PARTE
I – INCURSÕES
PELOS CAMINHOS DO VALE DO PARANAPANEMA
1. GUAYANÃ [XOKLENG]
Não raramente o Guayanã é apontado
como Povo Aweikoma, do mesmo grupo Caingangue, mas com certas
diferenças culturais adquiridas de grupos pioneiros
e mantidas por força de isolamento, como o botoque,
transformadas em tradições que os tornariam
diferentes. Ainda hoje é discutível se esse
povo, Xokleng ou Xocré – como também é conhecido
o Guayanã, seria do mesmo grupo Caingangue, dados
identidade lingüística e o corte de cabelo [coroado],
ou não, dadas àquelas suas peculiaridades.
- O hábito de perfurar o lábio inferior e
nele inserir pedaços de madeira, o tembetá,
aumentando de tamanho ano a ano até um enorme círculo
ornamental na fase adulta, identifica este povo também
pelo nome Botocudo.
O Arqueólogo Ph.D. Marco Aurélio Nadal de
Masi (1) aponta
presenças Xokleng [Guayanã]
e Kaingang [Caingangue], povos da mesma família Jê do
Brasil Central, vivendo nas costas de Santa Catarina, já com
as diferenças lingüísticas e sociais a
lhes determinar diferente desenvolvimento histórico,
situação que anula tese de Lozano (2),
quando afirma o Guayanã por povo ancestre dos Caingangues.
Apesar das tantas proximidades entre Guayanãs e Caingangues,
pela ancestralidade comum, as principais diferenças
se encontram conforme modelo Xokleng criado por Lavina (3) “no
qual o grupo é caracterizado como nômade (...)” em
função das condições ecológicas
e sazonais dentro do seu espaço territorial, por onde
transitava em diferentes estações do ano.
O nomadismo sazonal e ecológico que dividia as tribos
Xoklengs em grupos e subgrupos, para melhor subsistência,
provavelmente tenha trazido algumas famílias isoladas,
fugindo dos brancos, para as margens do rio Paranapanema
em meados do século XVI, todavia não se tem
informação precisa de tal migração
ou o tempo de duração em novo habitat, considerado
curto e, por isso mesmo, com provável mantença
de usos, costumes e tradições, sem diferenciações
consideráveis de seus pares mais ao sul, exceto quanto à dieta.
No sul propriamente dito, informa-nos Lavina, sempre por
Nadal de Mais – conforme referencias, os Guayanãs
assentavam-se nas encostas da serra durante as estações
primavera e verão, enquanto no outono e inverno ocupavam
a Mata de Araucária, sendo que, “na primavera
e verão os acampamentos eram pequenos e pouco estáveis
(alguns dias) com grupos de 8 a 30 pessoas. Locais com mais
recursos teriam acampamentos mais estáveis de até uma
semana, e locais pobres em recursos apenas uma noite”,
embora se tenha por exceção o período
cerimonial da primavera, ritos da perfuração
dos lábios, quando os acampamentos “se diferenciam
nesta época do ano, pois são grandes e ocupados
aproximadamente por um mês”. Nos períodos
do outono e inverno “os grupos são maiores de
até 50 pessoas e a duração da ocupação
dos acampamentos seria mais longa de até três
meses, devido a coleta de pinhão e a concentração
de fauna em função da abundância do fruto
das Araucárias”.
Também De Masi acrescenta que Lavina, “baseado
nos dados etnohistóricos descreve os tipos de abrigos
e sua construção tanto em uma quanto em outra área
ecológica de ocupação pelo grupo nas
diferentes estações do ano, assim como descreve
os tipos de atividades desenvolvidas por homens e mulheres,
a manufatura de diferentes tipos de fogueiras, cestaria,
cerâmica, artefatos líticos e de madeira bem
como a caça e coleta dos recursos de subsistência,
e sua preparação, e em alguns casos, a sua
conservação (pinhão). Os mortos eram
cremados e sepultados sob um montículo de até 50
cm de altura”.
Do Guayanã conforme dado entender por Soares de Souza, “não
vive este gentio em aldeias com casas arrumadas como os Tamoios
seus vizinhos, mas em covas pelos campos debaixo do chão,
onde tem fogo de noite e de dia, e fazem suas camas de ramas
e peles de alimárias que matam. A linguagem deste
gentio é muito diferente da de seus vizinhos, mas
entendem-se com os Carijós” (4).
Os Guayanãs optavam por moradas em cavernas, galerias
subterrâneas ou sob pedras, quando as conseguiam, algumas
com gravações e/ou inscrições
rupestres (5);
mas muitos de seus sítios arqueológicos
também são vistos em campos abertos, o que
nos faz pressupor que, à maneira e semelhança
dos aparentados Caingangues quando em nomadismo, “Tem
a forma prismática como um abrigo de beira-de-chão
e coberto com folhas de samambaia ou com fetos de samambaia,
muito raramente com folha de jerivazeiro. Tem um telhado
plano que desce até o chão” (6).
Nestes considerandos os Guaianãs em regiões às
margens do Paranapanema igualmente desconhecendo a agricultura
mantiveram-se também nômades, vivendo da exploração
coletiva e de estocagem temporária daquilo que a natureza
local podia lhes oferecer, ou seja, continuando coletores,
pescadores e pequenos caçadores, sem cerâmica
notável e com indústria lítica e em
madeira bastante pobres, inclusive de armas, que os tornava
impotentes diante dos adversários.
Auguste de Saint-Hilaire relata, por informações,
presença de índios Guanhanã na região
de Itapeva (7),
mais tarde identificados por Egon Schaden como Caingangues (8),
portanto, pelo mesmo Schaden, nada a ver com os antigos Guanhanã [Guayanã] (9),
enquanto para Carlos Drumond a designação Guaianá,
que entendemos corruptela de Guaianã, identificava
qualquer grupo indígena, independente de sua origem,
tribo ou nação (10).
Com tais esclarecimentos percebemos os Guaianãs mais
ao sul com certa identidade tribal, diferentemente daqueles
presentes no Vale Paranapanema onde são bem pouco
conhecidos ou estudados, vistos historicamente na região
de Avaré (11),
em meados do século XIX, nômades
caçadores coletores levados à extinção
por José Theodoro de Souza, em 1850, talvez uns poucos
sobreviventes embrenhados em outras matas ou absorvidos por
outras tribos. Não se sabe e nem temos registros se
foram atraídos ou não para o Aldeamento.
Ainda não nos foi possível precisar alguma
outra distribuição geográfica Guaianã em
outros espaços territoriais que não em região
do Paranapanema, posto que nenhum de seus sítios arqueológicos
nos chegou intacto, mesmo suas cavernas ou subterrâneos
certamente reocupados por outros grupos que lhes tomaram
territórios. Também, aparentemente, o Guaianã não
nos deixou indicadores de seu modo de vida, pela indústria
de armas e objetos cerâmicos [vasilhames e utensílios],
certamente colhidos pelos sucessores, ou por que jamais ultrapassou
a condição de tribo coletora, servindo-se apenas
daquilo que a natureza lhe oferecia, além da caça
e pesca rudimentar, sem vestígios de armas ou instrumentos
próprios, o que lhe qualifica composta de medíocres
guerreiros, ou que não teve tempo para auto-afirmação
nem organização tribalista regional.
A ausência
de relatos permite-nos, por ora, apenas o asserto que no
final do século XIX não mais existiam
Guaianãs na região do Vale do Paranapanema.
2. CAIUÁ,
POVO TUPI-GUARANI
Os Caiuás ocupantes de partes do Planalto Ocidental
Paulista, no século XIX, não eram unidades
políticas. Talvez nunca tenham sido, dentro da nação
Tupi-Guarani, identificados a estes apenas pelo uso de língua
variante [dialeto] do Abanheenga, e certas proximidades de
usos e costumes certamente adquiridos.
Não nos parece incorreto que tais Caiuás tenham
sido destroços tribais unificados que adotaram usos,
costumes e língua dentro dos aldeamentos, por isso
os Caiuás compreendidos como Guaranis Independentes.
Quase nada se sabe de Caiuás em estado selvagem na
região, pois que sempre foram vistos aldeados ou oriundos
de aldeamentos anteriores, o que nos faz compreendê-los
em diferentes períodos históricos, interpolados,
quanto às fixações e épocas,
que ainda hoje confundem os estudiosos, posto que já nas
primeiras décadas do século XVII sabemos de
grupos Tupi-Guaranis, inclusos os Caiuás, presentes
nas reduções espanholas de São Tomé,
Santo Inácio, Nossa Senhora do Loreto e São
Pedro, às margens do Paranapanema, antes de presenças
como trabalhadores semi-livres na Fazenda Botucatu, um empreendimento
jesuítico levado a efeito entre os anos 1719 e 1759.
Antecedendo os primeiros Caiuás na região é justo
pressupor alguma outra presença Tupi-Guarani, mencionada
por Tidei Lima, destacada dos Caiuás (1), certamente
os Carijós e os Tupiniquins mencionados por Capistrano
de Abreu.
A despeito de tantos aldeamentos e experiências com os
brancos, os Caiuás do Planalto Ocidental Paulista e
circunvizinhanças, em relação aos pioneiros
alternaram fases pacíficas com agressividades
(2), aparentemente
quando seu grupo acrescido de aparentados ou agregados selvagens.
2.1 DOS CAIUÁS E CARIJÓS
NUMA SÓ TRIBO
Com a chegada dos brancos em Cananéia, entende-se
que os Carijós deixaram o local para habitar as vertentes
do Paranapanema (3), fazendo recuar os Jês-Guaianãs
para o médio curso daquele rio. A presença
dos Carijós no Vale Paranapanema não antecederia,
contudo, o ano de 1526.
Já os primeiros Caiuás teriam chegado por volta
de 1537, das regiões desde o rio Paraguai, rio Paraná,
foz do Piquiri e barra do Corumbataí, perseguidos
pelos espanhóis caçadores de índios,
para disputar com os Guaianãs partes territoriais às
margens do médio Paranapanema.
Uma segunda disposição seria em meados do século
XVI, quando fugitivos do branco escravizador, Caiuás
vindos da região litorânea entre Cananéia
e São Vicente para se fixar além da serra de
Botucatu, na região de Avaré e às nascentes
e partes do Paranapanema, unindo-se a grupos [parentes] antecessores.
Consideramos que os Caiuás [primeira e segunda levas]
e Carijós tenham se fundido numa única tribo,
quando se interiorizam para além do Guairá,
em 1581, postos em fuga pelo preador Jerônimo Leitão
(4).
Por volta de 1602 muitos daqueles índios e descendentes
são aprisionados por Nicolau Barreto, na região
de Guairá (5).
Os remanescentes Caiuás somente
reaparecerão
na região do Paranapanema em 1608, em reduções
jesuíticas espanholas de São Tomé, Santo
Inácio, Nossa Senhora do Loreto e São Pedro.
2.2 DAS REOCUPAÇÕES
CAIUÁS
A partir de 1608 índios Caiuás e aparentados
fizeram parte dos reduzidos em missões jesuíticas
espanholas, até a destruição total delas
pelos bandeirantes paulistas, entre os anos 1628/1635, quando
sobreviventes não escravizados fugiram a esmo para
depois, aos poucos, reocupar partes do sertão Paranapanema
[paulista]. Grupos que se refugiaram para o sul logo retornaram,
fugindo das encomiendas espanholas.
Óbvio que o sertão oeste paulista não seria o melhor lugar
para indígenas em fuga; se do lado espanhol estavam os encomienderos,
na parte portuguesa os bandeirantes e entradistas não eram menos perigosos;
mas, aparentemente, existia uma faixa espécie terra de ninguém (6)
onde se instalaram destroços de tribos, praticamente em melhores condições
longe dos caminhos conhecidos e transitados pelos europeus.
Não há como caracterizar, nesse período
1635 a 1718, que o Tupi-Guarani ou, mais propriamente o índio
Guarani, não seja o mesmo Caiuá instalado nas
regiões das atuais, Bauru, Agudos, Itapeva e Itaporanga,
mas alguns autores insistem distingui-los (7). Entendemos
que referidos grupos indígenas Guaranis classificados
Caiuás sejam, na verdade, destroços tribais
de cultura assimilada em redução jesuítica
espanhola.
De qualquer forma, descendentes Caiuás, mestiços
ou não, são vistos entre 1719 e 1759 em harmonia
e convivência pacífica com brancos, negros e
outros índios, em bairros rurais da Fazenda Jesuítica
de Botucatu, até que outra vez dispersos pelos caçadores
e exterminadores, desta feita pelos novos conquistadores
e fazendeiros, após a expulsão dos padres jesuítas
do território brasileiro.
Hernâni Donato, ao dizer de Francisco Manuel Fiúza,
implacável matador e escorraçador de índios
nos anos de 1770, aponta que “existiria então,
junto da atual Praça Coronel Moura [Botucatu], aldeamento
de Caiuá, índios mansos” (8).
Fugindo dos massacres, numa ultima dispersão histórica,
grupos denominados Caiuás instalaram-se na região
de Avaré – aparentemente aldeia principal, e subgrupos
espalhados pelos territórios atuais de Itatinga, Timburi,
Cerqueira César, Bauru, Agudos e Lençóis
Paulista. São nessas localidades que José Theodoro
de Souza e seu bando vem encontrá-los em 1850.
2.3 APAGAMENTO CULTURAL
Durante quase um século, de 1760 a 1850, os Caiuás,
ou destroços Tupi-Guaranis, voltaram a um estado de
selvageria e revolta contra os brancos, em disputas pelas
terras com os primeiros fazendeiros, pós-jesuítas,
que insistiam avançar domínios rumo ao sertão,
alugando serviços dos bugreiros (9) com a missão
de matar e expulsar índios.
Apesar de tantas tentativas, os brancos não conseguiam
avançar sertão cinco léguas adiante
de Botucatu, pela feroz resistência indígena
encarnada nos Caiuás, pelos lados de Itatinga e Avaré.
Por citações de filhos e netos de pioneiros
sertanistas, os Caiuás sabiam métodos de luta
dos brancos, transmitindo aos descendentes certas táticas
de combate, como não se defrontarem com o inimigo
em campo aberto, preferindo as matas onde mais facilmente
se abrigavam dos tiros.
Também optavam por ataques surpresas ou combates corpo
a corpo, porque sabiam ineficientes suas flechas contra as
proteções que os brancos usavam sobre o corpo
[escupis], ou pelas corridas ziguezagues que praticamente
lhes impediam fixar o alvo. Um outro eficiente sistema era
chegar, pelas matas, até onde estavam os brancos e
ali ataca-los, para assim impedir-lhes avanços até as
aldeias.
As aldeias Caiuás eram levantadas em arco defensivo para
conter a progressão dos fazendeiros além da
serra Botucatu em direção ao rio Paraná.
Com tal sistema de defesa e proximidades entre grupos, os
Caiuás apresentavam grande mobilidade e fácil
comunicação pelas matas, com isso a dificultar
ações dos brancos.
