PARTE
I – INCURSÕES
PELOS CAMINHOS DO VALE DO PARANAPANEMA
CONSEQÜÊNCIAS DO BANDEIRISMO
Darcy Ribeiro entendia as missões jesuíticas
como a experiência ou “a tentativa mais bem
sucedida da Igreja Católica para cristianizar e assegurar
um refúgio às populações indígenas,
ameaçadas de absorção ou escravização
pelos diversos núcleos de descendentes de povoadores
europeus, para organizá-las em novas bases, capazes
de garantir sua subsistência e seu progresso" (1).
O colonizador, português ou espanhol, entendia a redução
jesuítica como forma de preparar o índio para
a mão de obra a favor do conquistador. O índio
aldeado encontrava melhor preço de mercado porque
acostumados ao trabalho agrícola, em outras artes
de ofício e, sobretudo, dóceis; isso despertava
a cobiça dos bandeirantes que resolveram atacar Guayrá onde à disposição
encontravam-se dezenas de milhares de nativos para preamento.
Aconteceu a guerra e a vitória bandeirante trouxe
como resultado, o aprisionamento de milhares de índios,
a tomada territorial pela conquista e, posteriormente, ocupação
daquelas terras de Espanha, tudo a se processar de acordo
com as necessidades econômicas de Portugal.
O bandeirismo paulista envolvido na Guerra do Guairá era
de apresamento; com a fuga dos jesuítas e índios
sobreviventes às regiões do Tape e Itatim,
para lá se deslocaram os bandeirantes deixando toda
bacia do Paranapanema, numa espécie de recesso de
presenças do homem branco, por quase um século.
Isto significou novas entradas em terras espanholas e futuras
anexações.
As terras invadidas tornaram-se paulistas, conseqüentemente
portuguesas, pelo uso da força, ainda que Portugal
e colônias estivessem sob domínio espanhol.
A ousadia paulista e conseqüente vitória em Guairá fizeram
com que o rei espanhol e as autoridades portuguesas de plantão,
viessem a negociar rápido para evitar independência
paulista e o fracionamento territorial, a partir do rio Tiete
até o Paraná e por este descendo até o
rio da Prata, colocando em risco outras regiões pertencentes à Espanha.
A região do Guairá então sob domínio
português, com referida conquista, apenas despertou
interesse de fixação humana quando da descoberta
do ouro no litoral paranaense, em Paranaguá, ano de
1648, depois outros povoados como Morretes, Antonina e Guaratuba,
voltando-se para Curitiba em 1668, sendo estes os primeiros
núcleos sob dominação portuguesa como
causas de penetração em terras do Paraná espanhol.
Não existindo ouro em abundância, o local ficou
entregue a uns poucos agricultores de subsistência,
já com garantia que os luso-brasílicos não
mais arredariam pé daquelas paragens, “como
desejo de efetivar a conquista da terra” (2), cada
vez mais com as vitórias bandeirantes contra as missões
jesuíticas do Tape.
A tomada de Guairá ou o sucesso de Raposo sem dúvidas
incentivou demais entradas em outras regiões além
Tordesilhas, sendo ele próprio a realizar as principais
delas, de sul a norte, centro-oeste e nordeste, parecendo
obedecer a ordens superiores para assegurar apossamentos
dos atuais estados, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Minas
Gerais, Mato Grosso, Goiás, inclusive chegando com
sua expedição até o Amazonas, além
de ter lutado contra os holandeses na Bahia e em Pernambuco.
Tamanhas ousadias deram ao Brasil [Portugal] forças
necessárias para o posterior recuo do Tratado de Tordesilhas,
e assim acrescer partes territoriais pelo tratado de Madri
em 1750, como reformador do Tordesilhas.
- A própria revolução nacionalista
portuguesa de 1640, que conduziu D. João IV ao trono
de Portugal, depois de sessenta anos de dominação
espanhola, sem dúvidas teve sua inspiração
na expulsão dos espanhóis do território
avançado pelos bandeirantes e entradistas entre
1628 a 1638.
No Brasil, particularmente São Paulo, já se
formava, então, a consciência de nacionalidade
como grupo étnico-cultural amalgamada de raças
e culturas diversas, a despertar sentimento de superioridade
ao reinol espanhol em direito a terra, quando em andamento
também o antagonismo entre o nascido brasileiro com
o elemento português, desperto sobremaneira após
a expulsão holandesa do território brasileiro.
Como conclusão pode-se dizer que os bandeirantes,
no aprisionamento ao indígena, desempenharam importante
papel nessa expansão territorial, desbravando os sertões
além do Tratado de Tordesilhas, a culminar numa série
de outros tratados de limites entre Portugal e Espanha, como
os de Utrecht, em 1715, de Madri – 1750 e suspenso
pelo Tratado de El Prado – 1761, o de Santo Ildefonso – 1777
e, finalmente, o de Badajoz – 1801.
Após esses tratados, a área brasileira mais
que triplicou, dos 2.500.000 km2 – pelo Tordesilhas,
para mais de 8.000.000 de km2, quase a superfície
hoje atual, estabelecido pelo direito fundamentado na ocupação
efetiva de longo prazo, e independente de outro qualquer
título – o uti possidetis, ou seja,
uma área pertence a quem efetivamente a ocupa.
Do elemento indígena, sobrevivente de tantos massacres
e apresamentos, não se sabe o que realmente lhes aconteceu,
talvez parte incorporada à sociedade paraguaia, outra à brasileira
que se formava ao litoral paranaense, alguma reintegrada
aos parentes selvagens, enquanto a maioria se transformou
em destroços tribais, distanciando-se ainda mais de
seus vínculos originais.
Para muitos especialistas, foram estes os índios encontrados, à exceção
Caingangue, em meados do século XIX, por habitantes
embrenhados nas matas adiante da Serra de Botucatu, entre
os rios Feio/Aguapeí e Paranapanema, favorecidos pelo
declínio do bandeirismo de apresamento, desde a reconquista
de Angola de mãos holandesas, em 1648, com a normalização
do abastecimento de escravos africanos; a expulsão
dos holandeses do nordeste brasileiro e a crise da economia
açucareira, fatores todos determinantes para desmotivar
a caça ao índio (3).
Outro importante motivo à sobrevida indígena
no oeste paulista foi que às bandeiras de apresamento
sucederam as de prospecção, e a região
nada tinha a oferecer a esta nova onda. Aos tais índios
bastava tão somente não se colocar às
proximidades do Tiete, Paraná e Paranapanema, onde
ocorria maior tráfego de brancos rumo aos grandes
sertões do Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais,
onde se descobriram riquezas minerais de grande exploração.
Por conseguinte, a chegada de bandeirantes e entradistas
nas regiões auríferas do centro-oeste brasileiro,
provocaram êxodo de nativos em direção
ao território paulista, nas matarias pelos lados de
Bauru, Lençóis, além da serra de Agudos,
na bacia do Pardo, nos campos de Avaré, nas vertentes
do Paranapanema e do outro lado da Serra de Botucatu, com
certa distância das povoações que já surgiam
a partir de Sorocaba.
Entende-se que estes grupos indígenas se expandiram
progressivamente, tornaram-se constantes, maiores e cada
vez mais ameaçadores, ainda que elementos fugidios
diante da presença branca.
O avanço do branco além de Itapetininga em
direção a Botucatu, certamente promoveu incidentes
com os índios da região, daí o surgimento
das bandeiras de contrato como exemplo em 1680 quando o Capitão-Mor
Jorge Correa foi contratado, oficialmente, para caçar índios
bravios que estavam nas matas desde as vertentes do Paranapanema,
em estado de selvageria. Correa esteve junto a Serra de Botucatu,
percorreu campos do Vale do Pardo e da região de Avaré (4),
com práticas predatórias em territórios
indígenas (5).
No ano de 1706 uma outra entrada, chefiada por João
Pereira de Souza, passou pela região de Botucatu em
perseguição ao índio com ordens para
extermínio total. “João Pereira (...)
consegue ainda ser mais duro que seus predecessores. Passa
por onde hoje se encontra o centro da cidade [Botucatu] e
praticamente dizima todos os índios da região” (6).
Sem
a incômoda presença indígena, as terras
de Guareí ao alto da Serra de Botucatu, tornaram-se
propriedades de sesmeiros, dentre eles o Capitão-Mor
Antonio Caetano Pinto Coelho, Capitão Antonio Antunes
Maciel e o Capitão José Campos Bicudo, destacados
pelas doações feitas aos Padres Jesuítas
para a instalação de uma fazenda para criação
de gado e promoção agrícola.
FAZENDA JESUÍTICA DE BOTUCATU
1. ASPECTOS PRELIMINARES
Os caminhos e a região sertaneja, a partir da Serra
de Botucatu, eram conhecidos desde o princípio do
século XVI, via Peabiru, mas enfrentar o sertão
e nele se fixar era sempre alto risco, tanto pelo elemento
indígena disposto a barrar a fixação
dos brancos em seus domínios, quanto os perigos da
floresta insalubre e os animais selváticos, sem esquecer
os castelhanos que insistiam reclamar invasões de
suas terras, ainda que desinteressados por elas, mal menor,
porém sempre perigo para as relações
entre Portugal e Espanha.
- Os indígenas não atacavam caravanas em
trânsito, peculiaridade de todas as tribos, entretanto
faziam-se intolerantes com aqueles que pretendiam fixações
em territórios ocupados.
Conhecida de passagem, a região somente entrou para
a história em primeiro quinto do século XVII,
desde a entrada de Antonio Bicudo, 1620, para reconhecimento
territorial e a preação indígena, com
as primeiras descrições dos seus campos e matas
entre os rios Guareí, Paranapanema, Tietê, morros
da Serra de Botucatu e cabeceiras do rio Pardo (1). A empreitada
de Antonio Bicudo não despertou interesse a quem dispusesse
assumir responsabilidades de cultivar e povoar aquelas terras
ainda não sesmadas, vista o primeiro assentamento
formal apenas quase um século depois.
A História nos diz que foi outro membro da família
Bicudo, o lendário entradista Manoel de Campos Bicudo,
quem passou pelos campos de Guareí e regiões
de Botucatu, em 1673, com destino às confluências
entre os rios Cuiabá e Coxipó, como primeiro
europeu pisar aquelas bandas ocidentais da colônia,
ainda sob dominação espanhola. Fazia parte
daquela expedição Antonio Pires de Campos (2),
mais tarde conhecido por Pay Pirá, filho de Manoel
Campos Bicudo.
Talvez, desta feita, não tenha sido apenas mera passagem
dos Bicudos pela região, sim algum interesse maior
pelas terras Guareí e Botucatu, admitindo-se permanência
de parte da equipe para melhor levantamento territorial,
potencial de riquezas e, sobretudo, verificar onde postadas
tribos indígenas sobre a serra, quantificação
de seus indivíduos e perigos oferecidos. Somente assim
se explica a eficiência das razias promovidas pelo
Capitão-Mor Jorge Correa, no ano de 1680, em exterminar
tribos inteiras (3) nas morrarias e furnas onde, “com
facilidade de manobras, em terreno conhecido, os silvícolas
perseguidos faziam-se atacantes (4)”.
Sem dúvidas era intenção de o governo
ocupar terrenos e distribuir sesmarias àqueles dispostos
explorar terras e levantar povoados, para melhor infra-estrutura
quanto ao processo de interiorização. Os sesmeiros
(5) raramente eram povoadores, antes dividam as posses para
repassá-las com bons lucros aos fazendeiros que faziam,
de pronto, instalar os arranchados para algum futuro povoamento,
entretanto apenas indivíduos se propunham aos enfrentamentos
dos perigos do sertão, as famílias não
vinham.
- Uma opção para povoar o sertão era
o levantamento de bairros rurais, com agrupamento de famílias,
uma a cuidar da outra quanto aos aspectos de segurança
e mútua ajuda. Ainda assim era difícil e
o investimento bastante alto, proibitivo à maioria
dos fazendeiros.
Pelos relevantes serviços prestados à Coroa
e Colônia, foram agraciados com melhores lotes em Guareí e
Botucatu, Antonio Pires de Campos [Pay Pirá], em Guareí,
seu irmão José de Campos Bicudo, em Botucatu,
além dos parentes diretos e colaterais, a exemplo
do cunhado [Capitão] Antonio Antunes Maciel (6), descendentes
de tradicionais famílias de bandeirantes, entradistas
e sesmeiros em regiões de Carapicuíba, Serra
do Jaraguá, Sorocaba, Itapetininga, Itu, Tatuí,
Jaú, São Carlos, Boituva, Franca e outras localidades
(7).
O Capitão-Mor Antonio Caetano Pinto Coelho, Governador
Sesmeiro e Loco-Tenente da Capitania de São Vicente,
por sua Majestade, com sede em [Nossa Senhora de] Itanhaém,
também se assenhoreou de uma sesmaria em Botucatu
(8). O Capitão-Mor era parente da família dos
Campos Bicudo.
Sem eficácia dos propósitos, por aparente desinteresse
das famílias beneficiadas, em princípios do século XVIII
Botucatu era, ainda, apenas ponto de referência e caminho àqueles
que demandavam o sertão. Não haviam brancos fixados, apenas índios
ameaçadores que outra vez dominavam a região, tanto que em 1706
foi preciso a entrada de João Pereira de Souza prear e erradicar indígenas,
numa matança até então sem precedentes, deixando na região
um imenso vazio de homens (9).
Em 1713 Antonio Pires dos Campos concedeu sua Sesmaria, em
Guareí, à Ordem dos Jesuítas no Brasil,
cujo Reitor era seu irmão, o Padre Tenente Estanislau
de Campos (10). No ano de 1719 os Jesuítas receberam,
também por doação, uma Sesmaria na região
de Botucatu advinda do Capitão José [dos] Campos
Bicudo, outro irmão do Padre Estanislau; igualmente
o Capitão Antunes Maciel e o Capitão-Mor Antonio
Pinto Coelho, também doaram suas sesmarias aos jesuítas,
em Botucatu (11).
- As terras de Guareí receberam a denominação
Fazenda São Miguel ou, depois, Capela Velha, e as
de Botucatu o nome Santo Inácio ou Boa Vista, porém
mais conhecidas mesmo por Fazenda Jesuítica Guareí e
Fazenda Jesuítica Botucatu. A título de curiosidade
ou complemento histórico, os ricos Campos Bicudo
doaram, ainda, sesmaria na região de Tatu-uv [Tatuí]
aos Padres Carmelitas, de Itu, cuja propriedade teve por
nome Fazenda Paiol.
