Atenção: esta matéria é prejudicial
à fé cristã.
Começamos pelo segundo questionamento: A minha
Igreja é a melhor?
Se ela lhe faz bem, permite sua individualidade,
e nela você pode desenvolver suas potencialidades, sem dúvidas
ela é uma Igreja excelente.
Se ela exigir sua renúncia em pró
a comunidade, isto é, voltada a Cristo para o bem estar
geral do mundo, em todos os sentidos, e não for exclusiva
como a única salvacionista, e você se inserir nela
de modo consciente quanto às doutrinas, com isto fazendo-se
feliz, trata-se de uma ótima Igreja.
Se você compreende a Bíblia e sua
Igreja se enquadre nisto, no fiel cumprimento da Palavra, conforme
você vê, deseja e entende, é uma boa Igreja.
Se a Igreja a qual você pertence faz uso
do Amor e da Caridade como regra maior e apenas nisto se fundamente,
é uma Igreja, e é bem melhor estar nela que perdido
nesse mundo devasso, ou dentro de si mesmo.
Agora caso sua Igreja centralize-se na Justiça
Divina e se diz cristã, onde Deus sabe o que faz, mas você
não alcança esse senso de justiça ao ver
triunfar tantas nulidades (paráfrase – Rui
Barbosa); ver guerras fratricidas em que tantos inocentes morrem
sem saber nada do porque; crianças natimortas que vão
para o céu – talvez você não e sem igualdades
de competições na vida; os débeis mentais
e os tais simples dos quais é o reino dos céus,
e isto está na Bíblia e você não é
nem um nem outro; os aleijados que não têm culpas
de ser assim e ninguém lhes explica razões; e outros
tantos absurdos que ferem sua consciência e razão,
certamente, com todo respeito, você não deveria estar
numa Igreja assim, ou então você não tem a
menor compreensão de Deus, nem senso de justiça
ou do que ela seja, e muito menos é conhecedor da Bíblia.
Positivamente uma Igreja assim não é nada boa.
A grande verdade no entanto, é que existem
Igrejas para todos os gostos, tipos e necessidades, e se você
não encontrar alguma que o satisfaça, funde a sua,
conquiste adeptos, pois que é mais fácil isto que
abrir um comércio, além de ser algo bastante rendoso
sem muitos esforços, conforme se pode ver por aí,
onde cada vez mais seitas surgem e numa proliferação
sempre maior, uma a degladiar-se com outra em busca de fiéis,
num fenômeno curioso: à medida que cresce o número
de Igrejas Cristãs no Brasil e no mundo, por outro lado
diminui, ainda que em menor proporção, o número
real de cristãos, sendo cada vez maior a quantidade daqueles
que se dizem ateus e agnósticos. O cristianismo também
perde adeptos para o Islã, todavia espera-se a abertura
na China com toda sua imensa população, pois que
onde entra o sistema capitalista, sem dúvidas floresce
o cristianismo, ao mesmo tempo que as máfias.
Saber efetivamente qual Igreja é a melhor,
não é das tarefas mais fáceis, pois que depende
sempre do ponto de vista de cada um.
Nos últimos anos temos verificado que o
homem começa a não só questionar valores
e crenças da sua própria Igreja, como também
a Deus e sua justiça. Muitos fiéis católicos
não acreditam mais no Diabo e muito menos no Inferno, e
certas proibições da Igreja, como o uso de anticoncepcionais
e práticas de abortos, não são mais levados
em conta; enquanto líderes crentes pentecostais, insistem
num Deus que destina o fogo eterno a uma criatura sua, e eles
nada mais são que mercenários da fé, corretores
da imobiliária dos céus e vendedores de ilusões,
quando não apenas iludidos que também iludem.
