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RAZIAS
INCURSÕES PREDATÓRIAS EM TERRITÓRIOS INDÍGENAS DO VALE PARANAPANEMA

PARTE I – INCURSÕES PELOS CAMINHOS DO VALE DO PARANAPANEMA

CONSEQÜÊNCIAS DO BANDEIRISMO

Darcy Ribeiro entendia as missões jesuíticas como a experiência ou “a tentativa mais bem sucedida da Igreja Católica para cristianizar e assegurar um refúgio às populações indígenas, ameaçadas de absorção ou escravização pelos diversos núcleos de descendentes de povoadores europeus, para organizá-las em novas bases, capazes de garantir sua subsistência e seu progresso" (1)

O colonizador, português ou espanhol, entendia a redução jesuítica como forma de preparar o índio para a mão de obra a favor do conquistador. O índio aldeado encontrava melhor preço de mercado porque acostumados ao trabalho agrícola, em outras artes de ofício e, sobretudo, dóceis; isso despertava a cobiça dos bandeirantes que resolveram atacar Guayrá onde à disposição encontravam-se dezenas de milhares de nativos para preamento.

Aconteceu a guerra e a vitória bandeirante trouxe como resultado, o aprisionamento de milhares de índios, a tomada territorial pela conquista e, posteriormente, ocupação daquelas terras de Espanha, tudo a se processar de acordo com as necessidades econômicas de Portugal.

O bandeirismo paulista envolvido na Guerra do Guairá era de apresamento; com a fuga dos jesuítas e índios sobreviventes às regiões do Tape e Itatim, para lá se deslocaram os bandeirantes deixando toda bacia do Paranapanema, numa espécie de recesso de presenças do homem branco, por quase um século. Isto significou novas entradas em terras espanholas e futuras anexações.

As terras invadidas tornaram-se paulistas, conseqüentemente portuguesas, pelo uso da força, ainda que Portugal e colônias estivessem sob domínio espanhol. A ousadia paulista e conseqüente vitória em Guairá fizeram com que o rei espanhol e as autoridades portuguesas de plantão, viessem a negociar rápido para evitar independência paulista e o fracionamento territorial, a partir do rio Tiete até o Paraná e por este descendo até o rio da Prata, colocando em risco outras regiões pertencentes à Espanha.

A região do Guairá então sob domínio português, com referida conquista, apenas despertou interesse de fixação humana quando da descoberta do ouro no litoral paranaense, em Paranaguá, ano de 1648, depois outros povoados como Morretes, Antonina e Guaratuba, voltando-se para Curitiba em 1668, sendo estes os primeiros núcleos sob dominação portuguesa como causas de penetração em terras do Paraná espanhol. Não existindo ouro em abundância, o local ficou entregue a uns poucos agricultores de subsistência, já com garantia que os luso-brasílicos não mais arredariam pé daquelas paragens, “como desejo de efetivar a conquista da terra” (2), cada vez mais com as vitórias bandeirantes contra as missões jesuíticas do Tape.

A tomada de Guairá ou o sucesso de Raposo sem dúvidas incentivou demais entradas em outras regiões além Tordesilhas, sendo ele próprio a realizar as principais delas, de sul a norte, centro-oeste e nordeste, parecendo obedecer a ordens superiores para assegurar apossamentos dos atuais estados, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás, inclusive chegando com sua expedição até o Amazonas, além de ter lutado contra os holandeses na Bahia e em Pernambuco. Tamanhas ousadias deram ao Brasil [Portugal] forças necessárias para o posterior recuo do Tratado de Tordesilhas, e assim acrescer partes territoriais pelo tratado de Madri em 1750, como reformador do Tordesilhas.

  • A própria revolução nacionalista portuguesa de 1640, que conduziu D. João IV ao trono de Portugal, depois de sessenta anos de dominação espanhola, sem dúvidas teve sua inspiração na expulsão dos espanhóis do território avançado pelos bandeirantes e entradistas entre 1628 a 1638.

No Brasil, particularmente São Paulo, já se formava, então, a consciência de nacionalidade como grupo étnico-cultural amalgamada de raças e culturas diversas, a despertar sentimento de superioridade ao reinol espanhol em direito a terra, quando em andamento também o antagonismo entre o nascido brasileiro com o elemento português, desperto sobremaneira após a expulsão holandesa do território brasileiro.

Como conclusão pode-se dizer que os bandeirantes, no aprisionamento ao indígena, desempenharam importante papel nessa expansão territorial, desbravando os sertões além do Tratado de Tordesilhas, a culminar numa série de outros tratados de limites entre Portugal e Espanha, como os de Utrecht, em 1715, de Madri – 1750 e suspenso pelo Tratado de El Prado – 1761, o de Santo Ildefonso – 1777 e, finalmente, o de Badajoz – 1801.

Após esses tratados, a área brasileira mais que triplicou, dos 2.500.000 km2 – pelo Tordesilhas, para mais de 8.000.000 de km2, quase a superfície hoje atual, estabelecido pelo direito fundamentado na ocupação efetiva de longo prazo, e independente de outro qualquer título – o uti possidetis, ou seja, uma área pertence a quem efetivamente a ocupa.

Do elemento indígena, sobrevivente de tantos massacres e apresamentos, não se sabe o que realmente lhes aconteceu, talvez parte incorporada à sociedade paraguaia, outra à brasileira que se formava ao litoral paranaense, alguma reintegrada aos parentes selvagens, enquanto a maioria se transformou em destroços tribais, distanciando-se ainda mais de seus vínculos originais.

Para muitos especialistas, foram estes os índios encontrados, à exceção Caingangue, em meados do século XIX, por habitantes embrenhados nas matas adiante da Serra de Botucatu, entre os rios Feio/Aguapeí e Paranapanema, favorecidos pelo declínio do bandeirismo de apresamento, desde a reconquista de Angola de mãos holandesas, em 1648, com a normalização do abastecimento de escravos africanos; a expulsão dos holandeses do nordeste brasileiro e a crise da economia açucareira, fatores todos determinantes para desmotivar a caça ao índio (3).

Outro importante motivo à sobrevida indígena no oeste paulista foi que às bandeiras de apresamento sucederam as de prospecção, e a região nada tinha a oferecer a esta nova onda. Aos tais índios bastava tão somente não se colocar às proximidades do Tiete, Paraná e Paranapanema, onde ocorria maior tráfego de brancos rumo aos grandes sertões do Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais, onde se descobriram riquezas minerais de grande exploração.

Por conseguinte, a chegada de bandeirantes e entradistas nas regiões auríferas do centro-oeste brasileiro, provocaram êxodo de nativos em direção ao território paulista, nas matarias pelos lados de Bauru, Lençóis, além da serra de Agudos, na bacia do Pardo, nos campos de Avaré, nas vertentes do Paranapanema e do outro lado da Serra de Botucatu, com certa distância das povoações que já surgiam a partir de Sorocaba.

Entende-se que estes grupos indígenas se expandiram progressivamente, tornaram-se constantes, maiores e cada vez mais ameaçadores, ainda que elementos fugidios diante da presença branca.

O avanço do branco além de Itapetininga em direção a Botucatu, certamente promoveu incidentes com os índios da região, daí o surgimento das bandeiras de contrato como exemplo em 1680 quando o Capitão-Mor Jorge Correa foi contratado, oficialmente, para caçar índios bravios que estavam nas matas desde as vertentes do Paranapanema, em estado de selvageria. Correa esteve junto a Serra de Botucatu, percorreu campos do Vale do Pardo e da região de Avaré (4), com práticas predatórias em territórios indígenas (5).

No ano de 1706 uma outra entrada, chefiada por João Pereira de Souza, passou pela região de Botucatu em perseguição ao índio com ordens para extermínio total. “João Pereira (...) consegue ainda ser mais duro que seus predecessores. Passa por onde hoje se encontra o centro da cidade [Botucatu] e praticamente dizima todos os índios da região” (6).

Sem a incômoda presença indígena, as terras de Guareí ao alto da Serra de Botucatu, tornaram-se propriedades de sesmeiros, dentre eles o Capitão-Mor Antonio Caetano Pinto Coelho, Capitão Antonio Antunes Maciel e o Capitão José Campos Bicudo, destacados pelas doações feitas aos Padres Jesuítas para a instalação de uma fazenda para criação de gado e promoção agrícola.

FAZENDA JESUÍTICA DE BOTUCATU

1. ASPECTOS PRELIMINARES

Os caminhos e a região sertaneja, a partir da Serra de Botucatu, eram conhecidos desde o princípio do século XVI, via Peabiru, mas enfrentar o sertão e nele se fixar era sempre alto risco, tanto pelo elemento indígena disposto a barrar a fixação dos brancos em seus domínios, quanto os perigos da floresta insalubre e os animais selváticos, sem esquecer os castelhanos que insistiam reclamar invasões de suas terras, ainda que desinteressados por elas, mal menor, porém sempre perigo para as relações entre Portugal e Espanha.

  • Os indígenas não atacavam caravanas em trânsito, peculiaridade de todas as tribos, entretanto faziam-se intolerantes com aqueles que pretendiam fixações em territórios ocupados.

Conhecida de passagem, a região somente entrou para a história em primeiro quinto do século XVII, desde a entrada de Antonio Bicudo, 1620, para reconhecimento territorial e a preação indígena, com as primeiras descrições dos seus campos e matas entre os rios Guareí, Paranapanema, Tietê, morros da Serra de Botucatu e cabeceiras do rio Pardo (1). A empreitada de Antonio Bicudo não despertou interesse a quem dispusesse assumir responsabilidades de cultivar e povoar aquelas terras ainda não sesmadas, vista o primeiro assentamento formal apenas quase um século depois.

A História nos diz que foi outro membro da família Bicudo, o lendário entradista Manoel de Campos Bicudo, quem passou pelos campos de Guareí e regiões de Botucatu, em 1673, com destino às confluências entre os rios Cuiabá e Coxipó, como primeiro europeu pisar aquelas bandas ocidentais da colônia, ainda sob dominação espanhola. Fazia parte daquela expedição Antonio Pires de Campos (2), mais tarde conhecido por Pay Pirá, filho de Manoel Campos Bicudo.

Talvez, desta feita, não tenha sido apenas mera passagem dos Bicudos pela região, sim algum interesse maior pelas terras Guareí e Botucatu, admitindo-se permanência de parte da equipe para melhor levantamento territorial, potencial de riquezas e, sobretudo, verificar onde postadas tribos indígenas sobre a serra, quantificação de seus indivíduos e perigos oferecidos. Somente assim se explica a eficiência das razias promovidas pelo Capitão-Mor Jorge Correa, no ano de 1680, em exterminar tribos inteiras (3) nas morrarias e furnas onde, “com facilidade de manobras, em terreno conhecido, os silvícolas perseguidos faziam-se atacantes (4)”.

Sem dúvidas era intenção de o governo ocupar terrenos e distribuir sesmarias àqueles dispostos explorar terras e levantar povoados, para melhor infra-estrutura quanto ao processo de interiorização. Os sesmeiros (5) raramente eram povoadores, antes dividam as posses para repassá-las com bons lucros aos fazendeiros que faziam, de pronto, instalar os arranchados para algum futuro povoamento, entretanto apenas indivíduos se propunham aos enfrentamentos dos perigos do sertão, as famílias não vinham.

  • Uma opção para povoar o sertão era o levantamento de bairros rurais, com agrupamento de famílias, uma a cuidar da outra quanto aos aspectos de segurança e mútua ajuda. Ainda assim era difícil e o investimento bastante alto, proibitivo à maioria dos fazendeiros.

Pelos relevantes serviços prestados à Coroa e Colônia, foram agraciados com melhores lotes em Guareí e Botucatu, Antonio Pires de Campos [Pay Pirá], em Guareí, seu irmão José de Campos Bicudo, em Botucatu, além dos parentes diretos e colaterais, a exemplo do cunhado [Capitão] Antonio Antunes Maciel (6), descendentes de tradicionais famílias de bandeirantes, entradistas e sesmeiros em regiões de Carapicuíba, Serra do Jaraguá, Sorocaba, Itapetininga, Itu, Tatuí, Jaú, São Carlos, Boituva, Franca e outras localidades (7).

O Capitão-Mor Antonio Caetano Pinto Coelho, Governador Sesmeiro e Loco-Tenente da Capitania de São Vicente, por sua Majestade, com sede em [Nossa Senhora de] Itanhaém, também se assenhoreou de uma sesmaria em Botucatu (8). O Capitão-Mor era parente da família dos Campos Bicudo.

 Sem eficácia dos propósitos, por aparente desinteresse das famílias beneficiadas, em princípios do século XVIII Botucatu era, ainda, apenas ponto de referência e caminho àqueles que demandavam o sertão. Não haviam brancos fixados, apenas índios ameaçadores que outra vez dominavam a região, tanto que em 1706 foi preciso a entrada de João Pereira de Souza prear e erradicar indígenas, numa matança até então sem precedentes, deixando na região um imenso vazio de homens (9).

Em 1713 Antonio Pires dos Campos concedeu sua Sesmaria, em Guareí, à Ordem dos Jesuítas no Brasil, cujo Reitor era seu irmão, o Padre Tenente Estanislau de Campos (10). No ano de 1719 os Jesuítas receberam, também por doação, uma Sesmaria na região de Botucatu advinda do Capitão José [dos] Campos Bicudo, outro irmão do Padre Estanislau; igualmente o Capitão Antunes Maciel e o Capitão-Mor Antonio Pinto Coelho, também doaram suas sesmarias aos jesuítas, em Botucatu (11).

  • As terras de Guareí receberam a denominação Fazenda São Miguel ou, depois, Capela Velha, e as de Botucatu o nome Santo Inácio ou Boa Vista, porém mais conhecidas mesmo por Fazenda Jesuítica Guareí e Fazenda Jesuítica Botucatu. A título de curiosidade ou complemento histórico, os ricos Campos Bicudo doaram, ainda, sesmaria na região de Tatu-uv [Tatuí] aos Padres Carmelitas, de Itu, cuja propriedade teve por nome Fazenda Paiol.

