Não se trata de revelar novas verdades e muito menos demonstrar onde, positivamente, ela não se acha; deseja-se, e isto sobrepõe-se a todas pretensões, mostrar estas verdades onde, efetivamente as possam encontrar. (Paráfrase: Maeterlink).
O homem, conforme visto, desde seus primórdios na terra, por necessidade ou alguma outra razão, explicável ou não, sempre sentiu o desejo da imortalidade, a crença na sobrevida após a morte física. Não sabia explica-la e muito menos situa-la, mas acreditava naquelas coisas como necessidade crescente, um apanágio quiçá como recompensa à sua árdua luta na terra, ou a não compreensão ou aceitação, quanto à realidade da morte.
Esta busca, levou o homem a criar divindades e a busca-las com fervor, um deus que lhe desse expectativas de chegar a uma igualdade de condições, um lugar de paz, tranquilidade e prosperidade, uma morada onde o infortúnio não lhe batesse às portas, onde não houvesse nem choro e nem ranger de dentes (do Cristo, pelos Evangelhos). Um deus supremo e divino, abstrato, mas não inatingível, que se preocupasse com o homem aqui na terra, que o compreendesse nas suas dificuldades, que o consolasse nas suas tristezas, que lhe desse esperanças de um futuro melhor; um deus que mantivesse contatos com os seus, que aceitasse ofertas e sacrifícios e, muito mais que isso, expressasse seus sentimentos, fazendo-se, para tanto, antropomorfo.
Em qualquer grande religião que se procure, ou em pequenas que se busquem, nas tradições, mitos, sagas e lendas, seja de que povo for, mesmo que gentes geograficamente separadas uma das outras, com desenvolvimento social independente, encontramos lá o homem querendo deus e a imortalidade.
É deveras impressionante que povos tão distantes, com todas as dificuldades de comunicações da época, tenham mantido uma origem comum de crenças, fazendo tão próximas suas lendas e sagas mitológicas; para isto, chegou-se à conclusão de um elemento civilizador universal, apontando-se como tal, a Civilização Sumeriana, a que antecedeu todas as demais nas descrições dos mitos, espalhando-os primeiro no Oriente Médio e, depois, através dos fenícios e outros influenciados e mantenedores das tradições, usos, crenças e costumes, até os confins da terra.
Colocou-se também, como óbvio, a não originalidade integral dos valores históricos sumerianos, ligando-os aos dravídicos e a outros com os quais vieram, posteriormente, relacionarem-se; porém foi ela quem ousou registrar primeiro, os grandes feitos e os heróis da antiguidade, os deuses e semideuses, imortalizados nos milagres da escrita.
Dentro destas colocações, dado às igualdades mais ou menos universais dos povos, no tocante à metafísica, que tanto faz tomar a historicidade de um povo ou outro, independente do grau de evolução, que os caminhos mitológicos são sempre os mesmos, com conclusões fazendo-se quase que idênticas.
Discute-se de que não há, historicamente, necessidade de um tronco comum para povos fazerem-se iguais, mas as possibilidades de tais ocorrências seriam mínimas, sem um elemento civilizador universal.
Diante disto, para aquilo que se propõe o título deste capítulo, busca-se a Gênesis Bíblica como fonte de informações, pesquisas e tratados, primeiro por se constituir um dos livros mais lidos e estudados no mundo, segundo por ser uma coletânea de lendas que representam, e muito bem, o universo mitológico e metafísico de todos os povos. Usam-se para estes estudos, as versões bíblicas de João Ferreira de Almeida – edição revista e corrigida –; Vulgata Latina, do Padre Matos; Novo Mundo das Escrituras, da International Bible Students Association; e a versão do Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Todas vertidas para a língua portuguesa para o Brasil.
