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 DE UM LUGAR CHAMADO NAZARÉ

Há muito deseja-se colocar Nazaré como alguma cidade ou aldeia dos confins da Galiléia, todavia jamais se encontrou ao menos um lugarejo residencial com tal nome, em toda Palestina; não existe referências a Nazaré no Velho Testamento, Talmude, Crônicas ou em documentos históricos de Israel.

Portanto fazer uma Nazaré no mapa antigo da Palestina, como cidade, não foi das tarefas mais fáceis para os primeiros cristãos, pois que nada indica a existência de alguma localidade com este nome, antes e nos tempos de Jesus.

Exceto nos livros do Novo Testamento, a primeira citação quanto a uma Nazaré como aldeia. ocorre na colocação de Eusébio referindo-se a uma possível indicação de Júlio, o Africano, que vivera entre os anos 170 e 240 d. C., para um local bastante próximo da atual cidade ( ) (Danillo Nunes – Judas Traidor ou Traído).

Efetivamente apenas no século IV é que Nazaré aparece como cidade, quando a religião de Cristo já se destacava dentre as demais, contudo tal localidade mostra-se mais como alteração do nome de algum povoado, com nítidos interesses eclesiásticos, instado por pesquisadores propagandistas da nova fé religiosa, sob interesses de Roma. Não eram incomuns modificações de nomes de lugares, sempre que haviam interesses comerciais e religiosos para determinadas circunstâncias.

O que seria então a Nazaré dos tempos pré-cristãos e do próprio Jesus?

Histórica e comprovadamente não seria cidade ou aldeia, não havendo quaisquer evidências disto, cabendo portanto tão somente a lógica como verdade única, quer queiram ou não os especialistas religiosos, de que Nazaré seria denominação de uma Organização Mística Religiosa, ou que seja apenas alguma pequena seita messiânica que não professava, contudo, o judaísmo tradicional, e que a Igreja, por algum motivo que veremos adiante, desejou apaga-la da história.

Mesmo entre os estudiosos especialistas, não é fácil alguma distinção unânime para as origens da palavra Nazaré, seu modo de escrita e significado; em quase todas referências há sempre de se colocar o nome de Jesus para alguma compreensão; certas colocações parecem creditar tendenciosidades de tradutores bíblicos, pelo que se entende de H. Spencer Lews( ) (F.R.C., Phd - A Vida Mística de Jesus, 2ª. Edicção, Biblioteca Rosacruz Volume I) – quanto às referências bíblicas a Jesus como Jesus de Nazaré (Nazaré como cidade), contrapondo-se aos textos sagrados que na realidade apenas informam Jesus o Nazareno (en Nazira ou seja, dos Nazarenos ou dos Naziras, língua aramaica para identificar a seita dos Nazarenos como Nazireus, na visão de Spencer).

Para Messadié ( ) (O Homem que virou Deus, revista Destino Especial, Mundo Mágico, ano 1 número 1, Editora Globo), Jesus era chamado de Nazarí, que em aramaico teria o significado de observador ou aquele que é separado; no entanto já vimos antes, por ben Yehoshua, que o Talmude babilônico apresenta-nos um certo Yeishu (Jesus) como sendo de Nazaré ou Nazareno, mas não de alguma cidade e sim de uma seita religiosa, tanto que a Nazaré, povoado ou cidade, ainda nem existia.

A Messadié portanto contrapõe-se ben Yeoshua a afirmar que: "Os primeiros Cristãos de língua Grega não sabiam o que a palavra Nazareno significava. A forma primitiva Grega desta palavra é "Nazoraios", que deriva de "Natzoriya", o equivalente aramaico do hebreu "Notzri" (lembre-se que "Yeishu ha-Notzri" é o original hebreu para "Jesus, o Nazareno). Os primeiros cristãos conjeturaram que Nazareno significava uma pessoa de Nazaré, e assim assumiu-se que Jesus tinha vivido em Nazaré. Ainda hoje, os Cristãos alegremente confundem as palavras hebráicas "Notzri" (Nazareno, Cristão), "Natzrati (Nazareno, natural de Nazaré) e "Nazir" (Nazarite) ". Nazir (Nazrite) seria termo designativo para os nazireus, aqueles que fazem votos perpétuos ou temporários a Deus, prescritos em Números 6, mas não necessariamente que pertençam a essa ou aquela seita, a exemplos de Samuel, Paulo e outras referências bíblicas encontradas.