A resistência dos Caiuás durou até 1850
quando chegou José Theodoro de Souza para lhes destruir
quase total, a partir do grande massacre de Abaré-y – Avaré (10),
num morticínio abrangente e sanguinolento, depois
continuado cruel durante décadas a dizimar ou fazer
recuar tribos e, em seu lugar fixar colonizadores até a
conquista total do sertão Paranapanema.
As ações de Theodoro não se limitaram
aos Caiuás, perseguindo igualmente os Botocudos, os
Otis e Caingangues da região ou encontrados pelos
caminhos de passagem do bando avassalador.
A progressiva destruição Caiuá, por
José Theodoro de Souza e seu grupo, tinha o beneplácito
do Capitão Tito Corrêa de Melo, líder
político influente e mandatário maior de Botucatu
e região, algumas vezes eleito deputado, por isso
tais extermínios jamais repercutiram junto às
esferas políticas da província e do império.
Quando já não existiam Caiuás agrupados
no Planalto Ocidental Paulista, entre os anos 1856 e 1858,
o governo de São Paulo ensejou aldear tribos indígenas
da região em São João Batista do Rio
Verde [Itaporanga] e Tijuco Preto [Piraju] – SP, dado
massacre de Caingangues na região do Feio/Aguapeí,
reduzindo-se grupos Oti-Xavantes e sobreviventes Caiuás,
nenhum Caingangue,
Relata-nos a história que, fracassado os Aldeamentos
Itaporanga e Piraju (11) poucos anos depois, uns tantos índios
sem identidade – chamados Caiuás [pelos brancos],
foram aldeados em São Pedro de Alcântara, às
margens do rio Tibagi [onde hoje a cidade de Jataizinho,
PR], São Jerônimo da Serra [PR] e Itariri [SP].
Outros se embrenharam mata adentro para os lados de São
Miguel Arcanjo, Sete Barras e Iguape, vagando bêbados
pelos arredores de povoados, cometendo pequenos roubos e
perturbando o sossego de todos, motivos suficientes para
serem caçados e mortos (12). Os Caiuás egressos
dos aldeamentos ou vistos nas matas, nada mais tinham de índio,
já ultrapassado meados do século XIX, senão
os traços fisionômicos.
Depois do ano de 1864 apenas destroços tribais Caiuás
foram encontrados pelos desbravadores, em terras adquiridas
de José Theodoro; eram grupos errantes, algumas centenas
(13), que fugiam da ameaçadora presença branca,
rumo às densas matas do Vale Santo Anastácio.
No início dos anos de 1900 possíveis remanescentes Caiuás,
adiante do rio das Anhumas, resistiram aos avanços
do homem branco na reconstrução da Estrada
São Paulo - Mato Grosso (14), a antiga Boiadeira.
Seriam hordas Tupi-Guaranis fugitivas do Paraná que,
unidas, se assentaram na região durante o período
de quase abandono da velha estrada – 1893 a 1903. Constam
documentos que aqueles índios Caiuás retrocederam
(15), assim representando risco menor para os empreiteiros
e operários envolvidos no empreendimento (16).
Segundo Curt Nimuendaju, em 1907, na região de Bauru
existia apenas 67 índios Guaranis contatados (17),
seguramente nenhum Caiuá em todo território
paulista.
XAVANTES
Referências históricas apontam o povo Xavante
integrante da família lingüística Jê,
do tronco Macro-Jê (1), originário remoto do
litoral maranhense (2), posto em fuga desde a chegada [invasão]
dos colonizadores a seu território, em fins do século
XVI, parte migrando para terras norte e centro do atual estado
goiano (3), parte em região mato-grossense, entre
os rios Culuene e das Mortes (4). Aí já em
formação dois grupos que mais tarde se tornariam
distintos.
- Apesar da interiorização, durante boa parte
do século XVII os Xavantes da região central
brasileira foram vitimas da violência empregada pelos
bandeirantes em capturá-los para o trabalho escravo.
Bandeirantes e entradistas passavam constantemente pela
região a procura do ouro e do índio para
apresamento, sendo os capturados conduzidos para os garimpos
das Minas Gerais e para as fazendas e engenhos do litoral,
como São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco.
Em fins do século XVII, a descoberta de ouro na região
dos rios Tocantins e Araguaia, trouxe grande número
de brancos para a exploração do metal, intensificando
a preação indígena e dizimação
de tribos renitentes às submissões, colocando
em fugas sobreviventes e os que logravam escapar do cativeiro,
quase sempre auxiliados pelos libertos, com sucesso tamanho
que o êxodo Xavante praticamente esvaziou sua presença
mato-grossense localizada.
Os Xavantes oriundos do Mato Grosso, atravessaram o rio Paraná ainda
no século XVII para, escorraçados por outras
tribos entre o Aguapeí e Paranapanema, avançar
pelos campos até “entre Porto Martins (Rio Bonito
atual) e Bofete e da Vitoriana ao Rio Laranjal (...)” (5).
Depois ingressaram pelos cerrados e campos do Vale do Paranapanema,
ou para os lados de Bauru e Lençóis Paulista
(6), sempre numa movimentação precavida à medida
que chegavam os pioneiros desbravadores. A esse grupo denominou-se
Woiti [Oiti ou Oti].
- Um outro grupo Xavante, aparentemente independente, concentrava-se
nos campos do Jaguaretê e Laranja Doce (7), entre
os atuais municípios Iepê e Rancharia. Para
uns, os componentes de referido grupo seriam descendentes
de tribos outrora aldeadas, que voltaram ao estado de selvageria;
outros pensam tratar-se de sobreviventes Otis recuados
para a zona entre Capivara, Iepê e Rancharia; e aqueles
que entendem ser tribos co-irmãs de Xavantes estabelecidos
próximos ao Porto Tibiriçá e margens
do Paraná, temas mais adiante discutidos.
Em 1725 o bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva, Anhangüera,
descobre ouro em Goiás e para lá acorrem outros
bandeirantes e mineradores, necessitados de mão de
obra escrava. Desta feita, as autoridades de governo não
lançam mão a índios capturados e de
imediato postos ao trabalho, antes os fazem passar por aldeamentos
para pacificação e catequização,
com isso pretendendo-os dóceis à servidão
e compreensivos da superioridade branca (8). Não repetiram
os erros cometidos em Mato Grosso: a mão de obra escrava
estava escassa e o extermínio indígena não
seria, portanto, recomendável, mas sim coloca-los
em aldeamentos para torná-los escravos submissos.
- Quando ainda das explorações auríferas
em Mato Grosso e com os primeiros indícios das Minas
dos Goizaes, missionários vindos do Pará adentram
as selvas para montar as primeiras reduções
regionais com objetivos de receber, pacificar, catequizar
e instruir os índios capturados que haveriam de
servir para os trabalhos nas mineradoras ou garimpos. Os
próprios religiosos montavam expedições
para capturar índios para suas missões, para
posteriormente repassa-los com bons lucros (9).
O governo, para eficácia de intentos, arrendou serviços
de bandeirantes e entradistas para capturar índios
e entrega-los aos aldeamentos levantados com aqueles propósitos
para pacificar os Xavantes, então considerados indomáveis
e não civilizáveis.
Os aldeamentos, a redução e pacificação
dos índios eram incentivados, mas o projeto fracassou,
os índios fugiram ou foram resgatados pelos companheiros
livres, os aldeamentos incendiados e, em 1788, com o fim
da aldeia Pedro III (sítio do Carretão) – interior
de Goiás (10), aconteceu um segundo êxodo Xavante
rumo às terras do Planalto Ocidental Paulista.
Estudiosos indicam a presença deste grupo Xavante
na bacia do rio Pardo – em atual Mato Grosso do Sul,
antes que parte dele adentrasse território paulista
para se estabelecer até os campos do Jaguaretê e
Laranja Doce (11), próximos às atuais Iepê e
Rancharia. Tidei Lima, pelas suas fontes, coloca referidos
grupos apenas no extremo oeste paulista, “à altura
do Porto Tibiriçá, à margem esquerda
do rio Paraná” (12). A este grupo coube a denominação
Opaiê [Ofaiê] Xavante.
Bruno Giovannetti, José Jorge Junior e outros estudiosos,
conforme referências adiante, apontam o Xavante em geral
como elemento pacífico, sobrepujado e até covarde,
ladrão de pequenas montas; no entanto, sua história é uma
longa e heróica resistência ao colonizador europeu,
marcado pelas tantas fugas dos servilismos forçados
e pela própria transitoriedade territorial, obrigado
a constantes deslocamentos pela presença branca, cada
vez mais próxima e ameaçadora, até que
lhe apagaram todos os rastos no Vale Paranapanema.
2.1 OTI-XAVANTES
Os Otis estiveram presentes no empreendimento jesuítico
na Fazenda Botucatu, entre os anos 1719 e 1759. Sabe-se de
um bairro [rural ou aldeamento] perdido, onde a atual Botucatu,
chamado Oiti, cujo cemitério encontrado foi “destruído à lâmina
de arado. Deles [Otis] não se sabe que hajam sido
belicosos” (13).
Henrique Dyna diz de um cemitério indígena
Xavante [Oiti] que existira em São Domingos [do Tupá]
(14), às cabeceiras do rio Turvo.
Com a queda dos jesuítas e conseqüente expulsão
do território brasileiro, os Xavantes voltaram ao
estado de feridade, perseguidos pelos bugreiros a serviço
dos novos fazendeiros, sendo Francisco Manuel Fiúza
quem, “em 1770, comanda destacamento que bate morros
e matos a mandado dos fazendeiros ou por comissão
oficial de limpeza dos caminhos” (15); foi dos mais
cruéis matadores de índios (16).
Embrenhados nas matarias, os Otis ressurgem para a história
por volta de 1840, em terras do Vale Paranapanema, notados
por Joaquim Francisco Lopes quando à procura de melhor
via de comunicação entre a província
de São Paulo e Mato Grosso (17).
De meados da década de 1850 até o final do
século XIX, em território do Vale do Paranapanema,
os Otis foram expulsos de suas terras, mortos ou capturados
para mão de obra escrava, depois de passagem por aldeamentos
onde aprendiam a necessária sujeição
aos brancos.
Aqueles que fugiam constantemente de seus senhores ou
dos aldeamentos, chamados “incorrigíveis”,
pelos sertanejos (18), eram mutilados ou tornados imprestáveis
para o trabalho e abandonados nos campos ao próprio
destino.
Tidei Lima informa, por Telêmaco Borba, presença
de Otis em atual cidade de Campos Novos Paulista, no ano
de 1878 (19). Também, Teodoro Sampaio, no ano de 1886,
encontrou Otis em Campos Novos, vivendo miseravelmente nos
campos, dados a ladroíces, não civilizáveis,
a importunar os brancos e lhes causar danos nas fazendas
(20).
Os Otis, tidos por descendentes de tribos do Mato Grosso,
tem essa origem contestada por alguns estudiosos (21) que
entendem nenhuma identidade dos Oti-Xavantes com os Akuen-Xavantes
do Brasil Central. Entendemos que as lendas contadas pelos
próprios Otis de seus antepassados vindos do litoral,
suas passagens pelo centro do Brasil, chegada a São
Paulo, contatos com os brancos, aldeamentos e escravidões,
tenham sido suficientes para as diferenciações
vistas por uns e outros especialistas cujas opiniões
ainda são duvidosas.
Com a presença dos mineiros na região do Planalto
Ocidental Paulista, os Otis sem dúvidas opuseram-se
tenazmente às invasões daquelas frentes de
expansão branca, defendendo legitimamente as terras
que estavam suas, com isto a estimular violentas reações
dos sertanistas numa sucessão de extermínios,
destroçando tribos inteiras. Acuados, grupos Otis
migraram para as densas florestas do Vale Santo Anastácio,
juntamente com remanescentes Caiuás [Guaranis].
Os Oti-Xavantes encontrados na região Paranapanema,
já passado meado do século XIX, se deixavam facilmente
dominar pelos brancos e a eles entregavam suas mulheres e filhas
para a prostituição, para garantia de sobrevivência
e proteções contra os aparentados rivais Caingangues,
que lhes metia tanto medo quanto aos brancos. Esta submissão,
todavia, não os pode livrar do extermínio, pois
que, segundo Egon Schaden “deixaram os Otis de existir
como unidade tribal antes que se fizesse o estudo da sua língua
e da sua cultura”
(22).
2.2 OFAIÊ-XAVANTES
Grupos Ofaiê-Xavantes, início do século
XVIII, que compreendemos ocupantes das regiões norte-centro
do atual estado de Goiás, travaram sérios combates
de resistência aos bandeirantes, sendo considerados
também indomáveis e impróprios para
a civilização, razão porque as autoridades
de governo optaram, quando da necessidade de mão de
obra escrava, antes pela sua pacificação em
reduções que o extermínio propriamente
dito (23).
Segundo Tidei Lima, pelo mapa etnográfico de Hermann
von Ihering e dados levantados por Curt Nimuendaju e, mais
tarde por Darcy Ribeiro, os Ofaiês são classificados
distintos dos Akuen e dos Otis (24), grupos também
Xavantes. Pelos antigos sertanistas (25), conforme já descrito,
esse grupo Xavante teria habitado, também, a região
de Jaguaretê e Laranja Doce. Referido grupo Ofaiê-Xavante
seria do mesmo contingente localizado em toda bacia inferior
do Rio Pardo (Mato Grosso do Sul), por Giovannetti, ou das áreas
do sul do Mato Grosso, segundo Tidei Lima.
Darcy Ribeiro entende que os Ofaiê-Xavantes, também
foram violentos e opositores iniciais ao avanço dos
brancos, conforme “estão a testemunhar a rápida
extinção da tribo a as histórias das
chacinas de que foram vítimas” (26).
Sabemos pelos descendentes, que as famílias Nantes,
Botelho e Medeiros e outras, se valeram dos préstimos
de bugreiros como João Hipólito, João
da Silva Oliveira, José Theodoro e o Coronel Sanches
de Figueiredo entre outros (27), para matar índios,
escorraça-los ou faze-los recuar para além
dos rios Paranapanema e Paraná, para deixar limpas
as terras pretendidas. Em empreitadas do gênero foram
exterminadas tribos inteiras de Oitis e Ofaiês, independentes
se pacíficas ou não.
Ao findar o século XIX não existia mais nenhum
grupo genuinamente Ofaiê, perdendo-se para sempre a sua
cultura, usos e costumes.
2.3 CESSAÇÃO TRIBAL
E SUPRESSÃO CULTURAL
Carta Régia de 05 de setembro de 1811 autoriza a
Guerra aos Xavantes: "(...) será indispensável
usar (...) da força armada; sendo este também
o meio de que se deve lançar mão para conter
e repellir as nações Apinagé, Chavante,
Cherente e Canoeiro; (...) não resta presentemente
outro partido a seguir senão intimidal-as, e até destruil-as
se nescessario for, para evitar os damnos que causam. Neste
intento vos hei por muito recommendado, não só o
enviar os convenientes reforços de Pedestres para
o Destacamento do Porto Real, mas toda a vigilancia em dar
as providencias que tenderem ao desempenho destas minhas
reaes ordens" (28).