Primeiramente, a título de esclarecimentos, informa-se que, entre os séculos VIII e X da era atual, foi elaborado o Cânon do Antigo Testamento Bíblico, conhecido como Massorético - Massorá, com o significado de Tradição; para esta finalidade, estudou-se os Códices Hebraicos do período dos séculos VII a X, oriundos de textos do século I, denominado de Consonântico (Massorá) porque, conforme costumes, estava escrito sem o uso de vogais, estas somente utilizadas a partir do século VII, percebendo-se dificuldades para os tradutores, uma vez que a língua hebraica estava em desuso desde o século IV a.C.
Dos textos do século I houve, também, uma versão feita por judeus egípcios para a língua grega, no ano l50, denominada de Septuaginta (Versão dos Setenta).
Existem ainda as versões Pechita (Siríaca) do século II; o Targum Aramaico, século IV; e a Vulgata (Latina), terminada no ano 400. Por fragmentos existentes, uma outra versão pode ser considerada, a Samaritana, provavelmente escrita no século II a. C. segundo alguns, ou no século II d. C. por outras correntes.
Alguns exegetas determinam que a verão Grega foi redigida entre os séculos III e II a. C., mas a maioria dos Teólogos, discordando ou não daquelas datas, concordam de que ela é a mais importante e fidedigna das versões, posto que nenhum dos originais, senão raros manuscritos recentemente descobertos (1947), chegaram até os dias atuais.
As versões bíblicas apresentam muitas divergências entre si, e os poucos originais existentes, são postos em dúvidas quanto à autenticidade dos tempos.
Para o trabalho proposto, todo fundamentado no livro da Gênesis Bíblica, há que desconsiderar-se pequenas variantes ou divergências, por não influírem nas essências; as maiores serão determinadas e esclarecidas.
Então, dentro destas considerações, surge Elohim – deuses – conjunto de espíritos, pela filologia hebraica, como a síntese totêmica ou seja, conjuntos ou espécies de seres divinizados, características culturais comuns entre os povos do Oriente Médio. Deus, o Senhor Deus descrito na tradução bíblica – língua portuguesa –, tradução de Yavé significando aquele que é. Yavé é um Sló, espírito análogo ao homem, evolutivo no decorrer de gerações.
Estas divindades, não absolutas e muito menos exclusividades de povos ou religiões, são figuras centrais da Gênesis Bíblica, cultuadas por alguns escritores daquele primeiro livro, com fortes influências de povos mais antigos, com os quais os judeus mantiveram contatos.
A diversidade de autores na Gênesis, é facilmente observável pelas duplicidades de textos, alguns triplicados e outros confrontantes; Elohim e Yavé são distintos, unificando-se por vezes para, em outras, oporem-se.
Numa visão geral, Elohim são deuses móveis, enquanto Yavé mostra-se uma divindade fixa sobre outros deuses, a monolatria, que aos poucos transforma-se em figura monoteísta, deus único, como nacional evoluído do tribal, para posteriormente firmar-se como universal.
Em Gênesis l: l-4, Elohim movia-se sobre as águas, quando o caos, a solidão e as trevas eram reinantes no planeta; em Gênesis 2: 4-6, Yavé tem o elemento árido.
Ambos criam a terra, Elohim em seis períodos, dias sempre tarde e manhã, evolutivos, sem notórias contradições com as ciências, senão pelo fator criacionista; Elohim cria o homem e a mulher num só tempo, sem referência alguma ao Jardim do Éden e muito menos proibições ou atos punitivos. Já Yavé invertendo a ordem natural das coisas, cria o homem antes de tudo, para então formar um jardim denominado de Éden, impor proibições, fazer animais e aves para, em seguida, do homem formar a mulher.
A criação Elohista está para o homem como que para justificar ou explicar seu universo, configurado em lendas e mitos conforme as crenças difundidas, desde os princípios da civilização, tão ao contrário de Yavé.
