Tamanho da fonte    

RAZIAS
INCURSÕES PREDATÓRIAS EM TERRITÓRIOS INDÍGENAS DO VALE PARANAPANEMA

PARTE I – INCURSÕES PELOS CAMINHOS DO VALE DO PARANAPANEMA

HOMENAGENS
     
1. CONFISSÕES À JUNKO,
- De quando nos conhecemos em 1977 -

Tu és a sombra de um passado já distante,
Que às vezes por instante
Ponho-me a lembrar.
Tu és a viva imagem daquela que amei
E hoje existe apenas na saudade,
Mas nem por isso esquecida.

Quando procuro te olhar bem de perto,
Vejo que não és ela,
Pois nela faltou alguma coisa
Que hoje bem sei, encontro em ti.

Eu sei não ter o direito  de associar-te
A um passado exclusivamente meu,
Mas a verdade é esta,
Pois se a ela dei o meu tudo,
A ti nada ofereço, apenas peço,
 AMOR.

           
2. AOS FILHOS: ARTHUR [CELSO], GISELE, MITCHELL E LORANA [HARUMI]:
“Quando os filhos nascem os pais fazem os planos esquecendo-se que eles têm os seus próprios caminhos”.

3. AOS PAIS ONICE E MARIA DE LOURDES [FREIRIA] PRADO: “Esta história não existira sem vocês”.

4. AOS SOGROS: “Porque me deram uma razão para viver”.

5. IRMÃOS E CUNHADOS: “Que um dia me incentivaram externar meus pensamentos e o saber”.

6. AOS AMIGOS: “Família acontece, AMIGOS a gente escolhe, e foram tantos os elegidos e aqueles que me escolheram, não poderia descrevê-los todos”.

7. CARINHO ESPECIAL: ARTHUR MARTINS LOPES E BENEDICTO BENÍCO - exemplos de vida e dignidade.


CONVENÇÕES


Referem-se a alguns esclarecimentos e significados de nomes e localizações citadas no decorrer da obra, para melhor situar o leitor:

  1. VALE OU SERTÃO DO PARANAPANEMA:
    De acordo com a descrição geográfica de Teodoro Sampaio, 1886, o Vale Paranapanema compreende toda extensão de terras às margens do rio do mesmo nome, desde Sorocaba até o rio Paraná, uma área aproximadamente de 110.000 quilômetros quadrados, dos quais 27.400 no atual estado de São Paulo. Para efeitos deste trabalho considera-se apenas a região centro-sudoeste paulista ou, mais propriamente, as terras situadas entre o divisor Paranapanema e Peixe, a partir dos campos de Botucatu às barrancas do Paraná. O rio Paranapanema nasce na Serra de Paranapiacaba.

  2. PLANALTO OCIDENTAL PAULISTA:
    Trata-se da escarpa e reverso da Serra de Botucatu, para além da Cuesta, direção noroeste-sudeste, em suave inclinação geológica com mais de 500 km de extensão por variáveis de 190 de largueza, com desníveis entre os 350 a 700 metros. Para o presente objeto, no entanto, considere-se toda região entre o Tietê e Paranapanema a partir dos cursos das águas do Jacuí e Guareí, depois desde as nascentes do Feio/Aguapeí ao mesmo Paranapanema, até as barrancas do Paraná. Cuesta seria a moderna denominação para essa suave inclinação geológica.

  3. VALE DO PEIXE:
    Com 15.000 quilômetros quadrados de área, situa-se entre os espigões dos Vales do Feio/Aguapeí e Paranapanema, a partir da nascente do rio do Peixe na Serra de Agudos até sua barra junto ao rio Paraná.

  4. VALE DO FEIO/AGUAPEÍ:
    A partir das nascentes do Feio/Aguapeí na Serra de Agudos, a 40 km de Bauru, entre os divisores do Peixe e Tietê até o rio Paraná, com área de 12.000 quilômetros quadrados.

  5. ALTA SOROCABANA
    Região encravada no Planalto Ocidental Paulista, a sudoeste.

  6. RAZIA:
    Incursão predatória em território inimigo.

  7. DADA:
    Genocídio cruel praticado contra indígenas.

  8. BUGREIRO:
    Matador ou caçador de índios

  9. ENTRADA:
    Expedição organizada, no período colonial, pelas autoridades ou por particulares, e que geralmente partia dum ponto do litoral para explorar o interior, apresar indígenas destinados à escravidão, ou procurar minas. Dicionário – Aurélio Século XXI.

  10. BANDEIRA
    Expedição armada que partindo, em geral, da capitania de São Vicente (depois, de São Paulo), desbravava os sertões (fins do séc. XVI a começos do séc. XVIII) a fim de cativar o gentio ou descobrir minas. Dicionário Aurélio – Século XXI.

  11. COLCHETES [ ]
    Colocações entre colchetes, para esclarecimentos ou complementações, são de responsabilidades do autor.

APRESENTAÇÃO

Pela Internet, dizem, podemos encontrar tudo, menos o que efetivamente necessitamos. Todavia, através dela conseguimos, além de assuntos interessantes e úteis para este trabalho, alguns amigos que nos auxiliaram com documentos ou indicações onde consegui-los; outros nos permitiram cópias de [raras] obras com manuscritos [fac-símiles], para que chegássemos a este resultado simples, mas em condições de permitir uma viagem, através do tempo, pelos sertões do Feio/Aguapeí, do Peixe e, especialmente, do Vale Paranapanema, desde o final do século XV até o XIX.

Ao pretendermos este trabalho, até onde se encontra, realmente imaginávamos apenas passeios históricos pelas cidades mais antigas do Vale Paranapanema, uma das regiões mais bela e desenvolvida do estado de São Paulo. Daí as visitas a bibliotecas, museus, cartórios, igrejas e câmaras municipais, para fotocópias de documentos da época pretendida e nada mais, exceto talvez um ou outro encontro, se os deuses a nosso favor, com algum octogenário – ou mais, de boas lembranças que, se não viveu nossos reclamados tempos ao menos deles ouviu falar bem mais próximo.

Ledo engano. Encontramos escassezes de dados, ausências de documentações, bastante má vontades funcionais, e apenas umas e outras obras de autores regionais, algumas de grandes valias, quase todas elas a ressaltar qualidades e as boas intenções dos fundadores e das primeiras famílias colonizadoras que se mantiveram ricas.

Óbvio compreendermos e respeitarmos historiadores, municipais e regionais, diante da quase impossibilidade de se conseguir fontes fidedignas, por isso certas ocorrências reflexivas em suas obras naquilo que se determina inquirição por espelho, algumas a partir das informações até concretas embora apologéticas. Outras nem tanto, a maioria delas apenas recorrente às ilações pretendidas, para se concluir corretas as afirmações, mesmo sem a certeza daquilo que realmente foi ou aconteceu.

 Para que não incorrêssemos em semelhantes erros, estabelecemos uma pesquisa prudente e, acima de tudo, honesta, com a maior distinção da verdade com o provável ou tão somente possível, jamais daquilo como gostaríamos que fosse, para assim descobrirmos bastante escassa a história do Planalto Ocidental Paulista, dentro do qual o Vale Paranapanema. Deste, mesmo que limitado ao foco paulista e apenas ao centro-sudoeste, se furtaram os historiadores oficiais como se nada histórico, adiante de Botucatu, houvera ocorrido em séculos de dominação, excetuando os poucos e quase inacessíveis diários de entradas e bandeiras, atas e registros paroquiais, relatórios das expedições militares e das comissões de estudos e reconhecimentos de áreas.

Ratificam tal desconhecimento, oficial inclusive, a Carta Geográfica da Província de São Paulo, do ano de 1868, com a célebre advertência: “Terrenos Desconhecidos”, para todo imenso sertão, compreendidos entre os rios Tietê e Paranapanema desde os cursos das águas Jacuí e Guareí, antigas divisas de Botucatu, às barrancas do rio Paraná, quando já se sabiam dos primeiros assentamentos jesuíticos, às margens do Paranapanema iniciadas em 1608, assinaladas no mapa espanhol ‘Paraquaria’; além dos arranchados – reconhecidos oficialmente, ao longo de caminhos tropeiros, religiosos e militares de 1771/1772, uns e outros compreendidos desde 1719, além da pré-cabraliana Peabiru, do Atlântico ao Pacífico, todos a tomar o Vale Paranapanema, ou parte dele, por corredor de passagem àqueles que ousavam demandar o sertão.

Portanto, a tão estranha adversão “terrenos desconhecidos” priva-se dos fundamentos. Estudos e levantamentos topográficos preliminares, de toda bacia Santo Anastácio e partes do extremo oeste paulista, estão inseridos em mapas a partir de 1770; enquanto a Serra Botucatu, com as nascentes de seus principais rios para as margens do Paranapanema, aparecem com detalhes em mapa espanhol de 1756, Carta do Paraguai e dos Paises Vizinhos, elaborado pelo Padre Pedro Francisco Xavier de Charlevoix.
Das regiões da Serra dos Agudos, Lençóis [Paulista] e terrenos para as margens do Tietê, os primeiros estudos constam de 1737, conforme relatório da Comissão Geográfica e Geologia do Estado.

  • A Serra Botucatu aparece primeiro nos apontamentos do entradista Antônio Bicudo, em 1620, com indicativos e descrições, inclusive adjacentes, depois transpostos em cartas geográficas como referências para bandeirantes e entradistas.

Desta forma, pretendemos diminuir, um tanto, o desconhecimento historiográfico regional e informar, com documentos dispostos, os primeiros acontecimentos e as conseqüências dos recontros civilizáveis ou, mais propriamente, as razias e dadas promovidas pelos brancos aos índios, desde os últimos anos do século XVI ao final do século XIX; que foram barbáries tantas que marcaram a sangue inocente todo Planalto Ocidental Paulista, por mais de três séculos de conquistas em nome da civilização e do progresso.

PORTUGAL: ANTECEDENTES HISTÓRICOS


A história entende por mundo conhecido, até a Idade Média [395-1453], a Europa, partes da Ásia – ou Ásia Ocidental e norte da África (1), embora não ignorados, pelos árabes e persas, o extremo oriente e as ilhas pelos caminhos, além das costas índicas da África, nesta algumas incursões islâmicas. Oficialmente não se sabiam da América, da Antártida nem da Austrália.

Hoje não se tem tanta certeza daquelas delimitações, considerando a América presente em alguns raros mapas, às vezes imprecisos, como os de Andréa Bianco [1448], que mostram o Atlântico Ocidental povoado de ilhas, entre as quais as misteriosas Antilias, com o Oriente mais além (2). Todavia, referidos mapas não informam quem foram os navegantes àquelas terras desconhecidas, ou quando ocorreram tais viagens em cujos relatos firmaram-se semelhantes representações geográficas.

  • Reinhard Maack reproduz cópia de um dos trabalhos de Andréa, por Jaime Batalha Reis, publicada no Geographical Journal [Londres, 1897], com a localização da costa sul-americana entre o Cabo de São Roque e Trinidad (3).

O mapa-múndi de Martim Waldseemüller, com outros dois pequenos hemisférios auxiliares, impresso em 1507 no Mosteiro de Saint-Dié – Lorena [França] compreende doze tábuas originais. Duas apresentam a existência do Oceano Pacífico [uma década antes de sua oficialização] e os contornos das costas orientais da América do Norte, enquanto a América do Sul é representada, segundo Jean-Claude Valla: “com uma exatidão que, por não ser perfeita, não é menos surpreendente” (4), inclusive os Andes, Cabo Horn ao extremo sul e a intrigante falsa ligação oceânica do Atlântico ao Pacífico pela América Central, passagem que deixa de ser representada num dos pequenos mapas que traz a figura de Américo Vespúcio (5).

  • Para Valla e outros especialistas, o mapa Waldseemüller exigiu anos para ser elaborado com todas suas descrições, desenhos e gravuras obtidas das indicações, em épocas distintas, por outros navegadores provavelmente desconhecidos entre si, cujos relatos de alguma forma chegaram ao conhecimento do organizador Martim.

O mapa que se encontra na Biblioteca de Bonn [Alemanha] atribuído a certo Gloreanus, provavelmente de 1510, “nos dá a confirmação exata de toda a costa atlântica da América, do Canadá à Terra do Fogo, e nos propõe, pelo litoral pacífico, um traçado muito menos justo, embora interessante” (6)

Dos fragmentos duma coletânea de 215 antigos mapas, organizados no ano 1513 por Piris Regis [Pires Reis], no seu Bahrye – Livro das Navegações, um dos pergaminhos mostra, com detalhes e clareza, o Atlântico e as costas americanas, européia, africana, ártica e antártica (7), quando ainda não se conhecia, oficialmente, o contorno continental da América atlântica, nem a Antártida.

Final do século XV até meados do XVI, os mapas mostram a América ao sul mais definido que ao norte, conforme exemplo em Leonardo da Vinci por seu globo [mapa] de 1515, embora não ultrapasse a região de Cananéia (8), ou seja, territórios apenas dentro da jurisdição portuguesa.

Antecedendo os mapas mencionados, Diodoro [século I a.C] diz sobre terras visitadas pelos fenícios, do outro lado do Atlântico, a sudoeste, que muitos entendem como costas do nordeste brasileiro (9). A história confirma os fenícios, em seu segundo período de hegemonia histórica [1290–223 a.C.], circunavegadores do continente africano com certa freqüência em direção à Europa (10), sendo possíveis abordagens em costas americanas ou mesmo interiorizações; tais considerações, entretanto, são prematuras apesar das tantas evidências às bases dos estudos e tratados desde Onffroy de Thoron (11).

Também o filósofo e historiador Plutarco [entre 45-120] deixou-nos referências de ilhas, a oeste da Bretanha [França], e de um grande continente, de clima ameno, mais além (12).

Mas, o conhecimento da América ganhou conotações históricas, apenas quase um século antes do findar a Idade Média, quando Portugal se lançou às navegações de pesca por cabotagem, já em 1358 em costas britânicas (13) e, pouco depois – não se sabe quando, em Terra Nova e Canadá, apregoando-se tenha sido numa viagem de exploração, sob comando de Diogo de Teive, que deu nome ao local de Grande Banco da Terra Nova em 1451/52 (14)

  • O pequeno encravo territorial [europeu] doado por Afonso VI, de Leão e I de Castela, ao [conde] Henrique pelas ações contra os mouros, território a seguir acrescido com o restante da Lusitânia ao reino do Algarve para formar Portugal, cercado pela Espanha com saída única para o Atlântico, fator mais que suficiente para o seu atiramento ao mar, daí o desenvolvimento pesqueiro e o conhecer da rota Guilda dos Pescadores, ou Caminho dos Celtas, para costas americanas.

Para Reinhard a primeira presença histórica [européia] na América foi do navegante português João Vaz Corte Real, no ano de 1472, em costa norte-americana por ele denominada Terra dos Bacalaos [Bacalhaus], que aparecem no mapa-múndi de Mercartor [primeira metade século XVI] como Terra Nova, ressaltada como Terra de João Vaz. No Atlas de Fernão Vaz Dourado, da segunda metade do século XVI, ao local é dado denominações de Baía João Vaz e Terra de João Vaz, além de outros nomes [portugueses] como Ilha dos Bacalhaus em mapa de Pedro Reine, 1505; Ilha Bacalauras por Ruysch em 1508; ou Rio de João Vaz, em Atlas de Jomard publicado em Paris no ano de 1878 (15).

  • João Vaz Corte Real, com tal Álvaro Martins Homem, recebera mandato do rei português [Afonso V] para aquele empreendimento numa viagem extra-oficialmente reconhecida por Gaspar Frutuoso (16), no século XVI, depois por Vaz Dourado e por fim ratificada em obra de Antônio Cordeiro editada no século XVIII (17).

Para o estudioso Sofus Larsen, por base numa carta [de 03/março/1551] do mercador e burgomestre Carsten Grip [de Kial] ao rei Cristiano III da Dinamarca, João Vaz Corte Real fora enviado em 1472, por D. Afonso V, a tomar parte numa expedição luso-dinamarquesa [Pyninl e Poidhorsth] à Islândia, chegando ele às costas norte-americanas à frente de algumas embarcações, para reconhecimentos. Larsen também evoca mapas do português Vaz Dourado para comprovar presença portuguesa em lado americano, vista os nomes dados a duas baías ao longo das costas norte e leste de Terra Nova, com os nomes João Vaz e Manuel Pinheiro, este absolutamente um desconhecido (18).