Este régio
documento se fez valer quando das penetrações das frentes pioneiras
pelo interior paulista, ao permitir que os entradistas utilizassem as carabinas
e mosquetões contra os índios, como reação defensiva
aos selvagens transformados em algozes com suas armas como os tacapes, as flechas
e as bordunas. Os brancos podiam ainda promover ataques preventivos, pelas
cruéis dadas, para evitar que num futuro viessem os índios ataca-los.
Parece-nos bastante
suspeita, portanto, a informação dada em 1826 pelo cronista Hércules
Florence, viajante pelo interior de São Paulo (29): “(...) chamam-se
Xavante a todos os índios que aparecem na parte ocidental da Província
de São Paulo e para lá do Tietê”, o que significa
dizer autorizadas as matanças a todo e qualquer grupo indígena
que viesse se opor aos conquistadores, xavante de origem ou não. Entendemos
que o cronista viajante colheu dados de pioneiros assentados nas proximidades
do Tietê, quando já iniciadas penetrações “para
lá do Tietê”.
Não
sabemos quantos eram os Xavantes do Planalto Ocidental Paulista, quando chegaram
Theodoro e seu grupo – os precursores mineiros, no início dos
anos 1850; mas vinte anos depois, estavam reduzidos a menos de quinhentos indivíduos,
reunidos em umas poucas aldeias de trinta a quarenta pessoas cada (30).
Já além
dos anos de 1870, o fazendeiro José Antonio de Paiva Junior, pelos lados
de Conceição de Monte Alegre [Fazenda São Mateus, região
da atual Paraguaçu Paulista], conta sua participação num
massacre aos Otis que, graças narrativa de Curt Nimuendaju (31) se tornou
documento histórico: “Uns sessenta homens armados até os
dentes, numa manhã de nevoeiro, quando os Otis ainda dormiam, assaltaram
a aldeia mais próxima na cabeceira do Córrego da Lagoa, afluente
da margem direita do Sapé (...). Foram barbaramente assassinados sem
distinção de idade ou de sexo (...). É difícil
saber-se o número de Otis chacinados (...). Afirma José de Paiva,
que tomou parte no feito, que os cadáveres estavam empilhados em grande
quantidade”. Morticínios assim eram seqüências das
dadas inauguradas por José Theodoro de Souza, desde Avaré, no
massacre dos Caiuás, em 1850.
- José Antonio de Paiva Junior, participante de
tantas dadas, faleceu em 06 de abril de 1933, aos 106 anos
de idade, segundo documentos (32).
Por
volta de 1880 os Xavantes foram vítimas das dadas,
na região entre Rancharia e Iepê, com poucos
sobreviventes que se afastaram para além dos rios
Paranapanema e Paraná. Segundo Tidei Lima (33), Nimuendaju
informa de sobreviventes Otis que, na mesma década
são empurrados para a zona de Paraguaçu Paulista
[Capivara] e Rancharia, e contra eles promovidas as dadas
comandadas por João Hypólito, em 1880.
No
ano de 1893 existiam cinqüenta Xavantes em todo Planalto Ocidental Paulista,
três deles, Otis, em Campos Novos Paulista vivendo miseravelmente em
estado selvagem, numa área escassa entre os brancos e os Caingangues.
No mesmo ano trinta Xavantes foram presos e conduzidos a São Paulo,
diante do governo, cujo epílogo se encontra em narrativa de Curt Nimuendaju – O
Extermínio da Tribo dos Otis (34): “O governo lhes deu alguns
presentes e mandou-os de volta ao sertão (...). O regresso foi tristíssimo:
diversos Otis foram vendidos enquanto que as mulheres eram entregues à prostituição
(...). Em 1903, restavam dos Otis, um homem, quatro mulheres e quatro crianças,
tendo o homem sido assinado nesse mesmo ano (...). O ultimo Oti é José ‘Xavante’,
capturado numa dada (onde perdeu pai e mãe) e casado com uma índia ‘Coroada’ [Caingangue].
Já foi vendido uma vez; em outra foi trocado por uma vaca. Tem vivido
sempre escravizado; nunca o seu trabalho foi pago”.
Os
Ofaiês não tiveram nenhum historiador que lhes
escrevesse suas memórias nem seus últimos momentos
em terras paulistas, deles sobrevivendo apenas vagas lembranças
de uns velhos bêbados, filhos
esmoleres e umas poucas infelizes mulheres e filhas prostituídas.
Os Xavantes Paulistas, Oitis e Ofaiês, não
sobreviveram como unidade político-cultural às
frentes de expansões dos brancos, através dos
bugreiros. Dos poucos sobreviventes, os Aldeamentos encarregaram-se
de roubar-lhes a identidade para todo o sempre.
CAINGANGUES
Quase toda a imensa área entre os rios Tietê e
Paranapanema, desde as nascentes do Feio [Aguapeí]
e do Peixe, às barrancas do Paraná, dominava
os Caingangues, ameaçadores à presença
do branco invasor de seus domínios, também
intolerantes com outros índios da região, e, às
vezes belicosos até com suas próprias gentes
de outras tabas.
De acordo com pesquisadores citados por José Jorge
Junior e autores regionais (1), os Caingangues atrasaram
em muito a ocupação do oeste paulista (2),
tendo notícias que até por volta de 1911/12
ainda aconteceram ataques contra os brancos (3) e os revides
não menos sangrentos, nalgumas das mais dramáticas
batalhas entre índios e brancos, que se têm
notícias na história paulista.
Descendentes dos pioneiros e geração seguinte
diziam que os Caingangues não se deixavam capturar
e nem morrer sem lutar, sempre resistindo sozinhos os ataques
do homem branco, nunca a se por sob guardas ou proteções
jesuíticas, como o fizeram as demais nações
indígenas da região, os Oitis e Ofaiês
[xavantes] e os Caiuás [tupi-guaranis].
- Os Caingangues ainda que indiferentes e hostis às
pregações cristãs, procuraram pelas
reduções jesuíticas, numa estratégia
política momentânea, ou instinto de sobrevivência,
para se livrar dos invasores paulistas ou do trabalho escravo
aos castelhanos – as encomiendas, inclusive
associando-se com etnias inimigas, dos Guaranis, para enfrentamento
ao branco preador (4).
Pelo domínio Caingangue quase absoluto das regiões
ocupadas em princípios do século XIX, portanto
pouco antes da chegada dos pioneiros, a história deste
povo tornou-se de interesse para os estudiosos em melhor
conhece-lo, desde sua origem, tradições, usos
e costumes, aos seus gestos heróico-suicidas em enfrentar,
com bordunas, arcos e flechas, o branco invasor que vinha
munido sempre de armas de fogo, numa luta bastante desigual, “terminada
sempre com a vitória dos atacantes” (5).
De procedência discutível, exceto naquilo que
os apontam por subgrupo da família ingüística
Jê, tronco Macro-Jê, com seis dialetos compreendidos
entre si, José Jorge Junior confirma que são “(...)
bem controvertidas as teorias levantadas quanto a origem
dos Caingangues, também conhecidos por Coroados”.
- “A história do contato entre os Kaingang
e os colonizadores europeus teve início ainda no
século XVI, quando alguns grupos que viviam mais
próximos ao litoral atlântico tiveram contatos
com os primeiros portugueses. No entanto, os registros
históricos dessa época não especificam
com segurança aqueles grupos que [se] eram os ancestrais
dos atuais Kaingang” (6).
Para José Jorge Junior, alguns estudiosos pretendem
os Caingangues por remanescentes dos antigos Guaianás,
do planalto Piratininga [São Paulo] que, num encontro
em 1531 ficaram meses sitiados dentro de uma taba principal,
sendo praticamente dizimados não só pelas armas
e aprisionamentos daqueles que tentavam furar o
cerco, como pelas doenças contagiosas que os portugueses
lhes fizeram chegar, por alguns dos elementos da própria
tribo, individualmente capturados e contaminados antes de
libertados, exatamente com o propósito de extermínio
biológico ou de devastação em massa,
certamente naquilo que diz Gilson Bicudo, em seu Resumo Histórico
de Botucatu, do contato europeu com os índios do planalto
como a “primeira guerra biológica de devastação
em massa”.
Outros pesquisadores opinam que do encontro e união
dos debandados Guaianás, com os destroços de
antigas tribos como os Comés, Dorins, Votorões
e os Quilombolas, surgiram os Caingangues, com o que justificam
aqueles entendidos, a pouca inteligência, a deslealdade
e sua extrema ferocidade. José Jorge Junior em publicação
de 12/03/1969 cita as tais tribos e informa dos encontros
pressupostos, mas não os endossa.
Algumas opiniões dão os Caingangues como oriundos
das margens do rio Uruguai, expulsos da tribo original por
alguma dissidência bastante grave, de onde saíram
os piores elementos os quais, entrando pelo Paraná,
levaram de vencida os Caiuás e atingiram o estado
de São Paulo.
A maioria dos autores entende que os Caingangues chegaram à região
paulista, entre os rios do Peixe e Paranapanema, não
antes do ano 1800, no entanto pressupondo-os de diferentes
regiões, pelos dialetos apresentados, aumentam ainda
mais o mistério migratório: porque habitantes
de locais diversos e distantes convergiram para um mesmo
lugar numa mesma época?
A significação do nome Caingangue, apesar de
tantas divergências, desde o tipo de corte do cabelo
que se assemelha ao dos frades franciscanos, daí serem
conhecidos também por Coroados, quanto a justificativas
filológicas com significados de <Caing para mato
e Ang para gente>, então gente do mato, enquanto
o estudioso Luiz Bueno Horta Barbosa, citado por José Jorge
Junior, afirma que os Caingangues só ficaram conhecendo
esta denominação depois de ouvi-la dos brancos.
Não é errado, para José Jorge Junior,
acreditar que Caingangue seja o designativo Xavante “Caingué” – o
mesmo que parente, para se referir a um igualmente índio
ainda que de outra tribo ou nação, talvez apenas
coincidente que Xavante e Caingangue sejam aparentados, ou
seja, de um mesmo tronco lingüístico familiar.
Os Caingangues viviam em ranchos, um maior ao centro cercado
por outros dez ou doze menores, com população
de trinta a cem pessoas, naquilo que se pode denominar aldeia,
tendo em volta área livre para plantações
em épocas possíveis.
A moradia maior media uns dez metros de frente por três
ou quatro de fundos, para o líder tribal, enquanto
as moradias menores tinham seis metros de largura por dois
de fundos, quase sempre destinadas a outros líderes
e às famílias com crianças. Para táticas
de guerras contra os invasores brancos, construíam
ranchos isolados [um, dois ou três] e neles colocavam
seus doentes, feridos e velhos – raramente mulheres
e crianças, enquanto ficavam escondidos nos arredores
aguardando o ataque inimigo.
Por entre a roçada, diversos caminhos conduziam rápido
até aldeias em torno, cinco, dez ou mais delas, a
depender do número de famílias, quase nunca
além dos cem metros de distância uma da outra,
que unidas formavam uma tribo. Eram ranchos com cobertura
de um só plano, sendo em geral habitados pelos guerreiros.
Também esses ranchos estavam cercados por clareiras
protegidas por troncos de madeiras e trincheiras estrategicamente
postas, algumas camufladas como verdadeiras armadilhas. Eram
mestres em apagar rastros e ocultar seus caminhos mediante
presença inimiga.
O mobiliário consistia apenas em alguns pedaços
de paus, um maior a unir teto e chão para pendurar
tralhas, e outros menores e deitados que serviam de travesseiros
ou bancos, todos destinados ao rancho maior [do cacique].
Fora da cobertura, mantinham fogo aceso para aquecimento
e defesa contra peçonhentos. Os Caingangues dormiam
sobre folhas espalhadas ao chão.
Os utensílios eram apenas os necessários: para
o preparo culinário, numa trempe sobre o fogo, panelas
de barro de um a dez litros; faziam machados de pedra para
derrubar árvores; trabalhavam as flechas, arcos e
lanças feitos em madeira; em ossos confeccionavam
as facas, pontas de lanças e flechas, algumas de pedras
lascadas e outras tantas pontas de ferro ou aço, conseguidas
dos brancos por furtos e despojos.
As pontas de flechas e lanças podiam ser simples,
duplas, tríplices ou quadridentadas. Algumas simples
tinham fisgas e outras um pedaço roliço de
madeira, próprias para caça de aves. .
Sua melhor indústria era a da guerra, com arcos de
dois metros e setenta de comprimento, biconóide, resistente
e bem trabalhado com encastoados de guembê nas extremidades.
Para atirar flechas com arcos tão grandes, alguns
guerreiros deitavam de costas e com os pés esticavam
seus arcos para maior eficiência e força dos
lançamentos.
Os tamanhos das lanças curtas de arremesso variavam,
de cinco a vinte centímetros de comprimento, sendo
algumas das azagaias maiores que sessenta centímetros. As
flechas geralmente eram uniformes em tamanho e quase sempre
do comprimento do arco, feitas de duas peças, uma
de madeira maciça unidas por guembê, outra de
cana amarela com duas penas de ave na extremidade, que parecia
melhor auxiliar na direção desejada.
Trabalhavam a cerâmica sem preocupações
de arte, seus vasilhames sempre tinham uma só forma,
embora de tamanhos variáveis para utilidades também
diferentes, como armazenagem de água e mel. Vasilhames
de algumas tribos apresentavam colorações diferentes,
vermelha, pardacenta, preta e amarela, como a sugerir para
qual utilidade, como a preta que era para ser levada ao fogo;
também foram vistas algumas cerâmicas com desenhos
de traços retos, quase propositadamente apagados.
Os Caingangues abandonavam seus ranchos, temporária
ou definitivamente, quando obrigados a migrações,
fazendo pelos caminhos pequenas choças, sempre próximas: “a
uma arvore, cravam no solo uma vara de quatro a cinco
metros de comprimento e por meio de um cipó amarram
fortemente a uma arvore obrigando a vara a fazer uma curva
em forma approximada á de um n. No alinhamento da
arvore e da vara assim curvada, cravam distante dessa outra
vara que por sua vez é tambem encurvada e amarrada
na parte superior da curva antecedente. A esta succede outra
e assim por diante. Sobre as varas assim dispostas é estendida
a cobertura, mas de um lado só, ficando outro inteiramente
aberto para dar accesso ao interior das choças que
são separadas entre si por meio de um anteparo do
mesmo material que o da cobertura, geralmente feita de palhas
de coqueiro ou de cascas de madeiras” (7).
Esses índios viviam sob a direção de
um cacique posto por hereditariedade, mas com poderes limitados,
estando mais para as funções de conselheiro
que chefe tribal, obrigado a trabalhar igualmente aos demais índios
para a sustentação familiar.
Cada arranchamento tinha um líder guerreiro, tipo
chefe de aldeia, um deles, quase que regra, seria filho do
cacique.