Ainda assim, para uns tantos, existe a doutrina
reconfortante do Espiritismo, que explica razões de todos
sofrimentos terrenos, e os faz entender melhor o que é
a justiça divina, que não os endereçam a
um inferno e nem a um céu, antes sim, que tudo tem razão
de ser e o seu espaço é adquirido às custas
de merecimentos por aquilo de bom que vier a fazer, não
importando tantas e quantas reencarnações na Terra
fizerem-se necessárias; lastimável porém,
segundo eles, que os adversários cristãos
tenham dizimado na antiguidade uma doutrina tão bela e,
que à força a tenha tornado anátema, herética
e perigosa. Outros tantos, reencarnacionistas também, lamentam
no entanto que o Espiritismo Cristão centre-se única
e somente na figura do Cristo ao lado do Deus dos hebreus; a esses
sobram as Filosofias e os Misticismos Orientais que não
pegam no Ocidente, além da Nova Era, New Age, que
infelizmente não sabem como nela ingressar; talvez a uns
outros tantos tanto caibam certas Sociedades ou Ordens Secretas,
além do materialismo selvagem.
- Realmente torna-nos incompreensível uma Religião
firmar-se no Deus bíblico, senão vejamos alguns
contrasensos:
- Honrar pai e mãe ao mesmo tempo que Jesus diz, quem
não deixar seu pai e sua mãe, por amor a mim,
não é digno de mim;
- Não matarás, enquanto pune seu próprio
povo porque deixou gente estranha viver, quando da tomada de
terras na Palestina;
- Não roubarás, porém mandou que as mulheres
hebréias roubassem os pertences egípcios;
- Não adulterarás, e manda um profeta (Oséias)
tomar a mulher de seu amigo e com ela adulterar, e uma outra
vez com uma mulher de prostituições; argumentam
que é um escrito com sentido figurativo para mostrar
a terrível situação do povo de Deus. Oras,
o texto ficaria da mesma forma figurativo sem aquelas determinações,
e isto sem levarmos em conta, que Maria era casada e teve um
filho que não era do seu marido.
Não vamos continuar apenas firmados no
decálogo bíblico (leis maiores), e assim analisaremos
algumas outras situações:
- Deus criou o Universo e tudo que nela há, regido com
paz e harmonia, no entanto o que se vê são conturbações
gigantescas, com mundos engolindo mundos e uma tremenda
agitação em tudo, longe de um Universo harmônico,
o que, diga-se de passagem, até nos deu favorecimento
à vida, exatamente por ser assim;
- Deus criou os anjos e demais da hierarquia celeste, perfeitos
e no entanto alguém se rebelou, o que caracteriza imperfeição
na obra proposta, considerando Deus ser perfeito, incriado,
com atributos de onipotente, onipresente, onisciente e uma série
de qualidades outras maiores como a Justiça, por exemplo;
pelas suas qualidades, sabia que alguém iria se rebelar
e mesmo assim insistiu na criação, e destinou
todos rebeldes ao fogo do inferno, por toda a eternidade;
- Criou o homem à sua imagem e semelhança, isto
é, perfeito, ainda que ciente – isto é um
atributo seu – que tal coisa não daria certo, como
de fato não deu, e o homem foi penalizado para todo sempre:
"assim como por um homem o pecado no mundo, todos pecaram
e destituídos estão da glória de Deus",
e num outro versículo, "o salário do pecado
é a morte"; bem, não sei se você sente
culpa pelo pecado de Adão e Eva, agora um Deus lançar
o preço da morte por erros de duas criações
sua sobre toda a humanidade, isto é algo impensável,
além do que, a pena foi severa demais, pois nem Adão,
muito menos Eva, tinha compreensão daquilo que era a
morte, e para evitar isso, que não colocasse Deus a tal
da arvore no Jardim, já que sabedor que o homem não
resistiria a tentação, ou então que mandasse
o tentador para outras bandas e não aqui na Terra;
- Arrependeu de haver criado o homem, algo estranho para um
Deus, e por isso, à exceção de uma família
e até que bem complicada, deu por destruir a raça
humana e com ela toda forma de vida na Terra;
- Elegeu um povo, prometeu-lhes uma terra que mana leite
e mel, porém conquistada a preço de sangue
de outros povos, que nela já estavam muito tempo antes;
e também o que esse povo eleito veio a sofrer
ao longo de sua história, inclusive agora quase recente,
na Segunda Guerra Mundial, não foi fácil e até
hoje sentimos horror disso, o que não é incentivo
algum para entregar-se a esse Deus, de maneira integral,
como ensejam credos religiosos.
