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RAZIAS
INCURSÕES PREDATÓRIAS EM TERRITÓRIOS INDÍGENAS DO VALE PARANAPANEMA

PARTE I – INCURSÕES PELOS CAMINHOS DO VALE DO PARANAPANEMA

1. GUAYANÃ [XOKLENG]

Não raramente o Guayanã é apontado como Povo Aweikoma, do mesmo grupo Caingangue, mas com certas diferenças culturais adquiridas de grupos pioneiros e mantidas por força de isolamento, como o botoque, transformadas em tradições que os tornariam diferentes. Ainda hoje é discutível se esse povo, Xokleng ou Xocré – como também é conhecido o Guayanã, seria do mesmo grupo Caingangue, dados identidade lingüística e o corte de cabelo [coroado], ou não, dadas àquelas suas peculiaridades.

  • O hábito de perfurar o lábio inferior e nele inserir pedaços de madeira, o tembetá, aumentando de tamanho ano a ano até um enorme círculo ornamental na fase adulta, identifica este povo também pelo nome Botocudo.

O Arqueólogo Ph.D. Marco Aurélio Nadal de Masi (1) aponta presenças Xokleng [Guayanã] e Kaingang [Caingangue], povos da mesma família Jê do Brasil Central, vivendo nas costas de Santa Catarina, já com as diferenças lingüísticas e sociais a lhes determinar diferente desenvolvimento histórico, situação que anula tese de Lozano (2), quando afirma o Guayanã por povo ancestre dos Caingangues.

Apesar das tantas proximidades entre Guayanãs e Caingangues, pela ancestralidade comum, as principais diferenças se encontram conforme modelo Xokleng criado por Lavina (3) “no qual o grupo é caracterizado como nômade (...)” em função das condições ecológicas e sazonais dentro do seu espaço territorial, por onde transitava em diferentes estações do ano.

O nomadismo sazonal e ecológico que dividia as tribos Xoklengs em grupos e subgrupos, para melhor subsistência, provavelmente tenha trazido algumas famílias isoladas, fugindo dos brancos, para as margens do rio Paranapanema em meados do século XVI, todavia não se tem informação precisa de tal migração ou o tempo de duração em novo habitat, considerado curto e, por isso mesmo, com provável mantença de usos, costumes e tradições, sem diferenciações consideráveis de seus pares mais ao sul, exceto quanto à dieta. 

No sul propriamente dito, informa-nos Lavina, sempre por Nadal de Mais – conforme referencias, os Guayanãs assentavam-se nas encostas da serra durante as estações primavera e verão, enquanto no outono e inverno ocupavam a Mata de Araucária, sendo que, “na primavera e verão os acampamentos eram pequenos e pouco estáveis (alguns dias) com grupos de 8 a 30 pessoas. Locais com mais recursos teriam acampamentos mais estáveis de até uma semana, e locais pobres em recursos apenas uma noite”, embora se tenha por exceção o período cerimonial da primavera, ritos da perfuração dos lábios, quando os acampamentos “se diferenciam nesta época do ano, pois são grandes e ocupados aproximadamente por um mês”. Nos períodos do outono e inverno “os grupos são maiores de até 50 pessoas e a duração da ocupação dos acampamentos seria mais longa de até três meses, devido a coleta de pinhão e a concentração de fauna em função da abundância do fruto das Araucárias”.

Também De Masi acrescenta que Lavina, “baseado nos dados etnohistóricos descreve os tipos de abrigos e sua construção tanto em uma quanto em outra área ecológica de ocupação pelo grupo nas diferentes estações do ano, assim como descreve os tipos de atividades desenvolvidas por homens e mulheres, a manufatura de diferentes tipos de fogueiras, cestaria, cerâmica, artefatos líticos e de madeira bem como a caça e coleta dos recursos de subsistência, e sua preparação, e em alguns casos, a sua conservação (pinhão). Os mortos eram cremados e sepultados sob um montículo de até 50 cm de altura”.

Do Guayanã conforme dado entender por Soares de Souza, “não vive este gentio em aldeias com casas arrumadas como os Tamoios seus vizinhos, mas em covas pelos campos debaixo do chão, onde tem fogo de noite e de dia, e fazem suas camas de ramas e peles de alimárias que matam. A linguagem deste gentio é muito diferente da de seus vizinhos, mas entendem-se com os Carijós” (4).

Os Guayanãs optavam por moradas em cavernas, galerias subterrâneas ou sob pedras, quando as conseguiam, algumas com gravações e/ou inscrições rupestres (5); mas muitos de seus sítios arqueológicos também são vistos em campos abertos, o que nos faz pressupor que, à maneira e semelhança dos aparentados Caingangues quando em nomadismo, “Tem a forma prismática como um abrigo de beira-de-chão e coberto com folhas de samambaia ou com fetos de samambaia, muito raramente com folha de jerivazeiro. Tem um telhado plano que desce até o chão” (6).

Nestes considerandos os Guaianãs em regiões às margens do Paranapanema igualmente desconhecendo a agricultura mantiveram-se também nômades, vivendo da exploração coletiva e de estocagem temporária daquilo que a natureza local podia lhes oferecer, ou seja, continuando coletores, pescadores e pequenos caçadores, sem cerâmica notável e com indústria lítica e em madeira bastante pobres, inclusive de armas, que os tornava impotentes diante dos adversários.

Auguste de Saint-Hilaire relata, por informações, presença de índios Guanhanã na região de Itapeva (7), mais tarde identificados por Egon Schaden como Caingangues (8), portanto, pelo mesmo Schaden, nada a ver com os antigos Guanhanã [Guayanã] (9), enquanto para Carlos Drumond a designação Guaianá, que entendemos corruptela de Guaianã, identificava qualquer grupo indígena, independente de sua origem, tribo ou nação (10).

Com tais esclarecimentos percebemos os Guaianãs mais ao sul com certa identidade tribal, diferentemente daqueles presentes no Vale Paranapanema onde são bem pouco conhecidos ou estudados, vistos historicamente na região de Avaré (11), em meados do século XIX, nômades caçadores coletores levados à extinção por José Theodoro de Souza, em 1850, talvez uns poucos sobreviventes embrenhados em outras matas ou absorvidos por outras tribos. Não se sabe e nem temos registros se foram atraídos ou não para o Aldeamento.

Ainda não nos foi possível precisar alguma outra distribuição geográfica Guaianã em outros espaços territoriais que não em região do Paranapanema, posto que nenhum de seus sítios arqueológicos nos chegou intacto, mesmo suas cavernas ou subterrâneos certamente reocupados por outros grupos que lhes tomaram territórios. Também, aparentemente, o Guaianã não nos deixou indicadores de seu modo de vida, pela indústria de armas e objetos cerâmicos [vasilhames e utensílios], certamente colhidos pelos sucessores, ou por que jamais ultrapassou a condição de tribo coletora, servindo-se apenas daquilo que a natureza lhe oferecia, além da caça e pesca rudimentar, sem vestígios de armas ou instrumentos próprios, o que lhe qualifica composta de medíocres guerreiros, ou que não teve tempo para auto-afirmação nem organização tribalista regional.

A ausência de relatos permite-nos, por ora, apenas o asserto que no final do século XIX não mais existiam Guaianãs na região do Vale do Paranapanema.

2. CAIUÁ, POVO TUPI-GUARANI

Os Caiuás ocupantes de partes do Planalto Ocidental Paulista, no século XIX, não eram unidades políticas. Talvez nunca tenham sido, dentro da nação Tupi-Guarani, identificados a estes apenas pelo uso de língua variante [dialeto] do Abanheenga, e certas proximidades de usos e costumes certamente adquiridos.

Não nos parece incorreto que tais Caiuás tenham sido destroços tribais unificados que adotaram usos, costumes e língua dentro dos aldeamentos, por isso os Caiuás compreendidos como Guaranis Independentes.

Quase nada se sabe de Caiuás em estado selvagem na região, pois que sempre foram vistos aldeados ou oriundos de aldeamentos anteriores, o que nos faz compreendê-los em diferentes períodos históricos, interpolados, quanto às fixações e épocas, que ainda hoje confundem os estudiosos, posto que já nas primeiras décadas do século XVII sabemos de grupos Tupi-Guaranis, inclusos os Caiuás, presentes nas reduções espanholas de São Tomé, Santo Inácio, Nossa Senhora do Loreto e São Pedro, às margens do Paranapanema, antes de presenças como trabalhadores semi-livres na Fazenda Botucatu, um empreendimento jesuítico levado a efeito entre os anos 1719 e 1759.

Antecedendo os primeiros Caiuás na região é justo pressupor alguma outra presença Tupi-Guarani, mencionada por Tidei Lima, destacada dos Caiuás (1), certamente os Carijós e os Tupiniquins mencionados por Capistrano de Abreu.

A despeito de tantos aldeamentos e experiências com os brancos, os Caiuás do Planalto Ocidental Paulista e circunvizinhanças, em relação aos pioneiros alternaram fases pacíficas com agressividades (2), aparentemente quando seu grupo acrescido de aparentados ou agregados selvagens.

2.1 DOS CAIUÁS E CARIJÓS NUMA SÓ TRIBO

Com a chegada dos brancos em Cananéia, entende-se que os Carijós deixaram o local para habitar as vertentes do Paranapanema (3), fazendo recuar os Jês-Guaianãs para o médio curso daquele rio. A presença dos Carijós no Vale Paranapanema não antecederia, contudo, o ano de 1526.

Já os primeiros Caiuás teriam chegado por volta de 1537, das regiões desde o rio Paraguai, rio Paraná, foz do Piquiri e barra do Corumbataí, perseguidos pelos espanhóis caçadores de índios, para disputar com os Guaianãs partes territoriais às margens do médio Paranapanema.

Uma segunda disposição seria em meados do século XVI, quando fugitivos do branco escravizador, Caiuás vindos da região litorânea entre Cananéia e São Vicente para se fixar além da serra de Botucatu, na região de Avaré e às nascentes e partes do Paranapanema, unindo-se a grupos [parentes] antecessores.

Consideramos que os Caiuás [primeira e segunda levas] e Carijós tenham se fundido numa única tribo, quando se interiorizam para além do Guairá, em 1581, postos em fuga pelo preador Jerônimo Leitão (4).

Por volta de 1602 muitos daqueles índios e descendentes são aprisionados por Nicolau Barreto, na região de Guairá (5).

Os remanescentes Caiuás somente reaparecerão na região do Paranapanema em 1608, em reduções jesuíticas espanholas de São Tomé, Santo Inácio, Nossa Senhora do Loreto e São Pedro.

2.2 DAS REOCUPAÇÕES CAIUÁS

A partir de 1608 índios Caiuás e aparentados fizeram parte dos reduzidos em missões jesuíticas espanholas, até a destruição total delas pelos bandeirantes paulistas, entre os anos 1628/1635, quando sobreviventes não escravizados fugiram a esmo para depois, aos poucos, reocupar partes do sertão Paranapanema [paulista]. Grupos que se refugiaram para o sul logo retornaram, fugindo das encomiendas espanholas.

Óbvio que o sertão oeste paulista não seria o melhor lugar para indígenas em fuga; se do lado espanhol estavam os encomienderos, na parte portuguesa os bandeirantes e entradistas não eram menos perigosos; mas, aparentemente, existia uma faixa espécie terra de ninguém (6) onde se instalaram destroços de tribos, praticamente em melhores condições longe dos caminhos conhecidos e transitados pelos europeus.

Não há como caracterizar, nesse período 1635 a 1718, que o Tupi-Guarani ou, mais propriamente o índio Guarani, não seja o mesmo Caiuá instalado nas regiões das atuais, Bauru, Agudos, Itapeva e Itaporanga, mas alguns autores insistem distingui-los (7). Entendemos que referidos grupos indígenas Guaranis classificados Caiuás sejam, na verdade, destroços tribais de cultura assimilada em redução jesuítica espanhola.

De qualquer forma, descendentes Caiuás, mestiços ou não, são vistos entre 1719 e 1759 em harmonia e convivência pacífica com brancos, negros e outros índios, em bairros rurais da Fazenda Jesuítica de Botucatu, até que outra vez dispersos pelos caçadores e exterminadores, desta feita pelos novos conquistadores e fazendeiros, após a expulsão dos padres jesuítas do território brasileiro.
Hernâni Donato, ao dizer de Francisco Manuel Fiúza, implacável matador e escorraçador de índios nos anos de 1770, aponta que “existiria então, junto da atual Praça Coronel Moura [Botucatu], aldeamento de Caiuá, índios mansos” (8)

Fugindo dos massacres, numa ultima dispersão histórica, grupos denominados Caiuás instalaram-se na região de Avaré – aparentemente aldeia principal, e subgrupos espalhados pelos territórios atuais de Itatinga, Timburi, Cerqueira César, Bauru, Agudos e Lençóis Paulista. São nessas localidades que José Theodoro de Souza e seu bando vem encontrá-los em 1850.

2.3 APAGAMENTO CULTURAL

Durante quase um século, de 1760 a 1850, os Caiuás, ou destroços Tupi-Guaranis, voltaram a um estado de selvageria e revolta contra os brancos, em disputas pelas terras com os primeiros fazendeiros, pós-jesuítas, que insistiam avançar domínios rumo ao sertão, alugando serviços dos bugreiros (9) com a missão de matar e expulsar índios.

Apesar de tantas tentativas, os brancos não conseguiam avançar sertão cinco léguas adiante de Botucatu, pela feroz resistência indígena encarnada nos Caiuás, pelos lados de Itatinga e Avaré. Por citações de filhos e netos de pioneiros sertanistas, os Caiuás sabiam métodos de luta dos brancos, transmitindo aos descendentes certas táticas de combate, como não se defrontarem com o inimigo em campo aberto, preferindo as matas onde mais facilmente se abrigavam dos tiros.

Também optavam por ataques surpresas ou combates corpo a corpo, porque sabiam ineficientes suas flechas contra as proteções que os brancos usavam sobre o corpo [escupis], ou pelas corridas ziguezagues que praticamente lhes impediam fixar o alvo. Um outro eficiente sistema era chegar, pelas matas, até onde estavam os brancos e ali ataca-los, para assim impedir-lhes avanços até as aldeias. 

As aldeias Caiuás eram levantadas em arco defensivo para conter a progressão dos fazendeiros além da serra Botucatu em direção ao rio Paraná. Com tal sistema de defesa e proximidades entre grupos, os Caiuás apresentavam grande mobilidade e fácil comunicação pelas matas, com isso a dificultar ações dos brancos.