Apesar das dificuldades de algum levantamento inquestionável de viagens portuguesas pré-colombianas ao continente americano, século XV, até porque os documentos eram secretos e quase nunca apareciam, hoje não mais se duvidam de suas expedições exploratórias a exemplo da histórica viagem de Fernão Dulmo [o alemão Ferdinand von Ulm] que, antes de 1486, navegando quarenta dias a oeste dos Açores chegou em costa americana, por ele denominada Terra Firme com a observação de não se tratar da China [Catai], Japão [Cipangu] nem Índia (19). A importante descoberta de Dulmo mostra-nos Portugal empenhado em descobrir as Índias também pelo ocidente, em expedições secretas, enquanto prosseguia o mesmo objetivo buscando contornar a África.

A conclusão de Terra Firme não se tratar do Oriente, não diminuiu o interesse português saber daquelas terras e as vantagens econômicas para o reino, conforme contrato entre o Rei D. João I com o próprio navegador Dulmo e Afonso Estreito, para viagem exploratória de seis meses [quarenta dias de ida, quarenta para a volta e cem dias para a exploração territorial], em 1486, levando a bordo o experiente cosmógrafo alemão Martin Behaim [aportuguesado Martim da Boêmia], que participara antes das navegações de Diego Cão – 1484 e 1485 em costas africanas até a foz do Congo [rio Zaire] (20).

  • O mapa [globo] de Martin Behaim da viagem de 1486 em nada lembra terras da América, primeiro porque ele, Behaim, não tinha conhecimentos da forma e tamanho do continente posto que mapas anteriores, [Bianco – 1448; Toscanelli – 1474; Pareto e Beningcasa – século XIV], mostravam apenas partes costeiras de terras atingidas, percorridas ou imaginadas por antecessores, por isso representada por ilhas e, adiante delas, uma Ásia bastante desfigurada pela compreensão equivocada dos europeus, que apenas a conheciam pelos relatos persas, árabes e indianos, a maioria deles fantasiosos.

Behaim descreve ao conterrâneo Hyronimus Müenzer “a costa oriental de uma grande terra”, reafirmando intenções de se chegar ao oriente pelo ocidente e a certeza de avistamento de terras a oeste de Açores, representadas pelo grupo de ilhas a 25o e 45o de latitude norte, e a oeste das Ilhas de Cabo Verde que compreende parte da costa sul-americana, entre a foz do Amazonas e Trinidad, conforme conclusões de Reinhard que pessoalmente estudou os trabalhos daquele cosmógrafo alemão (21).

Registros outros dão conta que o português João Fernandes Lavrador [Labrador] atingiu, entre 30 de janeiro e 14 de abril de 1492, o continente americano na parte onde ainda hoje conhecida como Labrador ou Terra de Corte Real em mapas brasileiros e portugueses, conforme observa Reinhard (22).  

Maria Inês Nogueira (23) reforça opinião que Portugal exercia navegações exploratórias, em segredo, do outro lado do Atlântico, todavia “as conseqüências da viagem de Colombo [1492] põem fim ao sigilo mantido pelos portugueses, obrigado reconhecer concorrência espanhola”, levando então o português João Coelho (24) à costa oriental da América do Sul, em expedição de reconhecimento antes de 1494, considerando termos da carta de Estevão Froés ao rei português, em julho de 1514: “(os castelhanos) nem nos quiseram receber, a prova de que alegávamos com Vossa Alteza possuía estas terras há vinte anos e mais e que já João Coelho (...) viera por onde nós outros vínhamos descobrir e que Vossa Alteza estava de posses destas terras por muitos tempos”.

João Barcellos (25) menciona portugueses em costa brasileira no ano de 1490, quando constroem um forte sob nome [Fernãobuc] Fernão Buc (?), local litorâneo onde o atual estado de Pernambuco, com Portugal aparentemente sabedor do acesso Atlântico / Pacífico Sul para se chegar à Ásia, como rota alternativa e mais cara, vez que a África melhor explorada lhe fornecia o ouro e escravos, além da rota comercial com a Índia, em se contornando o continente, direito que lhe estava garantido, em relação à concorrente Espanha, desde 1479 pelo Tratado de Alcaçóvas.

Para alguns historiadores, Portugal repassou para Fernão de Magalhães o detalhe geográfico, ao extremo sul da América, que permitia passagem segura do Atlântico para o Pacífico (26), conseqüentemente a rota a seguir em direção a Ásia, o que comprova noções portuguesas bem mais adiantadas que a Espanha ou qualquer outro concorrente acerca da esfericidade da terra, das nações do oriente e de terras americanas, conhecimentos comprovados ao exigir e impor termos limites para o Tratado de Tordesilhas, tão logo Cristóvão Colombo anunciou resultados de sua expedição, reivindicando uma porção americana ao sul e das partes que lhe tocariam em território asiático.

Entende-se que os portugueses conheceram as costas pacíficas da América do Sul já antes de Fernão Magalhães [circunavegação de 1519], de Fernando Balboa [descobridor do Pacífico em 1513], ou de qualquer outro navegador europeu, bem como a passagem do Atlântico para o Pacífico, por antigos mapas, com exemplo citado do mapa de Waldseemüller, que trazem o ângulo geográfico “onde está hoje fronteira entre o Chile e o Peru, está no mapa de 1507, localizado entre os 18 e 19 graus de latitude sul, virtualmente o mesmo local dos mapas de hoje em dia” (27), que não pode ser atribuído a coincidências ou mero acaso.

  • Da capacidade portuguesa para grandes navegações, descobertas e conquistas comprovam-nas o célebre mapa-múndi [invertido] de Desliens, Dieppe, 1567, onde a Austrália [Java Grande – já sugerida por Ptolomeu no século II] aparece como possessão portuguesa descoberta em 1522, por Cristóvão de Mendonça, mantida em segredo para não revelar o comércio português com Timor, Java e Nova Guiné, além do que Tordesilhas indicava aquele espaço, onde a Austrália, porção legalmente espanhola, embora a própria Espanha ainda não soubesse. De uma forma ou outra, coube ao holandês Willem Janszoom como primeiro europeu a desembarcar na Austrália, em 1606. 

O navegante português Duarte Pacheco Pereira foi o primeiro dar a conhecer, oficialmente, terras brasileiras dezoito meses antes de Cabral, entre novembro e dezembro de 1498, conforme partes de seu relatório da grande aventura: "(...) hanno de nosso senhor de mil quatrocentos e noventa e oito, donde nos vossa alteza mandou descobrir ha parte oucidental, passando além ha grandeza do mar oceano, onde he hachada e navegada hua tam grande terra firme, com muitas e grandes ilhas ajacentes a ella (...) he grandemente pouorada (...)". Rui Martins entende pelo relatório que em 1498, Pacheco Pereira teria conhecido a zona das Caraíbas (28) e nela desembarcado pelo menos uma vez, enquanto a certeza de se tratar dum continente [grande terra firme] significa que o navegante percorreu um largo segmento de costa.

A AMÉRICA MUITO ANTES DA PRÓPRIA HISTÓRIA


Na Era Mesozóica, durante os períodos do Jurássico e Triássico, os continentes eram um só bloco, por isso o nome Pangéia, ou seja, Pan – único e Geia – bloco de terra, homenagem mitológica grega à união de Pan – o alegre deus da fertilidade, com a jovial deusa Geia [Gaia] – a personificação da terra.

Quase nada se sabe da Pangéia, senão sua partilha lenta e gradual a carregar diferentes formas de vidas, num acontecimento iniciado aproximadamente há 200 milhões de anos que ainda prossegue nos dias atuais, conhecido por Deriva Continental, fenômeno responsável pelas atuais disposições dos continentes.

Os milhões de anos se passaram e aquelas formas de vida, algumas evoluíram para as diferentes e iguais espécies – outras intermediárias ou aparentadas, em lugares diversos conforme nos atestam as classificações ora arranjadas pela Ciência. Os primatas, até segunda ordem, surgiram há 50 milhões de anos e os primeiros hominídeos não ultrapassam os 5 milhões, para uma seqüência evolucionista mais conhecida somente a partir do Australopitecus, com cerca de 2,5 milhões de anos, Homo Habilis 1,8 milhões [tido por ancestral direto dos humanos], Homo Erectus de 1 milhão, passando por espécies paralelas, substituindo-as ou a elas não evolver para assim terminar no beco sem saída da evolução, por exemplo, o Homo Sapiens que chegou ao Neandertal – Homo Sapiens Neanderthalensis há 240 mil anos e extinto por volta de 30 mil anos.

O Homo Sapiens surgiu na África à cerca de 1 milhão de anos e lá iniciado sua lenta migração rumo norte, quando uma brusca mutação genética em algumas de suas hordas propiciou o surgimento do Sapiens-Sapiens, ainda na África, por diferentes padrões genéticos na humanidade atual, enquanto seus parentes já deixavam o continente original e chegavam à Eurásia. Não havendo consenso algum a respeito dessa brusca mutação genética, ousamos pretender que o elemento causador tenha sido o encontro entre grupos Sapiens com o Habilis, para a formação Sapiens-sapiens, por volta de 150 mil anos. 

Portanto, muito antes da era histórica civilizacional a 12 mil anos a.C, consonância ainda distante, diversas linhagens hominianas e seus descendentes presumíveis ocupavam a África, Europa e Ásia, como o Pitecantropo, Atlantropo, Sinantropo e outros além do Neandertal. Nesta época, há 120 mil anos, a espécie humana Sapiens-sapiens principiava em hordas ausentar-se do habitat primário para, gradativamente, vir ocupar cada espaço da terra em diferentes continentes e distantes arquipélagos ou isoladas ilhas.

  • A Era Civilizacional tem início quando da história humana registrada, isto entre os 8 a 12 mil anos para uns ou 6 mil anos para outros, consenso ainda distante.

Compreende-se que a espécie humana dispersou-se mais efetivamente a partir do Mediterrâneo rumo ao sudeste asiático, pela península arábica, ao norte e centro europeu, às regiões do Cáucaso e Mongólia para se chegar ao extremo oriente, com certas interações posteriores comprovadas pela filologia e outras Ciências responsáveis.

Antes que a Europa estivesse densamente povoada, o homem já chegava à Indonésia e Austrália quando, por esta época, elementos fortemente enegrecidos vindos das regiões savanas passaram pela Europa e Ásia, para entrar no continente americano, pelo Estreito de Bering, por volta de 70 mil anos (1), fugindo dos rigores climáticos que então cobriam de gelos toda a Escandinávia, norte da Inglaterra, norte da Alemanha e centro-sul da Rússia (2).

  • Os períodos glaciários acontecem quando as geleiras avançam, ou seja, maior quantidade de água se converte em gelo e o nível do mar rebaixa-se, em média 80-110 metros, o suficiente para formar passagens como as de Bering; da Austrália, pela Nova Guiné – em Estreito de Torres; ou Tasmânia – pelo Estreito Bass à franja de gelo da Antártida e, desta ao extremo da América do Sul, de maneira a permitir migrações humanas de um continente para outro. Findo o período, sempre seguido de grandes inundações, ocorrem retrações das geleiras nos denominados períodos interglaciais, dos quais vivemos o último.

Ainda ignoramos muito acerca desta primeira migração humana, mas lhe foi permitida a passagem pelo Bering durante todo o período de glaciação, entre os 70 de 50 mil anos quando, “com mais água na forma de gelo, o nível do mar desceu, criando uma rota terrestre, a Beríngia, para a colonização das Américas” (3), sem nenhuma pista quantas entradas aconteceram, se os bandos foram em grande número ou não, se todos da mesma origem.

Alguns cientistas consideram que a expansão pioneira na América [pré-histórica] não ultrapassava os 16 ou 20 quilômetros por geração (4), mais ou menos cada 25 anos (5), todavia outras sugestões assinalam 1 km/ano; desta forma acertadas as opiniões que os vestígios humanos de 40 a 50 mil anos, como restos de [carvões] de fogueira e artefatos de rocha lascada como peças de multiuso [talhadores], em São Raimundo Nonato – Piauí (6), possam mesmo atestar presença de descendentes negróides na região.

Outras amostragens arqueológicas de fragmentos ósseos, a exemplo do crânio do denominado Homem Californiano, cuja datação mais precisa “indica que o homem vivia nessas regiões [Norte América] há 48.000 anos” (7), difere das características de outros ancestrais surgidos milênios depois, como o siberiano primitivo, o asiático, o melanésio, o polinésio ou quaisquer outras contribuições étnicas mais recentes [10 – 7 mil anos] para a formação do homem americano.

Para o antropólogo Albert Goodyear, do Instituto de Arqueologia e Antropologia da Universidade da Carolina do Sul, “os primeiros assentamentos humanos na América do Norte surgiram há 50 mil anos” (8), pela Beríngia.

Entretanto, tudo muito discutível, para uns a teoria deveria ser repensada, melhor explicada, pois que as provas seriam frágeis diante de apenas um exemplar, acontecida talvez por acomodações indevidas do achado em comparação com o solo. Para outros, a datação não é exata, as variações podem ser de milênios, em especial quando nos diz da retração das geleiras, entre os 50 e 30 mil anos, com o Bering então submerso pelas águas do mar, a impedir passagem natural entre Ásia e América.

Mais aceito cientificamente, por volta dos 30 ou 28 mil anos, novamente o Bering abriu a passagem intercontinental entre a Ásia e a América. Dessa possibilidade se aproveitou o ancestral siberiano primitivo, oriundo do norte dos Montes Urais, de cuja análise cromossômica ou informação biológica da relação entre povos, “(...) identificamos populações da Sibéria que tinham ancestrais recentes comuns aos nativos americanos, os Altais e os Kets, com DNA muito semelhante” (9).

Estes povoadores nômades seguiram o deslocamento das manadas de animais, através da ponte de gelo, espalhando-se em ondas migratórias sucessivas por todo o continente, como provam os vestígios nos sítios de Meadowcroft [EUA], de Folsom [Califórnia – EUA], em costas pacíficas do México, Monte Verde [Chile], Monte Alegre [Brasil], todos antes da era Clóvis.

No entender de Anna Roosevelt aqueles homens “podem ter descido a Costa do Pacífico, chegando a Monte Alegre depois de cruzar a Colômbia” (10), desviando-se das grandes geleiras que cobriam maior parte do território norte-americano [Alasca, Canadá e Estados Unidos], descendo pela borda pacífica.

As evidências antigas da presença e a dispersão do homem nas Américas são em sua maioria, restos de fogueiras, artefatos de pedras lascadas [raspadores, pontas de flechas e facas] e cacos de cerâmicas. Outros exemplos, as pinturas rupestres demonstrativas do tipo de cultura praticada, modo de vida das populações, se caçadores de pequenos ou grandes animais, se coletores e de quais espécies; da geografia – flora, fauna e meio ambiente; das interações intra e intertribais; das crenças, tabus e superstições, entre demais características retratadas de cada tipo e época. 

Estes achados indicam não apenas o aproveitamento e as condições dos recursos naturais, bem como a ocasião das ocupações, sua evolução cultural e o tempo permanecido numa determinada região. São as denominadas Civilizações Pontas de Flechas, distinguidas pela indústria lítica daqueles instrumentos, assim o Ocidental Americano, Rabo de Peixe, El Jobo e Monte Alegre, como principais entrantes que precederam Clóvis.

Alguns estudos sugerem que o Ocidental Americano seja o mesmo El Jobo, com sítios arqueológicos em Monte Verde [Chile], Taimá [Venezuela] e Monte Alegre [Brasil], cuja presença humana remontaria aos 11.200 anos, com quatro reocupações decursivas (11).
Igualmente outras ocupações firmadas na mesma época, no baixo Amazonas, da-nos a certeza que seus ancestrais passaram pelo Bering muito antes do Povo de Clóvis, estimados os 18 ou 20 mil quilômetros do Bering a Monte Alegre, numa movimentação de 1 quilômetro / ano, ou que sejam os 16 – 20 quilômetros a cada geração [25 anos].

  • A merecer melhores estudos, alguns estudiosos apontam contemporâneas as culturas amazônicas Monte Alegre, Trombetas, Tapajós e Marajó – talvez uma única assim distribuída geograficamente. Entendemos Trombetas, Tapajós e Marajó, outras talvez ainda não localizadas, evoluídas a partir de Monte Alegre..