Tais donativos permitiram a ocupação jesuítica regional na primeira vintena do século XVIII, com objetivos de povoar o sertão e cuidar das terras, tornando-as partes cultiváveis e partes para criação de gado, numa época que o oeste paulista quase nada tinha de história, senão aprisionamentos e matanças de indígenas.

Melhores conclusões indicam que os padres jesuítas, ao se estabelecerem em Botucatu, tiveram por necessidade primeira a pacificação de tribos indígenas arredias, ocupadoras para além do Pardo, outras, em maior número, para os lados dos rios Paranapanema, Tietê, Peixe e Feio/Aguapeí por onde os religiosos pretendiam caminhos para os sertões de São Paulo, Mato Grosso, partes do Paraná e Goiás, além de uma melhor senda para Minas Gerais, sobre trilhas conhecidas desde os séculos XVI e XVII, por cartas e mapas dos padres jesuítas espanhóis das antigas missões catequéticas, às margens do Paranapanema e interior do Paraná espanhol.

A Fazenda Jesuítica tinha por objetivo principal a agro-pecuária, atividade acomodada à finalidade de sesmarias, ou seja, a demandar mão de obra para formarem invernadas e lavrar a terra, cuidar o gado e plantações, para isso indivíduos arranchados em regiões distintas dentro da grande propriedade, além de bairros rurais para as famílias colocadas próximas das áreas de trabalho.

Os padres também praticaram a mineração, a despeito da proibição dessa atividade aos religiosos, e ainda souberam tirar proveitos dos caminhos fluviais e terrestres internos que passavam por suas fazendas ou ao fundo delas, oferecendo estalagens, portos, entrepostos e guias nativos àqueles interessados em demandar sertão, ante o comprometimento de preadores somente aprisionar índios fora da região, para se transitar seguro por terras do oeste paulista e usufruir os serviços dos religiosos mercantilistas.

Com mínimo de instalações, a Fazenda Jesuítica Botucatu se tornou referência àqueles que por lá faziam pousos e ajustes, além das opções de caminhos certos como aquele até o Paranapanema, abaixo da cachoeira Paranan-Itu, próximo a atual cidade Salto Grande, local de estalagem e porto onde os viandantes alugavam canoas, ou deixavam as suas, nas idas e vindas desde os Andes, Paraguai, Mato Grosso, ou o extremo oeste paulista e partes do Paraná (12).

Os usuários preferiam a navegação pelo rio Paranapanema, principalmente no retorno das viagens, para evitar as fortes correntezas do rio Paraná, o Salto Itapura próximo à foz do Tietê, o Salto Avanhandava e as corredeiras acima. Se a utilização do Paranapanema oferecia melhores condições que o Tietê, igualmente seus caminhos por terra eram rápidos, seguros, e podiam ser feitos com animais de carga para o transporte dos haveres adquiridos no sertão.

Bem logo também se resolveu caminho alternativo para Minas Gerais, via São Carlos e Franca, pelos portos de Lençóis e Potunduva [Distrito de Jaú] às margens do Tietê, unindo as vias terrestres para condução de muares e transportes de mercadorias às Minas Gerais, além da usança fluvial pelos monçoeiros que subiam e desciam o Tietê.

Assunto polêmico, ainda discutível se os jesuítas de Botucatu teriam sido os primeiros a trazer muares das estâncias jesuíticas argentinas de Córdoba, então relacionados pela mesma Ordem, cientes da importância desses animais nos garimpos, ou seja, da experiência espanhola junto às minas de Potosi. A Fazenda Jesuítica Botucatu estava a caminho da Rota do Contrabando, e por ele transitava o bandeirante candongueiro Bartholomeu Paes de Abreu, parente do Padre Reitor da Ordem Inaciana no Brasil.

Tais situações de contrabando eram favorecidas porque os caminhos estavam dentro de propriedades da família dos Campos Bicudo, ou de gentes sob suas influências, desde o sul do Brasil até Sorocaba, e desta à Fazenda Jesuítica Botucatu, de onde partiam as tropas para as Minas Gerais através do Porto de Lençóis, pelos caminhos de Jaú, São Carlos e Franca, terras sob domínio ou influição da mesma família, da qual o Padre Reitor Estanislau de Campos era membro dos mais influentes.

  • Os jesuítas estavam expulsos do Brasil e seus bens confiscados e leiloados, quando aqueles portos [Lençóis e Potunduva] serviam de passagens para os tropeiros com suas tropas rumo a Minas Gerais e outras regiões do Brasil, vindos diretamente do sul sem passar pela Feira Oficial de Muares de Sorocaba, desviados da estrada Viamão-Sorocaba, para se evitar altas taxas e pedágios cobrados pelo governo, tributos sobremaneira encarecedores no custo final dos animais. Pelos desvios os tropeiros passavam por terras antes jesuíticas, onde ainda existiam pousos e currais, conforme em atual Pardinho, “antigo pouso de tropeiros (...) nas terras da fazenda Santo Inácio, que havia pertencido a padres jesuítas” (13).

Originalmente os padres intentavam Guareí e Botucatu por única e grande propriedade, para criação de gado e atividade agrícola. No entanto, a anterioridade da primeira fazenda e o seu fracasso gerencial não lhe permitiu as inovações aplicadas na segunda, como as formas de administração e investimentos incorporados à força do trabalho, tornando a Fazenda Ibytu-Katu [Botucatu] muito mais próspera e de superior importância regional, tanto que se tem a história de povoação do sertão oeste paulista, a partir da sua instalação em 1721/1722, desde as divisas com Guareí, entre os rios Tietê e Paranapanema, oficialmente até o alto da serra, em terras recebidas dos mencionados sesmeiros, para avançar, nalgum momento do primeiro quartel do século XVIII, até às barrancas do rio Paraná (14).

  • Apesar das distinções entre as fazendas Guareí e Botucatu, são tidas por alguns autores como propriedade única a partir de 1722.

As terras doadas aos jesuítas foram em troca de orações e caridades, para manutenções da Ordem e outras disposições de cultos, que constam dos documentos em Arquivo Público do Estado, publicado em “Sesmarias", volume II, em 1921 [São Paulo].

Compreendem-se pelas regras de direitos e obrigações dos sesmeiros, que lhes eram exigidos grandes capitais para desbravar a terra, fundar povoados e aquisicionar escravos, de modo transformar isso num empreendimento de altos custos e riscos, tanto pela feroz resistência imposta pelo índio, quanto pelas dificuldades naturais e insalutíferas do sertão bruto.

Assim, é provável que os donos anteriores não tivessem condições ou interesses para explorações das terras, talvez pela distância ou obrigações em outras fazendas, por isso o repasse [legal] aos inacianos em vez de retorná-las à Coroa Portuguesa, conforme a exigência que assim obrigava aos proprietários o uso da terra e sua povoação, e, não o fazendo, repassar os direitos a quem pudesse ou se dispusesse fazê-lo ou, ainda, devolução à Coroa..

A propriedade Botucatu tinha próximo 30 léguas de largura [198 quilômetros] do Tietê ao Paranapanema a partir do ribeirão Jacuí, sua divisa com Tatuí, e das cabeceiras da Fazenda Jesuítica de Guareí, conforme termo de doação por Campos Bicudo, vindo estender-se até os campos e matos no alto da Serra Botucatu, com a mesma largueza entre rios, pelos registros das demais doações, sendo certo que os padres se apossaram de outras terras desocupadas ou abandonadas entre as sesmarias recebidas, transformando-as numa só fazenda, alguns estudiosos compreendendo seus avanços às tombadas da Serra dos Agudos e cabeceiras do rio Turvo, para outros talvez nem tanto adiante dos campos de Areiópolis (15).

  • A extensidade escriturada da propriedade parece não ter ido mesmo além dos termos do Capão Bonito (16), agora Distrito Rubião Junior [Botucatu], e dos lados de uma povoação existente, São Bom Jesus do Ribeirão Grande (17), esta também chamada de Santo Inácio, no município de atual Pardinho.

Entende-se que bem cedo os padres empreenderam avanços em terras ainda espanholas, afora suas posses oficiais, não apenas para atividades religiosas, mas estabelecimentos de bases para avanços rumo ao sertão interior paulista, por um caminho em separado da Peabiru, a partir de Capão Bonito, seguindo adiante das nascentes do Pardo e campos dos Lençóis, até o pouso em lugar ou próximo onde depois a freguesia de São Domingos [do Tupá], para prosseguir pelo divisor entre os rios Pardo e Turvo até a barra do primeiro no Paranapanema, passando pelas terras atuais de Espírito Santo do Turvo, Santa Cruz do Rio Pardo, Ourinhos e Salto Grande [Paranan-Itu], onde a estalagem e porto, além dos arranchamentos à beira do caminho.

Deste caminho dos tempos dos padres, oficializado pelo Morgado de Mateus no ano de 1771, se valeram grandes expedições de entradistas, bandeirantes, faiscadores, contrabandistas e aventureiros em passagens pelo oeste paulista e Mato Grosso (18). Em meados do século XIX, os mineiros usariam do mesmo caminho para o desbravamento do sertão Paranapanema, com transito maior quando já oficializados os primeiros povoados, para onde acorriam tropeiros e mercadores para negociar e abastecer armazéns. 

Do Capão Bonito, outrossim, se iniciava aquele outro caminho citado, rumo ao porto de Lençóis, onde mais fácil transpor o rio Tietê para se dirigir às Minas Gerais, quando não o uso pelas monções em direção ao rio Paraná. Deste caminho terrestre Bartholomeu Paes de Abreu requereu à Câmara de São Paulo, em 1720 / 21, autorização para abertura oficial de estrada até o rio Paraná, adiante veremos, desde a ultima povoação da Vila de Sorocaba. Em 1737 um indignado e preterido Bartholomeu renovou seu pedido ao governo de São Paulo, em forma de veemente protesto (19)

É consenso a existência de pousos pelos caminhos, à distância de cinco ou seis léguas, para descanso dos transeuntes, pois que os padres, conhecedores dos trechos que passavam por seus termos e onde iam dar, não perderam oportunidades de lucros com instalações de estalagens, currais, armazéns e portos, vistos em alguns dos seus bairros rurais ou sedes, onde instaladas famílias próximas dos serviços, para melhor aproveitamento das terras e garantia das posses. Destarte, imediatas ou posteriores expansões territoriais jesuíticas além do Tordesilhas, ocorreram levantamentos de outros bairros rurais e aldeamentos pelos trechos da Peabiru até os lados do Abaré-y (20), entre a Cuesta e o Vale Paranapanema.

Oficialmente a Fazenda Botucatu era voltada à criação de gado para auto-sustento, abastecimento do Colégio Jesuítico de São Paulo, auxílio financeiro às missões estrangeiras e comercialização de excedentes (21), além das atividades agrícolas para o mesmo fim. Igual a qualquer fazenda, sob responsabilidade religiosa, significava, além do explorar terras, também instalações de núcleos habitacionais destinados aos que trabalhavam dentro da propriedade, além dos aldeamentos quase sempre juntos aos povoados, ditos como missões catequéticas aos índios, conforme Carta Régia, de 10 de setembro de 1611, ainda mantida em pleno vigor (22).

Marilza de Oliveira em seu trabalho, Para a História Social da Língua Portuguesa em São Paulo – Séculos XVI-XVIII, informa-nos que “No estabelecimento de normas para os aldeamentos na lei de 10 de setembro de 1611, figurava que os aldeamentos deveriam ser regidos por capitães e deveria ter um clérigo português que soubesse a língua” (23). Porém, a exploração indevida do índio pelos tais Capitães de Aldeias, com poderes de Juiz Criminal e Civil, além de Fiscal de Trabalhos e Salários Indígenas, firmou-se a lei de 21 de dezembro de 1686 passando todo controle da mão-de-obra indígena, ensinamentos e religião, mais os poderes executivo e judiciário, para os missionários, em especial os jesuítas.

Um outro detalhe aplicado pelos jesuítas em Botucatu, depois normatizado na segunda metade do século XVIII, foi acolher, além dos índios e brancos, os mulatos, os mamelucos, os cafuzos e os negros considerados desajustados. Portanto os inacianos, ademais da criação de gado e promoção agrícola, catequizaram índios e levantaram povoados, entre aguadas, para fixação de mão de obra mais próxima do local do trabalho, com isso a garantir, a eles jesuítas, não apenas o direito de propriedade como a segurança de seus agregados.

Embora comprovadas existências de arraiais jesuíticos, difícil localiza-los e descreve-los, postos desaparecidos dentro de um território que, desde 1760, deixou de existir com a obrigação de se lhe apagar a memória. Deles nos diz o historiador Hernani Donato: “Pela primeira vez na região, por conta e instrução da Companhia de Jesus, erguiam-se os ranchos sem a mera função de abrigo transitório e fixavam-se, para residência e trabalho continuado, entre dez e vinte moradores, índios administrados e seus familiares” (24), além dos situados arranchamentos à beira do caminho Botucatu-Iguatemi, mencionados em documento oficial de 8 de agosto de 1772, transcrito pelo mesmo historiador: “Prova da existência de roças e gados na região é uma drástica ordem de requisição”, cujo teor o historiador transcreve “(...) faça noticiar aos donos e fazendeiros das Fazendas (...) e campos de Bitu-gatu, pr onde discorre o caminho pa. Praça da Guatemy (...)” (25).

Acredita-se que a Fazenda Jesuítica Botucatu jamais teve número superior a quatro padres residentes, designados para diferentes funções.