Temos mais, todavia basta-nos para compreender
razões; temos também que considerar que nem só
de horrores é feito o Deus bíblico, pois que ele
também tem sentimentos nobres para com seus, um Deus de
amor e piedade para todos os que O aceitam, com senso de justiça:
ao culpado não se tem por inocente ou que a culpa
dos pais não recairá sobre os filhos (embora
a de Adão tenha permanecido e ele ainda tenha jurado que
visitaria, com ira e rigor, as famílias até ou na
– depende das versões – terceira e quarta geração,
que lhe tenham sido contrárias). Evidente tratar-se de
um Deus criado pelos homens, ao sabor das circunstâncias,
um ser antropomorfo, de características bem humanas e que
não deve ser levado muito a sério.
Do meu ponto de vista, quanto às Religiões,
creio que Félicien Challaye (Pequena História das
Grandes Religiões, IBRASA, 1967) seja quem melhor expresse
o sentido Religião Ideal:
- "Desde logo, a única religião que poderia, atualmente,
satisfazer, de modo completo, a consciência, seria uma
Religião Universal, à qual todas as religiões
particulares levariam sua contribuição.
A esta Religião Universal corresponderia
uma moral planetária, reunindo o melhor das tradições
de todos os povos e vindo terminar em regras válidas
para todas as consciências humanas.
Não poderíamos considerar como
ideal aquele que realizasse em sua vida as mais altas aspirações
das religiões precedentemente estudadas; que fosse higiênico
segundo a regra xinto, sóbrio como um adepto do Islame,
polido segundo o rito confuciano, sincero e devotado segundo
a concepção masdeísta, bravo de acordo
com a fórmula druídica, que guardasse uma recordação
agradecida dos antepassados, praticasse a piedade filial e os
outros deveres familiares, como o exigem as morais chinesas,
japonesas e romanas; que, como o adepto de Osiris, procurasse
não tornar infeliz nenhum dos homens que dele se aproximassem;
que amasse seu próximo como a si mesmo, segundo a palavra
de Jesus; que tivesse, pela paz a manter entre os homens e entre
os povos, o amor dos sábios chineses e, pela justiça
a realizar sobre a terra, a paixão dos profetas judeus;
que não fizesse mal a nenhum ser, de acordo com o ideal
budista; que amasse a beleza do Universo à maneira dos
helenos; que sentisse, segundo o pensamento bramânico,
a fraternidade profunda, a identidade fundamental de todos os
vivos, de todas as coisas, as realidades?
Por intermédio de tais aproximações
entre as mais altas aspirações humanas, a humanidade
poderia realizar maravilhosos progressos.
(. . .)
A religião Universal, a que parece conduzir-nos
o estudo histórico das religiões particulares,
já existe em algumas consciências, mais obscuramente
sentida que claramente formulada.
Talvez um dia encontrará ela o meio de
expressão que a tornará mais fácil de ser
transmitida de coração para coração.