A resistência dos Caiuás durou até 1850 quando chegou José Theodoro de Souza para lhes destruir quase total, a partir do grande massacre de Abaré-y – Avaré (10), num morticínio abrangente e sanguinolento, depois continuado cruel durante décadas a dizimar ou fazer recuar tribos e, em seu lugar fixar colonizadores até a conquista total do sertão Paranapanema.
As ações de Theodoro não se limitaram aos Caiuás, perseguindo igualmente os Botocudos, os Otis e Caingangues da região ou encontrados pelos caminhos de passagem do bando avassalador.

A progressiva destruição Caiuá, por José Theodoro de Souza e seu grupo, tinha o beneplácito do Capitão Tito Corrêa de Melo, líder político influente e mandatário maior de Botucatu e região, algumas vezes eleito deputado, por isso tais extermínios jamais repercutiram junto às esferas políticas da província e do império.

Quando já não existiam Caiuás agrupados no Planalto Ocidental Paulista, entre os anos 1856 e 1858, o governo de São Paulo ensejou aldear tribos indígenas da região em São João Batista do Rio Verde [Itaporanga] e Tijuco Preto [Piraju] – SP, dado massacre de Caingangues na região do Feio/Aguapeí, reduzindo-se grupos Oti-Xavantes e sobreviventes Caiuás, nenhum Caingangue,

Relata-nos a história que, fracassado os Aldeamentos Itaporanga e Piraju (11) poucos anos depois, uns tantos índios sem identidade – chamados Caiuás [pelos brancos], foram aldeados em São Pedro de Alcântara, às margens do rio Tibagi [onde hoje a cidade de Jataizinho, PR], São Jerônimo da Serra [PR] e Itariri [SP]. Outros se embrenharam mata adentro para os lados de São Miguel Arcanjo, Sete Barras e Iguape, vagando bêbados pelos arredores de povoados, cometendo pequenos roubos e perturbando o sossego de todos, motivos suficientes para serem caçados e mortos (12). Os Caiuás egressos dos aldeamentos ou vistos nas matas, nada mais tinham de índio, já ultrapassado meados do século XIX, senão os traços fisionômicos.

Depois do ano de 1864 apenas destroços tribais Caiuás foram encontrados pelos desbravadores, em terras adquiridas de José Theodoro; eram grupos errantes, algumas centenas (13), que fugiam da ameaçadora presença branca, rumo às densas matas do Vale Santo Anastácio.
No início dos anos de 1900 possíveis remanescentes Caiuás, adiante do rio das Anhumas, resistiram aos avanços do homem branco na reconstrução da Estrada São Paulo - Mato Grosso (14), a antiga Boiadeira. Seriam hordas Tupi-Guaranis fugitivas do Paraná que, unidas, se assentaram na região durante o período de quase abandono da velha estrada – 1893 a 1903. Constam documentos que aqueles índios Caiuás retrocederam (15), assim representando risco menor para os empreiteiros e operários envolvidos no empreendimento (16).

Segundo Curt Nimuendaju, em 1907, na região de Bauru existia apenas 67 índios Guaranis contatados (17), seguramente nenhum Caiuá em todo território paulista.

XAVANTES

Referências históricas apontam o povo Xavante integrante da família lingüística Jê, do tronco Macro-Jê (1), originário remoto do litoral maranhense (2), posto em fuga desde a chegada [invasão] dos colonizadores a seu território, em fins do século XVI, parte migrando para terras norte e centro do atual estado goiano (3), parte em região mato-grossense, entre os rios Culuene e das Mortes (4). Aí já em formação dois grupos que mais tarde se tornariam distintos.

  • Apesar da interiorização, durante boa parte do século XVII os Xavantes da região central brasileira foram vitimas da violência empregada pelos bandeirantes em capturá-los para o trabalho escravo. Bandeirantes e entradistas passavam constantemente pela região a procura do ouro e do índio para apresamento, sendo os capturados conduzidos para os garimpos das Minas Gerais e para as fazendas e engenhos do litoral, como São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco.

Em fins do século XVII, a descoberta de ouro na região dos rios Tocantins e Araguaia, trouxe grande número de brancos para a exploração do metal, intensificando a preação indígena e dizimação de tribos renitentes às submissões, colocando em fugas sobreviventes e os que logravam escapar do cativeiro, quase sempre auxiliados pelos libertos, com sucesso tamanho que o êxodo Xavante praticamente esvaziou sua presença mato-grossense localizada. 

Os Xavantes oriundos do Mato Grosso, atravessaram o rio Paraná ainda no século XVII para, escorraçados por outras tribos entre o Aguapeí e Paranapanema, avançar pelos campos até “entre Porto Martins (Rio Bonito atual) e Bofete e da Vitoriana ao Rio Laranjal (...)” (5). Depois ingressaram pelos cerrados e campos do Vale do Paranapanema, ou para os lados de Bauru e Lençóis Paulista (6), sempre numa movimentação precavida à medida que chegavam os pioneiros desbravadores. A esse grupo denominou-se Woiti [Oiti ou Oti].

  • Um outro grupo Xavante, aparentemente independente, concentrava-se nos campos do Jaguaretê e Laranja Doce (7), entre os atuais municípios Iepê e Rancharia. Para uns, os componentes de referido grupo seriam descendentes de tribos outrora aldeadas, que voltaram ao estado de selvageria; outros pensam tratar-se de sobreviventes Otis recuados para a zona entre Capivara, Iepê e Rancharia; e aqueles que entendem ser tribos co-irmãs de Xavantes estabelecidos próximos ao Porto Tibiriçá e margens do Paraná, temas mais adiante discutidos.

Em 1725 o bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva, Anhangüera, descobre ouro em Goiás e para lá acorrem outros bandeirantes e mineradores, necessitados de mão de obra escrava. Desta feita, as autoridades de governo não lançam mão a índios capturados e de imediato postos ao trabalho, antes os fazem passar por aldeamentos para pacificação e catequização, com isso pretendendo-os dóceis à servidão e compreensivos da superioridade branca (8). Não repetiram os erros cometidos em Mato Grosso: a mão de obra escrava estava escassa e o extermínio indígena não seria, portanto, recomendável, mas sim coloca-los em aldeamentos para torná-los escravos submissos.

  • Quando ainda das explorações auríferas em Mato Grosso e com os primeiros indícios das Minas dos Goizaes, missionários vindos do Pará adentram as selvas para montar as primeiras reduções regionais com objetivos de receber, pacificar, catequizar e instruir os índios capturados que haveriam de servir para os trabalhos nas mineradoras ou garimpos. Os próprios religiosos montavam expedições para capturar índios para suas missões, para posteriormente repassa-los com bons lucros (9).

O governo, para eficácia de intentos, arrendou serviços de bandeirantes e entradistas para capturar índios e entrega-los aos aldeamentos levantados com aqueles propósitos para pacificar os Xavantes, então considerados indomáveis e não civilizáveis.

Os aldeamentos, a redução e pacificação dos índios eram incentivados, mas o projeto fracassou, os índios fugiram ou foram resgatados pelos companheiros livres, os aldeamentos incendiados e, em 1788, com o fim da aldeia Pedro III (sítio do Carretão) – interior de Goiás (10), aconteceu um segundo êxodo Xavante rumo às terras do Planalto Ocidental Paulista.

Estudiosos indicam a presença deste grupo Xavante na bacia do rio Pardo – em atual Mato Grosso do Sul, antes que parte dele adentrasse território paulista para se estabelecer até os campos do Jaguaretê e Laranja Doce (11), próximos às atuais Iepê e Rancharia. Tidei Lima, pelas suas fontes, coloca referidos grupos apenas no extremo oeste paulista, “à altura do Porto Tibiriçá, à margem esquerda do rio Paraná” (12). A este grupo coube a denominação Opaiê [Ofaiê] Xavante.

Bruno Giovannetti, José Jorge Junior e outros estudiosos, conforme referências adiante, apontam o Xavante em geral como elemento pacífico, sobrepujado e até covarde, ladrão de pequenas montas; no entanto, sua história é uma longa e heróica resistência ao colonizador europeu, marcado pelas tantas fugas dos servilismos forçados e pela própria transitoriedade territorial, obrigado a constantes deslocamentos pela presença branca, cada vez mais próxima e ameaçadora, até que lhe apagaram todos os rastos no Vale Paranapanema.

2.1 OTI-XAVANTES

Os Otis estiveram presentes no empreendimento jesuítico na Fazenda Botucatu, entre os anos 1719 e 1759. Sabe-se de um bairro [rural ou aldeamento] perdido, onde a atual Botucatu, chamado Oiti, cujo cemitério encontrado foi “destruído à lâmina de arado. Deles [Otis] não se sabe que hajam sido belicosos” (13).

Henrique Dyna diz de um cemitério indígena Xavante [Oiti] que existira em São Domingos [do Tupá] (14), às cabeceiras do rio Turvo.

Com a queda dos jesuítas e conseqüente expulsão do território brasileiro, os Xavantes voltaram ao estado de feridade, perseguidos pelos bugreiros a serviço dos novos fazendeiros, sendo Francisco Manuel Fiúza quem, “em 1770, comanda destacamento que bate morros e matos a mandado dos fazendeiros ou por comissão oficial de limpeza dos caminhos” (15); foi dos mais cruéis matadores de índios (16).

Embrenhados nas matarias, os Otis ressurgem para a história por volta de 1840, em terras do Vale Paranapanema, notados por Joaquim Francisco Lopes quando à procura de melhor via de comunicação entre a província de São Paulo e Mato Grosso (17).

De meados da década de 1850 até o final do século XIX, em território do Vale do Paranapanema, os Otis foram expulsos de suas terras, mortos ou capturados para mão de obra escrava, depois de passagem por aldeamentos onde aprendiam a necessária sujeição aos brancos.
Aqueles que fugiam constantemente de seus senhores ou dos aldeamentos, chamados “incorrigíveis”, pelos sertanejos (18), eram mutilados ou tornados imprestáveis para o trabalho e abandonados nos campos ao próprio destino. 

Tidei Lima informa, por Telêmaco Borba, presença de Otis em atual cidade de Campos Novos Paulista, no ano de 1878 (19). Também, Teodoro Sampaio, no ano de 1886, encontrou Otis em Campos Novos, vivendo miseravelmente nos campos, dados a ladroíces, não civilizáveis, a importunar os brancos e lhes causar danos nas fazendas (20)

Os Otis, tidos por descendentes de tribos do Mato Grosso, tem essa origem contestada por alguns estudiosos (21) que entendem nenhuma identidade dos Oti-Xavantes com os Akuen-Xavantes do Brasil Central. Entendemos que as lendas contadas pelos próprios Otis de seus antepassados vindos do litoral, suas passagens pelo centro do Brasil, chegada a São Paulo, contatos com os brancos, aldeamentos e escravidões, tenham sido suficientes para as diferenciações vistas por uns e outros especialistas cujas opiniões ainda são duvidosas.

Com a presença dos mineiros na região do Planalto Ocidental Paulista, os Otis sem dúvidas opuseram-se tenazmente às invasões daquelas frentes de expansão branca, defendendo legitimamente as terras que estavam suas, com isto a estimular violentas reações dos sertanistas numa sucessão de extermínios, destroçando tribos inteiras. Acuados, grupos Otis migraram para as densas florestas do Vale Santo Anastácio, juntamente com remanescentes Caiuás [Guaranis].

Os Oti-Xavantes encontrados na região Paranapanema, já passado meado do século XIX, se deixavam facilmente dominar pelos brancos e a eles entregavam suas mulheres e filhas para a prostituição, para garantia de sobrevivência e proteções contra os aparentados rivais Caingangues, que lhes metia tanto medo quanto aos brancos. Esta submissão, todavia, não os pode livrar do extermínio, pois que, segundo Egon Schaden “deixaram os Otis de existir como unidade tribal antes que se fizesse o estudo da sua língua e da sua cultura” (22).

2.2 OFAIÊ-XAVANTES

Grupos Ofaiê-Xavantes, início do século XVIII, que compreendemos ocupantes das regiões norte-centro do atual estado de Goiás, travaram sérios combates de resistência aos bandeirantes, sendo considerados também indomáveis e impróprios para a civilização, razão porque as autoridades de governo optaram, quando da necessidade de mão de obra escrava, antes pela sua pacificação em reduções que o extermínio propriamente dito (23).

Segundo Tidei Lima, pelo mapa etnográfico de Hermann von Ihering e dados levantados por Curt Nimuendaju e, mais tarde por Darcy Ribeiro, os Ofaiês são classificados distintos dos Akuen e dos Otis (24), grupos também Xavantes. Pelos antigos sertanistas (25), conforme já descrito, esse grupo Xavante teria habitado, também, a região de Jaguaretê e Laranja Doce. Referido grupo Ofaiê-Xavante seria do mesmo contingente localizado em toda bacia inferior do Rio Pardo (Mato Grosso do Sul), por Giovannetti, ou das áreas do sul do Mato Grosso, segundo Tidei Lima.   

Darcy Ribeiro entende que os Ofaiê-Xavantes, também foram violentos e opositores iniciais ao avanço dos brancos, conforme “estão a testemunhar a rápida extinção da tribo a as histórias das chacinas de que foram vítimas” (26).

Sabemos pelos descendentes, que as famílias Nantes, Botelho e Medeiros e outras, se valeram dos préstimos de bugreiros como João Hipólito, João da Silva Oliveira, José Theodoro e o Coronel Sanches de Figueiredo entre outros (27), para matar índios, escorraça-los ou faze-los recuar para além dos rios Paranapanema e Paraná, para deixar limpas as terras pretendidas. Em empreitadas do gênero foram exterminadas tribos inteiras de Oitis e Ofaiês, independentes se pacíficas ou não. 

Ao findar o século XIX não existia mais nenhum grupo genuinamente Ofaiê, perdendo-se para sempre a sua cultura, usos e costumes.

2.3 CESSAÇÃO TRIBAL E SUPRESSÃO CULTURAL

Carta Régia de 05 de setembro de 1811 autoriza a Guerra aos Xavantes: "(...) será indispensável usar (...) da força armada; sendo este também o meio de que se deve lançar mão para conter e repellir as nações Apinagé, Chavante, Cherente e Canoeiro; (...) não resta presentemente outro partido a seguir senão intimidal-as, e até destruil-as se nescessario for, para evitar os damnos que causam. Neste intento vos hei por muito recommendado, não só o enviar os convenientes reforços de Pedestres para o Destacamento do Porto Real, mas toda a vigilancia em dar as providencias que tenderem ao desempenho destas minhas reaes ordens" (28).

