PARTE
I – INCURSÕES
PELOS CAMINHOS DO VALE DO PARANAPANEMA
HOMENAGENS
1. CONFISSÕES À JUNKO,
- De
quando nos conhecemos em 1977 -
Tu és
a sombra de um passado já distante,
Que às vezes por instante
Ponho-me a lembrar.
Tu és a viva imagem daquela que amei
E hoje existe apenas na saudade,
Mas nem por isso esquecida.
Quando procuro te olhar bem
de perto,
Vejo que não és ela,
Pois nela faltou alguma coisa
Que hoje bem sei, encontro em ti.
Eu sei não ter
o direito de associar-te
A um passado exclusivamente meu,
Mas a verdade é esta,
Pois se a ela dei o meu tudo,
A ti nada ofereço, apenas peço,
AMOR.
2. AOS
FILHOS: ARTHUR [CELSO], GISELE, MITCHELL E LORANA [HARUMI]:
“Quando os filhos nascem os pais fazem os planos esquecendo-se que eles
têm os seus próprios caminhos”.
3. AOS PAIS ONICE E MARIA DE LOURDES [FREIRIA] PRADO: “Esta
história não existira sem vocês”.
4. AOS SOGROS: “Porque me
deram uma razão para viver”.
5. IRMÃOS E CUNHADOS: “Que
um dia me incentivaram externar meus pensamentos e o saber”.
6. AOS AMIGOS: “Família
acontece, AMIGOS a gente escolhe, e foram tantos os elegidos
e aqueles que me escolheram, não poderia descrevê-los
todos”.
7. CARINHO ESPECIAL: ARTHUR
MARTINS LOPES E BENEDICTO BENÍCO - exemplos
de vida e dignidade.
CONVENÇÕES
Referem-se
a alguns esclarecimentos e significados de nomes e localizações
citadas no decorrer da obra, para melhor situar o leitor:
- VALE
OU SERTÃO DO PARANAPANEMA:
De acordo com a descrição geográfica
de Teodoro Sampaio, 1886, o Vale Paranapanema compreende
toda extensão de terras às margens do rio
do mesmo nome, desde Sorocaba até o rio Paraná,
uma área aproximadamente de 110.000 quilômetros
quadrados, dos quais 27.400 no atual estado de São
Paulo. Para efeitos deste trabalho considera-se apenas
a região centro-sudoeste paulista ou, mais propriamente,
as terras situadas entre o divisor Paranapanema e Peixe,
a partir dos campos de Botucatu às barrancas do
Paraná.
O rio Paranapanema nasce na Serra de Paranapiacaba.
- PLANALTO OCIDENTAL
PAULISTA:
Trata-se da escarpa e reverso da Serra de Botucatu, para
além da Cuesta, direção noroeste-sudeste,
em suave inclinação geológica com
mais de 500 km de extensão por variáveis
de 190 de largueza, com desníveis entre os 350 a
700 metros. Para o presente objeto, no entanto, considere-se
toda região
entre o Tietê e Paranapanema a partir dos cursos
das águas
do Jacuí e Guareí, depois desde as nascentes do
Feio/Aguapeí ao mesmo Paranapanema, até as
barrancas do Paraná. Cuesta seria a moderna
denominação para essa suave inclinação
geológica.
- VALE
DO PEIXE:
Com 15.000 quilômetros quadrados de área,
situa-se entre os espigões dos Vales do Feio/Aguapeí e
Paranapanema, a partir da nascente do rio do Peixe na Serra
de Agudos até sua barra junto ao rio Paraná.
- VALE DO FEIO/AGUAPEÍ:
A partir
das nascentes do Feio/Aguapeí na Serra de
Agudos, a 40 km de Bauru, entre os divisores do Peixe e
Tietê até o
rio Paraná, com área de 12.000 quilômetros
quadrados.
- ALTA SOROCABANA
Região
encravada no Planalto Ocidental Paulista, a sudoeste.
- RAZIA:
Incursão
predatória em território inimigo.
- DADA:
Genocídio
cruel praticado contra indígenas.
- BUGREIRO:
Matador
ou caçador de índios
- ENTRADA:
Expedição organizada, no período colonial,
pelas autoridades ou por particulares, e que geralmente
partia dum ponto do litoral para explorar o interior, apresar
indígenas
destinados à escravidão, ou procurar minas.
Dicionário – Aurélio Século
XXI.
- BANDEIRA
Expedição
armada que partindo, em geral, da capitania de São
Vicente (depois, de São Paulo), desbravava os sertões
(fins do séc. XVI
a começos do séc. XVIII) a fim de cativar
o gentio ou descobrir minas. Dicionário Aurélio – Século
XXI.
- COLCHETES
[ ]
Colocações entre colchetes, para esclarecimentos
ou complementações, são de responsabilidades
do autor.
APRESENTAÇÃO
Pela Internet, dizem, podemos encontrar tudo, menos o que
efetivamente necessitamos. Todavia, através dela conseguimos,
além de assuntos interessantes e úteis para
este trabalho, alguns amigos que nos auxiliaram com documentos
ou indicações onde consegui-los; outros nos
permitiram cópias de [raras] obras com manuscritos
[fac-símiles], para que chegássemos a este
resultado simples, mas em condições de permitir
uma viagem, através do tempo, pelos sertões
do Feio/Aguapeí, do Peixe e, especialmente, do Vale
Paranapanema, desde o final do século XV até o
XIX.
Ao pretendermos este trabalho, até onde se encontra,
realmente imaginávamos apenas passeios históricos
pelas cidades mais antigas do Vale Paranapanema, uma das
regiões mais bela e desenvolvida do estado de São
Paulo. Daí as visitas a bibliotecas, museus, cartórios,
igrejas e câmaras municipais, para fotocópias
de documentos da época pretendida e nada mais, exceto
talvez um ou outro encontro, se os deuses a nosso
favor, com algum octogenário – ou mais, de boas
lembranças que, se não viveu nossos reclamados
tempos ao menos deles ouviu falar bem mais próximo.
Ledo engano. Encontramos escassezes de dados, ausências
de documentações, bastante má vontades
funcionais, e apenas umas e outras obras de autores regionais,
algumas de grandes valias, quase todas elas a ressaltar qualidades
e as boas intenções dos fundadores e das primeiras
famílias colonizadoras que se mantiveram ricas.
Óbvio compreendermos e respeitarmos historiadores, municipais e regionais,
diante da quase impossibilidade de se conseguir fontes fidedignas, por isso
certas ocorrências reflexivas em suas obras naquilo que se determina
inquirição por espelho, algumas a partir das informações
até concretas embora apologéticas. Outras nem tanto, a maioria
delas apenas recorrente às ilações pretendidas, para se
concluir corretas as afirmações, mesmo sem a certeza daquilo
que realmente foi ou aconteceu.
Para que não incorrêssemos em semelhantes erros, estabelecemos
uma pesquisa prudente e, acima de tudo, honesta, com a maior distinção
da verdade com o provável ou tão somente possível, jamais
daquilo como gostaríamos que fosse, para assim descobrirmos bastante
escassa a história do Planalto Ocidental Paulista, dentro do qual o
Vale Paranapanema. Deste, mesmo que limitado ao foco paulista e apenas ao centro-sudoeste,
se furtaram os historiadores oficiais como se nada histórico, adiante
de Botucatu, houvera ocorrido em séculos de dominação,
excetuando os poucos e quase inacessíveis diários de entradas
e bandeiras, atas e registros paroquiais, relatórios das expedições
militares e das comissões de estudos e reconhecimentos de áreas.
Ratificam tal desconhecimento, oficial inclusive, a Carta
Geográfica da Província de São Paulo,
do ano de 1868, com a célebre advertência: “Terrenos
Desconhecidos”, para todo imenso sertão, compreendidos
entre os rios Tietê e Paranapanema desde os cursos
das águas Jacuí e Guareí, antigas divisas
de Botucatu, às barrancas do rio Paraná, quando
já se sabiam dos primeiros assentamentos jesuíticos, às
margens do Paranapanema iniciadas em 1608, assinaladas no
mapa espanhol ‘Paraquaria’; além dos arranchados – reconhecidos
oficialmente, ao longo de caminhos tropeiros, religiosos
e militares de 1771/1772, uns e outros compreendidos desde
1719, além da pré-cabraliana Peabiru, do Atlântico
ao Pacífico, todos a tomar o Vale Paranapanema, ou
parte dele, por corredor de passagem àqueles que ousavam
demandar o sertão.
Portanto, a tão estranha adversão “terrenos
desconhecidos” priva-se dos fundamentos. Estudos e
levantamentos topográficos preliminares, de toda bacia
Santo Anastácio e partes do extremo oeste paulista,
estão inseridos em mapas a partir de 1770; enquanto
a Serra Botucatu, com as nascentes de seus principais rios
para as margens do Paranapanema, aparecem com detalhes em
mapa espanhol de 1756, Carta do Paraguai e dos Paises Vizinhos,
elaborado pelo Padre Pedro Francisco Xavier de Charlevoix.
Das regiões da Serra dos Agudos, Lençóis
[Paulista] e terrenos para as margens do Tietê, os
primeiros estudos constam de 1737, conforme relatório
da Comissão Geográfica e Geologia do Estado.
- A Serra Botucatu aparece primeiro nos apontamentos do
entradista Antônio Bicudo, em 1620, com indicativos
e descrições, inclusive adjacentes, depois
transpostos em cartas geográficas como referências
para bandeirantes e entradistas.
Desta
forma, pretendemos diminuir, um tanto, o desconhecimento
historiográfico regional e informar, com documentos
dispostos, os primeiros acontecimentos e as conseqüências
dos recontros civilizáveis ou, mais propriamente,
as razias e dadas promovidas pelos brancos aos índios,
desde os últimos anos do século XVI ao final
do século XIX; que foram barbáries tantas que
marcaram a sangue inocente todo Planalto Ocidental Paulista,
por mais de três séculos de conquistas em nome
da civilização e do progresso.
PORTUGAL:
ANTECEDENTES HISTÓRICOS
A história entende por mundo conhecido, até a
Idade Média [395-1453], a Europa, partes da Ásia – ou Ásia
Ocidental e norte da África (1), embora não
ignorados, pelos árabes e persas, o extremo oriente
e as ilhas pelos caminhos, além das costas índicas
da África, nesta algumas incursões islâmicas.
Oficialmente não se sabiam da América, da Antártida
nem da Austrália.
Hoje não se tem tanta certeza daquelas delimitações,
considerando a América presente em alguns raros mapas, às
vezes imprecisos, como os de Andréa Bianco [1448],
que mostram o Atlântico Ocidental povoado de ilhas,
entre as quais as misteriosas Antilias, com o Oriente mais
além (2). Todavia, referidos mapas não informam
quem foram os navegantes àquelas terras desconhecidas,
ou quando ocorreram tais viagens em cujos relatos firmaram-se
semelhantes representações geográficas.
- Reinhard Maack reproduz cópia de um dos trabalhos
de Andréa, por Jaime Batalha Reis, publicada no
Geographical Journal [Londres, 1897], com a localização
da costa sul-americana entre o Cabo de São Roque
e Trinidad (3).
O mapa-múndi de Martim Waldseemüller, com outros
dois pequenos hemisférios auxiliares, impresso
em 1507 no Mosteiro de Saint-Dié – Lorena [França]
compreende doze tábuas originais. Duas apresentam
a existência do Oceano Pacífico [uma década
antes de sua oficialização] e os contornos
das costas orientais da América do Norte, enquanto
a América do Sul é representada, segundo Jean-Claude
Valla: “com uma exatidão que, por não
ser perfeita, não é menos surpreendente” (4),
inclusive os Andes, Cabo Horn ao extremo sul e a intrigante
falsa ligação oceânica do Atlântico
ao Pacífico pela América Central, passagem
que deixa de ser representada num dos pequenos mapas que
traz a figura de Américo Vespúcio (5).
- Para Valla e outros especialistas, o mapa Waldseemüller
exigiu anos para ser elaborado com todas suas descrições,
desenhos e gravuras obtidas das indicações,
em épocas distintas, por outros navegadores provavelmente
desconhecidos entre si, cujos relatos de alguma forma chegaram
ao conhecimento do organizador Martim.
O mapa que se encontra na Biblioteca de Bonn [Alemanha]
atribuído a certo Gloreanus, provavelmente de 1510, “nos
dá a confirmação exata de toda a costa
atlântica da América, do Canadá à Terra
do Fogo, e nos propõe, pelo litoral pacífico,
um traçado muito menos justo, embora interessante” (6).
Dos fragmentos duma coletânea de 215 antigos mapas,
organizados no ano 1513 por Piris Regis [Pires Reis], no
seu Bahrye – Livro das Navegações, um
dos pergaminhos mostra, com detalhes e clareza, o Atlântico
e as costas americanas, européia, africana, ártica
e antártica (7), quando ainda não se conhecia,
oficialmente, o contorno continental da América atlântica,
nem a Antártida.
Final do século XV até meados do XVI, os mapas
mostram a América ao sul mais definido que ao norte,
conforme exemplo em Leonardo da Vinci por seu globo [mapa]
de 1515, embora não ultrapasse a região de
Cananéia (8), ou seja, territórios apenas dentro
da jurisdição portuguesa.
Antecedendo os mapas mencionados, Diodoro [século
I a.C] diz sobre terras visitadas pelos fenícios,
do outro lado do Atlântico, a sudoeste, que muitos
entendem como costas do nordeste brasileiro (9). A história
confirma os fenícios, em seu segundo período
de hegemonia histórica [1290–223 a.C.], circunavegadores
do continente africano com certa freqüência em
direção à Europa (10), sendo possíveis
abordagens em costas americanas ou mesmo interiorizações;
tais considerações, entretanto, são
prematuras apesar das tantas evidências às bases
dos estudos e tratados desde Onffroy de Thoron (11).
Também o filósofo e historiador Plutarco [entre
45-120] deixou-nos referências de ilhas, a oeste da
Bretanha [França], e de um grande continente, de
clima ameno, mais além (12).
Mas, o conhecimento
da América ganhou conotações
históricas, apenas quase um século antes do
findar a Idade Média, quando Portugal se lançou às
navegações de pesca por cabotagem, já em
1358 em costas britânicas (13) e, pouco depois – não
se sabe quando, em Terra Nova e Canadá, apregoando-se
tenha sido numa viagem de exploração, sob comando
de Diogo de Teive, que deu nome ao local de Grande Banco
da Terra Nova em 1451/52 (14).
- O pequeno encravo territorial [europeu] doado por Afonso
VI, de Leão e I de Castela, ao [conde] Henrique
pelas ações contra os mouros, território
a seguir acrescido com o restante da Lusitânia ao
reino do Algarve para formar Portugal, cercado pela Espanha
com saída única para o Atlântico, fator
mais que suficiente para o seu atiramento ao mar, daí o
desenvolvimento pesqueiro e o conhecer da rota Guilda dos
Pescadores, ou Caminho dos Celtas, para costas americanas.
Para Reinhard a primeira presença histórica
[européia] na América foi do navegante português
João Vaz Corte Real, no ano de 1472, em costa norte-americana
por ele denominada Terra dos Bacalaos [Bacalhaus], que aparecem
no mapa-múndi de Mercartor [primeira metade século
XVI] como Terra Nova, ressaltada como Terra de João
Vaz. No Atlas de Fernão Vaz Dourado, da segunda metade
do século XVI, ao local é dado denominações
de Baía João Vaz e Terra de João Vaz,
além de outros nomes [portugueses] como Ilha dos Bacalhaus
em mapa de Pedro Reine, 1505; Ilha Bacalauras por Ruysch
em 1508; ou Rio de João Vaz, em Atlas de Jomard publicado
em Paris no ano de 1878 (15).
- João Vaz Corte Real, com tal Álvaro Martins
Homem, recebera mandato do rei português [Afonso
V] para aquele empreendimento numa viagem extra-oficialmente
reconhecida por Gaspar Frutuoso (16), no século
XVI, depois por Vaz Dourado e por fim ratificada em obra
de Antônio Cordeiro editada no século XVIII
(17).
Para o estudioso Sofus Larsen, por base numa carta [de 03/março/1551]
do mercador e burgomestre Carsten Grip [de Kial] ao rei Cristiano
III da Dinamarca, João Vaz Corte Real fora enviado
em 1472, por D. Afonso V, a tomar parte numa expedição
luso-dinamarquesa [Pyninl e Poidhorsth] à Islândia,
chegando ele às costas norte-americanas à frente
de algumas embarcações, para reconhecimentos.
Larsen também evoca mapas do português Vaz Dourado
para comprovar presença portuguesa em lado americano,
vista os nomes dados a duas baías ao longo das costas
norte e leste de Terra Nova, com os nomes João Vaz
e Manuel Pinheiro, este absolutamente um desconhecido (18).