As conclusões ainda são polêmicas, os antepassados de Monte Alegre teriam chegado à América no ano 30 mil, enquanto o Povo de Clóvis somente atravessou o Bering por volta do ano 15 mil, e, para a Ciência, qualquer povo americano mais antigo seria seu descendente, não indo além dos 12 mil anos, conforme tese científica ainda predominante.

Demais chegadas do homem às Américas, cientificamente aceitas, mesmo aquelas ocorridas pelas Ilhas Aleutas – Caminhos das Aleutas, e pelos arquipélagos e ilhas da Oceania, apesar de notória contribuição para a formação do homem americano, nenhuma delas teria sido anterior ao Povo de Clóvis.

O fenômeno migratório asiático para a América, consoante a Ciência, ocorreu quando Canadá e Estados Unidos em grande parte estavam cobertos de gelo, pelas geleiras Laurentídea e Cordilheirana, com somente um corredor de terra firme por acesso à região de Clóvis, no México. Conseqüente de tal concepção e de acordo com amostragens conclusivas, o homem asiático chegou ao território brasileiro apenas há 7 mil anos, oriundo da costa norte peruana, ou seja, da Cultura Paiján. 

  • Quanto mais ao sul de Bering mais recente seria a ocupação humana, assim há 15 mil anos no Alasca, aos 12 mil no Novo México [EUA], em 10 mil na América Central e, apenas em 7 mil chegava ao Brasil norte.

Entretanto, recentes datações indicam presenças humanas no Brasil, em Lagoa Santa [MG] – sítio arqueológico da Lapa Vermelha e adjacências, entre os 2 e 12 mil anos, onde localizado em 1975 o crânio de uma mulher – denominada Luzia, com 11,5 mil anos. Luzia e sua parentela de traços negróides, olhos redondos, nariz largo e prognata, características nada em comum com algum outro homem fóssil já encontrado na América e aceito pela Ciência.

A descoberta de Luzia trouxe controvérsias nos meios científicos, por se pensar na época um exemplar único, considerados seus traços fisionômicos como anomalia e não regra entre os paleoíndios. Tais dúvidas e questionamentos duraram até que o antropólogo e bioarqueólogo brasileiro, Walter Neves (12), da Universidade de São Paulo – USP, estudou aquele fóssil em comparação a outras dezenas de restos humanos arqueológicos, guardados no Museu Arqueológico de Copenhague – Dinamarca, recolhidos na Caverna do Sumidouro, próximo de Lapa Vermelha, pelo naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund, na primeira metade do século XIX (13).

Os estudos de Neves classificaram e dataram aqueles fósseis como semelhantes e da mesma época de Luzia. Outros achados em Colômbia, também estudados por Neves, revelaram os mesmos constitutivos daqueles de Lagoa Santa.
Das conclusões de Neves temos a corroboração de Denis Russo Burgierman (14):

 “No mundo incerto da Arqueologia, a ciência que estuda os ancestrais humanos, a teoria mais aceita sobre o povoamento das Américas sustenta que povos asiáticos atravessaram o Bering, entre o Alasca e a Rússia, há 12.000 anos. Eles teriam aproveitado uma descida do nível dos oceanos para passar a pé pelo fundo do mar. Mas, para o antropólogo Walter Neves (...), antes deles chegaram povos mais antigos, com traços de negros africanos. Neves chegou a essa conclusão depois de medir detalhes anatômicos de cinqüenta crânios de Lagoa Santa, em Minas [Gerais], e na Colômbia. Se estiver certo, a primeira leva de migrantes teria saído da África e dado a volta ao mundo até Chegar aqui. Mais tarde, vieram os asiáticos, ancestrais dos índios de hoje – e que exterminaram os negros”. 

Burgierman, a despeito, nos revela que “Há 100.000 anos o sapiens [sapiens] migrou para a Ásia. Mas um grupo foi direto para a América”, para concluir que “(...) os primeiros a chegar à América foram os africanos (...)”.
Marcos Pivetta (15) asseriu dos estudos de Walter Neves:
“(...).

Para classificar essas oito dezenas de crânios mineiros como semelhantes, em termos de constituição física, aos habitantes atuais do Subsaara e da Oceania, Neves comparou, com a ajuda de vários modelos computacionais, cerca de 50 parâmetros morfológicos dos esqueletos com as medidas típicas dos principais grupos étnicos que compõem atualmente a população mundial.

Desde 1989 o pesquisador da USP e seus colaboradores defendem a tese de que as Américas foram colonizadas por duas correntes migratórias de caçadores e coletores, ambas vindas da Ásia, provavelmente pelo estreito de Bering, mas cada uma delas composta por grupos biológicos distintos. A primeira teria ocorrido 14 mil anos atrás e seus membros teriam aparência semelhante à de Luzia. Contudo, por razões ainda ignoradas, todos os seus descendentes parecem ter se extinguido depois de viverem aqui por alguns milhares de anos, não havendo hoje um só índio com traços semelhantes aos dos antigos habitantes de Lagoa Santa. O segundo grupo a entrar no Novo Mundo teria sido o dos povos mongolóides, aproximadamente há uns 11 mil anos, dos quais descendem atualmente todas as tribos indígenas das Américas. (. . .)”.

Respeitadas as opiniões de Neves e a retroatividade de sua teoria em apenas 3 mil anos, com relação ao Povo de Clóvis, por conseguinte dentro da margem de erro, os academicistas refutam-no ao reafirmar fechada aquela passagem do Bering, dos 20 aos 15/14 mil anos, depois reaberta quando então a primeira leva de grupos asiáticos, da Cultura Salutrense, para dominar o continente americano, sob o nome Cultura ou Povo de Clóvis, como designação do lugar mexicano onde encontrado artefatos produzidos por pessoas que lá habitaram, entre os 10.500 e 11.400 anos, impensável, deste modo, algum outro sítio arqueológico americano anterior aos 12 mil anos.

A partir destas discussões e provas levantadas, quebrou-se de fato a tese da homogeneidade étnica no continente americano. Para o antropólogo português, Mendes Corrêa, do mesmo modo se rompeu a unicidade de entrada dos primeiros humanos na América, apenas pelo Bering, ao propor a vinda de grupos desde a Austrália para a América do Sul, pelas ilhas da região Antártica, a saber, “Tasmânia, Ilhas Auckland, Campbell, Macária, Esmeralda, Terra de Wilkes, Terra de Eduardo VII, Terra de Graham” (16); caminho relativamente curto e de fácil cabotagem.

A teoria não é descabida, pois tanto quanto o Estreito de Bering se fechava entre o Alasca e a Sibéria, no hemisfério austral uma franja de gelo livre na costa Antártica se aproximava do continente americano ao sul, de modo a permitir estabelecimentos humanos.

Da presença australóide na América do Sul ainda se encontram traços culturais vistos nos aborígines australianos e sobreviventes na Cultura Tchon (17), dos quais dão-nos provas a antropologia, a etnografia e a lingüística; embora não haja, ainda, unanimidade histórica como este homem, sabidamente medíocre navegante, tenha vencido os caminhos para chegar às terras mais meridionais do novo continente (18). Outros descendentes seriam os Botocudos, no Brasil, mas sua extinção no século XIX, e o pouco estudo sobre eles, privam-nos de melhores compreensões histórico-científicas.

Desta forma, excluídas as ilhas e arquipélagos para alguma chegada transpacífica – mesmo por cabotagem, ao australóide restaria somente a Beríngia por caminho mais acertado; no entanto não foram encontrados, até o momento, vestígios deste povo nas Américas do Norte e Central. Pressupondo-o migrante do sul da China ou Sudeste Asiático, nenhuma data de sua presença, na América do Sul, combinaria com alguma passagem oferecida pelo Bering ou costas pacíficas. 

Com esta opinião não discordamos, em absoluto, da entrada tardia do elemento melanésio e outras culturas nas Américas, a exemplo da chinesa pelas ilhas do Pacífico, em maior parte pelas ilhas Polinésias. Paul Rivet concorda que a maioria das entradas humanas na América tenha mesmo ocorrido pela Beríngia, porém não rota única, ao lembrar que os navegadores melanésios ocuparam quase todas as ilhas do Pacífico, de Nova Zelândia à Ilha da Páscoa, de Samoa ao Havaí, sendo provas de contatos as evidências fisionômicas, os intercâmbios agrícolas e as influências culturais.

“Para um povo [melanésio] que havia conseguido a extraordinária façanha de descobrir as ilhas do Pacífico, alcançar a costa americana era coisa relativamente fácil; pensando bem, teria sido mesmo surpreendente que não o tivesse feito (...)”, conclui Paul Rivet (19).

Compreendemos, desta forma, que as ossadas encontradas em Lapa Vermelha e Caverna do Sumidouro eram de australóides, do mesmo grupo humano encontrado no sul da China e Sudeste da Ásia que migraram para Oceania e Austrália, e depois chegaram ao extremo da América do Sul, antes da elevação pós-glaciária que os isolou do resto do mundo.

Mesmo que observáveis certas dessemelhanças entre os paleoíndios sul-americanos em relação aos do norte, que evidenciam herança genética negróide nos suleiros, a Ciência ainda insiste que a ocupação humana na América ocorreu por migração asiática, da Ásia Central, em sucessivas levas enquanto o Bering assim permitiu.

Desta forma, as diferenças fisionômicas seriam mutações no processo evolutivo, de alguns milhares de anos, com isso a desconsiderar traços faciais dos sul-americanos com caracteres negróides, bastando aos cientistas argumentações que os índios sul-americanos são mais parecidos com os norte-americanos que qualquer outro povo, extinto ou não. 

Outros estudos contrapõem-se a este conservadorismo científico, pois que “(...) análises do DNA dos vários grupos humanos, segundo Vânia Prado, já permite verificar que, depois que os primeiros homens africanos, negróides, se instalaram na Ásia, parte deles passou por um processo de mongolização, gerando a raça amarela. Antes disso, no entanto, esses negróides empreenderam um processo de migração, com parte rumando para a Oceania e, ao que tudo indica outra parte seguindo para a América (...). O código genético dos índios americanos é semelhante ao dos povos nativos asiáticos, confirma Vânia Prado. (...). A análise do DNA das ossadas pré-históricas mais antigas da região de Lagoa Santa, contemporâneas de Luzia, poderá ser a chave para esclarecer o surgimento do homem americano e o próprio desenvolvimento das raças humanas (...). A captura do DNA de ossos pré-histórico é dificílima porque, após a morte, a tendência é que as enzimas das células quebrem suas seqüências moleculares, fazendo-as desaparecer. Identificando-se o código genético desses negróides pré-históricos, será possível saber se eles contribuíram na formação de alguns povos americanos (...)” (20)

Não obstante as evidências australóides na América do Sul, os cientistas que defendem este posicionamento ainda não sabem o suficiente, como se deu sua extinção, se por isolamento genético ou geográfico, durante os milênios a seguir, talvez absorvidos pelos mongolóides que chegaram depois, sobrevivendo apenas uns poucos elementos em remanescentes patagões da Cultura Tchon. 

Com as descobertas de fósseis humanos australóides, abaixo do Estreito de Magalhães – em Terra do Fogo, semelhantes àqueles encontrados no Brasil, uma vez comprovada sua anterioridade a Luzia, sem dúvidas a Ciência se renderá às necessidades revisionistas de antigas teorias a respeito da ocupação americana, desde os aspectos de homogeneidade genética às épocas e locais de entradas.

  • “Para reforçar ainda mais essa teoria, as configurações cranianas de Luzia foram encontradas em fósseis de mais ou menos 9.000 anos perto da cidade colombiana de Tequendama e na Terra do Fogo, do outro lado do Estreito de Magalhães, territorialmente localizado no fim da América do Sul. Portanto, atualmente, a hipótese de Walter Neves e Héctor Pucciarelli, acrescenta mais uma celeuma na conturbada história do povoamento americano” (21).

Não menos famoso e polêmico está o sitio arqueológico Pedra Furada, na Serra da Capivara, em São Raimundo Nonato [PI-Brasil], aonde a pesquisadora Niède Guindon – da Universidade de Campinas [SP], à frente de Missão Franco-Brasileira, teria encontrado vestígios humanos de 48 mil anos e pinturas do 15º milênio, sendo estas as evidências mais antigas de presença humana nas Américas.

Niéde argumenta que “Nesta região existem evidências de presença humana que remontam a 60.000 anos. O sítio Toca do Boqueirão da Pedra Furada, escavado entre 1978 e 1988, forneceu a mais completa estratigrafia até hoje encontrada nas Américas (Parenti, 2002, Parenti et al, 1990, Guidon and Delibrias, 1986, Guidon et al., 1994). Hoje podemos afirmar que a entrada de Homo sapiens para o continente americano fez-se em vagas que, saindo de diferente lugares, seguiram diferentes caminhos e que as primeiras devem ter entrado na América entre 150.000 e 100.000 anos atrás” (22).

Contrapondo-se, os especialistas “não estão suficientemente convencidos de que os carvões dos quais elas foram extraídas sejam provenientes de fogueiras feitas pelo homem, e acreditam que possam ser resultantes de combustões espontâneas no ambiente semi-árido da caatinga nordestina. Quanto aos artefatos e estruturas, por demais rudimentares, entendem que forças naturais poderiam ter produzido os lascamentos observados no material lítico, assim como reunido pedras e carvões em associações que apenas sugerem a existência de fogueiras” (23).

Em editorial de reportagem assinado por Carlos Vogt, “Para a arqueóloga Niéde Guidon, que escava a região desde os anos 80, não há dúvidas de interpretação a respeito da ação humana nesse contexto. `Colegas americanos da Texas A & M University, EUA, analisaram as peças líticas e, como nós, as consideram indubitavelmente feitas pelo homem. Para rebater a idéia de que o carvão podia vir de incêndios naturais, fizemos sondagens em todo o vale da Pedra Furada e o carvão somente existe dentro do sítio. Incêndios naturais deixam carvão para todos os lados´, explica a pesquisadora” (24).

  • A hipótese de presença humana em São Raimundo, se comprovada e aceita, certamente inviabilizará tudo aquilo que se pretende para a presença do homem em terras americanas. Mas não se pensa nisto para tão logo.

Enquanto os especialistas não chegam a um consenso dos grupos paleoíndios e procedências respectivas, a história parte do comum e incontestável, ou seja, quando os asiáticos principiaram entradas aos magotes pela América do Sul, dos 7 aos 3 mil anos. Quase em geral, referidas entradas ocorreram pelos caminhos da costa do Pacífico até a Patagônia, para daí se espalhar e ocupar virtualmente todo litoral Atlântico sul.

Os especialistas concordam dos possíveis encontros entre grupos já fixados com aqueles que chegavam, em sucessivos enriquecimentos genéticos, bandos repelindo-se, uns desalojados e interiorizando-se, outros se adregando para novos grupos e descendências.

Alguns grupos entraram em ambientes estranhos e hostis, onde as assimilações e plasticidades lhes exigiram diferentes modos de usos e manejos dos recursos naturais, bem como desenvolvimento da indústria lítica e cerâmicas ou pré-cerâmicas, e das formas e disposições sociais advindas de tais situações.

Por volta do século XV antes da era atual houve cessação migratória, e os hábitos se tornaram quase sedentários, com deslocamentos insignificantes, oportunidades de maior aumento populacional para formação dos Povos Sambaquieiros, divisos em mateiros e litorâneos, com dialetos fortes e fatores suficientes para formações lingüísticas próprias para diferenciá-los, mesmo entre si.   

A Cultura Sambaqui [Tamba – conchas, ki – amontoado ou colina] caracterizou-se conforme designação dada àquele povo consumidor de moluscos, crustáceos, peixes e outras variedades oferecidas pelo oceano, mangues, rios e lagoas, cujo hábito estava em amontoar conchas e cascas marinhas ou fluviais. Tais amontoados, sobrepostos com terras a cada geração ou de tempos em tempos, para morar sobre eles, porque constituíam lugar adequado, alto e seco dentro de uma região fluviomarinha ou meramente lacustre.  

Geralmente os mais antigos sítios, alguns além dos 7 mil anos, situavam-se junto às costas do Atlântico, depois outros interiorizados próximos, com as mesmas características de amontoados de terras, conchas e cascas marinhas, pois não constituía problemas o transporte de ostras, mariscos e outros produtos do mangue ou do mar, carregados até onde moravam, características próprias de divisão de trabalho tribal.

