pessoais, onde o pedido
de um amigo mais poderoso ou a palavra dada e empenhada prevalecia
sobre todas as formas de contrato (26). Outros o vêem
apenas mero executor de ordens para avançar sertão,
matar índios e apossar terras (27) que, depois desbravadas,
seriam entregues aos donos do capital.
Melhor analisada as atitudes de Theodoro, percebe-se nele
a plena consciência de estar a serviço do capitalismo
e de sua organização produtiva, como desbravador
sertanista, bugreiro, latifundiário e fundador de
povoados. O pioneiro entra pela primeira vez no sertão
paulista – Vale Paranapanema, em 1847, para caçar índios,
constatar ou não civilização e tornar
suas as terras inabitadas por civilizados e nem antes apossadas,
conforme lhe dissera Capitão José Gomes Pinheiro, “aquele
mundo precisava de gente valente e de braço. (...).
Que viesse ver as terras da serra. Garantia que não
ia se arrepender” (28). Seria inocência a História
registrar que Theodoro apenas chegou para simples passeio
de reconhecimento, pelo Sertão Paranapanema, como
se este fosse o paraíso.
Theodoro gostou do que viu e do que fez, queria aquelas terras
e as teve por garantias dadas ou ratificadas pelo Capitão
Tito Correa de Mello, de “fazer posses em terras riquíssimas
sem dono” (29); por isso retornou em 1850, antes da
família, para outras empreitadas contra índios,
ferozes, que impediam o avanço do homem branco rumo
ao oeste paulista, massacre iniciado contra os Caiuás
e os Botocudos, na região de Avaré, até total
extermínio estendido aos Oti-Xavantes e Ofaiê-Xavantes,
em todo Planalto Ocidental Paulista, à medida do
avanço e ocupação branca.
A atividade exercida por Theodoro foi a nome do capital,
no ato representado pelo Capitão Tito, vero precursor
da fundação das primeiras localidades, a partir
de Botucatu, e responsável pelo progresso do sertão
oeste paulista.
Capitão Tito, financiador da conquista do sertão,
era empreendedor progressista. Tinha o apoio do governo e
segmentos da sociedade melhor beneficiada em fazer habitar
e progredir aquelas terras, “às pressões
dos proprietários e aos interesses do Estado para
proteger as localidades ocupadas por gente civilizada, laboriosa
e útil ao país – requisitos efetivamente
não preenchidos pelos grupos indígenas na perspectiva
do capitalismo – faz com que a presidência da
Província oficialize a repressão, mesmo com
os proprietários já usando das ações
armadas das dadas, comandadas por bugreiros” (30).
As terras subtraídas aos índios por Theodoro e seu bando,
entre os rios Paranapanema e Tietê até as margens do Turvo, foram
entregues àqueles licenciados pelo Capitão Tito ou dele obtinham
permissão mediante compra, para assim se iniciar a Frente de Expansão
propriamente dita, a seguir, com a chegada das primeiras famílias mineiras,
já a partir de 1850/1851 e logo concluída em 1862/1864, com aquelas
características de economia voltada à própria subsistência
e uns poucos excedentes para escambos – trocas diretas de mercadorias,
com evolução para trocas monetárias. Adiante do Turvo
a verdade era de Theodoro.
João Francisco Tidei Lima cita-nos Pierre Monbeig para quem “desde
o seu início, a marcha para o oeste foi um episódio da civilização
capitalista”, justificada pelo mesmo João Francisco, em Sérgio
Silva, que tal episódio surge “como forma histórica do
capital muito antes que o capital tenha dominado a própria produção” (31)
Carta Circular do Governo de São Paulo, datada de
23 de abril de 1857, com cópia para o senhor Vigário
da Freguesia de Botucatu, grafia da época, dava oportunidade
de se registrar Terras nas Paróquias já ultrapassado
o prazo legal (32): “Sendo pelo Aviso de 4 de dezembro
[1856] do aviso findo permittido as pessoas multadas por
não terem feito registrar suas terras no prazo da
Lei reclamar contra essas multas perante a Presidência
das Províncias, cumpra que V.R.ma. instrua aos seus
parochianos em ordem aqui os que se sentirem lesados enderecem
a este Governo suas reclamações devidamente
baseadas, as quaes, para maior facilidade, poderão
já vir informadas por V.R.ma. (...)”.