Apesar das dificuldades de algum levantamento inquestionável
de viagens portuguesas pré-colombianas ao continente
americano, século XV, até porque os documentos
eram secretos e quase nunca apareciam, hoje não mais
se duvidam de suas expedições exploratórias
a exemplo da histórica viagem de Fernão Dulmo
[o alemão Ferdinand von Ulm] que, antes de 1486, navegando
quarenta dias a oeste dos Açores chegou em costa americana,
por ele denominada Terra Firme com a observação
de não se tratar da China [Catai], Japão [Cipangu]
nem Índia (19). A importante descoberta de
Dulmo mostra-nos Portugal empenhado em descobrir as Índias
também pelo ocidente, em expedições
secretas, enquanto prosseguia o mesmo objetivo buscando contornar
a África.
A conclusão de Terra Firme não se tratar do
Oriente, não diminuiu o interesse português
saber daquelas terras e as vantagens econômicas para
o reino, conforme contrato entre o Rei D. João I com
o próprio navegador Dulmo e Afonso Estreito, para
viagem exploratória de seis meses [quarenta dias de
ida, quarenta para a volta e cem dias para a exploração
territorial], em 1486, levando a bordo o experiente cosmógrafo
alemão Martin Behaim [aportuguesado Martim da Boêmia],
que participara antes das navegações de Diego
Cão – 1484 e 1485 em costas africanas até a
foz do Congo [rio Zaire] (20).
- O mapa [globo] de Martin Behaim da viagem de 1486 em
nada lembra terras da América, primeiro porque ele,
Behaim, não tinha conhecimentos da forma e tamanho
do continente posto que mapas anteriores, [Bianco – 1448;
Toscanelli – 1474; Pareto e Beningcasa – século
XIV], mostravam apenas partes costeiras de terras atingidas,
percorridas ou imaginadas por antecessores, por isso representada
por ilhas e, adiante delas, uma Ásia bastante desfigurada
pela compreensão equivocada dos europeus, que apenas
a conheciam pelos relatos persas, árabes e indianos,
a maioria deles fantasiosos.
Behaim descreve ao conterrâneo Hyronimus Müenzer “a
costa oriental de uma grande terra”, reafirmando intenções
de se chegar ao oriente pelo ocidente e a certeza de avistamento
de terras a oeste de Açores, representadas pelo grupo
de ilhas a 25o e 45o de latitude norte, e a oeste das Ilhas
de Cabo Verde que compreende parte da costa sul-americana,
entre a foz do Amazonas e Trinidad, conforme conclusões
de Reinhard que pessoalmente estudou os trabalhos daquele
cosmógrafo alemão (21).
Registros outros dão conta que o português João
Fernandes Lavrador [Labrador] atingiu, entre 30 de janeiro
e 14 de abril de 1492, o continente americano na parte onde
ainda hoje conhecida como Labrador ou Terra de Corte Real
em mapas brasileiros e portugueses, conforme observa Reinhard
(22).
Maria Inês Nogueira (23) reforça opinião
que Portugal exercia navegações exploratórias,
em segredo, do outro lado do Atlântico, todavia “as
conseqüências da viagem de Colombo [1492] põem
fim ao sigilo mantido pelos portugueses, obrigado reconhecer
concorrência espanhola”, levando então
o português João Coelho (24) à costa
oriental da América do Sul, em expedição
de reconhecimento antes de 1494, considerando termos da carta
de Estevão Froés ao rei português, em
julho de 1514: “(os castelhanos) nem nos quiseram receber,
a prova de que alegávamos com Vossa Alteza possuía
estas terras há vinte anos e mais e que já João
Coelho (...) viera por onde nós outros vínhamos
descobrir e que Vossa Alteza estava de posses destas terras
por muitos tempos”.
João Barcellos (25) menciona portugueses em costa
brasileira no ano de 1490, quando constroem um forte sob
nome [Fernãobuc] Fernão Buc (?), local litorâneo
onde o atual estado de Pernambuco, com Portugal aparentemente
sabedor do acesso Atlântico / Pacífico Sul para
se chegar à Ásia, como rota alternativa e mais
cara, vez que a África melhor explorada lhe fornecia
o ouro e escravos, além da rota comercial com a Índia,
em se contornando o continente, direito que lhe estava garantido,
em relação à concorrente Espanha, desde
1479 pelo Tratado de Alcaçóvas.
Para alguns historiadores, Portugal repassou para Fernão
de Magalhães o detalhe geográfico, ao extremo
sul da América, que permitia passagem segura do Atlântico
para o Pacífico (26), conseqüentemente a rota
a seguir em direção a Ásia, o que comprova
noções portuguesas bem mais adiantadas que
a Espanha ou qualquer outro concorrente acerca da esfericidade
da terra, das nações do oriente e de terras
americanas, conhecimentos comprovados ao exigir e impor termos
limites para o Tratado de Tordesilhas, tão logo Cristóvão
Colombo anunciou resultados de sua expedição,
reivindicando uma porção americana ao sul e
das partes que lhe tocariam em território asiático.
Entende-se que os portugueses conheceram as costas pacíficas
da América do Sul já antes de Fernão
Magalhães [circunavegação de 1519],
de Fernando Balboa [descobridor do Pacífico em 1513],
ou de qualquer outro navegador europeu, bem como a passagem
do Atlântico para o Pacífico, por antigos mapas,
com exemplo citado do mapa de Waldseemüller, que trazem
o ângulo geográfico “onde está hoje
fronteira entre o Chile e o Peru, está no mapa de
1507, localizado entre os 18 e 19 graus de latitude sul,
virtualmente o mesmo local dos mapas de hoje em dia” (27),
que não pode ser atribuído a coincidências
ou mero acaso.
- Da capacidade portuguesa para grandes navegações,
descobertas e conquistas comprovam-nas o célebre
mapa-múndi [invertido] de Desliens, Dieppe, 1567,
onde a Austrália [Java Grande – já sugerida
por Ptolomeu no século II] aparece como possessão
portuguesa descoberta em 1522, por Cristóvão
de Mendonça, mantida em segredo para não
revelar o comércio português com Timor, Java
e Nova Guiné, além do que Tordesilhas indicava
aquele espaço, onde a Austrália, porção
legalmente espanhola, embora a própria Espanha ainda
não soubesse. De uma forma ou outra, coube ao holandês
Willem Janszoom como primeiro europeu a desembarcar na
Austrália, em 1606.
O navegante português Duarte Pacheco Pereira foi o
primeiro dar a conhecer, oficialmente, terras brasileiras
dezoito meses antes de Cabral, entre novembro e dezembro
de 1498, conforme partes de seu relatório da grande
aventura: "(...)
hanno de nosso senhor de mil quatrocentos e noventa e oito,
donde nos vossa alteza mandou descobrir ha parte oucidental,
passando além ha grandeza do mar oceano, onde he hachada
e navegada hua tam grande terra firme, com muitas e grandes
ilhas ajacentes a ella (...) he grandemente pouorada (...)".
Rui Martins entende pelo relatório que em 1498, Pacheco
Pereira teria conhecido a zona das Caraíbas (28) e
nela desembarcado pelo menos uma vez, enquanto a certeza
de se tratar dum continente [grande terra firme] significa
que o navegante percorreu um largo segmento de costa.
A AMÉRICA MUITO ANTES DA PRÓPRIA
HISTÓRIA
Na Era Mesozóica, durante os períodos do Jurássico
e Triássico,
os continentes eram um só bloco, por isso o nome Pangéia, ou seja,
Pan – único e Geia – bloco de terra, homenagem mitológica
grega à união de Pan – o alegre deus da fertilidade, com
a jovial deusa Geia [Gaia] – a personificação da terra.
Quase nada se sabe da Pangéia, senão sua partilha lenta e gradual
a carregar diferentes formas de vidas, num acontecimento iniciado aproximadamente
há 200 milhões de anos que ainda prossegue nos dias atuais, conhecido
por Deriva Continental, fenômeno responsável pelas atuais disposições
dos continentes.
Os milhões de anos se passaram e aquelas formas de vida, algumas evoluíram
para as diferentes e iguais espécies – outras intermediárias
ou aparentadas, em lugares diversos conforme nos atestam as classificações
ora arranjadas pela Ciência. Os primatas, até segunda ordem, surgiram
há 50 milhões de anos e os primeiros hominídeos não
ultrapassam os 5 milhões, para uma seqüência evolucionista
mais conhecida somente a partir do Australopitecus, com cerca de 2,5 milhões
de anos, Homo Habilis 1,8 milhões [tido por ancestral direto dos humanos],
Homo Erectus de 1 milhão, passando por espécies paralelas, substituindo-as
ou a elas não evolver para assim terminar no beco sem saída da
evolução, por exemplo, o Homo Sapiens que chegou ao Neandertal – Homo
Sapiens Neanderthalensis há 240 mil anos e extinto por volta de 30 mil
anos.
O Homo Sapiens surgiu na África à cerca de 1 milhão de anos
e lá iniciado sua lenta migração rumo norte, quando uma
brusca mutação genética em algumas de suas hordas propiciou
o surgimento do Sapiens-Sapiens, ainda na África, por diferentes padrões
genéticos na humanidade atual, enquanto seus parentes já deixavam
o continente original e chegavam à Eurásia. Não havendo
consenso algum a respeito dessa brusca mutação genética,
ousamos pretender que o elemento causador tenha sido o encontro entre grupos
Sapiens com o Habilis, para a formação Sapiens-sapiens, por volta
de 150 mil anos.
Portanto, muito antes da era histórica civilizacional a 12 mil anos a.C,
consonância ainda distante, diversas linhagens hominianas e seus descendentes
presumíveis ocupavam a África, Europa e Ásia, como o Pitecantropo,
Atlantropo, Sinantropo e outros além do Neandertal. Nesta época,
há 120 mil anos, a espécie humana Sapiens-sapiens principiava em
hordas ausentar-se do habitat primário para, gradativamente, vir ocupar
cada espaço da terra em diferentes continentes e distantes arquipélagos
ou isoladas ilhas.
- A Era Civilizacional tem início quando da história
humana registrada, isto entre os 8 a 12 mil anos para uns
ou 6 mil anos para outros, consenso ainda distante.
Compreende-se que a espécie humana dispersou-se mais
efetivamente a partir do Mediterrâneo rumo ao sudeste
asiático, pela península arábica, ao
norte e centro europeu, às regiões do Cáucaso
e Mongólia para se chegar ao extremo oriente, com
certas interações posteriores comprovadas pela
filologia e outras Ciências responsáveis.
Antes que a Europa estivesse densamente povoada,
o homem já chegava à Indonésia e Austrália
quando, por esta época, elementos fortemente enegrecidos
vindos das regiões savanas passaram pela Europa e Ásia,
para entrar no continente americano, pelo Estreito de Bering,
por volta de 70 mil anos (1), fugindo dos rigores climáticos
que então cobriam de gelos toda a Escandinávia,
norte da Inglaterra, norte da Alemanha e centro-sul da Rússia
(2).
- Os períodos glaciários acontecem quando
as geleiras avançam, ou seja, maior quantidade de água
se converte em gelo e o nível do mar rebaixa-se,
em média 80-110 metros, o suficiente para formar
passagens como as de Bering; da Austrália, pela
Nova Guiné – em Estreito de Torres; ou Tasmânia – pelo
Estreito Bass à franja de gelo da Antártida
e, desta ao extremo da América do Sul, de maneira
a permitir migrações humanas de um continente
para outro. Findo o período, sempre seguido de grandes
inundações, ocorrem retrações
das geleiras nos denominados períodos interglaciais,
dos quais vivemos o último.
Ainda ignoramos muito acerca desta primeira migração
humana, mas lhe foi permitida a passagem pelo Bering durante
todo o período de glaciação, entre os
70 de 50 mil anos quando, “com mais água na
forma de gelo, o nível do mar desceu, criando uma
rota terrestre, a Beríngia, para a colonização
das Américas” (3), sem nenhuma pista quantas
entradas aconteceram, se os bandos foram em grande número
ou não, se todos da mesma origem.
Alguns cientistas consideram que a expansão pioneira
na América [pré-histórica] não
ultrapassava os 16 ou 20 quilômetros por geração
(4), mais ou menos cada 25 anos (5), todavia outras sugestões
assinalam 1 km/ano; desta forma acertadas as opiniões
que os vestígios humanos de 40 a 50 mil anos, como
restos de [carvões] de fogueira e artefatos de rocha
lascada como peças de multiuso [talhadores], em São
Raimundo Nonato – Piauí (6), possam mesmo atestar
presença de descendentes negróides na região.
Outras amostragens arqueológicas de fragmentos ósseos,
a exemplo do crânio do denominado Homem Californiano,
cuja datação mais precisa “indica que
o homem vivia nessas regiões [Norte América]
há 48.000 anos” (7), difere das características
de outros ancestrais surgidos milênios depois, como
o siberiano primitivo, o asiático, o melanésio,
o polinésio ou quaisquer outras contribuições étnicas
mais recentes [10 – 7 mil anos] para a formação
do homem americano.
Para o antropólogo Albert Goodyear, do Instituto de
Arqueologia e Antropologia da Universidade da Carolina do
Sul, “os primeiros assentamentos humanos na América
do Norte surgiram há 50 mil anos” (8), pela
Beríngia.
Entretanto, tudo muito discutível, para uns a teoria
deveria ser repensada, melhor explicada, pois que as provas
seriam frágeis diante de apenas um exemplar, acontecida
talvez por acomodações indevidas do achado
em comparação com o solo. Para outros, a datação
não é exata, as variações podem
ser de milênios, em especial quando nos diz da retração
das geleiras, entre os 50 e 30 mil anos, com o Bering então
submerso pelas águas do mar, a impedir passagem natural
entre Ásia e América.
Mais aceito cientificamente, por volta dos 30 ou 28 mil anos,
novamente o Bering abriu a passagem intercontinental entre
a Ásia e a América. Dessa possibilidade se
aproveitou o ancestral siberiano primitivo, oriundo do norte
dos Montes Urais, de cuja análise cromossômica
ou informação biológica da relação
entre povos, “(...) identificamos populações
da Sibéria que tinham ancestrais recentes comuns aos
nativos americanos, os Altais e os Kets, com DNA muito semelhante” (9).
Estes povoadores nômades seguiram o deslocamento das
manadas de animais, através da ponte de gelo, espalhando-se
em ondas migratórias sucessivas por todo o continente,
como provam os vestígios nos sítios de Meadowcroft
[EUA], de Folsom [Califórnia – EUA], em costas
pacíficas do México, Monte Verde [Chile], Monte
Alegre [Brasil], todos antes da era Clóvis.
No entender de Anna Roosevelt aqueles homens “podem
ter descido a Costa do Pacífico, chegando a Monte
Alegre depois de cruzar a Colômbia” (10), desviando-se
das grandes geleiras que cobriam maior parte do território
norte-americano [Alasca, Canadá e Estados Unidos],
descendo pela borda pacífica.
As evidências antigas da presença e a dispersão
do homem nas Américas são em sua maioria, restos
de fogueiras, artefatos de pedras lascadas [raspadores, pontas
de flechas e facas] e cacos de cerâmicas. Outros exemplos,
as pinturas rupestres demonstrativas do tipo de cultura praticada,
modo de vida das populações, se caçadores
de pequenos ou grandes animais, se coletores e de quais espécies;
da geografia – flora, fauna e meio ambiente; das interações
intra e intertribais; das crenças, tabus e superstições,
entre demais características retratadas de cada tipo
e época.
Estes achados indicam não apenas o aproveitamento
e as condições dos recursos naturais, bem como
a ocasião das ocupações, sua evolução
cultural e o tempo permanecido numa determinada região.
São as denominadas Civilizações Pontas
de Flechas, distinguidas pela indústria lítica
daqueles instrumentos, assim o Ocidental Americano, Rabo
de Peixe, El Jobo e Monte Alegre, como principais entrantes
que precederam Clóvis.
Alguns estudos sugerem que o Ocidental Americano seja o mesmo
El Jobo, com sítios arqueológicos em Monte
Verde [Chile], Taimá [Venezuela] e Monte Alegre [Brasil],
cuja presença humana remontaria aos 11.200 anos, com
quatro reocupações decursivas (11).
Igualmente outras ocupações firmadas na mesma época,
no baixo Amazonas, da-nos a certeza que seus ancestrais passaram
pelo Bering muito antes do Povo de Clóvis, estimados
os 18 ou 20 mil quilômetros do Bering a Monte Alegre,
numa movimentação de 1 quilômetro / ano,
ou que sejam os 16 – 20 quilômetros a cada geração
[25 anos].
- A merecer melhores estudos, alguns estudiosos apontam
contemporâneas as culturas amazônicas Monte
Alegre, Trombetas, Tapajós e Marajó – talvez
uma única assim distribuída geograficamente.
Entendemos Trombetas, Tapajós e Marajó, outras
talvez ainda não localizadas, evoluídas a
partir de Monte Alegre..
As conclusões ainda são polêmicas, os
antepassados de Monte Alegre teriam chegado à América
no ano 30 mil, enquanto o Povo de Clóvis somente atravessou
o Bering por volta do ano 15 mil, e, para a Ciência,
qualquer povo americano mais antigo seria seu descendente,
não indo além dos 12 mil anos, conforme tese
científica ainda predominante.