Os mais distantes usavam seixos, terras e restos apanhados dos rios, por isso denominado sambaquis fluviais – ou concheiros fluviais, como o encontrado na bacia do rio Jacupiranga, Vale do Ribeira, onde localizado o crânio de 8 mil anos, o mais antigo achado arqueológico [humano] paulista (25).

  • Existem quase três dezenas de sambaquis fluviais já descobertos em Vale do Ribeira, mais afastados do litoral. Entre as grutas abrigos, sítios cerâmicos e cemitérios indígenas, em Vale do Ribeira, com ocupações e reocupações humanas entre os 11 mil e 800 antes da era atual, seriam típicas mongolóides aquelas até 5 mil anos, e negróides / australóides as anteriores (26). Comprovadas as hipóteses certamente a Ciência necessitará de algum conceito de transição entre aqueles povos, e rever o que se pensava saber a respeito dos Sambaquis. 

As medidas dos sítios sambaquis eram variáveis, conforme número de famílias que neles moravam, em média medindo 150 metros de cumprimento, 80 de largura por 30 de altura, outros próximos aos 500 por 300, com altura de 50 metros ou mais. Alguns sambaquis tinham 7 ou mais cabanas, arredondadas e cobertas de sapé ou folhas de palmeiras, em cada uma delas moravam três ou quatro famílias, cada uma a ocupar um canto, sem divisórias.

Os Sambaquieiros deixaram os melhores vestígios arqueológicos dentre todos os povos do Brasil pré-cabraliano, pela própria formação de seu nicho ecológico onde estavam as moradias e os locais de sepultamento; igualmente encontrados instrumentos de usos diversos, como machados, facas e pontas, ao lado restos alimentares e carcaças de seres que conviviam ou dividiam um mesmo território. Pelos esqueletos se sabe que eles eram baixos e fortes, não guerreiros, pelas indicações de seus artefatos e instrumentos mais usuais.

Estes depósitos moradias situavam-se ao longo da costa oceânica, ou nas proximidades das lagoas e rios litorâneos, com partes de suas gentes cada vez mais propensas às interiorizações, tanto pelo aumento populacional quanto pelos desentendimentos tribais, em busca de lugares altos e próximos às margens dos rios. Destes feitos logo adquiriram hábitos e costumes próprios, de contínuo a depender daquilo que a natureza lhes oferecia, porque não eram dados a nomadismos seguidos e quase nada aos trabalhos da terra, permanecendo em único local por anos ou décadas.

A conformação dos Sambaquieiros com características peculiares para se fazer Povos dos Sambaquis conforme conhecidos, esteve presente em toda costa atlântica, desde abaixo do rio Amazonas e Ilha Marajó, à exceção talvez do litoral norte de São Paulo. Às margens e acima do Amazonas eram outras as tribos e a cultura mais uniforme e avançada, conforme as mencionadas Trombetas, Tapajós e Marajó que entendemos evoluídas de Monte Alegre.

Dos tempos dos Sambaquieiros eram os Jês, habitantes vindos do sul da América, mais historicamente dos plagais do Uruguai oriental, tidos descendentes dos australóides ou mestiçados daqueles paleoíndios com os primeiros entrantes asiáticos na América do Sul.

Unanimidade distante, trabalhos inconclusos, é admissível analogia entre australóides vistos no sul da América com o povo Jê, este na qualidade de descendente e cujos traços se assemelham ao negróide, ambos prognatas conforme crânios reconstituídos.

No Brasil costuma-se apontar o Jê Botocudo como descendente paleoindígena do Povo de Luzia, opinião compartilhada por João Paulo Atui, do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos da USP, em sua dissertação de mestrado (27) sob orientação de Walter Neves.

Revela-nos o Jornal da Ciência (28), Os Sobreviventes, que “crânios de índios extintos do Brasil Central indicam elo com primeiros povoadores da América” para assim concluir em Reinaldo José Lopes (29), “Os botocudos são, para todos os efeitos, paleoíndios”.
Estudos recentes e em andamentos indicam interiorizações de populações proto-históricas pelo interior paulista, em épocas dos Sambaquieiros e Jês, pelas regiões de Araraquara e margens do Paranapanema e Paraná, entre outras, com levantamentos de sítios com vestígios de lascas e pontas de flechas, resíduos de passagens – fogueiras, habitações, representações gravadas, dietas e sepultamentos.
Aquelas populações vindas do sul eram de caçadores, coletores e pescadores, presentes entre os 8 e 2 mil anos antes do presente, agrupados em diferentes denominações regionais, com destaques para as Tradições Humaitá, Umbu, Bituruna, Sarutaiá, Piraju e Itararé, bandos contemporâneos ou não, avizinhando-se, reocupando ou dividindo um mesmo território algumas vezes.

São distinguidas entre si pela apresentação de sítios líticos pré-cerâmicos, pelas pontas de flechas, tipos de habitações e tendências para certos ambientes naturais, como áreas entre rios, matas fechadas ou clareiras e regiões altas, planas ou baixas. Os especialistas vão mais a fundo nestes detalhes acrescidos de outros, para a maior coerência possível em separar grupos, como as datações de passagens, ossadas, pinturas e restos de dietas além dos métodos científicos comparativos entre indivíduos de diferentes bandos..

Características mais ou menos comuns em tais Tradições apontam-nas para a família Jê com lembranças Sambaquieiras, a sugerir descendentes diretamente miscigenados, e depois outras mestiçagens em sucessivas gerações, nunca concluídas para uma identidade política tribal, até porque substituídas por tribos mais modernas e melhores adaptadas para ocupação territorial, inclusive nas artes da guerra.

Mas, não se pode minimizar; a Ciência ainda não nos deu seu veredicto.   

Historicamente ao povo Jê se uniu o Tapuia, ou, o Não Tupi. Se os Tupis eram bons por serem submissos aos portugueses, os Tapuias eram os bárbaros.

Tapuia não seria nenhuma denominação tribal étnica, senão uma designação genérica a todos indígenas que não se deixavam evangelizar nem cativar ou que de uma maneira ou outra se opuseram aos conquistadores.

Realmente não existe nenhum tratado científico que possa determinar os Tapuias com alguma historiografia e antropologia anterior aos conquistadores europeus, que inclusive pudesse resgatar sua memória como grupo social de relativa homogeneidade cultural ou lingüística, ou de alguma história de origem comum a outras nações indígenas.

Alguns dados questionáveis colocam os Tapuias juntamente com outras tribos, unidas contra a presença dominadora dos Tupis e os Guaranis, quando estes entrantes em território brasileiro, portanto muito antes dos descobridores.
Registros inexistem, as interpretações são muitas vezes interpoladas ou sobrepostas para retroatividades enganosas. “Assim não seria exagero afirmar que esse binômio [Tupi – Tapuia] tem sido a chave classificatória fundamental e perpassar a documentação e a historiografia, dos cronistas do século XVI até mesmo aos trabalhos coevos” (30).

Os Tapuias seriam [mais aceitamente] sobreviventes de diversos povos indígenas, levados ao massacre pelos primeiros colonizadores portugueses, e que ganharam destaques no cenário histórico brasileiro pela união aos holandeses, no Rio Grande do Norte, na luta contra os portugueses e os aliados Tupi-Guaranis.

Dentre os Tapuias destaca-se a tribo Cariri, no nordeste do Brasil, formada por grupos migrantes diversos, em áreas entre o São Francisco [BA] e Parnaíba [PI] às serras do Araripe e da Ibiapaba. Nos Cariris do século XVI se identificavam diferentes agrupamentos regionais, de línguas distintas entre si, por isso a denominação Povo da Língua Travada, então com a primeira presença Jê.

Estudos mais recentes indicam os primeiros Tapuias possíveis descendentes dos protopolinésios vindos em migrações, por via transpacífica, para entradas em regiões do Brasil até o nordeste (31), depois de vários processos de miscigenações pelos caminhos, mas ainda com características negróides [australóides]. Daí sua identificação com os Jês, em causa das relações fonológicas quanto aos aspectos de nasalidade – as surdas e as vozeadas, dos sons emitidos, e outros fenômenos lingüísticos, estudados pela filologia, como identificações suficientes para se inserir o Tapuia na família lingüística do Tronco Macro-Jê.

Outras proximidades como designativos similares de lugares ou fenômenos naturais, traços culturais próximos, elementos de crenças, tradições, costumes e tabus, aproximam os Tapuias dos Jês. Apesar destas tantas similitudes das ligações Jês e Tapuias, quiçá nenhuma seja tão forte quanto às alianças tribais contra inimigos comuns, ligações fortalecidas posteriormente pelo bom êxito das empreitadas, já nas condições de povos unidos.

Prosseguindo a respeito das populações indígenas encontradas no Brasil, velhas tradições indicam que grupos Caribes, que se autodenominavam Tupinambás [verdadeiros filhos de Tu-Pã – Tupã], vindos das regiões caribenhas entraram em território venezuelano, por cabotagem pelo Atlântico, no ano mil a.C.

Algum tempo depois – não se sabe exatamente quando, por provável cisão tribal, dos Tupinambás saíram os guerreiros Tupis, [filhos de Tupã], que ingressaram em território brasileiro para ocupar o baixo do rio Madeira à Ilha de Marajó, no estuário do Amazonas, depois pelo litoral num processo de extermínio e aculturação dos Povos Amazônicos aos Sambaquieiros, para enfim chegar dominante às regiões de São Paulo.

Era o princípio pelo domínio territorial, numa longa e variada história, desde logo um desastre para os povos predecessores..
Dos Tupis despontaram os Guaranis, desde o rio Madeira, depois a bacia do Paraná e contornos do planalto brasileiro, a partir do noroeste pelas terras do Paraguai, Mato Grosso do Sul, oeste do Paraná, e enfim o reencontro com os Tupis ao sudeste, daí a expressão designativa Tupi-Guarani, ou seja, a reunificação dos Tupinambás no Brasil, por volta do ano 500 a.C. (32). Os Tupis dominavam o litoral desde Cananéia para o norte, e os Guaranis ao sul e as matas, em diversas tribos guerreiras. Dos avanços Tupi-guaranis retrocediam os chamados de Tabuis – Tapuias, nome depois genérico a todos os índios não submissos aos colonizadores.  

Para a nação Nuaruaque pretende-se inicialmente que grupos Aruaques foram expulsos da ilha caribenha Santa Lúcia (33), pelos Caraíbas. Por necessidade imposta chegaram à ilha Trinidad, defronte a foz do Orenoco, e dela passaram para o continente – na Guiana e norte do Brasil, em regiões do Amapá, baixo rio Amazonas e Ilha Marajó, onde assimilados por remanescentes Tupis para originar a nação Nuaruaque [Nu – meu, Aruwak – comedor de farinha], certamente alusão aos cultivos e preparos da mandioca e do milho.

Da lenda das amazonas, ainda referente ao Caraíba no norte do Brasil, viam-se sociedades sob regime matriarcado, a tratar-se de grupos caribenhos que entraram em terras do Brasil para a formação de singular sociedade indígena, aparentemente advinda das práticas de cultos vinculados ao mito matriarcado na região do alto Rio Negro e alto Xingu (34).

No entanto, há indicativos que eram os homens quem se vestiam de mulher em ocasiões especiais, para os cultos e tradições voltados ao sistema matriarcal de governo. Teria sido num momento assim que a expedição de Francisco de Orellana pode observá-los ao longe em ritos e oblações na foz do rio Nhamundá no Amazonas.   

Tais tradições se relacionam aos aspectos sociais e culturais melanésios, onde alguns estudiosos insistem na influência daqueles povos em tribos americanas do sul, com presenças através de vagas pela via transpacífica, antes de adentrar a Amazônia brasileira.

  • O nome Amazonas foi dado pelo capelão da viagem de Orellana, Padre Gaspar de Carvajal, que falou da existência de mulheres guerreiras às margens do rio. Pelos estudos atuais, as amazonas não eram lendas, virgens isoladas e nem mulheres que renegaram a tribo isolando-se nas matas e se tornaram guerreiras, somente a se relacionar com homens em certas ocasiões especiais e para reprodução, descartando as crianças do sexo masculino.

Numa visão geral eram estas as principais nações indígenas do Brasil, encontradas pelo conquistador português, com umas e outras variantes que apontam, outrossim, nações dos Tucanos, Panos, Nhambiquaras, Bororos e Carajás.

Evidentemente nada fácil defini-los todos apenas pelos bandos representados, estando alguns grupos lingüísticos distintos embora geograficamente próximos; enquanto distanciados outros consangüíneos pelos nomadismos e tradições adquiridas em outros ambientes, quase em geral de migração subgrupal ou discordos tribais.

Portanto, sem desvio algum dos objetivos, a chegada primeira de negróides, depois as sucessivas levas de asiáticos e a presença de australóides em continente americano, com maiores ou menores contribuições genéticas para formação do povo, ou de outras presenças discutíveis, civilizadoras ou não, podem e devem ser consideradas neste trabalho; por isso o fizemos, por as consideramos já situadas no campo científico do real e concreto.

OS CELTAS ANTES DOS VIQUINGUES – DEPOIS OS PORTUGUES E ESPANHÓIS


A presença celta em continente americano, séculos antes de Colombo, é hoje acontecimento histórico inquestionável, inclusive com ciência da Santa Sé que lhe cobrava impostos e os dízimos da produção pesqueira.

Compartilhavam aqueles segredos a França e a Noruega, depois Portugal e certamente povos outros europeus que preferiam comprar as mercadorias, já postas em seus portos, que se aventurar numa viagem que entediam além de seu próprio alcance, por motivos tecnológicos, financeiros ou de conhecimentos de navegação (1).

Mas os celtas não eram os únicos, os viquingues também conheciam a América, desde que lá chegaram perseguindo os celtas; e, se os celtas se dedicavam à pesca e religião, os viquingues optaram pela dominação e o comércio da madeira, trazendo para a Europa o pau-brasil, igualmente a manter em segredos seus conhecimentos.

  • O célebre Mapa Vinland [1423-1445], de autor desconhecido, mostra-nos as costas da Europa, Açores e parte da América do Norte, com a descrição da saga de Leif Eiriksson, o norueguês [filho de Erik o Vermelho] que no ano 1000 chegou à terra de Vinland. Documento referido (2), de autenticidade comprovada para o ano de 1434 [margem de erro de 11 anos], faz parte acervo de obras raras da Universidade de Yale [USA].

Os viquingues aportados no Golfo do México e interiorizando-se, realizaram importante obra civilizadora junto aos Astecas, Maias e tribos confederadas a estes povos. Renegados e expulsos pelos seus patrocinados, antes do ano 1000 [967/987], desceram mais para o sul, em terras já conhecidas e de onde exploravam o comércio madeireiro – pau-brasil para a Europa. Sabe-se que pelo menos um dos grupos se instalou nas costa atlântica da Venezuela, numa travessia terrestre de noventa anos até chegar ao Pacífico, terras do Equador onde se estabeleceu sua descendência, o Povo Atumuruna, para alcançar o Peru e formar um Império denominado Tiahuanaco, por volta 1100, povo do qual nos ocuparemos mais adiante.

Historiadores informam o pau-brasil, mercadoria corrente em quase todos os portos europeus, desde a Idade Média (3), como especiaria de preço e, sobre ela incidiam tarifas alfandegárias. A madeira gênero Caesalpina conhecida por Brazilis, ou outros tantos nomes próximos que lhe atribuem, não era exclusividade americana; a Ásia também possuía semelhante lenho cuja essência extraída, própria para tingimentos de tecidos, chegava aos portos europeus, conforme consta de registros alfandegários, em Veneza, Ferrara e Módena, entre os locais capazes de aportar os navios de maior calado.

Um ou outro autor admite uns poucos toros trazidos pelos árabes aos europeus, em pequenas e inadequadas embarcações pelo Mar Vermelho, depois arrastado pelas terras do Egito até o Mediterrâneo. Porém o transporte em larga escala que aparecem em outros registros como os da Espanha e França, se de procedência asiática somente seria possível sua embarcação pelo entorno africano, Índico-Atlântico (4), o que não se fazia na época, daí a se concluir que as espécies apanhadas seriam originárias da América Central ou do Sul – região do Brasil.