2. DOS PRIMEIROS ARRANCHAMENTOS EM TERRAS JESUÍTICAS

Nos idos de 1700 a Companhia Jesuítica no Brasil enfrentava dificuldades financeiras, a necessitar urgente fonte de rendas para sanar problemas do Colégio de São Paulo, o principal centro formador jesuítico do Brasil Colônia, e gerenciador de recursos para manutenção da Ordem.

Reitor da Ordem Inaciana no Brasil, o Padre Estanislau de Campos recorreu aos seus irmãos possuidores de terras inexploradas nas regiões de Guareí e Botucatu, conseguindo com eles as primeiras doações para levantamento de fazenda destinada á criação de gado no atual município de Guareí, onde fez construir a sede da Fazenda, o casarão para o abrigo dos padres e os cuidados da administração, a Igreja e poucas casas em derredor aos agregados, características de bairro rural que ali se desenvolveria, para os lados do rio com mesmo nome.

Ótimas aguadas, boas pastagens e barreiros salinos, o gado se desenvolveu fácil nas morrarias de Guareí, mesmo sem aqueles cuidados especiais que seriam adotados pela Fazenda Botucatu, na década seguinte. A descoberta de ouro e diamante em pontos do rio Piracicaba e afluentes, com certeza justificam a aparente desatenção dos padres com a criação de gado.

Portanto, afora incipientes trabalhos agro-pastoris em Guareí, os padres se dedicaram à mineração, usando para bons termos de exploração os desvios dos rios por canais (1), não obstante o ordenamento legal do rei português proibindo que religiosos se fixassem em zonas de minerações, ou delas fizessem parte, para se evitar o contrabando de ouro e outras riquezas (2). A despeito dessa proibição, os padres estiveram estabelecidos às margens do Tietê com o abocamento do Piracicaba, num arranchamento para mineradores, até por volta do ano 1720.

Com o recebimento de terras para a instalação da Fazenda Botucatu, os padres jesuítas deixaram o local alegando insalubridade na zona mineradora, para interiorização mais adiante, aonde no “roteiro das tropas que iam para o Iguatemi e Tapagé, e das minas que demandavam Goiás e Mato Grosso, nasceu um pequeno núcleo a partir de um local de pouso com um punhado de lavradores” (3). A esse novo endereço foi dado o nome Sobrado [dos Padres], em causa do prédio central, assobradado, que servia de moradia aos padres e hospedaria aos bandeirantes, entradistas e caminheiros que por lá permaneciam para seus ajustes, às vezes períodos prolongados, alguns deixando para trás descendentes mestiços, como primeiros cristãos nascidos em terras hoje pertencentes ao município de São Manuel (4).

  • A mudança dos padres, seja por qual motivo for não significou o fim do trabalho minerador, permanecendo os mineiros arranchados nas proximidades daqueles rios, enquanto neles abundaram riquezas.

O Sobrado, não tendo fontes naturais e pela impraticabilidade de se abrir poços mais próximos à superfície, obrigou os jesuítas trazerem águas através de um complexo sistema de captação e canalizações das minas da serra, numa demonstração de conhecimentos em obras hidráulicas, cujas ruínas, pelos relatos de autores regionais, até bem pouco podiam ser vistas (5). Tal hidrodinâmica aplicada em Sobrado e vista noutras antigas localidades da região, tem servido ao menos para identificar possíveis influências dos padres nas suas origens, pelos exemplos similares de tecnologia aparentemente exclusiva dos padres jesuítas no Brasil. 

Localizado em ponto de passagem quase obrigatória àqueles que ousavam os caminhos dos sertões, em busca de riquezas, preações, ou nas andanças tropeiras, Sobrado se fez próspero como entreposto agro-pecuário e estabelecimento de compra, troca e venda de ouro e pedras preciosas. Não podia ser diferente.

Bons empreendedores, os padres logo ativaram comércio de gado vacum à venda para os passantes, além de tropas [cavalos e muares] e outras mercadorias também negociadas no local ou nos portos Araritaguaba [Porto Feliz] e dos Lençóis, onde das passagens monçoeiras e dos embarques e desembarques de pessoas, algumas a buscar empregos na própria Fazenda Jesuítica, atraídas pelo expansionismo dos padres, segundo relatórios que dizem das necessidades de se criar bairros para neles fixar mais mão-de-obra (6).

  • As tropas muares eram conduzidas para as regiões mineradoras, Minas Gerais, Goiás e depois Mato Grosso, comercializadas pelos padres, embora inexistam documentos oficiais por razões óbvias, ou seja, prática de contrabando.

Com a expulsão dos jesuítas dos domínios portugueses, em 1759, os padres deixaram para trás suas riquezas e todo rebanho em terras próximas a Sobrado, logo disperso e alongado para reproduzir-se em estado semi-selvagem, na imensidão dos campos além-fronteiras.
Nas primeiras décadas do século XIX, Sobrado ainda servia de pouso e estadia aos viandeiros, quando numa das expedições lá chegou o cozinheiro italiano Giácomo Capanema, que se enamorou da filha de um chefe indígena do aldeamento local e com ela se casou, pelas leis cristãs, em 1822, através do padre acompanhante de uma das bandeiras lá hospedadas. Conta-se que Giácomo, depois de anos residente em Sobrado, deixou o lugar para se fazer próspero dono de albergaria em Santos, ao lado de sua mulher (7).

Ruínas de Sobrado foram perceptíveis por décadas, com alguns vestígios ainda vistos nos anos 1990, além do nome Sobrado até os dias atuais de fazenda no local.

Para se chegar a Sobrado, rumo ao sertão, o melhor caminho era a Peabiru até Tatuí, daí por um ramal ladear a Serra Botucatu pelo norte em direção a Serra dos Agudos, até onde o povoado, para prosseguir interiorizações aos Vales do Feio/Aguapeí, Peixe, Batalha e baixo Tietê. A intensa movimentação determinou para Sobrado boa infra-estrutura para acolhimento dos caminheiros, oferecendo-lhes melhores estalagens, currais, animais de carga, guias nativos e entrepósito comercial de trocas, compras e vendas.

Ainda de Tatuí, por outro caminho a passar por terras dos atuais municípios de Guareí, Torre de Pedra, Bofete e Pardinho onde, no denominado Campos do Paiol (8), se elevava o povoado de São Jesus do Ribeirão Grande, antes de subir a serra Santo Inácio e atingir a povoação de Capão Bonito, no qual lugar um entroncamento de caminhos, com a senda principal rumada para Avaré [Abaré-y].

O caminho de Tatuí aos Campos do Paiol e deste ao Alto da Serra era, grosso modo, ramal tardio desviado da Peabiru, antes da Serra, estando o trecho principal por exclusividade dos padres entre as sedes Guareí e Botucatu, "(...) margeando a estrada que desta cidade vae ao Capão Bonito, pelo caminho do campo, até um portão, colocado recentemente na estrada que também, desta cidade vae ao Capão Bonito, pelo caminho de dentro, isto é estrada do Tanquinho” (9).

  • O Caminho de Dentro ou Caminho dos Padres que cortava as matas entre Guareí e Capão Bonito, tornou-se depois Estada do Tanquinho no trecho Botucatu a Rubião Junior [Capão Bonito].

Talvez São Bom Jesus tenha sido, em sua origem, apenas um bairro rural jesuítico que se tornou pouso e fez progresso, sobrevivendo à expulsão dos padres e confisco de seus bens, quando referência na rota do contrabando das tropas vindas do sul, pela passagem Teypê-pê – Caminho de Entrada, posteriormente Piraju, junto ao Paranapanema. Por lá chegavam, ainda, os tropeiros vindos de Itararé.

De São Bom Jesus os tropeiros subiam a Serra, paravam ou não em Capão Bonito antes de chegar a Sobrado, então parada obrigatória para depois continuar caminho até o Porto de Lençóis, transporem o Tietê e rumar às Minas Gerais.

  • A localidade de São Bom Jesus do Ribeirão Grande, ou Ribeirão Grande, às vezes chamada de Santo Inácio, por localizar-se no costão da Serra Santo Inácio, nas proximidades onde hoje o Posto Maristela, na Rodovia Castelo Branco – SP. Em 1973, para a passagem da linha de transmissão da antiga CESP, foi extinta sua ultima memória, uma Capela que restara, construção do princípio do século XX; talvez original apenas uma escadaria recoberta pelo mato.

Alguns estudiosos acreditam na existência de São Bom Jesus do Ribeirão Grande antes de 1720. Não há consenso, embora possível, pois os documentos de doações de sesmarias aos padres datam entre 1713 e 1719, que em nada implica assunção imediata das posses recebidas, já com a elevação de um local de assentamento.

"O que de concreto a História nos revela está num requerimento do bandeirante Bartolomeu Paes de Abreu, apresentado à Câmara de São Paulo, com data de 1721, solicitando autorização para a abertura de um caminho, por terra, ligando o centro da Capitania às minas do Mato Grosso, recém descobertas. É esse requerimento que fala da existência de uma povoação por estas bandas. O bandeirante, ao declinar o local do início da abertura do que ele mesmo chamou de ‘Picadam’ diz que seu caminho deveria ser iniciado a partir da ‘ultima povoaçam, da última vila e, também, a partir do morro do Hibiticatú’. São três referências para localizar um mesmo ponto. Mais que suficiente! A última Vila seria Sorocaba. Em 1721, nem Piracicaba, nem Itapetininga, nem Porto Feliz e nem Tietê existiam. Portanto parece não haver dúvidas nesta matéria. A pergunta, então, seria a seguinte: que povoação era essa que ficava tão perto do Morro do Hibiticatú, a ponto de permitir ser uma referência de início do caminho?” (10).

Talvez o bandeirante tenha mesmo se referido ao povoado de São Bom Jesus do Ribeirão Grande, ou ao Capão Bonito, todavia ousamos a localidade de Paranan-Itu, nas proximidades da hoje cidade de Salto Grande, por candidata à “ultima povoaçam (...) a partir do morro de Hibiticatu [Ibyticatu]”, com a descrição do trajeto do possível picadão de 1722, a partir da proximidade da Barra do Pardo, no Paranapanema, às margens do rio Paraná, conforme Bruno Giovannetti, em sua obra Álbum Histórico do Município de Quatá, edição de 1953, que serviu de base para estudos e conclusões do pesquisador Gláucio Conde (11).

PARENTESE HISTÓRICO

Quando da restauração do trono português em 1640, o Brasil colonial já apresentava características adquiridas durante os quarenta anos de dominação filipina, por exemplo, a linha Tordesilhas se transferira de vez de Cananéia [São Paulo] para Laguna [Santa Catarina], assim a findar uma pendenga desde 1494.

Tal modificação tácita pouco pareceu interessar aos colonos brasileiros, desde tempos já infiltrados para além do imaginário de Tordesilhas. Dentre aqueles povoadores, no século XVIII destacou-se Bartholomeu Paes de Abreu, célebre bandeirante, genro de Pedro Taques e, igualmente a este, aparentado da família dos Campos Bicudo, uma das mais importantes e ricas do Brasil Colônia, séculos XVII e XVIII.

  • Em homenagem ao sogro, Bartholomeu deu a um dos filhos o mesmo nome Pedro Taques [de Almeida Paes Leme], o mais famoso historiador e genealogista brasileiro setecentista.

A distinção familiar e serviços prestados à Capitania de São Paulo foram responsáveis pelas designações e nomeações de Paes de Abreu para o exercício de importantes funções públicas, a exemplos de Procurador de Concelho [circunscrição político-administrativa], de Juiz da Câmara Municipal de São Paulo, Capitão Mor da Vila de São Paulo, Juiz Ordinário e Guardião-Mor da Intendência Comissária das Minas do Paranapanema, no Alto Ribeira, criada em 28 de janeiro de 1736, para atender ao recolhimento da captação do ouro nas minas de Apiaí e do Paranapanema.

  • A Intendência Comissária das Minas, em documento de 1727 [doação de sesmaria onde atual Araras, fonte Biblioteca IBGE], diretamente vinculada ao Governo da Capitania paulista assim denominada: Capitania Geral de São Paulo e das Minas do Paranapanema e Goiás.

Paes de Abreu igualmente por suas atividades notórias foi aquinhoado com duas sesmarias, uma no sertão de Curitiba e outra nos campos de Guartelá, entre os rios Iapó e Pitangui, entre as regiões agora dos municípios de Castro e Tibagi [Paraná].

Documento histórico de 1704 consta concessão de uma Sesmaria da Paragem de Iapó, do rei de Portugal à família de Pedro Taques, sogro de Bartholomeu Paes, um latifúndio abrangendo terras paranaenses onde os municípios, Jaguariaíva, Piraí do Sul, Castro e partes de Ponta Grossa., o que evidencia o domínio sul brasileiro em mãos das famílias Taques e Paes de Abreu, aparentadas e vinculadas aos Campos Bicudo.

Homem de visão, em 1720 Bartholomeu solicitou à coroa portuguesa, autorização de se abrir uma estrada desde o sul até Sorocaba, e desta seguir os destinos oficiais às Minas Gerais e Rio de Janeiro, pelo Vale Paraíba, na condução de tropas e gados.

A estrada proposta seria, em parte, calcada sobre trilhas da Peabiru de Santa Catarina e a ligação desta a partir de Ponta Grossa [PR] com a Peabiru São Vicente em Sorocaba [SP]. Não obteve a autorização desejada, mesmo dispondo-se arcar com as despesas em troca do direito de explorar o uso delas, através de taxas e pedágios.

Apesar da não permissão exploratória, na realidade apenas a oficialização de trajeto já existente em terras particulares das famílias Taques, Paes de Abreu e aparentadas, usuárias do percurso desde Vacarias, passando por Lages e Campos Gerais até Sorocaba.

A história reconhece que, desde 1736, tal parte transitada seria o percurso maior da futura estrada Viamão [RS] a Sorocaba [SP], enquanto outros caminhos atribuídos aos índios guaranis, depois usados pelos jesuítas, ligavam Vacarias até Sacramento [hoje território do Uruguai] e daí a Córdoba [Argentina], sendo estes os trechos interligados que formavam a rota do contrabando de tropas muares.