Demais chegadas do homem às Américas, cientificamente
aceitas, mesmo aquelas ocorridas pelas Ilhas Aleutas – Caminhos
das Aleutas, e pelos arquipélagos e ilhas da Oceania,
apesar de notória contribuição para
a formação do homem americano, nenhuma delas
teria sido anterior ao Povo de Clóvis.
O fenômeno migratório asiático para a
América, consoante a Ciência, ocorreu quando
Canadá e Estados Unidos em grande parte estavam cobertos
de gelo, pelas geleiras Laurentídea e Cordilheirana,
com somente um corredor de terra firme por acesso à região
de Clóvis, no México. Conseqüente de tal
concepção e de acordo com amostragens conclusivas,
o homem asiático chegou ao território brasileiro
apenas há 7 mil anos, oriundo da costa norte peruana,
ou seja, da Cultura Paiján.
- Quanto mais ao sul de Bering mais recente seria a ocupação
humana, assim há 15 mil anos no Alasca, aos 12 mil
no Novo México [EUA], em 10 mil na América
Central e, apenas em 7 mil chegava ao Brasil norte.
Entretanto, recentes datações indicam presenças
humanas no Brasil, em Lagoa Santa [MG] – sítio
arqueológico da Lapa Vermelha e adjacências,
entre os 2 e 12 mil anos, onde localizado em 1975 o crânio
de uma mulher – denominada Luzia, com 11,5 mil anos.
Luzia e sua parentela de traços negróides,
olhos redondos, nariz largo e prognata, características
nada em comum com algum outro homem fóssil já encontrado
na América e aceito pela Ciência.
A descoberta de Luzia trouxe controvérsias nos meios
científicos, por se pensar na época um exemplar único,
considerados seus traços fisionômicos como anomalia
e não regra entre os paleoíndios. Tais dúvidas
e questionamentos duraram até que o antropólogo
e bioarqueólogo brasileiro, Walter Neves (12), da
Universidade de São Paulo – USP, estudou aquele
fóssil em comparação a outras dezenas
de restos humanos arqueológicos, guardados no Museu
Arqueológico de Copenhague – Dinamarca, recolhidos
na Caverna do Sumidouro, próximo de Lapa Vermelha,
pelo naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund, na
primeira metade do século XIX (13).
Os estudos de Neves classificaram e dataram aqueles fósseis
como semelhantes e da mesma época de Luzia. Outros
achados em Colômbia, também estudados por Neves,
revelaram os mesmos constitutivos daqueles de Lagoa Santa.
Das conclusões de Neves temos a corroboração
de Denis Russo Burgierman (14):
“No mundo incerto da Arqueologia, a ciência que estuda os
ancestrais humanos, a teoria mais aceita sobre o povoamento das Américas
sustenta que povos asiáticos atravessaram o Bering, entre o Alasca e
a Rússia, há 12.000 anos. Eles teriam aproveitado uma descida
do nível dos oceanos para passar a pé pelo fundo do mar. Mas,
para o antropólogo Walter Neves (...), antes deles chegaram povos mais
antigos, com traços de negros africanos. Neves chegou a essa conclusão
depois de medir detalhes anatômicos de cinqüenta crânios de
Lagoa Santa, em Minas [Gerais], e na Colômbia. Se estiver certo, a primeira
leva de migrantes teria saído da África e dado a volta ao mundo
até Chegar aqui. Mais tarde, vieram os asiáticos, ancestrais
dos índios de hoje – e que exterminaram os negros”.
Burgierman, a despeito, nos revela que “Há 100.000
anos o sapiens [sapiens] migrou para a Ásia. Mas
um grupo foi direto para a América”, para concluir
que “(...) os primeiros a chegar à América
foram os africanos (...)”.
Marcos Pivetta (15) asseriu dos estudos de Walter Neves:
“(...).
Para classificar essas oito dezenas de crânios mineiros
como semelhantes, em termos de constituição
física, aos habitantes atuais do Subsaara e da Oceania,
Neves comparou, com a ajuda de vários modelos computacionais,
cerca de 50 parâmetros morfológicos dos esqueletos
com as medidas típicas dos principais grupos étnicos
que compõem atualmente a população mundial.
Desde 1989 o pesquisador da USP e seus colaboradores defendem
a tese de que as Américas foram colonizadas por duas
correntes migratórias de caçadores e coletores,
ambas vindas da Ásia, provavelmente pelo estreito
de Bering, mas cada uma delas composta por grupos biológicos
distintos. A primeira teria ocorrido 14 mil anos atrás
e seus membros teriam aparência semelhante à de
Luzia. Contudo, por razões ainda ignoradas, todos
os seus descendentes parecem ter se extinguido depois de
viverem aqui por alguns milhares de anos, não havendo
hoje um só índio com traços semelhantes
aos dos antigos habitantes de Lagoa Santa. O segundo grupo
a entrar no Novo Mundo teria sido o dos povos mongolóides,
aproximadamente há uns 11 mil anos, dos quais descendem
atualmente todas as tribos indígenas das Américas.
(. . .)”.
Respeitadas as opiniões de Neves e a retroatividade
de sua teoria em apenas 3 mil anos, com relação
ao Povo de Clóvis, por conseguinte dentro da margem
de erro, os academicistas refutam-no ao reafirmar fechada
aquela passagem do Bering, dos 20 aos 15/14 mil anos, depois
reaberta quando então a primeira leva de grupos asiáticos,
da Cultura Salutrense, para dominar o continente americano,
sob o nome Cultura ou Povo de Clóvis, como designação
do lugar mexicano onde encontrado artefatos produzidos por
pessoas que lá habitaram, entre os 10.500 e 11.400
anos, impensável, deste modo, algum outro sítio
arqueológico americano anterior aos 12 mil anos.
A partir destas discussões e provas levantadas, quebrou-se
de fato a tese da homogeneidade étnica no continente
americano. Para o antropólogo português, Mendes
Corrêa, do mesmo modo se rompeu a unicidade de entrada
dos primeiros humanos na América, apenas pelo Bering,
ao propor a vinda de grupos desde a Austrália para
a América do Sul, pelas ilhas da região Antártica,
a saber, “Tasmânia, Ilhas Auckland, Campbell,
Macária, Esmeralda, Terra de Wilkes, Terra de Eduardo
VII, Terra de Graham” (16); caminho relativamente curto
e de fácil cabotagem.
A teoria não é descabida, pois tanto quanto
o Estreito de Bering se fechava entre o Alasca e a Sibéria,
no hemisfério austral uma franja de gelo livre na
costa Antártica se aproximava do continente americano
ao sul, de modo a permitir estabelecimentos humanos.
Da presença australóide na América do
Sul ainda se encontram traços culturais vistos nos
aborígines australianos e sobreviventes na Cultura
Tchon (17), dos quais dão-nos provas a antropologia,
a etnografia e a lingüística; embora não
haja, ainda, unanimidade histórica como este homem,
sabidamente medíocre navegante, tenha vencido os caminhos
para chegar às terras mais meridionais do novo continente
(18). Outros descendentes seriam os Botocudos, no Brasil,
mas sua extinção no século XIX, e o
pouco estudo sobre eles, privam-nos de melhores compreensões
histórico-científicas.
Desta forma, excluídas as ilhas e arquipélagos
para alguma chegada transpacífica – mesmo por
cabotagem, ao australóide restaria somente a Beríngia
por caminho mais acertado; no entanto não foram encontrados,
até o momento, vestígios deste povo nas Américas
do Norte e Central. Pressupondo-o migrante do sul da China
ou Sudeste Asiático, nenhuma data de sua presença,
na América do Sul, combinaria com alguma passagem
oferecida pelo Bering ou costas pacíficas.
Com esta opinião não discordamos, em absoluto,
da entrada tardia do elemento melanésio e outras culturas
nas Américas, a exemplo da chinesa pelas ilhas do
Pacífico, em maior parte pelas ilhas Polinésias.
Paul Rivet concorda que a maioria das entradas humanas na
América tenha mesmo ocorrido pela Beríngia,
porém não rota única, ao lembrar que
os navegadores melanésios ocuparam quase todas as
ilhas do Pacífico, de Nova Zelândia à Ilha
da Páscoa, de Samoa ao Havaí, sendo provas
de contatos as evidências fisionômicas, os intercâmbios
agrícolas e as influências culturais.
“Para um povo [melanésio] que havia conseguido a extraordinária
façanha de descobrir as ilhas do Pacífico, alcançar a
costa americana era coisa relativamente fácil; pensando bem, teria sido
mesmo surpreendente que não o tivesse feito (...)”, conclui Paul
Rivet (19).
Compreendemos, desta forma, que as ossadas encontradas em
Lapa Vermelha e Caverna do Sumidouro eram de australóides,
do mesmo grupo humano encontrado no sul da China e Sudeste
da Ásia que migraram para Oceania e Austrália,
e depois chegaram ao extremo da América do Sul, antes
da elevação pós-glaciária que
os isolou do resto do mundo.
Mesmo que observáveis certas dessemelhanças
entre os paleoíndios sul-americanos em relação
aos do norte, que evidenciam herança genética
negróide nos suleiros, a Ciência ainda insiste
que a ocupação humana na América ocorreu
por migração asiática, da Ásia
Central, em sucessivas levas enquanto o Bering assim permitiu.
Desta forma, as diferenças fisionômicas seriam
mutações no processo evolutivo, de alguns milhares
de anos, com isso a desconsiderar traços faciais dos
sul-americanos com caracteres negróides, bastando
aos cientistas argumentações que os índios
sul-americanos são mais parecidos com os norte-americanos
que qualquer outro povo, extinto ou não.
Outros estudos contrapõem-se a este conservadorismo
científico, pois que “(...) análises
do DNA dos vários grupos humanos, segundo Vânia
Prado, já permite verificar que, depois que os primeiros
homens africanos, negróides, se instalaram na Ásia,
parte deles passou por um processo de mongolização,
gerando a raça amarela. Antes disso, no entanto, esses
negróides empreenderam um processo de migração,
com parte rumando para a Oceania e, ao que tudo indica outra
parte seguindo para a América (...). O código
genético dos índios americanos é semelhante
ao dos povos nativos asiáticos, confirma Vânia
Prado. (...). A análise do DNA das ossadas pré-históricas
mais antigas da região de Lagoa Santa, contemporâneas
de Luzia, poderá ser a chave para esclarecer o surgimento
do homem americano e o próprio desenvolvimento das
raças humanas (...). A captura do DNA de ossos pré-histórico é dificílima
porque, após a morte, a tendência é que
as enzimas das células quebrem suas seqüências
moleculares, fazendo-as desaparecer. Identificando-se o código
genético desses negróides pré-históricos,
será possível saber se eles contribuíram
na formação de alguns povos americanos (...)” (20).
Não obstante as evidências australóides
na América do Sul, os cientistas que defendem este
posicionamento ainda não sabem o suficiente, como
se deu sua extinção, se por isolamento genético
ou geográfico, durante os milênios a seguir,
talvez absorvidos pelos mongolóides que chegaram depois,
sobrevivendo apenas uns poucos elementos em remanescentes
patagões da Cultura Tchon.
Com as descobertas de fósseis humanos australóides,
abaixo do Estreito de Magalhães – em Terra do
Fogo, semelhantes àqueles encontrados no Brasil, uma
vez comprovada sua anterioridade a Luzia, sem dúvidas
a Ciência se renderá às necessidades
revisionistas de antigas teorias a respeito da ocupação
americana, desde os aspectos de homogeneidade genética às épocas
e locais de entradas.
- “Para reforçar ainda mais essa teoria, as
configurações cranianas de Luzia foram encontradas
em fósseis de mais ou menos 9.000 anos perto da
cidade colombiana de Tequendama e na Terra do Fogo, do
outro lado do Estreito de Magalhães, territorialmente
localizado no fim da América do Sul. Portanto, atualmente,
a hipótese de Walter Neves e Héctor Pucciarelli,
acrescenta mais uma celeuma na conturbada história
do povoamento americano” (21).
Não menos famoso e polêmico está o sitio
arqueológico Pedra Furada, na Serra da Capivara, em
São Raimundo Nonato [PI-Brasil], aonde a pesquisadora
Niède Guindon – da Universidade de Campinas
[SP], à frente de Missão Franco-Brasileira,
teria encontrado vestígios humanos de 48 mil anos
e pinturas do 15º milênio, sendo estas as evidências
mais antigas de presença humana nas Américas.
Niéde argumenta que “Nesta região existem
evidências de presença humana que remontam a
60.000 anos. O sítio Toca do Boqueirão da Pedra
Furada, escavado entre 1978 e 1988, forneceu a mais completa
estratigrafia até hoje encontrada nas Américas
(Parenti, 2002, Parenti et al, 1990, Guidon and Delibrias,
1986, Guidon et al., 1994). Hoje podemos afirmar que a entrada
de Homo sapiens para o continente americano fez-se em vagas
que, saindo de diferente lugares, seguiram diferentes caminhos
e que as primeiras devem ter entrado na América entre
150.000 e 100.000 anos atrás” (22).
Contrapondo-se, os especialistas “não estão
suficientemente convencidos de que os carvões dos
quais elas foram extraídas sejam provenientes de fogueiras
feitas pelo homem, e acreditam que possam ser resultantes
de combustões espontâneas no ambiente semi-árido
da caatinga nordestina. Quanto aos artefatos e estruturas,
por demais rudimentares, entendem que forças naturais
poderiam ter produzido os lascamentos observados no material
lítico, assim como reunido pedras e carvões
em associações que apenas sugerem a existência
de fogueiras” (23).
Em editorial de reportagem assinado por Carlos Vogt, “Para
a arqueóloga Niéde Guidon, que escava a região
desde os anos 80, não há dúvidas de
interpretação a respeito da ação
humana nesse contexto. `Colegas americanos da Texas A & M
University, EUA, analisaram as peças líticas
e, como nós, as consideram indubitavelmente feitas
pelo homem. Para rebater a idéia de que o carvão
podia vir de incêndios naturais, fizemos sondagens
em todo o vale da Pedra Furada e o carvão somente
existe dentro do sítio. Incêndios naturais deixam
carvão para todos os lados´, explica a pesquisadora” (24).
- A hipótese de presença humana em São
Raimundo, se comprovada e aceita, certamente inviabilizará tudo
aquilo que se pretende para a presença do homem
em terras americanas. Mas não se pensa nisto para
tão logo.
Enquanto os especialistas não chegam a um consenso
dos grupos paleoíndios e procedências respectivas,
a história parte do comum e incontestável,
ou seja, quando os asiáticos principiaram entradas
aos magotes pela América do Sul, dos 7 aos 3 mil anos.
Quase em geral, referidas entradas ocorreram pelos caminhos
da costa do Pacífico até a Patagônia,
para daí se espalhar e ocupar virtualmente todo litoral
Atlântico sul.
Os especialistas concordam dos possíveis encontros
entre grupos já fixados com aqueles que chegavam,
em sucessivos enriquecimentos genéticos, bandos repelindo-se,
uns desalojados e interiorizando-se, outros se adregando
para novos grupos e descendências.
Alguns grupos entraram em ambientes estranhos e hostis, onde
as assimilações e plasticidades lhes exigiram
diferentes modos de usos e manejos dos recursos naturais,
bem como desenvolvimento da indústria lítica
e cerâmicas ou pré-cerâmicas, e das formas
e disposições sociais advindas de tais situações.
Por volta do século XV antes da era atual houve cessação
migratória, e os hábitos se tornaram quase
sedentários, com deslocamentos insignificantes, oportunidades
de maior aumento populacional para formação
dos Povos Sambaquieiros, divisos em mateiros e litorâneos,
com dialetos fortes e fatores suficientes para formações
lingüísticas próprias para diferenciá-los,
mesmo entre si.
A Cultura Sambaqui [Tamba – conchas, ki – amontoado
ou colina] caracterizou-se conforme designação
dada àquele povo consumidor de moluscos, crustáceos,
peixes e outras variedades oferecidas pelo oceano, mangues,
rios e lagoas, cujo hábito estava em amontoar conchas
e cascas marinhas ou fluviais. Tais amontoados, sobrepostos
com terras a cada geração ou de tempos em tempos,
para morar sobre eles, porque constituíam lugar adequado,
alto e seco dentro de uma região fluviomarinha ou
meramente lacustre.
Geralmente os mais antigos sítios, alguns além
dos 7 mil anos, situavam-se junto às costas do Atlântico,
depois outros interiorizados próximos, com as mesmas
características de amontoados de terras, conchas e
cascas marinhas, pois não constituía problemas
o transporte de ostras, mariscos e outros produtos do mangue
ou do mar, carregados até onde moravam, características
próprias de divisão de trabalho tribal.