Yavé tem o homem como sua primícia que, decaído, necessita de uma pronta ação, com os contrastes de uma condenação hereditária e uma promessa salvacionista, ordenando assim uma instituição ou exigência religiosa, para um povo elegido, conforme dito, prováveis ascendentes ou descendentes do transcritor. Yavé colocou desde o início, necessidade e exclusividade de culto, não importando ver-se antropomorfo.
Com Yavé, o homem é elevado à condição de deus: vós sois deuses – enquanto ele iguala-se aos homens, um tipo ingênuo e por vezes ridículo.
O livro de Gênesis é, antes de tudo, uma coletânea de lendas, onde se procura à exaustão adapta-las à formação de um povo com a necessidade de um deus exclusivo. O excesso de zelo em demonstrar a superioridade de um deus próprio, é tão notória, que os copistas perdem-se nas exposições, contradizendo-se. Nele se vê o criador e a criatura num primeiro ensaio, com os judeus procurando tornar mais humanas as divindades abstratas; não podendo chegar a deus, trazem-no até si, sem hesitações de diminuir o homem, para que se tenha lugar a presença ou a ação divina.
Assim é a queda do homem e consequente expulsão do Éden Paradisíaco, cujas narrativas, além da hebraica , são citadas em todas as lendas e tradições da antiguidade, com uma proximidade tal, que é possível justapo-las e até fundi-las, sem prejuízos de entendimentos. O relato bíblico é apenas uma versão recente e adaptada.
Após a queda, na citação Yaveísta, foi que Adão denominou a mulher pelo nome Eva. Nisto é necessário, primeiramente, as seguintes observações: Elohim criou o homem e a mulher, conjuntamente e não os denominou individualmente (Gênesis l: 27), senão por homem (Adão) - gênero humano (Gênesis 5: 2); Yavé criou o homem, sem um nome próprio (Gênesis 2. 7), sem a mulher que somente veio a ser criada no versículo 22 do capítulo 2 do mesmo livro, que traz no verso 25, pela primeira vez, o nome de Adão – o nome comum homem tornou-se nome próprio; no verso 23 do mesmo capítulo 2, Adão denominou sua companheira de mulher – is’sa – enquanto seu próprio nome seria – is’ – , com significados de distinção sexual, macho e fêmea.
Já a palavra Adão em hebraico designa a natureza, origem, no caso a terra (barro) vermelha (o). No capítulo 5: 2 da Gênesis, conforme vista, Elohim cria-os macho e fêmea (is’e is’a) denominando-os de Adão (Adima).
Nestas exposições, identificam-se mais de dois autores distintos, alguns apontam para quatro, entremeados pelos copistas.
O que significam Adão e Eva dentro do texto bíblico?
Adam (Adima) – terra vermelha ou barro – como designativo de origem, unindo a is’ (Adamís) determina o homem da terra vermelha ou que veio (local de origem) de um lugar onde a terra é vermelha.
À primeira vista, considerando que os gregos denominavam os fenícios de vermelho (phoinos), poderia se concluir que Adão – tribo – fosse originário daquele povo ou o próprio. Porém, para alguns estudiosos, Adão já entra dentro de um contexto histórico formado, que antecede aos fenícios, e que foi colocado numa terra preparada para ele, isto é, que tomou, conquistou, pela vontade dos deuses, uma região; posteriormente os hebreus viriam fazer o mesmo com invasões às terras palestinas – Gênesis l2 e Êxodo 3, exemplificando linguagem bíblica.
Nestas circunstâncias, identifica-se Adão como Adapa, o herói sumero-babilônico – personagens por demais semelhantes – e, assim sendo, Adão seria a representação do povo sumeriano, que chegou à região da Mesopotâmia, com uma língua incomum aos demais povos da região mas muito próxima ao drávido, na Índia, então seu local étnico; a palavra dravídica Adimá tem o mesmo significado que seus correspondentes sumero-babilônicos e hebraico, sendo um nome genérico regional.