O rei português teria fortes motivos para vetar as pretensões do bandeirante, primeiro porque tais autorizações permitiriam, oficialmente, avanços e domínios de Portugal em terras da Espanha, embora sabidamente fazendeiros e sesmeiros de Ilha Santa Catarina e Laguna já explorassem quase a totalidade das terras do Rio Grande do Sul [então espanholas]. Por razões outras, também, a estrada de Sorocaba ao sul da Colônia feria os interesses monopolistas dos comerciantes que exploravam transportes de gados e tropas através dos portos.

  • Em 1772/73 se concretizou o ultimo trecho da estrada real Sorocaba-Viamão, num trajeto praticamente o mesmo concebido e solicitado [em 1720] por Paes de Abreu. Já não existia mais Tordesilhas e o transporte terrestre, de gados e tropas, mostrou-se mais econômico e em maior quantidade que pelas vias do mar.

Apesar da licença negada para abrir a estrada pretendida, gentes de Bartholomeu Paes de Abreu transportavam contrabando de muares até Sorocaba, e desta às Minas Gerais e Rio de Janeiro, por estradas oficiais com fiscalização para se coibir traficância, além dos altos pedágios e taxas para se transitar por elas.

Para evitar gastos o bandeirante optou por rota alternativa pela antiga Peabiru, de Sorocaba a Botucatu, onde já instalada a Fazenda Jesuítica sob reitoria do parente Padre Estanislau de Campos [Bicudo], de lá seguir para os lados do rio Tietê, onde os portos de Lençóis e Potunduva, para prosseguimento do outro lado do rio às Minas Gerais passando por Jaú, São Carlos e Franca, terras todas sob domínio familiar. Nunca ficou esclarecido se os jesuítas participavam efetivamente do contrabando, mas era através deles que se conseguiam muares da criação dos padres da mesma Ordem em Córdoba [Argentina].

  • Anos depois, com as oficializações da estrada Viamão – Sorocaba e, nesta ultima, a Feira Anual de Muares, consequentemente com as cobranças de taxas e pedágios que encareciam os preços dos animais, muitos tropeiros se desviavam do caminho oficial para entrar em território paulista por Piraju, rumo a Serra Botucatu, para o percurso final. Era a rota do contrabando.

Fracassado em seu intento da estrada sul, em 1721 Paes de Abreu requereu à Câmara Municipal de São Paulo, conforme antes referido, permissão para abrir caminho entre Sorocaba e Cuiabá, com aproveitamento de parte da Peabiru até a Serra de Botucatu, daí a Paranan-Itu de acordo com percurso atrás mencionado, depois chegar às margens do rio Paraná para transpô-lo e seguir a Cuiabá.

O próprio Paes de Abreu fundara então uma fazenda para gado e agricultura às margens do rio Paraná – onde melhor acesso para sua transposição, levantou local de comércio, pouso e currais, sob os cuidados de agregados, para atender entradistas e bandeirantes buscadores de riquezas. Era forma não só de explorar estadias e travessias de rios, mas, sobretudo forçar o governo de São Paulo, ao menos em parte, concretizar seu plano de abrir a estrada, às próprias expensas, desde que pudesse exercer monopólio de fornecer gado para a região das minas, de Mato Grosso e dos “Goyases”, mais a exploração de taxas e pedágios, inclusive das passagens nos rios.

Sem aguardar as considerações finais do governo o sertanista iniciou infra-estrutura da obra e já avançava oitenta léguas adiante de Sorocaba, quando soube aquela concessão dada ao seu parente bandeirante Gabriel Antunes Maciel, descobridor – juntamente com Páscoal Moreira Cabral, das minas de Coxipó – Mato Grosso, em 1718. Houve séria disputa entre os interessados, com a desistência de Gabriel, sem recursos para ressarcir os gastos de Bartholomeu.

O governo repassou a concessão para Sebastião Fernandes do Rego, Provedor dos Quintos da Real da Fazenda de São Paulo, celebrizado por roubar o ouro que ia para Portugal e substituí-lo por chumbo, além do assassinato de um membro da notável família Lemes. Perdeu os direitos daquela estrada sem ter avançado nenhum palmo adiante.

  • "Sebastião do Rego está obrigado á Fazenda Real, não só pelo crime da chave falça, como por ter fundido barras de ouro, e, alem do mais, pelo Roubo dos quintos reaes (...)" conforme citação Documentos Interessantes para São Paulo – Volume 40, em obra de Paulo Setúbal, os Irmãos Leme, Coleção Saraiva – volume 4, Saraiva Livreiros Editores, 1950.

Diante disto, em 1737 Paes de Abreu reclama e requer do Governo de São Paulo se digne acatar sua reivindicação, de acordo com registro em Livro Ata da Câmara Municipal de São Paulo [Senado da Câmara], com a seguinte transcrição:

 “Diz o Capitão Bartholomeu Paes de Abreu, cidadão desta cidade de S. Paulo, que tendo elle suplicante entrado nas campanhas das matas que ha entre os rios Anhemy e Paranapanema pelo Districto de Sorocaba afim de explorar a parte mais conveniente para se fazer caminho para as minas de Cuyabá o que obrou com auctoridade de Senado da Câmara desta cidade, em ausência de V.Excia, de que tudo deu conta a V.Excia e fez a maior parte do Caminho que pode ser útil e passando a serra de Ibyticatu para diante da passagem do rio Jacory buscou o Rio Grande entre o rio Aguapehy e Uguray onde se acha com roça de mantimento e com 268 cabeças de gado que deixou e gente e com esta vantagem obrando com seu desvello e despendio de mais de dois mil cruzados e se oppoz a factura do dito caminho com as condições incertas no seu requerimento que tem na secretaria V.E. e porque havendo outros interessados, teve noticias que V.Excia. hontem que se contaram 6 do presente mez de Janeiro fizera consulta e se resolvera a favor de Manoel Godinho Lara excluindo a elle supplicante pela conveniencia que w entendeu o faria o supplicado sem m achar Bile supplicante presente para ver m podia fazer com a merca conveniencia ou melhor. B porque cite supplicante determinou ~ ter o dito caminho o= se ruem= condições que forem recebidas ao supplicado a ainda o supplicante fará com menos tempo porque w finar obrigar a dar o dito caminho feito ali a ultimo de Agosto de anho premiste e e metter a goda em 5 anos pelo principio que tem dado, polo w acha com gente gado e plantas na vizinhança do Rio Grande para fazer o dito caminho no tempo dito e rio é justo se appossasse o supplicado do trabalho do supplicante porquanto promette vir do rio Grande de certa altura e sempre tia de vir a dar no mesmo caminho do supplicante e sair na sua picada, aproveitando-se do trabalho já feito, o que todo facilmente se pode conhecer pelas pessoas experientes nas campanhas e por que parte pode o mesmo caminho ser trate, til que qualquer que De amigue sempre será na mesma confrontação do supplicante e com mais ora menos differença, portanto pede a V.E. que atendendo ao referido trabalho e da despesa já feita e ser o primeiro que entrou nesta diligencia lhe faça more= de nova consulta, ouvido alta supplicante mala Dom o concurso de pessoas experientes e pratica nas ditas campanhas se necessário for, concorra o supplicado para que se determine o mais conveniente ao intento do dito caminho suo o supplicante reter e fará com menos tempo que o supplicado e coes a mesmas utilidades do bem comum com prejuízo da fazenda real e suas prerrogativas e regalias debaixo da mesma fiança que tenho offerecido de 50 mil cruzados para que quando não obro o que promette mo faça a casta de ricaça que assignaram catre fiadores o Capitão Mor D. Simão de Toledo Piza, o Capitão Mor Bodo de Toledo Pisa, Diogo de Toledo Lara, Antonio Pinto Guedes, José Alves Fidalgo e José Monteiro p~ conhecidas nesta cidade”. 

Deste projeto de Paes de Abreu em terras paulistas restou o picadão, logo encoberto pela mataria até que, em 1771, Morgado de Mateus determinou reabertura, concretizada desde Botucatu até a Barra do Pardo no Paranapanema, sabendo-se de sua utilização pelo menos até a região de Santa Cruz do Rio Pardo. Veremos.

Se não conseguiu sensibilizar o governo e a estrada não lhe saiu, conforme pretendido, Paes de Abreu buscou rota alternativa numa outra estrada, da Serra Botucatu às margens do rio Paraná, com aproveitamento de partes já existente até Lençóis. Pouco se sabe desta estrada, adiante dos Campos de Avanhandava, sendo certo que Bartholomeu Paes de Abreu manteve seus negócios na região do rio Paraná, posto haver recebido contrato de obter porcentagens das novas minas descobertas em Mato Grosso [Cuiabá], e direitos de explorar passagem no rio Paraná.

Do assunto socorre-nos mencionado texto do Relatório de Gentil Moura, pela Comissão Geográfica e Geológica do Estado, ao governo de São Paulo:

“(...) há docu­mentos officiaes dos quaes se póde concluir que esse sertão já foi em parte povoado e que em 1737 quizeram abrir um:t es­trada que, partindo de Sorocaba, subisse a Serra de Botucatu, e d'ahi atravessasse o rio Lençóes, indo por um dos contrafortes da Serra de Agudos sahir no rio Paraná. Cerca de 37 annos depois, quando Sá e Faria por lá passou, encontrou já em ruinas um dos sitios talvez formado na epocha da abertura da estrada. Essa estrada é referida no mappa do [rio] Paraná, de Sá e Faria, em frente á barra do Rio Pardo, onde além da convenção ainda vem a seguinte nota: ‘Caminho que se abriu para Sorocaba’. A petição de Bartholomeu Paes de Abreu refere-se ao ponto em que a estrada deve sahir no Paraná no mesmo local que Sá e Faria a colloca”.

O projeto original desta estrada teria trajeto não tanto diferente da rodovia Marechal Rondon, percurso a partir de Botucatu ao rio Paraná, iniciada em 1923. Para a questão de pontos diferentes do término da estrada, é possível que a anotação de Sá e Faria, colocando seu final em frente ao rio Pardo, na verdade se referia ao percurso projetado em 1722, pelo Vale do Paranapanema, detalhe não acompanhado pelo relator Gentil Moura em levantamentos oficiais nas regiões do Feio/Aguapeí, Peixe, Tietê e Paraná.

RETOMADA AOS PRIMEIROS ARRANCHAMENTOS EM TERRAS JESUÍTICAS

Outro antigo povoado seria Capão Bonito, inicialmente um bairro rural jesuítico que se manteve povoação mesmo depois da expulsão dos padres e confisco da Fazenda [1759/1760], discutível, todavia, se é o mesmo bairro ou não que aparece sede da Fazenda Monte Alegre, por volta de 1840, citado por Olavo P Godoy (12).

Em 1916, Capão Bonito se tornou Rubião Junior, não se sabendo outra denominação oficial, talvez Ribeirão Cachoeira, um lugar de pouso também conhecido por Capela de Cima da Serra de Santo Inácio, algumas vezes citados em relatos regionais.

É bem possível que antes de existir São Bom Jesus do Ribeirão Grande, Capão Bonito já fosse ponto de parada no entroncamento de caminhos, um deles a levar para as margens do Tietê – Porto de Lençóis, outro ao rio Paranapanema, abaixo da Paranan-Itu, o mesmo trajeto que Bartholomeu Paes de Abreu postulou em 1721, para abertura oficial de estrada, mais propriamente seu prolongamento e melhorias de trechos existentes.

Assim a proceder, Capão Bonito seria ponto de passagem e pouso, às margens da velha Peabiru pelo alto da Serra Botucatu, trecho conhecido por Caminho da Serra de Santo Inácio, de onde prosseguia originariamente a Abaré-y, pelos lados de Avaré (13).

Em relatos regionais de São Manuel (14) constam outros povoados, mais propriamente bairros rurais dentro da propriedade jesuítica Botucatu, a exemplo de Pedra Ferro, local onde encontrada as ruínas de antigas construções, formas de blocos de tamanhos diversos em rochas trabalhadas, com identificação de ruínas de um grande reservatório de água e de outras obras como a igreja e a casa de passagem dos padres. As rochas, inexistentes no local, foram trazidas por índios pacificados de uma outra localidade, denominada Quebra Potes.

Dentre as velhas tradições “conta-se existir na tal Pedra de Ferro uma furna, contendo riscaduras e hieróglifos que, se reais e decifrados, talvez dessem elucidação a muitos fatos” (15). Verdades ou lendas regionais, os antigos diziam tratar-se de um fojo que teria existido naquele território, cuja abertura se perdeu nalgum desmoronamento. 

Não existem outras referências a Pedra Ferro senão os restos encontrados, além da toponímia evidente de sua própria formação geológica.
Assim como Pedra Ferro, apenas algumas ruínas atestavam a existência de Quebra-Potes; hoje nem isto e até sua localização exata se perdeu no tempo, com o desaparecimento dos habitantes mais velhos da região.

Sabe-se, no entanto, que um pouco adiante onde foi sua parte residencial, estava o lugar em que foram retiradas as pedras para construções em Pedra Ferro e edificações no próprio povoado. Nas conformações rochosas presume-se onde poderia estar ou não o dito povoado. 

A história permite-nos entender a presença de índios pacificados em Quebra Potes, quando a eles se refere, pelo menos no transporte dos blocos de rochas até Pedra Ferro, “transportados das imediações da Fazenda Quebra Pote, onde é encontrado idêntico minério, por silvícolas domesticados, desde que o areão dificultava a utilização de outro meio de transporte” (16).

A concluir destes fatos, não é errada a ilação de Quebra Potes tratar-se de possível aldeamento indígena.