Os mais distantes usavam seixos, terras e restos apanhados
dos rios, por isso denominado sambaquis fluviais – ou
concheiros fluviais, como o encontrado na bacia do rio Jacupiranga,
Vale do Ribeira, onde localizado o crânio de 8 mil
anos, o mais antigo achado arqueológico [humano] paulista
(25).
- Existem quase três dezenas de sambaquis fluviais
já descobertos em Vale do Ribeira, mais afastados
do litoral. Entre as grutas abrigos, sítios cerâmicos
e cemitérios indígenas, em Vale do Ribeira,
com ocupações e reocupações
humanas entre os 11 mil e 800 antes da era atual, seriam
típicas mongolóides aquelas até 5
mil anos, e negróides / australóides as anteriores
(26). Comprovadas as hipóteses certamente a Ciência
necessitará de algum conceito de transição
entre aqueles povos, e rever o que se pensava saber a respeito
dos Sambaquis.
As medidas dos sítios sambaquis eram variáveis,
conforme número de famílias que neles moravam,
em média medindo 150 metros de cumprimento, 80 de
largura por 30 de altura, outros próximos aos 500
por 300, com altura de 50 metros ou mais. Alguns sambaquis
tinham 7 ou mais cabanas, arredondadas e cobertas de sapé ou
folhas de palmeiras, em cada uma delas moravam três
ou quatro famílias, cada uma a ocupar um canto, sem
divisórias.
Os Sambaquieiros deixaram os melhores vestígios arqueológicos
dentre todos os povos do Brasil pré-cabraliano, pela
própria formação de seu nicho ecológico
onde estavam as moradias e os locais de sepultamento; igualmente
encontrados instrumentos de usos diversos, como machados,
facas e pontas, ao lado restos alimentares e carcaças
de seres que conviviam ou dividiam um mesmo território.
Pelos esqueletos se sabe que eles eram baixos e fortes, não
guerreiros, pelas indicações de seus artefatos
e instrumentos mais usuais.
Estes depósitos moradias situavam-se ao longo da costa
oceânica, ou nas proximidades das lagoas e rios litorâneos,
com partes de suas gentes cada vez mais propensas às
interiorizações, tanto pelo aumento populacional
quanto pelos desentendimentos tribais, em busca de lugares
altos e próximos às margens dos rios. Destes
feitos logo adquiriram hábitos e costumes próprios,
de contínuo a depender daquilo que a natureza lhes
oferecia, porque não eram dados a nomadismos seguidos
e quase nada aos trabalhos da terra, permanecendo em único
local por anos ou décadas.
A conformação dos Sambaquieiros com características
peculiares para se fazer Povos dos Sambaquis conforme conhecidos,
esteve presente em toda costa atlântica, desde abaixo
do rio Amazonas e Ilha Marajó, à exceção
talvez do litoral norte de São Paulo. Às margens
e acima do Amazonas eram outras as tribos e a cultura mais
uniforme e avançada, conforme as mencionadas Trombetas,
Tapajós e Marajó que entendemos evoluídas
de Monte Alegre.
Dos tempos dos Sambaquieiros eram os Jês, habitantes
vindos do sul da América, mais historicamente dos
plagais do Uruguai oriental, tidos descendentes dos australóides
ou mestiçados daqueles paleoíndios com os primeiros
entrantes asiáticos na América do Sul.
Unanimidade distante, trabalhos inconclusos, é admissível
analogia entre australóides vistos no sul da América
com o povo Jê, este na qualidade de descendente e cujos
traços se assemelham ao negróide, ambos prognatas
conforme crânios reconstituídos.
No Brasil costuma-se apontar o Jê Botocudo como descendente
paleoindígena do Povo de Luzia, opinião compartilhada
por João Paulo Atui, do Laboratório de Estudos
Evolutivos Humanos da USP, em sua dissertação
de mestrado (27) sob orientação de Walter Neves.
Revela-nos o Jornal da Ciência (28), Os Sobreviventes,
que “crânios de índios extintos do Brasil
Central indicam elo com primeiros povoadores da América” para
assim concluir em Reinaldo José Lopes (29), “Os
botocudos são, para todos os efeitos, paleoíndios”.
Estudos recentes e em andamentos indicam interiorizações
de populações proto-históricas pelo
interior paulista, em épocas dos Sambaquieiros e Jês,
pelas regiões de Araraquara e margens do Paranapanema
e Paraná, entre outras, com levantamentos de sítios
com vestígios de lascas e pontas de flechas, resíduos
de passagens – fogueiras, habitações,
representações gravadas, dietas e sepultamentos.
Aquelas populações vindas do sul eram de caçadores,
coletores e pescadores, presentes entre os 8 e 2 mil anos
antes do presente, agrupados em diferentes denominações
regionais, com destaques para as Tradições
Humaitá, Umbu, Bituruna, Sarutaiá, Piraju e
Itararé, bandos contemporâneos ou não,
avizinhando-se, reocupando ou dividindo um mesmo território
algumas vezes.
São distinguidas entre si pela apresentação
de sítios líticos pré-cerâmicos,
pelas pontas de flechas, tipos de habitações
e tendências para certos ambientes naturais, como áreas
entre rios, matas fechadas ou clareiras e regiões
altas, planas ou baixas. Os especialistas vão mais
a fundo nestes detalhes acrescidos de outros, para a maior
coerência possível em separar grupos, como as
datações de passagens, ossadas, pinturas e
restos de dietas além dos métodos científicos
comparativos entre indivíduos de diferentes bandos..
Características mais ou menos comuns em tais Tradições
apontam-nas para a família Jê com lembranças
Sambaquieiras, a sugerir descendentes diretamente miscigenados,
e depois outras mestiçagens em sucessivas gerações,
nunca concluídas para uma identidade política
tribal, até porque substituídas por tribos
mais modernas e melhores adaptadas para ocupação
territorial, inclusive nas artes da guerra.
Mas, não se pode minimizar; a Ciência ainda
não nos deu seu veredicto.
Historicamente ao povo Jê se uniu o Tapuia, ou, o Não
Tupi. Se os Tupis eram bons por serem submissos aos portugueses,
os Tapuias eram os bárbaros.
Tapuia não seria nenhuma denominação
tribal étnica, senão uma designação
genérica a todos indígenas que não se
deixavam evangelizar nem cativar ou que de uma maneira ou
outra se opuseram aos conquistadores.
Realmente não existe nenhum tratado científico
que possa determinar os Tapuias com alguma historiografia
e antropologia anterior aos conquistadores europeus, que
inclusive pudesse resgatar sua memória como grupo
social de relativa homogeneidade cultural ou lingüística,
ou de alguma história de origem comum a outras nações
indígenas.
Alguns dados questionáveis colocam os Tapuias juntamente
com outras tribos, unidas contra a presença dominadora
dos Tupis e os Guaranis, quando estes entrantes em território
brasileiro, portanto muito antes dos descobridores.
Registros inexistem, as interpretações são
muitas vezes interpoladas ou sobrepostas para retroatividades
enganosas. “Assim não seria exagero afirmar
que esse binômio [Tupi – Tapuia] tem sido a chave
classificatória fundamental e perpassar a documentação
e a historiografia, dos cronistas do século XVI até mesmo
aos trabalhos coevos” (30).
Os Tapuias seriam [mais aceitamente] sobreviventes de diversos
povos indígenas, levados ao massacre pelos primeiros
colonizadores portugueses, e que ganharam destaques no cenário
histórico brasileiro pela união aos holandeses,
no Rio Grande do Norte, na luta contra os portugueses e os
aliados Tupi-Guaranis.
Dentre os Tapuias destaca-se a tribo Cariri, no nordeste
do Brasil, formada por grupos migrantes diversos, em áreas
entre o São Francisco [BA] e Parnaíba [PI] às
serras do Araripe e da Ibiapaba. Nos Cariris do século
XVI se identificavam diferentes agrupamentos regionais, de
línguas distintas entre si, por isso a denominação
Povo da Língua Travada, então com a primeira
presença Jê.
Estudos mais recentes indicam os primeiros Tapuias possíveis
descendentes dos protopolinésios vindos em migrações,
por via transpacífica, para entradas em regiões
do Brasil até o nordeste (31), depois de vários
processos de miscigenações pelos caminhos,
mas ainda com características negróides [australóides].
Daí sua identificação com os Jês,
em causa das relações fonológicas quanto
aos aspectos de nasalidade – as surdas e as vozeadas,
dos sons emitidos, e outros fenômenos lingüísticos,
estudados pela filologia, como identificações
suficientes para se inserir o Tapuia na família lingüística
do Tronco Macro-Jê.
Outras proximidades como designativos similares de lugares
ou fenômenos naturais, traços culturais próximos,
elementos de crenças, tradições, costumes
e tabus, aproximam os Tapuias dos Jês. Apesar destas
tantas similitudes das ligações Jês e
Tapuias, quiçá nenhuma seja tão forte
quanto às alianças tribais contra inimigos
comuns, ligações fortalecidas posteriormente
pelo bom êxito das empreitadas, já nas condições
de povos unidos.
Prosseguindo a respeito das populações indígenas
encontradas no Brasil, velhas tradições indicam
que grupos Caribes, que se autodenominavam Tupinambás
[verdadeiros filhos de Tu-Pã – Tupã],
vindos das regiões caribenhas entraram em território
venezuelano, por cabotagem pelo Atlântico, no ano mil
a.C.
Algum tempo depois – não se sabe exatamente
quando, por provável cisão tribal, dos Tupinambás
saíram os guerreiros Tupis, [filhos de Tupã],
que ingressaram em território brasileiro para ocupar
o baixo do rio Madeira à Ilha de Marajó, no
estuário do Amazonas, depois pelo litoral num processo
de extermínio e aculturação dos Povos
Amazônicos aos Sambaquieiros, para enfim chegar dominante às
regiões de São Paulo.
Era o princípio pelo domínio territorial, numa
longa e variada história, desde logo um desastre para
os povos predecessores..
Dos Tupis despontaram os Guaranis, desde o rio Madeira, depois
a bacia do Paraná e contornos do planalto brasileiro,
a partir do noroeste pelas terras do Paraguai, Mato Grosso
do Sul, oeste do Paraná, e enfim o reencontro com
os Tupis ao sudeste, daí a expressão designativa
Tupi-Guarani, ou seja, a reunificação dos Tupinambás
no Brasil, por volta do ano 500 a.C. (32). Os Tupis dominavam
o litoral desde Cananéia para o norte, e os Guaranis
ao sul e as matas, em diversas tribos guerreiras. Dos avanços
Tupi-guaranis retrocediam os chamados de Tabuis – Tapuias,
nome depois genérico a todos os índios não
submissos aos colonizadores.
Para a nação Nuaruaque pretende-se inicialmente
que grupos Aruaques foram expulsos da ilha caribenha Santa
Lúcia (33), pelos Caraíbas. Por necessidade
imposta chegaram à ilha Trinidad, defronte a foz
do Orenoco, e dela passaram para o continente – na
Guiana e norte do Brasil, em regiões do Amapá,
baixo rio Amazonas e Ilha Marajó, onde assimilados
por remanescentes Tupis para originar a nação
Nuaruaque [Nu – meu, Aruwak – comedor de farinha],
certamente alusão aos cultivos e preparos da mandioca
e do milho.
Da lenda das amazonas, ainda referente ao Caraíba
no norte do Brasil, viam-se sociedades sob regime matriarcado,
a tratar-se de grupos caribenhos que entraram em terras do
Brasil para a formação de singular sociedade
indígena, aparentemente advinda das práticas
de cultos vinculados ao mito matriarcado na região
do alto Rio Negro e alto Xingu (34).
No entanto, há indicativos que eram os homens quem
se vestiam de mulher em ocasiões especiais, para os
cultos e tradições voltados ao sistema matriarcal
de governo. Teria sido num momento assim que a expedição
de Francisco de Orellana pode observá-los ao longe
em ritos e oblações na foz do rio Nhamundá no
Amazonas.
Tais tradições se relacionam aos aspectos sociais
e culturais melanésios, onde alguns estudiosos insistem
na influência daqueles povos em tribos americanas do
sul, com presenças através de vagas pela via
transpacífica, antes de adentrar a Amazônia
brasileira.
- O nome Amazonas foi dado pelo capelão da viagem
de Orellana, Padre Gaspar de Carvajal, que falou da existência
de mulheres guerreiras às margens do rio. Pelos
estudos atuais, as amazonas não eram lendas, virgens
isoladas e nem mulheres que renegaram a tribo isolando-se
nas matas e se tornaram guerreiras, somente a se relacionar
com homens em certas ocasiões especiais e para reprodução,
descartando as crianças do sexo masculino.
Numa visão geral eram estas as principais nações
indígenas do Brasil, encontradas pelo conquistador
português, com umas e outras variantes que apontam,
outrossim, nações dos Tucanos, Panos, Nhambiquaras,
Bororos e Carajás.
Evidentemente nada fácil defini-los todos apenas pelos
bandos representados, estando alguns grupos lingüísticos
distintos embora geograficamente próximos; enquanto
distanciados outros consangüíneos pelos nomadismos
e tradições adquiridas em outros ambientes,
quase em geral de migração subgrupal ou discordos
tribais.
Portanto, sem desvio algum dos objetivos, a chegada primeira
de negróides, depois as sucessivas levas de asiáticos
e a presença de australóides em continente
americano, com maiores ou menores contribuições
genéticas
para formação do povo, ou de outras presenças
discutíveis, civilizadoras ou não, podem e
devem ser consideradas neste trabalho; por isso o fizemos,
por as consideramos já situadas no campo científico
do real e concreto.
OS CELTAS ANTES DOS VIQUINGUES – DEPOIS
OS PORTUGUES E ESPANHÓIS
A
presença celta em continente americano, séculos
antes de Colombo, é hoje acontecimento histórico
inquestionável, inclusive com ciência da Santa
Sé que lhe cobrava impostos e os dízimos da
produção pesqueira.
Compartilhavam aqueles segredos a França e a Noruega, depois Portugal
e certamente povos outros europeus que preferiam comprar as mercadorias, já postas
em seus portos, que se aventurar numa viagem que entediam além de seu
próprio alcance, por motivos tecnológicos, financeiros ou de conhecimentos
de navegação (1).
Mas os celtas não eram os únicos, os viquingues também conheciam
a América, desde que lá chegaram perseguindo os celtas; e, se os
celtas se dedicavam à pesca e religião, os viquingues optaram pela
dominação e o comércio da madeira, trazendo para a Europa
o pau-brasil, igualmente a manter em segredos seus conhecimentos.
- O célebre Mapa Vinland [1423-1445], de autor desconhecido,
mostra-nos as costas da Europa, Açores e parte da
América do Norte, com a descrição
da saga de Leif Eiriksson, o norueguês [filho de
Erik o Vermelho] que no ano 1000 chegou à terra
de Vinland. Documento referido (2), de autenticidade comprovada
para o ano de 1434 [margem de erro de 11 anos], faz parte
acervo de obras raras da Universidade de Yale [USA].
Os viquingues aportados no Golfo do México e interiorizando-se,
realizaram importante obra civilizadora junto aos Astecas,
Maias e tribos confederadas a estes povos. Renegados e expulsos
pelos seus patrocinados, antes do ano 1000 [967/987], desceram
mais para o sul, em terras já conhecidas e de onde
exploravam o comércio madeireiro – pau-brasil
para a Europa. Sabe-se que pelo menos um dos grupos se instalou
nas costa atlântica da Venezuela, numa travessia terrestre
de noventa anos até chegar ao Pacífico, terras
do Equador onde se estabeleceu sua descendência, o
Povo Atumuruna, para alcançar o Peru e formar um Império
denominado Tiahuanaco, por volta 1100, povo do qual nos ocuparemos
mais adiante.
Historiadores informam o pau-brasil, mercadoria corrente
em quase todos os portos europeus, desde a Idade Média
(3), como especiaria de preço e, sobre ela incidiam
tarifas alfandegárias. A madeira gênero Caesalpina
conhecida por Brazilis, ou outros tantos nomes próximos
que lhe atribuem, não era exclusividade americana;
a Ásia também possuía semelhante lenho
cuja essência extraída, própria para
tingimentos de tecidos, chegava aos portos europeus, conforme
consta de registros alfandegários, em Veneza, Ferrara
e Módena, entre os locais capazes de aportar os navios
de maior calado.
Um ou outro autor admite uns poucos toros trazidos pelos árabes
aos europeus, em pequenas e inadequadas embarcações
pelo Mar Vermelho, depois arrastado pelas terras do Egito
até o Mediterrâneo. Porém o transporte
em larga escala que aparecem em outros registros como os
da Espanha e França, se de procedência asiática
somente seria possível sua embarcação
pelo entorno africano, Índico-Atlântico (4),
o que não se fazia na época, daí a
se concluir que as espécies apanhadas seriam originárias
da América Central ou do Sul – região
do Brasil.