Tais donativos permitiram a ocupação jesuítica
regional na primeira vintena do século XVIII, com
objetivos de povoar o sertão e cuidar das terras,
tornando-as partes cultiváveis e partes para criação
de gado, numa época que o oeste paulista quase nada
tinha de história, senão aprisionamentos e
matanças de indígenas.
Melhores conclusões indicam que os padres jesuítas,
ao se estabelecerem em Botucatu, tiveram por necessidade
primeira a pacificação de tribos indígenas
arredias, ocupadoras para além do Pardo, outras, em
maior número, para os lados dos rios Paranapanema,
Tietê, Peixe e Feio/Aguapeí por onde os religiosos
pretendiam caminhos para os sertões de São
Paulo, Mato Grosso, partes do Paraná e Goiás,
além de uma melhor senda para Minas Gerais, sobre
trilhas conhecidas desde os séculos XVI e XVII, por
cartas e mapas dos padres jesuítas espanhóis
das antigas missões catequéticas, às
margens do Paranapanema e interior do Paraná espanhol.
A Fazenda Jesuítica tinha por objetivo principal a
agro-pecuária, atividade acomodada à finalidade
de sesmarias, ou seja, a demandar mão de obra para
formarem invernadas e lavrar a terra, cuidar o gado e plantações,
para isso indivíduos arranchados em regiões
distintas dentro da grande propriedade, além de bairros
rurais para as famílias colocadas próximas
das áreas de trabalho.
Os padres também praticaram a mineração,
a despeito da proibição dessa atividade aos
religiosos, e ainda souberam tirar proveitos dos caminhos
fluviais e terrestres internos que passavam por suas fazendas
ou ao fundo delas, oferecendo estalagens, portos, entrepostos
e guias nativos àqueles interessados em demandar sertão,
ante o comprometimento de preadores somente aprisionar índios
fora da região, para se transitar seguro por terras
do oeste paulista e usufruir os serviços dos religiosos
mercantilistas.
Com mínimo de instalações, a Fazenda
Jesuítica Botucatu se tornou referência àqueles
que por lá faziam pousos e ajustes, além das
opções de caminhos certos como aquele até o
Paranapanema, abaixo da cachoeira Paranan-Itu, próximo
a atual cidade Salto Grande, local de estalagem e porto onde
os viandantes alugavam canoas, ou deixavam as suas, nas idas
e vindas desde os Andes, Paraguai, Mato Grosso, ou o extremo
oeste paulista e partes do Paraná (12).
Os usuários preferiam a navegação pelo
rio Paranapanema, principalmente no retorno das viagens,
para evitar as fortes correntezas do rio Paraná, o
Salto Itapura próximo à foz do Tietê,
o Salto Avanhandava e as corredeiras acima. Se a utilização
do Paranapanema oferecia melhores condições
que o Tietê, igualmente seus caminhos por terra eram
rápidos, seguros, e podiam ser feitos com animais
de carga para o transporte dos haveres adquiridos no sertão.
Bem logo também se resolveu caminho alternativo para
Minas Gerais, via São Carlos e Franca, pelos portos
de Lençóis e Potunduva [Distrito de Jaú] às
margens do Tietê, unindo as vias terrestres para condução
de muares e transportes de mercadorias às Minas Gerais,
além da usança fluvial pelos monçoeiros
que subiam e desciam o Tietê.
Assunto polêmico, ainda discutível se os jesuítas
de Botucatu teriam sido os primeiros a trazer muares das
estâncias jesuíticas argentinas de Córdoba,
então relacionados pela mesma Ordem, cientes da importância
desses animais nos garimpos, ou seja, da experiência
espanhola junto às minas de Potosi. A Fazenda Jesuítica
Botucatu estava a caminho da Rota do Contrabando, e por ele
transitava o bandeirante candongueiro Bartholomeu Paes de
Abreu, parente do Padre Reitor da Ordem Inaciana no Brasil.
Tais situações de contrabando eram favorecidas
porque os caminhos estavam dentro de propriedades da família
dos Campos Bicudo, ou de gentes sob suas influências,
desde o sul do Brasil até Sorocaba, e desta à Fazenda
Jesuítica Botucatu, de onde partiam as tropas para
as Minas Gerais através do Porto de Lençóis,
pelos caminhos de Jaú, São Carlos e Franca,
terras sob domínio ou influição da mesma
família, da qual o Padre Reitor Estanislau de Campos
era membro dos mais influentes.
- Os jesuítas estavam expulsos do Brasil e seus
bens confiscados e leiloados, quando aqueles portos [Lençóis
e Potunduva] serviam de passagens para os tropeiros com
suas tropas rumo a Minas Gerais e outras regiões
do Brasil, vindos diretamente do sul sem passar pela Feira
Oficial de Muares de Sorocaba, desviados da estrada Viamão-Sorocaba,
para se evitar altas taxas e pedágios cobrados pelo
governo, tributos sobremaneira encarecedores no custo final
dos animais. Pelos desvios os tropeiros passavam por terras
antes jesuíticas, onde ainda existiam pousos e currais,
conforme em atual Pardinho, “antigo pouso de tropeiros
(...) nas terras da fazenda Santo Inácio, que havia
pertencido a padres jesuítas” (13).
Originalmente os padres intentavam Guareí e Botucatu
por única e grande propriedade, para criação
de gado e atividade agrícola. No entanto, a anterioridade
da primeira fazenda e o seu fracasso gerencial não
lhe permitiu as inovações aplicadas na segunda,
como as formas de administração e investimentos
incorporados à força do trabalho, tornando
a Fazenda Ibytu-Katu [Botucatu] muito mais próspera
e de superior importância regional, tanto que se tem
a história de povoação do sertão
oeste paulista, a partir da sua instalação
em 1721/1722, desde as divisas com Guareí, entre os
rios Tietê e Paranapanema, oficialmente até o
alto da serra, em terras recebidas dos mencionados sesmeiros,
para avançar, nalgum momento do primeiro quartel do
século XVIII, até às barrancas do rio
Paraná (14).
- Apesar das distinções entre as fazendas
Guareí e Botucatu, são tidas por alguns autores
como propriedade única a partir de 1722.
As terras doadas aos jesuítas foram em troca de orações
e caridades, para manutenções da Ordem e outras
disposições de cultos, que constam dos documentos
em Arquivo Público do Estado, publicado em “Sesmarias",
volume II, em 1921 [São Paulo].
Compreendem-se pelas regras de direitos e obrigações
dos sesmeiros, que lhes eram exigidos grandes capitais para
desbravar a terra, fundar povoados e aquisicionar escravos,
de modo transformar isso num empreendimento de altos custos
e riscos, tanto pela feroz resistência imposta pelo índio,
quanto pelas dificuldades naturais e insalutíferas
do sertão bruto.
Assim, é provável que os donos anteriores
não tivessem condições ou interesses
para explorações das terras, talvez pela distância
ou obrigações em outras fazendas, por isso
o repasse [legal] aos inacianos em vez de retorná-las à Coroa
Portuguesa, conforme a exigência que assim obrigava
aos proprietários o uso da terra e sua povoação,
e, não o fazendo, repassar os direitos a quem pudesse
ou se dispusesse fazê-lo ou, ainda, devolução à Coroa..
A propriedade Botucatu tinha próximo 30 léguas
de largura [198 quilômetros] do Tietê ao Paranapanema
a partir do ribeirão Jacuí, sua divisa com
Tatuí, e das cabeceiras da Fazenda Jesuítica
de Guareí, conforme termo de doação
por Campos Bicudo, vindo estender-se até os campos
e matos no alto da Serra Botucatu, com a mesma largueza entre
rios, pelos registros das demais doações, sendo
certo que os padres se apossaram de outras terras desocupadas
ou abandonadas entre as sesmarias recebidas, transformando-as
numa só fazenda, alguns estudiosos compreendendo seus
avanços às tombadas da Serra dos Agudos e cabeceiras
do rio Turvo, para outros talvez nem tanto adiante dos campos
de Areiópolis (15).
- A extensidade escriturada da propriedade parece não
ter ido mesmo além dos termos do Capão Bonito
(16), agora Distrito Rubião Junior [Botucatu], e
dos lados de uma povoação existente, São
Bom Jesus do Ribeirão Grande (17), esta também
chamada de Santo Inácio, no município de
atual Pardinho.
Entende-se que bem cedo os padres empreenderam avanços
em terras ainda espanholas, afora suas posses oficiais, não
apenas para atividades religiosas, mas estabelecimentos de
bases para avanços rumo ao sertão interior
paulista, por um caminho em separado da Peabiru, a partir
de Capão Bonito, seguindo adiante das nascentes do
Pardo e campos dos Lençóis, até o pouso
em lugar ou próximo onde depois a freguesia de São
Domingos [do Tupá], para prosseguir pelo divisor entre
os rios Pardo e Turvo até a barra do primeiro no Paranapanema,
passando pelas terras atuais de Espírito Santo do
Turvo, Santa Cruz do Rio Pardo, Ourinhos e Salto Grande [Paranan-Itu],
onde a estalagem e porto, além dos arranchamentos à beira
do caminho.
Deste caminho dos tempos dos padres, oficializado pelo Morgado
de Mateus no ano de 1771, se valeram grandes expedições
de entradistas, bandeirantes, faiscadores, contrabandistas
e aventureiros em passagens pelo oeste paulista e Mato Grosso
(18). Em meados do século XIX, os mineiros usariam
do mesmo caminho para o desbravamento do sertão Paranapanema,
com transito maior quando já oficializados os primeiros
povoados, para onde acorriam tropeiros e mercadores para
negociar e abastecer armazéns.
Do Capão Bonito, outrossim, se iniciava aquele outro
caminho citado, rumo ao porto de Lençóis, onde
mais fácil transpor o rio Tietê para se dirigir às
Minas Gerais, quando não o uso pelas monções
em direção ao rio Paraná. Deste caminho
terrestre Bartholomeu Paes de Abreu requereu à Câmara
de São Paulo, em 1720 / 21, autorização
para abertura oficial de estrada até o rio Paraná,
adiante veremos, desde a ultima povoação da
Vila de Sorocaba. Em 1737 um indignado e preterido Bartholomeu
renovou seu pedido ao governo de São Paulo, em forma
de veemente protesto (19).
É consenso
a existência de pousos pelos caminhos, à distância de cinco
ou seis léguas, para descanso dos transeuntes, pois que os padres, conhecedores
dos trechos que passavam por seus termos e onde iam dar, não perderam
oportunidades de lucros com instalações de estalagens, currais,
armazéns e portos, vistos em alguns dos seus bairros rurais ou sedes,
onde instaladas famílias próximas dos serviços, para melhor
aproveitamento das terras e garantia das posses. Destarte, imediatas ou posteriores
expansões territoriais jesuíticas além do Tordesilhas,
ocorreram levantamentos de outros bairros rurais e aldeamentos pelos trechos
da Peabiru até os lados do Abaré-y (20), entre a Cuesta e o Vale
Paranapanema.
Oficialmente a Fazenda Botucatu
era voltada à criação de gado para auto-sustento, abastecimento
do Colégio Jesuítico de São Paulo, auxílio financeiro às
missões estrangeiras e comercialização de excedentes (21),
além das atividades agrícolas para o mesmo fim. Igual a qualquer
fazenda, sob responsabilidade religiosa, significava, além do explorar
terras, também instalações de núcleos habitacionais
destinados aos que trabalhavam dentro da propriedade, além dos aldeamentos
quase sempre juntos aos povoados, ditos como missões catequéticas
aos índios, conforme Carta Régia, de 10 de setembro de 1611,
ainda mantida em pleno vigor (22).
Marilza
de Oliveira em seu trabalho, Para a História Social da Língua
Portuguesa em São Paulo – Séculos XVI-XVIII, informa-nos
que “No estabelecimento de normas para os aldeamentos na lei de 10 de
setembro de 1611, figurava que os aldeamentos deveriam ser regidos por capitães
e deveria ter um clérigo português que soubesse a língua” (23).
Porém, a exploração indevida do índio pelos tais
Capitães de Aldeias, com poderes de Juiz Criminal e Civil, além
de Fiscal de Trabalhos e Salários Indígenas, firmou-se a lei
de 21 de dezembro de 1686 passando todo controle da mão-de-obra indígena,
ensinamentos e religião, mais os poderes executivo e judiciário,
para os missionários, em especial os jesuítas.
Um outro
detalhe aplicado pelos jesuítas em Botucatu, depois normatizado na
segunda metade do século XVIII, foi acolher, além dos índios
e brancos, os mulatos, os mamelucos, os cafuzos e os negros considerados desajustados.
Portanto os inacianos, ademais da criação de gado e promoção
agrícola, catequizaram índios e levantaram povoados, entre aguadas,
para fixação de mão de obra mais próxima do local
do trabalho, com isso a garantir, a eles jesuítas, não apenas
o direito de propriedade como a segurança de seus
agregados.
Embora comprovadas
existências de arraiais jesuíticos, difícil
localiza-los e descreve-los, postos desaparecidos dentro
de um território que, desde
1760, deixou de existir com a obrigação de
se lhe apagar a memória.
Deles nos diz o historiador Hernani Donato: “Pela primeira
vez na região,
por conta e instrução da Companhia de Jesus,
erguiam-se os ranchos sem a mera função de
abrigo transitório e fixavam-se,
para residência e trabalho continuado, entre dez e
vinte moradores, índios
administrados e seus familiares” (24),
além dos situados arranchamentos à beira
do caminho Botucatu-Iguatemi, mencionados em documento oficial
de 8 de agosto de 1772, transcrito pelo mesmo historiador: “Prova
da existência
de roças e gados na região é uma drástica
ordem de requisição”, cujo teor o historiador
transcreve “(...)
faça noticiar aos donos e fazendeiros das Fazendas
(...) e campos de Bitu-gatu, pr onde discorre o caminho pa.
Praça da Guatemy (...)” (25).
Acredita-se
que a Fazenda Jesuítica Botucatu jamais teve número
superior a quatro padres residentes, designados para diferentes
funções.
2. DOS PRIMEIROS ARRANCHAMENTOS EM
TERRAS JESUÍTICAS
Nos idos de 1700 a Companhia Jesuítica no Brasil
enfrentava dificuldades financeiras, a necessitar urgente
fonte de rendas para sanar problemas do Colégio de
São Paulo, o principal centro formador jesuítico
do Brasil Colônia, e gerenciador de recursos para manutenção
da Ordem.