Este povo chegou e conquistou uma região habita por uma tribo, do ramo egípcio, denominada Xex (Exa) que, uma vez conquistada, passou a ser denominada de Heva-Kin (unindo a, devotado, ou mais precisamente, que veio a unir-se – em sânscrito), posteriormente simplificado para Heva – oferenda sacrificial. Diz Gênesis 2: 15 que Deus passou a tomar o homem e a estabelece-lo no Jardim do Éden para que cultivasse e tomasse conta dele.
Com referência ao Éden (campo fértil ou planície, na língua sumer), alguns estudiosos tentam localiza-lo geograficamente na Armênia, entre os rios Tigre e Eufrates, existindo, contudo, opiniões divergentes, em razão das citações dos rios Gion da terra de Cush e Fison em Hevilá, para os quais a Bíblia menciona duas localidades distintas, sendo uma africana e outra asiática – Gênesis 10: 7-8 e 29. A isto, leva-se a crer que a região conquistada fora batizada pelo nome Éden, com certeza em memória referente a um outro lugar, de onde vieram os de Adão, que os sumerianos incorporaram em suas lendas.
Desconsiderando estudos que trazem o Éden apenas como algo espiritual (Paraíso), cabe referências ao local como possessão fenícia, por citação bíblica em Ezequiel 28: l3-l4, seguintes e anteriores, porem sem precisa-lo quanto a localização.
Posto isto, mas especialmente em seu capítulo 28 daquele livro, tem-se o fenício como o criado e colocado no Jardim do Éden, e que de lá foi expulso – perda do Paraíso –, o que vem corroborar lendas fenícias, que tem em seu herói mitológico, Cadmo (Hadamo), também a mesma versão do Adão bíblico.
Assim sendo, Adão – povo fenício –, conquistou ou descobriu alguma terra inexplorada e despovoada, de rara beleza e fertilidade – e eles eram dados a isso, pelas próprias condições de povos conquistadores e exploradores.
Para o povoamento desta nova região, valeram-se do povo (tribo) de Eva, os Xex, que lhes foi dado pelo Egito, em algum acordo ou armistício, procedimentos comuns na época, cabendo observação, como mero exemplo, que os fenício receberam cidades do reino de Israel, face a acordos por serviços prestados.
Historicamente Xex seria esposa do primeiro faraó egípcio Menés, isto é, que o faraó tomou – desposou – uma mulher, para esposa, da tribo Xex que posteriormente, sob autoridade fenícia, veio a habitar as novas terras descobertas (evidentemente, alguns de seus membros ou famílias), gozando de uma certa autonomia.
As palavras bíblicas – Gênesis 2: 2l-22 – tirado da costela, e o sono profundo de Adão, outros significados não têm a não ser: povo coadjutor a outro (tirado da costela), com ganho de relativa autonomia; enquanto que o sono profundo, refere-se a um certo desleixo ou excesso de confiança do povo dominador em relação ao dominado.
Realmente, os domínios cultural, político, social e religioso dos fenícios em relação aos Xex, não foram suficientemente fortes para evitar uma traição ou mudança de posição – de lado –, do povo de Eva, sendo isto que se observa no quadro em que a serpente tenta a mulher, onde os tradutores ou os copistas com certeza enganaram-se utilizando-se da palavra nâhâsch em vez de nâhàsch, a primeira com significado de o que ou aquele que faz encantamentos usando cultos ofilátricos, enquanto a outra palavra traduz-se por serpente.
Os egípcios eram dados aos cultos zoolátricos, em especial às serpentes, assim como se tem notícias de outros povos dados a tais práticas, deduzindo-se, por afinidades, que foram os egípcios os tentadores de Eva, com as consequentes expulsões dos habitantes dominadores daquelas paragens, cujas fronteiras passaram a ser guardadas pelos querubins (hebraico: Keroub ou Cheroub, com significado de boi), ou seja, soldados egípcios que usavam capacetes com cornos (o Egito cultuava, também, o boi e seus soldados em certas épocas assim representados).