A autoridade do cacique Caingangue podia ser posta em dúvida
e ser ele destituído das funções, passando
o cargo a seu filho primeiro, desde que este demonstrasse
qualidades para tal exercício. Não havendo
herdeiro presumível escolhia-se outro de qualquer
família, o mais forte ou o mais velho; nenhum pesquisador
parece ter identificado alguma mulher no exercício
de líder de tribo ou chefe de aldeia.
Não tinham juízos do bem e do mal referente às
condutas ou comportamentos individuais, sendo que ocupantes
de cargos distribuídos como pajelança, vigia
de campo, responsável religioso ou chefe de aldeia,
se mantinham a custa de constantes agrados e presentes aos
membros da tribo que podiam sustentá-lo nas funções.
O próprio cacique era subornador, naquilo que informa
José Jorge Junior, quando, porém, a comunidade
sentia-se ameaçada, ou durante as festas, ou alguma
necessidade tribal, o cacique ou qualquer um que desempenhasse
atividades delegadas, eram plenamente respeitados de modo
absoluto.
Um homem podia ter uma ou duas mulheres, desde que as pudesse
sustentar com seus esforços, e não podia repudiar
nenhuma delas, a qualquer pretexto, exceto infertilidade.
O jovem para se casar tinha antes que adquirir condições
para garantir a própria subsistência e a da
nubente, que lhe era prometida na passagem puberdade, numa
cerimônia religiosa e festiva, marcada pelos pais,
que podiam aceitar ou recusar a proposta, sem ressentimentos.
O casamento significava uma festa religiosa enquanto o noivo
ficava em um quarto, deitado, onde a mulher era levada por
um parente e para o casal nisso reduzia-se o cerimonial,
para família continuavam ritos e festas até o
amanhecer.
O casamento sem filhos era instável, e a mulher ou
o homem podia ser liberado do compromisso, ou mesmo o homem
praticar a bigamia e caso continuasse o lar sem filhos, lhe
era proibido outro casamento, e as mulheres liberadas para
um novo enlace.
A mulher dava a luz sozinha, na mata e próximo de águas
[rios], vigiadas de longe por pessoas da tribo, geralmente
parentes, que não podiam vê-la, e a sós
ela tinha o filho.
Ao primeiro choro da criança, um dos vigilantes corria
ao encontro da mãe e filho para, suspender a criança
nos braços e ela dar o primeiro nome. Aos sete anos
a criança recebia o segundo nome num cerimonial, e
daí em diante viria receber outros tantos nomes inspirados
em seus feitos, um substituído por outro mais recente,
permanecendo inalterados apenas os dois primeiros.
Tinham tabus contra casamentos em família, não
se permitindo uniões entre pais e filhas, filhos e
mães, de tios [as] com sobrinhos [as], entre irmãos
ou mesmo primos.
Tinham rígida lei civil, punindo com proporcionalidade
os crimes, após julgamento por um conselho, sendo
mortos quem ousasse quebras de tabus, quem cometesse crime
de traição à tribo, ou casos de rebelião.
Se algum membro da tribo viesse ser capturado, por brancos
ou inimigos índios, seus companheiros tinham determinado
prazo para tentar liberta-lo, caso não conseguisse
procuravam mata-lo e, ainda assim, não logrando êxito,
o próprio indivíduo devia praticar suicídio,
pois que era desonra trabalhar para quem não fosse
da mesma tribo.
Consideravam inimigos os companheiros que se deixavam civilizar.
Dez famílias Caingangues moradoras numa das fazendas
do Coronel Francisco Sanches de Figueiredo – certamente
mantidas a força, fugiram dali, proximidades da atual
cidade de Palmital, por se sentirem ameaçadas de morte
por elementos do mesmo grupo, que já rondavam as imediações.
Foram proteger-se no Bairro da Aldeia, dentro da Fazenda
denominada São Matheus, região de Paraguaçu
Paulista, onde tempos depois foram mortas e tiveram seus
ranchos e roçados incendiados (8).
Não deixavam vivos seus inimigos capturados, e desenvolveram
estranho rito de crucificar inimigos brancos, constante do
relatório de Urias Nogueira de Barros ao imperador
D. Pedro II, que fala da morte do mineiro João de
Deus. Donato faz referência ao relatório Urias
e também confirma que o Capitão Inácio
Apiaí, por volta de 1853 foi crucificado por índios,
próximo de sua casa na fazenda Rio Claro (9).
Quase sempre os Caingangues atacavam locais isolados, raramente
povoados, sendo muitas narrativas de ataques bárbaros
aos brancos, matando-os a tacape, por esquartejamentos, amputações
dos membros com a vitima ainda viva. Às vezes praticavam
degolas e empalações.
Nos anos 1960/70 os antigos – descendentes de pioneiros,
ainda contavam que os Coroados matavam brancos e roubavam
tudo que lhes viessem interessar, tendo certa fascinação
por botas que, não sabendo retira-las ou na pressa
da evasão, cortava as pernas e levavam para a aldeia
(10). Diziam, ainda, que carregavam braços e pernas
amputados dos brancos para que lhes servissem de alimento,
e também se serviam das carnes de cães e gatos
roubados das propriedades dos pioneiros.
David Emanuel Madeira Davim, no entanto, ao mencionar o estudioso
Carlos Teschauer, conclui que os índios Caingangues
não se valiam da antropofagia para com os seus prisioneiros
de guerra (11); por outro lado era certo que os indígenas
matavam os cães porque estes lhes denunciavam as presenças,
alertando seus donos, mas nenhum registro quanto ao consumo
de carne canina ou mesmo do gato doméstico.
De religião própria mantinham o culto aos mortos
familiares ou heróis de tribos, e tinham espécie
de adoração ao fogo como entidade maior, embora
raramente produzisse o fogo pelo atrito de madeira seca,
pois que o mesmo era mantido aceso por mulheres guardiãs
e por elas transportado durante as viagens, quase sempre
com certo ritual.
A morte era encarada como realidade irreversível e
com isso a serenidade diante dela. Tinham entendimento de
algum elemento a animar a vida e de seu retorno após
morte, mais ou menos próxima à crença
guarani na reencarnação (12), ou alguma noção
da metempsicose para outras tribos, doutrina segundo a qual
uma mesma alma podia animar sucessivamente corpos diversos,
homens ou animais, às vezes a pretender que esse tal
elemento pudesse estar ao mesmo tempo no humano e no animal.
O velório era mantido sob cantoria e sons de maracás
e os ouvidos do morto soprado constantemente pelos companheiros
que o rodeavam de cócoras. Um estranho encaminhamento
do finado ao local de sepultamento, fazia-se dobrando suas
pernas junto ao ventre para assim transporta-lo amarrado
dorso a dorso ao seu carregador. A cova era rasa, com enchimento
de folhas de palmáceas, depois levantavam um morro
mais ou menos de oito por três metros.
- Diferentemente dos Jês Caingangues, os Tupi-Guaranis
enterravam seus mortos em covas profundas, com todas suas
armas, geralmente postas em urnas de barro, em posições
fetais, pernas dobradas juntas ao tórax.
O guerreiro era sepultado com suas armas, objetos de uso
pessoal e os presentes especiais, sendo incinerados seus
demais bens, inclusive os seus animais, enquanto a viúva
isolava-se na mata por determinado período de tempo,
quando não olhava nem era vista por ninguém,
sob pena de doenças ou morte daquele que viesse violar
as regras. Findo o recolhimento, a mulher era liberada para
novo casamento.
O homem Caingangue andava nu, às vezes um cordão
colorido preso à cintura, talvez em sinal de distinção
tribal, enquanto a mulher usava uma tanga presa à cintura
e que chegava aos joelhos, feitas de fibras vegetais com
certa preferência de gravatá [caraguatá].
Também faziam esteiras de fibras de urtigas ou de
gravatá.
Trabalhavam a taquara fazendo balaios, jacás, covos
e talas para usos diversos inclusive para imobilizar partes
de membros ou auxiliar cura de ossos fraturados. Algumas
tribos faziam verdadeiras obras de artes em taquara com cascas
de certas espécies de cipó, como o guembê.
Antigos relatos dão conta do costume Caingangue em
alimentar o tapir, como forma de arrebanhamento para fins
de provisões de carne, leite e pele. Tinham, também
por costume, dar ao animal seu alimento preferido, o "ûyólo
nya tëí", de cujas sumidades também
se faziam chás para banhos e ingestões em cerimoniais
representativos, certamente por considerar referido animal
uma dádiva dos deuses (13).
O OCASO DE UM POVO GUERREIRO
Nos últimos anos do século XIX já não
havia índios selvagens no Planalto Ocidental Paulista
senão os Caingangues, contra quem as lutas tornaram-se
extremamente violentas e as dadas mais sangrentas, em disputa
de vasto território de 35 mil quilômetros quadrados,
15 mil do Vale do Peixe e 12 do Feio/Aguapeí, ainda
ocupados por tribos daquela nação. Outros oito
mil quilômetros quadrados, no Vale do Batalha e Baixo
Tietê após a Serra de Agudos, nas denominadas
Terras de Lençóis até o Avanhandava
e Itapura, também eram territórios Caingangue
em disputa com os brancos.
A dinâmica expansionista do capital não admitia
oposição aos avanços da nova ordem,
ou seja, o empreendimento econômico, sistematizado
nas ocupações e incorporações
de terras indígenas restantes a favor dos fazendeiros
[café, algodão, pecuária e povoações],
das empresas [ferroviária, navegação
e rodoviária] e dos núcleos habitacionais.
A tomada de terras Caingangues representava, portanto, a
ampliação e consolidação deste
espaço sócio mercantil necessário.
- As frentes de expansão em atenções
aos interesses econômicos do governo, dos fazendeiros
e das empresas de colonização, invadiram,
tomaram e entregaram terras indígenas para o capitalismo,
não importando o extermínio de tantos povos
indígenas.
Em meados do mesmo século XIX outros grupos indígenas
já haviam sido exterminados pelos entradistas, a serviço
de José Theodoro de Souza, e dos primeiros desbravadores,
não tardando Campos Novos Paulista tornar-se a principal
base de apoio logístico para a conquista do Vale Paranapanema
em direção ao rio Paraná. A resistência
Caiuá fora quebrada entre 1850/58 com extermínio
quase total, depois a dos Xavantes entre 1870/1880, também
com exterminação, e a partir de 1886 chegava
enfim a vez e hora dos Caingangues se defrontarem mais diretamente
com o homem branco, embora desde 1858 ocorridos alguns combates,
nos avanços pioneiros a noroeste de Campos Novos e
em regiões de Bauru.
Concluída a etapa Vale Paranapanema e opondo-se os
Caingangues ao avanço das frentes de ocupação,
também de Campos Novos partiram os primeiros caçadores
e assassinos de índios, rumo ao Vale do Peixe, para
tomar-lhes as terras e entrega-las aos empreendedores e grileiros.
Uma segunda base de apoio ou sentinela avançada se
fez erguer em Espírito Santo da Fortaleza, depois
transferida para Bauru, de onde partiram outras expedições
de conquistas rumo ao Vale Feio/Aguapeí e partes do
Peixe.
A despeito da Lei da Terra [1850], o avanço branco
contava com o beneplácito do governo paulista e sua
flexibilidade fundamentada em ordens régias, tolerantes
e liberais, a exemplo da Legalização da Guerra
ao Índio e sua Escravização, pela Carta
Régia de 05 de novembro de 1808, dirigida ao Governo
da Província de São Paulo: ”Que não
há meio algum de civilizar povos bárbaros,
senão ligando-os a uma escola severa, que por alguns
anos os force a deixar e esquecer-se da sua natural rudeza,
e lhes faça conhecer os bens da sociedade (...). Que
todo miliciano, ou qualquer morador, que segurar alguns destes índios,
poderá considerá-los por quinze anos como prisioneiros
de guerra, destinando-os aos serviços que mais lhes
convier” (14).
- Considerados bárbaros e rebeldes aos Aldeamentos,
o recontro entre brancos e Caingangues foi mesmo bastante
complicado, sempre o mais violento possível, com
investidas dos pioneiros e o revide dos índios que, às
vezes, atacavam antes, quando então elegidas as
localidades de Campos Novos e Espírito Santo de
Fortaleza, depois Bauru, por sentinelas avançadas
para sediar e organizar grupos armados dirigidos contra
aldeias dos Coroados.
Houve um freamento nos ataques aos índios, desde
o massacre a uma aldeia Caingangue promovido por Felicíssimo
Antônio de Souza Pereira, em 1858, na região
de Bauru, com repercussão na imprensa e meio político
de toda província e Corte Imperial. Contudo, a despeito
da veemente censura e indignação nacional,
se fez prevalecer os interesses dos desbravadores interessados
em proteger “localidades ocupadas por gente civilizada,
laboriosa e útil ao país”, fazendo o
governo da Província de São Paulo “autorizar
a formação de bandeiras com todo aparato característico
das similares do período colonial e com recomendações
adicionais da Diretoria Geral dos Índios, sugerindo
a retirada dos naturais... ‘para lugares longínquos (...) além
do Paraná e neste caso destruindo os seus
alojamentos para que não possam regressar a eles’ (...)“ (15).
No ano de 1862 grupos Caingangues são vistos nas regiões
do rio Pardo, Alambari e Batalha [Bauru], e a eles dando
combate o sertanista José Theodoro de Souza na região
do rio Batalha (16).
A rotina de conquistas e avanços em território
Caingangue recomeçou em 1878, com a organização
dos invasores contratando os bugreiros, ou a se valer de
certos fazendeiros especializados também como bugreiros
iniciados nas dadas, ou jagunços premiados por feitos
assassinos [fugitivos da justiça] a favor de patrões,
uns tidos por heróis da Guerra do Paraguai, portanto
homens experimentados em batalhas, outros vindo dos remanescentes
pioneiros outrora chefes de bandos, em Minas Gerais ou Rio
de Janeiro, todos igualmente provados em atacar e matar oponentes
sem lhes dar oportunidades de defesas.
Na década de 1880 recrudesce o massacre contra a população
Caingangue, com avanço colonizador e das frentes de
ocupação territorial, quando o Governo da Província
decide abrir caminhos por entre terras indígenas;
como podiam, os Caingangues revidam ataques aos brancos,
numa luta bastante desigual e que os tornava mais enfraquecidos,
carentes de gentes e armamentos.
Já ao final da década e do século XIX,
1898, poucos Caingangues ainda viviam nas matas, acossados
pelas frentes de expansão que já conquistara
grandes partes dos seus territórios diminuindo-lhes
espaços para caças, pescas e coletas, além
da impossibilidade de roçados quase sempre destruídos
pelos atacantes. Estava em curso, através das dadas,
um dos maiores etnocídios da história paulista.
O jornalista Mauricio Castelo Branco entende que “A
omissão do Estado e da imprensa na época foi
fatal para os Kaingang. Desde a Proclamação
da República, a Igreja estava afastada do processo
de pacificação. O governo, por sua vez, não
havia criado mecanismos próprios para substituí-la
nesta missão. E o pior: fez vistas grossas ao genocídio.