Reitor da
Ordem Inaciana no Brasil, o Padre Estanislau de Campos recorreu aos seus irmãos
possuidores de terras inexploradas nas regiões de Guareí e Botucatu,
conseguindo com eles as primeiras doações para levantamento de
fazenda destinada á criação de gado no atual município
de Guareí, onde fez construir a sede da Fazenda, o casarão para
o abrigo dos padres e os cuidados da administração, a Igreja
e poucas casas em derredor aos agregados, características de bairro
rural que ali se desenvolveria, para os lados do rio com mesmo nome.
Ótimas
aguadas, boas pastagens e barreiros salinos, o gado se desenvolveu fácil
nas morrarias de Guareí, mesmo sem aqueles cuidados especiais que seriam
adotados pela Fazenda Botucatu, na década seguinte. A descoberta de
ouro e diamante em pontos do rio Piracicaba e afluentes, com certeza justificam
a aparente desatenção dos padres com a criação
de gado.
Portanto,
afora incipientes trabalhos agro-pastoris em Guareí, os padres se dedicaram à mineração,
usando para bons termos de exploração os desvios dos rios por
canais (1), não obstante o ordenamento legal do rei português
proibindo que religiosos se fixassem em zonas de minerações,
ou delas fizessem parte, para se evitar o contrabando de ouro e outras riquezas
(2). A despeito dessa proibição, os padres estiveram estabelecidos às
margens do Tietê com o abocamento do Piracicaba, num arranchamento para
mineradores, até por volta do ano 1720.
Com o recebimento
de terras para a instalação da Fazenda Botucatu, os padres jesuítas
deixaram o local alegando insalubridade na zona mineradora, para interiorização
mais adiante, aonde no “roteiro das tropas que iam para o Iguatemi e
Tapagé, e das minas que demandavam Goiás e Mato Grosso, nasceu
um pequeno núcleo a partir de um local de pouso com um punhado de lavradores” (3). A
esse novo endereço foi dado o nome Sobrado [dos Padres], em causa do
prédio central, assobradado, que servia de moradia aos padres e hospedaria
aos bandeirantes, entradistas e caminheiros que por lá permaneciam para
seus ajustes, às vezes períodos prolongados, alguns deixando
para trás descendentes mestiços, como primeiros cristãos
nascidos em terras hoje pertencentes ao município de São Manuel
(4).
- A mudança dos padres, seja por qual motivo for
não significou o fim do trabalho minerador, permanecendo
os mineiros arranchados nas proximidades daqueles rios,
enquanto neles abundaram riquezas.
O
Sobrado, não tendo fontes naturais e pela impraticabilidade
de se abrir poços mais próximos à superfície,
obrigou os jesuítas trazerem águas através
de um complexo sistema de captação e canalizações
das minas da serra, numa demonstração de conhecimentos
em obras hidráulicas, cujas ruínas, pelos relatos
de autores regionais, até bem pouco podiam ser vistas
(5). Tal hidrodinâmica aplicada em Sobrado e vista
noutras antigas localidades da região, tem servido
ao menos para identificar possíveis influências
dos padres nas suas origens, pelos exemplos similares de
tecnologia aparentemente exclusiva dos padres jesuítas
no Brasil.
Localizado em ponto de passagem quase obrigatória àqueles
que ousavam os caminhos dos sertões, em busca de riquezas,
preações, ou nas andanças tropeiras,
Sobrado se fez próspero como entreposto agro-pecuário
e estabelecimento de compra, troca e venda de ouro e pedras
preciosas. Não podia ser diferente.
Bons empreendedores, os padres logo ativaram comércio
de gado vacum à venda para os passantes, além
de tropas [cavalos e muares] e outras mercadorias também
negociadas no local ou nos portos Araritaguaba [Porto Feliz]
e dos Lençóis, onde das passagens monçoeiras
e dos embarques e desembarques de pessoas, algumas a buscar
empregos na própria Fazenda Jesuítica, atraídas
pelo expansionismo dos padres, segundo relatórios
que dizem das necessidades de se criar bairros para neles
fixar mais mão-de-obra (6).
- As tropas muares eram conduzidas para as regiões
mineradoras, Minas Gerais, Goiás e depois Mato Grosso,
comercializadas pelos padres, embora inexistam documentos
oficiais por razões óbvias, ou seja, prática
de contrabando.
Com a expulsão dos jesuítas dos domínios
portugueses, em 1759, os padres deixaram para trás
suas riquezas e todo rebanho em terras próximas a
Sobrado, logo disperso e alongado para reproduzir-se em estado
semi-selvagem, na imensidão dos campos além-fronteiras.
Nas primeiras décadas do século XIX, Sobrado
ainda servia de pouso e estadia aos viandeiros, quando numa
das expedições lá chegou o cozinheiro
italiano Giácomo Capanema, que se enamorou da filha
de um chefe indígena do aldeamento local e com ela
se casou, pelas leis cristãs, em 1822, através
do padre acompanhante de uma das bandeiras lá hospedadas.
Conta-se que Giácomo, depois de anos residente em
Sobrado, deixou o lugar para se fazer próspero dono
de albergaria em Santos, ao lado de sua mulher (7).
Ruínas de Sobrado foram perceptíveis por décadas,
com alguns vestígios ainda vistos nos anos 1990, além
do nome Sobrado até os dias atuais de fazenda no local.
Para se chegar a Sobrado, rumo ao sertão, o melhor
caminho era a Peabiru até Tatuí, daí por
um ramal ladear a Serra Botucatu pelo norte em direção
a Serra dos Agudos, até onde o povoado, para prosseguir
interiorizações aos Vales do Feio/Aguapeí,
Peixe, Batalha e baixo Tietê. A intensa movimentação
determinou para Sobrado boa infra-estrutura para acolhimento
dos caminheiros, oferecendo-lhes melhores estalagens, currais,
animais de carga, guias nativos e entrepósito comercial
de trocas, compras e vendas.
Ainda de Tatuí, por outro caminho a passar por terras
dos atuais municípios de Guareí, Torre de Pedra,
Bofete e Pardinho onde, no denominado Campos do Paiol (8),
se elevava o povoado de São Jesus do Ribeirão
Grande, antes de subir a serra Santo Inácio e atingir
a povoação de Capão Bonito, no qual
lugar um entroncamento de caminhos, com a senda principal
rumada para Avaré [Abaré-y].
O caminho de Tatuí aos Campos do Paiol e deste ao
Alto da Serra era, grosso modo, ramal tardio desviado da
Peabiru, antes da Serra, estando o trecho principal por exclusividade
dos padres entre as sedes Guareí e Botucatu, "(...)
margeando a estrada que desta cidade vae ao Capão
Bonito, pelo caminho do campo, até um portão,
colocado recentemente na estrada que também, desta
cidade vae ao Capão Bonito, pelo caminho de dentro,
isto é estrada do Tanquinho” (9).
- O Caminho de Dentro ou Caminho dos Padres que cortava
as matas entre Guareí e Capão Bonito, tornou-se
depois Estada do Tanquinho no trecho Botucatu a Rubião
Junior [Capão Bonito].
Talvez São Bom Jesus tenha sido, em sua origem, apenas
um bairro rural jesuítico que se tornou pouso e fez
progresso, sobrevivendo à expulsão dos padres
e confisco de seus bens, quando referência na rota
do contrabando das tropas vindas do sul, pela passagem Teypê-pê – Caminho
de Entrada, posteriormente Piraju, junto ao Paranapanema.
Por lá chegavam, ainda, os tropeiros vindos de Itararé.
De São Bom Jesus os tropeiros subiam a Serra, paravam
ou não em Capão Bonito antes de chegar a Sobrado,
então parada obrigatória para depois continuar
caminho até o Porto de Lençóis, transporem
o Tietê e rumar às Minas Gerais.
- A localidade de São Bom Jesus do Ribeirão
Grande, ou Ribeirão Grande, às vezes chamada
de Santo Inácio, por localizar-se no costão
da Serra Santo Inácio, nas proximidades onde hoje
o Posto Maristela, na Rodovia Castelo Branco – SP.
Em 1973, para a passagem da linha de transmissão
da antiga CESP, foi extinta sua ultima memória,
uma Capela que restara, construção do princípio
do século XX; talvez original apenas uma escadaria
recoberta pelo mato.
Alguns estudiosos acreditam na existência de São
Bom Jesus do Ribeirão Grande antes de 1720. Não
há consenso, embora possível, pois os documentos
de doações de sesmarias aos padres datam entre
1713 e 1719, que em nada implica assunção imediata
das posses recebidas, já com a elevação
de um local de assentamento.
"O que de concreto a História nos revela está num
requerimento do bandeirante Bartolomeu Paes de Abreu, apresentado à Câmara
de São Paulo, com data de 1721, solicitando autorização
para a abertura de um caminho, por terra, ligando o centro da Capitania às
minas do Mato Grosso, recém descobertas. É esse requerimento
que fala da existência de uma povoação por estas bandas.
O bandeirante, ao declinar o local do início da abertura do que ele
mesmo chamou de ‘Picadam’ diz que seu caminho deveria ser iniciado
a partir da ‘ultima povoaçam, da última vila e, também,
a partir do morro do Hibiticatú’. São três referências
para localizar um mesmo ponto. Mais que suficiente! A última Vila seria
Sorocaba. Em 1721, nem Piracicaba, nem Itapetininga, nem Porto Feliz e nem
Tietê existiam. Portanto parece não haver dúvidas nesta
matéria. A pergunta, então, seria a seguinte: que povoação
era essa que ficava tão perto do Morro do Hibiticatú, a ponto
de permitir ser uma referência de início do caminho?” (10).
Talvez o bandeirante tenha mesmo se referido ao povoado de
São Bom Jesus do Ribeirão Grande, ou ao Capão
Bonito, todavia ousamos a localidade de Paranan-Itu, nas proximidades
da hoje cidade de Salto Grande, por candidata à “ultima
povoaçam (...) a partir do morro de Hibiticatu [Ibyticatu]”,
com a descrição do trajeto do possível
picadão de 1722, a partir da proximidade da Barra do
Pardo, no Paranapanema, às margens do rio Paraná,
conforme Bruno Giovannetti, em sua obra Álbum Histórico
do Município de Quatá, edição de
1953, que serviu de base para estudos e conclusões do
pesquisador Gláucio Conde
(11).
PARENTESE HISTÓRICO
Quando da restauração do trono português
em 1640, o Brasil colonial já apresentava características
adquiridas durante os quarenta anos de dominação
filipina, por exemplo, a linha Tordesilhas se transferira
de vez de Cananéia [São Paulo] para Laguna
[Santa Catarina], assim a findar uma pendenga desde 1494.
Tal modificação
tácita pouco pareceu interessar aos colonos brasileiros, desde tempos
já infiltrados para além do imaginário de Tordesilhas.
Dentre aqueles povoadores, no século XVIII destacou-se Bartholomeu Paes
de Abreu, célebre bandeirante, genro de Pedro Taques e, igualmente a
este, aparentado da família dos Campos Bicudo, uma das mais importantes
e ricas do Brasil Colônia, séculos XVII e XVIII.
- Em homenagem ao sogro, Bartholomeu deu a um dos filhos
o mesmo nome Pedro Taques [de Almeida Paes Leme], o mais
famoso historiador e genealogista brasileiro setecentista.
A
distinção familiar e serviços prestados à Capitania
de São Paulo foram responsáveis pelas designações
e nomeações de Paes de Abreu para o exercício
de importantes funções públicas, a exemplos
de Procurador de Concelho [circunscrição político-administrativa],
de Juiz da Câmara Municipal de São Paulo, Capitão
Mor da Vila de São Paulo, Juiz Ordinário e
Guardião-Mor da Intendência Comissária
das Minas do Paranapanema, no Alto Ribeira, criada em 28
de janeiro de 1736, para atender ao recolhimento da captação
do ouro nas minas de Apiaí e do Paranapanema.
- A Intendência Comissária das Minas, em documento
de 1727 [doação de sesmaria onde atual Araras,
fonte Biblioteca IBGE], diretamente vinculada ao Governo
da Capitania paulista assim denominada: Capitania Geral
de São Paulo e das Minas do Paranapanema e Goiás.
Paes
de Abreu igualmente por suas atividades notórias foi
aquinhoado com duas sesmarias, uma no sertão de Curitiba
e outra nos campos de Guartelá, entre os rios Iapó e
Pitangui, entre as regiões agora dos municípios
de Castro e Tibagi [Paraná].
Documento
histórico de 1704 consta concessão de uma Sesmaria da Paragem
de Iapó, do rei de Portugal à família de Pedro Taques,
sogro de Bartholomeu Paes, um latifúndio abrangendo terras paranaenses
onde os municípios, Jaguariaíva, Piraí do Sul, Castro
e partes de Ponta Grossa., o que evidencia o domínio sul brasileiro
em mãos das famílias Taques e Paes de Abreu, aparentadas e vinculadas
aos Campos Bicudo.
Homem
de visão, em 1720 Bartholomeu solicitou à coroa portuguesa, autorização
de se abrir uma estrada desde o sul até Sorocaba, e desta seguir os
destinos oficiais às Minas Gerais e Rio de Janeiro, pelo Vale Paraíba,
na condução de tropas e gados.
A estrada
proposta seria, em parte, calcada sobre trilhas da Peabiru de Santa Catarina
e a ligação desta a partir de Ponta Grossa [PR] com a Peabiru
São Vicente em Sorocaba [SP]. Não obteve a autorização
desejada, mesmo dispondo-se arcar com as despesas em troca do direito de explorar
o uso delas, através de taxas e pedágios.
Apesar da
não permissão exploratória, na realidade apenas a oficialização
de trajeto já existente em terras particulares das famílias Taques,
Paes de Abreu e aparentadas, usuárias do percurso desde Vacarias, passando
por Lages e Campos Gerais até Sorocaba.
A história
reconhece que, desde 1736, tal parte transitada seria o percurso maior da futura
estrada Viamão [RS] a Sorocaba [SP], enquanto outros caminhos atribuídos
aos índios guaranis, depois usados pelos jesuítas, ligavam Vacarias
até Sacramento [hoje território do Uruguai] e daí a Córdoba
[Argentina], sendo estes os trechos interligados que formavam a rota do contrabando
de tropas muares.