Louis Kervaran assegura-nos que o próprio Cristóvão
Colombo esteve em costas americanas no ano de 1477, portanto
quinze anos antes da histórica navegação
de 1492, valendo-se da rota da Guilda dos Pescadores Celtas,
também conhecida por Caminho dos Nórdicos,
que lhe fora entregue pelo comandante da embarcação
pesqueira Coatelem, na Ilha Brêbat (5). Colombo, antes
de oferecer seus serviços a Portugal e Espanha, morou
na Islândia (6) local a caminho de Terra Nova e Canadá,
pela mencionada rota.
Enquanto Colombo em 1487 buscava financiamento para sua viagem,
Portugal já possuía mapas descritivos da Pérsia,
Egito, Índia, costa africana pelo Índico e
a rota marítima que os persas, os árabes e
hindus utilizavam para comércio com as regiões
de Taprobana (Ceilão – Sri Lanka), Málaca
(na Malásia), Molucas, Sumatra, Timor, Catai (China)
e Cipangu [Japão]; portanto em condições
de inaugurar o caminho para o oriente, graças aos
eficientes serviços de seus espiões (7) como
Pero Covilhã e Afonso de Paiva [este morto por doença
na jornada] os quais, por terra, chegaram a norte da África,
Pérsia e, pelo menos o primeiro, também em Índia
e reinos costeiros da África Oriental, a exemplos
de Moçambique e Abissínia [Etiópia].
Conhecedor da rota das especiarias e capaz de fazê-la
em segurança relativa, mais pelos perigos do mar,
Portugal sabia como e onde encontrar a Índia ou qualquer
outro ponto asiático, pela África [Cabo da
Boa Esperança] ou pela América do Sul [Cabo
de Horn – Estreito de Magalhães]; portanto ciente
que Colombo em 1492 não havia chegado ao Oriente,
nem em terras além mar nunca dantes vistas por algum
europeu, afinal seus navegantes sabiam do outro lado do Atlântico
onde, desde o século X, monges celtas irlandeses e
viquingues haviam fixado colônias.
Há reconhecimento histórico que os contatos
celtas, entre a Europa e a América, foram interrompidos
entre meados do século XII ao final do XIII, restabelecidos
no século XIV “numa nova forma: os barcos iam
pescar ao largo das costas da Terra Nova e da Groenlândia,
mas não havia mais implantação na América” conforme
destaques dados ao trabalho de Louis Kervaran, esclarecendo
que os celtas americanos teriam sido dizimados pela
peste negra – trazida da Europa, havendo também,
em esqueletos das mulheres traços de degenerescência
que as tornavam estéreis (8). Já os descendentes viquingues americanos deixaram
de se relacionar com os europeus quando das suas obras civilizatórias
na América do Sul, costas do Pacífico, e desaparecidos
seus últimos mercadores do lado Atlântico.
Se a Espanha, sempre às turras com os mouros em seu
território, ignorava a América, resolvido seu
problema doméstico despertou interesse pelas terras
noticiadas por Colombo, para seu início expansionista
além fronteira.
Do interesse espanhol em explorar as “novas terras”,
a reação portuguesa foi imediata e somente
satisfeita com a celebração do Tratado de Tordesilhas,
em que todas as terras não cristãs descobertas
ou a descobrir, situada até 370 léguas de uma
das ilhas do Cabo Verde pertenceriam a Portugal, e para além
seriam as posses espanholas. Dessa maneira, Portugal garantia
direito não apenas sobre partes do Brasil, antes mesmo
de descobri-lo, mas sobre todas demais terras da África
e do Oriente, achadas ou a achar, dada esfericidade da Terra,
cabendo à Espanha tão somente partes orientais
para além das Ilhas Molucas, ou seja, um quase nada,
excetuando suas conquistas americanas.
- A linha de Tordesilhas na Indonésia dava Molucas
a Portugal, mas a Espanha se sentindo prejudicada ocupou-as
militarmente até o acordo final, quando Portugal
acabou por comprá-las a um alto preço para
evitar uma guerra, certamente muito mais cara e desinteressante,
até porque o limite imposto pelo imaginário
de Tordesilhas nunca ficara bem claro, e nem se sabia a
partir de qual ilha do Arquipélago Cabo Verde eram
contadas as léguas, e se estas seriam espanholas
ou portuguesas, marítimas ou terrestres, todas de
medidas diferentes e jamais acordadas.
Na América do Sul os portugueses contavam o imaginário
Tordesilhas a partir do extremo ocidental da mais ocidental
ilha [Santo Antão] do Arquipélago Cabo Verde,
ou seja, passando por Belém ao norte e Laguna ao sul,
enquanto aos espanhóis o corte sul ocorria em Iguape,
com certa tolerância para Cananéia, onde Portugal
já desembarcara seus degredados judeus. Essa indefinição,
um quase nada diante do tanto a dispor, jamais foi solucionada
enquanto vigorou o tratado, embora os espanhóis assumissem
rápido o controle de Santa Catarina até o sul
de Cananéia, inclusive interiorizando-se por todo
Paraná [então espanhol], Paraguai, Bolívia
e Peru.
Apesar das tantas falhas geográficas e divergências
políticas entre Portugal e Espanha, em 1506 a Santa
Sé enfim ratificou os termos do Tratado Tordesilhas,
definindo as divisões do mundo extra-europeu não
cristão em duas partes, espanholas e portuguesas.
Às pretensões monopolistas portuguesas e espanholas
com as bênçãos da Santa Sé, reagiram
os franceses, os ingleses e os holandeses, a infringirem,
desde então, os monopólios de Portugal e Espanha;
e, às
reclamações portuguesas contra os entrelopos
franceses, respondeu Francisco I, rei de França, com
a célebre frase do anedotário histórico: “Não
conheço, no testamento de Adão, nenhuma clausula
que dê o mundo todo a Portugal e à Espanha” ou,
segundo outra versão, “gostaria de ver a
cláusula
do testamento de Adão que me afastou da partilha
do mundo".
JUDEUS DESTERRADOS A 25O.
DE LATITUDE DA INSULLA BRASILIAE E OS PRIMEIROS ENTRADISTAS
Oficialmente Portugal iniciou a colonização no Brasil com exploradores
pagos e os degredados, entre 1501 e 1502, trazidos primeiramente por Gaspar de
Lemos e o cartógrafo Américo Vespúcio, numa expedição
oficial de exploração e reconhecimento das novas terras (1).
O historiador português Jaime Cortesão, no entanto, informa que
certo Cosme Fernandes Pessoa ficou no Brasil em 1498 ou 1499, como degredado,
trazido numa viagem não oficial de Bartolomeu Dias, de acordo com documento
de 24 de abril de 1499, encontrado tardiamente em Portugal (2). Cosme, que se
tornou lenda como “Bacharel de Cananéia” ou Mestre
Cosme, tratava-se de um judeu-espanhol, maçom e desordeiro político
em Portugal.
Cuida tal expediente do cumprimento do Decreto Real Português, de 5 de
dezembro de 1496, que dava aos judeus indesejados dez meses para abandonar o
reino e, muitos dos que insistiram ficar ou não tinham para onde ir, foram
presos em 1497 e degredados alguns, como consta no Livro dos Degredos, arquivado
no museu do Tombo em Portugal, à 25º de latitude na Costa Sul do
Grande Mar Oceano, a coincidir com a Ilha do Bom Abrigo – depois Ilha do
Meio, a sul de Ilha Comprida no litoral sul paulista de Cananéia (3).
Não se sabe com certeza, por não constar em documento oficial,
o ano do desembarque nem os nomes daqueles primeiros desterrados, pois se o Brasil
foi descoberto no ano de 1500, Portugal não poderia mesmo reconhecer nenhum
documento anterior, sob pena de reescrever a história e abrir precedentes
outros, como a dita expedição do navegador André Gonçalves
em 1497, que primeiramente teria desembarcado desterrados judeu-portugueses naquela
mesma localidade Cananéia, entre os quais poderia estar Cosme.
Nunca se soube historicamente porque Portugal escolheu Cananéia para desembarcar
seus proscritos, mas certamente o foi pela discórdia onde acontecia o
divisor Tordesilhas ao sul da América, se em Laguna [SC] pelos portugueses
ou em Iguape [litoral paulista] conforme os espanhóis (4), optando Portugal
unilateralmente determinar o marco oficial em Ilha do Meio – Cananéia,
por Martim Afonso de Souza, no ano de 1531, e assim, ao sul de Cananéia
as terras seriam todas da coroa espanhola, ou seja, os atuais estados brasileiros
do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Esta decisão divisória
já estaria pensada em 1497/1499, pelo reino português, quando do
desembarque dos desterrados em questão, motivos mais que suficientes para
sérias disputas entre os dois reinos.
- A divisão de terras americanas entre Portugal
e Espanha, pelo Tratado Tordesilhas, determinava 370 léguas
a oeste da Ilha de Santo Antão, [segundo Portugal],
a mais extrema do Arquipélago de Cabo Verde. Mesmo
assim jamais ficou certo se eram léguas portuguesas
de 6.600 metros, ou as espanholas de 5.572 metros, até que
Portugal firmou Laguna por linha demarcatória para
seus interesses territoriais, situação nunca
aceita pela Espanha.
Se os primeiros indesejados portugueses foram deixados em
Cananéia, entre 1497 a 1502, se pode pressupor tenham
sido eles os precursores a atingir o continente, interiorizando-se
pelas matas, alguns bem sucedidos, outros trucidados. E a
partir de Cananéia saia uma trilha indígena
para, vencida a subida da serra, chegar às proximidades
da atual localidade de São Miguel Arcanjo a findar
em certo caminho de ligação entre duas sendas
maiores e distantes, uma vinda desde o norte da Ilha Santa
Catarina [SC] outra a partir de São Vicente [SP] (5),
com encontro próximo a barra do rio Iguaçu
e passar além do rio Paraná, para se findar
junto às costas do Pacífico, Peru e Equador,
depois de ultrapassar os atuais territórios do Paraguai
e Bolívia.
Desconhecendo-se os pioneiros europeus, também não
se sabe quando tais caminhos pré-cabralianos foram
percorridos pela primeira vez, nem qual a extensão
de alguma possível incursão inaugural, mas
a mais importante e longa viagem certamente tenha ocorrido
entre 1502 a 1513, a partir de São Vicente para se
chegar aos Andes, em pleno coração do Império
Inca, passando pelas atuais cidades paulistas de São
Paulo, Sorocaba, Botucatu, Avaré e Ourinhos onde,
transposto o rio Paranapanema, seguia via terrestre até a
hoje Peabiru e rumar a Iguaçu, cruzar o rio Paraná e
atravessar os territórios paraguaio e boliviano para
chegar a Cuzco [Peru], de onde o viajante poderia, caso desejasse,
escolher a rota Arequipa [Peru] ou Quito [Equador] para se
alcançar o Pacífico (6).
- Atingido o rio Paranapanema também é possível
por suas águas chegar ao Paraná e deste até Iguaçu
para adentrar em terras hoje paraguaias e seguir os caminhos
até os Andes e deste ao Pacífico.
Dessa viagem é o que entende Cortesão, se
fundamentado que o galo, trazido com outras alimárias
da Europa para Cananéia em 1502, já em 1513
aparecia na corte inca, levado numa expedição
via Peabiru, causando pasmo tanto que o futuro governante
adotaria o nome Atahuallpa, isto é, Galo. “Esta
rapidez na disseminação dum elemento cultural
prova quanto eram rápidas e ativas as comunicações
através do continente (...)", conclui o historiador
português (7).
- Entendemos, no entanto, a possibilidade que tal ave tenha
chegado ao império inca pelo Pacífico, também
por volta de 1513 quando Vasco Nuñez de Balboa chegou
pela primeira vez às costas do Pacífico Sul,
e o galo, se componente daquela expedição,
poderia ter sido introduzido em terras equatorianas por
algum batedor indígena e, de pronto, levado às
mãos dos incas, cujo império então
se estendia até o Equador.
Respeitando Cortesão, tal viagem bem pode ter sido
a primeira passagem do homem branco pelo Vale do Paranapanema,
mas os registros são frágeis.
Com mais segurança histórica, o português
Aleixo Garcia, à frente de quatro ou cinco portugueses
e quase uma centena de índios pacificados, passou
pelo Vale Paranapanema em 1526, numa viagem de São
Vicente [SP] ao Peru, porém morto por assassínio
no retorno foi substituído pelo capitão Pero
Lobo, que chegou a São Vicente com produtos andinos
e milhares de índios aprisionados (8). Em 1521 Aleixo
Garcia, ou Alejo Garcia, a serviço da Espanha, já havia
feito uma viagem a Potosi, Bolívia, pela Peabiru a
partir do hoje estado de Santa Catarina, passando pelo atual
Paraná, quando ambos ainda território espanhol
(9).
O navegador italiano Sebastião Cabot [o], a soldo
da Espanha, fez reconhecimentos do rio da Prata, Paraguai,
Paraná, Iguatemi, Santo Anastácio, Paranapanema
e Tietê, em 1526, ultrapassando os limites do Tordesilhas
compreendidos em seu diário de bordo (10); também
em 1526, Capitão Jorge Sedenho [Sedeño], numa
incursão espanhola pelo rio Tietê guerreou com índios
(11).
Francisco de Chaves, genro de Cosme e igualmente degredado,
com autorização do colonizador Martim Afonso
de Souza, partiu de São Vicente em 1º de setembro
de 1531 com o capitão Pero Lobo, mais cerca de cem
homens armados e um sem número de indígenas
escravizados, rumo aos Andes via Paranapanema, prometendo
grande carregamento de ouro e prata além de escravos,
mas quatro meses depois, na travessia do Rio Paraná,
a expedição foi destroçada pelos índios
guaranis (12).
O historiador e cronista paraguaçuense, José Jorge
Junior, em mesmo capítulo que diz de Sedeño
e Cabot, conforme acima, assinala presenças de outros
espanhóis estabelecidos junto à foz do Rio
Piquiri, fundadores da povoação Cidade Real
de Guaíra – Ciudad Real Del Guayrá, em
1537, como núcleo de apoio para caçadores de índios,
que praticavam seus ofícios a partir dos rios Paraná com
Paranapanema, até altura do Tibagi. Sabe-se que, pouco
mais tarde, na confluência dos rios Corumbataí com
o Ivai, seria fundado Vila Rica do [del] Espírito
Santo.
- Os espanhóis caçavam índios e procuravam
riquezas naturais de ambos os lados do rio Paranapanema
até proximidades do rio Capivara, pelo lado paulista,
e do paranaense rio Tibagi, embrenhando-se mata adentro
por trilhas indígenas às margens daqueles
rios.
Os estudiosos, Francisco Silva Noelli e Lucio Tadeu Mota
(13), em trabalho conjunto, assinalam uma série de
viagens de reinóis e colonos hispanos pela Peabiru
São Vicente, quase todas a partir de Assunção
e a passar por regiões do Paranapanema, então
grande parte dentro de território espanhol, das quais
destacamos algumas e acrescemos outras a seguir, por exemplo,
a expedição comercial sob comando de Cristóvão
de Saavedra, vindo de Assunção a São
Vicente em 1551.
Hernando de Salazar também realizou uma caminhada
de Assunção a São Vicente, no ano de
1552, a mostrar certa regularidade de tráfego e comércio
entre São Vicente e Assunção.
Ruy Dias Melgarejo, em 1553, partiu de Ontiveros [Província
do Guairá no antigo Paraná espanhol]
com destino a São Vicente, trazendo milhares de índios
aprisionados e mercadorias prontas para entregas em São
Vicente, vindo permanecer no Brasil por dois anos, até 1555
quando retornou a Assunção pela Peabiru Santa
Catarina (14). Para Noelli e Mota, Melgarejo teve destacado
papel entre os conquistadores espanhóis ao participar
da fundação de Cidade Real de Guairá,
na foz do rio Piquiri, e do segundo assentamento de Vila
Rica do Espírito Santo, foz do rio Corumbataí,
enquanto outros historiadores (15) confirmam tais localidades
fundadas entre 1537 e 1539, respectivamente, portanto antes
da própria presença de Melgarejo na América
do Sul ocorrida em 1541.
Ulrich Schmidel, alemão a serviço militar dos
governos paraguaios [de Fernando Mendonça, Domingos
Martinez Irala e Álvaro Nuñez Cabeza de Vaca],
chegou a São Vicente, em visita oficial, para discutir
uso portuário e traçar diretrizes do caminho
Peabiru, no ano de 1553. Schmidel já havia feito o
caminho de Santa Catarina a Assunção anos antes,
em 1541, juntamente com Melgarejo, na expedição
[já citada] de Cabeza de Vaca.
Tais viagens, exemplos comprovados dentre as ausentes do
compendio histórico, chamaram atenções
do Governador Geral do Brasil, Tomé de Souza, quanto à prática
exagerada de contrabando espanhol em partes do Brasil, do
uso indevido do Porto de São Vicente, além
da aparente ameaça ocupacional ou de exploração às
terras de Portugal, quando espanhóis nelas entravam
para procurar riquezas naturais ou capturar índios
para as encomiendas, um ou outro com intenções
de fixação.