Os principais jornais paulistas limitavam-se a noticiar os
poucos relatos que chegavam à redação
sobre ataques contra os Kaingang, ainda assim de forma resumida
e evasiva. A imprensa era pautada pela visão hegemônica
e eurocentrista de progresso - a base da justificativa para
a carnificina”. (17).
Três anos depois, em 1901, os Caingangues ainda se
defendiam dos constantes ataques dos grupos armados a serviço
das frentes expansionistas. Neste ano entra em defesa do índio
o capuchinho Claro Monteiro do Amaral, já de reconhecida
experiência – pelos seus pares, no fracassado
aldeamento de Campos Novos Paulista [1888], vindo juntar-se
ao Padre Bernardino de Lavalle para implantação
de nova catequese “(...) próximo as cabeceiras
do Ribeirão Veado, na raiz da Serra do Mirante (...)” (18),
imediações da atual Echaporã – proximidades
do rio do Peixe.
Padre Claro e o Padre Lavalle sensibilizaram autoridades
e outros setores da sociedade paulista a favor dos Caingangues,
para que fossem suspensas as invasões territoriais
enquanto se discutia meios de pacificações
através da Catequese da Serra do Mirante, outras em
pontos estratégicos, e destinação de
amplo território para confinar os índios, aí se
visualizando uma faixa de terras à esquerda do Tietê (19),
certamente adiante de Avanhandava e Itapura, obviamente contrariando
interesses dos empreendedores capitalistas e dos grileiros
de terras.
Padre Claro foi morto, no rio Feio, pelos próprios índios
que tentara salvar da dizimação, sendo sua
morte pretexto para recomeçar os ataques aos Caingangues
e terríveis carnificinas, nada obstante os protestos
de Padre Lavalle.
Entre 1907/1912 os Caingangues já não se apresentavam
mais como unidade tribal, posto fracionado em grupos nômades
independentes, ainda num imenso espaço territorial.
Aparentemente a fragmentação foi decorrente
de estratégia dos brancos em isolar grupos e assim
enfraquece-los, com resultado desastroso, pois que os Caingangues
tornaram-se muito mais perigosos, agindo cada grupo isoladamente,
com extrema mobilidade e grande capacidade de atacar de surpresa
em diversas frentes contra os inimigos regularmente ordenados.
De 1908 a 1911 as frentes de ocupação não
mais conseguiam progredir dentro do território Caingangue,
os trilhos da estrada de ferro não avançavam,
os ataques indígenas se tornaram cada vez mais freqüentes
e eficientes – muitas perdas de vidas, e os prejuízos
eram enormes. Diante as dificuldades os empreendedores optaram
negociar, também em atenção às
insistentes pressões de grupos intelectuais, políticos
e militares, a culminar com o governo federal criando naquele
mesmo ano o Serviço de Proteção ao Índio
(SPI), sob direção do então Coronel
Candido Rondon, com a missão de evitar mais chacinas
e apaziguar os Kaingang (20); ainda assim, no período,
morreram aproximadamente quinhentos Caingangues (21).
Para maior eficácia de ação o SPI buscou
grupos Caingangues pacificados da bacia do Tibagi e línguas – linguarás
ou intérpretes, para ajudar nos contatos em 1912,
destacando-se a célebre índia Vanuire, a maior
colaboradora na pacificação dos Caingangues
paulistas, dirigindo-se diretamente aos grupos indígenas
espalhados, ou, da copa de grandes árvores gritando-lhes
pedido de paz (22). Horta Barboza registra que metade dos
Kaingang paulistas morreu de uma epidemia de gripe logo após
os primeiros contatos entre 1912 e 1913 (23), restando “do
contingente estimado em 4 mil (...) apenas 700” (24).
Os sobreviventes Caingangues foram reduzidos em Icatu, hoje
pertencente ao município de Braúna, próximo
de Araçatuba, e depois o Índia Vanuire [1917]
em Arco Íris, vizinhanças de Tupã – SP.
Os índios aldeados em Índia Vanuire não
foram apenas os sobreviventes de grupos paulistas, e nem
puramente Caingangues (25), agora atacados por outros inimigos
não menos impiedosos: doenças, como gripe espanhola
e sarampo, contra as quais não tinham imunidade. “Em
1916 estavam reduzidos a 173” (26).
- “Os índios Kaingang paulistas chegam ao
século XXI reduzidos a menos de duas centenas de
indivíduos confinados em espaços bem restritos” (27).
A estratégia que garantiu a eficácia da conquista
final do território Caingangue, sem dúvidas foi
a de treinar e transformar grupos aldeados em intermediários
a serviço dos conquistadores. Talvez, sem essa intermediação,
nenhum grupo Caingangue paulista sobreviveria o extermínio
total movido pelos brancos.
ESTADO TEOCRÁTICO INDEPENDENTE DO GUAYRÁ [GUAIRÁ]
Por volta de 1588, quando alguns padres jesuítas
como Manuel Ortega, Juan Saloni e Thomas Fields, em seus
primeiros contatos com os nativos na região norte
e noroeste do atual estado do Paraná, “informaram
aos seus superiores a existência de milhares de índios
guaranis na região, bem como reconheceram uma série
de peculiaridades culturais, sociais e políticas que
seriam úteis alguns anos depois” (1). Pensava-se,
originariamente, em comunas religiosas sujeitas à coroa
espanhola, porém com vida e direção
espiritual ajustada conforme mandamentos eclesiásticos.
O local
interessado chamava-se Província Del Guayrá, criado e iniciado
povoamento pelo rei de Espanha no ano de 1550, como medida estratégica
para conter as investidas portuguesas além Tordesilhas. Os padres não
desconheciam a região desde 1576, quando presentes com patrulhas militares
espanholas em missões de reconhecimentos nos rios Iguaçu, Piqueri,
Paranapanema e Tibagi onde fundaram povoados, denominados reduções,
com finalidades de atrair, catequizar e educar índios para o trabalho.
Consta, por Reinhard Maack, que “já em 1578-1579 foram radicados,
só no distrito de Vila Rica [do Espírito Santo], 200 mil guaranis” (2).
À Santa
Sé importava desde logo não só expandir o catolicismo,
abalado pela reforma protestante na Europa, como também organizar um
estado teocrático em terras americanas, vista viabilidades então
experimentadas nas reduções jesuíticas no Guayrá,
onde o indígena livre não apenas entregava suas terras
e riquezas à administração dos padres, como também
capaz de produzir lucros e geração de impostos.
Há certa
relutância em dizer livre o índio forçosamente reduzido,
ou obrigado a se auto-reduzir para não cair em mãos de escravocratas.
Padre Montoya justificou a ação jesuítica ao afirmar que "(...) “às
reduções chamamos aos povoados dos índios, que vivendo à sua
antiga usança, em matos, serras e vales, em escondidos arroios, em três,
quatro ou seis casas apenas, separados uma, duas, três e mais léguas
uns de outros, os reduziu a diligência dos padres a povoações
grandes e a vida política e humana, a beneficiar algodão com
que se vistam, porque comumente viviam em nudez, ainda sem cobrir o que a natureza
ocultava” (3).
Se
bastante claras as pretensões da Igreja, nunca esteve bem certo o objetivo
da coroa espanhola em atender as pretensões jesuíticas de um
estado independente na Província de Guairá, mas entendem os especialistas
que o principal objetivo seria conter Portugal de avançar suas posições,
com a fixação seus homens em terras o mais distante possível
e nelas impor sua cultura, falar seu idioma, enfim, sabidamente entendido jamais
Portugal e Espanha um só reino, como estavam, nem suas colônias
uma só dominação.
Nestes
considerandos, em 1608 o rei espanhol entregou aos jesuítas toda a Província
do Guairá, abrangendo partes da região norte e todo noroeste
do atual estado do Paraná, sendo esse o início das atividades
político-religiosas, onde “os conquistadores passaram a veicular
os elementos básicos da sua cultura através dos padres jesuítas” (4).
Guairá jamais
se tornou um estado independente, devendo obediência direta ao rei de
Espanha e lhe pagar impostos, mas foram evidentes as pretensões jesuíticas
de emancipação até pela rapidez com que os padres fundaram
as primeiras reduções, com os índios, junto aos vales
dos rios Paranapanema, Ivai, Corumbataí, Piqueri, Iguaçu, Tibagi
e Ribeira, deixando fortes suspeições históricas que a
Companhia de Jesus já vinha agindo anos antes, a partir dos núcleos
oficiais espanhóis de Ontiveros, Real Ciudad Del Guayrá, e Vila
Rica Del Espiricto Santo, já existentes desde 1554 conforme Bruno Giovannetti
(5).
- Para Reinhard, Ontiveros foi a primeira colônia
espanhola no Alto Paraná [1554], a oeste do rio
Paraná defronte a barra do Piqueri, desativada
quando à margem sul da foz do Piqueri, fundou-se,
em 1557, a redução que se tornou Ciudad Real
Del Guayrá, nome que se estendeu para toda região
entre os rios Paranapanema e Uruguai – a Província
Del Guayrá. No ano de 1576 fundou-se Vila Rica Del
Espiricto Santo, às margens do rio Ivai nas proximidades
da foz do Corumbataí (6).
Portanto,
pelo menos desde 1608 já existiam algumas reduções
jesuíticas na Província de Guairá como
cidades feitas, vindas outras a seguir, todas assinaladas
no célebre mapa espanhol ‘Paraquaria’ [1646/1649]:
- Vale do Tibagi: São José, São Francisco
Xavier, Encarnación e São Miguel.
- Às margens do rio Ivaí: Jesus Maria, Santo
Antônio e São Paulo.
- Rio Corumbataí: São Tomas e a dos Sete
Arcanjos.
- Nas cabeceiras do rio Piquiri: São Pedro e Concepção.
- No médio Piquiri: Nossa Senhora de Copacabana.
- Rio Paranapanema: Nossa Senhora do Loreto, Santo Inácio
e São Tomé [à barra do Tibagi], todos à margem
esquerda, enquanto do lado paulista, margem direita, São
Pedro nas proximidades de Santo Inácio e Loreto
(7).
Antonio
de Arruda Dantas cita fixação jesuítica
em terras hoje paulistas (8), na mesma época de Santo
Inácio e Loreto, onde foram encontradas ruínas
d’uma redução que, diz Bruno Giovannetti,
chamava-se São Pedro. A redução São
Pedro paulista foi transferida, posteriormente,
para as cabeceiras do rio Piqueri, porque a Província
del Guayrá, conforme concessão real, tinha
por divisa natural o rio Paranapanema e não era de
bom sentido desrespeita-la. Não é improvável
tratar-se a São Pedro do Piqueri de localidade
homônima, ou que tenha sido povoação
levantada após destruição da primeira
São Pedro, todavia faltam-nos documentos para posição
final.
As reduções
de Santo Inácio e Nossa Senhora Loreto são vistas, por muitos
estudiosos, como modelos das demais missões jesuíticas fundadas
entre 1610 a 1625 às margens daqueles rios, para depois adentrarem os
atuais estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, num ritmo bastante avançado
e crescente de ocupações, evidente pretensão de se estabelecer
um estado teocrático expansionista, idealizado pelos jesuítas.
- J. Capistrano de Abreu (9) informa que em 1610 já se
contavam onze reduções nas proximidades dos
rios Tibagi, Ivaí, Corumbataí e Iguaçu,
mais outros dez assentamentos entre os rios Ijuí e
Ibicuí, seis no território do Tape, Rio Grande
do Sul, às margens de rios afluentes da Lagoa dos
Patos, enquanto no rio Pardo já próximo o
Atlântico se levantavam as missões de San
Cristóbal e Jesús Maria, esta em época
posterior e vinda de outra redução com mesmo
nome no Guairá. José Jorge Junior refere-se
a outras – não as nomeou nem as enumerou,
apenas disse “muitas” reduções
nas vertentes do rio Ribeira, Iguaçu e Iaví,
na região hoje curitibana (10).
As
facilidades de comunicações e transportes entre
as Reduções Jesuíticas eram bastante
eficientes pelos muitos caminhos fluviais e terrestres – alguns
destes unindo rios e outros destinos por terra, bastante
conhecidos e assinalados em antigos mapas jesuíticos
e espanhóis. Francisco Silva Noelli e Lúcio
Tadeu Mota descrevem que “A comunicação
das Reduções das margens do Paranapanema com
as localizadas ao sul na região dos rios Corumbatai
e Ivaí, ou vice-versa, podiam ser feitas subindo o
rio Pirapó, até os ribeirões Maringá-Mandacaru,
Morangueira ou Sarandi, e por estes chegar até o platô onde
está Maringá, para descer pelos córregos
Borba Gato, Cleópatra e Mascado até o ribeirão
Pingüim e por este até o rio Ivaí, em
direção à cidade espanhola de Vila Rica
do Espirito Santo ou às Reduções do
Ivaí e Corumbataí. Uma outra rota possível
seria subir o rio Pirapó até suas cabeceiras
no rio Dourados, até alcançar o platô onde
está Mandaguari e descer pelo rio Keller até o
Ivaí. Com toda certeza essas rotas eram conhecidas
e utilizadas pelos índios e delas se aproveitaram
os padres jesuítas nas suas andanças e pregações
nas aldeias da região” (11).
Assinala José Jorge
Junior que Santo Inácio e Loreto, como prósperas comunas jesuíticas,
se sustentavam das produções agro-pecuárias, de comércios
e manufaturas, e nelas haviam escolas e eram ensinadas as artes de ofícios
e profissões, como pedreiros, carpinteiros, oleiros, tecelões,
professores e artesãos. Possuíam grandes lavouras de milho, arroz,
feijão, mandioca, frutas e leguminosas, além do cultivo do algodão
com que faziam seus vestidos (12).
José Jorge
teve mais a relatar que “além das roças de cada família,
havia as coletivas, cujo produto era armazenado para atender a necessidade
de todos”, sem dificuldades para entendimento de comércio interno
e externo para os produtos excedentes; também eram prósperas
em Santo Inácio e Loreto, as criações de gado bovino,
suíno, caprino, ovino e galináceo.
Eram cidades
planejadas, continua José Jorge Junior, divididas em quadras cujas ruas,
umas e outras, davam para praças centrais, quadradas ou retangulares,
situadas nos centros das povoações; nas praças se encontravam
as casas dos padres, as escolas, as oficinas e as igrejas, de tal magnitude
que próprio governador do Paraguai, Luiz Céspedes y Xeria, quando
em visita àqueles povoados de Santo Inácio e Loreto, muito se
impressionou com as “hermosissimas Iglesias, que no las visto mejores
em las Índias que he corrido del Peru y Chile”. Suas casas eram
compridas construções de taipa, cobertas de telhas, divididas
em compartimentos de madeira, onde se alojavam as famílias.