O rei português teria fortes motivos para vetar as
pretensões do bandeirante, primeiro porque tais autorizações
permitiriam, oficialmente, avanços e domínios
de Portugal em terras da Espanha, embora sabidamente fazendeiros
e sesmeiros de Ilha Santa Catarina e Laguna já explorassem
quase a totalidade das terras do Rio Grande do Sul [então
espanholas]. Por razões outras, também, a estrada
de Sorocaba ao sul da Colônia feria os interesses monopolistas
dos comerciantes que exploravam transportes de gados e tropas
através dos portos.
- Em 1772/73 se concretizou o ultimo trecho da estrada
real Sorocaba-Viamão, num trajeto praticamente o
mesmo concebido e solicitado [em 1720] por Paes de Abreu.
Já não existia mais Tordesilhas e o transporte
terrestre, de gados e tropas, mostrou-se mais econômico
e em maior quantidade que pelas vias do mar.
Apesar da licença negada para abrir a estrada pretendida,
gentes de Bartholomeu Paes de Abreu transportavam contrabando
de muares até Sorocaba, e desta às Minas Gerais
e Rio de Janeiro, por estradas oficiais com fiscalização
para se coibir traficância, além dos altos pedágios
e taxas para se transitar por elas.
Para evitar gastos o bandeirante optou por rota alternativa
pela antiga Peabiru, de Sorocaba a Botucatu, onde já instalada
a Fazenda Jesuítica sob reitoria do parente Padre
Estanislau de Campos [Bicudo], de lá seguir para os
lados do rio Tietê, onde os portos de Lençóis
e Potunduva, para prosseguimento do outro lado do rio às
Minas Gerais passando por Jaú, São Carlos e
Franca, terras todas sob domínio familiar. Nunca ficou
esclarecido se os jesuítas participavam efetivamente
do contrabando, mas era através deles que se conseguiam
muares da criação dos padres da mesma Ordem
em Córdoba [Argentina].
- Anos depois, com as oficializações da estrada
Viamão – Sorocaba e, nesta ultima, a Feira
Anual de Muares, consequentemente com as cobranças
de taxas e pedágios que encareciam os preços
dos animais, muitos tropeiros se desviavam do caminho oficial
para entrar em território paulista por Piraju, rumo
a Serra Botucatu, para o percurso final. Era a rota do
contrabando.
Fracassado em seu intento da estrada sul, em 1721 Paes de
Abreu requereu à Câmara Municipal de São
Paulo, conforme antes referido, permissão para abrir
caminho entre Sorocaba e Cuiabá, com aproveitamento
de parte da Peabiru até a Serra de Botucatu, daí a
Paranan-Itu de acordo com percurso atrás mencionado,
depois chegar às margens do rio Paraná para
transpô-lo e seguir a Cuiabá.
O próprio Paes de Abreu fundara então uma fazenda
para gado e agricultura às margens do rio Paraná – onde
melhor acesso para sua transposição, levantou
local de comércio, pouso e currais, sob os cuidados
de agregados, para atender entradistas e bandeirantes buscadores
de riquezas. Era forma não só de explorar estadias
e travessias de rios, mas, sobretudo forçar o governo
de São Paulo, ao menos em parte, concretizar seu plano
de abrir a estrada, às próprias expensas, desde
que pudesse exercer monopólio de fornecer gado para
a região das minas, de Mato Grosso e dos “Goyases”,
mais a exploração de taxas e pedágios,
inclusive das passagens nos rios.
Sem aguardar as considerações finais do governo
o sertanista iniciou infra-estrutura da obra e já avançava
oitenta léguas adiante de Sorocaba, quando soube aquela
concessão dada ao seu parente bandeirante Gabriel
Antunes Maciel, descobridor – juntamente com Páscoal
Moreira Cabral, das minas de Coxipó – Mato Grosso,
em 1718. Houve séria disputa entre os interessados,
com a desistência de Gabriel, sem recursos para ressarcir
os gastos de Bartholomeu.
O governo repassou a concessão para Sebastião
Fernandes do Rego, Provedor dos Quintos da Real da Fazenda
de São Paulo, celebrizado por roubar o ouro que ia
para Portugal e substituí-lo por chumbo, além
do assassinato de um membro da notável família
Lemes. Perdeu os direitos daquela estrada sem ter avançado
nenhum palmo adiante.
- "Sebastião do Rego está obrigado á Fazenda
Real, não só pelo crime da chave falça,
como por ter fundido barras de ouro, e, alem do mais, pelo
Roubo dos quintos reaes (...)" conforme citação
Documentos Interessantes para São Paulo – Volume
40, em obra de Paulo Setúbal, os Irmãos Leme,
Coleção Saraiva – volume 4, Saraiva
Livreiros Editores, 1950.
Diante disto, em 1737 Paes de Abreu reclama e requer do
Governo de São Paulo se digne acatar sua reivindicação,
de acordo com registro em Livro Ata da Câmara Municipal
de São Paulo [Senado da Câmara], com a seguinte
transcrição:
“Diz o Capitão Bartholomeu Paes de Abreu, cidadão
desta cidade de S. Paulo, que tendo elle suplicante entrado nas campanhas das
matas que ha entre os rios Anhemy e Paranapanema pelo Districto de Sorocaba
afim de explorar a parte mais conveniente para se fazer caminho para as minas
de Cuyabá o que obrou com auctoridade de Senado da Câmara desta
cidade, em ausência de V.Excia, de que tudo deu conta a V.Excia e fez
a maior parte do Caminho que pode ser útil e passando a serra de Ibyticatu
para diante da passagem do rio Jacory buscou o Rio Grande entre o rio Aguapehy
e Uguray onde se acha com roça de mantimento e com 268 cabeças
de gado que deixou e gente e com esta vantagem obrando com seu desvello e despendio
de mais de dois mil cruzados e se oppoz a factura do dito caminho com as condições
incertas no seu requerimento que tem na secretaria V.E. e porque havendo outros
interessados, teve noticias que V.Excia. hontem que se contaram 6 do presente
mez de Janeiro fizera consulta e se resolvera a favor de Manoel Godinho Lara
excluindo a elle supplicante pela conveniencia que w entendeu o faria o supplicado
sem m achar Bile supplicante presente para ver m podia fazer com a merca conveniencia
ou melhor. B porque cite supplicante determinou ~ ter o dito caminho o= se
ruem= condições que forem recebidas ao supplicado a ainda o supplicante
fará com menos tempo porque w finar obrigar a dar o dito caminho feito
ali a ultimo de Agosto de anho premiste e e metter a goda em 5 anos pelo principio
que tem dado, polo w acha com gente gado e plantas na vizinhança do
Rio Grande para fazer o dito caminho no tempo dito e rio é justo se
appossasse o supplicado do trabalho do supplicante porquanto promette vir do
rio Grande de certa altura e sempre tia de vir a dar no mesmo caminho do supplicante
e sair na sua picada, aproveitando-se do trabalho já feito, o que todo
facilmente se pode conhecer pelas pessoas experientes nas campanhas e por que
parte pode o mesmo caminho ser trate, til que qualquer que De amigue sempre
será na mesma confrontação do supplicante e com mais ora
menos differença, portanto pede a V.E. que atendendo ao referido trabalho
e da despesa já feita e ser o primeiro que entrou nesta diligencia lhe
faça more= de nova consulta, ouvido alta supplicante mala Dom o concurso
de pessoas experientes e pratica nas ditas campanhas se necessário for,
concorra o supplicado para que se determine o mais conveniente ao intento do
dito caminho suo o supplicante reter e fará com menos tempo que o supplicado
e coes a mesmas utilidades do bem comum com prejuízo da fazenda real
e suas prerrogativas e regalias debaixo da mesma fiança que tenho offerecido
de 50 mil cruzados para que quando não obro o que promette mo faça
a casta de ricaça que assignaram catre fiadores o Capitão Mor
D. Simão de Toledo Piza, o Capitão Mor Bodo de Toledo Pisa, Diogo
de Toledo Lara, Antonio Pinto Guedes, José Alves Fidalgo e José Monteiro
p~ conhecidas nesta cidade”.
Deste projeto de Paes de Abreu em terras paulistas restou
o picadão, logo encoberto pela mataria até que,
em 1771, Morgado de Mateus determinou reabertura, concretizada
desde Botucatu até a Barra do Pardo no Paranapanema,
sabendo-se de sua utilização pelo menos até a
região de Santa Cruz do Rio Pardo. Veremos.
Se não conseguiu sensibilizar o governo e a estrada
não lhe saiu, conforme pretendido, Paes de Abreu buscou
rota alternativa numa outra estrada, da Serra Botucatu às
margens do rio Paraná, com aproveitamento de partes
já existente até Lençóis. Pouco
se sabe desta estrada, adiante dos Campos de Avanhandava,
sendo certo que Bartholomeu Paes de Abreu manteve seus negócios
na região do rio Paraná, posto haver recebido
contrato de obter porcentagens das novas minas descobertas
em Mato Grosso [Cuiabá], e direitos de explorar passagem
no rio Paraná.
Do assunto socorre-nos mencionado texto do Relatório
de Gentil Moura, pela Comissão Geográfica e
Geológica do Estado, ao governo de São Paulo:
“(...) há documentos officiaes dos quaes se póde concluir
que esse sertão já foi em parte povoado e que em 1737 quizeram
abrir um:t estrada que, partindo de Sorocaba, subisse a Serra de Botucatu,
e d'ahi atravessasse o rio Lençóes, indo por um dos contrafortes
da Serra de Agudos sahir no rio Paraná. Cerca de 37 annos depois, quando
Sá e Faria por lá passou, encontrou já em ruinas um dos
sitios talvez formado na epocha da abertura da estrada. Essa estrada é referida
no mappa do [rio] Paraná, de Sá e Faria, em frente á barra
do Rio Pardo, onde além da convenção ainda vem a seguinte
nota: ‘Caminho que se abriu para Sorocaba’. A petição
de Bartholomeu Paes de Abreu refere-se ao ponto em que a estrada deve sahir
no Paraná no mesmo local que Sá e Faria a colloca”.
O projeto original desta estrada teria trajeto não tanto
diferente da rodovia Marechal Rondon, percurso a partir de
Botucatu ao rio Paraná, iniciada em 1923. Para a questão
de pontos diferentes do término da estrada, é possível
que a anotação de Sá e Faria, colocando
seu final em frente ao rio Pardo, na verdade se referia ao
percurso projetado em 1722, pelo Vale do Paranapanema, detalhe
não acompanhado pelo relator Gentil Moura em levantamentos
oficiais nas regiões do Feio/Aguapeí, Peixe,
Tietê e Paraná.
RETOMADA AOS PRIMEIROS ARRANCHAMENTOS EM
TERRAS JESUÍTICAS
Outro antigo povoado seria Capão Bonito, inicialmente
um bairro rural jesuítico que se manteve povoação
mesmo depois da expulsão dos padres e confisco da
Fazenda [1759/1760], discutível, todavia, se é o
mesmo bairro ou não que aparece sede da Fazenda Monte
Alegre, por volta de 1840, citado por Olavo P Godoy (12).
Em 1916, Capão Bonito se tornou Rubião Junior,
não se sabendo outra denominação oficial,
talvez Ribeirão Cachoeira, um lugar de pouso também
conhecido por Capela de Cima da Serra de Santo Inácio,
algumas vezes citados em relatos regionais.
É bem possível que antes de existir São Bom Jesus do Ribeirão
Grande, Capão Bonito já fosse ponto de parada no entroncamento
de caminhos, um deles a levar para as margens do Tietê – Porto
de Lençóis, outro ao rio Paranapanema, abaixo da Paranan-Itu,
o mesmo trajeto que Bartholomeu Paes de Abreu postulou em 1721, para abertura
oficial de estrada, mais propriamente seu prolongamento e melhorias de trechos
existentes.
Assim a proceder, Capão Bonito seria ponto de passagem
e pouso, às margens da velha Peabiru pelo alto da
Serra Botucatu, trecho conhecido por Caminho da Serra de
Santo Inácio, de onde prosseguia originariamente a
Abaré-y, pelos lados de Avaré (13).
Em relatos regionais de São Manuel (14) constam
outros povoados, mais propriamente bairros rurais dentro
da propriedade jesuítica Botucatu, a exemplo de Pedra
Ferro, local onde encontrada as ruínas de antigas
construções,
formas de blocos de tamanhos diversos em rochas trabalhadas,
com identificação de ruínas de um grande
reservatório de água e de outras obras como
a igreja e a casa de passagem dos padres. As rochas, inexistentes
no local, foram trazidas por índios pacificados de
uma outra localidade, denominada Quebra Potes.
Dentre as velhas tradições “conta-se
existir na tal Pedra de Ferro uma furna, contendo riscaduras
e hieróglifos que, se reais e decifrados, talvez dessem
elucidação a muitos fatos” (15).
Verdades ou lendas regionais, os antigos diziam tratar-se
de um fojo que teria existido naquele território,
cuja abertura se perdeu nalgum desmoronamento.
Não existem outras referências a Pedra Ferro
senão os restos encontrados, além da toponímia
evidente de sua própria formação geológica.
Assim como Pedra Ferro, apenas algumas ruínas atestavam
a existência de Quebra-Potes; hoje nem isto e até sua
localização exata se perdeu no tempo, com o
desaparecimento dos habitantes mais velhos da região.
Sabe-se, no entanto, que um pouco adiante onde foi sua parte
residencial, estava o lugar em que foram retiradas as pedras
para construções em Pedra Ferro e edificações
no próprio povoado. Nas conformações
rochosas presume-se onde poderia estar ou não o dito
povoado.
A história permite-nos entender a presença
de índios pacificados em Quebra Potes, quando a eles
se refere, pelo menos no transporte dos blocos de rochas
até Pedra Ferro, “transportados das imediações
da Fazenda Quebra Pote, onde é encontrado idêntico
minério, por silvícolas domesticados, desde
que o areão dificultava a utilização
de outro meio de transporte” (16).
A concluir destes fatos, não é errada a ilação
de Quebra Potes tratar-se de possível aldeamento indígena.
Em Serrito, outra povoação em terras jesuíticas,
foi achada “cacos de utensílios manufaturados
com argila e vestígios de ter sido a terra cultivada,
confirmadas as lavouras por restos de engenhos para fabricação
de açúcar e aguardente que os jesuítas
forneciam às monções em trânsito
pelo rio Tietê, peças históricas consumidas
pelo tempo” (17).