O Vale do Paranapanema era, portanto, passagem do histórico
caminho do Peabiru na parte que, do Oceano Pacífico
estendia-se até São Vicente, no Atlântico,
um caminho percorrido por indígenas, com tráfego
bem mais agitado quando das andanças do homem branco
recém-chegado às terras da América do
Sul.
A despeito da visita e discussão diplomática
de Schmidel com representantes brasílico-portugueses,
Tomé de Souza resolveu proibir o uso daquela estrada
em território brasileiro, conseqüentemente fechando
o porto São Vicente aos espanhóis, conforme
carta, de 1o. de junho de 1553, encaminhada ao rei português: “Achey
que os de Sam Vicente se comunicavão muyto com os
castelhanos e tanto que na Alfândega rendeu este ano
passado cem cruzados de direitos de cousas que os castelhanos
trazem a vender. E por ser com esta gente que parece que
por castelhanos não se pode V.A. desapeguar delles
em nenhuã parte, hordeney com grandes penas que este
caminho se evitasse, ate ho fazer saber a V.A. e por nisso
grandes guardas e foy a causa por honde folguey de fazer
as povoações que tenho dito no campo de Sam
Vicente de maneira que me parece que o caminho estará vedado...” (16).
Além do contrabando, também havia a preocupação
de defesa territorial com as aparentes invasões hispânicas
ao Brasil, porquanto os espanhóis tinham sua própria
Peabiru, a partir de Santa Catarina, toda ela por território
espanhol, de maneira nada a justificar o uso da estrada de
São Vicente e seu porto pelos hispano-americanos.
- Os espanhóis utilizavam Cananéia ou pouco
abaixo desta, para se chegar à Peabiru Santa Catarina,
na altura de Ponta Grossa [PR], por considerá-la
dentro de suas possessões pelo Tordesilhas.
O caminho Peabiru foi, portanto, de suma importância
para a interiorização européia ainda
que a considerar somente o período pós Cabral,
ou sejam, os bandeirantes, os soldados, os religiosos, muitos
aventureiros e os escravos indígenas e negros, todos
grandes artífices do Brasil futuro, na visão
dos historiadores.
PARÊNTESE HISTÓRICO: “EL
REY” MESTRE COSME
FERNANDES PESSOA, O BACHAREL E MESTRE EM CANANÉIA
Antecedendo ou não aos demais judeus degredados e presos comuns, todos
igualmente banidos de Portugal e confinados em Cananéia, Cosme Fernandes
Pessoa logo se revelou líder, conquistou os indígenas regionais,
teve muitas mulheres nativas e com elas gerou filhos e filhas.
- Outros degredados foram deixados em diferentes localidades
litorâneas do Brasil, assunto, todavia, não
aplicável ao presente trabalho.
Presa fácil em território desconhecido, Mestre
Cosme percebeu, em curto tempo que esteve prisioneiro de índios
e lhes ganhou confiança, que a união com seus
aprisionadores contra inimigos outros, o uso das artimanhas
e os terrores aplicados pela armas de fogo e as dadas, e
futuramente uso de cavalos, eram os meios mais eficazes para
subjugar tribos hostis e se tornou ele o primeiro traficante
de escravos indígenas do Brasil, grandemente fortalecido
tanto que, por volta de 1510 invadiu e assumiu controle da
feitoria portuguesa de São Vicente [Gaiaó ou
Guaiaó] – com uns poucos habitantes (1), onde
ergueu pelo menos um forte, construiu estaleiro e instalou
porto de tráfico de escravos aborígines, com
capacidade de abastecer todos os interessados europeus em
qualquer ponto do mundo conhecido.
Seis anos depois daquela invasão, São Vicente
já era povoado promissor, com moradias e ruas organizadas,
comércio de variedades, além do viveiro de
escravos, o que certamente levou aportar por lá o
navegador Diego Garcia, em 1528, para reabastecimento, vindo
adquirir de Cosme um bergantim e mais de oitocentos índios
aprisionados para mão de obra escrava, negociação
relatada em documento Texto da Memória de Diego Garcia,
assinado pelo próprio, transcrito em grafia atual
(2):
“(...) E daqui fomos tomar refresco [provisões] em S. Vicente
que está em 24 graus, e ali vive um Bacharel e uns genros seus há muito
tempo que há bem uns 30 anos, e ali estivemos até 15 de janeiro
do ano seguinte de 27 [1528, segundo estudiosos] e aqui tomamos muito refresco
de carne e pescado e de vitualhas [alimentos] da terra para provisão
de nossa nau, e água e lenha, e tudo o que tínhamos necessidade,
e comprei de um genro deste Bacharel um bergantim que nos prestou muito serviço,
e mais o próprio se acertou conosco de ir como intérprete ao
rio [da Prata] e este Bacharel com seus genros fizeram comigo um contrato de
fretamento para que trouxesse a Espanha com a nau grande oitocentos escravos,
e eu o fiz com o acordo de todos meus oficiais e contadores e tesoureiros que
chegando no rio mandássemos a nau porque a nau não podia entrar
no rio, porque muitas vezes o disse o Conde D. Fernando e os feitores que montaram
a armada, que aquela nau não podia entrar no rio que era muito grande,
e eles não quiseram senão fazê-la levar carregada de escravos,
por que eles não fizeram nem me deram a armada que S. M. mandou que
me dessem, e o que com eles eu tinha acertado e assentado e firmado de S. M.,
mas antes fizeram o contrário que me deram a nau grande e não
conforme o que S. M. mandava, e não me deram no prazo que foi determinado
por S. M. que me a dessem entrando setembro, e eles me deram em meados de janeiro
que não mais podia eu aproveitar dela porque aqui V. M. o verá por
esta navegação e está ali uma gente com o Bacharel que
come carne humana e é muito boa gente muito amigos dos cristãos
que se chamam Topies [Tupis] (...)”.
Entre 1520/1530, “De São Vicente, saíram
colonos que se estenderam para o norte, até Angra
dos Reis, e para o sul, até Laguna” (3), estabelecendo
os pequenos arraiais e grandes propriedades pelos caminhos
que bem destacam a importância de Cosme em controlar
caminhos e terras das Minas Gerais, Rio, São Paulo,
Paraná e Santa Catarina, antes da chegada de Martim
Afonso de Souza.
Cosme conhecia os caminhos que levavam aos Andes, juntamente
com seu genro Francisco Chaves e o companheiro Pero Lobo,
de onde traziam riquezas, ouro, prata e escravos – estes
tomados pelos caminhos. Foi rumo ao Peru que aconteceu os
primeiros apossamentos de terras, já alcançados
o Planalto Piratininga e adjacências, onde viviam João
Ramalho (4) e seus agregados, para dar início ao processo
de interiorização, quando chegou ao Brasil,
em 1531, o colonizador Martim Afonso de Souza, designado
e investido de todos os poderes pelo rei de Portugal, para
governar e colonizar o Brasil a partir de São Vicente,
também trazendo a determinação real
de expulsar Cosme Fernandes e fazê-lo voltar a Cananéia,
local de seu confinamento legal (5).
- Cosme fora denunciado às autoridades portuguesas,
por seus amigos Pedro Capico e Henrique Montes (6), de
estar aliado aos judeus expulsos de Portugal que residiam
em terras espanholas, mais ao sul de Cananéia, para
onde a Espanha também já estaria enviando
seus judeu-espanhóis, num acordo mútuo de
interesses, além de oferecer oportunidades a judeus
de outras nacionalidades, para se apossarem de terras abaixo
de Iguape e Cananéia até Laguna [SC], espécie
de terras de ninguém ou em discussão onde
realmente o imaginário Tordesilhas (7).
Cosme Fernandes Pessoa retornou ao seu degredo sem nenhuma
resistência, em agosto de 1531, depois de ouvir concidadãos
que estiveram reunidos com Martim Afonso de Souza, em Bertioga.
A História, no entanto, informa que Mestre Cosme ao
se retirar fez incendiar São Vicente, como vingança,
o que hoje não se sustenta vista que em registros
de 1532, tempos depois localizados, não consta destruição
daquela Vila por fogo; antes a descreve próspera e
que nela se fez realizar, naquele mesmo ano, a primeira eleição
parlamentar da América pelo voto popular (8).
- Parece-nos óbvio que Portugal jamais admitiria
a fundação de uma localidade, tão
importante, por um judeu subversivo com pretensões
de criar um reino na América, conforme seus denunciantes.
A história oficial informa que em 1532 Martim Afonso refundou São
Vicente sobre os escombros da antiga feitoria de Guaiaó,
mas o incêndio somente viria ocorrer em 1533 por
razões de guerra.
Com a retirada de Cosme, Martim Afonso avançou o
domínio português às terras de Iguape
e Cananéia, obrigando seus ocupantes prestar obediência
ao rei de Portugal sob pena de expulsão, confisco
de bens ou a morte em caso de resistência, sendo naquela
ocasião, dezembro de 1531, na Ilha do Bom Abrigo,
que Martim avistou o alcantil Itacuruçá, Ilha
do Cardoso, onde fez colocar o marco de pedra, com as quinas
de Portugal, por ponto sul divisor da América entre
portugueses e espanhóis (9).
- A atitude de Martim Afonso foi decorrente dos acontecimentos à expedição
de Pero Lobo rumo ao Andes, aparentemente dizimada pelos índios
guaranis [carijós], nas proximidades de atual Foz
do Iguaçu, durante a travessia do rio Paraná,
mas que Martim entendeu ser a mando de Cosme. Pero Lobo
que conhecia a rota Peabiru e sabia do Peru, em setembro
de 1531 vendera seus serviços a Martim Afonso, com
a promessa riquezas e escravos, contrariando interesses
de Cosme.
Prosseguindo intento intervencionista, Martim Afonso de
Souza deu ultimato ao espanhol Ruy Garcia Moschera, estabelecido
ao sul de Iguape, para que este deixasse a região
em trinta dias, por considerá-la dentro do território
português pelo Tratado de Tordesilhas. Tudo parecia
fácil quando Cosme, aliando-se a Moschera, a outros
espanhóis e demais descontentes, capturou um navio
de guerra francês e todo seu armamento, construiu trincheiras
e organizou uma resistência, tão feroz, que
os soldados a serviço de Martim Afonso, inadvertidos,
perderam de pronto oitenta homens e teve ferido e aprisionado
seu comandante Pero de Góis, alguns sobreviventes
e a própria embarcação de guerra (10).
O embate ganhara proporção duma guerra de interesses
territoriais americanos entre espanhóis e portugueses,
a “Guerra de Iguape”, com os homens de Cosme,
de Moschera e aliados resolvidos atacarem São Vicente,
num ardil com o navio de Pero à frente como em retorno
vitorioso da empreitada, para desfechar tão violento
ataque surpresa que deixou São Vicente sob cinzas,
depois de saqueada “pelos espanhóis vindos
do sul, do Iguape” (11), obrigando Portugal fundar
novo porto em outra localidade, Santos, por Braz Cubas em
1536.
Martim Afonso, desgostoso, partiu para a Europa em maio de
1533, deixando para trás todos seus bens e nunca mais
retornou ao Brasil, como testemunha ímpar que o poder
de El Rey Cosme Fernandes Pessoa era superior às pretensões
portuguesas, em valer seus direitos, nas terras do Brasil
a partir de São Vicente rumo ao sul.
El Rey Cosme manteve São Vicente sob seu domínio
até 1537, quando provavelmente morto pelos Carijós
(12) que lhe davam sustentação militar e
segurança pessoal. A partir de então, São
Vicente perdeu sua importância estratégica entre
Portugal e Espanha, para aos poucos retornar ao domínio
português.
Demais feitos de Mestre Cosme Fernandes Pessoa e das suas
relações
com Portugal e Espanha, acham-se em outros livros não
oficiais e sítios eletrônicos.
DO
ATLÂNTICO AO PACÍFICO PELO VALE
PARANAPANEMA
De origem incerta, Peabyru teria o significado tupi de
Pe – caminho e Abyru – gramado
/ grama amassada; ou Pe-Biru – Caminho para o Biru [Rio] como seria conhecido
o atual Peru, sem descartar Pe-Abyu – Caminho para a Montanha do Sol, numa
tradução nada confiável. Genericamente Peabyru [Peabiru]
seriam as antigas trilhas ou caminhos indígenas, por terra e rios, quase
sempre unificados, com lugar de partida para determinado destino.
Ousamos que a palavra seja expungida de algum original para Pe-Apiru [Pe-Paru] – pronúncia
assemelhada a Pe-Abiru [Pe-Biru] – Caminho para o Rio Aurífero,
conforme entendimento em Henrique Onffroy de Thoron, na sua monografia histórico-filológica
Voyages dês Vaisseaus de Salomon au Fleuve dês Amazones, publicada
em Genova [Itália 1869] e Manaus [Brasil 1876], ao tratar das viagens
do fenício Hiran, rei de Tiro, a serviço do rei hebreu Salomão
ao Peru, pelo rio Amazonas, entre 993-960 aC, a qual permite-nos juízo
no bíblico I Reis 10:11, cujo original transliterado Apir [Aypir – versão
samaritana] estaria para Ofir com significado de água. Em I Crônicas
29:4, Apira [aquele que trabalha na água ou minerador], igual Aypira,
I Reis 9:28, traduzida por Ofir, enquanto II Crônicas 3:6 informa que o
ouro [de Ofir] era das águas de Parvaim ou Farvaim, no sentido de rios
que se encontram, com a transliteração Parva-im obliterada do hebraico
Paru-im – rios auríferos, considerando plural a terminação
hebraica ‘im’.
- Diante do mesmo silêncio bíblico a Ofir,
Paru-im tão somente remete-nos ao Peru, onde os
rios Paru e Apu-Paru [Paru e rico Paru] unem suas águas
[Apurimac] para formar o Ucayale, nome pelo qual se conhecia
o rio Amazonas por volta de 1000 a.C.
No Brasil sul-sudeste, a partir do Atlântico rumo
aos Andes, duas rotas de oito palmos de largueza se destacavam
como estradas que se uniam, em território paraguaio,
rumo Cuzco de onde se podia chegar ao Pacífico por
outros dois caminhos, um até Arequipo [a] – Peru,
outro até as costas do Equador. Cobertas de gramíneas
especiais que impediam crescimento de arvores, arbustos e
ervas daninhas, tais estradas partiam, uma de São
Vicente [SP] e outra do norte da Ilha de Santa Catarina [SC],
sendo aquela de São Vicente passante pelas hoje localidades
de São Paulo, Sorocaba, Botucatu, Avaré e Ourinhos
para, despassado o Paranapanema, ir além de Cambará,
Cornélio Procópio Londrina, Apucarana e chegar
ao município de Peabiru (1), num encontro de trilhas
menores, com a estrada principal rumo sul-sudeste até a
barra do rio Iguaçu [Yguazu].
O outro trecho (2) saia do atual estado de Santa Catarina – ao
norte da ilha do mesmo nome, para entrar em território
paranaense em direção noroeste até o
rio Iguaçu [Yguazu], e por este até sua foz
onde o encontro com o caminho São Vicente para a rota única
do outro lado do rio Paraná.
Além dos dois troncos principais em território
brasileiro, Wilson Olipa (3) destaca as “ramificações
[da Santa Catarina] que passavam pelos atuais municípios
[paranaenses] de Campo Mourão, Engenheiro Beltrão,
Luiziania, Nova Cantu, Campina da Lagoa, Ubiratã,
Mamborê e Peabiru”.
Do lado paulista um desgarro deixava a Serra de Botucatu,
das cabeceiras do rio Pardo e, por um antigo picadão às
suas proximidades, descer às alturas das confrontações Óleo
/ Santa Cruz do Rio Pardo [onde atual Fazenda Guacho] (4)
em direção ao Paranapanema, pouco abaixo das
quedas de Paranan-Itu, onde entendemos Salto Grande (5).
Da mesma Botucatu uma variante até às cabeceiras
do rio Capivara para, às suas margens, chegar ao mesmo
rio Paranapanema, de onde partiam caminhos dentre eles um
para o extremo oeste paulista [Serra do Diabo e Corredeira
do Frade], outro para os lados do ribeirão Laranja
Doce, além do feixe Macaúba que interligava
os rios Paranapanema e Peixe com outros sub-ramais pelas
bacias do Sapé, Pontinhas e Água da Morte – territórios
agora de Paraguaçu Paulista, para se tornar único
a partir de Quatá, que em final do século XIX
se tornariam teatro dos mais violentos encontros, entre índios
e brancos, na história do Vale do Paranapanema (6).
As Peabirus, Santa Catarina e São Vicente,
eram obras extraordinariamente bem engenhadas, que não
chegaram íntegras aos dias atuais, senão as
partes de trechos servindo de base e direção
para algumas das atuais estradas de rodagens, outras incorporadas às
grandes fazendas e assim abandonadas até o desaparecimento
total.
Não se sabe quem os realizadores daquelas estradas.