O Novo Testamento, ao colocar Nazaré pela primeira vez na história como cidade, num texto do evangelho segundo Mateus, dá-nos bom exemplo da confusão em torno desse designativo: "E lá [no Egito] ficou [Jesus, juntamente com Maria e José] até o falecimento de Herodes, para que se cumprisse o que fora falado por Jeová por intermédio de seu profeta dizendo : Do Egito chamei meu filho" (Novo Mundo das Escrituras, Mateus 2:15, com mesmo sentido nas traduções João Ferreira de Almeida e Pontifício Instituto Bíblico de Roma); já o Evangelho dos Nazarenos, apresentado por Burton ( ) (Burton H. Throckmorton Jr. - página Internet ISBNO – 8407-5150-8, do original inglês Gospel of the Nazareans vertido para a língua portuguesa através de Translator) "Fora do Egito eu chamei meu filho e porque ele será chamado um Nazarean [Nazareno]"; segundo Burton, Jerome [Jerônimo] tradutor bíblico para o latim entre os anos 390 - 404, faz omissão revelada das palavras "porque ele será chamado um Nazareno", disso porém vindo fazer menção posterior em seus próprios trabalhos.

Porque Jerônimo fizera isso?

Algumas possibilidades exigem-nos reflexões a respeito, pelo menos três delas:

  • Consideramos que "fora do Egito chamei meu filho" ou "do Egito chamei meu filho", é um texto do profeta Oséias (11:1) que literalmente refere-se ao povo hebreu, mais precisamente a Manassés e Efraim – filhos de José que nasceram no Egito, e não propriamente a um futuro Jesus como Messias, o que nada tem a ver com o tradutor, que tão simplesmente se limitou às colocações;
    Alguns especialistas informam e Burton ratifica( ) que Jerônimo não seria nenhum grande especialista no idioma grego antigo, conforme achavam-se registradas as escrituras na época, dando-nos assim motivos para acreditar que ele não sabia bem exatamente o significado correto de Nazareno ("Nazoraio no grego, ou Natzoriya em aramaico ou, ainda, Notzri no hebreu); disto valer-se-iam posteriormente outros tradutores bíblicos, agora para idiomas diferentes e modernos, que igualmente a Jerônimo ainda omitem a seqüência verdadeira, todavia colocando-a no versísulo 23 do mesmo capítulo de Mateus, após certa descrição interpolada nos versos 16 a 22 a respeito do infanticídio herodiano, sua morte e a volta da sagrada família das terras do Egito, na seguinte colocação : "E chegou, e habitou numa cidade chamada Nazaré para que se cumprisse o que fora dito pelos profetas: Ele será chamado Nazareno".
    É justo porém deduzirmos que Jerônimo sabia o significado de Nazareno, o suficiente para entender que metera-se numa enrascada: o texto referia-se a Yeishu ha-Notzri, o Messias da Seita dos Nazarenos e não o dos cristãos que a Igreja tanto desejava ou, no mínimo, esperava. É improvável que os primeiros pais da Igreja – e com eles Jerônimo e todos demais da época, ignorassem que cristãos do 1º século, início e até meados do 2º, julgavam-se seguidores da Seita dos Notzrim, isto é, dos Nazarenos, como também difícil de acreditar que não soubessem da inexistência de alguma localidade chamada Nazaré, nos pressupostos tempos de Cristo.
Esta colocação última, é nossa opinião formada e a justificamos: os pais da Igreja, desde meados do século II e mais notoriamente no III, já buscavam o perfil de um Cristo Ideal diante da impossibilidade de um histórico, e foi somente no século IV que encontraram a autenticidade histórica que tanto necessitavam, para o mito que representava dividendos certos e cuja presença estava plenamente aceita e até desejada pelos povos de então; aí, a nosso ver, as coisas se ajeitaram porque tinham que se ajustar, e bem, ao gosto de todos.