Este régio documento se fez valer quando das penetrações das frentes pioneiras pelo interior paulista, ao permitir que os entradistas utilizassem as carabinas e mosquetões contra os índios, como reação defensiva aos selvagens transformados em algozes com suas armas como os tacapes, as flechas e as bordunas. Os brancos podiam ainda promover ataques preventivos, pelas cruéis dadas, para evitar que num futuro viessem os índios ataca-los.

Parece-nos bastante suspeita, portanto, a informação dada em 1826 pelo cronista Hércules Florence, viajante pelo interior de São Paulo (29): “(...) chamam-se Xavante a todos os índios que aparecem na parte ocidental da Província de São Paulo e para lá do Tietê”, o que significa dizer autorizadas as matanças a todo e qualquer grupo indígena que viesse se opor aos conquistadores, xavante de origem ou não. Entendemos que o cronista viajante colheu dados de pioneiros assentados nas proximidades do Tietê, quando já iniciadas penetrações “para lá do Tietê”.

Não sabemos quantos eram os Xavantes do Planalto Ocidental Paulista, quando chegaram Theodoro e seu grupo – os precursores mineiros, no início dos anos 1850; mas vinte anos depois, estavam reduzidos a menos de quinhentos indivíduos, reunidos em umas poucas aldeias de trinta a quarenta pessoas cada (30).

Já além dos anos de 1870, o fazendeiro José Antonio de Paiva Junior, pelos lados de Conceição de Monte Alegre [Fazenda São Mateus, região da atual Paraguaçu Paulista], conta sua participação num massacre aos Otis que, graças narrativa de Curt Nimuendaju (31) se tornou documento histórico: “Uns sessenta homens armados até os dentes, numa manhã de nevoeiro, quando os Otis ainda dormiam, assaltaram a aldeia mais próxima na cabeceira do Córrego da Lagoa, afluente da margem direita do Sapé (...). Foram barbaramente assassinados sem distinção de idade ou de sexo (...). É difícil saber-se o número de Otis chacinados (...). Afirma José de Paiva, que tomou parte no feito, que os cadáveres estavam empilhados em grande quantidade”. Morticínios assim eram seqüências das dadas inauguradas por José Theodoro de Souza, desde Avaré, no massacre dos Caiuás, em 1850. 

  • José Antonio de Paiva Junior, participante de tantas dadas, faleceu em 06 de abril de 1933, aos 106 anos de idade, segundo documentos (32).

Por volta de 1880 os Xavantes foram vítimas das dadas, na região entre Rancharia e Iepê, com poucos sobreviventes que se afastaram para além dos rios Paranapanema e Paraná. Segundo Tidei Lima (33), Nimuendaju informa de sobreviventes Otis que, na mesma década são empurrados para a zona de Paraguaçu Paulista [Capivara] e Rancharia, e contra eles promovidas as dadas comandadas por João Hypólito, em 1880.

No ano de 1893 existiam cinqüenta Xavantes em todo Planalto Ocidental Paulista, três deles, Otis, em Campos Novos Paulista vivendo miseravelmente em estado selvagem, numa área escassa entre os brancos e os Caingangues. No mesmo ano trinta Xavantes foram presos e conduzidos a São Paulo, diante do governo, cujo epílogo se encontra em narrativa de Curt Nimuendaju – O Extermínio da Tribo dos Otis (34): “O governo lhes deu alguns presentes e mandou-os de volta ao sertão (...). O regresso foi tristíssimo: diversos Otis foram vendidos enquanto que as mulheres eram entregues à prostituição (...). Em 1903, restavam dos Otis, um homem, quatro mulheres e quatro crianças, tendo o homem sido assinado nesse mesmo ano (...). O ultimo Oti é José ‘Xavante’, capturado numa dada (onde perdeu pai e mãe) e casado com uma índia ‘Coroada’ [Caingangue]. Já foi vendido uma vez; em outra foi trocado por uma vaca. Tem vivido sempre escravizado; nunca o seu trabalho foi pago”.

Os Ofaiês não tiveram nenhum historiador que lhes escrevesse suas memórias nem seus últimos momentos em terras paulistas, deles sobrevivendo apenas vagas lembranças de uns velhos bêbados, filhos esmoleres e umas poucas infelizes mulheres e filhas prostituídas.

Os Xavantes Paulistas, Oitis e Ofaiês, não sobreviveram como unidade político-cultural às frentes de expansões dos brancos, através dos bugreiros. Dos poucos sobreviventes, os Aldeamentos encarregaram-se de roubar-lhes a identidade para todo o sempre.

CAINGANGUES

Quase toda a imensa área entre os rios Tietê e Paranapanema, desde as nascentes do Feio [Aguapeí] e do Peixe, às barrancas do Paraná, dominava os Caingangues, ameaçadores à presença do branco invasor de seus domínios, também intolerantes com outros índios da região, e, às vezes belicosos até com suas próprias gentes de outras tabas.

De acordo com pesquisadores citados por José Jorge Junior e autores regionais (1), os Caingangues atrasaram em muito a ocupação do oeste paulista (2), tendo notícias que até por volta de 1911/12 ainda aconteceram ataques contra os brancos (3) e os revides não menos sangrentos, nalgumas das mais dramáticas batalhas entre índios e brancos, que se têm notícias na história paulista.

Descendentes dos pioneiros e geração seguinte diziam que os Caingangues não se deixavam capturar e nem morrer sem lutar, sempre resistindo sozinhos os ataques do homem branco, nunca a se por sob guardas ou proteções jesuíticas, como o fizeram as demais nações indígenas da região, os Oitis e Ofaiês [xavantes] e os Caiuás [tupi-guaranis].

  • Os Caingangues ainda que indiferentes e hostis às pregações cristãs, procuraram pelas reduções jesuíticas, numa estratégia política momentânea, ou instinto de sobrevivência, para se livrar dos invasores paulistas ou do trabalho escravo aos castelhanos – as encomiendas, inclusive associando-se com etnias inimigas, dos Guaranis, para enfrentamento ao branco preador (4).

Pelo domínio Caingangue quase absoluto das regiões ocupadas em princípios do século XIX, portanto pouco antes da chegada dos pioneiros, a história deste povo tornou-se de interesse para os estudiosos em melhor conhece-lo, desde sua origem, tradições, usos e costumes, aos seus gestos heróico-suicidas em enfrentar, com bordunas, arcos e flechas, o branco invasor que vinha munido sempre de armas de fogo, numa luta bastante desigual, “terminada sempre com a vitória dos atacantes” (5).

De procedência discutível, exceto naquilo que os apontam por subgrupo da família ingüística Jê, tronco Macro-Jê, com seis dialetos compreendidos entre si, José Jorge Junior confirma que são “(...) bem controvertidas as teorias levantadas quanto a origem dos Caingangues, também conhecidos por Coroados”.

  • “A história do contato entre os Kaingang e os colonizadores europeus teve início ainda no século XVI, quando alguns grupos que viviam mais próximos ao litoral atlântico tiveram contatos com os primeiros portugueses. No entanto, os registros históricos dessa época não especificam com segurança aqueles grupos que [se] eram os ancestrais dos atuais Kaingang” (6).

Para José Jorge Junior, alguns estudiosos pretendem os Caingangues por remanescentes dos antigos Guaianás, do planalto Piratininga [São Paulo] que, num encontro em 1531 ficaram meses sitiados dentro de uma taba principal, sendo praticamente dizimados não só pelas armas e aprisionamentos daqueles que tentavam furar o cerco, como pelas doenças contagiosas que os portugueses lhes fizeram chegar, por alguns dos elementos da própria tribo, individualmente capturados e contaminados antes de libertados, exatamente com o propósito de extermínio biológico ou de devastação em massa, certamente naquilo que diz Gilson Bicudo, em seu Resumo Histórico de Botucatu, do contato europeu com os índios do planalto como a “primeira guerra biológica de devastação em massa”.

Outros pesquisadores opinam que do encontro e união dos debandados Guaianás, com os destroços de antigas tribos como os Comés, Dorins, Votorões e os Quilombolas, surgiram os Caingangues, com o que justificam aqueles entendidos, a pouca inteligência, a deslealdade e sua extrema ferocidade. José Jorge Junior em publicação de 12/03/1969 cita as tais tribos e informa dos encontros pressupostos, mas não os endossa.

Algumas opiniões dão os Caingangues como oriundos das margens do rio Uruguai, expulsos da tribo original por alguma dissidência bastante grave, de onde saíram os piores elementos os quais, entrando pelo Paraná, levaram de vencida os Caiuás e atingiram o estado de São Paulo.

A maioria dos autores entende que os Caingangues chegaram à região paulista, entre os rios do Peixe e Paranapanema, não antes do ano 1800, no entanto pressupondo-os de diferentes regiões, pelos dialetos apresentados, aumentam ainda mais o mistério migratório: porque habitantes de locais diversos e distantes convergiram para um mesmo lugar numa mesma época? 

A significação do nome Caingangue, apesar de tantas divergências, desde o tipo de corte do cabelo que se assemelha ao dos frades franciscanos, daí serem conhecidos também por Coroados, quanto a justificativas filológicas com significados de <Caing para mato e Ang para gente>, então gente do mato, enquanto o estudioso Luiz Bueno Horta Barbosa, citado por José Jorge Junior, afirma que os Caingangues só ficaram conhecendo esta denominação depois de ouvi-la dos brancos.

Não é errado, para José Jorge Junior, acreditar que Caingangue seja o designativo Xavante “Caingué” – o mesmo que parente, para se referir a um igualmente índio ainda que de outra tribo ou nação, talvez apenas coincidente que Xavante e Caingangue sejam aparentados, ou seja, de um mesmo tronco lingüístico familiar.

Os Caingangues viviam em ranchos, um maior ao centro cercado por outros dez ou doze menores, com população de trinta a cem pessoas, naquilo que se pode denominar aldeia, tendo em volta área livre para plantações em épocas possíveis.

A moradia maior media uns dez metros de frente por três ou quatro de fundos, para o líder tribal, enquanto as moradias menores tinham seis metros de largura por dois de fundos, quase sempre destinadas a outros líderes e às famílias com crianças. Para táticas de guerras contra os invasores brancos, construíam ranchos isolados [um, dois ou três] e neles colocavam seus doentes, feridos e velhos – raramente mulheres e crianças, enquanto ficavam escondidos nos arredores aguardando o ataque inimigo. 

Por entre a roçada, diversos caminhos conduziam rápido até aldeias em torno, cinco, dez ou mais delas, a depender do número de famílias, quase nunca além dos cem metros de distância uma da outra, que unidas formavam uma tribo. Eram ranchos com cobertura de um só plano, sendo em geral habitados pelos guerreiros.

Também esses ranchos estavam cercados por clareiras protegidas por troncos de madeiras e trincheiras estrategicamente postas, algumas camufladas como verdadeiras armadilhas. Eram mestres em apagar rastros e ocultar seus caminhos mediante presença inimiga.

O mobiliário consistia apenas em alguns pedaços de paus, um maior a unir teto e chão para pendurar tralhas, e outros menores e deitados que serviam de travesseiros ou bancos, todos destinados ao rancho maior [do cacique]. Fora da cobertura, mantinham fogo aceso para aquecimento e defesa contra peçonhentos. Os Caingangues dormiam sobre folhas espalhadas ao chão.

Os utensílios eram apenas os necessários: para o preparo culinário, numa trempe sobre o fogo, panelas de barro de um a dez litros; faziam machados de pedra para derrubar árvores; trabalhavam as flechas, arcos e lanças feitos em madeira; em ossos confeccionavam as facas, pontas de lanças e flechas, algumas de pedras lascadas e outras tantas pontas de ferro ou aço, conseguidas dos brancos por furtos e despojos.

As pontas de flechas e lanças podiam ser simples, duplas, tríplices ou quadridentadas. Algumas simples tinham fisgas e outras um pedaço roliço de madeira, próprias para caça de aves. .

Sua melhor indústria era a da guerra, com arcos de dois metros e setenta de comprimento, biconóide, resistente e bem trabalhado com encastoados de guembê nas extremidades. Para atirar flechas com arcos tão grandes, alguns guerreiros deitavam de costas e com os pés esticavam seus arcos para maior eficiência e força dos lançamentos.

Os tamanhos das lanças curtas de arremesso variavam, de cinco a vinte centímetros de comprimento, sendo algumas das azagaias maiores que sessenta centímetros.  As flechas geralmente eram uniformes em tamanho e quase sempre do comprimento do arco, feitas de duas peças, uma de madeira maciça unidas por guembê, outra de cana amarela com duas penas de ave na extremidade, que parecia melhor auxiliar na direção desejada.

Trabalhavam a cerâmica sem preocupações de arte, seus vasilhames sempre tinham uma só forma, embora de tamanhos variáveis para utilidades também diferentes, como armazenagem de água e mel. Vasilhames de algumas tribos apresentavam colorações diferentes, vermelha, pardacenta, preta e amarela, como a sugerir para qual utilidade, como a preta que era para ser levada ao fogo; também foram vistas algumas cerâmicas com desenhos de traços retos, quase propositadamente apagados.

Os Caingangues abandonavam seus ranchos, temporária ou definitivamente, quando obrigados a migrações, fazendo pelos caminhos pequenas choças, sempre próximas: “a uma arvore, cravam no solo uma vara de qua­tro a cinco metros de comprimento e por meio de um cipó amarram fortemente a uma arvore obrigando a vara a fazer uma curva em forma approximada á de um n. No alinhamento da arvore e da vara assim curvada, cravam distante dessa outra vara que por sua vez é tambem encurvada e amarrada na parte superior da curva antecedente. A esta succede outra e assim por diante. Sobre as varas assim dis­postas é estendida a cobertura, mas de um lado só, ficando outro inteiramente aberto para dar accesso ao interior das choças que são separadas entre si por meio de um anteparo do mesmo material que o da cobertura, geralmente feita de palhas de co­queiro ou de cascas de madeiras” (7).  

Esses índios viviam sob a direção de um cacique posto por hereditariedade, mas com poderes limitados, estando mais para as funções de conselheiro que chefe tribal, obrigado a trabalhar igualmente aos demais índios para a sustentação familiar. 