Louis Kervaran assegura-nos que o próprio Cristóvão Colombo esteve em costas americanas no ano de 1477, portanto quinze anos antes da histórica navegação de 1492, valendo-se da rota da Guilda dos Pescadores Celtas, também conhecida por Caminho dos Nórdicos, que lhe fora entregue pelo comandante da embarcação pesqueira Coatelem, na Ilha Brêbat (5). Colombo, antes de oferecer seus serviços a Portugal e Espanha, morou na Islândia (6) local a caminho de Terra Nova e Canadá, pela mencionada rota.

Enquanto Colombo em 1487 buscava financiamento para sua viagem, Portugal já possuía mapas descritivos da Pérsia, Egito, Índia, costa africana pelo Índico e a rota marítima que os persas, os árabes e hindus utilizavam para comércio com as regiões de Taprobana (Ceilão – Sri Lanka), Málaca (na Malásia), Molucas, Sumatra, Timor, Catai (China) e Cipangu [Japão]; portanto em condições de inaugurar o caminho para o oriente, graças aos eficientes serviços de seus espiões (7) como Pero Covilhã e Afonso de Paiva [este morto por doença na jornada] os quais, por terra, chegaram a norte da África, Pérsia e, pelo menos o primeiro, também em Índia e reinos costeiros da África Oriental, a exemplos de Moçambique e Abissínia [Etiópia].

Conhecedor da rota das especiarias e capaz de fazê-la em segurança relativa, mais pelos perigos do mar, Portugal sabia como e onde encontrar a Índia ou qualquer outro ponto asiático, pela África [Cabo da Boa Esperança] ou pela América do Sul [Cabo de Horn – Estreito de Magalhães]; portanto ciente que Colombo em 1492 não havia chegado ao Oriente, nem em terras além mar nunca dantes vistas por algum europeu, afinal seus navegantes sabiam do outro lado do Atlântico onde, desde o século X, monges celtas irlandeses e viquingues haviam fixado colônias.

Há reconhecimento histórico que os contatos celtas, entre a Europa e a América, foram interrompidos entre meados do século XII ao final do XIII, restabelecidos no século XIV “numa nova forma: os barcos iam pescar ao largo das costas da Terra Nova e da Groenlândia, mas não havia mais implantação na América” conforme destaques dados ao trabalho de Louis Kervaran, esclarecendo que os celtas americanos teriam sido dizimados pela peste negra – trazida da Europa, havendo também, em esqueletos das mulheres traços de degenerescência que as tornavam estéreis (8). Já os descendentes viquingues americanos deixaram de se relacionar com os europeus quando das suas obras civilizatórias na América do Sul, costas do Pacífico, e desaparecidos seus últimos mercadores do lado Atlântico. 

Se a Espanha, sempre às turras com os mouros em seu território, ignorava a América, resolvido seu problema doméstico despertou interesse pelas terras noticiadas por Colombo, para seu início expansionista além fronteira.

Do interesse espanhol em explorar as “novas terras”, a reação portuguesa foi imediata e somente satisfeita com a celebração do Tratado de Tordesilhas, em que todas as terras não cristãs descobertas ou a descobrir, situada até 370 léguas de uma das ilhas do Cabo Verde pertenceriam a Portugal, e para além seriam as posses espanholas. Dessa maneira, Portugal garantia direito não apenas sobre partes do Brasil, antes mesmo de descobri-lo, mas sobre todas demais terras da África e do Oriente, achadas ou a achar, dada esfericidade da Terra, cabendo à Espanha tão somente partes orientais para além das Ilhas Molucas, ou seja, um quase nada, excetuando suas conquistas americanas.

  • A linha de Tordesilhas na Indonésia dava Molucas a Portugal, mas a Espanha se sentindo prejudicada ocupou-as militarmente até o acordo final, quando Portugal acabou por comprá-las a um alto preço para evitar uma guerra, certamente muito mais cara e desinteressante, até porque o limite imposto pelo imaginário de Tordesilhas nunca ficara bem claro, e nem se sabia a partir de qual ilha do Arquipélago Cabo Verde eram contadas as léguas, e se estas seriam espanholas ou portuguesas, marítimas ou terrestres, todas de medidas diferentes e jamais acordadas.

Na América do Sul os portugueses contavam o imaginário Tordesilhas a partir do extremo ocidental da mais ocidental ilha [Santo Antão] do Arquipélago Cabo Verde, ou seja, passando por Belém ao norte e Laguna ao sul, enquanto aos espanhóis o corte sul ocorria em Iguape, com certa tolerância para Cananéia, onde Portugal já desembarcara seus degredados judeus. Essa indefinição, um quase nada diante do tanto a dispor, jamais foi solucionada enquanto vigorou o tratado, embora os espanhóis assumissem rápido o controle de Santa Catarina até o sul de Cananéia, inclusive interiorizando-se por todo Paraná [então espanhol], Paraguai, Bolívia e Peru.

Apesar das tantas falhas geográficas e divergências políticas entre Portugal e Espanha, em 1506 a Santa Sé enfim ratificou os termos do Tratado Tordesilhas, definindo as divisões do mundo extra-europeu não cristão em duas partes, espanholas e portuguesas.

Às pretensões monopolistas portuguesas e espanholas com as bênçãos da Santa Sé, reagiram os franceses, os ingleses e os holandeses, a infringirem, desde então, os monopólios de Portugal e Espanha; e, às reclamações portuguesas contra os entrelopos franceses, respondeu Francisco I, rei de França, com a célebre frase do anedotário histórico: “Não conheço, no testamento de Adão, nenhuma clausula que dê o mundo todo a Portugal e à Espanha” ou, segundo outra versão, “gostaria de ver a cláusula do testamento de Adão que me afastou da partilha do mundo".

JUDEUS DESTERRADOS A 25O. DE LATITUDE DA INSULLA BRASILIAE E OS PRIMEIROS ENTRADISTAS


Oficialmente Portugal iniciou a colonização no Brasil com exploradores pagos e os degredados, entre 1501 e 1502, trazidos primeiramente por Gaspar de Lemos e o cartógrafo Américo Vespúcio, numa expedição oficial de exploração e reconhecimento das novas terras (1).

O historiador português Jaime Cortesão, no entanto, informa que certo Cosme Fernandes Pessoa ficou no Brasil em 1498 ou 1499, como degredado, trazido numa viagem não oficial de Bartolomeu Dias, de acordo com documento de 24 de abril de 1499, encontrado tardiamente em Portugal (2). Cosme, que se tornou lenda como “Bacharel de Cananéia” ou Mestre Cosme, tratava-se de um judeu-espanhol, maçom e desordeiro político em Portugal.

Cuida tal expediente do cumprimento do Decreto Real Português, de 5 de dezembro de 1496, que dava aos judeus indesejados dez meses para abandonar o reino e, muitos dos que insistiram ficar ou não tinham para onde ir, foram presos em 1497 e degredados alguns, como consta no Livro dos Degredos, arquivado no museu do Tombo em Portugal, à 25º de latitude na Costa Sul do Grande Mar Oceano, a coincidir com a Ilha do Bom Abrigo – depois Ilha do Meio, a sul de Ilha Comprida no litoral sul paulista de Cananéia (3).

Não se sabe com certeza, por não constar em documento oficial, o ano do desembarque nem os nomes daqueles primeiros desterrados, pois se o Brasil foi descoberto no ano de 1500, Portugal não poderia mesmo reconhecer nenhum documento anterior, sob pena de reescrever a história e abrir precedentes outros, como a dita expedição do navegador André Gonçalves em 1497, que primeiramente teria desembarcado desterrados judeu-portugueses naquela mesma localidade Cananéia, entre os quais poderia estar Cosme.

Nunca se soube historicamente porque Portugal escolheu Cananéia para desembarcar seus proscritos, mas certamente o foi pela discórdia onde acontecia o divisor Tordesilhas ao sul da América, se em Laguna [SC] pelos portugueses ou em Iguape [litoral paulista] conforme os espanhóis (4), optando Portugal unilateralmente determinar o marco oficial em Ilha do Meio – Cananéia, por Martim Afonso de Souza, no ano de 1531, e assim, ao sul de Cananéia as terras seriam todas da coroa espanhola, ou seja, os atuais estados brasileiros do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Esta decisão divisória já estaria pensada em 1497/1499, pelo reino português, quando do desembarque dos desterrados em questão, motivos mais que suficientes para sérias disputas entre os dois reinos.

  • A divisão de terras americanas entre Portugal e Espanha, pelo Tratado Tordesilhas, determinava 370 léguas a oeste da Ilha de Santo Antão, [segundo Portugal], a mais extrema do Arquipélago de Cabo Verde. Mesmo assim jamais ficou certo se eram léguas portuguesas de 6.600 metros, ou as espanholas de 5.572 metros, até que Portugal firmou Laguna por linha demarcatória para seus interesses territoriais, situação nunca aceita pela Espanha.

Se os primeiros indesejados portugueses foram deixados em Cananéia, entre 1497 a 1502, se pode pressupor tenham sido eles os precursores a atingir o continente, interiorizando-se pelas matas, alguns bem sucedidos, outros trucidados. E a partir de Cananéia saia uma trilha indígena para, vencida a subida da serra, chegar às proximidades da atual localidade de São Miguel Arcanjo a findar em certo caminho de ligação entre duas sendas maiores e distantes, uma vinda desde o norte da Ilha Santa Catarina [SC] outra a partir de São Vicente [SP] (5), com encontro próximo a barra do rio Iguaçu e passar além do rio Paraná, para se findar junto às costas do Pacífico, Peru e Equador, depois de ultrapassar os atuais territórios do Paraguai e Bolívia.  

Desconhecendo-se os pioneiros europeus, também não se sabe quando tais caminhos pré-cabralianos foram percorridos pela primeira vez, nem qual a extensão de alguma possível incursão inaugural, mas a mais importante e longa viagem certamente tenha ocorrido entre 1502 a 1513, a partir de São Vicente para se chegar aos Andes, em pleno coração do Império Inca, passando pelas atuais cidades paulistas de São Paulo, Sorocaba, Botucatu, Avaré e Ourinhos onde, transposto o rio Paranapanema, seguia via terrestre até a hoje Peabiru e rumar a Iguaçu, cruzar o rio Paraná e atravessar os territórios paraguaio e boliviano para chegar a Cuzco [Peru], de onde o viajante poderia, caso desejasse, escolher a rota Arequipa [Peru] ou Quito [Equador] para se alcançar o Pacífico (6).

  • Atingido o rio Paranapanema também é possível por suas águas chegar ao Paraná e deste até Iguaçu para adentrar em terras hoje paraguaias e seguir os caminhos até os Andes e deste ao Pacífico.

Dessa viagem é o que entende Cortesão, se fundamentado que o galo, trazido com outras alimárias da Europa para Cananéia em 1502, já em 1513 aparecia na corte inca, levado numa expedição via Peabiru, causando pasmo tanto que o futuro governante adotaria o nome Atahuallpa, isto é, Galo. “Esta rapidez na disseminação dum elemento cultural prova quanto eram rápidas e ativas as comunicações através do continente (...)", conclui o historiador português (7).

  • Entendemos, no entanto, a possibilidade que tal ave tenha chegado ao império inca pelo Pacífico, também por volta de 1513 quando Vasco Nuñez de Balboa chegou pela primeira vez às costas do Pacífico Sul, e o galo, se componente daquela expedição, poderia ter sido introduzido em terras equatorianas por algum batedor indígena e, de pronto, levado às mãos dos incas, cujo império então se estendia até o Equador.

Respeitando Cortesão, tal viagem bem pode ter sido a primeira passagem do homem branco pelo Vale do Paranapanema, mas os registros são frágeis.

Com mais segurança histórica, o português Aleixo Garcia, à frente de quatro ou cinco portugueses e quase uma centena de índios pacificados, passou pelo Vale Paranapanema em 1526, numa viagem de São Vicente [SP] ao Peru, porém morto por assassínio no retorno foi substituído pelo capitão Pero Lobo, que chegou a São Vicente com produtos andinos e milhares de índios aprisionados (8). Em 1521 Aleixo Garcia, ou Alejo Garcia, a serviço da Espanha, já havia feito uma viagem a Potosi, Bolívia, pela Peabiru a partir do hoje estado de Santa Catarina, passando pelo atual Paraná, quando ambos ainda território espanhol (9).

O navegador italiano Sebastião Cabot [o], a soldo da Espanha, fez reconhecimentos do rio da Prata, Paraguai, Paraná, Iguatemi, Santo Anastácio, Paranapanema e Tietê, em 1526, ultrapassando os limites do Tordesilhas compreendidos em seu diário de bordo (10); também em 1526, Capitão Jorge Sedenho [Sedeño], numa incursão espanhola pelo rio Tietê guerreou com índios (11).

Francisco de Chaves, genro de Cosme e igualmente degredado, com autorização do colonizador Martim Afonso de Souza, partiu de São Vicente em 1º de setembro de 1531 com o capitão Pero Lobo, mais cerca de cem homens armados e um sem número de indígenas escravizados, rumo aos Andes via Paranapanema, prometendo grande carregamento de ouro e prata além de escravos, mas quatro meses depois, na travessia do Rio Paraná, a expedição foi destroçada pelos índios guaranis (12).

O historiador e cronista paraguaçuense, José Jorge Junior, em mesmo capítulo que diz de Sedeño e Cabot, conforme acima, assinala presenças de outros espanhóis estabelecidos junto à foz do Rio Piquiri, fundadores da povoação Cidade Real de Guaíra – Ciudad Real Del Guayrá, em 1537, como núcleo de apoio para caçadores de índios, que praticavam seus ofícios a partir dos rios Paraná com Paranapanema, até altura do Tibagi. Sabe-se que, pouco mais tarde, na confluência dos rios Corumbataí com o Ivai, seria fundado Vila Rica do [del] Espírito Santo.

  • Os espanhóis caçavam índios e procuravam riquezas naturais de ambos os lados do rio Paranapanema até proximidades do rio Capivara, pelo lado paulista, e do paranaense rio Tibagi, embrenhando-se mata adentro por trilhas indígenas às margens daqueles rios.

Os estudiosos, Francisco Silva Noelli e Lucio Tadeu Mota (13), em trabalho conjunto, assinalam uma série de viagens de reinóis e colonos hispanos pela Peabiru São Vicente, quase todas a partir de Assunção e a passar por regiões do Paranapanema, então grande parte dentro de território espanhol, das quais destacamos algumas e acrescemos outras a seguir, por exemplo, a expedição comercial sob comando de Cristóvão de Saavedra, vindo de Assunção a São Vicente em 1551.

Hernando de Salazar também realizou uma caminhada de Assunção a São Vicente, no ano de 1552, a mostrar certa regularidade de tráfego e comércio entre São Vicente e Assunção.

Ruy Dias Melgarejo, em 1553, partiu de Ontiveros [Província do Guairá no antigo Paraná espanhol] com destino a São Vicente, trazendo milhares de índios aprisionados e mercadorias prontas para entregas em São Vicente, vindo permanecer no Brasil por dois anos, até 1555 quando retornou a Assunção pela Peabiru Santa Catarina (14). Para Noelli e Mota, Melgarejo teve destacado papel entre os conquistadores espanhóis ao participar da fundação de Cidade Real de Guairá, na foz do rio Piquiri, e do segundo assentamento de Vila Rica do Espírito Santo, foz do rio Corumbataí, enquanto outros historiadores (15) confirmam tais localidades fundadas entre 1537 e 1539, respectivamente, portanto antes da própria presença de Melgarejo na América do Sul ocorrida em 1541.

Ulrich Schmidel, alemão a serviço militar dos governos paraguaios [de Fernando Mendonça, Domingos Martinez Irala e Álvaro Nuñez Cabeza de Vaca], chegou a São Vicente, em visita oficial, para discutir uso portuário e traçar diretrizes do caminho Peabiru, no ano de 1553. Schmidel já havia feito o caminho de Santa Catarina a Assunção anos antes, em 1541, juntamente com Melgarejo, na expedição [já citada] de Cabeza de Vaca. 

Tais viagens, exemplos comprovados dentre as ausentes do compendio histórico, chamaram atenções do Governador Geral do Brasil, Tomé de Souza, quanto à prática exagerada de contrabando espanhol em partes do Brasil, do uso indevido do Porto de São Vicente, além da aparente ameaça ocupacional ou de exploração às terras de Portugal, quando espanhóis nelas entravam para procurar riquezas naturais ou capturar índios para as encomiendas, um ou outro com intenções de fixação.