Buscando outras terras, os expulsos conquistaram ou aliaram-se aos de Caim (Canit – adquirido); pela Gênesis 4: 17, Caim era sedentário: vâiêhi bônê ou seja, construtor de cidades.
Esta união parece ter ocorrido na região da Mesopotâmia, subjugando povos da região, entre os quais os akadianos; posteriormente, quando os nômades – possivelmente árias – de Abel (Bel – Bal) chegaram à região, como invasores, foram detidos pelas tribos de Caim, originando a lenda Caim matou Abel. O sentimento favorável à Abel, pelos relatos bíblicos, seria dado pelos akadianos que viam os de Abel como seus libertadores ou aliados.
A despeito da variante, colocada posteriormente na Gênesis, de que Caim fugiu da presença de Deus, após o primeiro homicídio, o fato é que, das lógicas miscegenações das tribos de Caim com os remanescentes de Abel, surgiram os de Set (Sat – o que foi dado), cabendo a observação de que para as genealogias bíblicas de Caim e Set, existem nomes em comum. A saída (fuga) de Caim deu-se posteriormente, com a invasão dos assírios na região, restabelecendo-se então, a supremacia de Adão, como aliado forte, sobre as tribos de Eva, Akade e Set.
A dinastia de Adão perdurou até os dias de Noé, ou seja, por novecentos e trinta anos, quando suplantada pelos Setistas. A separação com os akadianos já teria ocorrido tempos antes.
No capítulo 6 da Gênesis, os Setistas, autodenominados ou intitulados de filhos dos deuses, avizinham-se com novos perigos: os gigantes – nação poderosa e expansionista – que já conquistara a Cananéia e vinham em sua direção, assim como as – novamente – fortes tribos de Caim e aliados, denominados de filhas dos homens ou do homem. Os Setistas foram derrotados, pondo-se a salvo a tribo de Noé (ramo de Set).
Lendas antigas sempre colocam, independentemente das origens, alguma figura mítica a salvo, com seus pertences, diante de catástrofes de guerras ou de fenômenos naturais, tanto uma como a outra identificadas como inundações (vagas – chegadas de conquistadores, em larga escala), enquanto os sobreviventes, fugitivos, saem com suas arcas, isto é, com os seus, pondo-se a salvos.
Nos relatos sobre o dilúvio e suas consequências, capítulos de 6 a 9 de Gênesis, percebe-se entrelaçamentos de lendas distintas, com repetições e contradições, avançando-se até o capítulo 11: 9, com literaturas compostas de elementos sumero-babilônicos e akadianos, com alternâncias entre as divindades Elohim e Yavé, sendo que este se faz prevalecer junto ao povo denominado de Tera, com domínio sobre Arã (arameus); sobre Nabor (Naobitas que nos versos 22 do mesmo capítulo, era de Serug, no verso 23 domina Tera e por este é dominado no versículo 26); e a Abrão (hebreus).
O dilúvio bíblico, seguindo a fonte de Gênesis, não tem comprovação científica que, no entanto, admite ocorrência similar na região, por volta de 7500 a.C. e não em 3852 a.C., conforme a Bíblia.
A terra, em seu todo, segundo estudiosos, sofreu não apenas um mas diversos dilúvios, de grandes montas, porém regionalizados, especialmente no período de 15.000 à 9.000 anos atrás; alguns pró-bíblia e atlantólogos, trazem este período até por volta de 3500 a.C., destacando que o homem antigo testemunhou alguns destes acontecimentos, dos quais fez-se registros e a humanidade guardou em suas lembranças, originando-se, então, as lendas dos sobreviventes. As referências bíblicas a respeito, seriam plágios tomados de outras culturas.
Noé (alívio – consolo) é uma figura – personagem – com paralelismos em diferentes culturas e regiões da terra. Onde existiram comunidades, aconteceram as lendas, determinando o pressuposto de que algum povo anterior, em algum lugar, tenha realmente participado de possível acontecimento diluviano.