Cada arranchamento tinha um líder guerreiro, tipo chefe de aldeia, um deles, quase que regra, seria filho do cacique.

A autoridade do cacique Caingangue podia ser posta em dúvida e ser ele destituído das funções, passando o cargo a seu filho primeiro, desde que este demonstrasse qualidades para tal exercício. Não havendo herdeiro presumível escolhia-se outro de qualquer família, o mais forte ou o mais velho; nenhum pesquisador parece ter identificado alguma mulher no exercício de líder de tribo ou chefe de aldeia.

Não tinham juízos do bem e do mal referente às condutas ou comportamentos individuais, sendo que ocupantes de cargos distribuídos como pajelança, vigia de campo, responsável religioso ou chefe de aldeia, se mantinham a custa de constantes agrados e presentes aos membros da tribo que podiam sustentá-lo nas funções. O próprio cacique era subornador, naquilo que informa José Jorge Junior, quando, porém, a comunidade sentia-se ameaçada, ou durante as festas, ou alguma necessidade tribal, o cacique ou qualquer um que desempenhasse atividades delegadas, eram plenamente respeitados de modo absoluto.

Um homem podia ter uma ou duas mulheres, desde que as pudesse sustentar com seus esforços, e não podia repudiar nenhuma delas, a qualquer pretexto, exceto infertilidade.

O jovem para se casar tinha antes que adquirir condições para garantir a própria subsistência e a da nubente, que lhe era prometida na passagem puberdade, numa cerimônia religiosa e festiva, marcada pelos pais, que podiam aceitar ou recusar a proposta, sem ressentimentos.

O casamento significava uma festa religiosa enquanto o noivo ficava em um quarto, deitado, onde a mulher era levada por um parente e para o casal nisso reduzia-se o cerimonial, para família continuavam ritos e festas até o amanhecer.

O casamento sem filhos era instável, e a mulher ou o homem podia ser liberado do compromisso, ou mesmo o homem praticar a bigamia e caso continuasse o lar sem filhos, lhe era proibido outro casamento, e as mulheres liberadas para um novo enlace.

A mulher dava a luz sozinha, na mata e próximo de águas [rios], vigiadas de longe por pessoas da tribo, geralmente parentes, que não podiam vê-la, e a sós ela tinha o filho.

Ao primeiro choro da criança, um dos vigilantes corria ao encontro da mãe e filho para, suspender a criança nos braços e ela dar o primeiro nome. Aos sete anos a criança recebia o segundo nome num cerimonial, e daí em diante viria receber outros tantos nomes inspirados em seus feitos, um substituído por outro mais recente, permanecendo inalterados apenas os dois primeiros.

Tinham tabus contra casamentos em família, não se permitindo uniões entre pais e filhas, filhos e mães, de tios [as] com sobrinhos [as], entre irmãos ou mesmo primos.

Tinham rígida lei civil, punindo com proporcionalidade os crimes, após julgamento por um conselho, sendo mortos quem ousasse quebras de tabus, quem cometesse crime de traição à tribo, ou casos de rebelião.

Se algum membro da tribo viesse ser capturado, por brancos ou inimigos índios, seus companheiros tinham determinado prazo para tentar liberta-lo, caso não conseguisse procuravam mata-lo e, ainda assim, não logrando êxito, o próprio indivíduo devia praticar suicídio, pois que era desonra trabalhar para quem não fosse da mesma tribo.

Consideravam inimigos os companheiros que se deixavam civilizar. Dez famílias Caingangues moradoras numa das fazendas do Coronel Francisco Sanches de Figueiredo – certamente mantidas a força, fugiram dali, proximidades da atual cidade de Palmital, por se sentirem ameaçadas de morte por elementos do mesmo grupo, que já rondavam as imediações. Foram proteger-se no Bairro da Aldeia, dentro da Fazenda denominada São Matheus, região de Paraguaçu Paulista, onde tempos depois foram mortas e tiveram seus ranchos e roçados incendiados (8)

Não deixavam vivos seus inimigos capturados, e desenvolveram estranho rito de crucificar inimigos brancos, constante do relatório de Urias Nogueira de Barros ao imperador D. Pedro II, que fala da morte do mineiro João de Deus. Donato faz referência ao relatório Urias e também confirma que o Capitão Inácio Apiaí, por volta de 1853 foi crucificado por índios, próximo de sua casa na fazenda Rio Claro (9).

Quase sempre os Caingangues atacavam locais isolados, raramente povoados, sendo muitas narrativas de ataques bárbaros aos brancos, matando-os a tacape, por esquartejamentos, amputações dos membros com a vitima ainda viva. Às vezes praticavam degolas e empalações.
Nos anos 1960/70 os antigos – descendentes de pioneiros, ainda contavam que os Coroados matavam brancos e roubavam tudo que lhes viessem interessar, tendo certa fascinação por botas que, não sabendo retira-las ou na pressa da evasão, cortava as pernas e levavam para a aldeia (10). Diziam, ainda, que carregavam braços e pernas amputados dos brancos para que lhes servissem de alimento, e também se serviam das carnes de cães e gatos roubados das propriedades dos pioneiros.

David Emanuel Madeira Davim, no entanto, ao mencionar o estudioso Carlos Teschauer, conclui que os índios Caingangues não se valiam da antropofagia para com os seus prisioneiros de guerra (11); por outro lado era certo que os indígenas matavam os cães porque estes lhes denunciavam as presenças, alertando seus donos, mas nenhum registro quanto ao consumo de carne canina ou mesmo do gato doméstico.

De religião própria mantinham o culto aos mortos familiares ou heróis de tribos, e tinham espécie de adoração ao fogo como entidade maior, embora raramente produzisse o fogo pelo atrito de madeira seca, pois que o mesmo era mantido aceso por mulheres guardiãs e por elas transportado durante as viagens, quase sempre com certo ritual.

A morte era encarada como realidade irreversível e com isso a serenidade diante dela. Tinham entendimento de algum elemento a animar a vida e de seu retorno após morte, mais ou menos próxima à crença guarani na reencarnação (12), ou alguma noção da metempsicose para outras tribos, doutrina segundo a qual uma mesma alma podia animar sucessivamente corpos diversos, homens ou animais, às vezes a pretender que esse tal elemento pudesse estar ao mesmo tempo no humano e no animal.

O velório era mantido sob cantoria e sons de maracás e os ouvidos do morto soprado constantemente pelos companheiros que o rodeavam de cócoras. Um estranho encaminhamento do finado ao local de sepultamento, fazia-se dobrando suas pernas junto ao ventre para assim transporta-lo amarrado dorso a dorso ao seu carregador. A cova era rasa, com enchimento de folhas de palmáceas, depois levantavam um morro mais ou menos de oito por três metros.

  • Diferentemente dos Jês Caingangues, os Tupi-Guaranis enterravam seus mortos em covas profundas, com todas suas armas, geralmente postas em urnas de barro, em posições fetais, pernas dobradas juntas ao tórax. 

O guerreiro era sepultado com suas armas, objetos de uso pessoal e os presentes especiais, sendo incinerados seus demais bens, inclusive os seus animais, enquanto a viúva isolava-se na mata por determinado período de tempo, quando não olhava nem era vista por ninguém, sob pena de doenças ou morte daquele que viesse violar as regras. Findo o recolhimento, a mulher era liberada para novo casamento.

O homem Caingangue andava nu, às vezes um cordão colorido preso à cintura, talvez em sinal de distinção tribal, enquanto a mulher usava uma tanga presa à cintura e que chegava aos joelhos, feitas de fibras vegetais com certa preferência de gravatá [caraguatá]. Também faziam esteiras de fibras de urtigas ou de gravatá.

Trabalhavam a taquara fazendo balaios, jacás, covos e talas para usos diversos inclusive para imobilizar partes de membros ou auxiliar cura de ossos fraturados. Algumas tribos faziam verdadeiras obras de artes em taquara com cascas de certas espécies de cipó, como o guembê.

Antigos relatos dão conta do costume Caingangue em alimentar o tapir, como forma de arrebanhamento para fins de provisões de carne, leite e pele. Tinham, também por costume, dar ao animal seu alimento preferido, o "ûyólo nya tëí", de cujas sumidades também se faziam chás para banhos e ingestões em cerimoniais representativos, certamente por considerar referido animal uma dádiva dos deuses (13).

O OCASO DE UM POVO GUERREIRO

Nos últimos anos do século XIX já não havia índios selvagens no Planalto Ocidental Paulista senão os Caingangues, contra quem as lutas tornaram-se extremamente violentas e as dadas mais sangrentas, em disputa de vasto território de 35 mil quilômetros quadrados, 15 mil do Vale do Peixe e 12 do Feio/Aguapeí, ainda ocupados por tribos daquela nação. Outros oito mil quilômetros quadrados, no Vale do Batalha e Baixo Tietê após a Serra de Agudos, nas denominadas Terras de Lençóis até o Avanhandava e Itapura, também eram territórios Caingangue em disputa com os brancos.

A dinâmica expansionista do capital não admitia oposição aos avanços da nova ordem, ou seja, o empreendimento econômico, sistematizado nas ocupações e incorporações de terras indígenas restantes a favor dos fazendeiros [café, algodão, pecuária e povoações], das empresas [ferroviária, navegação e rodoviária] e dos núcleos habitacionais. A tomada de terras Caingangues representava, portanto, a ampliação e consolidação deste espaço sócio mercantil necessário.

  • As frentes de expansão em atenções aos interesses econômicos do governo, dos fazendeiros e das empresas de colonização, invadiram, tomaram e entregaram terras indígenas para o capitalismo, não importando o extermínio de tantos povos indígenas.

Em meados do mesmo século XIX outros grupos indígenas já haviam sido exterminados pelos entradistas, a serviço de José Theodoro de Souza, e dos primeiros desbravadores, não tardando Campos Novos Paulista tornar-se a principal base de apoio logístico para a conquista do Vale Paranapanema em direção ao rio Paraná. A resistência Caiuá fora quebrada entre 1850/58 com extermínio quase total, depois a dos Xavantes entre 1870/1880, também com exterminação, e a partir de 1886 chegava enfim a vez e hora dos Caingangues se defrontarem mais diretamente com o homem branco, embora desde 1858 ocorridos alguns combates, nos avanços pioneiros a noroeste de Campos Novos e em regiões de Bauru.

Concluída a etapa Vale Paranapanema e opondo-se os Caingangues ao avanço das frentes de ocupação, também de Campos Novos partiram os primeiros caçadores e assassinos de índios, rumo ao Vale do Peixe, para tomar-lhes as terras e entrega-las aos empreendedores e grileiros. Uma segunda base de apoio ou sentinela avançada se fez erguer em Espírito Santo da Fortaleza, depois transferida para Bauru, de onde partiram outras expedições de conquistas rumo ao Vale Feio/Aguapeí e partes do Peixe. 

A despeito da Lei da Terra [1850], o avanço branco contava com o beneplácito do governo paulista e sua flexibilidade fundamentada em ordens régias, tolerantes e liberais, a exemplo da Legalização da Guerra ao Índio e sua Escravização, pela Carta Régia de 05 de novembro de 1808, dirigida ao Governo da Província de São Paulo: ”Que não há meio algum de civilizar povos bárbaros, senão ligando-os a uma escola severa, que por alguns anos os force a deixar e esquecer-se da sua natural rudeza, e lhes faça conhecer os bens da sociedade (...). Que todo miliciano, ou qualquer morador, que segurar alguns destes índios, poderá considerá-los por quinze anos como prisioneiros de guerra, destinando-os aos serviços que mais lhes convier” (14).

  • Considerados bárbaros e rebeldes aos Aldeamentos, o recontro entre brancos e Caingangues foi mesmo bastante complicado, sempre o mais violento possível, com investidas dos pioneiros e o revide dos índios que, às vezes, atacavam antes, quando então elegidas as localidades de Campos Novos e Espírito Santo de Fortaleza, depois Bauru, por sentinelas avançadas para sediar e organizar grupos armados dirigidos contra aldeias dos Coroados.

Houve um freamento nos ataques aos índios, desde o massacre a uma aldeia Caingangue promovido por Felicíssimo Antônio de Souza Pereira, em 1858, na região de Bauru, com repercussão na imprensa e meio político de toda província e Corte Imperial. Contudo, a despeito da veemente censura e indignação nacional, se fez prevalecer os interesses dos desbravadores interessados em proteger “localidades ocupadas por gente civilizada, laboriosa e útil ao país”, fazendo o governo da Província de São Paulo “autorizar a formação de bandeiras com todo aparato característico das similares do período colonial e com recomendações adicionais da Diretoria Geral dos Índios, sugerindo a retirada dos naturais... ‘para lugares longínquos (...) além do Paraná e neste caso destruindo os seus alojamentos para que não possam regressar a eles’ (...)“ (15).

No ano de 1862 grupos Caingangues são vistos nas regiões do rio Pardo, Alambari e Batalha [Bauru], e a eles dando combate o sertanista José Theodoro de Souza na região do rio Batalha (16)

A rotina de conquistas e avanços em território Caingangue recomeçou em 1878, com a organização dos invasores contratando os bugreiros, ou a se valer de certos fazendeiros especializados também como bugreiros iniciados nas dadas, ou jagunços premiados por feitos assassinos [fugitivos da justiça] a favor de patrões, uns tidos por heróis da Guerra do Paraguai, portanto homens experimentados em batalhas, outros vindo dos remanescentes pioneiros outrora chefes de bandos, em Minas Gerais ou Rio de Janeiro, todos igualmente provados em atacar e matar oponentes sem lhes dar oportunidades de defesas.

Na década de 1880 recrudesce o massacre contra a população Caingangue, com avanço colonizador e das frentes de ocupação territorial, quando o Governo da Província decide abrir caminhos por entre terras indígenas; como podiam, os Caingangues revidam ataques aos brancos, numa luta bastante desigual e que os tornava mais enfraquecidos, carentes de gentes e armamentos.

Já ao final da década e do século XIX, 1898, poucos Caingangues ainda viviam nas matas, acossados pelas frentes de expansão que já conquistara grandes partes dos seus territórios diminuindo-lhes espaços para caças, pescas e coletas, além da impossibilidade de roçados quase sempre destruídos pelos atacantes. Estava em curso, através das dadas, um dos maiores etnocídios da história paulista.