O Vale do Paranapanema era, portanto, passagem do histórico caminho do Peabiru na parte que, do Oceano Pacífico estendia-se até São Vicente, no Atlântico, um caminho percorrido por indígenas, com tráfego bem mais agitado quando das andanças do homem branco recém-chegado às terras da América do Sul.

A despeito da visita e discussão diplomática de Schmidel com representantes brasílico-portugueses, Tomé de Souza resolveu proibir o uso daquela estrada em território brasileiro, conseqüentemente fechando o porto São Vicente aos espanhóis, conforme carta, de 1o. de junho de 1553, encaminhada ao rei português: “Achey que os de Sam Vicente se comunicavão muyto com os castelhanos e tanto que na Alfândega rendeu este ano passado cem cruzados de direitos de cousas que os castelhanos trazem a vender. E por ser com esta gente que parece que por castelhanos não se pode V.A. desapeguar delles em nenhuã parte, hordeney com grandes penas que este caminho se evitasse, ate ho fazer saber a V.A. e por nisso grandes guardas e foy a causa por honde folguey de fazer as povoações que tenho dito no campo de Sam Vicente de maneira que me parece que o caminho estará vedado...” (16).

Além do contrabando, também havia a preocupação de defesa territorial com as aparentes invasões hispânicas ao Brasil, porquanto os espanhóis tinham sua própria Peabiru, a partir de Santa Catarina, toda ela por território espanhol, de maneira nada a justificar o uso da estrada de São Vicente e seu porto pelos hispano-americanos.

  • Os espanhóis utilizavam Cananéia ou pouco abaixo desta, para se chegar à Peabiru Santa Catarina, na altura de Ponta Grossa [PR], por considerá-la dentro de suas possessões pelo Tordesilhas.

O caminho Peabiru foi, portanto, de suma importância para a interiorização européia ainda que a considerar somente o período pós Cabral, ou sejam, os bandeirantes, os soldados, os religiosos, muitos aventureiros e os escravos indígenas e negros, todos grandes artífices do Brasil futuro, na visão dos historiadores.

PARÊNTESE HISTÓRICO: “EL REY” MESTRE COSME FERNANDES PESSOA, O BACHAREL E MESTRE EM CANANÉIA 


Antecedendo ou não aos demais judeus degredados e presos comuns, todos igualmente banidos de Portugal e confinados em Cananéia, Cosme Fernandes Pessoa logo se revelou líder, conquistou os indígenas regionais, teve muitas mulheres nativas e com elas gerou filhos e filhas.

  • Outros degredados foram deixados em diferentes localidades litorâneas do Brasil, assunto, todavia, não aplicável ao presente trabalho.

Presa fácil em território desconhecido, Mestre Cosme percebeu, em curto tempo que esteve prisioneiro de índios e lhes ganhou confiança, que a união com seus aprisionadores contra inimigos outros, o uso das artimanhas e os terrores aplicados pela armas de fogo e as dadas, e futuramente uso de cavalos, eram os meios mais eficazes para subjugar tribos hostis e se tornou ele o primeiro traficante de escravos indígenas do Brasil, grandemente fortalecido tanto que, por volta de 1510 invadiu e assumiu controle da feitoria portuguesa de São Vicente [Gaiaó ou Guaiaó] – com uns poucos habitantes (1), onde ergueu pelo menos um forte, construiu estaleiro e instalou porto de tráfico de escravos aborígines, com capacidade de abastecer todos os interessados europeus em qualquer ponto do mundo conhecido.

Seis anos depois daquela invasão, São Vicente já era povoado promissor, com moradias e ruas organizadas, comércio de variedades, além do viveiro de escravos, o que certamente levou aportar por lá o navegador Diego Garcia, em 1528, para reabastecimento, vindo adquirir de Cosme um bergantim e mais de oitocentos índios aprisionados para mão de obra escrava, negociação relatada em documento Texto da Memória de Diego Garcia, assinado pelo próprio, transcrito em grafia atual (2):

“(...) E daqui fomos tomar refresco [provisões] em S. Vicente que está em 24 graus, e ali vive um Bacharel e uns genros seus há muito tempo que há bem uns 30 anos, e ali estivemos até 15 de janeiro do ano seguinte de 27 [1528, segundo estudiosos] e aqui tomamos muito refresco de carne e pescado e de vitualhas [alimentos] da terra para provisão de nossa nau, e água e lenha, e tudo o que tínhamos necessidade, e comprei de um genro deste Bacharel um bergantim que nos prestou muito serviço, e mais o próprio se acertou conosco de ir como intérprete ao rio [da Prata] e este Bacharel com seus genros fizeram comigo um contrato de fretamento para que trouxesse a Espanha com a nau grande oitocentos escravos, e eu o fiz com o acordo de todos meus oficiais e contadores e tesoureiros que chegando no rio mandássemos a nau porque a nau não podia entrar no rio, porque muitas vezes o disse o Conde D. Fernando e os feitores que montaram a armada, que aquela nau não podia entrar no rio que era muito grande, e eles não quiseram senão fazê-la levar carregada de escravos, por que eles não fizeram nem me deram a armada que S. M. mandou que me dessem, e o que com eles eu tinha acertado e assentado e firmado de S. M., mas antes fizeram o contrário que me deram a nau grande e não conforme o que S. M. mandava, e não me deram no prazo que foi determinado por S. M. que me a dessem entrando setembro, e eles me deram em meados de janeiro que não mais podia eu aproveitar dela porque aqui V. M. o verá por esta navegação e está ali uma gente com o Bacharel que come carne humana e é muito boa gente muito amigos dos cristãos que se chamam Topies [Tupis] (...)”.

Entre 1520/1530, “De São Vicente, saíram colonos que se estenderam para o norte, até Angra dos Reis, e para o sul, até Laguna” (3), estabelecendo os pequenos arraiais e grandes propriedades pelos caminhos que bem destacam a importância de Cosme em controlar caminhos e terras das Minas Gerais, Rio, São Paulo, Paraná e Santa Catarina, antes da chegada de Martim Afonso de Souza.

Cosme conhecia os caminhos que levavam aos Andes, juntamente com seu genro Francisco Chaves e o companheiro Pero Lobo, de onde traziam riquezas, ouro, prata e escravos – estes tomados pelos caminhos. Foi rumo ao Peru que aconteceu os primeiros apossamentos de terras, já alcançados o Planalto Piratininga e adjacências, onde viviam João Ramalho (4) e seus agregados, para dar início ao processo de interiorização, quando chegou ao Brasil, em 1531, o colonizador Martim Afonso de Souza, designado e investido de todos os poderes pelo rei de Portugal, para governar e colonizar o Brasil a partir de São Vicente, também trazendo a determinação real de expulsar Cosme Fernandes e fazê-lo voltar a Cananéia, local de seu confinamento legal (5).

  • Cosme fora denunciado às autoridades portuguesas, por seus amigos Pedro Capico e Henrique Montes (6), de estar aliado aos judeus expulsos de Portugal que residiam em terras espanholas, mais ao sul de Cananéia, para onde a Espanha também já estaria enviando seus judeu-espanhóis, num acordo mútuo de interesses, além de oferecer oportunidades a judeus de outras nacionalidades, para se apossarem de terras abaixo de Iguape e Cananéia até Laguna [SC], espécie de terras de ninguém ou em discussão onde realmente o imaginário Tordesilhas (7).

Cosme Fernandes Pessoa retornou ao seu degredo sem nenhuma resistência, em agosto de 1531, depois de ouvir concidadãos que estiveram reunidos com Martim Afonso de Souza, em Bertioga. A História, no entanto, informa que Mestre Cosme ao se retirar fez incendiar São Vicente, como vingança, o que hoje não se sustenta vista que em registros de 1532, tempos depois localizados, não consta destruição daquela Vila por fogo; antes a descreve próspera e que nela se fez realizar, naquele mesmo ano, a primeira eleição parlamentar da América pelo voto popular (8).

  • Parece-nos óbvio que Portugal jamais admitiria a fundação de uma localidade, tão importante, por um judeu subversivo com pretensões de criar um reino na América, conforme seus denunciantes. A história oficial informa que em 1532 Martim Afonso refundou São Vicente sobre os escombros da antiga feitoria de Guaiaó, mas o incêndio somente viria ocorrer em 1533 por razões de guerra.

Com a retirada de Cosme, Martim Afonso avançou o domínio português às terras de Iguape e Cananéia, obrigando seus ocupantes prestar obediência ao rei de Portugal sob pena de expulsão, confisco de bens ou a morte em caso de resistência, sendo naquela ocasião, dezembro de 1531, na Ilha do Bom Abrigo, que Martim avistou o alcantil Itacuruçá, Ilha do Cardoso, onde fez colocar o marco de pedra, com as quinas de Portugal, por ponto sul divisor da América entre portugueses e espanhóis (9).

  • A atitude de Martim Afonso foi decorrente dos acontecimentos à expedição de Pero Lobo rumo ao Andes, aparentemente dizimada pelos índios guaranis [carijós], nas proximidades de atual Foz do Iguaçu, durante a travessia do rio Paraná, mas que Martim entendeu ser a mando de Cosme. Pero Lobo que conhecia a rota Peabiru e sabia do Peru, em setembro de 1531 vendera seus serviços a Martim Afonso, com a promessa riquezas e escravos, contrariando interesses de Cosme.

Prosseguindo intento intervencionista, Martim Afonso de Souza deu ultimato ao espanhol Ruy Garcia Moschera, estabelecido ao sul de Iguape, para que este deixasse a região em trinta dias, por considerá-la dentro do território português pelo Tratado de Tordesilhas. Tudo parecia fácil quando Cosme, aliando-se a Moschera, a outros espanhóis e demais descontentes, capturou um navio de guerra francês e todo seu armamento, construiu trincheiras e organizou uma resistência, tão feroz, que os soldados a serviço de Martim Afonso, inadvertidos, perderam de pronto oitenta homens e teve ferido e aprisionado seu comandante Pero de Góis, alguns sobreviventes e a própria embarcação de guerra (10).

O embate ganhara proporção duma guerra de interesses territoriais americanos entre espanhóis e portugueses, a “Guerra de Iguape”, com os homens de Cosme, de Moschera e aliados resolvidos atacarem São Vicente, num ardil com o navio de Pero à frente como em retorno vitorioso da empreitada, para desfechar tão violento ataque surpresa que deixou São Vicente sob cinzas, depois de saqueada “pelos espanhóis vindos do sul, do Iguape” (11), obrigando Portugal fundar novo porto em outra localidade, Santos, por Braz Cubas em 1536.

Martim Afonso, desgostoso, partiu para a Europa em maio de 1533, deixando para trás todos seus bens e nunca mais retornou ao Brasil, como testemunha ímpar que o poder de El Rey Cosme Fernandes Pessoa era superior às pretensões portuguesas, em valer seus direitos, nas terras do Brasil a partir de São Vicente rumo ao sul.

El Rey Cosme manteve São Vicente sob seu domínio até 1537, quando provavelmente morto pelos Carijós (12) que lhe davam sustentação militar e segurança pessoal. A partir de então, São Vicente perdeu sua importância estratégica entre Portugal e Espanha, para aos poucos retornar ao domínio português.

Demais feitos de Mestre Cosme Fernandes Pessoa e das suas relações com Portugal e Espanha, acham-se em outros livros não oficiais e sítios eletrônicos.

DO ATLÂNTICO AO PACÍFICO PELO VALE PARANAPANEMA


De origem incerta, Peabyru teria o significado tupi de Pe – caminho e Abyru – gramado / grama amassada; ou Pe-Biru – Caminho para o Biru [Rio] como seria conhecido o atual Peru, sem descartar Pe-Abyu – Caminho para a Montanha do Sol, numa tradução nada confiável. Genericamente Peabyru [Peabiru] seriam as antigas trilhas ou caminhos indígenas, por terra e rios, quase sempre unificados, com lugar de partida para determinado destino.

Ousamos que a palavra seja expungida de algum original para Pe-Apiru  [Pe-Paru] – pronúncia assemelhada a Pe-Abiru [Pe-Biru] – Caminho para o Rio Aurífero, conforme entendimento em Henrique Onffroy de Thoron, na sua monografia histórico-filológica Voyages dês Vaisseaus de Salomon au Fleuve dês Amazones, publicada em Genova [Itália 1869] e Manaus [Brasil 1876], ao tratar das viagens do fenício Hiran, rei de Tiro, a serviço do rei hebreu Salomão ao Peru, pelo rio Amazonas, entre 993-960 aC, a qual permite-nos juízo no bíblico I Reis 10:11, cujo original transliterado Apir [Aypir – versão samaritana] estaria para Ofir com significado de água. Em I Crônicas 29:4, Apira [aquele que trabalha na água ou minerador], igual Aypira, I Reis 9:28, traduzida por Ofir, enquanto II Crônicas 3:6 informa que o ouro [de Ofir] era das águas de Parvaim ou Farvaim, no sentido de rios que se encontram, com a transliteração Parva-im obliterada do hebraico Paru-im – rios auríferos, considerando plural a terminação hebraica ‘im’.

  • Diante do mesmo silêncio bíblico a Ofir, Paru-im tão somente remete-nos ao Peru, onde os rios Paru e Apu-Paru [Paru e rico Paru] unem suas águas [Apurimac] para formar o Ucayale, nome pelo qual se conhecia o rio Amazonas por volta de 1000 a.C.

No Brasil sul-sudeste, a partir do Atlântico rumo aos Andes, duas rotas de oito palmos de largueza se destacavam como estradas que se uniam, em território paraguaio, rumo Cuzco de onde se podia chegar ao Pacífico por outros dois caminhos, um até Arequipo [a] – Peru, outro até as costas do Equador. Cobertas de gramíneas especiais que impediam crescimento de arvores, arbustos e ervas daninhas, tais estradas partiam, uma de São Vicente [SP] e outra do norte da Ilha de Santa Catarina [SC], sendo aquela de São Vicente passante pelas hoje localidades de São Paulo, Sorocaba, Botucatu, Avaré e Ourinhos para, despassado o Paranapanema, ir além de Cambará, Cornélio Procópio Londrina, Apucarana e chegar ao município de Peabiru (1), num encontro de trilhas menores, com a estrada principal rumo sul-sudeste até a barra do rio Iguaçu [Yguazu].

O outro trecho (2) saia do atual estado de Santa Catarina – ao norte da ilha do mesmo nome, para entrar em território paranaense em direção noroeste até o rio Iguaçu [Yguazu], e por este até sua foz onde o encontro com o caminho São Vicente para a rota única do outro lado do rio Paraná.

Além dos dois troncos principais em território brasileiro, Wilson Olipa (3) destaca as “ramificações [da Santa Catarina] que passavam pelos atuais municípios [paranaenses] de Campo Mourão, Engenheiro Beltrão, Luiziania, Nova Cantu, Campina da Lagoa, Ubiratã, Mamborê e Peabiru”.

Do lado paulista um desgarro deixava a Serra de Botucatu, das cabeceiras do rio Pardo e, por um antigo picadão às suas proximidades, descer às alturas das confrontações Óleo / Santa Cruz do Rio Pardo [onde atual Fazenda Guacho] (4) em direção ao Paranapanema, pouco abaixo das quedas de Paranan-Itu, onde entendemos Salto Grande (5).

Da mesma Botucatu uma variante até às cabeceiras do rio Capivara para, às suas margens, chegar ao mesmo rio Paranapanema, de onde partiam caminhos dentre eles um para o extremo oeste paulista [Serra do Diabo e Corredeira do Frade], outro para os lados do ribeirão Laranja Doce, além do feixe Macaúba que interligava os rios Paranapanema e Peixe com outros sub-ramais pelas bacias do Sapé, Pontinhas e Água da Morte – territórios agora de Paraguaçu Paulista, para se tornar único a partir de Quatá, que em final do século XIX se tornariam teatro dos mais violentos encontros, entre índios e brancos, na história do Vale do Paranapanema (6).

As Peabirus, Santa Catarina e São Vicente, eram obras extraordinariamente bem engenhadas, que não chegaram íntegras aos dias atuais, senão as partes de trechos servindo de base e direção para algumas das atuais estradas de rodagens, outras incorporadas às grandes fazendas e assim abandonadas até o desaparecimento total.

Não se sabe quem os realizadores daquelas estradas. Difusionistas apontam os Incas embora se desconheçam os motivos. Entendemo-las obras dos Atumurunas, entre os séculos XIII e XIV, quando refugiados em territórios brasileiro e paraguaio, cujas lembranças históricas até bem pouco se encontravam nos Guayakis, os índios louros do Paraguai (7).