Porem, muito maior que a participação ou não de Noé num dilúvio, é a descrição bíblica de seus descendentes, identificados com os povos da antiguidade, praticamente todos descritos no capítulo 10 da Gênesis, cabendo destaques para o versículo 21, onde aparece a tribo de Heber, filho de Salá e neto de Arfaxad, que é filho de Sem, o primogênito de Noé.
Foi desta tribo de Heber que surgiu Abrão, depois Abraão, o patriarca do povo israelita (judeu).
Do antigo hebraico, aramaico e hebraico helenizado, tem-se os designativos Ibris, Habiru e Haber, respectivamente, com a corruptela Habaran, com significados de: um povo além do rio.
Como denominativos raciais, Heber e Heberons, tendendo para as corruptelas hebraicas de Hebreus e Abrãos, destacam os descendentes do personagem bíblico Heber.
Seja qual for a origem correta de Hebreu, o mesmo é nominativo de um povo (tribo), cujas origens apontam para as planícies da Mesopotâmia, conhecidos como Semitas de Akádia, sedentário na região, que beneficiaram-se da cultura dos Árias invasores, tribos nômades das estepes asiáticas, de cujo encontro surgiu a já relatada lenda de Caim (akade, o sedentário agricultor) que matou (deteve) o avanço de Abel (Ária, o pastor nômade). Nos relatos bíblicos a simpatia evidente por Abel, dá-se em razão – citação também já exposta –, de que os Semitas Akadianos eram dominados pelos Sumérios, e o mais natural era ou seria a união aos invasores Árias, pela lógica animosidade entre os Semitas e Sumérios.
O ponto de vista acima, opõe-se a alguns estudiosos que identificam Abel com os líbios (Bel, Bal, são nomes líbios que correspondem a Abel): todavia, na essência, não existem tão profundas discrepâncias, pois que as lendas são praticamente idênticas e parecem entrelaçarem-se.
Por volta do ano 2000 a. C., a tribo semítica dos Ibrim, onde Abrão seria nada mais que um nome ou apelido coletivo, deixa a Mesopotâmia durante crise de domínios dos Caldeus, Sumérios e Babilônios, numa migração até às margens do Mar Vermelho e divisas com o Egito, numa região denominada Palestina.
Antes da fixação na Palestina, os hebreus, como nômades pelas regiões, tiveram contatos com outros povos, com influências mútuas, cabendo atenções a uma certa tribo egípcia, Agar (Agarab ou Arab) de cuja mestiçagem surgiram os árabes atuais – Ismaelitas – Gênesis 25: 11 e referências, inclusive as duplicadas), que ganhou independência dos hebreus, quando da ascensão de Isac – filho de Abrão com Sara –, na realidade um chefe tribal.
Fixos na Palestina, os hebreus tiveram uma cisão, separando-se em duas tribos: os Edomitas (Idumeus) descendentes bíblicos de Esaú – Gênesis 36 – que estabeleceram-se nas montanhas de Seir (região sul de Moabe e Mar Morto e, ainda Golfo de Ácaba); e a tribo de Israel, fixada nos limites ao Norte com a Síria e Fenícia, com partes da Síria e deserto Arábico ao leste, ao sul com a Arábia, e ao oeste com o Mar Mediterrâneo, não sem antes, porem, um retorno à Mesopotâmia – Gênesis 27: 46 ao capítulo 32. As fronteiras identificadas, sofriam modificações variáveis, resultantes de conquistas ou perdas territoriais.
Sob o governo de Jacó (depois Israel), uma de suas tribos, José, foi aprisionada / conquistada pelos Árabes (Ismaelitas) e levada cativa ao Egito; pelo texto bíblico, José foi vendido por seus irmãos a uns mercadores Ismaelitas, que o entregou como escravo aos egípcios. A descrição pressupõe uma guerra entre tribos irmãs.