Em Serrito, outra povoação em terras jesuíticas, foi achada “cacos de utensílios manufaturados com argila e vestígios de ter sido a terra cultivada, confirmadas as lavouras por restos de engenhos para fabricação de açúcar e aguardente que os jesuítas forneciam às monções em trânsito pelo rio Tietê, peças históricas consumidas pelo tempo” (17).

Uma outra localidade, denominada Quilombo (18), abrigava grupos étnicos africanos que buscavam proteções junto aos padres. Pelo próprio significado do nome Quilombo, trata-se de uma povoação ou espécie de territorialidade negra consubstanciada num bairro rural, originário de concessões jesuíticas para policultura e criação de gado.

Não se pode afirmar exato tratar-se de negros foragidos, pois os padres também tinham escravos negros na Fazenda Botucatu, como se pode ver num documento da Ordem Jesuítica – Informação Econômica (19) e certamente em nada lhes seria recomendável esconder negros fugitivos em sua propriedade.

Certamente pode se conjeturar de negros desajustados com seus patrões, alforriados ou escravos recebidos por doações. De qualquer forma, os denominados quilombolas firmaram residência naquele enclave comunitário, com autorização dos padres para desenvolvimento de atividades agro-pecuárias, outros ofícios e artesanatos revertidos aos padres.

Dentre as tradições populares sobre a Fazenda dos Padres, “Uma das lendas, passa-se no Bairro do Quilombo...”, (20), onde os jesuítas teriam enterrado seus tesouros antes de abandonarem a propriedade em 1759/1760, e por isso o local foi, posteriormente, arrasado pelos caçadores de tesouros, bandeirantes e entradistas.

Ainda não se pode explicar um arraial apenas para negros nos povoamentos jesuíticos, pois a exemplo de outros quilombos “a população não se resumia a negros africanos. A presença de índios nos quilombos era significativa...” (21), e nisto se sabe que na Fazenda dos Padres o elemento negro desde logo se mesclou com o índio, cujos descendentes [cafuzos] eram incentivados a uniões sempre com os mamelucos, [nascidos de brancos com índios], para a formação de nova raça com a força do negro, a liberdade do índio e a capacidade intelectiva [considerada então superior] do branco.

  • Esta tendência era vista em todas as administrações povoadoras jesuíticas, com populações de tipos distintos e variados das três raças formadoras, que nas possessões religiosas futuramente poderiam participar como meeiros, arrendatários, ocupantes autorizados e que futuramente poderiam ser donos de datas e dirigidos a outras profissões, inclusive aquelas que requisitam estudos mais avançados. Sem dúvidas os padres ainda mantinham o velho sonho de um estado teocrático. Não bem especificamente dirigida ao negro, mas aos descendentes. A língua oficial de entendimentos entre os habitantes dos bairros era o nheengatu – de tronco tupi, já gramatical, ensinada pelos padres. Os negros, de diferentes etnias, não tinham nenhum sistema lingüístico que os pudessem unificar.    

Estreito, outro povoamento em terras dos padres, com os mesmos propósitos agro-pecuários dos demais, foi totalmente pilhado e destruído porque em seu território presumia-se uma grande caverna, em câmeras, que servira de esconderijo para os tesouros dos jesuítas. “Essa caverna, segundo consta, teria sido morada dos Padres Jesuítas [local de passagem]. Poderia o tesouro, estar por lá também...” (22).

A própria geografia do local estimulou, inclusive, elaborações de mapas onde estariam os tesouros, alguns vendidos como originais ainda em pleno final do século XX.

Em Três Pedras existiu um aldeamento indígena sob cuidados dos padres. Uma lenda diz quando da perseguição reinol, já com a certeza da expulsão, alguns jesuítas encarregados de guardar os tesouros se refugiaram em Três Pedras.

Aqueles padres teriam escondido, numa caverna da região, grande carregamento de ouro, fechando sua entrada. Traídos pelos aldeados botocudos acabaram mortos e, com eles, se foi o segredo onde estavam ocultas as riquezas dos jesuítas expulsos, que pretendiam um dia retomarem controle da grande propriedade e reaver os seus pertences.

Buscadores de tesouros arrasaram a localidade à procura de indícios que os levassem aos esconderijos, ou ao menos que alguns mapas fossem localizados. 

Consta que a entrada do esconderijo tenha sido encontrada por um rapaz da cidade de Conchas, de família humilde, “que há muitos anos aparecia todo o mês nas Três Pedras, passava lá a cavar uns dois dias, saía com algumas pedras na mão e depois andava a gastar como um milionário. Mas o rapaz um dia desapareceu, nunca mais voltou, dele nunca mais se teve notícia” (23).

Obrigados explorar a terra, os jesuítas a fizeram através dos colonos instalados dentro da própria Fazenda, em bairros rurais às margens de rios e ribeirões. Os jesuítas ao assumir controle das sesmarias, concomitante receberam compromissos de catequizar e disciplinar os índios, em aldeamentos próximos de núcleos residenciais, impondo-lhes jornadas de trabalho intensivo. “Pela primeira vez na região [Botucatu], por conta da instrução da Companhia de Jesus, erguiam-se ranchos sem a mera função de abrigo transitório e fixavam-se, para residência e trabalho continuado, entre dez e 20 moradores, índios administrados e seus familiares” (24). Tais índios administrados, denominados índios de repartição (25), sem dúvidas foram presentes em aldeamentos dentro da Fazenda Jesuítica Botucatu, infelizmente perdidos em números e localizações.

Sob a guarda dos padres, os índios se colocavam livres da escravidão e da preação. No entanto se podem constatar, pelo regime de trabalho de longa duração imposto ao nativo, que os padres não lhe tinham somente interesses espirituais ou de proteção, mas também econômicos, em especial “os jesuítas que fundaram várias fazendas de gado e de exploração agrícola” (26), sendo o custo da mão-de-obra nativa bastante barata, a troco de ninharias, tabaco, álcool, pois até a alimentação a natureza lhe oferecia.

A organização econômica para a Fazenda Botucatu, pelos tantos bairros rurais vistos, determinava sua divisão em áreas distribuídas por atividades, predominando a do gado, sem exclusões das lavouras diversificadas, gêneros de primeiras necessidades, além do plantio da cana, do algodão, do tabaco e das criações de muares, eqüinos, suínos e aves; teciam panos, destilavam cachaça, curtiam peles e couros, fabricavam o açúcar, salgavam a carne, faziam conservas diversas – doces e salgadas, embutidos e cozidos conservados em banha, e laticínios – queijos e requeijões. Os frutos da terra se multiplicavam, exportavam mercadorias, os padres lucravam e a Ordem enriquecia.
Os lucros investidos na agricultura destinada ao comércio externo e não somente para o consumo, mais o comércio de gado e tropas, abriram oportunidades para a chegada de mais pessoas à região, com arrumações de outros povoamentos interiorizados. Documentos da Ordem (27) indicavam sucessos do empreendimento a permitir novas frentes [fazendas] de sete e dez léguas de terras, para invernadas e agricultura, instalações de currais e, conseqüentemente mais bairros para moradias de empregados necessários, “ainda que escravos” (28).

Da Fazenda Boa Vista, como conhecida a Fazenda Botucatu, “Quanto à sede, local dos currais e dos ranchos moradia, a tradição e a toponímia situam-nas junto ao rio Santo Inácio, numa fazenda ainda chamada Boa Vista, nome com que, depois do confisco pombalino, foi levada à hasta pública a propriedade dos jesuítas” (29), arrematada, aos 23 de dezembro de 1766, pelos sorocabanos, Capitão Paulino Aires de Aguirre e o Sargento-Mor Manuel Joaquim da Silva e Castro.

Os arrematantes não conseguiram posse imediata da Boa Vista, pela feroz resistência imposta pelos índios aldeados e ocupantes das terras, tomadas apenas em 1770, pelo Coronel Francisco Manuel Fiúza, e entregue aos novos proprietários que mandaram construir uma capela em honra a Nossa Senhora das Dores, como nova denominação dada à sede da fazenda desde o arremate em 1766. Os donos residiam em Itapetinga e a fazenda foi divida em porções menores e postas à venda com bons lucros, ainda no tempo dos arrematadores.

Alguma razão determinou que a Fazenda Boa Vista ou Santo Inácio não representasse toda a Fazenda Jesuítica confiscada, senão parte menor dela, mais precisamente o Alto da Serra. “No ano de 1759, com a expulsão dos jesuítas, as terras passaram a pertencer a Estanislau de Campos Arruda, de Itu, que passou a ter três sesmarias, e as terras da direita vinham dar em Avaré, Bofete e Porangaba...” (30). Aparentemente Padre Estanislau entregara apenas Boa Vista à Ordem, a manter demais partes em seu nome ou de parentes, ainda a caber pressuposto que as tensões entre o Estado e os Inacianos, a partir de 1750, tenham motivado o reitor transferir maior parte dos bens para os familiares.

Das terras de Estanislau de Campos Arruda diz o pesquisador e escritor Paulo Fraletti: “também vi na relação, a formação da sesmaria de Estanislau de Campos Arruda, que chegava até o trecho de Porangaba e Pereiras, pois nos livros de registro de posses e terrenos (sítios) da Paróquia de Tatuí, de 1854 a 1856, existentes no Arquivo do Estado, encontrei vários terrenos comprados por carta particular, de Estanislau Campos de Arruda. (...). Estanislau de Campos Arruda existiam três...” (31), afora o Padre Tenente e Reitor da Ordem de Santo Inácio no Brasil, com o mesmo nome, sem o sobrenome Arruda.

Nas outras direções, “Na sesmaria que beneficiou a Antonio de Almeida Taques lê-se que o campo e a que se refere está da outra parte da serra que vai para o Iguatemi(32); a costear a serra rumo ao sul, João Álvares de Araújo serviu-se de quinhão de terras “além do Rio Pardo, às margens do abandonado mas não de todo esquecido caminho do Iguatemi” (33). Taques e Araújo eram aparentados com descendentes dos Campos Bicudos, pelos Almeida e Álvares, e mesmo em linhagem direta (34).

Também João Pires de Almeida Taques, seus parentes, João Oliveira Pires, Antonio Augusto Leite Penteado, Francisco Pais de Mendonça e Jerônimo Pais de Proença, além dos herdeiros do aparentado Manuel Fabiano de Madureira, juntamente com o bugreiro Capitão ou Coronel Francisco Manuel Fiúza, foram agraciados com as novas terras do sertão, por ordens da Coroa, com a missão de mandar derrubar mato, abrir lavouras, assentar gentes e criar gado, para adiante da Serra Botucatu, em Terras de Bauru, Campos dos Lençóis até os Campos do Avanhandava, pelos caminhos do “Picadam” de Bartholomeu Paes de Abreu. (35).

Ainda, André de Souto Gurgel, outro vinculado à família Bicudo, fez posses ao leste e sudoeste adiante da serra, terras vendidas a Simão Barbosa Franco, fazendeiro na região de Itapetininga e Sorocaba. Simão fora encarregado pelo governo de São Paulo, [o Morgado de Mateus], fundar povoados na região de Botucatu (36), por isso a ânsia em comprar terras além de suas posses, para delas tirar proveitos e lucros.

 Hernâni Donato esclarece: “Lisboa obrigava os paulistas que serviam nas guarnições e nos trabalhos reais a procurar o sertão continuando as buscas dos bandeirantes ou abrindo lavouras. A um primeiro tempo essa gente foi reforçar as populações agrícolas de Sorocaba, Piracicaba, Tietê e Porto Feliz. À medida que encontravam ocupados esses espaços ou premiam os antigos moradores ao deslocamento sobre as terras novas do sertão ou iam, eles próprios, abrir lavouras e fazendas” (37).

  • Em meados do século XIX, descendentes e aparentados da família Campos Bicudo ainda possuíam propriedades na região, quase nada diante da outrora Fazenda Jesuítica Botucatu. 

Entre os anos 1830 /1843 a localidade Nossa Senhora das Dores de Cima [ou do Alto] da Serra, ainda mantém o mesmo nome, quando os latifúndios foram divididos em propriedades menores vendidas aos interessados, para assim atrair gentes de Parnaíba, Porto Feliz, Itapetininga e Sorocaba, entre outras localidades, uns empregados em novas e prósperas fazendas instaladas na região, outros a se aventurar em compras de lotes e assim trabalhar por conta própria, além dos ocupantes de terras vazias descobertas entre sesmarias.

Em 1843, o fazendeiro Capitão José Gomes Pinheiro Machado doou terras ao redor do povoado, para a instalação de futura freguesia, com mudança do nome local para Santa Ana [Sant’Ana] de Cima da Serra.

Em 1846 a localidade foi elevada a freguesia com o nome de Sant’Ana de Cima da Serra de Botucatu, logo reduzido apenas para Botucatu.

3. ADMINISTRAÇÃO JESUÍTICA, CONFISCO, DESPOVOAMENTO E REPOVOAÇÃO

3.1 ADMINISTRAÇÃO

Excludente talvez a habilidade dos padres em tratar com os gentios aldeados em suas terras, as demais causas em Botucatu estavam voltadas para o lucro empresarial, através da mineração, da criação do gado e das tropas, ou esta associação, da mesma forma que a comercialização dos excedentes agrícolas. Os jesuítas, diplomatas e excelentes comerciantes, ali, jamais foram bons missionários.

Para mover lucros e obter os excedentes era preciso trabalhar a terra organizadamente, em qualidade e quantidade, o que exigiria contingentes para mão de obra, conseqüentemente, mais moradias e povoados próximos às grandes lavouras e invernadas, com isso o incremento comercial para a população interna, exigente de produtos básicos e novidades de consumo.

Os arraiais jesuíticos, alguns deles postos estrategicamente pelos caminhos das minas ou rotas dos bandeirantes, foram fundados pelo espírito ambicioso e empreendedor dos padres, com “a esperança de que as fazendas seriam de boa ajuda... por estarem localizadas no caminho das minas e, portanto serem de venda fácil os seus produtos” (1).