Ela verificará a imensidade do Universo;
descobrirá, no homem, o desejo de ampliar infinitamente
a sua personalidade finita pelo conhecimento desinteressado,
pela ação generosa e pelo amor. Ela unirá
o homem pelo Universo pela Ciência, compreensão
de todo o real; pela arte, alegria libertadora ao contato de
todas as belezas; pelo amor, sobretudo amor por todos os homens,
por todos os seres, por todas as coisas. Ela unirá os
homens entre si, através de uma justiça caridosa,
acordo pacífico das liberdades. Ela colocará no
alto da vida humana, na cúpula da Vida Universal, a ação
generosa e alegre pela qual o indivíduo exprime seu amor
e sua compreensão pelo universo, nele trabalhando para
realizar a justiça e a paz entre os homens.
Talvez esta Religião Universal se organize
algum dia em uma instituição destinada a satisfazer
a eterna necessidade religiosa dos corações. Os
que outrora amaram sua Igreja e que nela beberam uma força
duplicada para sua vida moral, sentem, às vezes, certa
nostalgia quando não podem mais nem crer, nem participar
de um culto. Sentir-se-iam felizes em ser acolhidos por uma
Nova Igreja que unisse todos os adeptos da Religião
Universal.
Reunir-se-iam nos belos templos do passado, se
estes se tornassem livres pelo abandono por parte dos fiéis,
ou nos edifícios novos criados pelos modernos artistas,
os Templos da Humanidade. O culto poderia tomar uma força
análoga à dos que se vêem em certas igrejas
protestantes liberais – mas com mais obras de arte –,
ou nas igrejas positivistas. Entoar-se-iam cânticos parecidos
com os cânticos cristãos mas sem tolice, ou cantos
socialistas, menos o ódio. O canto supremo seria o mais
nobre das obras musicais brotadas de uma alma humana: o Final
da Nona Sinfonia de Beethoven.
O pregador tomaria por tema esta ou aquela palavra
de Buda, de Confúcio, de Zoroastro ou de Jesus, esta
ou aquela idéia de um moralista japonês, de um
profeta de Israel, de um filósofo grego, de um santo
muçulmano.
Que belos sermões poderiam ser feitos
sobre esta passagem do Livro dos Mortos egípcio:
"Nunca fiz chorar"; sobre o "Tu és isto", dos brâmanes;
sobre a frase de Buda: "Se o ódio responde ao ódio,
como o ódio acabará?" sobre o texto do primeiro
Isaías: "As nações não aprenderão
mais a guerra"; sobre aquele do segundo Isaías, anunciando
"um novo céu e uma nova terra"; sobre o perdão
concedido por Jesus à adúltera; sobre a fórmula
bahaísta: "Todos os homens são gotas d’água
de um mesmo mar, folhas de uma mesma árvore"; ou, muito
simplesmente, sobre este conselho de resignação
e este melancólico apelo à alegria de um drama
lírico japonês: "Mesmo para um mendigo cego permanece
o perfume das flores. . ."
Nem se deve abandonar uma religião a não
ser por uma religião mais alta. Não se deve renunciar
ao consolo e à exaltação proporcionados
por uma crença, senão para adotar uma fé
ainda mais encorajante e mais enobrecedora.
A Religião Universal, cujos elementos
seriam emprestados de todas as religiões particulares,
poderia ser mais uma fé superior a cada uma delas; superior
em relação à verdade; em dilatada inteligência;
em espírito de Justiça e de paz; em amplo amor.
(. . .)
Eu sou. Participo do ser. Ora, eu não
existo absolutamente por mim mesmo. Não existo somente
por causa dos meus pais, por causa de meus avós, nem
por causa de todos meus antepassados, nem mesmo por causa de
toda a humanidade, nem mesmo por causa de toda animalidade.
Todas as forças de vida, todos os poderes de matéria
reúnem-se a mim. Eu não existiria se não
houvesse um sol, uma via-láctea, um Universo. Sou um
produto da Vida Universal. No fundo do meu ser descubro o Ser;
o Ser que envolve por todos os lados a minha personalidade apoucada
e que a ultrapassa prodigiosamente; o Ser que, desde sempre,
me precedeu e que me seguirá no curso ilimitado dos séculos;
o Ser Infinito".
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