Com o domínio do povo Hicso – de provável origem semita –, José (tribo escravizada) passou a gozar de certas regalias, possivelmente pelos possíveis laços parentescos. Como nação próspera, o Egito sob governo dos hicsos, acolheu os hebreus (do patriarca Jacó), massacrados pelas guerras regionais e fome generalizada na Palestina, passando a viver no Egito com relativa liberdade por quase quinhentos anos.
Expulsos os hicsos, os egípcios voltaram-se contra os hebreus – israelitas – que deixaram o país, retornando à Palestina, numa saga bíblica de quarenta anos, eivada de epopéias, até a tomada e fixação no território.
Em toda historicidade e lendas sobre o povo hebreu, a religiosidade Unicista destaca-se, onde Yavé (YHWH), o tonante Sló guerreiro, ao suplanta definitivamente Elohim, tende para um sistema político Teocrático. Yavé fez-se progressivamente humanizado, com características e atributos aquisicionados e trabalhados para os desejos de uma justiça universal, ou seja, uma idéia expansionista do povo hebreu.
Nestes aspectos, sempre seguindo linha de pensamento de Challaye, a evolução de Yavé dissocia-se das considerações estritamente nacionais para, em aproximadamente 700 a. C., sustentar a justiça divina como superior às práticas de cultos. No século VI a. C. Yavé começa a conclamar, pelos profetas e vasos (pessoas levantadas ou escolhidas por Deus para alguma obra), sua universalidade, o deus da humanidade e não apenas dos hebreus, idéias essas das quais o Cristianismo viria, no futuro, tirar grandes proveitos.
Ainda que distante do judaísmo pós-mosaico, a religiosidade hebréia já distanciava-se de politeísmo da época de Abrão e, após estadia no Egito, onde deixaram de ser imigrantes para tornarem-se minoria perseguida e escravizada, a trajetória dos hebreus afasta-se das lendas para tornar-se história (citação Nações do Mundo/Israel).
As tribos que compunham os hebreus, compreendiam a união como vantagem, tornando-se nação monárquica, avançando fronteiras em nome de Yavé; Israel deixa de ser os hebreus pastores nômades, para uma efetiva fixação territorial, dedicando-se à terra e à guerra.
Gradativamente, após saída do Egito, o povo unificando costumes por Leis – Decálogo –, em rejeição às coisas antigas, retornam à Canaã para lá, então, edificar uma nação santificada. É nesta fase que separam-se as fases pré e pós mosaicas.
A progressividade de Yavé, se faz surpreendente junto ao povo hebreu, nas considerações de que Jacó, quando de sua estadia na Mesopotâmia, vinha carregado de deuses, alguns modificados ao longo da peregrinação. Sente-se que foi na Cananéia, neste retorno, que o culto a Elohim (deuses) passou para Há-Elohim (soberano dos deuses), depois para Há-Adon (Adonai – senhor, deus maior), indo para Há-Elim (criadores ou da natureza, caindo para o singular Há-El – criador).
A efetiva supremacia de Yavé é colocada em Deutoronômio 10: 17, excluindo os deuses menores, absorvendo-lhes os títulos, sendo então o Adonai, Abba (Pai), Eloá (Deus), a exemplos. O livro mencionado é Sacerdotal, escrito entre os séculos IV e II, não havendo registros anteriores ao período.
É deste Yavé, devidamente universalizado, que se serve o cristianismo para suas pregações; Yavé não é mais o deus violento e cheio de contrastes, que incitava o homem às práticas erradas: roubos, adultérios, assassinatos, guerras e penas de morte. Ele torna-se um deus santo porem complacente, preocupado com a moralidade e o bem viver, um deus redentorista e misericordioso que não temeu humanizar-se, através do Cristo.
Clique aqui para entrar: Da Real Existência de Deus