Del Sampaio
(13), colonizador espanhol que comandou uma expedição visitante às
reduções Santo Inácio e Loreto, informa-nos que, igualmente
outras reduções “(...) possuíam enormes plantações
onde cultivavam o algodão com que faziam seus vestidos, além
do milho e da mandioca com que se alimentavam. Os rebanhos de gado também
haviam prosperado com rara felicidade." Sampaio descreve-nos aquelas reduções “(...)
divididas em quadras que umas davam para a praça, de forma quadrada
ou retangular, situada no centro da povoação. Ali se encontravam
as oficinas, as escolas, a casa dos padres, o cemitério, os depósitos
e, próximo a eles, estavam localizadas as casas de taipa dos indígenas",
Para José Jorge
Junior, que certamente fundamentou seus estudos em Del Sampaio, doze mil pessoas
morava nas localidades de Loreto e Santo Inácio, em 1628, quando São
Paulo – a título comparativo, tinha apenas dois mil e quinhentos
habitantes.
A
despeito dessa arquitetura quase uniforme para os primeiros centros urbanos
jesuíticos, há que se observar o caráter incipiente das
primeiras construções com suas paredes de taipa ou adobe, já cobertas
depois por telhas de barro, com predomínio duma tecnologia mais próxima
das construções Guaranis, frágeis tanto que “(...)
praticamente não temos mais vestígios daquelas construções
que não subsistiram aos incêndios e intempéries” (14).
Algumas
outras localidades tinham base e paiol militar, hospital, asilos e nelas “fabricavam-se
todos os instrumentos musicais, tão bem quanto na Europa, por exemplo.
Imprimiam-se livros em plena selva, alguns até em alemão (...).
Foi nessas reduções que se começou a industrializar o
ferro e produzir os primeiros tecidos, e a se criar gado no continente” (15).
As povoações
conhecidas por Reduções Jesuíticas, ou simplesmente Missões,
apresentavam estrutura social, política e econômica à maneira
das concepções de cidades-estados da antigüidade clássica,
autogestoras e independentes (16), iguais apenas quanto o caráter catequético,
exercício de governo a cargo de clérigos e o trabalho comunitário.
Tais reduções não contavam apenas com missionários
e índios, pois nelas se estabeleceram também grupos militares,
justificados para conter o expansionismo territorial luso-brasílico
de partes das terras espanholas não exploradas, entre os rios Paraná,
Paranapanema, Tibagi e além Piqueri, tendo os índios por aliados
numa troca mútua de defesa e proteção.
Reinhard
relata-nos que desde o princípio formador das pretensões para
algum estado teocrático, “Patrulhas militares espanholas e jesuítas
começaram a subir os rios Iguaçu, Piqueri, Paranapanema [Paraquario]
e Tibagi e fundaram povoados, denominados reduções, onde os índios
das vastas regiões eram catequizados e educados para o trabalho” (17).
Jesus Maria era uma cidade militar com quartel, campos de treinamentos e depósitos
de armas, ao mesmo nível de Vila Rica do Espírito Santo, e as
demais povoações também tinham sentinelas avançadas
e se defendiam diante do agressor, como bem entenderam os preadores que, antes
da bandeira de Raposo Tavares, “haviam tentado, sem êxito, apossar-se
dos convertidos das reduções” (18).
A catequese
jesuítica, portanto, jamais foi apenas traduzir orações
cristãs do latim para a língua guarani, ou o ensino de ofícios
e trabalhos da terra, nem nas belas construções ou em uma nova
sociedade de apenas paz, pois que das arremetidas dos bandeirantes contra as
reduções, nunca encontraram índios e padres indefesos
e sim a bravura daqueles que defendiam e atacavam por seus interesses. “Incidem
num juizo falso e absurdo, todos quantos suppõem que, nas suas arremettidas
[dos bandeirantes] contra as reducções, fossem os bandeirantes
encontrar, sempre, indios inoffensivos e missionarios inermes. Tanto isso não é verdade
que, em innumeros documentos escriptos pelo punho dos proprios jesuitas, se
constata, a todo passo, a bravura com que elles se defendiam e, muitas vezes,
atacavam” (19).
Sob todos
os aspectos, portanto, o desenvolvimento, a organização social,
política, econômica e territorial de Guayrá apontavam para
objetivos de um Estado Teocrático Independente, geográfica e
estrategicamente intrometido dentro da esfera de interesses expansionistas
de portugueses e espanhóis, situação que em nada interessava
a nenhum dos dois povos.
Foi assim
que Manuel Preto e outros bandeirantes, além dos encomenderos castelhanos,
todos rechaçados anteriormente de Guayrá, ou com êxitos
parciais, insistiram invadir o Estado em formação, para lhe roubar
os índios e destruir suas cidades. Preto, com maior empenho nos anos
1618 e 1623, até que em 1628, juntamente com o jovem Raposo Tavares
veio montar um grande e bem preparado contingente para a guerra final, dividido
em diversas frentes postas estacionadas, ameaçadoramente, diante das
principais reduções, razões que teriam levado o Padre
Cristóbal de Mendoza, da missão de São Miguel, perplexo
a indagar das razões daquela guerra, para receber de Raposo Tavares
a célebre histórica resposta: “Viemos aqui para expeli-los
desta região inteira, porque esta terra é nossa e não
do rei de Espanha” (20).
A
interiorização tão distante seria, portanto,
para dificultar invasões de sertanistas e desbravadores
espanhóis e portugueses que buscavam índios pacificados
e convertidos, como os melhores para a escravidão. Os
apresadores optavam por índios pacificados e iniciados
nas artes e ofícios pelo seu alto valor no mercado
escravo.
RAPOSO TAVARES, O JUDEU QUE ODIAVA PADRES E CAÇAVA ÍNDIOS
De certos acontecimentos históricos polêmicos,
se têm por paixões atribuir fatos e feitos a
pessoas, grupos ou raças igualmente polêmicas,
a partir de um único ou menor indício possível.
É o caso da História do Brasil, como num sentimento de aversão
pela oficialidade, que muitos acreditam tenha ela sido um tanto diferente da
didática imposta, que até daria uma obra paralela que poderia
ser intitulada A História que a História não Conta.
Assim Pedro Álvares Cabral, teria vindo ao Brasil
não acidentalmente ou apenas pela Coroa Portuguesa,
mas a serviço de seu sogro o judeu Fernão de
Loronha ou Fernão [Fernando] de Noronha (1), interessado
em explorar o comércio do pau-brasil em terras portuguesas
de alem mar.
Em 1501 o monopólio do pau-brasil foi mesmo arrendado
a Fernão de Noronha, judeu ligado por interesses comerciais
a outros capitalistas do mesmo grupo étnico, conforme
historiadores.
Óbvio que tão poucos dias no Brasil e apenas beira-mar, Cabral
não teria tempo nem condições de um preciso relatório,
mas ele veio para obter informações de degredados, segundo consta,
judeus postos na Insula Brasil, um, dois ou mais anos antes, como Francisco
de Chaves, João Ramalho, Diogo Álvares e Mestre Cosme Fernandes
Pessoa, este ultimo que, não bastasse judeu também era maçom
(2), um sério problema para a Igreja.
Se os primeiros párias portugueses no Brasil
eram judeus, presumíveis que vieram degredados depois
de alguma negociação para salvarem-se da Inquisição.
Uuase todos os judeus portugueses não ricos, cristãos
novos ou não, tiveram sérios problemas com
a Inquisição promovida pela Igreja Católica
e o Estado.
Antonio Raposo Tavares teria sido um deles. Nascido em Portugal
em 1598, filho de Fernão Vieira Tavares e Francisca
Pinheiro da Costa Bravo, órfão de mãe
desde cedo, Maria da Costa tornou-se sua madrasta.
A História não diz oficialmente que Raposo
Tavares era judeu, mas documentos seguros indicam que sua
mãe e madrasta eram judias, portanto ele foi criado
num ambiente onde certamente sentiu as dificuldades de ser
judeu, as agruras do anti-semitismo, o preconceito racial,
o temor da Inquisição e o estigma de assassino
do filho de Deus.
O articulista Mário César Carvalho nota que
a historiadora Anita Waingort Novinsky, professora de pós-graduação
na USP, “reuniu documentos encontrados em Portugal
segundo os quais Raposo Tavares teria razões religiosas
para queimar igrejas: sua madrasta, Maria da Costa, foi presa
pela Inquisição em 1618 sob a acusação
de <judaísmo> e só saiu do cárcere
seis anos depois” (3).
O mesmo Mário César ilustra que “Raposo
Tavares foi criado até os 18 anos na casa da madrasta,
uma cristã nova que seguia a tradição
religiosa como <uma judia fervorosa>, na definição
de Novinsky. A mãe de Raposo Tavares também
era cristã nova”.
Mãe e madrasta em que pelo menos a ultima teve problemas
com a Inquisição, evidente que se pode traçar
um perfil psicológico, moral e de conduta pessoal
de Raposo Tavares em relação à Igreja,
nas pessoas de seus representantes mais imediatos, os padres
e as obras destes.
Raposo Tavares tão logo presa sua madrasta teria vindo
ao Brasil, ainda em 1618, acompanhando o pai que tinha obrigações
de representar o donatário Dom Álvaro Pires
de Castro e Sousa, o Conde, depois Marquês, de Monsanto,
nas Capitanias de Itamaracá, Santo Amaro e Santana.
Monsanto, bisneto de Pero Lopes de Sousa [irmão de
Martim Afonso de Souza] – o primeiro donatário
daquelas fracassadas capitanias, ensejou resgata-las através
de Fernão Vieira Tavares, vindo apropriar-se indevidamente
também das terras da Capitania de São Vicente,
por erro de demarcação, propositada ou não,
onde fixou sede em 1618 ainda que área litigável.
- A Capitania de São Vicente de 1587 a 1610 teve
como ultimo donatário Lopo de Souza, filho de Pero
Lopes de Souza, filho de Martim Afonso de Souza e homônimo
de seu tio paterno. Pela interrupção a partir
de 1610 ou por presumível ausência de interesse
hereditário, o Conde Monsanto certamente dela se
apropriou em 1618, pelo seu representante legal Fernão
Vieira Tavares, até que Mariana de Sousa Guerra,
Condessa de Vimieiro, filha de Lopo de Souza [tio], reivindicou
seus direitos de donatária e, como tal, historicamente
reconhecida entre 1621 a 1624, apesar do litígio
familiar, quando resolveu pela transferência da sede
de sua Capitania de S. Vicente para Itanhaém. Durante
o período de ausência donatária a Capitania
foi governada diretamente por Capitães-Mores e durante
a concomitância foram nomeados dois Capitães-Mores,
distintos por donatário, com jurisdição
na mesma área territorial, até a prevalência
de Dom Álvaro.
Apesar da imprecisão dos documentos, se sabe que
a partir de 1610 a Capitania de São Vicente foi invadida
pelos espanhóis de Iguape [litoral sul de São
Paulo], por abandono, caindo no ostracismo ao mesmo tempo
em que prosperava as vilas de Santos e São Paulo.
A tomada das terras da Capitania de São Vicente por
Conde Monsanto, incluiu as vilas de São Paulo, Santos
e São Vicente e a esta deu novo vigor.
Fernão Vieira Tavares assumiu controle da Capitania
de São Vicente e das demais com o filho Raposo ao
lado, exercendo um governo bastante austero através
de Capitães-Mores. O próprio Fernão
veio ocupar a função de Capitão-Mor
por um período em 1622, ano em que Raposo Tavares
se casou com a filha do bandeirante Manuel Pires, Beatriz
Furtado de Mendonça com quem teve dois filhos vindo
depois se enviuvar.
Depois de dez anos de viuvez, Raposo casou-se com a viúva
Lucrecia Leme Borges de Cerqueira, mãe de oito filhos,
e deste consórcio nasceu-lhes uma única filha.
Lucrecia Borges era filha do bandeirante Fernão Dias
Pais e tia do célebre caçador de esmeraldas,
Fernão Dias Paes Leme.
- Desde a chegada ao Brasil que a vida de Raposo parece
vinculada aos bandeirantes e à administração
política, daí seu aprendizado com as cousas
e causas da colônia portuguesa.
Em 1628, Raposo Tavares fez parte da expedição
que destruiu Guairá, sendo durante esta campanha que
ele teria avocado sua autoridade no Pentateuco [bíblico]
ou, mais propriamente na Lei de Moisés para seus atos
de conquistas, conforme Francisco Vasques Trujillo numa carta
de 1631 (4), portanto uma prova que ele era judeu para muitos
estudiosos.
Para o historiador Jaime Cortesão (5), Raposo Tavares,
o mais temível dos bandeirantes, era judeu cristão
novo e tivera problemas com a Inquisição, como
também eram judeus feitos cristãos novos, Mestre
Cosme Fernandes Pessoa, João Ramalho, Brás
Leme, Fernão Dias Paes [Leme], Baltazar Fernandes,
Diogo Álvares Correa [Caramuru], Francisco de Chaves
e outros tantos preadores de índios dos séculos
XVI e XVII.
Anita Waingort Novinsky, segundo Mário César,
acredita que “Há razões ideológicas
na fúria dos bandeirantes contra a igreja. Ela representava
a força que tinha destruído suas vidas e confiscado
seus bens em Portugal (...) e Raposo Tavares matou jesuítas
porque eles eram comissários da Inquisição
na América”.
Outros pressupostos deixam entender que Fernão Vieira
Tavares, o pai de Raposo Tavares, também era judeu
e que saiu de Portugal por Dom Luiz Álvares de Castro
e Souza, tanto como seu representante em Brasil, para apossamento
da Capitania de São Vicente e aquelas em que era real
donatário, quanto para que demais membros da família
Tavares não tivessem o mesmo destino de Maria da Costa.
Mas, onde a História se cala, não é justo
pressupor fatos para os quais não se têm documentos
comprobatórios, ficando assim a ignorar porque a família
Tavares deixou Portugal tão logo da prisão
de dona Maria da Costa, ou se a família pode enfim
se reunir após sua libertação.
Raposo Tavares, com razões ou nenhuma para odiar o
Clero, em 1628 acha-se à frente de uma coluna
militar, diante da redução de São
Miguel, para declarar pretensões de expulsar todos
os jesuítas do Guairá por considerar portuguesas
aquelas terras e não do rei de Espanha.
Outros fatos, feitos e lendas referentes a Raposo Tavares
são
encontrados em livros de História do Brasil e sítios
eletrônicos.
TRAIÇÃO À CAUSA JESUÍTICA
Em Guairá a intenção primeira dos bandeirantes
paulistas era a captura do índio, para mão
de obra escrava, e não objetivos de expansão
territorial brasileira, a qual somente viria a partir de
1618, já durante a dominação espanhola
pela União Ibérica, quando aquela região
se encontrava sob governo jesuíta com forças
para formação de um estado teocrático
livre e independente.
O desenvolvimento de Guairá, tanto populacional quanto
de progresso, se destacava sobremaneira das demais províncias
sul-americanas, mormente em relatórios como os de
Del Sampaio ao rei de Espanha, que nos mostra a atividade
jesuítica grandiosa não somente pela religiosidade
pretendida, mas pela capacidade pedagógica de educar
o índio em sua própria língua, ensiná-lo
desenvolver diversos ofícios [tecelagem artesanato,
olaria, construção e outras modalidades], aproveitar
os recursos naturais para trabalhar a terra, cuidar das atividades
agro-pastoris incluindo os horti-fruti-granjeiros, além
do incentivo às oportunidades para o desenvolvimento
de habilidades ou revelar gênios criativos.