Ao longo de suas terras os padres promoviam a policultura com grandes plantações de milho, feijão, mandioca, batata-doce, banana, cana-de-açúcar, arroz e algodão, além das criações comerciais de cavalos, bois, cabras, porcos e galinhas, cujos excedentes eram postos a vendas e trocas, tanto nos povoamentos [cidades e povoados] estabelecidos fora da fazenda, quanto em seus próprios assentamentos.

A prosperidade destas aglomerações vinha de conseqüências diversas, conforme suas próprias causas progressistas e dos trabalhadores envolvidos em atividades localizadas, como os vaqueiros, roceiros, mineradores, alambiqueiros, pescadores, carreiros, feitores e capatazes. Também eram contados entre os moradores de povoado os ferramenteiros, marceneiros, oleiros, construtores e artesãos.

Os povoamentos eram distribuídos em aguadas ou pontos estratégicos ao longo dos caminhos e das divisas, tanto para a eficiência produtiva quanto para manutenção do imenso patrimônio, conforme comprovam achados de cacos de utensílios manufaturados, vestígios de terras outrora cultivadas, além dos restos de artefatos e objetos do lar, que os moradores dispunham para si e às expedições em trânsito pelo sertão, peças consumidas pelo tempo, pelo abandono por mais de século das propriedades e construções, mais a destruição generalizada e as provocadas pelos bandeirantes e entradistas.

O fato de trabalhadores especializados, ou mesmo aqueles cujos serviços os permitiam permanecer no povoado, propunha segurança às famílias daqueles que necessitavam ficar temporadas longe delas. A que permitia a presença de famílias nos povoados era convite para vindas de outras gentes intencionadas para o trabalho.

Os moradores de cada povoado não ultrapassavam vinte moradores (2), talvez famílias nunca recenseadas oficialmente, ou contadas como gentes de Itapetininga.

Sem se afastar do principal catequético, são inegáveis que as explorações comerciais da propriedade e rendimentos auferidos, tornaram prósperos os padres, tanto pela administração e trabalho de suas gentes, quanto pelas inter-relações com povoações mais antigas e firmadas como centros e rotas comerciais.

Pode-se então dizer que o sistema econômico jesuítico em Botucatu repousava sobre bases capitalistas, isto é, visando lucros, porque os padres tinham o dinheiro, podiam trazer os implementos, possuíam a terra para ser explorada e empregavam mão de obra, com quem se relacionava também comercialmente, pois que eram dos padres os armazéns que ofereciam os produtos básicos para o consumo de seus empregados.

Embora os padres explorassem suas terras com mão de obra livre ou semi-escrava, como empregados, conforme assunto já exposto com as devidas referências, acredita-se que experimentaram o sistema de parceria no trabalho da terra, entregando-a aos meeiros, ou seja, aqueles que se ocupavam em produzir livremente nas propriedades que não eram efetivamente suas, mas num sistema divisional em dois quinhões iguais da produção, mais uma porcentagem combinada, aos proprietários, pelo uso da terra. Era um sistema mais ou menos comum na época, que fazia o trabalhador render mais, e os padres não se privariam desta modalidade. 

A economia da Fazenda voltada à criação de gado e produção de gêneros necessários para o abastecimento das diversas instituições da Ordem, principalmente o Colégio Jesuítico de São Paulo, se tornou eficaz para a seleção de excedentes postos a vendas para as expedições que faziam uso seguro dos caminhos jesuíticos. Em pouco tempo já exportavam mantimentos e cargas vivas.

Os inacianos sabiam que a região entre os Paranapanema e Tietê, a partir das divisas do Guareí até as barrancas do Paraná, desde o século anterior [XVII] vinha sendo palmilhada pelos caçadores de índios e buscadores de tesouros, parte por caminhos fluviais e parte por terra, esta em especial para conduzir indígenas aprisionados e evitar as corredeiras e saltos. O uso de animal de carga para transporte de mercadorias aliviava ombros escravos, e podiam ser feito em maior quantidade, com mais rapidez; de Paranan-Itú a Botucatu, treze dias, e mais oito de Botucatu a Sorocaba.

  • O padre jesuíta Luiz Gonzaga Cabral, mencionando Aleixo Garcia [século XVI], confirma estradas terrestres e fluviais para interiorizações, que os padres [jesuítas] “abriram as estradas de Santos a São Paulo e mais outras para o interior, especialmente uma por Botucatu até o aldeamento do Paranapanema com comunicação fluvial para Mato Grosso” (3), portanto entre 1608 a 1628, a tratar-se sabidamente da senda Peabiru.

Livres de quaisquer embaraços os padres conquistaram controles das principais rotas rumo aos sertões, com estabelecimentos de pousadas, currais e entrepostos de vendas de gado e produtos derivados como a carne, embutidos e laticínios, do extrativismo da terra, dos excedentes agrícolas e subprodutos como doces e conservas. Outros tantos sobejos eram distribuídos em centros consumidores, cuja opção se tornou fonte de renda adicional da fazenda Botucatu, evidentemente ao lado da mineração que oficialmente lhes era proibida. 

Os negros, muitos deles, certamente chegaram fugidos e encontraram a proteção dos padres que, na verdade, conseguia-lhes manumissão por compra, antes de empregá-los num sistema de semi-servidão igual aos nativos. Do ponto de vista do negro, tratamento muito mais humano que a escravatura.

Todos os habitantes habilitados para o trabalho tinham por obrigações participar do bem estar social e comunitário da Ordem, contribuindo com seu labor determinados dias da semana, numa espécie de atividade coletiva, reservando, todavia para si e sua família outros dias para as roças de família ou da comunidade. Foi esse o sistema de trabalho jesuítico às margens do Paranapanema e outras localidades.

Alguns bairros mantinham pequenos engenhos de cana para a produção do açúcar, alambiques para a cachaça, monjolos e alguns incipientes, porém eficazes, sistemas de beneficiamentos de grãos e cereais, com os quais detinham prioridades de vendas de suas produções, através dos padres ou vendas avulsas, sempre com melhores qualidades para o comércio.

Das atividades do trabalho comunitário as famílias quase sempre conseguiam formar pequenos excessos, assim a exercitar certas relações comerciais de vizinhanças, já como unidades sociais de ações mais complexas que relações próprias de bairros rurais, assumindo características de pequenas vilas ou arraiais, com certa independência da localidade sede. São Bom Jesus do Ribeirão Grande e Capão Bonito foram exemplos de localidades progressistas.

Padres visitantes compareciam de tempos em tempos nos povoados periféricos, onde exercitavam autoridade em primeira instância junto aos moradores. As visitas esporádicas de algum religioso sempre se davam em meio a grandes festas de batizados, crismas, casamentos, quermesses e se lavravam os óbitos ocorridos. Os documentos oficiais eram conduzidos à sede para arquivamento oficial.

O centro administrativo da Fazenda Jesuítica aparentemente funcionava como paróquia mãe das pequenas capelas erguidas nos povoados, assim a cuidar oficialmente das guardas e expedições de registros e documentos de todos seus habitantes, e seria, ainda, centro de ensino escolar, religioso e das artes de ofícios de carpintaria, tecelagem, construções e olaria entre outras. Pelas características e informações regionais vistas em referências citadas, presume-se que Sobrado tenha sido esse centro administrativo, embora se possa apontar a sede de Guareí como a Casa Oficial dos Padres, depois de certo tempo.

A Fazenda Botucatu espelhou sua administração agro-pastoril e mineração, em outros empreendimentos remotos dos padres, das casas, colégios, empreendimentos e aldeamentos que “apresentavam certos traços comuns, o que não poderia ser diferente, uma vez que os jesuítas deveriam trabalhar sempre de maneira uniforme com vistas à universalização de seus resultados” (4). Exemplo disso estava a Fazenda Guareí, mais antiga, bem às suas divisas, além de outras que experimentaram fracassos e sucessos, como a propriedade às margens do rio Comprido, entre os atuais municípios de Jacareí e São José dos Campos, iniciada a partir de 1590, que se transformou numa missão catequética, de forte oposição aos preadores de índios e agricultores que faziam uso da mão de obra escrava indígena, cuja guerra entre colonizadores e padres culminou com a expulsão dos jesuítas, em 1640, e a conseqüente dispersão dos aldeãos.

  • Os padres para lá retornaram, alguns anos depois, num novo local para nova missão catequética e núcleos habitacionais, desta feita como fazenda de gado, cuja sede denominou-se Residência de São José, como organização urbana daquilo que formalmente se dizia aldeia, a exemplos de outros povoamentos naquela propriedade como a Residência do Paraíba do Sul (5)

A organização urbana de aldeias jesuíticas teve por responsável o padre Manoel de Leão que, a partir de 1663, assumiu controle administrativo à frente das fazendas jesuíticas, desde São Paulo (6), com a fundação de núcleos residenciais, como forma de povoar a terra, garantir a posse pacífica e nela fixar famílias. Tal modelo, adotado por regra geral da Ordem no século XVIII, foi o posto em prática para a Fazenda Botucatu a partir de 1719.

Os padres se fixaram numa zona preferencialmente indígena, os índios gostavam da cuesta, pois ela lhes dava segurança aparente, mas isto tudo lhes foi tomado e os impeliram para exercer trabalhos em troca do necessário para subsistência, cientes seus dominadores que a eles não interessavam fugir de seus protetores e empregadores, sob pena de caírem em mãos de preadores e levados para locais distantes de suas origens, quando não dizimados.

De uma forma ou outra entendemos que o jesuitismo se tratou de cultura invasora destrutiva aos valores nativos, tornando-os à mercê dos contingentes humanos brancos, que chegavam para ocupar suas terras, obrigando-os a uma convivência forçada ou expulsando-os para mais distantes, onde certamente se defrontariam com outros inimigos ou viriam se sentir indefesos.

Nos anos 1750 a Fazenda Jesuítica Botucatu mostrava-se devidamente integrada aos principais centros habitacionais, São Paulo, Sorocaba, Itapetininga, Itu e Porto Feliz, além do comércio exterior, ciente que a prosperidade sem dúvidas atrairia fluxo humano para a região e a cobiça do governo.

3.2  A EXPULSÃO DOS JESUÍTAS E CONFISCO DOS BENS

As relações dos jesuítas com o Estado se deterioraram a partir de 1750, pelo apoio à resistência dos índios missioneiros em se transferir para terras da coroa espanhola, pelos termos do Tratado de Madri que definiu a posse das terras ocupadas por Portugal e Espanha.

Para o Ministro Marquês de Pombal, os jesuítas estariam se negando abandonar o complexo missioneiro Sete Povos das Missões, ao oeste do Rio Grande do Sul, insuflando os guaranis à resistência, e assim continuar com o controle sobre aquela confederação de estados teocráticos, formados pelas Missões espalhadas pelo Brasil, Paraguai e Argentina, não dando satisfações ao poder secular.

Historicamente são postas diferentes versões para o episódio expulsão dos jesuítas das terras do Brasil, exemplo que a Instituição Jesuítica se tornara demais poderosa, em condições de rapidamente se armar e fazer insurgir as gentes, que viviam sob sua tutela, contra a coroa, com apoio de estados estrangeiros, para assim conquistar a independência de Portugal e se transformar num estado teocrático.

Para o governo português e setores anti-jesuíticos da Igreja, que certamente se beneficiariam com o desfecho do episódio, os inacianos haviam criado uma estrutura econômica independente, que lhes permitiam posição mais crítica em relação ao sistema reinol.

Outra alegação dizia que as propriedades jesuíticas eram prósperas e ricas, onde os padres viviam nababescamente em detrimento aos demais moradores de bairros distantes e índios aldeados, que se encontravam na miséria e na servidão, para sustentação opulenta dos padres.

Exageros ou não, Pombal ab-rogou todo o poder temporal exercido pelos jesuítas em terras do Brasil, certamente para esconder os fracassos de Portugal quanto a execução do Tratado de Limites da Colônia do Sacramento, a culpar os jesuítas e contra eles desencadear desqualificações, até censurá-los por pregação religiosa, que o grande terremoto de Lisboa (1755) fora castigo divino, propondo penitência ao povo e ao governo.

Certas argumentações apontam os jesuítas acoitadores de foras da lei, de qualquer nacionalidade, em seus domínios no Brasil ou no exterior, usando-os por braço armado da Ordem, assassinadores por encomendas ou mandos, inclusive recaindo-lhes acusações de engendrar atentado contra o rei português Dom José I, crime considerado de alta traição.

A lei [de 1750] que retirava dos jesuítas a administração das aldeias e dava libertação aos índios, somente para o Maranhão, fez-se extensiva a todo Brasil por Alvará de 8 de maio de 1758, portanto quase um ano antes do Decreto real de 1759, o que bem evidencia relações estremecidas já existentes entre os inacianos e as autoridades portuguesas. Reconhecidamente tal medida foi desastrosa para os nativos.

Contudo foi oficialmente por desafiar e por em risco o poder português, que os jesuítas acabaram expulsos de todo império, por determinação do rei José I, com data de 20 de abril de 1759, por inspiração de Pombal o qual, para bom exercício e cumprimento do Decreto Real, com pulso forte seqüestrou todos os bens da Ordem, fechou-lhes os colégios e as missões, prendendo e expulsando a maioria dos padres, antes de decorridos os cinco meses concedidos para deixar o reino e colônias, não sem antes determinar arrasamento dos Sete Povos das Missões.

Ao todo foram expulsos 670 padres jesuítas, os principais metidos antes em prisões e postos incomunicáveis, privados de defesa, todos eles condenados e embarcados para Lisboa, onde alguns dos líderes mantidos encarcerados, enquanto outros transladados para os Estados Pontifícios de Roma (1).