Uma outra localidade, denominada Quilombo (18),
abrigava grupos étnicos africanos que buscavam proteções
junto aos padres. Pelo próprio significado do nome
Quilombo, trata-se de uma povoação ou espécie
de territorialidade negra consubstanciada num bairro rural,
originário de concessões jesuíticas
para policultura e criação de gado.
Não se pode afirmar exato tratar-se de negros foragidos,
pois os padres também tinham escravos negros na Fazenda
Botucatu, como se pode ver num documento da Ordem Jesuítica – Informação
Econômica (19) e
certamente em nada lhes seria recomendável
esconder negros fugitivos em sua propriedade.
Certamente pode se conjeturar de negros desajustados com
seus patrões, alforriados ou escravos recebidos por
doações. De qualquer forma, os denominados
quilombolas firmaram residência naquele enclave comunitário,
com autorização dos padres para desenvolvimento
de atividades agro-pecuárias, outros ofícios
e artesanatos revertidos aos padres.
Dentre as tradições populares sobre a Fazenda
dos Padres, “Uma das lendas, passa-se no Bairro do
Quilombo...”, (20),
onde os jesuítas teriam
enterrado seus tesouros antes de abandonarem a propriedade
em 1759/1760, e por isso o local foi, posteriormente, arrasado
pelos caçadores de tesouros, bandeirantes e entradistas.
Ainda não se pode explicar um arraial apenas para
negros nos povoamentos jesuíticos, pois a exemplo
de outros quilombos “a população não
se resumia a negros africanos. A presença de índios
nos quilombos era significativa...” (21),
e nisto se sabe que na Fazenda dos Padres o elemento negro
desde logo se mesclou com o índio, cujos descendentes
[cafuzos] eram incentivados a uniões sempre com os
mamelucos, [nascidos de brancos com índios], para
a formação
de nova raça com a força do negro,
a liberdade do índio e a capacidade intelectiva [considerada
então superior] do branco.
- Esta tendência era vista em todas as administrações
povoadoras jesuíticas, com populações
de tipos distintos e variados das três raças
formadoras, que nas possessões religiosas futuramente
poderiam participar como meeiros, arrendatários,
ocupantes autorizados e que futuramente poderiam ser donos
de datas e dirigidos a outras profissões, inclusive
aquelas que requisitam estudos mais avançados. Sem
dúvidas os padres ainda mantinham o velho sonho
de um estado teocrático. Não bem especificamente
dirigida ao negro, mas aos descendentes. A língua
oficial de entendimentos entre os habitantes dos bairros
era o nheengatu – de tronco tupi, já gramatical,
ensinada pelos padres. Os negros, de diferentes etnias,
não tinham nenhum sistema lingüístico
que os pudessem unificar.
Estreito, outro povoamento em terras dos padres, com os
mesmos propósitos agro-pecuários dos demais,
foi totalmente pilhado e destruído porque em seu território
presumia-se uma grande caverna, em câmeras, que servira
de esconderijo para os tesouros dos jesuítas. “Essa
caverna, segundo consta, teria sido morada dos Padres Jesuítas
[local de passagem]. Poderia o tesouro, estar por lá também...” (22).
A própria geografia do local estimulou, inclusive,
elaborações de mapas onde estariam os tesouros,
alguns vendidos como originais ainda em pleno final do século
XX.
Em Três Pedras existiu um aldeamento indígena
sob cuidados dos padres. Uma lenda diz quando da perseguição
reinol, já com a certeza da expulsão, alguns
jesuítas encarregados de guardar os tesouros se refugiaram
em Três Pedras.
Aqueles padres teriam escondido, numa caverna da região,
grande carregamento de ouro, fechando sua entrada. Traídos
pelos aldeados botocudos acabaram mortos e, com eles, se
foi o segredo onde estavam ocultas as riquezas dos jesuítas
expulsos, que pretendiam um dia retomarem controle da grande
propriedade e reaver os seus pertences.
Buscadores de tesouros arrasaram a localidade à procura
de indícios que os levassem aos esconderijos, ou ao
menos que alguns mapas fossem localizados.
Consta que a entrada do esconderijo tenha sido encontrada
por um rapaz da cidade de Conchas, de família humilde, “que
há muitos anos aparecia todo o mês nas Três
Pedras, passava lá a cavar uns dois dias, saía
com algumas pedras na mão e depois andava a gastar
como um milionário. Mas o rapaz um dia desapareceu,
nunca mais voltou, dele nunca mais se teve notícia” (23).
Obrigados explorar a terra, os jesuítas a fizeram
através dos colonos instalados dentro da própria
Fazenda, em bairros rurais às margens de rios e ribeirões.
Os jesuítas ao assumir controle das sesmarias, concomitante
receberam compromissos de catequizar e disciplinar os índios,
em aldeamentos próximos de núcleos residenciais,
impondo-lhes jornadas de trabalho intensivo. “Pela
primeira vez na região [Botucatu], por conta da instrução
da Companhia de Jesus, erguiam-se ranchos sem a mera função
de abrigo transitório e fixavam-se, para residência
e trabalho continuado, entre dez e 20 moradores, índios
administrados e seus familiares” (24). Tais índios
administrados, denominados índios de repartição
(25), sem dúvidas foram presentes em aldeamentos dentro
da Fazenda Jesuítica Botucatu, infelizmente perdidos
em números e localizações.
Sob a guarda dos padres, os índios se colocavam livres
da escravidão e da preação. No entanto
se podem constatar, pelo regime de trabalho de longa duração
imposto ao nativo, que os padres não lhe tinham somente
interesses espirituais ou de proteção, mas
também econômicos, em especial “os jesuítas
que fundaram várias fazendas de gado e de exploração
agrícola” (26), sendo o custo da mão-de-obra
nativa bastante barata, a troco de ninharias, tabaco, álcool,
pois até a alimentação a natureza lhe
oferecia.
A organização econômica para a Fazenda
Botucatu, pelos tantos bairros rurais vistos, determinava
sua divisão em áreas distribuídas por
atividades, predominando a do gado, sem exclusões
das lavouras diversificadas, gêneros de primeiras necessidades,
além do plantio da cana, do algodão, do tabaco
e das criações de muares, eqüinos, suínos
e aves; teciam panos, destilavam cachaça, curtiam
peles e couros, fabricavam o açúcar, salgavam
a carne, faziam conservas diversas – doces e salgadas,
embutidos e cozidos conservados em banha, e laticínios – queijos
e requeijões. Os frutos da terra se multiplicavam,
exportavam mercadorias, os padres lucravam e a Ordem enriquecia.
Os lucros investidos na agricultura destinada ao comércio
externo e não somente para o consumo, mais o comércio
de gado e tropas, abriram oportunidades para a chegada de
mais pessoas à região, com arrumações
de outros povoamentos interiorizados. Documentos da Ordem
(27) indicavam sucessos do empreendimento a permitir novas
frentes [fazendas] de sete e dez léguas de terras,
para invernadas e agricultura, instalações
de currais e, conseqüentemente mais bairros para moradias
de empregados necessários, “ainda que escravos” (28).
Da Fazenda Boa Vista, como conhecida a Fazenda Botucatu, “Quanto à sede,
local dos currais e dos ranchos moradia, a tradição
e a toponímia situam-nas junto ao rio Santo Inácio,
numa fazenda ainda chamada Boa Vista, nome com que, depois
do confisco pombalino, foi levada à hasta pública
a propriedade dos jesuítas” (29), arrematada,
aos 23 de dezembro de 1766, pelos sorocabanos, Capitão
Paulino Aires de Aguirre e o Sargento-Mor Manuel Joaquim
da Silva e Castro.
Os arrematantes não conseguiram posse imediata da
Boa Vista, pela feroz resistência imposta pelos índios
aldeados e ocupantes das terras, tomadas apenas em 1770,
pelo Coronel Francisco Manuel Fiúza, e entregue aos
novos proprietários que mandaram construir uma capela
em honra a Nossa Senhora das Dores, como nova denominação
dada à sede da fazenda desde o arremate em 1766. Os
donos residiam em Itapetinga e a fazenda foi divida em porções
menores e postas à venda com bons lucros, ainda no
tempo dos arrematadores.
Alguma razão determinou que a Fazenda Boa Vista ou
Santo Inácio não representasse toda a Fazenda
Jesuítica confiscada, senão parte menor dela,
mais precisamente o Alto da Serra. “No ano de 1759,
com a expulsão dos jesuítas, as terras passaram
a pertencer a Estanislau de Campos Arruda, de Itu, que passou
a ter três sesmarias, e as terras da direita vinham
dar em Avaré, Bofete e Porangaba...” (30).
Aparentemente Padre Estanislau entregara apenas Boa Vista à Ordem,
a manter demais partes em seu nome ou de parentes, ainda
a caber pressuposto que as tensões entre o Estado
e os Inacianos, a partir de 1750, tenham motivado o reitor
transferir maior parte dos bens para os familiares.
Das terras de Estanislau de Campos Arruda diz o pesquisador
e escritor Paulo Fraletti: “também vi na relação,
a formação da sesmaria de Estanislau de Campos
Arruda, que chegava até o trecho de Porangaba e Pereiras,
pois nos livros de registro de posses e terrenos (sítios)
da Paróquia de Tatuí, de 1854 a 1856, existentes
no Arquivo do Estado, encontrei vários terrenos comprados
por carta particular, de Estanislau Campos de Arruda. (...).
Estanislau de Campos Arruda existiam três...” (31),
afora o Padre Tenente e Reitor da Ordem de Santo Inácio
no Brasil, com o mesmo nome, sem o sobrenome Arruda.
Nas outras direções, “Na sesmaria que
beneficiou a Antonio de Almeida Taques lê-se que o
campo e a que se refere está da outra parte da
serra que vai para o Iguatemi” (32); a costear
a serra rumo ao sul, João Álvares de Araújo
serviu-se de quinhão de terras “além
do Rio Pardo, às margens do abandonado mas não
de todo esquecido caminho do Iguatemi” (33). Taques
e Araújo eram aparentados com descendentes dos Campos
Bicudos, pelos Almeida e Álvares, e mesmo em linhagem
direta (34).
Também João Pires de Almeida Taques, seus parentes,
João Oliveira Pires, Antonio Augusto Leite Penteado,
Francisco Pais de Mendonça e Jerônimo Pais de
Proença, além dos herdeiros do aparentado Manuel
Fabiano de Madureira, juntamente com o bugreiro Capitão
ou Coronel Francisco Manuel Fiúza, foram agraciados
com as novas terras do sertão, por ordens da Coroa,
com a missão de mandar derrubar mato, abrir lavouras,
assentar gentes e criar gado, para adiante da Serra Botucatu,
em Terras de Bauru, Campos dos Lençóis até os
Campos do Avanhandava, pelos caminhos do “Picadam” de
Bartholomeu Paes de Abreu. (35).
Ainda, André de Souto Gurgel, outro vinculado à família
Bicudo, fez posses ao leste e sudoeste adiante da serra,
terras vendidas a Simão Barbosa Franco, fazendeiro
na região de Itapetininga e Sorocaba. Simão
fora encarregado pelo governo de São Paulo, [o Morgado
de Mateus], fundar povoados na região de Botucatu
(36), por isso a ânsia em comprar terras além
de suas posses, para delas tirar proveitos e lucros.
Hernâni Donato esclarece: “Lisboa obrigava
os paulistas que serviam nas guarnições e nos
trabalhos reais a procurar o sertão
continuando as buscas dos bandeirantes ou abrindo lavouras. A um primeiro tempo
essa gente foi reforçar as populações agrícolas
de Sorocaba, Piracicaba, Tietê e Porto Feliz. À medida que encontravam
ocupados esses espaços ou premiam os antigos moradores ao deslocamento
sobre as terras novas do sertão ou iam, eles próprios,
abrir lavouras e fazendas” (37).
- Em meados do século XIX, descendentes e aparentados
da família Campos Bicudo ainda possuíam propriedades
na região, quase nada diante da outrora Fazenda
Jesuítica Botucatu.
Entre os anos 1830 /1843 a localidade Nossa Senhora das
Dores de Cima [ou do Alto] da Serra, ainda mantém
o mesmo nome, quando os latifúndios foram divididos
em propriedades menores vendidas aos interessados, para assim
atrair gentes de Parnaíba, Porto Feliz, Itapetininga
e Sorocaba, entre outras localidades, uns empregados em novas
e prósperas fazendas instaladas na região,
outros a se aventurar em compras de lotes e assim trabalhar
por conta própria, além dos ocupantes de terras
vazias descobertas entre sesmarias.
Em 1843, o fazendeiro Capitão José Gomes Pinheiro
Machado doou terras ao redor do povoado, para a instalação
de futura freguesia, com mudança do nome local para
Santa Ana [Sant’Ana] de Cima da Serra.
Em 1846 a localidade foi elevada a freguesia com o nome
de Sant’Ana de Cima da Serra de Botucatu, logo reduzido
apenas para Botucatu.
3. ADMINISTRAÇÃO JESUÍTICA,
CONFISCO, DESPOVOAMENTO E REPOVOAÇÃO
3.1 ADMINISTRAÇÃO
Excludente talvez a habilidade dos padres em tratar com
os gentios aldeados em suas terras, as demais causas
em Botucatu estavam voltadas para o lucro empresarial, através
da mineração, da criação do gado
e das tropas, ou esta associação, da mesma
forma que a comercialização dos excedentes
agrícolas. Os jesuítas, diplomatas e excelentes
comerciantes, ali, jamais foram bons missionários.
Para mover lucros e obter os excedentes era preciso trabalhar
a terra organizadamente, em qualidade e quantidade, o que
exigiria contingentes para mão de obra, conseqüentemente,
mais moradias e povoados próximos às grandes
lavouras e invernadas, com isso o incremento comercial para
a população interna, exigente de produtos básicos
e novidades de consumo.
Os arraiais jesuíticos, alguns deles postos estrategicamente
pelos caminhos das minas ou rotas dos bandeirantes, foram
fundados pelo espírito ambicioso e empreendedor dos
padres, com “a esperança de que as fazendas
seriam de boa ajuda... por estarem localizadas no caminho
das minas e, portanto serem de venda fácil os
seus produtos” (1).