Difusionistas apontam os Incas embora se desconheçam
os motivos. Entendemo-las obras dos Atumurunas, entre os
séculos XIII e XIV, quando refugiados em territórios
brasileiro e paraguaio, cujas lembranças históricas
até bem pouco se encontravam nos Guayakis, os índios
louros do Paraguai (7).
A nação Atumuruna, descendente de escandinavos
[viquingues], foi fundadora, no século XI, do grande
império Tiahuanaco com diversas tribos indígenas
tributárias ou confederadas, a exemplo dos revoltosos
Araucanos [Chile] que à frente dos outros descontentes,
derrotaram o Império e exterminaram parte dos Atumurunas,
com sobreviventes que de alguma forma chegaram ao Paraguai,
por via terrestre, e ao Brasil ao transpor o rio Paraná ou
por ele descer até o Atlântico, para depois
chegar a determinados pontos do litoral brasileiro, Santa
Catarina e São Vicente, como etapas desenhadas da
futura vereda Atlântico-Paraguai-Andes e Pacífico.
Relatos de expedições a serviço de Espanha
mostram também o uso fluvial dos rios Prata, Paraná e
Paraguai, diríamos Rota Cone Sul, para se chegar à estrada
Peabiru, lado paraguaio (8) para seguir adiante até os
Andes e Pacífico.
Estudiosos mais ousados, uns e outros citados por Jean-Claude
Valla (9), não hesitam apontar o uso de um estreito
[futuro Magalhães], no extremo sul americano a interligar
os oceanos Pacífico e Atlântico, conhecido e
utilizado pelos Atumurunas.
Os especialistas citados por Valla, não só concordam
o uso daquele caminho oceânico para os Atumurunas que
se refugiaram em terras do Brasil, como apontam outros sobreviventes
em ilhas do Pacífico, a exemplos dos Kaole no Taiti
e dos Ehu no Havaí, mais os misteriosos homens
louros de algumas das ilhas polinésias (10).
Também dizem dos índios brasileiros de pele
clara, os chamados Auati – gentes de cabelos claros,
vinculados aos Guaranis e citados em crônicas dos primeiros
tempos do Brasil português, excluídos aqueles
originados ou com eles confundidos das relações
indígenas com espanhóis e holandeses.
- Admite-se a rota terrestre Paraguai-Andes-Pacífico
desde a fundação do Império Tiahuanaco,
sendo os trajetos, da margem esquerda do rio Paraná ao
Atlântico, construções mais recentes,
ou seja, depois da entrada Atumuruna em terras do Brasil.
Alguma similitude existente entre as estradas Peabiru, baseada
em antigos relatos, com certas construções
observáveis em sítios arqueológicos
do império Tiahuanaco, como aterros, calçamentos,
ruas e estradas, apontam pelo menos para uma origem comum
daquelas construções (11).
Foi essa mesma estrada a partir de São Vicente, que
o governador geral Tomé de Souza em 1553 proibiu trânsito
dentro do território brasileiro, com a argumentação
da fácil comunicação entre a Vila de
São Vicente com as colônias castelhanas, situadas
em Peru, Bolívia, Paraguai e Guairá [antigo
Paraná espanhol], para se evitar prejuízos à Coroa
Portuguesa com os contrabandos exercidos através dela.
Se a proibição não alcançou os
efeitos pretendidos nem evitou circulações
por ela, no entanto causaram-lhe os descuidados de manutenção
oficial, principalmente em seus pontos elevados, aterros,
pontes elevadiças, empedramentos, nivelamentos e rebaixamento
de certos trechos sujeitos aos alagamentos.
Pelo lado espanhol, a Peabiru também deixou de ser
importante entre os Andes e o imaginário Tordesilhas,
preocupados que estavam os espanhóis com as riquezas
do Peru e Bolívia, até o escassear do ouro
e da prata, quando reiniciaram a interiorização
exploratória e de fixação do Vice-Reino
Espanhol do Rio da Prata em terras paraguaias, pelos rios
Paraná, Paranapanema e Tietê, em busca de interesses
para a Coroa Espanhola, com isso a revitalizar a Peabiru
a partir do ano de 1603 quando Espanha, Portugal e respectivas
colônias então um só reino.
Não podemos desconsiderar aquele trecho de Cananéia
a São Miguel Arcanjo, onde encontrava o ramal de ligação
da Peabiru de São Vicente – na altura de Sorocaba
[SP] / com aquela vinda Santa Catarina, na hoje localidade
de Ponta Grossa [PR]. Estes percursos foram de intensa utilização
nos primeiros tempos de dominação ibérica
em terras da América do Sul, do Atlântico aos
Andes.
O SERTÃO NOS CAMINHOS
DAS ENTRADAS E BANDEIRAS
O Vale Paranapanema,
com tudo o de bom e tudo o de ruim, tem seus primórdios calcados nas trilhas
indígenas, mais necessariamente no Caminho do Peabiru, a vereda pré-cabraliana
de maior importância a ligar São Vicente [SP]
ao Peru.
Nenhum historiador atual contesta presença do homem branco no Planalto
Piratininga, por volta de 1532, pela Peabiru, quando “Martim Afonso de
Souza (...) perlongava o litoral e fazia as primeiras penetrações
no interior” (1), através dos colonos de São Vicente que
alcançaram e firmaram as fundações de Santo André da
Borda do Campo e Piratininga [São Paulo]. Sérgio
Buarque de Holanda confirma:
- “O nucleo originario da atual São Paulo é notorio
que não foi ali, mas em lugar distante duas leguas
para o sertão, à margem do rio que então
se chamava Piratininga e, de fato, ‘onde Martim Afonso
de Sousa primeiro povoou’. Sabe-se hoje que a fundação
dessa nova aldeia, por iniciativa e esforço de Nobrega,
ocorreu no dia 29 de agosto de 1553. Quando, a 25 de janeiro
do ano seguinte, se inaugurou a casa nova. (...). Nesse
caso não é audacioso dizer que o povoado
de Nóbrega se enlaça perfeitamente ao de
Martim Afonso e, assim, que as comemorações
atuais se hão de referir, não tanto à fundação
inicial, como a uma segunda e definitiva fundação.
A primeira dataria, em realidade, de 1532” (2).
Hernâni Donato cita o jesuíta Luís Gonzaga
Cabral para informar que os padres “abriram as estradas
de Santos a São Paulo e mais outras para o interior,
especialmente uma por Botucatu até os aldeamentos
do Paranapanema [1608/1628], com comunicação
fluvial para Mato Grosso”. O historiador é convicto: “Durante
o período da catequese heróica, os religiosos,
quase sempre os jesuítas, serviram-se da velha e segura
orientação que era o Peabiru para saírem
ao sertão” (3).
A proibição
legal de 1553 de se transitar pela Peabiru, em terras portuguesas, não
impediu expedições luso-brasileiras ou hispano/sul-americanas
de entradas contínuas em busca de riquezas auríferas e outros
metais, além da preação ao índio.
- Presume-se que o objetivo da proibição
do governador Tomé de Souza tenha sido para controlar
a entrada de espanhóis em terras do Brasil, ricas
em minérios que deveriam ser preservados para Portugal.
Sabe-se que no ano de 1555, portanto em pleno vigor da proibição,
Francisco de Gambarrota veio do Paraguai até o porto
de São Vicente; também os espanhóis
Juan de Salazar e Cipriano de Góes aportaram em São
Vicente para realizar incursão até o Paraguai
pela Peabiru (4).
Membros da expedição de Brás Cubas partiram
de São Vicente em busca de ouro em 1561 (5), destacando-se
uma frente para atacar índios em Apiaí e limpar
os caminhos para segurança da equipe principal. A
frente perseguiu os índios para matança e captura,
através de trilhas indígenas, até as
nascentes e partes abaixo do rio Paranapanema, tidas por
sub-ramais da Peabiru. Em 1562 a expedição
de Luiz Martins [substituto de Braz Cubas] (6) traz em sua
expedição outra frente especializada em perseguir
e caçar índios, a partir de Caatiba para além
da região de Guareí e Botucatu, pelos caminhos
da serra.
A situação, entretanto viria se modificar com
a dominação espanhola sobre a coroa portuguesa
e suas colônias, na prática a se desfazer o
Tratado de Tordesilhas tornando a América do Sul uma
só, para portugueses e espanhóis, possibilitando
a interiorização luso-brasílica rumo às
terras que os espanhóis antes não adentraram
nem delas se apossaram, por senti-las suas, tanto que os
portugueses jamais pensaram sobre elas arremeter-se antes
de 1580, para fins de fixação.
- Em 1578, morto D. Sebastião, rei de Portugal,
sem herdeiro natural, deixa o trono para seu irmão
o Cardeal D. Henrique que faleceu dois anos depois, e assim
a coroa portuguesa passa, em 1580, para as mãos
de Felipe II da Espanha, neto do rei D. Manuel – o
Venturoso.
Quando tudo parecia favorecer maior fluxo de andanças
e atividades de gentes então sem fronteiras, o Vale
Paranapanema deixou de ser o corredor principal das interiorizações
ou grandes entradas rumo aos Andes, porque a escravidão
indígena sofrera revés desde a presença
jesuítica na região, e as minas [Peru/Bolívia]
estavam esgotadas.
Corroborou com esse esvaziamento de trânsito pelos
lados do Paranapanema, os entradistas e bandeirantes mais
dispostos às zonas de garimpos, a partir de Sorocaba
rumo ao sul, de Jundiaí com destino a Goiás,
das vilas de Paraíba do Sul para as Minas Gerais,
e de Parnaíba e Itu em direção a Mato
Grosso. Assim o Tietê e o Paraná, quase em detrimento
ao Paranapanema, foram as grandes estradas fluviais utilizadas
para se embrenhar em terras antes apenas espanholas.
Apesar de
tais considerandos históricos, certos registros atestam ainda a presença
do homem europeu pela região do Paranapanema, por exemplo, em 1581,
Jerônimo Leitão, o Capitão-mor de São Vicente, para
os lados do Guairá pelo rio Paranapanema (7), de onde retornou com muitos
escravos indígenas.
A partir
de 1588, os jesuítas espanhóis são presenças constantes
em todo Guairá (8), principalmente junto aos afluentes do Paranapanema,
com incursões do lado paulista até a instalação
das reduções e a pretensão de um governo teocrático
em 1608.
Nicolau
Barreto em 1602 desceu o rio Paraná passando pelo Guairá, rumo às
minas de Potosi no Peru, fazendo o retorno pelo Paranapanema – “rota
conhecida desde meados do século XVI”, com riquezas e índios
aprisionados índios aprisionados (9).
- Muitos viajantes preferiam descer o rio Tietê desde
São Paulo ao rio Paraná, mas com retorno
quase sempre pelo Paranapanema, pela melhor navegabilidade
e menor correnteza, até proximidades de atual Salto
Grande, onde se encerrava a navegabilidade prática
do Paranapanema, para se dirigir a Botucatu por terra,
via Peabiru ou por caminhos internos [trilhas indígenas]
pelo espigão entre o Pardo e Turvo.
Soldados paraguaios vindos de Vila Rica do Espírito
Santo chegaram à Vila de São Paulo em 1603,
sendo recebidos festivamente conforme registros (10). Ignoram-se
as razões da visita, mas os soldados retornaram dias
depois, acompanhados por paulistas até Vila Rica,
com especulações de se reativar a Peabiru.
Em 1607, Pedro Franco de Torres, atravessou a região rumo
ao Paraguai pela Peabiru. Nesse mesmo ano de 1607, Manuel Preto um dos maiores
preadores de índios da época, dirigiu uma expedição
pelos caminhos do Paranapanema, para o aprisionamento dos índios Guaranis,
nas proximidades da cidade de Vila Rica do Espírito Santo. Manuel Preto
voltou às regiões entre os rios Paranapanema, Corumbataí e
Ivai, nos anos de 1611, 1618, 1623 e 1628, nessa ultima acompanhado por Raposo
Tavares (11).
Em 1620 o entradista Antonio Bicudo atingiu as cabeceiras
do Rio Pardo, para aprisionamento e matança de índios.
Seus indicativos e descrições da região,
a Serra de Botucatu e arredores, oficialmente entraram nas
cartas geográficas como referencias para aqueles que
se aventurariam pelos sertões (12).
- Antonio Bicudo, morador numa fazenda em Carapicuíba
[SP] e descendente de notórios entradistas e bandeirantes
da família Campos Bicudo, em 1628 fez parte da Bandeira
de Manuel Preto e Raposo Tavares no ataque a Guairá.
Os
historiadores apontam, acertadamente, que tais relatos, apenas
atestam passagens do homem branco por terras do oeste paulista,
por esta ou aquela razão, contudo sem nenhuma efetiva
fixação.
TRIBOS INDÍGENAS
NO VALE PARANAPANEMA
As primeiras notícias sobre os índios brasileiros
chegaram à Europa
antes da metade do século XVI, através dos degredados postos por
Portugal em terras do Brasil, homens que contataram mais as aldeias litorâneas
do tronco lingüístico Tupi-Guarani.
Talvez por isso as informações que os traços culturais
e fisionômicos indígenas fossem idênticos para todas as nações
nativas, somente mais tarde a entender que, tal qual a língua, os costumes,
as crenças, as formas de organização familiar e social.
Igualmente as técnicas artesanais e a cultura entre outras aparentes similitudes,
não podiam ser vistas como iguais diante das tantas variações,
mesmo de grupo para grupo dentro de uma mesma nação,
a depender do meio, posto as tribos nada coesas e que facilmente
se fragmentavam (1).
Pelos didáticos, todo território paulista, quando do descobrimento,
estava ocupado por homens da selva, por isso denominado silvícolas ou
selvagem, embora dita ocupação não fosse assim total, pois
se as tribos viviam em vastas áreas dominiais, maiores eram os espaços
entre elas, com população mais concentrada em faixas litorâneas
e adjacências, enquanto os interiorizados tinham certa predileção
pelas encostas da Serra de Botucatu.
A região do Planalto Ocidental Paulista era habitada por tribos indígenas
Tupi-Guaranis e Jê-Tapuias que, se diferentes nos aspectos da vida coletiva,
sejam os relacionados à produção e transmissão de
conhecimentos ou estados de desenvolvimento social, sejam aqueles resultantes
do aprimoramento dos valores, das atividades individuais e desenvolvimentos intelectuais,
postos ou não para a comunidade, é comum aponta-las com usos e
costumes mais ou menos próximos, numa generalização
quase sempre incorreta.
- Sabemos as distinções culturais gradativas
entre Tupis e Guaranis iniciadas desde o século
V, até por volta de 1500, quando já se apresentavam
novamente separados. Todavia optamos pelo entendimento
tradicional Tupi-guarani, por certas correlações
entre seus locais, formas de ocupações e
alguns outros aspectos indissociáveis de origem
comum para os dois povos, além da compreensão
que diferenças culturais são perceptíveis
numa mesma nação indígena.
Excluídas, portanto, as diferenças mais ou
menos observáveis quando das distinções
de grupos que permearam todo o Planalto, antes dos conquistadores
do século XIX, realmente temos que suas culturas apresentavam
quase semelhante modelo de direito consuetudinário
com regras e valores para controle social ou da vida em sociedade,
como os direitos, deveres, obrigações e responsabilidades
comuns, recíprocas e familiares, ordenados todos como
práticas mantenedoras da ordem tribal.
Original ou não, a doutora Thais Luzia Colaço
aponta para certos ordenamentos sociais e jurídicos
em sociedades indígenas do Brasil, cujo indivíduo “respeitava
a tradição, obedecendo as normas de convívio
social instituída pelo grupo (...)” tanto que,
prossegue Dra.Thais, “burlar os costumes seria desrespeitar
os tabus, seria irar os deuses e a natureza, trazendo conseqüências
catastróficas ao individuo infrator e à comunidade
em geral, colocando em risco a integridade do grupo” (2).
Os aborígines obedeciam, portanto, a um conjunto de
normas e regras sociais, crenças religiosas e ritos
relacionados aos totens, com vaga adoração
ao fogo [pelo raio] como lembrança de um ser superior
(3) – cuja voz era o trovão, com inúmeras
divindades menores protetoras familiares ou individuais,
dos certos gênios e espíritos de bem estar tribal,
em oposição aos seres maléficos que
tanto lhes causavam medos e terrores; valorizavam os sonhos,
respeitam os tabus, acreditavam em presságios e faziam
oblações.
As sociedades eram voltadas à família, todavia
sem tutela ao indivíduo que bem podia ser suprimido
em ato votivo, de acordo com superstições,
por transgredir tabus ou exercer feitiçarias – delito
sócio-cultural, em contraposição ao
pajé.
Os responsáveis familiares tinham direitos sobre a
vida de seus dependentes, crianças, velhos, inválidos
e os gravemente enfermos, podendo matá-los ou enterra-los
vivos, por questão de sobrevivência tribal ou
fuga difícil, embora os velhos, enfermos graves e
inválidos viessem ser usados – mais adiante
na história, para atrair incautos brancos que gastavam
munições pensando atacar aldeias de guerreiros.