Após a expulsão dos jesuítas do Brasil em 1759, todos os bens da Ordem: fazendas, colégio e aldeias passaram para custódia da Coroa, cujo capital serviu para sanar grande parte dos prejuízos de Lisboa. O maior dano causado foi no campo educacional, com a ruptura de um bem implantado sistema de ensino aos moldes europeu, cuja ruptura transformou num caos a educação no Brasil, por gerações e gerações, com tantas reformas frustradas até 1934, quando criada a primeira universidade em São Paulo.

O seqüestro da propriedade dos padres em Botucatu e o confisco dos seus bens, ocorreram aos 9 de janeiro de 1760, levados ao leilão público em 23 de dezembro de 1766, constando da relação pronunciada pelos executores a Fazenda Boa Vista de Botucatu, com todos seus pertences, sendo arrematantes aqueles citados Capitão Paulino Aires de Aguirre e o Sargento-Mor Joaquim da Silva e Castro, cuja transação consta nos Autos de Arrematação, Maço 400, folhas 2 Arquivo Nacional – Rio de Janeiro (2).

As autoridades, aparentemente, não conseguiram catalogar adequadamente a fazenda dos padres, durante seis anos pós-confisco, nem seus arrematantes alcançaram posse imediata, somente vindo fazê-la depois de 1770, com expulsão dos habitantes de alguns bairros em propriedade jesuítica, com limpeza étnica e social maior que a desocupação territorial.

Os moradores em bairros jesuíticos resistiram aos novos proprietários, muitos se embrenhando, isolados ou em arranchamentos temporários, os negros novamente arredios e os índios perigosos atacantes. A região se tornou conflituosa, os proprietários vicinhos abandonando suas fazendas e sesmarias.

3.3 DESPOVOAÇÃO

Os paulistas desbravaram os sertões além do Tordesilhas, às procuras do ouro e índios para escravização. Índios trouxeram-nos em grandes quantidades para abastecer o mercado interno e outras regiões que necessitavam de mão-de-obra escrava, Bahia, por exemplo; enquanto o ouro nunca foi fácil encontrar em seu próprio território, senão minas de Apiaí, Paranapanema e Caatiba, e em regiões do Paraná [português] – pequena parte do território atual, administrado pela Capitania de São Vicente.

Os paulistas, sabidamente, nunca respeitaram a linha divisória Portugal e Espanha, mas o ouro não era tão fácil encontrar em seus domínios, senão em Paranaguá e Guaraqueçaba, sob protestos dos espanhóis que insistiam o sul de Cananéia por marco de separação entre os dois reinos.

Com a dominação filipina, entre os anos 1580 e 1640, os bandeirantes promoveram expansão territorial bastante adiante de Tordesilhas, afinal Portugal e Espanha constituíam um só reino. A restauração da coroa portuguesa, em 1640, não significou retorno aos limites impostos pelo célebre tratado, afinal os portugueses e colonos brasileiros não encontraram resistências em permanecer ou entrar em partes de terras espanholas, pelas dificuldades da Espanha guardar território em suas posses nas Américas. 

Em 1680 os paulistas descobrem ouro em Minas Gerais, e para lá acorrem reinóis, os brasílicos e mamelucos de São Paulo, num intenso fenômeno migratório, com graves conseqüências sociais e econômicas, agravadas por interesses desencontrados que visavam controles das minas, com inevitáveis confrontos, de um lado os paulistas – e sua razão era justa, foram eles os descobridores das minas e do ouro, de outra os “reinóis, os baianos, os fluminenses e pernambucanos, todos os forasteiros, [que] consideravam as minas como propriedade do Estado [mais propriamente da Colônia], e, assim, eles como membros desse Estado [Colônia], com pleno direito poderiam aproveita-las” (1).

A Coroa não pensava assim, para nenhum dos lados, o ouro era todo seu, por isso a se fixar rápida e definitivamente nos locais de mineração, através de seus fiscais, para que não se desviassem as riquezas extraídas, daí a exclusividade real nas casas de fundições, para controle da produção e cobrança de impostos devidos pelos mineradores e proprietários de minas ao Erário Real. A Coroa impusera, ainda, cobrança de taxas sobre mercadorias que entravam nas regiões de garimpos, além dos pedágios sobre os direitos de travessias dos grandes rios. 

Os bandeirantes reagiram. Eles haviam ousado os sertões e desafiado os espanhóis ao romper a linha do Tordesilhas; enfrentaram os perigos do sertão e encontraram o ouro. “Deveriam ser por isso mesmo os primeiros, ou os únicos, a aproveitarem-se dos descobertos” (2).
A Coroa, além de contar com os patrícios, rapidamente requisitou mercenários para abaterem paulistas a traições, além de armar os reinóis com poderosa artilharia, para assim promover sangrento conflito contra os de São Paulo com suas armas obsoletas.

Ainda, outros interesses estiveram em jogo; a disputa pelo monopólio do comércio de gêneros alimentícios, por exemplo, gerava desentendimentos com os habitantes das Minas, que pretendiam ver garantido o abastecimento dos seus arraiais. A Coroa, que impusera a cobrança de taxas sobre toda mercadoria que entrasse nas Minas, enfrentava problemas também para reprimir alguns emboabas que contrabandeavam gêneros alimentícios.

O sangrento conflito – A Guerra dos Emboabas [1708 a 1709], em que o medo, as traições e as vinganças pontuavam como poderosa artilharia, ao lado de pistolas, facas e setas, terminaram em 1709, com a expulsão dos paulistas da área, abrindo a possibilidade para a ação da Coroa portuguesa naquele território. Formava-se a região das Minas, com total autonomia da Capitania de São Paulo, ainda que a esta vinculada por força legal.

Desde o acontecimento da Guerra dos Emboabas, nem o ouro extraído passava mais por São Paulo para embarque pelo Porto de Santos e com isto a cessar o pagamento de taxas, pedágios e embarques, sempre uma receita aos cofres paulista. Agora o ouro seguia direto para o Rio de Janeiro, por caminho de Minas a Parati, onde embarcado para o exterior. 

São Paulo beirava o caos, pois todas tais circunstâncias causaram-lhe deficiência agro-pecuária e incapacidade para produção de bens exportáveis, e até seus governantes passaram residir em zona de mineração [Mariana – MG]. Ainda em 1709 “chegou mesmo José de Góis Morais a propor a compra da Capitania de S. Paulo e São Vicente por 40.000 cruzados, no que não consentiu D. João V [Rei de Portugal], comprando a mesma por esse preço. São Paulo passou nessa época a ser Capitania independente e Piratininga substituiu S. Vicente como sede, sendo elevada à categoria de cidade” (3). São Paulo e São Vicente, desde então, uma só Capitania, bastante pobre.

D. João V resolveu incrementar: criou a Capitania de São Paulo e Minas de Ouro aos 9 de novembro de 1709, abrangendo o território de Goiás. Numa ousadia e reconhecimento aos bandeirantes e entradistas, o monarca português resolveu acrescer em mesmo ato de 1709 os territórios de Mato Grosso, Paraná, Santa Catarina e São Pedro do Rio Grande do Sul, sob jurisdição administrativa de São Paulo, mesmo ciente que os paulistas estariam a ocupar, na verdade, território espanhol (4).

Com tais medidas, São Paulo apresentou sinais de recuperação econômica devido aos novos mananciais auríferos descobertos primeiro em Mato Grosso, depois Goiás, para logo se voltar para as Minas Gerais dispostos à desforra, com propósitos de escorraçar os reinóis e demais forasteiros, para reaver suas minas metalíferas, adquirir jazidas em produção e descobrir outras, para assim incrementar maior produção.
 Ainda que pouco tempo decorrido da Guerra dos Emboabas, menos de uma década, Minas Gerais apresentava problemas caóticos como faltas de escravos, de animais de carga, de utensílios, além das dificuldades de abastecimento, agravado com o contrabando dos emboabas que retiravam partes da margem do lucro português na produção do ouro. Outro fator ainda considerado, a saída de sua mão de obra para as novas minas descobertas em Mato Grosso e Goiás, pois os mineradores livres, em grande parte mamelucos de São Paulo, preferiam trabalhar com os paulistas que se sujeitarem aos emboabas.

A partir de 1718, com a presença paulista novamente em Minas Gerais, ganhou curso um forte sentimento separatista que seduzia os mineiros. Os paulistas pretendiam separar-se do restante da colônia, juntamente com Minas Gerais, alvo de seus investimentos em compras de zonas inteiras de mineração e recuperações de outras.

D. João V, alertado, aprovou em 1720 o desmembramento definitivo de Minas Gerais da Província de São Paulo; houve traições e tal separação retirou todo o dinheiro paulista aplicado em Minas, num processo de estatização da exploração do ouro ou sua entrega em mãos de consorciados, além do desarmamento da população de São Paulo, medidas suficientes para sufocar as pretensões de emancipação.

São Paulo estava, portanto, desinteressante quando da chegada jesuítica na região de Botucatu, por volta de 1720, com algumas idéias inovadoras, como as grandes fazendas com suas lavouras e invernadas para criação de gado, ao mesmo que a família Campos Bicudo e parte da parentela resolveram investir, também, em lavouras e criação de gado em terras do sul, além de facilitar aos jesuítas caminho seguro, por entre suas terras, para o contrabando de gado vacum e muar, da Argentina até Botucatu.

A intenção posta em prática estava em criar e levar animais para zonas de mineração, livremente para Goiás e Mato Grosso, clandestinamente para Minas Gerais de onde traziam o ouro, contrabandeado, para fundição em seu território, com isto a concorrer diretamente com a Coroa.

Entre os Campos [Bicudo] tudo se arranjava fácil, havia interesses mútuos, as terras da família vinham desde o Sul – onde divisavam com os jesuítas da região, e subiam rumo a Sorocaba, pendiam pelos lados de Botucatu e Lençóis, avançavam Jaú, São Carlos e Franca, para enfim se chegar a Minas Gerais.

Minas Gerais, rica em ouro não tinha lavouras nem criações de gado, assim a depender de comércio externo para abastecimento de suas gentes. Em breve os padres lhe fariam chegar mercadorias para consumo, além dos muares para o trabalho de transportes.

Os contrabandos de muares de São Paulo para as zonas de mineração e o ouro de Minas Gerais para São Paulo, passavam sempre pela Fazenda Jesuítica de Botucatu, fenômeno perceptível pelos rápidos avanços e enriquecimentos da Ordem dos Padres e dos Campos Bicudo, em valores bastante elevados para apenas vendas de produtos agro-pecuários, cujas atividades exigiam tempo e muito trabalho para produção em alta escala e retorno esperado.

Em 1721 os paulistas fundaram Cuiabá e, em 1723, Vila Boa de Goiás. As novas minas no centro-oeste e tais pontos de referências compensaram a perda definitiva de Minas Gerais, mas com esta a continuar o lucrativo contrabando de mercadorias, animais e desvio de ouro para fundição.

A Coroa reagiu, a Capitania paulista perdeu então, sucessivamente, São Pedro do Rio Grande do Sul [1736], Santa Catarina em 1738, Mato Grosso e Goiás em 1744 [pela rainha Maria Ana Josefa – mulher de D. João V] e, tardiamente, Paraná em 1853. Todos desejavam emancipação para melhor usufruir suas próprias riquezas, pouco a importar o sacrifício paulista párea suas origens e desenvolvimentos.

  • O rei D. João V esteve enfermo, por longo período, sendo muitos dos atos reais de Portugal assinados por sua mulher Dona Maria Ana Josefa, também conhecida por Maria Ana da Áustria – pela sua origem. D. João V faleceu em 1750, sucedido pelo filho D. José I e assim iniciar a era Marques de Pombal.

Em 1748, também pela rainha Maria Ana Josefa, São Paulo foi rebaixada à condição de Comarca da Capitania do Rio de Janeiro, com governante preposto e sediado em Santos. A história registra que São Paulo foi perdendo territórios e dinamismo econômico, na primeira metade do século XVIII, até a ocorrência de anexação. Isto é discutível, talvez mais situação política que econômica vista São Paulo apresentar-se bastante fortalecida economicamente, embora despovoada, suas vilas são pequenas e sua força ativa de trabalho mais presente junto às zonas de mineração, com a ambição de enriquecimento rápido.

Aliás, foi essa interiorização paulista, à procura do ouro, a responsável em fazer recuar o Tratado Tordesilhas, que nem Espanha nem seus colonos tiveram condições de fazê-lo voltar aos limites originais estabelecidos. Em 1720, muitas regiões do Brasil estão além do Tordesilhas tal qual no Mapa das Capitanias Hereditárias, de Luiz Teixeira, 1574, onde o “erro proposital, para o Oeste da linha de Tordesilhas (5)”.

O aspecto empreendedor e as sucessivas conquistas paulistas, além Tordesilhas, eram mesmo motivos de despovoamento, ou de não povoação, dentro daquilo que hoje concebemos por Estado de São Paulo. Os mamelucos avançavam em vagas sucessivas, acompanhando as expedições e ficando naquelas outras paragens, deixando despovoado o seu próprio chão.

“Em 1721, nem Piracicaba, nem Itapetininga, nem Porto Feliz e nem Tietê existiam” (6) oficialmente, quando já instalada a Fazenda Jesuítica Botucatu com pelo menos os núcleos residenciais de São Bom Jesus do Ribeirão Grande, Capão Bonito, e o pouso e porto Paranan-Itu, tidos como bairros rurais ou povoações não oficiais, sendo suas gentes contadas entre os habitantes da então Vila de Sorocaba. Outros povoados viriam a seguir, nos anos e décadas seguintes.

Os limites de Sorocaba, ”em direção ao Oeste, nunca chegaram a ser perfeitamente demarcados. Mas, se trabalharmos com os dados relativos aos sucessivos desmembramentos do território paulista, que posteriormente originavam novas vilas e municípios, se verifica que o território dela cobria grande parte do atual Estado de São Paulo” (7).