Ao longo de suas terras os padres promoviam a policultura
com grandes plantações de milho, feijão,
mandioca, batata-doce, banana, cana-de-açúcar,
arroz e algodão, além das criações
comerciais de cavalos, bois, cabras, porcos e galinhas, cujos
excedentes eram postos a vendas e trocas, tanto nos povoamentos
[cidades e povoados] estabelecidos fora da fazenda, quanto
em seus próprios assentamentos.
A prosperidade destas aglomerações vinha de
conseqüências diversas, conforme suas próprias
causas progressistas e dos trabalhadores envolvidos em atividades
localizadas, como os vaqueiros, roceiros, mineradores, alambiqueiros,
pescadores, carreiros, feitores e capatazes. Também
eram contados entre os moradores de povoado os ferramenteiros,
marceneiros, oleiros, construtores e artesãos.
Os povoamentos eram distribuídos em aguadas ou pontos
estratégicos ao longo dos caminhos e das divisas,
tanto para a eficiência produtiva quanto para manutenção
do imenso patrimônio, conforme comprovam achados de
cacos de utensílios manufaturados, vestígios
de terras outrora cultivadas, além dos restos de artefatos
e objetos do lar, que os moradores dispunham para si e às
expedições em trânsito pelo sertão,
peças consumidas pelo tempo, pelo abandono por mais
de século das propriedades e construções,
mais a destruição generalizada e as provocadas
pelos bandeirantes e entradistas.
O fato de trabalhadores especializados, ou mesmo aqueles
cujos serviços os permitiam permanecer no povoado,
propunha segurança às famílias daqueles
que necessitavam ficar temporadas longe delas. A que permitia
a presença de famílias nos povoados era convite
para vindas de outras gentes intencionadas para o trabalho.
Os moradores de cada povoado não ultrapassavam vinte
moradores (2), talvez famílias nunca recenseadas oficialmente,
ou contadas como gentes de Itapetininga.
Sem se afastar do principal catequético, são
inegáveis que as explorações comerciais
da propriedade e rendimentos auferidos, tornaram prósperos
os padres, tanto pela administração e trabalho
de suas gentes, quanto pelas inter-relações
com povoações mais antigas e firmadas como
centros e rotas comerciais.
Pode-se então dizer que o sistema econômico
jesuítico em Botucatu repousava sobre bases capitalistas,
isto é, visando lucros, porque os padres tinham o
dinheiro, podiam trazer os implementos, possuíam a
terra para ser explorada e empregavam mão de obra,
com quem se relacionava também comercialmente, pois
que eram dos padres os armazéns que ofereciam os produtos
básicos para o consumo de seus empregados.
Embora os padres explorassem suas terras com mão de
obra livre ou semi-escrava, como empregados, conforme assunto
já exposto com as devidas referências, acredita-se
que experimentaram o sistema de parceria no trabalho da terra,
entregando-a aos meeiros, ou seja, aqueles que se ocupavam
em produzir livremente nas propriedades que não eram
efetivamente suas, mas num sistema divisional em dois quinhões
iguais da produção, mais uma porcentagem combinada,
aos proprietários, pelo uso da terra. Era um sistema
mais ou menos comum na época, que fazia o trabalhador
render mais, e os padres não se privariam desta modalidade.
A economia da Fazenda voltada à criação
de gado e produção de gêneros necessários
para o abastecimento das diversas instituições
da Ordem, principalmente o Colégio Jesuítico
de São Paulo, se tornou eficaz para a seleção
de excedentes postos a vendas para as expedições
que faziam uso seguro dos caminhos jesuíticos. Em
pouco tempo já exportavam mantimentos e cargas vivas.
Os inacianos sabiam que a região entre os Paranapanema
e Tietê, a partir das divisas do Guareí até as
barrancas do Paraná, desde o século anterior
[XVII] vinha sendo palmilhada pelos caçadores de índios
e buscadores de tesouros, parte por caminhos fluviais e parte
por terra, esta em especial para conduzir indígenas
aprisionados e evitar as corredeiras e saltos. O uso de animal
de carga para transporte de mercadorias aliviava ombros escravos,
e podiam ser feito em maior quantidade, com mais rapidez;
de Paranan-Itú a Botucatu, treze dias, e mais oito
de Botucatu a Sorocaba.
- O padre jesuíta Luiz Gonzaga Cabral, mencionando
Aleixo Garcia [século XVI], confirma estradas terrestres
e fluviais para interiorizações, que os padres
[jesuítas] “abriram as estradas de Santos
a São Paulo e mais outras para o interior, especialmente
uma por Botucatu até o aldeamento do Paranapanema
com comunicação fluvial para Mato Grosso” (3),
portanto entre 1608 a 1628, a tratar-se sabidamente da
senda Peabiru.
Livres de quaisquer embaraços os padres conquistaram
controles das principais rotas rumo aos sertões, com
estabelecimentos de pousadas, currais e entrepostos de vendas
de gado e produtos derivados como a carne, embutidos e laticínios,
do extrativismo da terra, dos excedentes agrícolas
e subprodutos como doces e conservas. Outros tantos sobejos
eram distribuídos em centros consumidores, cuja opção
se tornou fonte de renda adicional da fazenda Botucatu, evidentemente
ao lado da mineração que oficialmente lhes
era proibida.
Os negros, muitos deles, certamente chegaram fugidos e encontraram
a proteção dos padres que, na verdade, conseguia-lhes
manumissão por compra, antes de empregá-los
num sistema de semi-servidão igual aos nativos. Do
ponto de vista do negro, tratamento muito mais humano que
a escravatura.
Todos os habitantes habilitados para o trabalho tinham por
obrigações participar do bem estar social e
comunitário da Ordem, contribuindo com seu labor determinados
dias da semana, numa espécie de atividade coletiva,
reservando, todavia para si e sua família outros dias
para as roças de família ou da comunidade.
Foi esse o sistema de trabalho jesuítico às
margens do Paranapanema e outras localidades.
Alguns bairros mantinham pequenos engenhos de cana para a
produção do açúcar, alambiques
para a cachaça, monjolos e alguns incipientes, porém
eficazes, sistemas de beneficiamentos de grãos e cereais,
com os quais detinham prioridades de vendas de suas produções,
através dos padres ou vendas avulsas, sempre com melhores
qualidades para o comércio.
Das atividades do trabalho comunitário as famílias
quase sempre conseguiam formar pequenos excessos, assim a
exercitar certas relações comerciais de vizinhanças,
já como unidades sociais de ações mais
complexas que relações próprias de bairros
rurais, assumindo características de pequenas vilas
ou arraiais, com certa independência da localidade
sede. São Bom Jesus do Ribeirão Grande e Capão
Bonito foram exemplos de localidades progressistas.
Padres visitantes compareciam de tempos em tempos nos povoados
periféricos, onde exercitavam autoridade em primeira
instância junto aos moradores. As visitas esporádicas
de algum religioso sempre se davam em meio a grandes festas
de batizados, crismas, casamentos, quermesses e se lavravam
os óbitos ocorridos. Os documentos oficiais eram conduzidos à sede
para arquivamento oficial.
O centro administrativo da Fazenda Jesuítica aparentemente
funcionava como paróquia mãe das pequenas capelas
erguidas nos povoados, assim a cuidar oficialmente das guardas
e expedições de registros e documentos de todos
seus habitantes, e seria, ainda, centro de ensino escolar,
religioso e das artes de ofícios de carpintaria, tecelagem,
construções e olaria entre outras. Pelas características
e informações regionais vistas em referências
citadas, presume-se que Sobrado tenha sido esse centro administrativo,
embora se possa apontar a sede de Guareí como a Casa
Oficial dos Padres, depois de certo tempo.
A Fazenda Botucatu espelhou sua administração
agro-pastoril e mineração, em outros empreendimentos
remotos dos padres, das casas, colégios, empreendimentos
e aldeamentos que “apresentavam certos traços
comuns, o que não poderia ser diferente, uma vez que
os jesuítas deveriam trabalhar sempre de maneira uniforme
com vistas à universalização de seus
resultados” (4). Exemplo disso estava a Fazenda Guareí,
mais antiga, bem às suas divisas, além de outras
que experimentaram fracassos e sucessos, como a propriedade às
margens do rio Comprido, entre os atuais municípios
de Jacareí e São José dos Campos, iniciada
a partir de 1590, que se transformou numa missão catequética,
de forte oposição aos preadores de índios
e agricultores que faziam uso da mão de obra escrava
indígena, cuja guerra entre colonizadores e padres
culminou com a expulsão dos jesuítas, em 1640,
e a conseqüente dispersão dos aldeãos.
- Os padres para lá retornaram, alguns anos depois,
num novo local para nova missão catequética
e núcleos habitacionais, desta feita como fazenda
de gado, cuja sede denominou-se Residência de São
José, como organização urbana daquilo
que formalmente se dizia aldeia, a exemplos de outros povoamentos
naquela propriedade como a Residência do Paraíba
do Sul (5).
A organização urbana de aldeias jesuíticas
teve por responsável o padre Manoel de Leão
que, a partir de 1663, assumiu controle administrativo à frente
das fazendas jesuíticas, desde São Paulo (6),
com a fundação de núcleos residenciais,
como forma de povoar a terra, garantir a posse pacífica
e nela fixar famílias. Tal modelo, adotado por regra
geral da Ordem no século XVIII, foi o posto em prática
para a Fazenda Botucatu a partir de 1719.
Os padres se fixaram numa zona preferencialmente indígena,
os índios gostavam da cuesta, pois ela lhes
dava segurança aparente, mas isto tudo lhes foi tomado
e os impeliram para exercer trabalhos em troca do necessário
para subsistência, cientes seus dominadores que a eles
não interessavam fugir de seus protetores e empregadores,
sob pena de caírem em mãos de preadores e levados
para locais distantes de suas origens, quando não
dizimados.
De uma forma ou outra entendemos que o jesuitismo se tratou
de cultura invasora destrutiva aos valores nativos, tornando-os à mercê dos
contingentes humanos brancos, que chegavam para ocupar suas
terras, obrigando-os a uma convivência forçada
ou expulsando-os para mais distantes, onde certamente se
defrontariam com outros inimigos ou viriam se sentir indefesos.
Nos
anos 1750 a Fazenda Jesuítica Botucatu mostrava-se
devidamente integrada aos principais centros habitacionais,
São Paulo, Sorocaba, Itapetininga, Itu e Porto Feliz,
além do comércio exterior, ciente que a prosperidade
sem dúvidas atrairia fluxo humano para a região
e a cobiça do governo.
3.2 A EXPULSÃO DOS JESUÍTAS E CONFISCO
DOS BENS
As relações dos jesuítas com o Estado
se deterioraram a partir de 1750, pelo apoio à resistência
dos índios missioneiros em se transferir para terras
da coroa espanhola, pelos termos do Tratado de Madri que
definiu a posse das terras ocupadas por Portugal e Espanha.
Para o Ministro Marquês de Pombal, os jesuítas
estariam se negando abandonar o complexo missioneiro Sete
Povos das Missões, ao oeste do Rio Grande do Sul,
insuflando os guaranis à resistência, e assim
continuar com o controle sobre aquela confederação
de estados teocráticos, formados pelas Missões
espalhadas pelo Brasil, Paraguai e Argentina, não
dando satisfações ao poder secular.
Historicamente são postas diferentes
versões
para o episódio expulsão dos jesuítas
das terras do Brasil, exemplo que a Instituição
Jesuítica se tornara demais poderosa, em condições
de rapidamente se armar e fazer insurgir as gentes, que viviam
sob sua tutela, contra a coroa, com apoio de estados estrangeiros,
para assim conquistar a independência de Portugal e
se transformar num estado teocrático.
Para o governo português e setores anti-jesuíticos
da Igreja, que certamente se beneficiariam com o desfecho
do episódio, os inacianos haviam criado uma estrutura
econômica independente, que lhes permitiam posição
mais crítica em relação ao sistema reinol.
Outra alegação dizia que as propriedades jesuíticas
eram prósperas e ricas, onde os padres viviam nababescamente
em detrimento aos demais moradores de bairros distantes e índios
aldeados, que se encontravam na miséria e na servidão,
para sustentação opulenta dos padres.
Exageros ou não, Pombal ab-rogou todo o poder temporal
exercido pelos jesuítas em terras do Brasil, certamente
para esconder os fracassos de Portugal quanto a execução
do Tratado de Limites da Colônia do Sacramento, a culpar
os jesuítas e contra eles desencadear desqualificações,
até censurá-los por pregação
religiosa, que o grande terremoto de Lisboa (1755) fora castigo
divino, propondo penitência ao povo e ao governo.
Certas argumentações apontam os jesuítas
acoitadores de foras da lei, de qualquer nacionalidade, em
seus domínios no Brasil ou no exterior, usando-os
por braço armado da Ordem, assassinadores por encomendas
ou mandos, inclusive recaindo-lhes acusações
de engendrar atentado contra o rei português Dom José I,
crime considerado de alta traição.
A lei [de 1750] que retirava dos jesuítas a administração
das aldeias e dava libertação aos índios,
somente para o Maranhão, fez-se extensiva a todo Brasil
por Alvará de 8 de maio de 1758, portanto quase um
ano antes do Decreto real de 1759, o que bem evidencia relações
estremecidas já existentes entre os inacianos e as
autoridades portuguesas. Reconhecidamente tal medida foi
desastrosa para os nativos.
Contudo foi oficialmente por desafiar e por em risco o poder
português, que os jesuítas acabaram expulsos
de todo império, por determinação do
rei José I, com data de 20 de abril de 1759, por inspiração
de Pombal o qual, para bom exercício e cumprimento
do Decreto Real, com pulso forte seqüestrou todos os
bens da Ordem, fechou-lhes os colégios e as missões,
prendendo e expulsando a maioria dos padres, antes de decorridos
os cinco meses concedidos para deixar o reino e colônias,
não sem antes determinar arrasamento dos Sete Povos
das Missões.
Ao todo foram expulsos 670 padres jesuítas, os principais
metidos antes em prisões e postos incomunicáveis,
privados de defesa, todos eles condenados e embarcados para
Lisboa, onde alguns dos líderes mantidos encarcerados,
enquanto outros transladados para os Estados Pontifícios
de Roma (1).
Após a expulsão dos jesuítas do Brasil
em 1759, todos os bens da Ordem: fazendas, colégio
e aldeias passaram para custódia da Coroa, cujo capital
serviu para sanar grande parte dos prejuízos de Lisboa.