O jornalista Mauricio Castelo Branco entende que “A omissão do Estado e da imprensa na época foi fatal para os Kaingang. Desde a Proclamação da República, a Igreja estava afastada do processo de pacificação. O governo, por sua vez, não havia criado mecanismos próprios para substituí-la nesta missão. E o pior: fez vistas grossas ao genocídio. Os principais jornais paulistas limitavam-se a noticiar os poucos relatos que chegavam à redação sobre ataques contra os Kaingang, ainda assim de forma resumida e evasiva. A imprensa era pautada pela visão hegemônica e eurocentrista de progresso - a base da justificativa para a carnificina”. (17).

Três anos depois, em 1901, os Caingangues ainda se defendiam dos constantes ataques dos grupos armados a serviço das frentes expansionistas. Neste ano entra em defesa do índio o capuchinho Claro Monteiro do Amaral, já de reconhecida experiência – pelos seus pares, no fracassado aldeamento de Campos Novos Paulista [1888], vindo juntar-se ao Padre Bernardino de Lavalle para implantação de nova catequese “(...) próximo as cabeceiras do Ribeirão Veado, na raiz da Serra do Mirante (...)” (18), imediações da atual Echaporã – proximidades do rio do Peixe.

Padre Claro e o Padre Lavalle sensibilizaram autoridades e outros setores da sociedade paulista a favor dos Caingangues, para que fossem suspensas as invasões territoriais enquanto se discutia meios de pacificações através da Catequese da Serra do Mirante, outras em pontos estratégicos, e destinação de amplo território para confinar os índios, aí se visualizando uma faixa de terras à esquerda do Tietê (19), certamente adiante de Avanhandava e Itapura, obviamente contrariando interesses dos empreendedores capitalistas e dos grileiros de terras.   

Padre Claro foi morto, no rio Feio, pelos próprios índios que tentara salvar da dizimação, sendo sua morte pretexto para recomeçar os ataques aos Caingangues e terríveis carnificinas, nada obstante os protestos de Padre Lavalle.

Entre 1907/1912 os Caingangues já não se apresentavam mais como unidade tribal, posto fracionado em grupos nômades independentes, ainda num imenso espaço territorial. Aparentemente a fragmentação foi decorrente de estratégia dos brancos em isolar grupos e assim enfraquece-los, com resultado desastroso, pois que os Caingangues tornaram-se muito mais perigosos, agindo cada grupo isoladamente, com extrema mobilidade e grande capacidade de atacar de surpresa em diversas frentes contra os inimigos regularmente ordenados.

De 1908 a 1911 as frentes de ocupação não mais conseguiam progredir dentro do território Caingangue, os trilhos da estrada de ferro não avançavam, os ataques indígenas se tornaram cada vez mais freqüentes e eficientes – muitas perdas de vidas, e os prejuízos eram enormes. Diante as dificuldades os empreendedores optaram negociar, também em atenção às insistentes pressões de grupos intelectuais, políticos e militares, a culminar com o governo federal criando naquele mesmo ano o Serviço de Proteção ao Índio (SPI), sob direção do então Coronel Candido Rondon, com a missão de evitar mais chacinas e apaziguar os Kaingang (20); ainda assim, no período, morreram aproximadamente quinhentos Caingangues (21).

Para maior eficácia de ação o SPI buscou grupos Caingangues pacificados da bacia do Tibagi e línguas – linguarás ou intérpretes, para ajudar nos contatos em 1912, destacando-se a célebre índia Vanuire, a maior colaboradora na pacificação dos Caingangues paulistas, dirigindo-se diretamente aos grupos indígenas espalhados, ou, da copa de grandes árvores gritando-lhes pedido de paz (22). Horta Barboza registra que metade dos Kaingang paulistas morreu de uma epidemia de gripe logo após os primeiros contatos entre 1912 e 1913 (23), restando “do contingente estimado em 4 mil (...) apenas 700” (24).

Os sobreviventes Caingangues foram reduzidos em Icatu, hoje pertencente ao município de Braúna, próximo de Araçatuba, e depois o Índia Vanuire [1917] em Arco Íris, vizinhanças de Tupã – SP. Os índios aldeados em Índia Vanuire não foram apenas os sobreviventes de grupos paulistas, e nem puramente Caingangues (25), agora atacados por outros inimigos não menos impiedosos: doenças, como gripe espanhola e sarampo, contra as quais não tinham imunidade. “Em 1916 estavam reduzidos a 173” (26).

  • “Os índios Kaingang paulistas chegam ao século XXI reduzidos a menos de duas centenas de indivíduos confinados em espaços bem restritos” (27).

A estratégia que garantiu a eficácia da conquista final do território Caingangue, sem dúvidas foi a de treinar e transformar grupos aldeados em intermediários a serviço dos conquistadores. Talvez, sem essa intermediação, nenhum grupo Caingangue paulista sobreviveria o extermínio total movido pelos brancos.

ESTADO TEOCRÁTICO INDEPENDENTE DO GUAYRÁ [GUAIRÁ]

Por volta de 1588, quando alguns padres jesuítas como Manuel Ortega, Juan Saloni e Thomas Fields, em seus primeiros contatos com os nativos na região norte e noroeste do atual estado do Paraná, “informaram aos seus superiores a existência de milhares de índios guaranis na região, bem como reconheceram uma série de peculiaridades culturais, sociais e políticas que seriam úteis alguns anos depois” (1). Pensava-se, originariamente, em comunas religiosas sujeitas à coroa espanhola, porém com vida e direção espiritual ajustada conforme mandamentos eclesiásticos. 

O local interessado chamava-se Província Del Guayrá, criado e iniciado povoamento pelo rei de Espanha no ano de 1550, como medida estratégica para conter as investidas portuguesas além Tordesilhas. Os padres não desconheciam a região desde 1576, quando presentes com patrulhas militares espanholas em missões de reconhecimentos nos rios Iguaçu, Piqueri, Paranapanema e Tibagi onde fundaram povoados, denominados reduções, com finalidades de atrair, catequizar e educar índios para o trabalho. Consta, por Reinhard Maack, que “já em 1578-1579 foram radicados, só no distrito de Vila Rica [do Espírito Santo], 200 mil guaranis” (2).

À Santa Sé importava desde logo não só expandir o catolicismo, abalado pela reforma protestante na Europa, como também organizar um estado teocrático em terras americanas, vista viabilidades então experimentadas nas reduções jesuíticas no Guayrá, onde o indígena livre não apenas entregava suas terras e riquezas à administração dos padres, como também capaz de produzir lucros e geração de impostos.

Há certa relutância em dizer livre o índio forçosamente reduzido, ou obrigado a se auto-reduzir para não cair em mãos de escravocratas. Padre Montoya justificou a ação jesuítica ao afirmar que "(...) “às reduções chamamos aos povoados dos índios, que vivendo à sua antiga usança, em matos, serras e vales, em escondidos arroios, em três, quatro ou seis casas apenas, separados uma, duas, três e mais léguas uns de outros, os reduziu a diligência dos padres a povoações grandes e a vida política e humana, a beneficiar algodão com que se vistam, porque comumente viviam em nudez, ainda sem cobrir o que a natureza ocultava” (3).

Se bastante claras as pretensões da Igreja, nunca esteve bem certo o objetivo da coroa espanhola em atender as pretensões jesuíticas de um estado independente na Província de Guairá, mas entendem os especialistas que o principal objetivo seria conter Portugal de avançar suas posições, com a fixação seus homens em terras o mais distante possível e nelas impor sua cultura, falar seu idioma, enfim, sabidamente entendido jamais Portugal e Espanha um só reino, como estavam, nem suas colônias uma só dominação.

Nestes considerandos, em 1608 o rei espanhol entregou aos jesuítas toda a Província do Guairá, abrangendo partes da região norte e todo noroeste do atual estado do Paraná, sendo esse o início das atividades político-religiosas, onde “os conquistadores passaram a veicular os elementos básicos da sua cultura através dos padres jesuítas” (4).

Guairá jamais se tornou um estado independente, devendo obediência direta ao rei de Espanha e lhe pagar impostos, mas foram evidentes as pretensões jesuíticas de emancipação até pela rapidez com que os padres fundaram as primeiras reduções, com os índios, junto aos vales dos rios Paranapanema, Ivai, Corumbataí, Piqueri, Iguaçu, Tibagi e Ribeira, deixando fortes suspeições históricas que a Companhia de Jesus já vinha agindo anos antes, a partir dos núcleos oficiais espanhóis de Ontiveros, Real Ciudad Del Guayrá, e Vila Rica Del Espiricto Santo, já existentes desde 1554 conforme Bruno Giovannetti (5).

  • Para Reinhard, Ontiveros foi a primeira colônia espanhola no Alto Paraná [1554], a oeste do rio Paraná defronte a barra do Piqueri, desativada quando à margem sul da foz do Piqueri, fundou-se, em 1557, a redução que se tornou Ciudad Real Del Guayrá, nome que se estendeu para toda região entre os rios Paranapanema e Uruguai – a Província Del Guayrá. No ano de 1576 fundou-se Vila Rica Del Espiricto Santo, às margens do rio Ivai nas proximidades da foz do Corumbataí (6)

Portanto, pelo menos desde 1608 já existiam algumas reduções jesuíticas na Província de Guairá como cidades feitas, vindas outras a seguir, todas assinaladas no célebre mapa espanhol ‘Paraquaria’ [1646/1649]:

  1. Vale do Tibagi: São José, São Francisco Xavier, Encarnación e São Miguel.
  2. Às margens do rio Ivaí: Jesus Maria, Santo Antônio e São Paulo.
  3. Rio Corumbataí: São Tomas e a dos Sete Arcanjos.
  4. Nas cabeceiras do rio Piquiri: São Pedro e Concepção.
  5. No médio Piquiri: Nossa Senhora de Copacabana.
  6. Rio Paranapanema: Nossa Senhora do Loreto, Santo Inácio e São Tomé [à barra do Tibagi], todos à margem esquerda, enquanto do lado paulista, margem direita, São Pedro nas proximidades de Santo Inácio e Loreto (7).

Antonio de Arruda Dantas cita fixação jesuítica em terras hoje paulistas (8), na mesma época de Santo Inácio e Loreto, onde foram encontradas ruínas d’uma redução que, diz Bruno Giovannetti, chamava-se São Pedro. A redução São Pedro paulista foi transferida, posteriormente, para as cabeceiras do rio Piqueri, porque a Província del Guayrá, conforme concessão real, tinha por divisa natural o rio Paranapanema e não era de bom sentido desrespeita-la. Não é improvável tratar-se a São Pedro do Piqueri de localidade homônima, ou que tenha sido povoação levantada após destruição da primeira São Pedro, todavia faltam-nos documentos para posição final.

As reduções de Santo Inácio e Nossa Senhora Loreto são vistas, por muitos estudiosos, como modelos das demais missões jesuíticas fundadas entre 1610 a 1625 às margens daqueles rios, para depois adentrarem os atuais estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, num ritmo bastante avançado e crescente de ocupações, evidente pretensão de se estabelecer um estado teocrático expansionista, idealizado pelos jesuítas.

  • J. Capistrano de Abreu (9) informa que em 1610 já se contavam onze reduções nas proximidades dos rios Tibagi, Ivaí, Corumbataí e Iguaçu, mais outros dez assentamentos entre os rios Ijuí e Ibicuí, seis no território do Tape, Rio Grande do Sul, às margens de rios afluentes da Lagoa dos Patos, enquanto no rio Pardo já próximo o Atlântico se levantavam as missões de San Cristóbal e Jesús Maria, esta em época posterior e vinda de outra redução com mesmo nome no Guairá. José Jorge Junior refere-se a outras – não as nomeou nem as enumerou, apenas disse “muitas” reduções nas vertentes do rio Ribeira, Iguaçu e Iaví, na região hoje curitibana (10).

As facilidades de comunicações e transportes entre as Reduções Jesuíticas eram bastante eficientes pelos muitos caminhos fluviais e terrestres – alguns destes unindo rios e outros destinos por terra, bastante conhecidos e assinalados em antigos mapas jesuíticos e espanhóis. Francisco Silva Noelli e Lúcio Tadeu Mota descrevem que “A comunicação das Reduções das margens do Paranapanema com as localizadas ao sul na região dos rios Corumbatai e Ivaí, ou vice-versa, podiam ser feitas subindo o rio Pirapó, até os ribeirões Maringá-Mandacaru, Morangueira ou Sarandi, e por estes chegar até o platô onde está Maringá, para descer pelos córregos Borba Gato, Cleópatra e Mascado até o ribeirão Pingüim e por este até o rio Ivaí, em direção à cidade espanhola de Vila Rica do Espirito Santo ou às Reduções do Ivaí e Corumbataí. Uma outra rota possível seria subir o rio Pirapó até suas cabeceiras no rio Dourados, até alcançar o platô onde está Mandaguari e descer pelo rio Keller até o Ivaí. Com toda certeza essas rotas eram conhecidas e utilizadas pelos índios e delas se aproveitaram os padres jesuítas nas suas andanças e pregações nas aldeias da região” (11).

Assinala José Jorge Junior que Santo Inácio e Loreto, como prósperas comunas jesuíticas, se sustentavam das produções agro-pecuárias, de comércios e manufaturas, e nelas haviam escolas e eram ensinadas as artes de ofícios e profissões, como pedreiros, carpinteiros, oleiros, tecelões, professores e artesãos. Possuíam grandes lavouras de milho, arroz, feijão, mandioca, frutas e leguminosas, além do cultivo do algodão com que faziam seus vestidos (12).

José Jorge teve mais a relatar que “além das roças de cada família, havia as coletivas, cujo produto era armazenado para atender a necessidade de todos”, sem dificuldades para entendimento de comércio interno e externo para os produtos excedentes; também eram prósperas em Santo Inácio e Loreto, as criações de gado bovino, suíno, caprino, ovino e galináceo.

Eram cidades planejadas, continua José Jorge Junior, divididas em quadras cujas ruas, umas e outras, davam para praças centrais, quadradas ou retangulares, situadas nos centros das povoações; nas praças se encontravam as casas dos padres, as escolas, as oficinas e as igrejas, de tal magnitude que próprio governador do Paraguai, Luiz Céspedes y Xeria, quando em visita àqueles povoados de Santo Inácio e Loreto, muito se impressionou com as “hermosissimas Iglesias, que no las visto mejores em las Índias que he corrido del Peru y Chile”. Suas casas eram compridas construções de taipa, cobertas de telhas, divididas em compartimentos de madeira, onde se alojavam as famílias.