Vejamos, porém, algumas outras situações bastante complicadas que esta tradução de Jerônimo ainda provoca nos dias atuais:

  • A tradução bíblica de J. Ferreira de Almeida para língua portuguesa, no Brasil, edição de 1958, revista e corrigida em grafia simplificada, para a presente discussão remete-nos, pelas referências de rodapé, a Juízes 13:5 e 1º Samuel 1:11, ambas referindo-se a consagrações de infantes Sansão e Samuel, respectivamente, pelos sagrados votos do Nazireado preconizado em Números 6:1; oras, se Nazareno colocado em Mateus estivesse para o hebraico Nazïr com significado correto de consagrado ou separado, em nada justificaria a necessidade, mostrada e forçada naquele Evangelho, para que a sagrada família viesse residir numa cidade, que ainda nem sequer existia, apenas para que Jesus fosse chamado Nazareno, pois que se assim fosse a palavra jamais seria Nazïr e sim Natzrati.
    O PIBR, edição 1967, diz em nota de rodapé a respeito do verso 23 de Mateus 3: "A profecia que parece querer aludir o evangelista é a de Isaias 11:1 "Um rebento despontará do tronco de Jessé e de suas raízes crescerá uma vergôntea", que em hebreu significa Nezer"; informa ainda o PIBR que Nazaré deriva, etmológicamente do mesmo radical Nezer [Neitzer] que significa vergôntea, sem discussões um evidente símbolo messiânico. Excluindo a realidade de que não existia ainda nenhuma cidade chamada Nazaré, entendemos que para a atual localidade com aquela denominação, o correto seria Natzrat (Natzarat) ou Natzrati para identificação de seu natural ou de algum residente, não se achando nestas nenhuma evidência do significado vergôntea (Neitzer).

Não temos dúvidas de que a tradução de Jerônimo fora devidamente encomendada, e ele a fez de uma maneira bastante satisfatória para a Igreja, tanto que Eusébio( ) e outros doutores eclesiásticos admitem isto, diante das evidências.

Não poderíamos jamais omitir neste estudo, referências e citações de certas seitas gnósticas antigas (ou que se dizem) e atuais, assim como de certas Fraternidades que não apenas admitem existência de uma antiga cidade de Nazaré, como também apontam sua localização, seu significado e importância para todo o mundo conhecido daqueles tempos, às vezes e a bem da verdade, não como uma cidade da maneira qual concebemos seja uma cidade, e sim algumas construções que serviam de abrigos (moradias, escolas e um templo) para adeptos de uma Seita chamada Seita dos Nazarenos. A propósito disso, cita-nos Haran Gawaitha (Gnoses : Arquivos), que Nazareth – Nisrat – (?) situava-se numa região denominada Qum onde mantinha-se a Seita, uma Organização Mística Esotérica entre seus membros iniciados, pregando todavia o exoterismo àqueles que desejavam ouvi-los em seus cultos públicos; pelo número revelado de adeptos que o autor refere, tratava-se de uma Comunidade extremamente próspera, possuindo em torno de 60 mil membros homens, e que se relacionavam comercialmente com seus vizinhos.

Na obra de Spencer, entende-se que os crentes Nazarenos mantinham-se nos arredores de uma fonte termal, explorando-a às custas de um hospital albergue e casas de socorros, ao lado de uma construção, escola, onde ministravam cursos aos Iniciados, e local de reunião dos líderes da Seita e adeptos mais destacados

Pela Bíblia, essa fonte termal a que Spencer se refere como a principal dentre as atividades exploradas pelos Nazarenos, que inclusive recebiam clientes de outras regiões ou nações (uma espécie de spa dos dias modernos), estaria realmente situada estrategicamente numa estrada principal da Galiléia, próxima ao lago Tiberíades. A própria Bíblia no entanto destaca-nos todo o território de Hamat (Josué 19:35) ou Hamat-Dor (Josué 21:32), na Galiléia, como região de Fontes Termais (significado assírio da palavra Hammati da qual derivou-se a Hamat dos hebreus), e não a uma localidade específica ou para alguma possível localidade Nazaré, antes sim, toda Galiléia era conhecida como tal, dada influências da cidade estado Hamat. Em nosso compreender, se essa Hamat nada tem a ver com alguma localidade chamada Nazaré, em nada porém exclui possibilidades que não fosse local adequado e explorado, comercialmente ou utilizado para finalidades religiosas, por alguma seita mesmo que a dos próprios Nazarenos.

Se admitirmos essa possibilidade última, evidente que para o local onde se reuniam membros da seita Nazarenos (Notzrim), caberia a denominação de Nazaré (de Notzriti ou Natzoriya), da qual a Igreja valer-se-ia um dia para implantação da cidade por nome Nazaré (Natzrat), com intenções comerciais claras de exploração religiosa.

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