Os Jesuítas desejavam para Guairá forma de
governo social-teológico militar, com competências
administrativas, legislativas, judiciária e de defesa
territorial, posto inconcebível na época algum
governo sem sustentação militar, metido entre
as duas coroa que disputavam terras e tinham interesses por
riquezas e, sobretudo, a mão de obra escrava indígena. É de
conhecimento histórico que Vila Rica de Espírito
Santo tratava-se de cidade militar, igualmente a redução
Jesus Maria também voltada para os ofícios
militares de treinamentos, formações e depósitos
de armas e munições, características
bastante próprias de sentinela militar avançada.
Considerando Guairá por Estado ainda em formação,
uma situação talvez não prevista pelos
idealizadores estivesse na interiorização de
Guairá a lhe impedir acesso oceânico direto,
vez que seus caminhos terrestres dependiam de Portugal e
os fluviais de Espanha, pelo rio da Prata, tornando-o isolado
e extremamente dependente.
Outra consideração negativa diz respeito em
manter uma população quase exclusivamente indígena, peças por
demais tentadoras para as bandeiras de apresamentos e os encomenderos,
especialmente a partir de 1624, quando a Holanda atacou a
Bahia e passou a dificultar a vinda de escravos africanos.
Os índios aldeados tinham maiores valores como escravos,
porque eram “iniciados na arte da paz, afeitos ao jugo
da autoridade” (1) e doutrinados que o sofrimento terrestre
era a garantia de paraíso celeste.
Desde as primeiras formações jesuíticas,
antecedentes à própria oficialidade das missões,
que espanhóis e portugueses intentaram contra os aldeamentos,
que se mostravam “viveiros de bons cativáveis”,
e a eles iam os preadores de acordo com as observações
de Joaquim Silva e J.B. Damasco Penna (2), que ainda afirmam
fracassadas algumas tentativas de apossamentos no Guairá,
anteriores a 1628, repelidas a fogo pelos comandos militares
a serviços dos jesuítas, que por vezes se antecipavam
e atacavam o inimigo antes que este viesse se aproximar das
reduções.
Sobre tal assunto, sem contender méritos, do Banco
de Dados Folha observa-se, no texto extraído, que
as lutas entre reduzidos e bandeirantes não eram simplesmente
de um atacar com armamentos eficientes e outro se defender
com pedaços de paus: “(...) Incidem num juizo
falso e absurdo, todos quantos suppõem que, nas suas
arremettidas contra as reducções, fossem os
bandeirantes encontrar, sempre, indios inoffensivos e missionarios
inermes. Tanto isso não é verdade que, em innumeros
documentos escriptos pelo punho dos proprios jesuitas, se
constata, a todo passo, a bravura com que elles se defendiam
e, muitas vezes, atacavam. Numa carta dirigida em 12 de novembro
de 1648, ao governador do Paraguay pelo padre Justo Mansilla,
escrevia este: “Ihs - Senor governador. Sabado y noviembro
7 dieram los nuestros assalto al enemigo en su real que era
el puesto en donde, el ano passado, por otra invasion del
mismo enemigo, se avia retirado la segunda reducion y sacaran
al Padre xpl de arennas, a quien el enemigo tenia preso y
con guardas de dia y de noche e dias avia, y mataram a seys
o sete Portugeses a pelotassos, y algunos Tupis, con mucho
animo y brio". “Mas não era sempre que
as reducções atacavam os paulistas, matando-os
a pelotaços, com "mucho animo y brio". Defendiam-se,
tambem, com armas de fogo e eu acho que tolos seriam elles
se são o fizessem. No assalto a uma das villas do
Paraguay, segundo relata o capitão Domingos Gonzales
a Sebastian Solorçano, secretario da Casa de Contratação
de Sevilha, foram mortos 140 paulistas. Como se vê,
os bandeirantes não investiam contra gente inerme.
As reducções viviam, aliás, em constantes
questões com as autoridades hespanholas, quer do Paraguay,
quer do vice-reino do Prata e mesmo da Côrte. Na documentação
colhida no enorme acervo do "Archivo General de Indias",
em Sevilha, carinhosamente colligidas nos "Annaes" do
Museu Paulista, é constante, insistente mesmo, o encontro
de cartas vindas da Côrte, e dirigidas às reducções
que se esparramavam pelas regiões do Guayrá,
Tape e Uruguay, pedindo-se a devolução de armas
e munições. Num desses documentos pede-se ao
provincial ibero que "todas las armas que esa Religion
tenia em las doctrinas de ellas y las que huviesse repartido
a los indios de que se conponen, se la entregassen para que
estuviessen a disposición de esa Religion, ni se entrometiesen
los religiosos a exercitar los yndios en lo manejo dellas
ni en los allardes otra acion politica ni militar" (3).
Dos fracassos colecionados pelas arremetidas bandeirantes
contra as reduções jesuíticas do Guairá,
entenderam os cabecilhas [de entradas e bandeiras] que as
sustentações dos aldeamentos estavam nas armas
e na cobertura dada por frentes do exército paraguaio
deslocadas para tais objetivos. Para a retirada de tais armas
e tornar fácil o alvo pretendido, os luso-brasílicos
precisavam da conivência de pessoas do governo de Assunção,
que lhes dessem mapas da região – das vias de
comunicações, do número de aldeados
e das capacidades de resistências. Também era
preciso uma pessoa com autoridade para remover as frentes
militares que protegiam estrategicamente os reduzidos, e
do recolhimento compulsório de armas e munições
em poder dos missionários.
Capistrano informa que “Isto conseguiram em fins de
1628, e muito concorreu para assegurá-la Luís
Céspeddes y Xeria, governador do Paraguai, casado
em família fluminense, senhor de engenho no Rio”. Don
Luis de Céspedes ao retornar da Espanha em 1628, desembarcou
em São Vicente, aproveitando oportunidade para manter
contatos com os principais de São Vicente e de São
Paulo, especialmente com Antonio Raposo Tavares, e lhes vender
a causa Guairá, em troca de engenhos de açúcar
e escravos em terras brasileiras. Reinhard afirma que “(...)
veio a São Paulo o governador do Paraguai tomando
conhecimento da intenção [do ataque à Guairá].
Entretanto, D. Luis Céspedes, ao invés de prevenir
os jesuítas, fez um pacto com os bandeirantes e impediu
toda possibilidade de defesa por parte dos jesuítas” (4).
São diversas as especulações das causas
da traição, correndo versões que em
Madrid onde comparecera por convocação real,
Don Luís já teria traído a causa jesuítica às
autoridades espanholas, com direitos de se manter no poder
na província do Paraguai; depois repassou as mesmas
informações aos portugueses de São Paulo
em troca de favores explicitados.
Uma outra versão consta que a mulher de D. Luis, luso-brasileira,
havia permanecido no Brasil, quando da viagem do marido à Espanha,
sendo vítima de seqüestro e somente libertada
depois de Don Luis negociar a traição de Guairá. “Outros
diziam que Don Luis nada podia fazer, já que sua mulher
estava no Brasil” (5).
É dito que D. Luis foi escoltado até Assunção
[Paraguai] por homens de confiança de Raposo Tavares, a fim que ficasse
bem clara as providencias do governador, conforme combinado com Raposo Tavares,
e só aí a tropa bandeirante partiu, em segurança, para
a guerra. “Fez por terra [pela Peabiru] a viagem para seu governo; e
fez sinal aos bandeirantes para avançarem” – escreveu Capistrano.
Muitos associam os diferentes rumores da traição
de Don Luiz, para apontar o ânimo dos bandeirantes
em 1628 ao formar um verdadeiro exército “(...)
de 3 mil portugueses e 900 mamelucos (...)” (6) além
de 2 mil e duzentos índios guerreiros (7), todos fortemente
armados, para atacar a Província Del Guayrá,
em quatro frentes comandadas por Pedro Vaz de Barros, Brás
Leme, Antonio Fernandes e o próprio Raposo Tavares,
todos sob ordens do velho Manuel Preto. Mas, quem tudo planejou,
negociou, corrompeu, tomou iniciativa, treinou as tropas
e deu as ordens foi Raposo que, com seus comandados, entrou
em território inimigo pelo vale do rio Ribeira, enquanto
os demais grupos seguiram cursos diferentes para o cerco
planejado às primeiras reduções.
Aos 8 de setembro de 1628, tropa sob a chefia de Pedroso
de Barros, firmou-se defronte a missão jesuítica
de Encarnação [Encarnacion] às margens
do Tibagi, enquanto as demais colunas se colocaram estrategicamente
pelos caminhos ou vias de comunicações, próximas
de cada uma das reduções, para evitar ao máximo
que os reduzidos se comunicassem sobre as posições
inimigas. Em dezembro tudo estava pronto para o grande ataque,
bastando apenas que os bandeirantes deixassem fugir alguns índios
escravos e que estes buscassem proteção junto à redução
de Santo Antonio, às margens do rio Ivaí.
Os padres acolheram os fugitivos, não os devolveram
aos seus donos e com isso surgiu a motivação
desejada para a guerra; foi o princípio
do ataque.
MOTIVOS PARA UMA GUERRA INSANA
São diversas as motivações
para a Guerra do Guairá, nenhumas
justificáveis todas discutíveis,
como a escravização indígena,
a expansão territorial luso-brasílica
ou o ultranacionalismo português
para a restauração de seu
trono – então sob domínio
espanhol, sem desconsiderar a afronta religiosa
entre os judeus bandeirantes e os padres
jesuítas, com suas implicações
de causas e conseqüências.
Talvez o
princípio mais correto esteja na vocação interiorana paulista,
primeiro pela geografia separatista entre o litoral e o Planalto Piratininga,
pela Serra do Mar, depois pelas facilidades dos cursos fluviais do Tietê para
o rio Paraná, do rio Paraíba do Sul, além da via terrestre
Peabiru a conduzir para o Vale Paranapanema, todas as citações
por caminhos das primeiras expedições e bandeiras rumo ao sertão.
A atenção dos conquistadores
europeus, em território paulista,
sempre esteve voltada para o encontro de
metais preciosos, daí certamente
as primeiras interiorizações
que, “à falta do ouro, cativavam índios,
que traziam para o litoral” (1),
como mão de obra escrava destinada
ao trabalho nos engenhos, nas fazendas
agrícolas que se formavam e, também,
para o tráfico escravo com outros
pontos da América do Sul, ou mesmo
do mercado europeu (2).
Prear índios para o escravismo sempre
foi bom e lucrativo ofício nas descobertas
terras de Portugal, desde a oficialidade
do Brasil, afinal os novos senhores precisavam
de homens para trabalhar a terra e gerar-lhes
lucros, além de formar contingentes
de defesas contra inimigos.
A colonização e prosperidade
paulista tiveram por dependência
a mão de obra indígena, de
menor custo e maior quantidade, embora
didáticos quase sempre afirmem que
os índios não se prestavam
aos serviços nem se adaptavam ao
cativeiro, porque habituados à vida
livre além da baixa resistência às
doenças que os matavam aos magotes.
Tudo o que se tem efetivamente da escravização
indígena pode ser assim traduzido: “O
saldo é a captura de um grande contingente
de indígenas a serem vendidos, sendo
que (...) tiveram um papel fundamental
na implantação da empresa
açucareira, contradizendo, portanto,
o velho argumento de que o índio
era inapto ao trabalho agrícola
devido à sua indolência” (3).
Óbvio, nem por isto se pode descartar a opção pelo escravo
negro, muito mais caro que o nativo, todavia essa preferência já não
se fundamenta que este era melhor ou pior trabalhador que aquele, ou mais dócil,
ou menos enfermo, estando o diferencial entre o índio e o negro a parentela
do índio que residia nas matas e era sempre uma ameaça de vingança
ou de libertação. E se algum índio escravo, isoladamente
ou em grupo, viesse fugir, mais fácil misturar-se aos que viviam em
liberdade, porque conhecia a selva e seus habitantes, inclusive se parecendo
com qualquer outro nativo de qualquer outra tribo, enquanto os negros estavam
num ambiente totalmente desfavorável, por desconhecer a região
e a língua, além da cor a denunciá-lo sempre.
Também não se descarta que
a opção escravista pelo negro
parece mais uma questão do emocional/espiritual;
os brancos adquirentes não viam
e por isso não sentiam, aliás,
nem sabiam dos negros capturados na África,
se muitos morriam ou não depois
de aprisionados, por suicídios ou
doenças oportunistas para as quais
sem imunidades. Igualmente os senhores
desconheciam se os negros, à semelhança
dos índios com o mesmo destino,
antes de presos matavam ou não os
filhos, às vezes as mulheres, para
que tais não viessem ser apanhados
e também feitos escravos.
- A História relata que, em meado
do século XVI, índios acuados
pelos preadores nos arredores de Buenos
Aires [Argentina] mataram esposas e filhos,
lançando-se depois para a morte,
do alto de alguns rochedos, para não
se fazerem escravos.
O escravo negro custava caro e só os
grandes senhores, mais assentados no litoral
do nordeste brasileiro, tinham condições
compensadoras de compras, ficando o índio
por espécie de reserva de mão
de obra, quando lhes viesse faltar o negro.
Por conseguinte, não podiam escravizar
muitos nativos para que o estoque pudesse
ser naturalmente reposto, entre os próprios
silvícolas, sempre às mãos
quando necessários.
No início do século XVII,
com Portugal sob domínio espanhol,
a Holanda investiu no comércio de
mão-de-obra africana e desorganizou
o tráfico português, fazendo
com que o fluxo de escravos negros diminuísse
para algumas regiões da colônia,
com isso a renascer o interesse pela escravização
do indígena (4).
- O tráfico negreiro se agravou
partir de 1624 quando os holandeses,
em guerra com a Espanha pela sua libertação,
atacavam colônias espanholas [e
portuguesas, por extensão de coroa
unificada], para dificultar o tráfico
de escravos africanos.
A
Holanda monopolizou a vinda de negros para
o Brasil, trazendo escravos apenas onde
bem lhe interessava, ou seja, no denominado nordeste
holandês, mesmo que por tempo
transitório. A ação
holandesa foi bastante desastrosa à economia
colonial e reinol de Portugal, necessitando
os senhores de engenhos e fazendeiros de
mão de obra urgente, para acudir
a lavoura e dar enfrentamento ao inimigo
invasor, o que fez sobrevalorizar o preço
do escravo indígena e com isso o
incremento para sua captura.
Naquela época o Guairá contava
em parte do Vale Paranapanema [paranaense]
e contigüidade, com uma população
aldeada de aproximadamente cem mil índios
[há números que indicam duzentos
mil] cobiçados para a escravidão,
quando a Bahia, São Vicente e outras
localidades estavam dispostas pagar bem
por peça que lhes fosse
entregue. O escravo indígena que
antes custava cinco vezes menos que o africano,
teve elevação nos preços
para igual ou maior, se o índio
fosse aldeado, o que significava trabalhador
adestrado para a agricultura e outros ofícios.