Del Sampaio (13), colonizador espanhol que comandou uma expedição visitante às reduções Santo Inácio e Loreto, informa-nos que, igualmente outras reduções “(...) possuíam enormes plantações onde cultivavam o algodão com que faziam seus vestidos, além do milho e da mandioca com que se alimentavam. Os rebanhos de gado também haviam prosperado com rara felicidade." Sampaio descreve-nos aquelas reduções “(...) divididas em quadras que umas davam para a praça, de forma quadrada ou retangular, situada no centro da povoação. Ali se encontravam as oficinas, as escolas, a casa dos padres, o cemitério, os depósitos e, próximo a eles, estavam localizadas as casas de taipa dos indígenas",

Para José Jorge Junior, que certamente fundamentou seus estudos em Del Sampaio, doze mil pessoas morava nas localidades de Loreto e Santo Inácio, em 1628, quando São Paulo – a título comparativo, tinha apenas dois mil e quinhentos habitantes.

A despeito dessa arquitetura quase uniforme para os primeiros centros urbanos jesuíticos, há que se observar o caráter incipiente das primeiras construções com suas paredes de taipa ou adobe, já cobertas depois por telhas de barro, com predomínio duma tecnologia mais próxima das construções Guaranis, frágeis tanto que “(...) praticamente não temos mais vestígios daquelas construções que não subsistiram aos incêndios e intempéries” (14).

Algumas outras localidades tinham base e paiol militar, hospital, asilos e nelas “fabricavam-se todos os instrumentos musicais, tão bem quanto na Europa, por exemplo. Imprimiam-se livros em plena selva, alguns até em alemão (...). Foi nessas reduções que se começou a industrializar o ferro e produzir os primeiros tecidos, e a se criar gado no continente” (15).

As povoações conhecidas por Reduções Jesuíticas, ou simplesmente Missões, apresentavam estrutura social, política e econômica à maneira das concepções de cidades-estados da antigüidade clássica, autogestoras e independentes (16), iguais apenas quanto o caráter catequético, exercício de governo a cargo de clérigos e o trabalho comunitário. Tais reduções não contavam apenas com missionários e índios, pois nelas se estabeleceram também grupos militares, justificados para conter o expansionismo territorial luso-brasílico de partes das terras espanholas não exploradas, entre os rios Paraná, Paranapanema, Tibagi e além Piqueri, tendo os índios por aliados numa troca mútua de defesa e proteção.

Reinhard relata-nos que desde o princípio formador das pretensões para algum estado teocrático, “Patrulhas militares espanholas e jesuítas começaram a subir os rios Iguaçu, Piqueri, Paranapanema [Paraquario] e Tibagi e fundaram povoados, denominados reduções, onde os índios das vastas regiões eram catequizados e educados para o trabalho” (17). Jesus Maria era uma cidade militar com quartel, campos de treinamentos e depósitos de armas, ao mesmo nível de Vila Rica do Espírito Santo, e as demais povoações também tinham sentinelas avançadas e se defendiam diante do agressor, como bem entenderam os preadores que, antes da bandeira de Raposo Tavares, “haviam tentado, sem êxito, apossar-se dos convertidos das reduções” (18).

A catequese jesuítica, portanto, jamais foi apenas traduzir orações cristãs do latim para a língua guarani, ou o ensino de ofícios e trabalhos da terra, nem nas belas construções ou em uma nova sociedade de apenas paz, pois que das arremetidas dos bandeirantes contra as reduções, nunca encontraram índios e padres indefesos e sim a bravura daqueles que defendiam e atacavam por seus interesses. “Incidem num juizo falso e absurdo, todos quantos suppõem que, nas suas arremettidas [dos bandeirantes] contra as reducções, fossem os bandeirantes encontrar, sempre, indios inoffensivos e missionarios inermes. Tanto isso não é verdade que, em innumeros documentos escriptos pelo punho dos proprios jesuitas, se constata, a todo passo, a bravura com que elles se defendiam e, muitas vezes, atacavam” (19).

Sob todos os aspectos, portanto, o desenvolvimento, a organização social, política, econômica e territorial de Guayrá apontavam para objetivos de um Estado Teocrático Independente, geográfica e estrategicamente intrometido dentro da esfera de interesses expansionistas de portugueses e espanhóis, situação que em nada interessava a nenhum dos dois povos. 

Foi assim que Manuel Preto e outros bandeirantes, além dos encomenderos castelhanos, todos rechaçados anteriormente de Guayrá, ou com êxitos parciais, insistiram invadir o Estado em formação, para lhe roubar os índios e destruir suas cidades. Preto, com maior empenho nos anos 1618 e 1623, até que em 1628, juntamente com o jovem Raposo Tavares veio montar um grande e bem preparado contingente para a guerra final, dividido em diversas frentes postas estacionadas, ameaçadoramente, diante das principais reduções, razões que teriam levado o Padre Cristóbal de Mendoza, da missão de São Miguel, perplexo a indagar das razões daquela guerra, para receber de Raposo Tavares a célebre histórica resposta: “Viemos aqui para expeli-los desta região inteira, porque esta terra é nossa e não do rei de Espanha” (20).

A interiorização tão distante seria, portanto, para dificultar invasões de sertanistas e desbravadores espanhóis e portugueses que buscavam índios pacificados e convertidos, como os melhores para a escravidão. Os apresadores optavam por índios pacificados e iniciados nas artes e ofícios pelo seu alto valor no mercado escravo.

RAPOSO TAVARES, O JUDEU QUE ODIAVA PADRES E CAÇAVA ÍNDIOS

De certos acontecimentos históricos polêmicos, se têm por paixões atribuir fatos e feitos a pessoas, grupos ou raças igualmente polêmicas, a partir de um único ou menor indício possível.

É o caso da História do Brasil, como num sentimento de aversão pela oficialidade, que muitos acreditam tenha ela sido um tanto diferente da didática imposta, que até daria uma obra paralela que poderia ser intitulada A História que a História não Conta.
Assim Pedro Álvares Cabral, teria vindo ao Brasil não acidentalmente ou apenas pela Coroa Portuguesa, mas a serviço de seu sogro o judeu Fernão de Loronha ou Fernão [Fernando] de Noronha (1), interessado em explorar o comércio do pau-brasil em terras portuguesas de alem mar.

Em 1501 o monopólio do pau-brasil foi mesmo arrendado a Fernão de Noronha, judeu ligado por interesses comerciais a outros capitalistas do mesmo grupo étnico, conforme historiadores. 

Óbvio que tão poucos dias no Brasil e apenas beira-mar, Cabral não teria tempo nem condições de um preciso relatório, mas ele veio para obter informações de degredados, segundo consta, judeus postos na Insula Brasil, um, dois ou mais anos antes, como Francisco de Chaves, João Ramalho, Diogo Álvares e Mestre Cosme Fernandes Pessoa, este ultimo que, não bastasse judeu também era maçom (2), um sério problema para a Igreja.

Se os primeiros párias portugueses no Brasil eram judeus, presumíveis que vieram degredados depois de alguma negociação para salvarem-se da Inquisição. Uuase todos os judeus portugueses não ricos, cristãos novos ou não, tiveram sérios problemas com a Inquisição promovida pela Igreja Católica e o Estado.

Antonio Raposo Tavares teria sido um deles. Nascido em Portugal em 1598, filho de Fernão Vieira Tavares e Francisca Pinheiro da Costa Bravo, órfão de mãe desde cedo, Maria da Costa tornou-se sua madrasta.

A História não diz oficialmente que Raposo Tavares era judeu, mas documentos seguros indicam que sua mãe e madrasta eram judias, portanto ele foi criado num ambiente onde certamente sentiu as dificuldades de ser judeu, as agruras do anti-semitismo, o preconceito racial, o temor da Inquisição e o estigma de assassino do filho de Deus.

O articulista Mário César Carvalho nota que a historiadora Anita Waingort Novinsky, professora de pós-graduação na USP, “reuniu documentos encontrados em Portugal segundo os quais Raposo Tavares teria razões religiosas para queimar igrejas: sua madrasta, Maria da Costa, foi presa pela Inquisição em 1618 sob a acusação de <judaísmo> e só saiu do cárcere seis anos depois” (3).

O mesmo Mário César ilustra que “Raposo Tavares foi criado até os 18 anos na casa da madrasta, uma cristã nova que seguia a tradição religiosa como <uma judia fervorosa>, na definição de Novinsky. A mãe de Raposo Tavares também era cristã nova”.

Mãe e madrasta em que pelo menos a ultima teve problemas com a Inquisição, evidente que se pode traçar um perfil psicológico, moral e de conduta pessoal de Raposo Tavares em relação à Igreja, nas pessoas de seus representantes mais imediatos, os padres e as obras destes.
Raposo Tavares tão logo presa sua madrasta teria vindo ao Brasil, ainda em 1618, acompanhando o pai que tinha obrigações de representar o donatário Dom Álvaro Pires de Castro e Sousa, o Conde, depois Marquês, de Monsanto, nas Capitanias de Itamaracá, Santo Amaro e Santana. Monsanto, bisneto de Pero Lopes de Sousa [irmão de Martim Afonso de Souza] – o primeiro donatário daquelas fracassadas capitanias, ensejou resgata-las através de Fernão Vieira Tavares, vindo apropriar-se indevidamente também das terras da Capitania de São Vicente, por erro de demarcação, propositada ou não, onde fixou sede em 1618 ainda que área litigável. 

  • A Capitania de São Vicente de 1587 a 1610 teve como ultimo donatário Lopo de Souza, filho de Pero Lopes de Souza, filho de Martim Afonso de Souza e homônimo de seu tio paterno. Pela interrupção a partir de 1610 ou por presumível ausência de interesse hereditário, o Conde Monsanto certamente dela se apropriou em 1618, pelo seu representante legal Fernão Vieira Tavares, até que Mariana de Sousa Guerra, Condessa de Vimieiro, filha de Lopo de Souza [tio], reivindicou seus direitos de donatária e, como tal, historicamente reconhecida entre 1621 a 1624, apesar do litígio familiar, quando resolveu pela transferência da sede de sua Capitania de S. Vicente para Itanhaém. Durante o período de ausência donatária a Capitania foi governada diretamente por Capitães-Mores e durante a concomitância foram nomeados dois Capitães-Mores, distintos por donatário, com jurisdição na mesma área territorial, até a prevalência de Dom Álvaro.

Apesar da imprecisão dos documentos, se sabe que a partir de 1610 a Capitania de São Vicente foi invadida pelos espanhóis de Iguape [litoral sul de São Paulo], por abandono, caindo no ostracismo ao mesmo tempo em que prosperava as vilas de Santos e São Paulo. A tomada das terras da Capitania de São Vicente por Conde Monsanto, incluiu as vilas de São Paulo, Santos e São Vicente e a esta deu novo vigor.

Fernão Vieira Tavares assumiu controle da Capitania de São Vicente e das demais com o filho Raposo ao lado, exercendo um governo bastante austero através de Capitães-Mores. O próprio Fernão veio ocupar a função de Capitão-Mor por um período em 1622, ano em que Raposo Tavares se casou com a filha do bandeirante Manuel Pires, Beatriz Furtado de Mendonça com quem teve dois filhos vindo depois se enviuvar.

Depois de dez anos de viuvez, Raposo casou-se com a viúva Lucrecia Leme Borges de Cerqueira, mãe de oito filhos, e deste consórcio nasceu-lhes uma única filha. Lucrecia Borges era filha do bandeirante Fernão Dias Pais e tia do célebre caçador de esmeraldas, Fernão Dias Paes Leme.

  • Desde a chegada ao Brasil que a vida de Raposo parece vinculada aos bandeirantes e à administração política, daí seu aprendizado com as cousas e causas da colônia portuguesa.

Em 1628, Raposo Tavares fez parte da expedição que destruiu Guairá, sendo durante esta campanha que ele teria avocado sua autoridade no Pentateuco [bíblico] ou, mais propriamente na Lei de Moisés para seus atos de conquistas, conforme Francisco Vasques Trujillo numa carta de 1631 (4), portanto uma prova que ele era judeu para muitos estudiosos.

Para o historiador Jaime Cortesão (5), Raposo Tavares, o mais temível dos bandeirantes, era judeu cristão novo e tivera problemas com a Inquisição, como também eram judeus feitos cristãos novos, Mestre Cosme Fernandes Pessoa, João Ramalho, Brás Leme, Fernão Dias Paes [Leme], Baltazar Fernandes, Diogo Álvares Correa [Caramuru], Francisco de Chaves e outros tantos preadores de índios dos séculos XVI e XVII.

Anita Waingort Novinsky, segundo Mário César, acredita que “Há razões ideológicas na fúria dos bandeirantes contra a igreja. Ela representava a força que tinha destruído suas vidas e confiscado seus bens em Portugal (...) e Raposo Tavares matou jesuítas porque eles eram comissários da Inquisição na América”.

Outros pressupostos deixam entender que Fernão Vieira Tavares, o pai de Raposo Tavares, também era judeu e que saiu de Portugal por Dom Luiz Álvares de Castro e Souza, tanto como seu representante em Brasil, para apossamento da Capitania de São Vicente e aquelas em que era real donatário, quanto para que demais membros da família Tavares não tivessem o mesmo destino de Maria da Costa.

Mas, onde a História se cala, não é justo pressupor fatos para os quais não se têm documentos comprobatórios, ficando assim a ignorar porque a família Tavares deixou Portugal tão logo da prisão de dona Maria da Costa, ou se a família pode enfim se reunir após sua libertação.

Raposo Tavares, com razões ou nenhuma para odiar o Clero, em 1628 acha-se à frente de uma coluna militar, diante da redução de São Miguel, para declarar pretensões de expulsar todos os jesuítas do Guairá por considerar portuguesas aquelas terras e não do rei de Espanha.

Outros fatos, feitos e lendas referentes a Raposo Tavares são encontrados em livros de História do Brasil e sítios eletrônicos.

TRAIÇÃO À CAUSA JESUÍTICA

Em Guairá a intenção primeira dos bandeirantes paulistas era a captura do índio, para mão de obra escrava, e não objetivos de expansão territorial brasileira, a qual somente viria a partir de 1618, já durante a dominação espanhola pela União Ibérica, quando aquela região se encontrava sob governo jesuíta com forças para formação de um estado teocrático livre e independente.