A tomada da Fazenda Jesuítica Botucatu colocou em fuga a mão-de-obra residente, conseqüentemente extintos os bairros rurais, além de contribuir notoriamente para a estagnação econômica da região, com reflexos negativos em toda Capitania de São Paulo, além de fazer cessar as exportações de gado vacum, suínos, muares e eqüinos, produtos agrícolas, conservas, artesanatos e outros bens manufaturados.

3.4 REPOVOAMENTO

O oeste paulista, desde Botucatu, teve três épocas distintas de povoamento civilizado, uma entre os anos 1608-1620, quando das missões jesuíticas às margens do Paranapanema, outra, de 1719 a 1760, com a Fazenda Jesuítica Botucatu e seus bairros rurais, além da ultima e definitiva, com a chegada dos mineiros a partir de 1830. As duas primeiras povoações foram mais ou menos localizadas, com avanços contidos pelas forças que as destruíram, quase sem deixar vestígios.

Nos intervalos entre tais acontecimentos, a região continuou corredor de passagem para aqueles que demandavam sertão, além das expedições colonizadoras e as militares de reconhecimento. Não se pode excluir, todavia, a tentativa de governo em repovoar a região a partir de 1765 a 1775, da qual trataremos a partir de 1770, quando o Capitão Paulino Aires de Aguirre e o Sargento-mor Manuel Joaquim da Silva e Castro, arrematantes da Fazenda Jesuítica Botucatu em hasta pública de 1766, contrataram certo Coronel [ou Capitão] Francisco Manuel Fiúza (1), para expulsar invasores e exterminar índios de suas terras que não se deixassem escravizar, missão levada a efeito com extremada crueldade, aquém e além das serras, e das nascentes e partes do curso do rio Pardo. Pelos serviços Fiúza recebeu terras, parte “em cima da serra do caminho que se abrio para Iguatemy daquém do rio Pardo” (2).

  • Coronel Fiúza cumpriu seu ofício e entregou limpa a fazenda para seus contratantes, que puderam enfim erguer a Capela de Nossa Senhora das Dores de Cima da Serra, o novo nome desde 1766.

O latifúndio, não mais próspero como nos tempos dos padres, foi dividido em diversas fazendas, mas os proprietários não moravam nelas ou nem sabiam certo onde localiza-las, deixando tudo aos encargos de um capataz, algumas famílias de roceiros e trabalhadores de gados, um quase nada de gente. Os herdeiros não manifestando interesses, venderam partes, perderam outras que se tornaram terras devolutas para entregas a novos proprietários, por sesmarias, a repetir o ciclo de desinteresses pela região, senão alguns meeiros interiorizados abaixo da serra, com seus arranchamentos quase escondidos, a cuidar de pequenos rebanhos e poucos roçados.   

Basílio de Magalhães (3) informa-nos da expedição colonizadora de Teotônio José Juzarte, pelos caminhos do rio Tiete e depois Paraná, numa incursão bastante detalhada pela região da Alta Sorocabana, em 1769, através do rio Santo Anastácio, embora referida expedição tivesse por objetivo o interior do Mato Grosso, pelo rio Iguatemi.

  • Juzarte estava à frente de uma grande expedição, com cerca de oitocentos homens, mulheres e crianças, pelos rios Tietê, Paraná e afluentes até o destino final (4).

Também no ano de 1769, consta a expedição militar de reconhecimento sob comando de Francisco Nunes Pereira, parte a explorar o rio Paraná até Sete Quedas, enquanto outra detalhava os rios afluentes, com destaques para o Iguatemi e Santo Anastácio. Francisco Nunes Pereira morreu na empreitada ficando o comando da expedição sob responsabilidade de Ignácio da Motta (5).

Entre 1769/1770, Francisco Paes comandou equipe oficial que explorou todo o curso do rio Santo Anastácio e região, em busca do melhor caminho de ligação entre São Paulo e Mato Grosso, a partir de Sorocaba (6).

Assim, desde 1770 o rio Santo Anastácio, e com ele partes do extremo oeste paulista, passam figurar nos mapas oficiais da província de São Paulo.

Não há dúvidas que existiram arranchamentos, na bacia do rio Pardo, desde os últimos trinta anos do século XVIII, conforme Carta Provincial do Governo de São Paulo, datada de 12 de fevereiro de 1771, que se obriga determinar ajuda compulsória dos moradores da região, portanto reconhecidos, em tudo que deles necessitasse o capitão-mor de Sorocaba, designado Construtor Chefe da vereda de Botucatu à barra do Rio Pardo, junto ao Paranapanema, num trajeto que “Dos arredores da atual cidade de Pardinho (...) foi sair nas vizinhanças da hoje Santa Cruz do Rio Pardo e Campos Novos” (7).

O governador da Província de São Paulo, entre 1765 a 1775, foi o nobre português Capitão-General Luís Antonio de Souza Botelho e Mourão, o Morgado de Mateus, e era o Capitão-Mor de Sorocaba, José de Almeida Leite. O Morgado de Mateus era amigo do Marques de Pombal – primeiro ministro português, e por este incumbido a restaurar a Capitania de São Paulo, os atuais estados de São Paulo e Paraná, fundar cidades para povoar os sertões, guarnecer os rios Paranapanema e Paraná, expandir fronteiras a oeste e levantar fortalezas para proteger o sul contra os espanhóis, ainda ressentidos das perdas territoriais com o fim do Tordesilhas (8).

Daquele caminho Hernâni Donato esclarece: “Que ao menos o trecho até a barra do Pardo no Paranapanema foi aberto nos dá prova documento de concessão de Sesmaria (...) que beneficiou a Antonio de Almeida Taques lê-se que o campo a que se refere está da outra parte da serra [de Botucatu] que vai para o Iguatemi”, numa referencia ao caminho traçado (9).

A rota pretendida era, conforme o desejo do Morgado, “a vereda que se deve seguir é entrar pela Serra de Botucatu onde tenha maior comodidade e daí botar o agulhão em ponto fixo na barra do rio Pardo e aí cortando o sertão, bem pelo meio da campanha entre os dois rios Paranapanema e Tietê, fugindo sempre de avizinhar dos matos e pantanais que ambos tem por toda sua margem (...” (10). Morgado valera-se de antigas estradas, religiosas, bandeiristas, a Peabiru e algumas das principais trilhas indígenas, articulando-as entre si e com as bacias hidrográficas dos rios Tietê, Paranapanema, Paraná, Iguatemi e Prata, além de fundações de freguesias, elevações a vilas de povoações progressistas e cidades, com objetivos de povoar a terra e defende-la das pretensões espanholas, sem dúvidas princípios estratégico-militaristas dentro dos objetivos pretendidos pelo governo do Marquês de Pombal.

Diz ainda Hernâni, que “são fazendeiros depois de 1730, no planalto oriental e ao sul: (...) João Álvares de Araújo. Avançou para o sul, costeando a serra e posicionando-se além do rio Pardo, às margens do abandonado, mas não de todo esquecido caminho do Iguatemi” (11).
O mapa oficial da América Meridional, de 1748, por Jean-Baptiste Bourguignon Anville detalha a Serra de Botucatu, mas não assinala a presença do homem branco na região (12), a saber, no entanto, que nenhuma povoação menor que trinta famílias brancas tenha sido citada em qualquer outro mapa da época, sendo seus moradores contados como ruralistas de uma localidade já na condição de vila; “Botucatu também não foi fundada em 1767, porque não havia, dezenas de léguas ao redor, gente com que faze-lo. A lei determinava um mínimo de trinta famílias. Não existiam tantas” (13). Entendemos assim significar, em nenhum arranchamento ou bairro.

Em levantamento populacional de Itapetininga, no ano de 1772, num povoado em território onde o atual município de Botucatu, “foram contados 46 habitantes ocupando sete moradias” (14), número aquém das trinta famílias para o censo oficial de tal localidade especificamente denominada, conforme legislação em vigor.

  • A população de um povoado jesuítico da Fazenda Botucatu, já mencionamos, contava entre dez e vinte moradores, mais os índios, escravos e familiares, números nada desprezíveis para a época.

Em 1776 Martim Lopes foi designado governador da Província de São Paulo. “O novo titular timbrou em desmanchar, apagar, desmoralizar quanto planejara ou realizara o antecessor [Morgado de Mateus]” (15).

A Capitania de São Paulo, na troca de governo “tinha sessenta mil habitantes, espalhados em uma cidade, dezoito vilas, nove aldeias e 38 freguesias. A cidade de São Paulo contava com cerca de quatro mil almas, a vila de Sorocaba era a mais importante, seguida de Santos, Guaratinguetá, Paranaguá, Itu, Taubaté, Parnaíba, Jacareí e Atibaia. Na Relação de Vilas e Freguesias da Capitania de São Paulo, feita em 1765 pelo Morgado de Mateus, aparecem 36 povoações, a capital e nove aldeias de índios. No primeiro grupo, estão as vilas de Mogi das Cruzes, Jacareí, Taubaté, Pindamonhangaba, Guaratinguetá, e as freguesias de Facão e Piedade. No segundo grupo, as vilas de Atibaia, Jundiaí, Mogi-Mirim, Mogi-Guaçu, Parnaíba e as freguesias de Juqueri e Jaguari. No terceiro grupo, as vilas de Itu, Sorocaba, Faxina, Apiaí, Itapetininga, Curitiba, Lajes e a freguesia de Paranapanema. Em anotação ao terceiro grupo, o Morgado assinalava também as freguesias de Guarulhos, Santo Amaro, Cotia, Araritaguaba, Nazaré e as vilas "porto de mar" de Santos, São Sebastião, São Vicente, Ubatuba, Iguape, Cananéia, Itanhaém, e, na serra, São Luís de Paraitinga” (16).

Botucatu, ou aquilo que foi a Fazenda Jesuítica, esteve nos planos do Morgado de Mateus, para levantamento de pelo menos cinco povoações, estrategicamente postas pelos caminhos que fizera abrir para adiante da Serra.  Foi encarregado o sesmeiro e fazendeiro Simão Barbosa Franco.

É difícil unanimidade em torno de Barbosa Franco e sua missão em fundar povoações na região. Aparentemente foi ele um aproveitador fracassado, a saber, no entanto, partícipe da fundação de Piracicaba pretendida para ser uma fortificação militar e dar segurança em trechos do Tietê e do próprio rio Piracicaba, além de Itapetininga e Itapeva, elevadas para guarnecerem os caminhos vindos do sul, já conhecido por caminho das tropas.

Constam projetos de outras povoações, para proteger incursões pelo Paranapanema, como parte da implantação do plano de defesa do Morgado. Uma outra povoação pretendida estaria na Serra de Botucatu, desde antigamente apontada como referência para o sertão. Botucatu não foi fundada por essa ocasião – 1766/1767, a restar apenas um Decreto de sua criação e nada mais em qualquer outro documento durante o governo de Morgado. O território de São Paulo, por aqueles lados, ainda demorou quase setenta anos para o surgimento oficial do povoado, a permanecer até o final do século XVIII, São Bom Jesus do Ribeirão Grande, Capão Bonito e Sobrado, nas condições de pousos à beira dos caminhos que levavam aos sertões.

Admite-se, então, Botucatu em completo abandono, a partir do governo Martim Lopes, com apenas um ou outro indivíduo embrenhado em pontos distantes, foragidos da lei, perseguidos politicamente, recusadores de recrutamentos, desertores de tropas imperiais ou de contingentes policiais.

Não se sabe quantos destes indivíduos entraram no Vale do Paranapanema, com certeza uma família na região de Timburi desde 1799, certo Francisco Ferreira dos Santos e sua esposa Maria Prudência d’Oliveira ou Maria Ferreira, e um filho, constando que referido Francisco veio foragido de Ouro Fino, Minas Gerais, onde cometera um crime. Oficialmente, porém as primeiras terras do lugar foram registradas somente em 1850, pelos irmãos posseiros Joaquim e José Ribeiro Tosta (17).

É certa a existência de outros núcleos atestados nos restos de ranchos, fogões, matos rebaixados e indícios de antigos roçados, que bem dão conta da presença do homem branco interiorizado na região do Vale Paranapanema, ainda que apenas temporariamente.

Analisando os objetivos e realizações dos governos Morgado de Mateus e Martim Lopes, se pode dizer que enquanto o primeiro pretendeu abrir caminhos e povoar os sertões para além da Fazenda Jesuítica, o outro cuidou do despovoamento e do abandono da região. Exemplo disto aponta para o já citado Simão Barbosa Franco, adquirente de terras na região de Botucatu, sem jamais ter nela morado e nem era homem de sertão, incumbido em 1766 pelo Morgado de Mateus de fundar povoados, abrir estradas e fazer pontes na região de Botucatu e adiante da Serra, ou restabelecer aqueles outrora jesuíticos bem como manter seus caminhos, recebendo para isto uma sesmaria. Por isso o fracasso.

Aparentemente as intenções de Simão foi apenas conseguir mais terras além das suas e comercializa-las a bons preços, sob as promessas de cumprimento de suas empreitadas nunca realizadas. Documentos históricos – Registros de Sesmarias da Província de São Paulo dão conta da venda de parte de uma de suas sesmarias a Manoel Antonio Araújo.

O fracasso de Simão Franco pode ser creditado a Martim Lopes, que lhe negou apoio necessário para cumprimento da incumbência que lhe fora dada pelo Morgado. Sem condições de atender até as próprias possessões, Simão perdeu todas elas, tornadas devolutas em 1787.

De 1790 a 1830 os povoadores, mineiros em grande maioria, optavam pela região de Araraquara, então a Boca do Sertão, em detrimento ao Vale Paranapanema. Marta Amato (18) diz que a vinda de mineiros deram formação às vilas de Araraquara, depois Itirapina [Itaqueri da Serra], Brotas, Jaú, Dois Córregos, e outras mais, desmembradas dessas.

O passo seguinte seria a ocupação do vasto oeste paulista.

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