O maior dano causado foi no campo educacional, com a ruptura
de um bem implantado sistema de ensino aos moldes europeu,
cuja ruptura transformou num caos a educação
no Brasil, por gerações e gerações,
com tantas reformas frustradas até 1934, quando criada
a primeira universidade em São Paulo.
O seqüestro da propriedade dos padres em Botucatu e
o confisco dos seus bens, ocorreram aos 9 de janeiro de 1760,
levados ao leilão público em 23 de dezembro
de 1766, constando da relação pronunciada pelos
executores a Fazenda Boa Vista de Botucatu, com todos seus
pertences, sendo arrematantes aqueles citados Capitão
Paulino Aires de Aguirre e o Sargento-Mor Joaquim da Silva
e Castro, cuja transação consta nos Autos de
Arrematação, Maço 400, folhas 2 Arquivo
Nacional – Rio de Janeiro (2).
As autoridades, aparentemente, não conseguiram catalogar
adequadamente a fazenda dos padres, durante seis anos pós-confisco,
nem seus arrematantes alcançaram posse imediata, somente
vindo fazê-la depois de 1770, com expulsão dos
habitantes de alguns bairros em propriedade jesuítica,
com limpeza étnica e social maior que a desocupação
territorial.
Os moradores em bairros
jesuíticos resistiram aos novos
proprietários, muitos se embrenhando, isolados ou em
arranchamentos temporários, os negros novamente arredios
e os índios perigosos atacantes. A região se
tornou conflituosa, os proprietários vicinhos abandonando
suas fazendas e sesmarias.
3.3 DESPOVOAÇÃO
Os paulistas desbravaram os sertões além do
Tordesilhas, às procuras do ouro e índios para
escravização. Índios trouxeram-nos em
grandes quantidades para abastecer o mercado interno e outras
regiões que necessitavam de mão-de-obra escrava,
Bahia, por exemplo; enquanto o ouro nunca foi fácil
encontrar em seu próprio território, senão
minas de Apiaí, Paranapanema e Caatiba, e em regiões
do Paraná [português] – pequena parte
do território atual, administrado pela Capitania de
São Vicente.
Os paulistas, sabidamente, nunca respeitaram a linha divisória
Portugal e Espanha, mas o ouro não era tão
fácil encontrar em seus domínios, senão
em Paranaguá e Guaraqueçaba, sob protestos
dos espanhóis que insistiam o sul de Cananéia
por marco de separação entre os dois reinos.
Com a dominação filipina, entre os anos 1580
e 1640, os bandeirantes promoveram expansão territorial
bastante adiante de Tordesilhas, afinal Portugal e Espanha
constituíam um só reino. A restauração
da coroa portuguesa, em 1640, não significou retorno
aos limites impostos pelo célebre tratado, afinal
os portugueses e colonos brasileiros não encontraram
resistências em permanecer ou entrar em partes de terras
espanholas, pelas dificuldades da Espanha guardar território
em suas posses nas Américas.
Em 1680 os paulistas descobrem ouro em Minas Gerais, e para
lá acorrem reinóis, os brasílicos e
mamelucos de São Paulo, num intenso fenômeno
migratório, com graves conseqüências sociais
e econômicas, agravadas por interesses desencontrados
que visavam controles das minas, com inevitáveis confrontos,
de um lado os paulistas – e sua razão era justa,
foram eles os descobridores das minas e do ouro, de outra
os “reinóis, os baianos, os fluminenses e pernambucanos,
todos os forasteiros, [que] consideravam as minas como propriedade
do Estado [mais propriamente da Colônia], e, assim,
eles como membros desse Estado [Colônia], com pleno
direito poderiam aproveita-las” (1).
A Coroa não pensava assim, para nenhum dos lados,
o ouro era todo seu, por isso a se fixar rápida e
definitivamente nos locais de mineração, através
de seus fiscais, para que não se desviassem as riquezas
extraídas, daí a exclusividade real nas casas
de fundições, para controle da produção
e cobrança de impostos devidos pelos mineradores e
proprietários de minas ao Erário Real. A Coroa
impusera, ainda, cobrança de taxas sobre mercadorias
que entravam nas regiões de garimpos, além
dos pedágios sobre os direitos de travessias dos grandes
rios.
Os bandeirantes reagiram. Eles haviam ousado os sertões
e desafiado os espanhóis ao romper a linha do Tordesilhas;
enfrentaram os perigos do sertão e encontraram o ouro. “Deveriam
ser por isso mesmo os primeiros, ou os únicos, a aproveitarem-se
dos descobertos” (2).
A Coroa, além de contar com os patrícios, rapidamente
requisitou mercenários para abaterem paulistas a traições,
além de armar os reinóis com poderosa artilharia,
para assim promover sangrento conflito contra os de São
Paulo com suas armas obsoletas.
Ainda, outros interesses estiveram em jogo; a disputa pelo
monopólio do
comércio de gêneros alimentícios, por
exemplo, gerava desentendimentos com os habitantes das Minas,
que pretendiam ver garantido o abastecimento dos seus arraiais.
A Coroa, que impusera a cobrança de taxas sobre toda
mercadoria que entrasse nas Minas, enfrentava problemas também
para reprimir alguns emboabas que contrabandeavam gêneros
alimentícios.
O sangrento conflito – A Guerra dos Emboabas [1708
a 1709], em que o medo, as traições e as vinganças
pontuavam como poderosa artilharia, ao lado de pistolas,
facas e setas, terminaram em 1709, com a expulsão
dos paulistas da área, abrindo a possibilidade para
a ação da Coroa portuguesa naquele território.
Formava-se a região das Minas, com total autonomia
da Capitania de São Paulo, ainda que a esta vinculada
por força legal.
Desde o acontecimento da Guerra dos Emboabas, nem o ouro
extraído passava mais por São Paulo para embarque
pelo Porto de Santos e com isto a cessar o pagamento de taxas,
pedágios e embarques, sempre uma receita aos cofres
paulista. Agora o ouro seguia direto para o Rio de Janeiro,
por caminho de Minas a Parati, onde embarcado para o exterior.
São Paulo beirava o caos, pois todas tais circunstâncias
causaram-lhe deficiência agro-pecuária e incapacidade
para produção de bens exportáveis, e
até seus governantes passaram residir em zona de mineração
[Mariana – MG]. Ainda em 1709 “chegou mesmo José de
Góis Morais a propor a compra da Capitania de S. Paulo
e São Vicente por 40.000 cruzados, no que não
consentiu D. João V [Rei de Portugal], comprando a
mesma por esse preço. São Paulo passou nessa época
a ser Capitania independente e Piratininga substituiu S.
Vicente como sede, sendo elevada à categoria de cidade” (3).
São Paulo e São Vicente, desde então,
uma só Capitania, bastante pobre.
D. João V resolveu incrementar: criou a Capitania
de São Paulo e Minas de Ouro aos 9 de novembro de
1709, abrangendo o território de Goiás. Numa
ousadia e reconhecimento aos bandeirantes e entradistas,
o monarca português resolveu acrescer em mesmo ato
de 1709 os territórios de Mato Grosso, Paraná,
Santa Catarina e São Pedro do Rio Grande do Sul, sob
jurisdição administrativa de São Paulo,
mesmo ciente que os paulistas estariam a ocupar, na verdade,
território espanhol (4).
Com tais medidas, São Paulo apresentou sinais de recuperação
econômica devido aos novos mananciais auríferos
descobertos primeiro em Mato Grosso, depois Goiás,
para logo se voltar para as Minas Gerais dispostos à desforra,
com propósitos de escorraçar os reinóis
e demais forasteiros, para reaver suas minas metalíferas,
adquirir jazidas em produção e descobrir outras,
para assim incrementar maior produção.
Ainda que pouco tempo decorrido da Guerra dos Emboabas, menos de uma
década, Minas Gerais apresentava problemas caóticos como faltas
de escravos, de animais de carga, de utensílios, além das dificuldades
de abastecimento, agravado com o contrabando dos emboabas que retiravam partes
da margem do lucro português na produção do ouro. Outro
fator ainda considerado, a saída de sua mão de obra para as novas
minas descobertas em Mato Grosso e Goiás, pois os mineradores livres,
em grande parte mamelucos de São Paulo, preferiam trabalhar com os paulistas
que se sujeitarem aos emboabas.
A partir de 1718, com a presença paulista novamente
em Minas Gerais, ganhou curso um forte sentimento separatista
que seduzia os mineiros. Os paulistas pretendiam separar-se
do restante da colônia, juntamente com Minas Gerais,
alvo de seus investimentos em compras de zonas inteiras de
mineração e recuperações de outras.
D. João V, alertado, aprovou em 1720 o desmembramento
definitivo de Minas Gerais da Província de São
Paulo; houve traições e tal separação
retirou todo o dinheiro paulista aplicado em Minas, num processo
de estatização da exploração
do ouro ou sua entrega em mãos de consorciados, além
do desarmamento da população de São
Paulo, medidas suficientes para sufocar as pretensões
de emancipação.
São Paulo estava, portanto, desinteressante quando
da chegada jesuítica na região de Botucatu,
por volta de 1720, com algumas idéias inovadoras,
como as grandes fazendas com suas lavouras e invernadas para
criação de gado, ao mesmo que a família
Campos Bicudo e parte da parentela resolveram investir, também,
em lavouras e criação de gado em terras do
sul, além de facilitar aos jesuítas caminho
seguro, por entre suas terras, para o contrabando de gado
vacum e muar, da Argentina até Botucatu.
A intenção posta em prática estava em
criar e levar animais para zonas de mineração,
livremente para Goiás e Mato Grosso, clandestinamente
para Minas Gerais de onde traziam o ouro, contrabandeado,
para fundição em seu território, com
isto a concorrer diretamente com a Coroa.
Entre os Campos [Bicudo] tudo se arranjava fácil,
havia interesses mútuos, as terras da família
vinham desde o Sul – onde divisavam com os jesuítas
da região, e subiam rumo a Sorocaba, pendiam pelos
lados de Botucatu e Lençóis, avançavam
Jaú, São Carlos e Franca, para enfim se chegar
a Minas Gerais.
Minas Gerais, rica em ouro não tinha lavouras nem
criações de gado, assim a depender de comércio
externo para abastecimento de suas gentes. Em breve os padres
lhe fariam chegar mercadorias para consumo, além dos
muares para o trabalho de transportes.
Os contrabandos de muares de São Paulo para as zonas
de mineração e o ouro de Minas Gerais para
São Paulo, passavam sempre pela Fazenda Jesuítica
de Botucatu, fenômeno perceptível pelos rápidos
avanços e enriquecimentos da Ordem dos Padres e dos
Campos Bicudo, em valores bastante elevados para apenas vendas
de produtos agro-pecuários, cujas atividades exigiam
tempo e muito trabalho para produção em alta
escala e retorno esperado.
Em 1721 os paulistas fundaram Cuiabá e, em 1723, Vila
Boa de Goiás. As novas minas no centro-oeste e tais
pontos de referências compensaram a perda definitiva
de Minas Gerais, mas com esta a continuar o lucrativo contrabando
de mercadorias, animais e desvio de ouro para fundição.
A Coroa reagiu, a Capitania paulista perdeu então,
sucessivamente, São Pedro do Rio Grande do Sul [1736],
Santa Catarina em 1738, Mato Grosso e Goiás em 1744
[pela rainha Maria Ana Josefa – mulher de D. João
V] e, tardiamente, Paraná em 1853. Todos desejavam
emancipação para melhor usufruir suas próprias
riquezas, pouco a importar o sacrifício paulista párea
suas origens e desenvolvimentos.
- O rei D. João V esteve enfermo, por longo período,
sendo muitos dos atos reais de Portugal assinados por sua
mulher Dona Maria Ana Josefa, também conhecida por
Maria Ana da Áustria – pela sua origem. D.
João V faleceu em 1750, sucedido pelo filho D. José I
e assim iniciar a era Marques de Pombal.
Em 1748, também pela rainha Maria Ana Josefa, São
Paulo foi rebaixada à condição de Comarca
da Capitania do Rio de Janeiro, com governante preposto e
sediado em Santos. A história registra que São
Paulo foi perdendo territórios e dinamismo econômico,
na primeira metade do século XVIII, até a ocorrência
de anexação. Isto é discutível,
talvez mais situação política que econômica
vista São Paulo apresentar-se bastante fortalecida
economicamente, embora despovoada, suas vilas são
pequenas e sua força ativa de trabalho mais presente
junto às zonas de mineração, com a ambição
de enriquecimento rápido.
Aliás, foi essa interiorização paulista, à procura
do ouro, a responsável em fazer recuar o Tratado Tordesilhas,
que nem Espanha nem seus colonos tiveram condições
de fazê-lo voltar aos limites originais estabelecidos.
Em 1720, muitas regiões do Brasil estão além
do Tordesilhas tal qual no Mapa das Capitanias Hereditárias,
de Luiz Teixeira, 1574, onde o “erro proposital, para
o Oeste da linha de Tordesilhas (5)”.
O aspecto empreendedor e as sucessivas conquistas paulistas,
além Tordesilhas, eram mesmo motivos de despovoamento,
ou de não povoação, dentro daquilo que
hoje concebemos por Estado de São Paulo. Os mamelucos
avançavam em vagas sucessivas, acompanhando as expedições
e ficando naquelas outras paragens, deixando despovoado o
seu próprio chão.
“Em 1721, nem Piracicaba, nem Itapetininga, nem Porto
Feliz e nem Tietê existiam” (6)
oficialmente, quando já instalada a Fazenda Jesuítica Botucatu
com pelo menos os núcleos residenciais de São Bom Jesus do Ribeirão
Grande, Capão Bonito, e o pouso e porto Paranan-Itu, tidos como bairros
rurais ou povoações não oficiais, sendo suas gentes contadas
entre os habitantes da então Vila de Sorocaba. Outros povoados viriam
a seguir, nos anos e décadas seguintes.
Os limites de Sorocaba, ”em direção ao
Oeste, nunca chegaram a ser perfeitamente demarcados. Mas,
se trabalharmos com os dados relativos aos sucessivos desmembramentos
do território paulista, que posteriormente originavam
novas vilas e municípios, se verifica que o território
dela cobria grande parte do atual Estado de São Paulo” (7).