O desenvolvimento de Guairá, tanto populacional quanto de progresso, se destacava sobremaneira das demais províncias sul-americanas, mormente em relatórios como os de Del Sampaio ao rei de Espanha, que nos mostra a atividade jesuítica grandiosa não somente pela religiosidade pretendida, mas pela capacidade pedagógica de educar o índio em sua própria língua, ensiná-lo desenvolver diversos ofícios [tecelagem artesanato, olaria, construção e outras modalidades], aproveitar os recursos naturais para trabalhar a terra, cuidar das atividades agro-pastoris incluindo os horti-fruti-granjeiros, além do incentivo às oportunidades para o desenvolvimento de habilidades ou revelar gênios criativos.

Os Jesuítas desejavam para Guairá forma de governo social-teológico militar, com competências administrativas, legislativas, judiciária e de defesa territorial, posto inconcebível na época algum governo sem sustentação militar, metido entre as duas coroa que disputavam terras e tinham interesses por riquezas e, sobretudo, a mão de obra escrava indígena. É de conhecimento histórico que Vila Rica de Espírito Santo tratava-se de cidade militar, igualmente a redução Jesus Maria também voltada para os ofícios militares de treinamentos, formações e depósitos de armas e munições, características bastante próprias de sentinela militar avançada.

Considerando Guairá por Estado ainda em formação, uma situação talvez não prevista pelos idealizadores estivesse na interiorização de Guairá a lhe impedir acesso oceânico direto, vez que seus caminhos terrestres dependiam de Portugal e os fluviais de Espanha, pelo rio da Prata, tornando-o isolado e extremamente dependente.

Outra consideração negativa diz respeito em manter uma população quase exclusivamente indígena, peças por demais tentadoras para as bandeiras de apresamentos e os encomenderos, especialmente a partir de 1624, quando a Holanda atacou a Bahia e passou a dificultar a vinda de escravos africanos. Os índios aldeados tinham maiores valores como escravos, porque eram “iniciados na arte da paz, afeitos ao jugo da autoridade” (1) e doutrinados que o sofrimento terrestre era a garantia de paraíso celeste.

Desde as primeiras formações jesuíticas, antecedentes à própria oficialidade das missões, que espanhóis e portugueses intentaram contra os aldeamentos, que se mostravam “viveiros de bons cativáveis”, e a eles iam os preadores de acordo com as observações de Joaquim Silva e J.B. Damasco Penna (2), que ainda afirmam fracassadas algumas tentativas de apossamentos no Guairá, anteriores a 1628, repelidas a fogo pelos comandos militares a serviços dos jesuítas, que por vezes se antecipavam e atacavam o inimigo antes que este viesse se aproximar das reduções.

Sobre tal assunto, sem contender méritos, do Banco de Dados Folha observa-se, no texto extraído, que as lutas entre reduzidos e bandeirantes não eram simplesmente de um atacar com armamentos eficientes e outro se defender com pedaços de paus: “(...) Incidem num juizo falso e absurdo, todos quantos suppõem que, nas suas arremettidas contra as reducções, fossem os bandeirantes encontrar, sempre, indios inoffensivos e missionarios inermes. Tanto isso não é verdade que, em innumeros documentos escriptos pelo punho dos proprios jesuitas, se constata, a todo passo, a bravura com que elles se defendiam e, muitas vezes, atacavam. Numa carta dirigida em 12 de novembro de 1648, ao governador do Paraguay pelo padre Justo Mansilla, escrevia este: “Ihs - Senor governador. Sabado y noviembro 7 dieram los nuestros assalto al enemigo en su real que era el puesto en donde, el ano passado, por otra invasion del mismo enemigo, se avia retirado la segunda reducion y sacaran al Padre xpl de arennas, a quien el enemigo tenia preso y con guardas de dia y de noche e dias avia, y mataram a seys o sete Portugeses a pelotassos, y algunos Tupis, con mucho animo y brio". “Mas não era sempre que as reducções atacavam os paulistas, matando-os a pelotaços, com "mucho animo y brio". Defendiam-se, tambem, com armas de fogo e eu acho que tolos seriam elles se são o fizessem. No assalto a uma das villas do Paraguay, segundo relata o capitão Domingos Gonzales a Sebastian Solorçano, secretario da Casa de Contratação de Sevilha, foram mortos 140 paulistas. Como se vê, os bandeirantes não investiam contra gente inerme. As reducções viviam, aliás, em constantes questões com as autoridades hespanholas, quer do Paraguay, quer do vice-reino do Prata e mesmo da Côrte. Na documentação colhida no enorme acervo do "Archivo General de Indias", em Sevilha, carinhosamente colligidas nos "Annaes" do Museu Paulista, é constante, insistente mesmo, o encontro de cartas vindas da Côrte, e dirigidas às reducções que se esparramavam pelas regiões do Guayrá, Tape e Uruguay, pedindo-se a devolução de armas e munições. Num desses documentos pede-se ao provincial ibero que "todas las armas que esa Religion tenia em las doctrinas de ellas y las que huviesse repartido a los indios de que se conponen, se la entregassen para que estuviessen a disposición de esa Religion, ni se entrometiesen los religiosos a exercitar los yndios en lo manejo dellas ni en los allardes otra acion politica ni militar" (3).

Dos fracassos colecionados pelas arremetidas bandeirantes contra as reduções jesuíticas do Guairá, entenderam os cabecilhas [de entradas e bandeiras] que as sustentações dos aldeamentos estavam nas armas e na cobertura dada por frentes do exército paraguaio deslocadas para tais objetivos. Para a retirada de tais armas e tornar fácil o alvo pretendido, os luso-brasílicos precisavam da conivência de pessoas do governo de Assunção, que lhes dessem mapas da região – das vias de comunicações, do número de aldeados e das capacidades de resistências. Também era preciso uma pessoa com autoridade para remover as frentes militares que protegiam estrategicamente os reduzidos, e do recolhimento compulsório de armas e munições em poder dos missionários.

Capistrano informa que “Isto conseguiram em fins de 1628, e muito concorreu para assegurá-la Luís Céspeddes y Xeria, governador do Paraguai, casado em família fluminense, senhor de engenho no Rio”. Don Luis de Céspedes ao retornar da Espanha em 1628, desembarcou em São Vicente, aproveitando oportunidade para manter contatos com os principais de São Vicente e de São Paulo, especialmente com Antonio Raposo Tavares, e lhes vender a causa Guairá, em troca de engenhos de açúcar e escravos em terras brasileiras. Reinhard afirma que “(...) veio a São Paulo o governador do Paraguai tomando conhecimento da intenção [do ataque à Guairá]. Entretanto, D. Luis Céspedes, ao invés de prevenir os jesuítas, fez um pacto com os bandeirantes e impediu toda possibilidade de defesa por parte dos jesuítas” (4).   

São diversas as especulações das causas da traição, correndo versões que em Madrid onde comparecera por convocação real, Don Luís já teria traído a causa jesuítica às autoridades espanholas, com direitos de se manter no poder na província do Paraguai; depois repassou as mesmas informações aos portugueses de São Paulo em troca de favores explicitados.

Uma outra versão consta que a mulher de D. Luis, luso-brasileira, havia permanecido no Brasil, quando da viagem do marido à Espanha, sendo vítima de seqüestro e somente libertada depois de Don Luis negociar a traição de Guairá. “Outros diziam que Don Luis nada podia fazer, já que sua mulher estava no Brasil” (5).

É dito que D. Luis foi escoltado até Assunção [Paraguai] por homens de confiança de Raposo Tavares, a fim que ficasse bem clara as providencias do governador, conforme combinado com Raposo Tavares, e só aí a tropa bandeirante partiu, em segurança, para a guerra. “Fez por terra [pela Peabiru] a viagem para seu governo; e fez sinal aos bandeirantes para avançarem” – escreveu Capistrano.

Muitos associam os diferentes rumores da traição de Don Luiz, para apontar o ânimo dos bandeirantes em 1628 ao formar um verdadeiro exército “(...) de 3 mil portugueses e 900 mamelucos (...)” (6) além de 2 mil e duzentos índios guerreiros (7), todos fortemente armados, para atacar a Província Del Guayrá, em quatro frentes comandadas por Pedro Vaz de Barros, Brás Leme, Antonio Fernandes e o próprio Raposo Tavares, todos sob ordens do velho Manuel Preto. Mas, quem tudo planejou, negociou, corrompeu, tomou iniciativa, treinou as tropas e deu as ordens foi Raposo que, com seus comandados, entrou em território inimigo pelo vale do rio Ribeira, enquanto os demais grupos seguiram cursos diferentes para o cerco planejado às primeiras reduções.

Aos 8 de setembro de 1628, tropa sob a chefia de Pedroso de Barros, firmou-se defronte a missão jesuítica de Encarnação [Encarnacion] às margens do Tibagi, enquanto as demais colunas se colocaram estrategicamente pelos caminhos ou vias de comunicações, próximas de cada uma das reduções, para evitar ao máximo que os reduzidos se comunicassem sobre as posições inimigas. Em dezembro tudo estava pronto para o grande ataque, bastando apenas que os bandeirantes deixassem fugir alguns índios escravos e que estes buscassem proteção junto à redução de Santo Antonio, às margens do rio Ivaí.

Os padres acolheram os fugitivos, não os devolveram aos seus donos e com isso surgiu a motivação desejada para a guerra; foi o princípio do ataque.

MOTIVOS PARA UMA GUERRA INSANA

São diversas as motivações para a Guerra do Guairá, nenhumas justificáveis todas discutíveis, como a escravização indígena, a expansão territorial luso-brasílica ou o ultranacionalismo português para a restauração de seu trono – então sob domínio espanhol, sem desconsiderar a afronta religiosa entre os judeus bandeirantes e os padres jesuítas, com suas implicações de causas e conseqüências.

Talvez o princípio mais correto esteja na vocação interiorana paulista, primeiro pela geografia separatista entre o litoral e o Planalto Piratininga, pela Serra do Mar, depois pelas facilidades dos cursos fluviais do Tietê para o rio Paraná, do rio Paraíba do Sul, além da via terrestre Peabiru a conduzir para o Vale Paranapanema, todas as citações por caminhos das primeiras expedições e bandeiras rumo ao sertão.

A atenção dos conquistadores europeus, em território paulista, sempre esteve voltada para o encontro de metais preciosos, daí certamente as primeiras interiorizações que, “à falta do ouro, cativavam índios, que traziam para o litoral” (1), como mão de obra escrava destinada ao trabalho nos engenhos, nas fazendas agrícolas que se formavam e, também, para o tráfico escravo com outros pontos da América do Sul, ou mesmo do mercado europeu (2).

Prear índios para o escravismo sempre foi bom e lucrativo ofício nas descobertas terras de Portugal, desde a oficialidade do Brasil, afinal os novos senhores precisavam de homens para trabalhar a terra e gerar-lhes lucros, além de formar contingentes de defesas contra inimigos.

A colonização e prosperidade paulista tiveram por dependência a mão de obra indígena, de menor custo e maior quantidade, embora didáticos quase sempre afirmem que os índios não se prestavam aos serviços nem se adaptavam ao cativeiro, porque habituados à vida livre além da baixa resistência às doenças que os matavam aos magotes.

Tudo o que se tem efetivamente da escravização indígena pode ser assim traduzido: “O saldo é a captura de um grande contingente de indígenas a serem vendidos, sendo que (...) tiveram um papel fundamental na implantação da empresa açucareira, contradizendo, portanto, o velho argumento de que o índio era inapto ao trabalho agrícola devido à sua indolência” (3).

Óbvio, nem por isto se pode descartar a opção pelo escravo negro, muito mais caro que o nativo, todavia essa preferência já não se fundamenta que este era melhor ou pior trabalhador que aquele, ou mais dócil, ou menos enfermo, estando o diferencial entre o índio e o negro a parentela do índio que residia nas matas e era sempre uma ameaça de vingança ou de libertação. E se algum índio escravo, isoladamente ou em grupo, viesse fugir, mais fácil misturar-se aos que viviam em liberdade, porque conhecia a selva e seus habitantes, inclusive se parecendo com qualquer outro nativo de qualquer outra tribo, enquanto os negros estavam num ambiente totalmente desfavorável, por desconhecer a região e a língua, além da cor a denunciá-lo sempre.  

Também não se descarta que a opção escravista pelo negro parece mais uma questão do emocional/espiritual; os brancos adquirentes não viam e por isso não sentiam, aliás, nem sabiam dos negros capturados na África, se muitos morriam ou não depois de aprisionados, por suicídios ou doenças oportunistas para as quais sem imunidades. Igualmente os senhores desconheciam se os negros, à semelhança dos índios com o mesmo destino, antes de presos matavam ou não os filhos, às vezes as mulheres, para que tais não viessem ser apanhados e também feitos escravos.

  • A História relata que, em meado do século XVI, índios acuados pelos preadores nos arredores de Buenos Aires [Argentina] mataram esposas e filhos, lançando-se depois para a morte, do alto de alguns rochedos, para não se fazerem escravos.

O escravo negro custava caro e só os grandes senhores, mais assentados no litoral do nordeste brasileiro, tinham condições compensadoras de compras, ficando o índio por espécie de reserva de mão de obra, quando lhes viesse faltar o negro. Por conseguinte, não podiam escravizar muitos nativos para que o estoque pudesse ser naturalmente reposto, entre os próprios silvícolas, sempre às mãos quando necessários. 

No início do século XVII, com Portugal sob domínio espanhol, a Holanda investiu no comércio de mão-de-obra africana e desorganizou o tráfico português, fazendo com que o fluxo de escravos negros diminuísse para algumas regiões da colônia, com isso a renascer o interesse pela escravização do indígena (4).

  • O tráfico negreiro se agravou partir de 1624 quando os holandeses, em guerra com a Espanha pela sua libertação, atacavam colônias espanholas [e portuguesas, por extensão de coroa unificada], para dificultar o tráfico de escravos africanos.

A Holanda monopolizou a vinda de negros para o Brasil, trazendo escravos apenas onde bem lhe interessava, ou seja, no denominado nordeste holandês, mesmo que por tempo transitório. A ação holandesa foi bastante desastrosa à economia colonial e reinol de Portugal, necessitando os senhores de engenhos e fazendeiros de mão de obra urgente, para acudir a lavoura e dar enfrentamento ao inimigo invasor, o que fez sobrevalorizar o preço do escravo indígena e com isso o incremento para sua captura.