A Bahia pediu socorro e a Câmara
Municipal da Vila de São Paulo e
a de São Vicente requereu os préstimos
de Raposo Tavares, para guerrear e aprisionar
indígenas para fins de escravização
e com isso salvar a economia colonial, “por
esta a terra pobre, sem escravaria e hostilidade
pelos selvagens” (5). Os espanhóis,
principalmente de Buenos Aires e Assunção,
da mesma forma desejavam os índios
como escravos em suas propriedades, dispostos
pagar bem.
O
jovem Raposo sabia, por Manuel Preto, onde obter índios e não
mediu sacrifícios para engendrar uma boa e lucrativa campanha para atacar
Guairá, vindo inclusive corromper o governador do Paraguai, Don Luís
Céspedes y Xeria, para os bons êxitos de seus propósitos
contra as reduções jesuíticas do Guayrá, com seus
milhares de índios, como pronta solução para os problemas
de todos, sob pretexto de guerra justa.
- O governador paraguaio D. Luis Céspedes
vendeu a causa Guairá aos paulistas,
depois seus sucessores se preocuparam
apenas administrar problemas internos
causados pelos jesuítas, entrantes
em seu território, resguardando
interesses pessoais e cientes que os
luso-brasileiros não invadiriam
o Paraguai.
Raposo Tavares montou uma organização
militar pronta para guerra, sob identidade
nacional e direção comum,
ou seja, que a busca ao índio aldeado
e a destruição das missões
jesuíticas espanholas trariam, por
conseqüência, a ampliação
territorial brasileira dentro de um espaço
vazio que urgia se povoar. Nem portugueses
nem espanhóis ignoravam isto.
Comumente
o didatismo justifica as investidas de Raposo Tavares contra as reduções
espanholas, como gesto voluntário, pela sua convicção
de lutar pela integridade de terras portuguesas contra a Espanha, mas hoje
se entende que o bandeirante foi financiado por segmentos da sociedade portuguesa
e autoridades interessadas no expansionismo territorial, da colônia brasileira,
em detrimento a Espanha.
Os
defensores que Raposo era mercenário cabeça de entrada, citam
dívidas fazendárias “do Mestre de Campo Antônio Raposo
Tavares”, das armas e munições que lhe foram entregues
para o bom êxito das investidas contra os jesuítas das reduções
(6).
A propósito, Dr. Jovam Vilela da
Silva informa que, “Em 1628 Pe. Antonio
Ruiz de Montoya já havia reclamado
aos seus superiores que Raposo Tavares
declarava que expulsaria as missões
espanholas situadas ao sul do continente
americano porque as terras pertenciam ao
rei de Portugal e não ao da Espanha.
De fato, deve-se considerar a hipótese
de bandeirantes terem sido, secretamente,
encorajados por ordens portuguesas para
alargarem o território português
na América, ao sul, até o
Paraguai, a oeste até o Peru e de
se utilizarem o Tietê, Rio São
Francisco e do Amazonas e seus afluentes
para estabelecerem passagens e zonas de
povoamento, patenteiam-se“ (7).
Jaime Cortesão alinha-se com aqueles
que acreditam que o avanço territorial
do Brasil se deu pela não conformação
portuguesa aos termos do Tordesilhas (8),
num típico movimento nacionalista,
sendo o ataque às reduções
jesuíticas do Guairá apenas
a parte lucrativa de uma guerra, antes
de tudo territorial.
O devotamento de Raposo às ordenanças
das Câmaras de São Vicente
e São Paulo demonstra bastante claro
que Raposo fazia isto por dinheiro e prestígio,
por exemplo, depois de exercer o cargo
de “juiz ordinário da Vila
de São Paulo, ganha novo e mais
importante posto na Justiça da Colônia,
passando a Ouvidor de toda a capitania
de São Vicente“ (9). A razão
de Raposo exercer um cargo de exclusiva
nomeação de donatário
de capitania nos faz pensar que o Conde
de Monsanto, Donatário da Capitania
de São Vicente, desejoso em aumentar
domínios, tenha recorrido a Raposo
Tavares pelo seu exacerbado nacionalismo
e que insistia acreditar que as terras
de Portugal não se findavam no imaginário
de Tordesilhas.
Raposo provavelmente não suportava
o domínio espanhol sobre Portugal
e colônias, talvez daí a aspereza
mútua entre o jesuíta espanhol
Justo Mansilla [Mancilla] que chamou Raposo
de “vassalo rebelde” para obter
deste a resposta “ide-vos vá daqui,
que estais em terras de Portugal” (10),
que alguns estudiosos entendem como ódio à Igreja.
Porém, foi cumprindo ordens das
Câmaras de São Paulo e São
Vicente, que o bandeirante reuniu quase
todos os homens em idade de guerra de São
Paulo e São Vicente, três
mil brancos, três mil índios
e aproximadamente mil mamelucos, formando
não a maior bandeira ou entrada
que até então se organizara
em terra brasileiro, e sim verdadeiro exército
paulista, muito bem preparado e dividido
em quatro colunas e sessenta e nove divisões
organizadas e prontas para o ataque.
A despeito do ódio pelos espanhóis
ou pela Igreja, senão a ambos, o
interesse maior de Raposo sem dúvidas
estava na motivação financeira,
posto que aprisionar índios e torna-los
escravos, era altamente rentável.
As leis da Espanha em contrário às
ações bandeirantes não
chegavam eficientes em terra brasileira,
nem os clamores portugueses, a mando dos
Senhores de Castela, tinham vigor em deixar
livres os índios nascidos livres.
Os missionários que mantinham índios
sob sua jurisdição eram espanhóis
ou vinculados à Ordem, que era espanhola
e havia ganhado uma província inteira
do Rei da Espanha, enquanto os luso-brasílicos
não admitiam a dominação
filipina, nem concordavam com as tantas
terras doadas aos padres, terras com riquezas
ainda por achar, já com possibilidade
milionária de mais de cem mil índios,
se vendidos como escravos por um bom dinheiro.
- Alguns historiadores acreditam que
somente assacam contra os bandeirantes,
aqueles que se fiam exclusivamente em
documentos espanhóis, desconhecendo
que os jesuítas se apossavam do
território sul-americano, do oeste
a partir de Guairá para o sul,
através do expansionismo territorial,
desde o princípio presente nas
aspirações dos padres para
o estabelecimento do estado teocrático
católico, vindo chocar-se com
os luso-brasílicos, igualmente
expansionistas para além Tordesilhas,
mais a captura do índio para o
trabalho em suas lavouras.
“Antônio
Raposo Tavares, que fora denominado Segador
de Satanás pelo padre Cláudio
Reiyes - da redução de São
Nicolau, armou com apetrechos de guerra,
numerosa comitiva e mais cadeias, grilhões,
esporas, coleiras, algemas e correntes de
oito a dez metros de comprimento, com dez
ou mais gargalheiras presas e iniciou percorrer
os altiplanos da Bolívia. No finalzinho
da primeira metade do século XVII,
atingiria o rio Mamoré e em seguida
o Madeira, pelo qual chegaria ao Amazonas,
e por ele seguindo até o Grão-Pará” (11).
ÀS NUVENS DE FLECHAS
O CLARÃO DAS ARMAS DE FOGO
Produzidos os motivos da guerra, em dezembro
de 1628 as missões jesuíticas
sofriam os primeiros ataques dos bandeirantes,
sem o apoio do governo de Assunção
que lhes requisitou antes as armas e munições,
bem como determinou a retirada dos soldados
paraguaios das sentinelas das reduções
e das cidades militares de Vila Rica e
Jesus Maria.
A grande desvantagem dos reduzidos, no
enfrentamento, foi mesmo falta de armas
que D. Luis fez retirar e assim as cidades
planejadas, que deviam bloquear o caminho
dos portugueses para a América Espanhola,
resistiram bem pouco vindo cair uma a uma,
primeiro San Antonio a 30 de janeiro de
1629, depois São Miguel, Jesus Maria,
Encarnacion e as adjacentes (1), enquanto
outra frente atacava aldeamentos no Vale
Iguaçu (2) e uma terceira pelo Paranapanema – às
exceções de Loreto e Santo
Inácio, fazendo com que muitos índios
fugissem com seus padres em direção
ao Tape [Rio Grande do Sul], Itatim [ao
sul de Mato Grosso – do Sul] e Paraguai.
A resistência maior dos missioneiros
ocorrera em Ciudad Real Del Guayrá e
Vila Rica Del Espírito Santo, onde
a quarta divisão do exército
de Raposo foi rechaçada dos intentos
diante daquelas fortalezas, morrendo dois
jesuítas em Ciudad Real.
Aparentemente os bandeirantes não
contavam com tamanha reação,
obrigados à fuga atabalhoada pelas
matas até encontrar-se com a frente
de ataque às reduções
mais próximas do Paranapanema, também
obrigada retroceder diante do avanço
das tropas inimigas. Santo Inácio
e Loreto, por ora, estavam a salvos.
Temendo retorno dos bandeirantes às
margens do rio Paranapanema para atacar
Santo Inácio e Nossa Senhora do
Loreto, Padre Antonio Ruiz de Montoya e
outros seis jesuítas prepararam
o êxodo mais dramático de índios
da América do Sul, em centenas de
canoas e jangadas para fugir do branco
avassalador, num episódio assim
descrito por Montoya:
“Acabamos as hóstias consagradas, e fizemos conduzir os santos óleos
e os nossos pobres haveres para a beira do rio, onde embarcamos nas jangadas.
Do mesmo modo as gentes também meteram nas jangadas ou nas canoas as
suas pobres coisas, conforme já se tinha predisposto. Os homens que
se haviam aprontado, os moços, os rapazes, as mulheres, as velhas, as
moças, as meninas, todos juntos com as crianças, encaminharam-se
para o rio. A aldeia inteira levantou sem ficar nem ao menos uma pessoa. Mandamos
retirar das sepulturas os corpos dos três padres, nossos companheiros,
para levá-los conosco; trancamos bem a porta da Igreja para evitar que
ali entrassem animais. Parecia um dia de juízo aquele dia em que fizemos
a mudança”. (3).
E José Jorge Junior arremataria: “E,
para sempre, das margens do Paranapanema,
partiram mais de 12 mil indígenas,
descendo rios, em tormentosa retirada,
rumo a uma nova esperança em terras
localizadas entre os rios Paraná e
Uruguai. Depois de longa e penosa viagem,
sofrendo acidentes, doenças, desistências
e mortes, chegaram ao seu destino pouco
mais de quatro mil retirantes”. (...). “Loreto
e Santo Inácio, abandonadas, sofreram
a ação destruidora de 300
anos. Os telhados caíram, as paredes
de taipa se desfizeram e a vegetação
luxuriante, qual pano de boca de teatro,
desceu vagarosa como final do imenso drama” (4).
No dia 1o. de maio de 1629, depois de dez
meses de sertão e guerra, vitoriosos,
porém exaustos, os paulistas voltaram
a Piratininga depois de destruir umas tantas
missões, trazendo vinte mil índios
capturados e vendidos como escravos, dez
mil deles de uma só mão,
para a Bahia (5). Justo Mansilla [Mancilla]
e Simão Mazzeta, os jesuítas
que acompanharam os índios que iam
para o cativeiro em São Paulo, foram
os autores da "Relación de
los Agravios", peça preciosa
para a reconstituição da
expedição, ainda que nada
tenha produzido para punir culpados de
guerra (6). Em atenção aos
jesuítas, o Governador Capitão-Mor
do Brasil determinou que todos os índios
capturados no Guairá fossem libertos,
no risível despacho "faça-se
imediata justiça", quando não
havia mais índios para libertação,
todos já vendidos para a escravatura.
Em 1631, Raposo à frente de seu
exército retorna ao Guayrá bate
de frente com Vila Rica do Espírito
Santo – cidade militar, sem êxito
aparente, para retornar novamente em 1632
e daí sim destruí-la definitivamente.
Conta-nos Reinhard que, “dos 100
mil índios convertidos existentes
na zona desta redução, 15
mil foram mortos e 60 mil vendidos como
escravos em São Paulo”, noticiando
inclusive que o preço de cada escravo “devido à oferta
exagerada, baixou de Rs 100$000 para Rs
20$000”.
- Ciudad Real Del Guayrá foi arrasada
somente em 1638.
Para os padres jesuítas o sonho
de um estado teocrático na América
do Sul não se findou com a destruição
de Guayrá. Desde que traídos
por D. Luis Céspedes e vencidos
por Raposo Tavares, voltaram-se para o
sul onde já se firmavam algumas
reduções, desde 1626, como
novo projeto missioneiro em terras também
por concessão do reino espanhol.
Raposo foi ao encalço deles e uma
das frentes de suas tropas protagonizou
o acontecimento a seguir:
“No dia de São Francisco Xavier (3 de dezembro de 1637), estando
celebrando a festa com missa e sermão, cento e quarenta paulistas com
cento e cinqüenta tupis, todos muito bem armados de escopetas, vestido
de escupis, que são ao modo de dalmáticas estofadas de algodão,
com que vestido o soldado de pés à cabeça peleja seguro
das setas, a som de caixa, bandeira tendida e ordem militar, entraram pelo
povoado, e sem aguardar razões, acometendo a igreja, disparando seus
mosquetes. Pelejaram seis horas, desde as oito da manhã até as
duas da tarde.
Visto pelo inimigo o valor dos cercados
e que os mortos seus eram muitos, determinou
queimar a igreja, aonde se acolhera a gente.
Por três vezes tocaram-lhe fogo que
foi apagado, mas à quarta começou
a palha a arder, e os refugiados viram-se
obrigados a sair. Abriram um postigo e
saindo por ele a modo de rebanho de ovelhas
que sai do curral para o pasto, com espadas,
machetes e alfanjes lhes derribavam cabeças,
truncavam braços, desjarretavam
pernas, atravessaram corpos. Provavam os
aços de seus alfanjes em rachar
os meninos em duas partes, abrir-lhes as
cabeças e despedaçar-lhes
os membros.
Compensará tais horrores a consideração
de que, por favor, dos bandeirantes pertencem
agora ao Brasil as terras devastadas?” (7).
A grande aventura jesuítica definitivamente
se encerrou quando seus padres foram expulsos
da América portuguesa e espanhola,
em 1760 e 1768 respectivamente, deixando
suas trinta e três reduções
e uma população ainda superior
a cem mil habitantes, em partes de terras
hoje pertencentes ao Uruguai, Paraguai,
Argentina e sul do Brasil.
José Jorge Junior estima, fundamentado
em documentos jesuíticos e de historiadores,
que em todo século XVII mais de trezentos
mil nativos, da margem esquerda do rio Paranapanema
ao Rio Grande do Sul, foram aprisionados
e escravizados
(8). Para Meliá seriam
mais de um milhão de indivíduos
escravizados, contados aí os índios
capturados pelos castelhanos – os
encomenderos (9).