A tomada da
Fazenda Jesuítica Botucatu
colocou em fuga a mão-de-obra residente, conseqüentemente
extintos os bairros rurais, além de contribuir notoriamente
para a estagnação econômica da região,
com reflexos negativos em toda Capitania de
São Paulo, além de fazer cessar as exportações
de gado vacum, suínos, muares e eqüinos, produtos
agrícolas, conservas, artesanatos e outros bens manufaturados.
3.4 REPOVOAMENTO
O oeste paulista, desde Botucatu, teve três épocas
distintas de povoamento civilizado, uma entre os anos 1608-1620,
quando das missões jesuíticas às margens
do Paranapanema, outra, de 1719 a 1760, com a Fazenda Jesuítica
Botucatu e seus bairros rurais, além da ultima e definitiva,
com a chegada dos mineiros a partir de 1830. As duas primeiras
povoações foram mais ou menos localizadas,
com avanços contidos pelas forças que as destruíram,
quase sem deixar vestígios.
Nos intervalos entre tais acontecimentos, a região
continuou corredor de passagem para aqueles que demandavam
sertão, além das expedições colonizadoras
e as militares de reconhecimento. Não se pode excluir,
todavia, a tentativa de governo em repovoar a região
a partir de 1765 a 1775, da qual trataremos a partir de 1770,
quando o Capitão Paulino Aires de Aguirre e o Sargento-mor
Manuel Joaquim da Silva e Castro, arrematantes da Fazenda
Jesuítica Botucatu em hasta pública de 1766,
contrataram certo Coronel [ou Capitão] Francisco Manuel
Fiúza (1), para expulsar invasores e exterminar índios
de suas terras que não se deixassem escravizar, missão
levada a efeito com extremada crueldade, aquém e além
das serras, e das nascentes e partes do curso do rio Pardo.
Pelos serviços Fiúza recebeu terras, parte “em
cima da serra do caminho que se abrio para Iguatemy daquém
do rio Pardo” (2).
- Coronel Fiúza cumpriu seu ofício e entregou
limpa a fazenda para seus contratantes, que puderam
enfim erguer a Capela de Nossa Senhora das Dores de Cima
da Serra, o novo nome desde 1766.
O latifúndio, não mais próspero como
nos tempos dos padres, foi dividido em diversas fazendas,
mas os proprietários não moravam nelas ou nem
sabiam certo onde localiza-las, deixando tudo aos encargos
de um capataz, algumas famílias de roceiros e trabalhadores
de gados, um quase nada de gente. Os herdeiros não
manifestando interesses, venderam partes, perderam outras
que se tornaram terras devolutas para entregas a novos proprietários,
por sesmarias, a repetir o ciclo de desinteresses pela região,
senão alguns meeiros interiorizados abaixo da serra,
com seus arranchamentos quase escondidos, a cuidar de pequenos
rebanhos e poucos roçados.
Basílio de Magalhães (3) informa-nos da expedição
colonizadora de Teotônio José Juzarte, pelos
caminhos do rio Tiete e depois Paraná, numa incursão
bastante detalhada pela região da Alta Sorocabana,
em 1769, através do rio Santo Anastácio, embora
referida expedição tivesse por objetivo o interior
do Mato Grosso, pelo rio Iguatemi.
- Juzarte estava à frente de uma grande expedição,
com cerca de oitocentos homens, mulheres e crianças,
pelos rios Tietê, Paraná e afluentes até o
destino final (4).
Também no ano de 1769, consta a expedição
militar de reconhecimento sob comando de Francisco Nunes
Pereira, parte a explorar o rio Paraná até Sete
Quedas, enquanto outra detalhava os rios afluentes, com destaques
para o Iguatemi e Santo Anastácio. Francisco Nunes
Pereira morreu na empreitada ficando o comando da expedição
sob responsabilidade de Ignácio da Motta (5).
Entre 1769/1770, Francisco Paes comandou equipe oficial que
explorou todo o curso do rio Santo Anastácio e região,
em busca do melhor caminho de ligação entre
São Paulo e Mato Grosso, a partir de Sorocaba (6).
Assim, desde 1770 o rio Santo Anastácio, e com ele
partes do extremo oeste paulista, passam figurar nos mapas
oficiais da província de São Paulo.
Não há dúvidas que existiram arranchamentos,
na bacia do rio Pardo, desde os últimos trinta anos
do século XVIII, conforme Carta Provincial do Governo
de São Paulo, datada de 12 de fevereiro de 1771, que
se obriga determinar ajuda compulsória dos
moradores da região, portanto reconhecidos, em tudo
que deles necessitasse o capitão-mor de Sorocaba,
designado Construtor Chefe da vereda de Botucatu à barra
do Rio Pardo, junto ao Paranapanema, num trajeto que “Dos
arredores da atual cidade de Pardinho (...) foi sair nas
vizinhanças da hoje Santa Cruz do Rio Pardo e Campos
Novos” (7).
O governador da Província de São Paulo, entre
1765 a 1775, foi o nobre português Capitão-General
Luís Antonio de Souza Botelho e Mourão, o Morgado
de Mateus, e era o Capitão-Mor de Sorocaba, José de
Almeida Leite. O Morgado de Mateus era amigo do Marques de
Pombal – primeiro ministro português, e por este
incumbido a restaurar a Capitania de São Paulo, os
atuais estados de São Paulo e Paraná, fundar
cidades para povoar os sertões, guarnecer os rios
Paranapanema e Paraná, expandir fronteiras a oeste
e levantar fortalezas para proteger o sul contra os espanhóis,
ainda ressentidos das perdas territoriais com o fim do Tordesilhas
(8).
Daquele caminho Hernâni Donato esclarece: “Que
ao menos o trecho até a barra do Pardo no Paranapanema
foi aberto nos dá prova documento de concessão
de Sesmaria (...) que beneficiou a Antonio de Almeida Taques
lê-se que o campo a que se refere está da
outra parte da serra [de Botucatu] que vai para
o Iguatemi”, numa referencia ao caminho traçado
(9).
A rota pretendida era, conforme o desejo do Morgado, “a
vereda que se deve seguir é entrar pela Serra de Botucatu
onde tenha maior comodidade e daí botar o agulhão
em ponto fixo na barra do rio Pardo e aí cortando
o sertão, bem pelo meio da campanha entre os dois
rios Paranapanema e Tietê, fugindo sempre de avizinhar
dos matos e pantanais que ambos tem por toda sua margem (...” (10).
Morgado valera-se de antigas estradas, religiosas, bandeiristas,
a Peabiru e algumas das principais trilhas indígenas,
articulando-as entre si e com as bacias hidrográficas
dos rios Tietê, Paranapanema, Paraná, Iguatemi
e Prata, além de fundações de freguesias,
elevações a vilas de povoações
progressistas e cidades, com objetivos de povoar a terra
e defende-la das pretensões espanholas, sem dúvidas
princípios estratégico-militaristas dentro
dos objetivos pretendidos pelo governo do Marquês de
Pombal.
Diz ainda Hernâni, que “são fazendeiros
depois de 1730, no planalto oriental e ao sul: (...) João Álvares
de Araújo. Avançou para o sul, costeando a
serra e posicionando-se além do rio Pardo, às
margens do abandonado, mas não de todo esquecido caminho
do Iguatemi” (11).
O mapa oficial da América Meridional, de 1748, por
Jean-Baptiste Bourguignon Anville detalha a Serra de Botucatu,
mas não assinala a presença do homem branco
na região (12), a saber, no entanto, que nenhuma povoação
menor que trinta famílias brancas tenha sido citada
em qualquer outro mapa da época, sendo seus moradores
contados como ruralistas de uma localidade já na condição
de vila; “Botucatu também não foi fundada
em 1767, porque não havia, dezenas de léguas
ao redor, gente com que faze-lo. A lei determinava um mínimo
de trinta famílias. Não existiam tantas” (13).
Entendemos assim significar, em nenhum arranchamento ou bairro.
Em levantamento populacional de Itapetininga, no ano de 1772,
num povoado em território onde o atual município
de Botucatu, “foram contados 46 habitantes ocupando
sete moradias” (14), número aquém das
trinta famílias para o censo oficial de tal localidade
especificamente denominada, conforme legislação
em vigor.
- A população de um povoado jesuítico
da Fazenda Botucatu, já mencionamos, contava entre
dez e vinte moradores, mais os índios, escravos
e familiares, números nada desprezíveis para
a época.
Em 1776 Martim Lopes foi designado governador da Província
de São Paulo. “O novo titular timbrou em desmanchar,
apagar, desmoralizar quanto planejara ou realizara o antecessor
[Morgado de Mateus]” (15).
A Capitania de São Paulo, na troca de governo “tinha
sessenta mil habitantes, espalhados em uma cidade, dezoito
vilas, nove aldeias e 38 freguesias. A cidade de São
Paulo contava com cerca de quatro mil almas, a vila de Sorocaba
era a mais importante, seguida de Santos, Guaratinguetá,
Paranaguá, Itu, Taubaté, Parnaíba, Jacareí e
Atibaia. Na Relação de Vilas e Freguesias da
Capitania de São Paulo, feita em 1765 pelo Morgado
de Mateus, aparecem 36 povoações, a capital
e nove aldeias de índios. No primeiro grupo, estão
as vilas de Mogi das Cruzes, Jacareí, Taubaté,
Pindamonhangaba, Guaratinguetá, e as freguesias de
Facão e Piedade. No segundo grupo, as vilas de Atibaia,
Jundiaí, Mogi-Mirim, Mogi-Guaçu, Parnaíba
e as freguesias de Juqueri e Jaguari. No terceiro grupo,
as vilas de Itu, Sorocaba, Faxina, Apiaí, Itapetininga,
Curitiba, Lajes e a freguesia de Paranapanema. Em anotação
ao terceiro grupo, o Morgado assinalava também as
freguesias de Guarulhos, Santo Amaro, Cotia, Araritaguaba,
Nazaré e as vilas "porto de mar" de Santos,
São Sebastião, São Vicente, Ubatuba,
Iguape, Cananéia, Itanhaém, e, na serra, São
Luís de Paraitinga” (16).
Botucatu, ou aquilo que foi a Fazenda Jesuítica, esteve
nos planos do Morgado de Mateus, para levantamento de pelo
menos cinco povoações, estrategicamente postas
pelos caminhos que fizera abrir para adiante da Serra. Foi
encarregado o sesmeiro e fazendeiro Simão Barbosa
Franco.
É difícil unanimidade em torno de Barbosa Franco
e sua missão
em fundar povoações na região. Aparentemente foi ele um
aproveitador fracassado, a saber, no entanto, partícipe da fundação
de Piracicaba pretendida para ser uma fortificação militar e
dar segurança em trechos do Tietê e do próprio rio Piracicaba,
além de Itapetininga e Itapeva, elevadas para guarnecerem os caminhos
vindos do sul, já conhecido por caminho das tropas.
Constam projetos de outras povoações, para
proteger incursões pelo Paranapanema, como parte da
implantação do plano de defesa do Morgado.
Uma outra povoação pretendida estaria na Serra
de Botucatu, desde antigamente apontada como referência
para o sertão. Botucatu não foi fundada por
essa ocasião – 1766/1767, a restar apenas um
Decreto de sua criação e nada mais em qualquer
outro documento durante o governo de Morgado. O território
de São Paulo, por aqueles lados, ainda demorou quase
setenta anos para o surgimento oficial do povoado, a permanecer
até o final do século XVIII, São Bom
Jesus do Ribeirão Grande, Capão Bonito e Sobrado,
nas condições de pousos à beira dos
caminhos que levavam aos sertões.
Admite-se, então, Botucatu em completo abandono, a
partir do governo Martim Lopes, com apenas um ou outro indivíduo
embrenhado em pontos distantes, foragidos da lei, perseguidos
politicamente, recusadores de recrutamentos, desertores de
tropas imperiais ou de contingentes policiais.
Não se sabe quantos destes indivíduos entraram
no Vale do Paranapanema, com certeza uma família na
região de Timburi desde 1799, certo Francisco Ferreira
dos Santos e sua esposa Maria Prudência d’Oliveira
ou Maria Ferreira, e um filho, constando que referido Francisco
veio foragido de Ouro Fino, Minas Gerais, onde cometera um
crime. Oficialmente, porém as primeiras terras do
lugar foram registradas somente em 1850, pelos irmãos
posseiros Joaquim e José Ribeiro Tosta (17).
É certa a existência de outros núcleos
atestados nos restos de ranchos, fogões, matos rebaixados
e indícios de antigos roçados,
que bem dão conta da presença do homem branco interiorizado na
região do Vale Paranapanema, ainda que apenas temporariamente.
Analisando os objetivos e realizações dos governos
Morgado de Mateus e Martim Lopes, se pode dizer que enquanto
o primeiro pretendeu abrir caminhos e povoar os sertões
para além da Fazenda Jesuítica, o outro cuidou
do despovoamento e do abandono da região. Exemplo
disto aponta para o já citado Simão Barbosa
Franco, adquirente de terras na região de Botucatu,
sem jamais ter nela morado e nem era homem de sertão,
incumbido em 1766 pelo Morgado de Mateus de fundar povoados,
abrir estradas e fazer pontes na região de Botucatu
e adiante da Serra, ou restabelecer aqueles outrora jesuíticos
bem como manter seus caminhos, recebendo para isto uma sesmaria.
Por isso o fracasso.
Aparentemente as intenções de Simão
foi apenas conseguir mais terras além das suas e comercializa-las
a bons preços, sob as promessas de cumprimento de
suas empreitadas nunca realizadas. Documentos históricos – Registros
de Sesmarias da Província de São Paulo dão
conta da venda de parte de uma de suas sesmarias a Manoel
Antonio Araújo.
O fracasso de Simão Franco pode ser creditado a Martim
Lopes, que lhe negou apoio necessário para cumprimento
da incumbência que lhe fora dada pelo Morgado. Sem
condições de atender até as próprias
possessões, Simão perdeu todas elas, tornadas
devolutas em 1787.
De 1790 a 1830 os povoadores, mineiros em grande maioria,
optavam pela região de Araraquara, então a
Boca do Sertão, em detrimento ao Vale Paranapanema.
Marta Amato (18) diz que a vinda de mineiros deram formação às
vilas de Araraquara, depois Itirapina [Itaqueri da Serra],
Brotas, Jaú, Dois Córregos, e outras mais,
desmembradas dessas.
O
passo seguinte seria a ocupação do vasto oeste
paulista.