A nação Atumuruna, descendente de escandinavos [viquingues], foi fundadora, no século XI, do grande império Tiahuanaco com diversas tribos indígenas tributárias ou confederadas, a exemplo dos revoltosos Araucanos [Chile] que à frente dos outros descontentes, derrotaram o Império e exterminaram parte dos Atumurunas, com sobreviventes que de alguma forma chegaram ao Paraguai, por via terrestre, e ao Brasil ao transpor o rio Paraná ou por ele descer até o Atlântico, para depois chegar a determinados pontos do litoral brasileiro, Santa Catarina e São Vicente, como etapas desenhadas da futura vereda Atlântico-Paraguai-Andes e Pacífico.

Relatos de expedições a serviço de Espanha mostram também o uso fluvial dos rios Prata, Paraná e Paraguai, diríamos Rota Cone Sul, para se chegar à estrada Peabiru, lado paraguaio (8) para seguir adiante até os Andes e Pacífico.

Estudiosos mais ousados, uns e outros citados por Jean-Claude Valla (9), não hesitam apontar o uso de um estreito [futuro Magalhães], no extremo sul americano a interligar os oceanos Pacífico e Atlântico, conhecido e utilizado pelos Atumurunas.

Os especialistas citados por Valla, não só concordam o uso daquele caminho oceânico para os Atumurunas que se refugiaram em terras do Brasil, como apontam outros sobreviventes em ilhas do Pacífico, a exemplos dos Kaole no Taiti e dos Ehu no Havaí, mais os misteriosos homens louros de algumas das ilhas polinésias (10). Também dizem dos índios brasileiros de pele clara, os chamados Auati – gentes de cabelos claros, vinculados aos Guaranis e citados em crônicas dos primeiros tempos do Brasil português, excluídos aqueles originados ou com eles confundidos das relações indígenas com espanhóis e holandeses.

  • Admite-se a rota terrestre Paraguai-Andes-Pacífico desde a fundação do Império Tiahuanaco, sendo os trajetos, da margem esquerda do rio Paraná ao Atlântico, construções mais recentes, ou seja, depois da entrada Atumuruna em terras do Brasil.

Alguma similitude existente entre as estradas Peabiru, baseada em antigos relatos, com certas construções observáveis em sítios arqueológicos do império Tiahuanaco, como aterros, calçamentos, ruas e estradas, apontam pelo menos para uma origem comum daquelas construções (11).

Foi essa mesma estrada a partir de São Vicente, que o governador geral Tomé de Souza em 1553 proibiu trânsito dentro do território brasileiro, com a argumentação da fácil comunicação entre a Vila de São Vicente com as colônias castelhanas, situadas em Peru, Bolívia, Paraguai e Guairá [antigo Paraná espanhol], para se evitar prejuízos à Coroa Portuguesa com os contrabandos exercidos através dela.

Se a proibição não alcançou os efeitos pretendidos nem evitou circulações por ela, no entanto causaram-lhe os descuidados de manutenção oficial, principalmente em seus pontos elevados, aterros, pontes elevadiças, empedramentos, nivelamentos e rebaixamento de certos trechos sujeitos aos alagamentos.

Pelo lado espanhol, a Peabiru também deixou de ser importante entre os Andes e o imaginário Tordesilhas, preocupados que estavam os espanhóis com as riquezas do Peru e Bolívia, até o escassear do ouro e da prata, quando reiniciaram a interiorização exploratória e de fixação do Vice-Reino Espanhol do Rio da Prata em terras paraguaias, pelos rios Paraná, Paranapanema e Tietê, em busca de interesses para a Coroa Espanhola, com isso a revitalizar a Peabiru a partir do ano de 1603 quando Espanha, Portugal e respectivas colônias então um só reino. 

Não podemos desconsiderar aquele trecho de Cananéia a São Miguel Arcanjo, onde encontrava o ramal de ligação da Peabiru de São Vicente – na altura de Sorocaba [SP] / com aquela vinda Santa Catarina, na hoje localidade de Ponta Grossa [PR]. Estes percursos foram de intensa utilização nos primeiros tempos de dominação ibérica em terras da América do Sul, do Atlântico aos Andes.

O SERTÃO NOS CAMINHOS DAS ENTRADAS E BANDEIRAS


O Vale Paranapanema, com tudo o de bom e tudo o de ruim, tem seus primórdios calcados nas trilhas indígenas, mais necessariamente no Caminho do Peabiru, a vereda pré-cabraliana de maior importância a ligar São Vicente [SP] ao Peru.

Nenhum historiador atual contesta presença do homem branco no Planalto Piratininga, por volta de 1532, pela Peabiru, quando “Martim Afonso de Souza (...) perlongava o litoral e fazia as primeiras penetrações no interior” (1), através dos colonos de São Vicente que alcançaram e firmaram as fundações de Santo André da Borda do Campo e Piratininga [São Paulo]. Sérgio Buarque de Holanda confirma:

  • “O nucleo originario da atual São Paulo é notorio que não foi ali, mas em lugar distante duas leguas para o sertão, à margem do rio que então se chamava Piratininga e, de fato, ‘onde Martim Afonso de Sousa primeiro povoou’. Sabe-se hoje que a fundação dessa nova aldeia, por iniciativa e esforço de Nobrega, ocorreu no dia 29 de agosto de 1553. Quando, a 25 de janeiro do ano seguinte, se inaugurou a casa nova. (...). Nesse caso não é audacioso dizer que o povoado de Nóbrega se enlaça perfeitamente ao de Martim Afonso e, assim, que as comemorações atuais se hão de referir, não tanto à fundação inicial, como a uma segunda e definitiva fundação. A primeira dataria, em realidade, de 1532” (2).

Hernâni Donato cita o jesuíta Luís Gonzaga Cabral para informar que os padres “abriram as estradas de Santos a São Paulo e mais outras para o interior, especialmente uma por Botucatu até os aldeamentos do Paranapanema [1608/1628], com comunicação fluvial para Mato Grosso”. O historiador é convicto: “Durante o período da catequese heróica, os religiosos, quase sempre os jesuítas, serviram-se da velha e segura orientação que era o Peabiru para saírem ao sertão(3).

A proibição legal de 1553 de se transitar pela Peabiru, em terras portuguesas, não impediu expedições luso-brasileiras ou hispano/sul-americanas de entradas contínuas em busca de riquezas auríferas e outros metais, além da preação ao índio.

  • Presume-se que o objetivo da proibição do governador Tomé de Souza tenha sido para controlar a entrada de espanhóis em terras do Brasil, ricas em minérios que deveriam ser preservados para Portugal.

Sabe-se que no ano de 1555, portanto em pleno vigor da proibição, Francisco de Gambarrota veio do Paraguai até o porto de São Vicente; também os espanhóis Juan de Salazar e Cipriano de Góes aportaram em São Vicente para realizar incursão até o Paraguai pela Peabiru (4)

Membros da expedição de Brás Cubas partiram de São Vicente em busca de ouro em 1561 (5), destacando-se uma frente para atacar índios em Apiaí e limpar os caminhos para segurança da equipe principal. A frente perseguiu os índios para matança e captura, através de trilhas indígenas, até as nascentes e partes abaixo do rio Paranapanema, tidas por sub-ramais da Peabiru. Em 1562 a expedição de Luiz Martins [substituto de Braz Cubas] (6) traz em sua expedição outra frente especializada em perseguir e caçar índios, a partir de Caatiba para além da região de Guareí e Botucatu, pelos caminhos da serra.

A situação, entretanto viria se modificar com a dominação espanhola sobre a coroa portuguesa e suas colônias, na prática a se desfazer o Tratado de Tordesilhas tornando a América do Sul uma só, para portugueses e espanhóis, possibilitando a interiorização luso-brasílica rumo às terras que os espanhóis antes não adentraram nem delas se apossaram, por senti-las suas, tanto que os portugueses jamais pensaram sobre elas arremeter-se antes de 1580, para fins de fixação.

  • Em 1578, morto D. Sebastião, rei de Portugal, sem herdeiro natural, deixa o trono para seu irmão o Cardeal D. Henrique que faleceu dois anos depois, e assim a coroa portuguesa passa, em 1580, para as mãos de Felipe II da Espanha, neto do rei D. Manuel – o Venturoso.  

Quando tudo parecia favorecer maior fluxo de andanças e atividades de gentes então sem fronteiras, o Vale Paranapanema deixou de ser o corredor principal das interiorizações ou grandes entradas rumo aos Andes, porque a escravidão indígena sofrera revés desde a presença jesuítica na região, e as minas [Peru/Bolívia] estavam esgotadas.

Corroborou com esse esvaziamento de trânsito pelos lados do Paranapanema, os entradistas e bandeirantes mais dispostos às zonas de garimpos, a partir de Sorocaba rumo ao sul, de Jundiaí com destino a Goiás, das vilas de Paraíba do Sul para as Minas Gerais, e de Parnaíba e Itu em direção a Mato Grosso. Assim o Tietê e o Paraná, quase em detrimento ao Paranapanema, foram as grandes estradas fluviais utilizadas para se embrenhar em terras antes apenas espanholas.

Apesar de tais considerandos históricos, certos registros atestam ainda a presença do homem europeu pela região do Paranapanema, por exemplo, em 1581, Jerônimo Leitão, o Capitão-mor de São Vicente, para os lados do Guairá pelo rio Paranapanema (7), de onde retornou com muitos escravos indígenas.

A partir de 1588, os jesuítas espanhóis são presenças constantes em todo Guairá (8), principalmente junto aos afluentes do Paranapanema, com incursões do lado paulista até a instalação das reduções e a pretensão de um governo teocrático em 1608. 

Nicolau Barreto em 1602 desceu o rio Paraná passando pelo Guairá, rumo às minas de Potosi no Peru, fazendo o retorno pelo Paranapanema – “rota conhecida desde meados do século XVI”, com riquezas e índios aprisionados índios aprisionados (9).

  • Muitos viajantes preferiam descer o rio Tietê desde São Paulo ao rio Paraná, mas com retorno quase sempre pelo Paranapanema, pela melhor navegabilidade e menor correnteza, até proximidades de atual Salto Grande, onde se encerrava a navegabilidade prática do Paranapanema, para se dirigir a Botucatu por terra, via Peabiru ou por caminhos internos [trilhas indígenas] pelo espigão entre o Pardo e Turvo.

Soldados paraguaios vindos de Vila Rica do Espírito Santo chegaram à Vila de São Paulo em 1603, sendo recebidos festivamente conforme registros (10). Ignoram-se as razões da visita, mas os soldados retornaram dias depois, acompanhados por paulistas até Vila Rica, com especulações de se reativar a Peabiru.  

  Em 1607, Pedro Franco de Torres, atravessou a região rumo ao Paraguai pela Peabiru. Nesse mesmo ano de 1607, Manuel Preto um dos maiores preadores de índios da época, dirigiu uma expedição pelos caminhos do Paranapanema, para o aprisionamento dos índios Guaranis, nas proximidades da cidade de Vila Rica do Espírito Santo. Manuel Preto voltou às regiões entre os rios Paranapanema, Corumbataí e Ivai, nos anos de 1611, 1618, 1623 e 1628, nessa ultima acompanhado por Raposo Tavares (11).

Em 1620 o entradista Antonio Bicudo atingiu as cabeceiras do Rio Pardo, para aprisionamento e matança de índios. Seus indicativos e descrições da região, a Serra de Botucatu e arredores, oficialmente entraram nas cartas geográficas como referencias para aqueles que se aventurariam pelos sertões (12)

  • Antonio Bicudo, morador numa fazenda em Carapicuíba [SP] e descendente de notórios entradistas e bandeirantes da família Campos Bicudo, em 1628 fez parte da Bandeira de Manuel Preto e Raposo Tavares no ataque a Guairá.

Os historiadores apontam, acertadamente, que tais relatos, apenas atestam passagens do homem branco por terras do oeste paulista, por esta ou aquela razão, contudo sem nenhuma efetiva fixação.

TRIBOS INDÍGENAS NO VALE PARANAPANEMA

As primeiras notícias sobre os índios brasileiros chegaram à Europa antes da metade do século XVI, através dos degredados postos por Portugal em terras do Brasil, homens que contataram mais as aldeias litorâneas do tronco lingüístico Tupi-Guarani.

 Talvez por isso as informações que os traços culturais e fisionômicos indígenas fossem idênticos para todas as nações nativas, somente mais tarde a entender que, tal qual a língua, os costumes, as crenças, as formas de organização familiar e social. Igualmente as técnicas artesanais e a cultura entre outras aparentes similitudes, não podiam ser vistas como iguais diante das tantas variações, mesmo de grupo para grupo dentro de uma mesma nação, a depender do meio, posto as tribos nada coesas e que facilmente se fragmentavam (1).

Pelos didáticos, todo território paulista, quando do descobrimento, estava ocupado por homens da selva, por isso denominado silvícolas ou selvagem, embora dita ocupação não fosse assim total, pois se as tribos viviam em vastas áreas dominiais, maiores eram os espaços entre elas, com população mais concentrada em faixas litorâneas e adjacências, enquanto os interiorizados tinham certa predileção pelas encostas da Serra de Botucatu.

A região do Planalto Ocidental Paulista era habitada por tribos indígenas Tupi-Guaranis e Jê-Tapuias que, se diferentes nos aspectos da vida coletiva, sejam os relacionados à produção e transmissão de conhecimentos ou estados de desenvolvimento social, sejam aqueles resultantes do aprimoramento dos valores, das atividades individuais e desenvolvimentos intelectuais, postos ou não para a comunidade, é comum aponta-las com usos e costumes mais ou menos próximos, numa generalização quase sempre incorreta.

  • Sabemos as distinções culturais gradativas entre Tupis e Guaranis iniciadas desde o século V, até por volta de 1500, quando já se apresentavam novamente separados. Todavia optamos pelo entendimento tradicional Tupi-guarani, por certas correlações entre seus locais, formas de ocupações e alguns outros aspectos indissociáveis de origem comum para os dois povos, além da compreensão que diferenças culturais são perceptíveis numa mesma nação indígena.

Excluídas, portanto, as diferenças mais ou menos observáveis quando das distinções de grupos que permearam todo o Planalto, antes dos conquistadores do século XIX, realmente temos que suas culturas apresentavam quase semelhante modelo de direito consuetudinário com regras e valores para controle social ou da vida em sociedade, como os direitos, deveres, obrigações e responsabilidades comuns, recíprocas e familiares, ordenados todos como práticas mantenedoras da ordem tribal.

Original ou não, a doutora Thais Luzia Colaço aponta para certos ordenamentos sociais e jurídicos em sociedades indígenas do Brasil, cujo indivíduo “respeitava a tradição, obedecendo as normas de convívio social instituída pelo grupo (...)” tanto que, prossegue Dra.Thais, “burlar os costumes seria desrespeitar os tabus, seria irar os deuses e a natureza, trazendo conseqüências catastróficas ao individuo infrator e à comunidade em geral, colocando em risco a integridade do grupo” (2).

Os aborígines obedeciam, portanto, a um conjunto de normas e regras sociais, crenças religiosas e ritos relacionados aos totens, com vaga adoração ao fogo [pelo raio] como lembrança de um ser superior (3) – cuja voz era o trovão, com inúmeras divindades menores protetoras familiares ou individuais, dos certos gênios e espíritos de bem estar tribal, em oposição aos seres maléficos que tanto lhes causavam medos e terrores; valorizavam os sonhos, respeitam os tabus, acreditavam em presságios e faziam oblações.

As sociedades eram voltadas à família, todavia sem tutela ao indivíduo que bem podia ser suprimido em ato votivo, de acordo com superstições, por transgredir tabus ou exercer feitiçarias – delito sócio-cultural, em contraposição ao pajé.

Os responsáveis familiares tinham direitos sobre a vida de seus dependentes, crianças, velhos, inválidos e os gravemente enfermos, podendo matá-los ou enterra-los vivos, por questão de sobrevivência tribal ou fuga difícil, embora os velhos, enfermos graves e inválidos viessem ser usados – mais adiante na história, para atrair incautos brancos que gastavam munições pensando atacar aldeias de guerreiros.
As rixas resolviam-se com discussões entre os envolvidos, quase nunca levadas ao Conselho dos Anciãos, optando-se pelo embate corporal em particular, raramente com armas, mas quando usadas tinham de ser iguais em poder, por exemplo, chicote com chicote, espada com espada, jamais arco e flecha. O perdedor se calava sem revides às ocultas, pois se para um guerreiro era vergonhoso não saber se defender, covardia maior seria usar arma superior ou tocaiar o adversário, caso considerado de grave afronta tribal e crime passível de morte.