As rixas resolviam-se com discussões entre os envolvidos,
quase nunca levadas ao Conselho dos Anciãos, optando-se
pelo embate corporal em particular, raramente com armas,
mas quando usadas tinham de ser iguais em poder, por exemplo,
chicote com chicote, espada com espada, jamais arco e flecha.
O perdedor se calava sem revides às ocultas, pois
se para um guerreiro era vergonhoso não saber se defender,
covardia maior seria usar arma superior ou tocaiar o adversário,
caso considerado de grave afronta tribal e crime passível
de morte.
Um índio podia ter várias mulheres, direito
dos mais empreendedores, orgulhando-se o homem de sua numerosa
prole (4), mas usos e costumes indígenas referentes
ao matrimônio variavam de tribo para tribo, inclusive
conforme a época e condições da comunidade.
De ordem geral não se permitia casamento entre pais
e filhos, tios e sobrinhos, primos entre si, irmãos
e avós com netos, cujas transgressões puniam-se
com a morte.
Havia, no entanto, liberdade sexual – homem e mulher
sem compromissos, mas à mulher cessava tal liberdade
quando viesse se casar; com a chegada dos brancos e mortes
de tantos guerreiros, tornaram-se comuns casamentos de meninas
de doze anos com sexagenários e com parentes, para
sobrevivência da comunidade. Cunhado solteiro geralmente
casava-se com a viúva do irmão paramanter linhagem – prática
do levirato, enquanto o viúvo casava-se com a irmã da
falecida – regras do sororato, podendo, ainda, ocorrer
casamentos experimentais.
- O aborto era forma de controle da natalidade, e o infanticídio
podia ocorrer quando necessário.
Mulheres mais idosas ou que os maridos as tornassem livres – quando
já não mais reproduziam, substituídas
por jovens, eram mestras em iniciar sexualmente os mancebos.
Tinha-se o homossexualismo por prática tolerada, não
estimulada, com narrativas coloniais (5) que índios
afeminados, senão perseguidos, sofriam deboches dos
guerreiros, havendo mais aceitações às
mulheres que vestiam e se comportavam como homens, em relação às índias – lesbianismo,
inclusive de certas viragos que iam às guerras, tarefas
exclusivamente masculinas.
Mais caçadores, coletores, pescadores, alguns dados
a cultivos de espécies comestíveis, os indígenas
não possuíam animais arrebanhados (6), à exceção
talvez de grupos caingangues que alimentavam antas em cercados,
consideradas como ofertas dos deuses aos humanos para suprimento
de suas necessidades, num aspecto aparentemente mais religioso
que de pastoreio, propriamente dito (7). Quase todas as famílias
tinham bichos de estimação, a exemplos de araras,
papagaios, maitacas, macacos e tartarugas.
Contavam com indústria rudimentar voltada para as
necessidades básicas do dia a dia, como arcos, flechas,
bordunas, lanças, facas, porrete de quatro gumes – com
empunhadeira [formato tipo de uma espada]; redes e mantas
para dormir; artigos de bambu ou vime, como covos [para pescaria],
arapucas [para aprisionar aves e pequenos animais] e cestos
para coletas de produtos; artigos cerâmicos a exemplos
de potes e vasilhames de barro [argila] para guardas de produtos
e uso culinário, urnas mortuárias e estatuetas.
Aparentemente seus objetos não tinham inspirações
artísticas, mas certas diferenciações
eram notórias, como as pontas de flechas, umas de
madeira, outras adaptadas com pedras [rochas] trabalhadas,
e aquelas de ossos animais como a tíbia de macacos,
além das diferenças quanto ao tamanho dos arcos
e tipos de amarras.
Cabia aos homens o fabrico de armas, a derrubada e queima
da mata para roçados, a caça e a guerra, enquanto às
mulheres pertenciam as manufaturas, os afazeres domésticos
e atividades agrícolas, como noções
primárias de ocupações privadas sem
obrigações distributivas, porém repartidas
suas conquistas coletivas aos partícipes das lutas,
achados e coletas. Em alguns casos e épocas de guerras
prolongadas, ou fugas necessárias, o trabalho era
coletivo com distribuição igualitária às
famílias.
O processo agrícola igualmente primário e limitado às
culturas da mandioca, do milho, da abóbora, da melancia,
do feijão, do algodão e do fumo, com algumas
variantes e acréscimos sazonais e de regiões.
Dos derivados da mandioca e do milho faziam farinha tostada,
pão, bolos e bebidas fermentadas; da mandioca também
se usavam folhas tenras para iguarias, enquanto o milho verde
e caroços de algodão eram utilizados para ensopados.
Comiam abóboras e seus brotos, conheciam outras cucurbitáceas
comestíveis, distinguiam vegetais tóxicos [curare,
timbó], sabiam aqueles que davam tintas [jenipapo
e urucu] e faziam chás e sucos de certas ervas, folhas,
cascas, raízes e frutas silvestres.
Os índios gostavam de danças guerreiras e cerimoniosas,
para as quais se enfeitavam com pinturas sobre o corpo para
as festas, guerras e cerimoniais, com gostos para adornos
como cocares, colares, braceletes, brincos e tatuagens, todos
com bastante e fortes coloridos; seus enfeites eram de penas
de pássaros, mantos tecidos de fibras vegetais, vestuários
[tangas] e ligas [cordas e laços] coloridas e com
motivos próprios. Sempre com muita bebida, suas festas
e cerimônias eram acompanhadas de cantorias e uso de
instrumentos musicais de sopro, repercussão e chocalhos,
além da imitação de sons de animais,
de bons ou maus agouros conforme ocasiões ou propósitos.
Além das festas próprias promoviam outras com
participações de tribos amigas ou aliadas,
com as quais mantinham praticas de reciprocidades inclusive
comerciais entre tribos de uma mesma ou diferente nação,
baseado nas trocas em espécies como entende Alfredo
Gomes (8). As alianças, porém eram frágeis
e muitas vezes circunstanciais, por casamentos ou unidos
em combate contra algum inimigo comum.
Os índios eram guerreiros por excelência, recriminados
se não eram bons combatentes – inclusive discriminados
para o casamento. Hans Staden (9) afirma que a guerra fazia
parte do cotidiano de um índio, treinado desde criança
a combater inimigos, sendo-lhe honra quando adulto capturar
ou matar aqueles que aprenderam desde sempre odiar. Enquanto
os homens guerreavam as mulheres entoavam cânticos
de guerra, como pedidos aos deuses para bom êxito da
empreitada e proteções a seus guerreiros. Carina
Marques (10) aponta certos casos de mulheres, que se vestiam
e se comportavam como homens, em frentes de batalhas.
- A presença do europeu trouxe desequilíbrios às
guerras tribais, fazendo-se mais fortes as que tinham alianças
com os brancos, pelo acesso às armas de fogo e cavalos;
aliadas aos colonizadores as tribos se impunham às
outras tornando a sociedade tribal praticamente à maneira
dos brancos.
Acerca dos prisioneiros de guerra, José Jorge Junior,
não hesita apontar a antropofagia indígena
na região (11), conforme relatos jesuíticos
que melhor conheceram usos e costumes dos índios habitantes
do Vale Paranapanema, e com eles conviveram décadas.
O governador militar paraguaio Álvaro Nuñez
Cabeza de Vaca descreve, em seus apontamentos, Naufrágios
e Comentários, rituais antropofágicos (12)
nas mesmas áreas mencionadas pelos jesuítas.
Citamos um exemplo de cada narrativa, como atos de execuções
indígenas, havendo outras tantas maneiras para a prática
regular e institucionalizada de execução e
consumo de carne humana. Em quaisquer dos ritos antropofágicos
a acontecer, o aprisionado era bem alimentado, tinha mulheres
para seus cuidados e sexo, adquiria a participação
em solenidades da tribo vencedora, podendo até se
sentir um deles senão pelo fato ser um homem marcado
para morte sacrifical, sem saber quando, e isto podia demorar
anos.
- Apesar de não vigiado o prisioneiro recusava-se
fugir porque isto lhe era desonroso, nem sua tribo o aceitaria
pelo ato considerado covarde, exceto se resgatado em combate. Índio
preso era considerado, pela própria tribo, índio
morto, abandonado que fora pelos próprios espíritos.
À véspera da execução o prisioneiro
recebia os últimos cuidados, uma boa alimentação,
bom banho e vestimentas próprias para os rituais a
seguir com cânticos, bebedeiras e danças, sendo
a solenidade executória variável de tribo para
tribo ainda que de uma mesma nação ou grupo,
a mais comum o condenado ser amarrado a um poste central
para ouvir as cantilenas de glorificações da
tribo vencedora, com direito a suas ultimas palavras, ocasião
para cantar que gentes de sua tribo não temiam a morte,
antes de ser abatido a golpes de borduna, ter o corpo retalhado
e cozidas as partes depois distribuídas a todos os
membros da comunidade.
Uma outra forma de execução era conduzir o
prisioneiro ao pátio das solenidades, onde era obrigado
a dançar, cantar e beber com seus vencedores até o
momento aprazado, quando entravam em cena crianças,
com pequenas machadinhas em punhos, juntamente com um adulto
munido da temível macaná, a bater em pontos
sensíveis do condenado até prostrá-lo
desacordado, quando então as crianças batiam-lhe
com as machadas sobre a cabeça, golpe após
golpe, até lhe esvair a vida, sendo depois entregues às
mulheres que dele cuidaram, para que suas partes fossem divididas
e cozidas antes da distribuição alimentar.
Caso alguma mulher da tribo viesse engravidar do prisioneiro,
o nascituro seria devorado ao nascer ou, bem cuidado até a
idade que desejassem come-lo – mesmo que adulto, mas
nunca deixariam de fazer isso porque o pai tinha parte na
geração da criança, portanto a criança
era gente inimiga.
Se uma mulher caísse prisioneira, de imediato se agregava à tribo
vencedora sem risco de execução, mas não
lhe permitiam engravidar – com práticas abortivas
ou comiam a criança, caso viesse nascer, porque a
mãe era de tribo inimiga. Se a mulher prisioneira
retornasse à tribo de origem era aceita, mas seu
filho, caso retornasse grávida, era abortado ou devorado,
se nascido, por causa do pai.
O canibalismo, sob ponto de vista indígena, era comunhão
espiritual de renovação dos laços intergrupais
quando convidados os aliados para a cerimônia, e intragrupais
como restabelecimento da moral coletiva, porque consideravam
culpa tribal a morte de companheiro em combate, por isso
o ódio e vingança declarada à tribo
inimiga, no ato representado pelo membro executado.
Os padres combateram à exaustão tais crenças
e práticas, consideradas afrontas ao cristianismo,
parecendo não haver registros de canibalismo, como
regra, no século XIX, embora excepcionalmente possa
ter ocorrido casos em cerimoniais religiosos Caingangues,
observáveis nalguns despojos calcinados que sugerem
mutilações próprias para ritual antropofágico.
Faz parte do anedotário histórico que a ultima
vontade de um velho e moribundo índio cristianizado
era, em vez da hóstia transubstanciada, comer um bom
e verdadeiro pedaço de carne humana, conforme citação
de José Jorge Junior (13).
Entre os indígenas não havia uma autoridade,
as famílias eram livres embora unidas pelas tradições,
usos e costumes tribais. Para chefe tribal escolhiam, geralmente,
o mais forte, um líder com poderes absolutos nas guerras,
cerimoniais ou acertos de desavenças tribais, mas
seu poder podia ser contestado em outras situações,
e era obrigado ao trabalho para o sustento familiar como
qualquer outro membro tribal. O Caingangue que tinha sistema
hereditário para os seus líderes, raramente
recaindo escolha igual às tribos parentas [Jês]
ou da nação Tupi-Guarani.
O poder do líder, portanto, era limitado mais às
obrigações que privilégios, cujo respeito
tribal baseava-se na persuasão e não na coerção
de seus membros (14), partidários e não subordinados,
com decisões pautadas na cultura e não em sua
vontade, mantendo-se no cargo através de conselhos,
agrados e subornos.
Juntamente com a autoridade político-administrativa
[poder civil] o líder [cacique] acumulava também
a autoridade judiciária, invocada diante de risco
comunitário ou dissidência tribal, ouvido o
Conselho de Guerreiros e Anciãos; solucionada a crise
findava o poder absoluto do chefe.
Em caso de vacância qualquer membro podia habilitar-se
para chefe tribal, obedecendo a regras de coragem e força,
variáveis de tribo para tribo, quase sempre recaindo
escolha sobre o campeão dos jogos destinados àqueles
fins.
Com autoridade
maior que o líder tribal, em tempo de paz, estava o pajé, como
conselheiro, curandeiro e intermediário entre as divindades e os terrenos.
O pajé era sustentado pela tribo e seus substitutos
geralmente preparados e indicados pelos anteriores (15).
Os pajés
podiam, à distância, lançar maus agouros ou pragas contra
inimigos, abençoar ou bendizer os aliados e tribos irmãs, mas
em casos de sucessivas derrotas diante de inimigos, perdiam a credibilidade
e eram afastados, temporária ou definitivamente, das funções.
- Derrotas seguidas obrigavam fugas das tribos, por solução,
para áreas desocupadas, embora quase sempre retornassem
para guerrear contra o inimigo vencedor, podendo aí o
pajé ser ou não reabilitado.
Geralmente
os pajés cujas predições não
se realizavam a contento, atribuíam os fracassos como
vontades ou vinganças de entes espirituais, senão
obras de feitiçaria por algum membro da tribo – geralmente
um inimigo declarado, cuja ação considerada
culpada pelo Conselho dos Anciãos, transformava-se
em delito sócio-cultural [afronta] a toda a tribo,
crime punido com a morte.
Também os pajés podiam aliviar doenças
abreviando a vida de doentes ou quando não tivessem
tempo de cuidar deles.
As tribos eram seminômades, mudando-se com freqüência,
por isso seus ranchos eram toscos, cobertos de sapé,
folha de coqueiros ou ramos, geralmente queimados quando
abandonados. As moradas dispunham-se em torno de um pátio
central, quase sempre cercadas e guardadas por sentinelas,
sendo do cacique a principal delas. O escasseamento de produtos
naturais, a caça e a pesca, provocavam mudanças
das tribos para outros locais, cujo deslocamento, em tempo
de paz se dava a cada três ou mais anos, se possível
dentro de uma mesma região.
Uma tribo contava de trinta a cem guerreiros, com variáveis
números de tribos irmãs quase sempre próximas
e prontas para união, contra problemas comuns, casos
em que se podiam contar até mil guerreiros.
Praticamente todos os índios eram bons canoeiros e
bem conheciam os caminhos fluviais que lhes facilitavam fugas
quando necessárias ou para aproximarem-se dos inimigos.
As tribos do Planalto Ocidental Paulista, em meados do século
XIX, não eram as mesmas de cinqüenta anos antes,
que em nada representavam aquelas do meio século XVIII,
e assim o que delas se pretende, tanto dos Tupi-Guaranis
quanto dos Jês, é de difícil análise
porque nenhuma teve chances para algum período mais
prolongado de fixação regional, desde a chegada
do homem branco.
Capistrano de Abreu mostra-nos os Tupiniquins – às
margens do Tietê, e os Carijós – nas vertentes
do Paranapanema como tribos Guaranis do Planalto Ocidental
Paulista (16), índios já bastante adaptados
e submissos aos brancos e a eles serviçais como mão
de obra escrava, ou em troca de pequenos favores ou protecionismos
contra tribos rivais. Os que não se subjugavam viviam
geralmente fugidios ou postos em reduções ou
aldeamentos.
A contribuição cultural regional Tupi-Guarani
influenciou a culinária básica, as personagens
de folclore, as danças adaptadas e uso de termos e
denominações de locais por causa do idioma
nheengatu, que era mais ou menos corrente no Brasil, entre
os brancos, até o século XIX.
Muitos dos índios da nação Tupi-Guarani
e os Jês da tribo Xavante, desde meado do século
XIX, moravam em aldeias feitas em propriedades de brancos
e suas tradições culturais já eram bastante
influenciadas pelo europeu, inclusive no tocante a religiosidade.
Famílias em tais situações dormiam e
comiam quase à maneira dos civilizados, salvo
nas grandes expedições quando eram os conquistadores
que se alimentavam e dormiam à moda dos índios.
Os Tupi-Guaranis na região, século XIX, eram
os remanescentes Carijós [chamados Guaranis], os Tupiniquins
e os Caiuás, enquanto os Jês dividiam-se em
Xavantes, grupos Oti e Ofaiê, e os ferozes Caingangues.
Todas
as tribos regionais viveram espécies de nomadismo
circunstancial, que não suas costumeiras migrações,
diante do europeu que os caçavam para escravização
ou postos em fugas para não se deixarem capturar, quando
não as dizimações se optantes pelo enfrentamento.
As tribos, mesmo que de uma mesma nação, chegaram
de regiões diferentes em épocas distintas, ou
não, muitas vezes obrigadas desalojarem co-irmãos,
em nome da sobrevivência, ou por eles forçados
partir.