Naquela época o Guairá contava em parte do Vale Paranapanema [paranaense] e contigüidade, com uma população aldeada de aproximadamente cem mil índios [há números que indicam duzentos mil] cobiçados para a escravidão, quando a Bahia, São Vicente e outras localidades estavam dispostas pagar bem por peça que lhes fosse entregue. O escravo indígena que antes custava cinco vezes menos que o africano, teve elevação nos preços para igual ou maior, se o índio fosse aldeado, o que significava trabalhador adestrado para a agricultura e outros ofícios.

A Bahia pediu socorro e a Câmara Municipal da Vila de São Paulo e a de São Vicente requereu os préstimos de Raposo Tavares, para guerrear e aprisionar indígenas para fins de escravização e com isso salvar a economia colonial, “por esta a terra pobre, sem escravaria e hostilidade pelos selvagens” (5). Os espanhóis, principalmente de Buenos Aires e Assunção, da mesma forma desejavam os índios como escravos em suas propriedades, dispostos pagar bem.

O jovem Raposo sabia, por Manuel Preto, onde obter índios e não mediu sacrifícios para engendrar uma boa e lucrativa campanha para atacar Guairá, vindo inclusive corromper o governador do Paraguai, Don Luís Céspedes y Xeria, para os bons êxitos de seus propósitos contra as reduções jesuíticas do Guayrá, com seus milhares de índios, como pronta solução para os problemas de todos, sob pretexto de guerra justa.

  • O governador paraguaio D. Luis Céspedes vendeu a causa Guairá aos paulistas, depois seus sucessores se preocuparam apenas administrar problemas internos causados pelos jesuítas, entrantes em seu território, resguardando interesses pessoais e cientes que os luso-brasileiros não invadiriam o Paraguai.

Raposo Tavares montou uma organização militar pronta para guerra, sob identidade nacional e direção comum, ou seja, que a busca ao índio aldeado e a destruição das missões jesuíticas espanholas trariam, por conseqüência, a ampliação territorial brasileira dentro de um espaço vazio que urgia se povoar. Nem portugueses nem espanhóis ignoravam isto.

Comumente o didatismo justifica as investidas de Raposo Tavares contra as reduções espanholas, como gesto voluntário, pela sua convicção de lutar pela integridade de terras portuguesas contra a Espanha, mas hoje se entende que o bandeirante foi financiado por segmentos da sociedade portuguesa e autoridades interessadas no expansionismo territorial, da colônia brasileira, em detrimento a Espanha. 

Os defensores que Raposo era mercenário cabeça de entrada, citam dívidas fazendárias “do Mestre de Campo Antônio Raposo Tavares”, das armas e munições que lhe foram entregues para o bom êxito das investidas contra os jesuítas das reduções (6).    

A propósito, Dr. Jovam Vilela da Silva informa que, “Em 1628 Pe. Antonio Ruiz de Montoya já havia reclamado aos seus superiores que Raposo Tavares declarava que expulsaria as missões espanholas situadas ao sul do continente americano porque as terras pertenciam ao rei de Portugal e não ao da Espanha. De fato, deve-se considerar a hipótese de bandeirantes terem sido, secretamente, encorajados por ordens portuguesas para alargarem o território português na América, ao sul, até o Paraguai, a oeste até o Peru e de se utilizarem o Tietê, Rio São Francisco e do Amazonas e seus afluentes para estabelecerem passagens e zonas de povoamento, patenteiam-se“ (7).

Jaime Cortesão alinha-se com aqueles que acreditam que o avanço territorial do Brasil se deu pela não conformação portuguesa aos termos do Tordesilhas (8), num típico movimento nacionalista, sendo o ataque às reduções jesuíticas do Guairá apenas a parte lucrativa de uma guerra, antes de tudo territorial.

O devotamento de Raposo às ordenanças das Câmaras de São Vicente e São Paulo demonstra bastante claro que Raposo fazia isto por dinheiro e prestígio, por exemplo, depois de exercer o cargo de “juiz ordinário da Vila de São Paulo, ganha novo e mais importante posto na Justiça da Colônia, passando a Ouvidor de toda a capitania de São Vicente“ (9). A razão de Raposo exercer um cargo de exclusiva nomeação de donatário de capitania nos faz pensar que o Conde de Monsanto, Donatário da Capitania de São Vicente, desejoso em aumentar domínios, tenha recorrido a Raposo Tavares pelo seu exacerbado nacionalismo e que insistia acreditar que as terras de Portugal não se findavam no imaginário de Tordesilhas.

Raposo provavelmente não suportava o domínio espanhol sobre Portugal e colônias, talvez daí a aspereza mútua entre o jesuíta espanhol Justo Mansilla [Mancilla] que chamou Raposo de “vassalo rebelde” para obter deste a resposta “ide-vos vá daqui, que estais em terras de Portugal” (10), que alguns estudiosos entendem como ódio à Igreja. Porém, foi cumprindo ordens das Câmaras de São Paulo e São Vicente, que o bandeirante reuniu quase todos os homens em idade de guerra de São Paulo e São Vicente, três mil brancos, três mil índios e aproximadamente mil mamelucos, formando não a maior bandeira ou entrada que até então se organizara em terra brasileiro, e sim verdadeiro exército paulista, muito bem preparado e dividido em quatro colunas e sessenta e nove divisões organizadas e prontas para o ataque.

A despeito do ódio pelos espanhóis ou pela Igreja, senão a ambos, o interesse maior de Raposo sem dúvidas estava na motivação financeira, posto que aprisionar índios e torna-los escravos, era altamente rentável. As leis da Espanha em contrário às ações bandeirantes não chegavam eficientes em terra brasileira, nem os clamores portugueses, a mando dos Senhores de Castela, tinham vigor em deixar livres os índios nascidos livres.

Os missionários que mantinham índios sob sua jurisdição eram espanhóis ou vinculados à Ordem, que era espanhola e havia ganhado uma província inteira do Rei da Espanha, enquanto os luso-brasílicos não admitiam a dominação filipina, nem concordavam com as tantas terras doadas aos padres, terras com riquezas ainda por achar, já com possibilidade milionária de mais de cem mil índios, se vendidos como escravos por um bom dinheiro.   

  • Alguns historiadores acreditam que somente assacam contra os bandeirantes, aqueles que se fiam exclusivamente em documentos espanhóis, desconhecendo que os jesuítas se apossavam do território sul-americano, do oeste a partir de Guairá para o sul, através do expansionismo territorial, desde o princípio presente nas aspirações dos padres para o estabelecimento do estado teocrático católico, vindo chocar-se com os luso-brasílicos, igualmente expansionistas para além Tordesilhas, mais a captura do índio para o trabalho em suas lavouras. 

“Antônio Raposo Tavares, que fora denominado Segador de Satanás pelo padre Cláudio Reiyes - da redução de São Nicolau, armou com apetrechos de guerra, numerosa comitiva e mais cadeias, grilhões, esporas, coleiras, algemas e correntes de oito a dez metros de comprimento, com dez ou mais gargalheiras presas e iniciou percorrer os altiplanos da Bolívia. No finalzinho da primeira metade do século XVII, atingiria o rio Mamoré e em seguida o Madeira, pelo qual chegaria ao Amazonas, e por ele seguindo até o Grão-Pará” (11).

ÀS NUVENS DE FLECHAS O CLARÃO DAS ARMAS DE FOGO

Produzidos os motivos da guerra, em dezembro de 1628 as missões jesuíticas sofriam os primeiros ataques dos bandeirantes, sem o apoio do governo de Assunção que lhes requisitou antes as armas e munições, bem como determinou a retirada dos soldados paraguaios das sentinelas das reduções e das cidades militares de Vila Rica e Jesus Maria.

A grande desvantagem dos reduzidos, no enfrentamento, foi mesmo falta de armas que D. Luis fez retirar e assim as cidades planejadas, que deviam bloquear o caminho dos portugueses para a América Espanhola, resistiram bem pouco vindo cair uma a uma, primeiro San Antonio a 30 de janeiro de 1629, depois São Miguel, Jesus Maria, Encarnacion e as adjacentes (1), enquanto outra frente atacava aldeamentos no Vale Iguaçu (2) e uma terceira pelo Paranapanema – às exceções de Loreto e Santo Inácio, fazendo com que muitos índios fugissem com seus padres em direção ao Tape [Rio Grande do Sul], Itatim [ao sul de Mato Grosso – do Sul] e Paraguai.

A resistência maior dos missioneiros ocorrera em Ciudad Real Del Guayrá e Vila Rica Del Espírito Santo, onde a quarta divisão do exército de Raposo foi rechaçada dos intentos diante daquelas fortalezas, morrendo dois jesuítas em Ciudad Real.
Aparentemente os bandeirantes não contavam com tamanha reação, obrigados à fuga atabalhoada pelas matas até encontrar-se com a frente de ataque às reduções mais próximas do Paranapanema, também obrigada retroceder diante do avanço das tropas inimigas. Santo Inácio e Loreto, por ora, estavam a salvos.

Temendo retorno dos bandeirantes às margens do rio Paranapanema para atacar Santo Inácio e Nossa Senhora do Loreto, Padre Antonio Ruiz de Montoya e outros seis jesuítas prepararam o êxodo mais dramático de índios da América do Sul, em centenas de canoas e jangadas para fugir do branco avassalador, num episódio assim descrito por Montoya:

“Acabamos as hóstias consagradas, e fizemos conduzir os santos óleos e os nossos pobres haveres para a beira do rio, onde embarcamos nas jangadas. Do mesmo modo as gentes também meteram nas jangadas ou nas canoas as suas pobres coisas, conforme já se tinha predisposto. Os homens que se haviam aprontado, os moços, os rapazes, as mulheres, as velhas, as moças, as meninas, todos juntos com as crianças, encaminharam-se para o rio. A aldeia inteira levantou sem ficar nem ao menos uma pessoa. Mandamos retirar das sepulturas os corpos dos três padres, nossos companheiros, para levá-los conosco; trancamos bem a porta da Igreja para evitar que ali entrassem animais. Parecia um dia de juízo aquele dia em que fizemos a mudança”. (3).

E José Jorge Junior arremataria: “E, para sempre, das margens do Paranapanema, partiram mais de 12 mil indígenas, descendo rios, em tormentosa retirada, rumo a uma nova esperança em terras localizadas entre os rios Paraná e Uruguai. Depois de longa e penosa viagem, sofrendo acidentes, doenças, desistências e mortes, chegaram ao seu destino pouco mais de quatro mil retirantes”. (...). “Loreto e Santo Inácio, abandonadas, sofreram a ação destruidora de 300 anos. Os telhados caíram, as paredes de taipa se desfizeram e a vegetação luxuriante, qual pano de boca de teatro, desceu vagarosa como final do imenso drama” (4).

No dia 1o. de maio de 1629, depois de dez meses de sertão e guerra, vitoriosos, porém exaustos, os paulistas voltaram a Piratininga depois de destruir umas tantas missões, trazendo vinte mil índios capturados e vendidos como escravos, dez mil deles de uma só mão, para a Bahia (5). Justo Mansilla [Mancilla] e Simão Mazzeta, os jesuítas que acompanharam os índios que iam para o cativeiro em São Paulo, foram os autores da "Relación de los Agravios", peça preciosa para a reconstituição da expedição, ainda que nada tenha produzido para punir culpados de guerra (6). Em atenção aos jesuítas, o Governador Capitão-Mor do Brasil determinou que todos os índios capturados no Guairá fossem libertos, no risível despacho "faça-se imediata justiça", quando não havia mais índios para libertação, todos já vendidos para a escravatura.

Em 1631, Raposo à frente de seu exército retorna ao Guayrá bate de frente com Vila Rica do Espírito Santo – cidade militar, sem êxito aparente, para retornar novamente em 1632 e daí sim destruí-la definitivamente. Conta-nos Reinhard que, “dos 100 mil índios convertidos existentes na zona desta redução, 15 mil foram mortos e 60 mil vendidos como escravos em São Paulo”, noticiando inclusive que o preço de cada escravo “devido à oferta exagerada, baixou de Rs 100$000 para Rs 20$000”.

  • Ciudad Real Del Guayrá foi arrasada somente em 1638.

Para os padres jesuítas o sonho de um estado teocrático na América do Sul não se findou com a destruição de Guayrá. Desde que traídos por D. Luis Céspedes e vencidos por Raposo Tavares, voltaram-se para o sul onde já se firmavam algumas reduções, desde 1626, como novo projeto missioneiro em terras também por concessão do reino espanhol. Raposo foi ao encalço deles e uma das frentes de suas tropas protagonizou o acontecimento a seguir:

“No dia de São Francisco Xavier (3 de dezembro de 1637), estando celebrando a festa com missa e sermão, cento e quarenta paulistas com cento e cinqüenta tupis, todos muito bem armados de escopetas, vestido de escupis, que são ao modo de dalmáticas estofadas de algodão, com que vestido o soldado de pés à cabeça peleja seguro das setas, a som de caixa, bandeira tendida e ordem militar, entraram pelo povoado, e sem aguardar razões, acometendo a igreja, disparando seus mosquetes. Pelejaram seis horas, desde as oito da manhã até as duas da tarde.

Visto pelo inimigo o valor dos cercados e que os mortos seus eram muitos, determinou queimar a igreja, aonde se acolhera a gente. Por três vezes tocaram-lhe fogo que foi apagado, mas à quarta começou a palha a arder, e os refugiados viram-se obrigados a sair. Abriram um postigo e saindo por ele a modo de rebanho de ovelhas que sai do curral para o pasto, com espadas, machetes e alfanjes lhes derribavam cabeças, truncavam braços, desjarretavam pernas, atravessaram corpos. Provavam os aços de seus alfanjes em rachar os meninos em duas partes, abrir-lhes as cabeças e despedaçar-lhes os membros.

Compensará tais horrores a consideração de que, por favor, dos bandeirantes pertencem agora ao Brasil as terras devastadas?” (7).
A grande aventura jesuítica definitivamente se encerrou quando seus padres foram expulsos da América portuguesa e espanhola, em 1760 e 1768 respectivamente, deixando suas trinta e três reduções e uma população ainda superior a cem mil habitantes, em partes de terras hoje pertencentes ao Uruguai, Paraguai, Argentina e sul do Brasil.

José Jorge Junior estima, fundamentado em documentos jesuíticos e de historiadores, que em todo século XVII mais de trezentos mil nativos, da margem esquerda do rio Paranapanema ao Rio Grande do Sul, foram aprisionados e escravizados (8). Para Meliá seriam mais de um milhão de indivíduos escravizados, contados aí os índios capturados pelos castelhanos – os encomenderos (9).
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