Um índio podia ter várias mulheres, direito dos mais empreendedores, orgulhando-se o homem de sua numerosa prole (4), mas usos e costumes indígenas referentes ao matrimônio variavam de tribo para tribo, inclusive conforme a época e condições da comunidade. De ordem geral não se permitia casamento entre pais e filhos, tios e sobrinhos, primos entre si, irmãos e avós com netos, cujas transgressões puniam-se com a morte.

Havia, no entanto, liberdade sexual – homem e mulher sem compromissos, mas à mulher cessava tal liberdade quando viesse se casar; com a chegada dos brancos e mortes de tantos guerreiros, tornaram-se comuns casamentos de meninas de doze anos com sexagenários e com parentes, para sobrevivência da comunidade. Cunhado solteiro geralmente casava-se com a viúva do irmão paramanter linhagem – prática do levirato, enquanto o viúvo casava-se com a irmã da falecida – regras do sororato, podendo, ainda, ocorrer casamentos experimentais.

  • O aborto era forma de controle da natalidade, e o infanticídio podia ocorrer quando necessário.

Mulheres mais idosas ou que os maridos as tornassem livres – quando já não mais reproduziam, substituídas por jovens, eram mestras em iniciar sexualmente os mancebos. Tinha-se o homossexualismo por prática tolerada, não estimulada, com narrativas coloniais (5) que índios afeminados, senão perseguidos, sofriam deboches dos guerreiros, havendo mais aceitações às mulheres que vestiam e se comportavam como homens, em relação às índias – lesbianismo, inclusive de certas viragos que iam às guerras, tarefas exclusivamente masculinas.

Mais caçadores, coletores, pescadores, alguns dados a cultivos de espécies comestíveis, os indígenas não possuíam animais arrebanhados (6), à exceção talvez de grupos caingangues que alimentavam antas em cercados, consideradas como ofertas dos deuses aos humanos para suprimento de suas necessidades, num aspecto aparentemente mais religioso que de pastoreio, propriamente dito (7). Quase todas as famílias tinham bichos de estimação, a exemplos de araras, papagaios, maitacas, macacos e tartarugas.

Contavam com indústria rudimentar voltada para as necessidades básicas do dia a dia, como arcos, flechas, bordunas, lanças, facas, porrete de quatro gumes – com empunhadeira [formato tipo de uma espada]; redes e mantas para dormir; artigos de bambu ou vime, como covos [para pescaria], arapucas [para aprisionar aves e pequenos animais] e cestos para coletas de produtos; artigos cerâmicos a exemplos de potes e vasilhames de barro [argila] para guardas de produtos e uso culinário, urnas mortuárias e estatuetas. Aparentemente seus objetos não tinham inspirações artísticas, mas certas diferenciações eram notórias, como as pontas de flechas, umas de madeira, outras adaptadas com pedras [rochas] trabalhadas, e aquelas de ossos animais como a tíbia de macacos, além das diferenças quanto ao tamanho dos arcos e tipos de amarras.

Cabia aos homens o fabrico de armas, a derrubada e queima da mata para roçados, a caça e a guerra, enquanto às mulheres pertenciam as manufaturas, os afazeres domésticos e atividades agrícolas, como noções primárias de ocupações privadas sem obrigações distributivas, porém repartidas suas conquistas coletivas aos partícipes das lutas, achados e coletas. Em alguns casos e épocas de guerras prolongadas, ou fugas necessárias, o trabalho era coletivo com distribuição igualitária às famílias.

O processo agrícola igualmente primário e limitado às culturas da mandioca, do milho, da abóbora, da melancia, do feijão, do algodão e do fumo, com algumas variantes e acréscimos sazonais e de regiões. Dos derivados da mandioca e do milho faziam farinha tostada, pão, bolos e bebidas fermentadas; da mandioca também se usavam folhas tenras para iguarias, enquanto o milho verde e caroços de algodão eram utilizados para ensopados. Comiam abóboras e seus brotos, conheciam outras cucurbitáceas comestíveis, distinguiam vegetais tóxicos [curare, timbó], sabiam aqueles que davam tintas [jenipapo e urucu] e faziam chás e sucos de certas ervas, folhas, cascas, raízes e frutas silvestres.

Os índios gostavam de danças guerreiras e cerimoniosas, para as quais se enfeitavam com pinturas sobre o corpo para as festas, guerras e cerimoniais, com gostos para adornos como cocares, colares, braceletes, brincos e tatuagens, todos com bastante e fortes coloridos; seus enfeites eram de penas de pássaros, mantos tecidos de fibras vegetais, vestuários [tangas] e ligas [cordas e laços] coloridas e com motivos próprios. Sempre com muita bebida, suas festas e cerimônias eram acompanhadas de cantorias e uso de instrumentos musicais de sopro, repercussão e chocalhos, além da imitação de sons de animais, de bons ou maus agouros conforme ocasiões ou propósitos.

Além das festas próprias promoviam outras com participações de tribos amigas ou aliadas, com as quais mantinham praticas de reciprocidades inclusive comerciais entre tribos de uma mesma ou diferente nação, baseado nas trocas em espécies como entende Alfredo Gomes (8). As alianças, porém eram frágeis e muitas vezes circunstanciais, por casamentos ou unidos em combate contra algum inimigo comum.

Os índios eram guerreiros por excelência, recriminados se não eram bons combatentes – inclusive discriminados para o casamento. Hans Staden (9) afirma que a guerra fazia parte do cotidiano de um índio, treinado desde criança a combater inimigos, sendo-lhe honra quando adulto capturar ou matar aqueles que aprenderam desde sempre odiar. Enquanto os homens guerreavam as mulheres entoavam cânticos de guerra, como pedidos aos deuses para bom êxito da empreitada e proteções a seus guerreiros. Carina Marques (10) aponta certos casos de mulheres, que se vestiam e se comportavam como homens, em frentes de batalhas. 

  • A presença do europeu trouxe desequilíbrios às guerras tribais, fazendo-se mais fortes as que tinham alianças com os brancos, pelo acesso às armas de fogo e cavalos; aliadas aos colonizadores as tribos se impunham às outras tornando a sociedade tribal praticamente à maneira dos brancos.

Acerca dos prisioneiros de guerra, José Jorge Junior, não hesita apontar a antropofagia indígena na região (11), conforme relatos jesuíticos que melhor conheceram usos e costumes dos índios habitantes do Vale Paranapanema, e com eles conviveram décadas. O governador militar paraguaio Álvaro Nuñez Cabeza de Vaca descreve, em seus apontamentos, Naufrágios e Comentários, rituais antropofágicos (12) nas mesmas áreas mencionadas pelos jesuítas. 

Citamos um exemplo de cada narrativa, como atos de execuções indígenas, havendo outras tantas maneiras para a prática regular e institucionalizada de execução e consumo de carne humana. Em quaisquer dos ritos antropofágicos a acontecer, o aprisionado era bem alimentado, tinha mulheres para seus cuidados e sexo, adquiria a participação em solenidades da tribo vencedora, podendo até se sentir um deles senão pelo fato ser um homem marcado para morte sacrifical, sem saber quando, e isto podia demorar anos.

  • Apesar de não vigiado o prisioneiro recusava-se fugir porque isto lhe era desonroso, nem sua tribo o aceitaria pelo ato considerado covarde, exceto se resgatado em combate. Índio preso era considerado, pela própria tribo, índio morto, abandonado que fora pelos próprios espíritos.

À véspera da execução o prisioneiro recebia os últimos cuidados, uma boa alimentação, bom banho e vestimentas próprias para os rituais a seguir com cânticos, bebedeiras e danças, sendo a solenidade executória variável de tribo para tribo ainda que de uma mesma nação ou grupo, a mais comum o condenado ser amarrado a um poste central para ouvir as cantilenas de glorificações da tribo vencedora, com direito a suas ultimas palavras, ocasião para cantar que gentes de sua tribo não temiam a morte, antes de ser abatido a golpes de borduna, ter o corpo retalhado e cozidas as partes depois distribuídas a todos os membros da comunidade.

Uma outra forma de execução era conduzir o prisioneiro ao pátio das solenidades, onde era obrigado a dançar, cantar e beber com seus vencedores até o momento aprazado, quando entravam em cena crianças, com pequenas machadinhas em punhos, juntamente com um adulto munido da temível macaná, a bater em pontos sensíveis do condenado até prostrá-lo desacordado, quando então as crianças batiam-lhe com as machadas sobre a cabeça, golpe após golpe, até lhe esvair a vida, sendo depois entregues às mulheres que dele cuidaram, para que suas partes fossem divididas e cozidas antes da distribuição alimentar.

Caso alguma mulher da tribo viesse engravidar do prisioneiro, o nascituro seria devorado ao nascer ou, bem cuidado até a idade que desejassem come-lo – mesmo que adulto, mas nunca deixariam de fazer isso porque o pai tinha parte na geração da criança, portanto a criança era gente inimiga.

Se uma mulher caísse prisioneira, de imediato se agregava à tribo vencedora sem risco de execução, mas não lhe permitiam engravidar – com práticas abortivas ou comiam a criança, caso viesse nascer, porque a mãe era de tribo inimiga. Se a mulher prisioneira retornasse à tribo de origem era aceita, mas seu filho, caso retornasse grávida, era abortado ou devorado, se nascido, por causa do pai.

O canibalismo, sob ponto de vista indígena, era comunhão espiritual de renovação dos laços intergrupais quando convidados os aliados para a cerimônia, e intragrupais como restabelecimento da moral coletiva, porque consideravam culpa tribal a morte de companheiro em combate, por isso o ódio e vingança declarada à tribo inimiga, no ato representado pelo membro executado.

Os padres combateram à exaustão tais crenças e práticas, consideradas afrontas ao cristianismo, parecendo não haver registros de canibalismo, como regra, no século XIX, embora excepcionalmente possa ter ocorrido casos em cerimoniais religiosos Caingangues, observáveis nalguns despojos calcinados que sugerem mutilações próprias para ritual antropofágico.

Faz parte do anedotário histórico que a ultima vontade de um velho e moribundo índio cristianizado era, em vez da hóstia transubstanciada, comer um bom e verdadeiro pedaço de carne humana, conforme citação de José Jorge Junior (13).

Entre os indígenas não havia uma autoridade, as famílias eram livres embora unidas pelas tradições, usos e costumes tribais. Para chefe tribal escolhiam, geralmente, o mais forte, um líder com poderes absolutos nas guerras, cerimoniais ou acertos de desavenças tribais, mas seu poder podia ser contestado em outras situações, e era obrigado ao trabalho para o sustento familiar como qualquer outro membro tribal. O Caingangue que tinha sistema hereditário para os seus líderes, raramente recaindo escolha igual às tribos parentas [Jês] ou da nação Tupi-Guarani.

O poder do líder, portanto, era limitado mais às obrigações que privilégios, cujo respeito tribal baseava-se na persuasão e não na coerção de seus membros (14), partidários e não subordinados, com decisões pautadas na cultura e não em sua vontade, mantendo-se no cargo através de conselhos, agrados e subornos.

Juntamente com a autoridade político-administrativa [poder civil] o líder [cacique] acumulava também a autoridade judiciária, invocada diante de risco comunitário ou dissidência tribal, ouvido o Conselho de Guerreiros e Anciãos; solucionada a crise findava o poder absoluto do chefe.

Em caso de vacância qualquer membro podia habilitar-se para chefe tribal, obedecendo a regras de coragem e força, variáveis de tribo para tribo, quase sempre recaindo escolha sobre o campeão dos jogos destinados àqueles fins.

Com autoridade maior que o líder tribal, em tempo de paz, estava o pajé, como conselheiro, curandeiro e intermediário entre as divindades e os terrenos. O pajé era sustentado pela tribo e seus substitutos geralmente preparados e indicados pelos anteriores (15).

Os pajés podiam, à distância, lançar maus agouros ou pragas contra inimigos, abençoar ou bendizer os aliados e tribos irmãs, mas em casos de sucessivas derrotas diante de inimigos, perdiam a credibilidade e eram afastados, temporária ou definitivamente, das funções.

  • Derrotas seguidas obrigavam fugas das tribos, por solução, para áreas desocupadas, embora quase sempre retornassem para guerrear contra o inimigo vencedor, podendo aí o pajé ser ou não reabilitado.

Geralmente os pajés cujas predições não se realizavam a contento, atribuíam os fracassos como vontades ou vinganças de entes espirituais, senão obras de feitiçaria por algum membro da tribo – geralmente um inimigo declarado, cuja ação considerada culpada pelo Conselho dos Anciãos, transformava-se em delito sócio-cultural [afronta] a toda a tribo, crime punido com a morte.           

Também os pajés podiam aliviar doenças abreviando a vida de doentes ou quando não tivessem tempo de cuidar deles.

As tribos eram seminômades, mudando-se com freqüência, por isso seus ranchos eram toscos, cobertos de sapé, folha de coqueiros ou ramos, geralmente queimados quando abandonados. As moradas dispunham-se em torno de um pátio central, quase sempre cercadas e guardadas por sentinelas, sendo do cacique a principal delas. O escasseamento de produtos naturais, a caça e a pesca, provocavam mudanças das tribos para outros locais, cujo deslocamento, em tempo de paz se dava a cada três ou mais anos, se possível dentro de uma mesma região.

Uma tribo contava de trinta a cem guerreiros, com variáveis números de tribos irmãs quase sempre próximas e prontas para união, contra problemas comuns, casos em que se podiam contar até mil guerreiros.

Praticamente todos os índios eram bons canoeiros e bem conheciam os caminhos fluviais que lhes facilitavam fugas quando necessárias ou para aproximarem-se dos inimigos.

As tribos do Planalto Ocidental Paulista, em meados do século XIX, não eram as mesmas de cinqüenta anos antes, que em nada representavam aquelas do meio século XVIII, e assim o que delas se pretende, tanto dos Tupi-Guaranis quanto dos Jês, é de difícil análise porque nenhuma teve chances para algum período mais prolongado de fixação regional, desde a chegada do homem branco.

Capistrano de Abreu mostra-nos os Tupiniquins – às margens do Tietê, e os Carijós – nas vertentes do Paranapanema como tribos Guaranis do Planalto Ocidental Paulista (16), índios já bastante adaptados e submissos aos brancos e a eles serviçais como mão de obra escrava, ou em troca de pequenos favores ou protecionismos contra tribos rivais. Os que não se subjugavam viviam geralmente fugidios ou postos em reduções ou aldeamentos.

A contribuição cultural regional Tupi-Guarani influenciou a culinária básica, as personagens de folclore, as danças adaptadas e uso de termos e denominações de locais por causa do idioma nheengatu, que era mais ou menos corrente no Brasil, entre os brancos, até o século XIX.

Muitos dos índios da nação Tupi-Guarani e os Jês da tribo Xavante, desde meado do século XIX, moravam em aldeias feitas em propriedades de brancos e suas tradições culturais já eram bastante influenciadas pelo europeu, inclusive no tocante a religiosidade. Famílias em tais situações dormiam e comiam quase à maneira dos civilizados, salvo nas grandes expedições quando eram os conquistadores que se alimentavam e dormiam à moda dos índios.

Os Tupi-Guaranis na região, século XIX, eram os remanescentes Carijós [chamados Guaranis], os Tupiniquins e os Caiuás, enquanto os Jês dividiam-se em Xavantes, grupos Oti e Ofaiê, e os ferozes Caingangues.

Todas as tribos regionais viveram espécies de nomadismo circunstancial, que não suas costumeiras migrações, diante do europeu que os caçavam para escravização ou postos em fugas para não se deixarem capturar, quando não as dizimações se optantes pelo enfrentamento. As tribos, mesmo que de uma mesma nação, chegaram de regiões diferentes em épocas distintas, ou não, muitas vezes obrigadas desalojarem co-irmãos, em nome da sobrevivência, ou por eles forçados partir.

PÁGINAS: 01 - 02 - 03
 Voltar     Imprimir
DESENVOLVIMENTO E HOSPEDAGEM DE WEBSITES